Manuscritos estocados sob a rubrica 'Brasil'
01 de Agosto de 2007

A tristeza de todos os Jecas

Brasil

Este documento contém clipes de áudio que só podem ser ouvidos na página da Bacia na internet.

“Lá no mato tudo é triste”, resume celebremente um verso triste de Tristeza do Jeca, obra do compositor paulista Angelino de Oliveira (1888-1964).

Nesta viola eu canto
e gemo de verdade
Cada quadra
Representa uma saudade

A letra de Tristeza do Jeca é apenas a mais famosa das poesias sertanejas a associar o mato (isto é, a zona rural, o campo – a “roça” em oposição à “cidade”) à tristeza, ao choro e à lamentação. Está longe de ser a única. Antes de resvalar no country e no brega romântico a música sertaneja brasileira era um gemido só - um lamento de rasgar o coração motivado não pela desilusão amorosa, mas, estranhamente, pela leitura direta da tristeza na “paisagem existencial” do sertão.

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07 de Maio de 2007

Como diz o outro

Brasil, Gírias e Falares

O TEXTO QUE DEU ORIGEM À BACIA!

Em 2004, com a conclusão de um projeto no qual trabalháramos dez anos juntos, deixei de conviver diariamente com meu amigo Ivan e experimentei uma severa crise. Percebi que não tinha mais em quem despejar minha dose diária de reflexões infundadas e fragmentos de leituras sacrílegas. Um dia, sem ter com quem dividir determinada percepção que me acometera no ônibus, resolvi colocá-la por escrito junto com a experiência que a inspirara.

A meio caminho da composição do texto lembrei da internet. Quem sabe eu devesse reivindicar a posse de uma ilha no mar global em que pudesse me desvencilhar de todo o conteúdo que me assombrava havia décadas; quem sabe eu pudesse, no caminho, descobrir alguma ligação entre partes de mim que permaneciam até aquele momento desconectadas umas das outras; quem sabe eu pudesse finalmente superar minha egrégia falta de disciplina e escrever algo que tivesse começo, meio e fim. Ai de nós! Acreditei insensatamente nessas promessas e levantei a Bacia.

Por alguma razão, no entanto, o episódio que deu origem à série permaneceu offline por todos esses anos, informe, inconcluso, cheio de pontas soltas. O estilo do Brabo estará talvez todo aí, mas sem muita convicção, tadinho. Está aqui, incipiente, o espírito que me levaria a deitar minha série de confissões sobre a ANA (”o paradoxo está em que somos um dos povos menos proeminentes da história”).

Deixo-o aqui então, para livrar-me dele, incompleto como o deixei, de interesse apenas para os completistas.

 

COMO DIZ O OUTRO (2004)

Apreensões sobre o Brasil, o mundo e acervo étnico

Não era, que eu soubesse, representativa em sentido algum aquela conversa entreouvida no ônibus. Era até mesmo incomum, porque na civilizada cidade em que resido (embora seja no Brasil) três estranhos normalmente não conversam em voz alta dentro de um coletivo sobre seja o que for – e estava claro que os três protagonistas eram isso mesmo, desconhecidos entre si, trocando opiniões com a desajeitada retórica de quem percebe ter uma audiência cativa.

– No meu tempo – dizia o veterano do trio, um baixinho grisalho que aparentava ser mais velho do que os sessenta e poucos anos que em determinado momento afirmou ter, – quando eu cheguei em 76 a essa Curitiba, a coisa não era assim. Tinha emprego pra todo mundo. Eu ganhava por semana, chegava o final de semana e eu recebia 600, 700 reais, réis na época, que a gente gastava e ainda sobrava pra semana seguinte. O sujeito saía de um emprego e já tinha outro esperando ali na esquina. A coisa era diferente, eu pude até construir alguma coisa. Mas agora, do jeito que vão as coisas, nesses últimos vinte anos não deu pra fazer nada.

Olhei de relance para o velho, que numa rápida avaliação profissional não me pareceu o tipo que tivesse construído alguma coisa, mesmo vinte anos atrás.

– Pois já diz o meu avô, ele lutou na Segunda Guerra – retomou depressa o segundo interlocutor, trinta e tantos anos de idade, cabelos pretos engomados, o que falava mais e mais alto dos três – que pra consertar mesmo esse país era só mesmo colocando os militares na rua. Tirar tudo que é deputado e vereador e deixar só os militares e o presidente no governo. Fechar o Palácio, deixar um vereador ou outro e fazer essa gente trabalhar o dia inteiro. Tem vereador aí ganhando oito mil reais pra não fazer nada. Acabar com essa roubalheira, e vê se o país não vai pra frente.

O velhinho concordou de imediato, e o terceiro participante, um jovem prematuramente barrigudo que usava óculos e barba por fazer, evidentemente mais politizado e convicto de não nutrir opiniões tão simplistas, calou e deu um meio sorriso.

– Pois com os bilhões que gastam esses deputados – concluiu o velho, empolgado pela sensatez da sua argumentação – imagine o que não dava pra fazer.

Enquanto eu tentava assuntar o mais desapaixonadamente que podia as eventuais vantagens e riscos de uma rigorosa intervenção militar, o segundo interlocutor, o falador, voltou à carga.

– Trabalha comigo um cara que veio da China. Ele disse que na China, se alguém rouba, o sujeito é algemado em praça pública e leva um tiro na cabeça, e ainda vão cobrar a bala da família.

– Pois aqui deveria ser assim – concordou na mesma hora o velhinho, empolgadamente.

O terceiro, o jovem, claramente incomodado pelo rumo reacionário que a conversa estava tomando, não conseguiu mais ficar quieto.

– É, mas se fosse tão bom lá ele não teria vindo pra cá.

O segundo entendeu e não ousou responder, mas o velhinho tentou impor a sua própria lógica.

– É – disse ele. – Essa gente ouve que aqui é bom, que aqui é primeiro mundo, e vem pra ver como é. Depois vem a decepção.

– Só sei que o Brasil é muito complicado – voltou o segundo. Sem interrupção, para preencher o vácuo, ele lançou a estocada seguinte. – A culpa toda é mesmo dos estrangeiros que vieram aqui colonizar. Vieram, como diz o outro, roubar as nossas terras.

– Pera lá – retrucou o jovem, que a essa altura não estava disposto a deixar passar mais nada. – Você é descendente de europeus. Você não tem como dizer que eles vieram roubar “as nossas terras”. Você não é descendente dos índios.

– Sou descendente de espanhóis – reconheceu o outro. E arrematou, como se explicasse alguma coisa: – Mas se pelo menos tivesse sido um povo só.

A platéia ao redor guardava desinteressado silêncio, entre um solavanco e outro, e quem deu a última palavra foi ele mesmo, o falador.

– Só sei que esse país não tem mais jeito – disse ele. – A gente vai morrer e daqui a cinqüenta anos isso aqui vai estar a mesma coisa.

O jovem e o velho, sem acrescentarem nada à discussão e sem se despedirem, desceram no ponto seguinte. Ficamos só eu, que não havia dito nada, e o falador, que agora desviava os olhos de todos porque não tinha com quem conversar.

Sem deixar de observar impassivelmente a paisagem urbana que passava janela afora (eu, como todos os outros, não havia dado indicação alguma de que tinha estado prestando atenção; estávamos aparentemente acima daquele tipo de coisa), fiquei tentando diagnosticar o que naquele trecho roubado de conversa havia me perturbado ao ponto de não conseguir tirá-lo da cabeça.

Tive de concluir que, extraídos os lugares-comuns, três questões levantadas naquela conferência coletiva haviam colocado meu giroscópio interior para funcionar: a menção de passagem à Segunda Guerra, uma das minhas obsessões mais caras; a questão da diversidade dos povos na formação do país; e as implicações da expressão “como diz o outro”.

Aproveito esse pretexto, então, para expor certas impressões pessoais que me são muito caras e talvez não tenha oportunidade de deixar registradas em outro lugar. Só algumas dizem respeito ao Brasil. Mesmo que eu e você não estejamos no mesmo ônibus, essas impressões talvez sejam de interesse coletivo; mesmo se fazendo de desentendido, você pode querer ouvir.

* * *

Gosto muito, para minha vergonha, do jeitão do brasileiro (digo “jeitão” no esforço de evitar abstrações ainda maiores, abominações como “povo brasileiro”). Não quero defender e não tenho como justificar o nosso desempenho econômico e político, mas não são esses, deixo logo claro, os quesitos que levo em conta na minha avaliação.

Devo admitir, por outro lado, que não há como separar uma coisa da outra: é nosso jeitão como povo que determina em última instância a natureza – peculiar, para dizer pouco – do nosso desempenho econômico e político. Não vou dizer que para se produzir um país verdadeiramente bem-sucedido nas arenas econômica e financeira requer-se um povo tão insuportável quanto o norte-americano – mas, pensando bem, acabei de dizer. Para se gerar um país improvável como o Brasil, um imenso e sublimado Portugal, um gigante marginal, pacato, generoso, reflexivo e submisso, requer-se um povo tão absurdo e tão impagável quanto o nosso.

No desenrolar do enredo étnico, nos anais da destilação dos povos, o brasileiro é talvez o resultado mais prodigioso. Por todos os testemunhos que contam (o meu), o mais inclassificável, mais redundante e subutilizado; ao mesmo tempo o mais e o menos presunçoso de todos.

O paradoxo está em que somos um dos povos menos proeminentes da história. Deixamos, em quinhentos anos, pegada nenhuma que não seja de chuteira. Nenhuma bandeira fincada, nenhum número importante, nenhum nome de destaque, nenhuma causa exageradamente meritória, nenhuma revolução de monta, nem um conflito que mereça lugar nas crônicas do futuro. Mais ou menos como Portugal na periferia da Europa, passamos nossa história sem quaisquer ocorrências especiais, à margem do que acontece no resto mundo – porque, por definição, nada acontece no Brasil. Se acontece, foi fora daqui.

Somos uma nação de voyeurs, um dos povos mais bem informados do mundo, mas residentes no mirante dos fatos alheios, sobrevivendo com injeções regulares de cinema e noticiários estrangeiros. Como o Popular da crônica de Veríssimo, somos o curioso que aparece em segundo plano quando alguém está dando uma entrevista na rua a um repórter de televisão. É sempre “o outro” que opina, não a gente: como diz o outro. Somos meros observadores desinteressados no meio dessa confusão.

Assistimos com perplexidade ao desfile de problemas internacionais, na bem-intencionada tentativa de compreender o que na nossa ótica faz pouco ou nenhum sentido. Pois, aparentemente, nenhum dos conflitos que impulsionam as agendas internacionais nos movem ou nos dizem respeito: o partidarismo, o fanatismo religioso, a ambição territorial, a devoção a idéias, as obsessões éticas. Nenhum desse motores nos motiva ou nos faz seguir adiante. Somos literalmente hours-concours, fora da competição – cem milhões de personagens complexos perdidos num enredo sem conflito, reclinados com enfado e alguma volúpia na proverbial mas apropriada imagem do berço esplêndido. Eternamente.

Sem virtude, mas também sem ambição. Talvez estejamos nos preservando para um momento em que nossos recursos especiais sejam realmente necessários. Como o personagem de Chico Buarque, passamos pela vida nos reservando para ocasião oportuna.

Quem me vê sempre parado, distante,
garante que eu não sei sambar
Tô me guardando prá quando o carnaval chegar
Eu tô só vendo, sabendo, sentindo,
escutando, não posso falar
Tô me guardando prá quando o carnaval chegar
E quem me ofende, humilhando,
pisando, pensando que eu vou aturar
Tô me guardando prá quando o carnaval chegar
E quem me vê apanhando da vida
duvida que eu vá revidar
Tô me guardando prá quando o carnaval chegar.

26 de Março de 2007

AO VIVO: La Domenica del Corriere

Brasil, História

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Antes de ser deposta pela fotografia e finalmente pela televisão, a ilustração reinava absoluta no campo da comunicação visual. Na imprensa e na publicidade cabia à ilustração transmitir todo o drama, o impacto e o movimento que associamos hoje à imagem “ao vivo”.

O Brasil teve revistas notáveis movidas basicamente à ilustração, publicações como a Revista da Globo (quando eu imaginaria ver uma ilustração de Érico Veríssimo?) e o “Magazine Mensal Ilustrado” Eu Sei Tudo. Porém quero hoje recomendar a exposição virtual de uma curiosa publicação italiana, La Domenica del Corriere (1899-1989), encarte dominical do Corriere della Sera (Correio da Tarde) de Milão.

Precisando de um pouco de drama na sua segunda-feira? Você pode começar o dia visitando as seções de animais (que dizer desta hiena roubando um bebê, deste gorila à solta na Bélgica ou deste cachorro salvando uma menina de um atropelamento?) e de acidentes da Domenica – e isso só para começar.

Nos arquivos virtuais da revista encontrei seis capas dedicadas ao Brasile. Selecionei quatro para colocar aqui: pancadaria no futebol, perigo no Rio de Janeiro, monstros marinhos e discos voadores – reminiscências de um tempo em que o Brasil era interessante.

Clique como sempre para ampliar.

A PATADA DO VELHO LEÃO
22 de julho de 1951

“Em São Paulo, Brasil, durante a partida de futebol entre Juventus e Stella Rossa, o ex-campeão europeu de peso-pesado Erminio Spalla, ao ouvir frases de expectadores ofensivas aos italianos, faz voar arquibancada abaixo, ao som de murros, quatro dos insolentes. Detido pela polícia, é solto na mesma tarde.”

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RESGATE SOBRE O ABISMO
Março de 1951

“No teleférico do Pão de Açúcar, sobre o Rio de Janeiro, uma cabine fica presa a 300 metros do chão. Os vinte passageiros são trazidos à segurança em várias levas, através de acrobática manobra, por meio de um bondinho de serviço preso a um cabo secundário.”

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O MONSTRO DO RIO
23 de fevereiro de 1958

“Os pescadores da baía defronte a capital do Brasil viram um estranho e gigantesco monstro de cerca de vinte metros de comprimento, com um pescoço de girafa coroado por uma cabeça de serpente. A existência do monstro é colocada em dúvida por outros pescadores, que sustentam tratar-se de uma alucinação. Alucinação ou não, o fato é que muitos não ousam enfrentar as águas da baía com medo de um encontro com a fabulosa criatura.”

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RAPTADO PELO DISCO VOADOR
30 de setembro de 1962

“Raimundo Aleluia Mafra, um menino de nove anos, conta que seu pai, Rivalino Mafra, foi raptado por um disco voador em Duas Pontas, junto a Belo Horizonte. ‘O disco – conta o pequeno Raimundo – pousou na frente da nossa casa quando estávamos tomanda a fresca [da tarde] e “sugou” meu pai para dentro dele. Depois desapareceu’. O garoto está sob observação. Vítima de uma alucinação? Certo é que seu pai está realmente desaparecido.”

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REFERÊNCIA:
La Domenica del Corriere
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15 de Fevereiro de 2007

Em câmera lenta

Brasil, Politica, Sociedade

Na sociedade do espetáculo a ética, como tudo mais, é coreografada pela mídia e obedientemente dançada pela sociedade. São os meios de comunicação que selecionam, embalam e entregam em domicílio o que deve propriamente nos chocar, motivar e comover. Num mundo inteiramente esvaziado de absolutos, é apenas pelos olhos seletivos da mídia que sentimo-nos de alguma forma capazes de enxergar o que é certo e errado.

Estou falando, naturalmente, das recentes e espetaculares violências divulgadas pela televisão e do rastro de indignação extra-oficial oficial que se seguiu.

Pode-se dizer que estou indignado com essa indignação – tão ou mais do que com a violência que dizem-me tê-la inspirado.

Pretendo ser bem entendido pelo menos numa coisa: não tenho prazer em ouvir de crianças sendo torturadas e de balas perdidas que encontram seus destinos, seja no Rio de Janeiro ou no Iraque, que é menos violento; não creio, com a mesma intensidade, que a onipresença da violência deva ser de alguma forma maquiada, omitida ou censurada. Dêem-me a vida como ela é – não tenho escolha a não ser encará-la de frente, e prefiro não ter.

O que me incomoda na recente onda de indignação é que ela toma invariavelmente o caminho testado e aprovado da demonização do outro – o caminho que sancionou todos os derramamentos de sangue da história, inclusive aqueles que estamos agora condenando. E não é, sabemos disso, menos que derramamento de sangue o que estamos pedindo. Somos personagens da vigília circular prevista e denunciada por René Girard. O que queremos, o que estamos exigindo, é um bode expiatório no qual possamos afogar espetacularmente o nosso furor. Dêem-nos um rei do crime, um magnífico Al Capone para crucificar; dêem-nos a pena de morte, um maldito cujo sangue nos forneça a indelével impressão de purificação comunitária. Dêem-nos uma punição exemplar, algo que corresponda em riqueza visual à pirotecnia da violência a que fomos submetidos pelas imagens da televisão.

Sou, devo confessar aos que ainda não perceberam, um idealista e um anarquista. Não sou porém idealista o bastante para crer que não há culpados, ou anarquista o bastante para crer que culpados não devam ser punidos. Apenas estou convicto de que há culpados em mais arenas do que gostaríamos de admitir, e violências cuja magnitude simplesmente não comportam os dois ou três palmos da tela azul.

Não é preciso mais do que meia hora para se fazer pelas ruas da cidade um desenho com o sangue e a carne de uma criança viva. Não é preciso mais do que minutos para abrir com o estilete uma garganta, para violentar uma garotinha, derrubar o fósforo aceso sobre um corpo vivo fedendo a gasolina ou apertar um cano fumegante contra uma têmpora.

A maior parte de nós, seres humanos, optaria por só fazer essas coisas em último caso. Preferimos em geral não ter de recorrer à violência. Preferimos que ninguém morra na nossa frente. Preferimos não ter de matar ninguém. Se matar for finalmente necessário, preferimos que não seja doloroso para quem morre.

Nós humanos somos assim. Não ineremente bons, mas inerentemente cheios de melindres e nove horas.

As atrocidades espetaculares com que temos nos ocupado são jogo rápido e produzem resultados brutais, feitos sob medida para a nota de primeira página do jornal. São vistosas em sua abominação, e cabem justinho entre um comercial e outro do noticiário.

A tela é azul.

Essas violências são especialmente convenientes para o nosso consumo porque deixam claro, pelo seu próprio caráter de aberração, que não dizem respeito a gente do nosso convívio e da nossa estirpe. Ficamos chocados com elas e exigimos restituição na exata proporção em que cremos não ter nenhuma culpa no cartório.

A culpa, no entanto, é coisa insidiosa e comum. A violência é rápida, mas o processo de desumanização que a possibilita, que torna a violência concebível e até desejável para quem a pratica, é lento e complexo. É preciso muita coisa para fazer de um homem menos que um homem, mas temos conseguido – e tenho feito obedientemente a minha parte na criação desse admirável mundo novo.

É minha convicção de que somos todos – individualmente, já que coletivamente nada acontece – culpados dessa violência secreta que desconstrói eficientemente a humanidade de crianças, mulheres e homens.

Desconhecemos ou esquecemos o que é passar consistentemente fome, o que é ser barrado consistentemente no shopping, o que é constatar consistentemente que trabalho honesto gera menos sobrevivência do que fornecer entorpecentes mal-feitos a distraídos ricos e classe-medianos. Não sabemos ou esquecemos o que é dormir na rua, o que é ver a mãe apanhando do pai, o que é ter a ordem de despejo no nariz, o cuspe no rosto, o chute no lado. Não sabemos ou esquecemos o que é ver o dia como ameaça, a noite como dia e a lata de cola por companheiro. Essas e outras violências secretas trabalham em perfeita coordenação para desfazer gente em menos do que gente, mas são coisa por demais comum e rasteira para merecer espaço na televisão. Não fazem e nunca farão, portanto, parte da nossa ética. Não têm qualquer relação com a verdadeira violência que estamos lamentando nos e-mails que repassamos.

Era novembro de 2005 e eu estava com meu amigo inglês Julian em Pernambuco, no calçadão da perfumada Campina Grande, tomando suco e maravilhando da chuva e do friozinho que fazia ali tão na beira do sertão nordestino. Anoitecia e adiávamos, comentando sobre a extraordinário abundância de farmácias e garotas bonitas na cidade, a hora de voltar para o Hotel Gandhi. Espalhada pelo calçadão desfilava sem pressa uma procissão sem fim de crianças de rua e catadores de papel: meninos descalços, maltratados, vestidos de pano de chão, pedindo sem stress um centavo, um pedaço de comida, muitos empurrando ou puxando, como mulas, carrinhos de madeira dez vezes maiores do que eles mesmos.

O Julian já tinha visto cena semelhante em outras de nossas capitais, mas ali em Campina Grande, naquela noite e no meio daquelas crianças que o cercavam como a um loiro redentor, o inglês desembuxou.

– Por que vocês não fazem nada a respeito dessas crianças? – perguntou ele ternamente, serenamente, e falava em nome e a respeito das crianças de rua de todo o Brasil.

Nesse momento, senhoras e senhores, o Brabo desfiou um discurso que faria a delícia ou a vergonha de qualquer candidato em qualquer comício. Expliquei com toda a diligência que a solução não era simples, que o problema era congênito, que o governo não fazia nada, que a sociedade se omitia, que a maldição tinha raízes históricas que garantiam a sua perpetuação; falei sobre desvios de recursos, sobre reforma agrária, sobre prostituição infantil, sobre tráfico de drogas e de influências e sobre crime organizado. Falei sobre a história do Rio do Janeiro, sobre evasão rural, sobre nordestinos em São Paulo; expliquei sobre favelas e morros e falanges vermelhas e escadinhas, e quanto mais eu falava mais percebia que estava longe, cada vez mais longe, de responder a pergunta que meu amigo havia feito.

Meu amigo não me pedira estatísticas ou respostas prontas. Ele me perguntava por que eu – por que alguém – não fazia nada para humanizar a vida daquelas crianças e crianças como elas. Eu não soube o que responder. Não tinha o que responder, e finalmente confessei isso a ele.

– Pergunto – ele disse, apontando para um menino de uns seis anos absolutamente loiro, absolutamente lindo e absolutamente miserável que nos observava maravilhado conversando em inglês, como se testemunhasse anjos – por que esse menino poderia ser o meu filho.

A desumanização é uma violência muda que depende da contribuição de todos para funcionar. Basta um de nós virar a casaca para colocar tudo a perder. Eu mesmo tive meus momentos de fraqueza, mas o Julian voltou graças a Deus para sua Londres perfeita e não representa mais risco para a minha consciência. Minha eficiente omissão tem feito com que crianças sejam arrastadas pelas ruas, uma de cada vez, com a mesma inclemência impensável que os bandidos dispensaram a um menino que não conheci e cuja foto apareceu na televisão. Esse trajeto desumanizante é, no entanto, lentíssimo; acontece em câmera lenta demais para caber nos limites do noticiário de televisão. É devagar como um filme francês, e da mesma forma impotente para angariar pontuação no IBOPE. No final, no entanto, haverá um rastro de sangue e um ser humano a menos sobre a terra.

* * *

Deixamos o filho de Julian dormindo na rua e fomos para o quarto do hotel, caindo no sono sob a benção azul da novela Bang-Bang. Na manhã seguinte partimos para Recife.

Leia também:

Big Brother – A vigilância sem trégua do espetáculo
O problema com a virtude

20 de Dezembro de 2006

O Protocolo Mainardi

Brasil, Manuscritos

Pouca gente sabe, mas todos os banheiros públicos do Brasil são interligados, através de uma intrincada rede subterrânea de caríssima e embaraçosa manutenção, ao enorme Complexo de Inteligência da ANA no Planalto Central. Quando todas as linhas 0800 estão saturadas ou se o celular encontra-se ocupado ou fora de área, nossos agentes estão instruídos a recorrer a esse canal direto de comunicação com a nossa Inteligência: qualquer sanitário público do território nacional.

Os banheiros de botecos e postos de beira de estrada estão entre os mais procurados pelos agentes; são essas as unidades que contam com recursos mais sofisticados e valiosos de comunicação e exigem, por essa razão, os maiores esforços de camuflagem. Equipes inteiras da ANA visitam esses lugares públicos sob os mais variados disfarces e contribuem abnegadamente para os esforços de acobertamento – seja riscando recados e diagramas em código na fórmica das portas, mijando altruisticamente no chão ou entupindo as privadas pelo emprego das soluções mais criativas. Esses banheiros-chave da Inteligência são mantidos em estado de permanente imundície para que simplesmente não ocorra a um civil entrar neles por vontade própria; semelhantemente, os poucos contraventores devem sentir-se compelidos a partir de imediato, antes que descubram o acesso às maravilhas da tecnologia embutidas em cada canto do recinto. É um serviço sujo, mas alguém tem de fazer.

Era uma tarde pelante do verão de 2004 quando estacionei meu Corsa 1.0 naquele posto isolado da BR 101. Pedi uma coxinha em voz alta o bastante para vencer a opilência do ventilador e fui servido diretamente no balcão sebento por um sujeito sem camisa que talvez fosse um agente, tendo em vista a barriga esférica de cerveja e o imenso crucificixo que ele mantinha nas costas de modo a não prender nos cabelos do peito. Perguntei onde ficava o banheiro.

Protegi o assento com uma camada tripla de papel higiênico e estava prestes a digitar meu código pessoal de sete dígitos no painel de azulejos à minha direita quando bateram na porta. Eu disse que estava ocupado e o homem lá fora respondeu com a contra-senha correspondente, por isso cancelei a comunicação e no momento seguinte caminhávamos lado a lado, falando em voz baixa no pátio abarrotado de caminhões.

– Quem me mandou foi o Bira – revelou-me meu contato, um caminhoneiro irriquieto e miúdo com sotaque cantado de catarina, que arrastava pelo saibro havaianas brancas ainda menores que os pés que calçavam.

O Bira eu não via pessoalmente fazia anos, mas eu sabia que trabalhava agora na Inteligência. O Bira tinha sido meu aliciador, mentor e treinador nos meus primeiros anos de ANA em Bauru; nossa despedida não tinha sido das mais civilizadas, mas guardávamos o candor de nos desprezarmos lealmente apesar da distância.

– Porque não veio ele mesmo dar o recado? – reclamei.

– Ele veio – confidenciou o outro, parando para juntar distraidamente uma arruela do chão – mas estamos sob vigilância cerrada, você não faz idéia. Os dissidentes, cara. O Bira está nos observando a uma distância segura.

E olhou significativamente para lugar nenhum à sua direita. Não movi um músculo diante da revelação, mas pensei ter visto com o canto do olho algum movimento atrás de uma pilha de pneus.

– Qual é a missão? – perguntei, irritado, voltando a caminhar pelo pátio e esperando que o baixinho me seguisse com as instruções.

– Você sabe muito bem – resmungou ele, adiantando o passo para me acompanhar e passando a arruela de uma mão para a outra – Sua missão é deixar de cumprir as suas missões de forma tão eficaz.

Parei entre um passo e outro, indignado, e encarei o catarina de frente.

– Não faça essa cara – exigiu ele. – Ou você vai me dizer que desconhece o Protocolo Mainardi?

– É evidente que conheço.

– Recite pra mim – pediu ele com falsa delicadeza, e cuspi as palavras em resposta:

– “Consagração é tanto ser odiado quanto ser amado. Para permanecer invisível o Brasil precisa ser mantido na Zona da Mediocridade, a terra de ninguém em que ninguém nos ama nem odeia”.

– Essa, meu caro, é a sua missão. Pare de ser tão competente dentro da nossa organização. Você está destoando, está chamando a atenção, e nenhum dos peixes graúdos gosta de sentir-se ameaçado por um subordinado.

– O que eles esperam que eu faça?

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Este documento faz parte da série

Os Anais da ANA

  1. Os agentes da ANA
  2. A Central de Piadas da ANA
  3. O Protocolo Mainardi
  4. O último show do ABBA