Manuscritos estocados sob a rubrica 'Brasil'
06 de Julho de 2009
Logo que o Principe Regente Nosso Senhor com a sua Real Presença felicitou a grande e abençoada terra do Brazil, e nella estabelecêo o seu Throno, este Paiz deixou de facto de ser Colonia, por cujo motivo, ainda bem não tinha sua Alteza Real chegado ao termo da sua jornada, quando na Cidade da Bahia se apressa a quebrar as cadêas, que prendião o commercio, e a industria dos Brazileiros, abrindo os portos deste vastissimo Continente a todas as Nações amigas, e concedendo aos habitantes do Brazil a franquesa do commercio: e nesta Cidade do Rio de Janeiro, onde fixou sua Côrte, passou não só a crear todos os estabelecimentos públicos, indispensaveis ao decoro e magestade da sua Corôa, mas tambem os necessarios, e uteis para o bem, e prosperidade dos seus Vassallos nesta parte do novo Mundo. Assim, além dos arranjos da sua Real Casa, e Familia, e da erecção de huma Capella tão magnifica, e devota, Sua Alteza Real Creou os Regios Tribunaes do Desembargo do Paço, da Mesa da Consciencia, e Ordens, do Conselho da Fazenda, do Supremo Conselho Militar, e de Justiça; creou mais a Casa da Supplicação do Brazil, a Juncta do Commercio e outras Junctas Administrativas, como a do Arsenal Real do Exercito, da Academia Militar, etc.; creou tambem o Erario Regio, a Relação do Maranhão, novas Comarcas, e novas Villas; fundou o Banco do Brazil; mandou abrir estradas pelo interior do Certão até ao Pará, explorar a navegação dos rios, aldear, e civilizar os Indios barbaros e ferozes; promulgou muitas, e saudaveis leis analogas ao liberal Systema Politico, que adoptara, para favorecer, animar, e dar toda a extensão possivel ao commercio, á agricultura, á industria, ás artes, e ás sciencias; mandou estabelecer fabricas de ferro, de polvora e outras de diversos generos; concedêo a Typographia, creou a Academia Militar, e a Escóla Medico-Cirurgica; promovêo a população, já permittindo aos Estrangeiros estabelecimentos ao Brazil, recebendo com affabilidade os que se distinguem pelos seus conhecimentos uteis em quaesquer das artes liberaes, e mechanicas, sem preferencia de Nação, ou de Religião; e concedendo liberalmente sesmarias aos que se propõem exercer a lavoura; já mandando vir dos Açores por diferentes vezes muitos casaes de Ilheos, aos quais benignamente mandou prestar todos os meios de subsistencia, e além disto terras, gado, intrumentos de agricultura, privilegios, isenções; e não havendo hum só ramo de publica prosperidade, que não sentisse os beneficos efeitos da sollicitude de Sua Alteza Real para engrandecer, e fazer prosperar este Estado, como temos visto na primeira parte destas Memorias, com tudo, o seu Generoso, e Magnanimo Coração não se dava ainda por satisfeito. Aliquid maius, et excelsius a Principle postulatur. Sim, o Principe Regente Nosso Senhor desde muito conhecia, que o Brazil exigia da Sua Real Munificencia, e Grandeza cousa maior, e mais relevante: isto he, que ao Brazil faltava ser de Direito hum Reino, por tal conhecido, e havido entre as Nações.
Memorias para servir a’ historia do Brazil
Escriptas na Corte do Rio de Janeiro no anno de 1821
e offerecidas a S. Magestade Elrei Nosso Senhor
o Senhor D. João VI pelo
Padre Luiz Gonçalves dos Sanctos

15 de Junho de 2009
Diz-se que aqui os padrões morais do clero são grandemente depravados, e é provavelmente verdade. Homens como os sacerdotes católicos, privados de todas as graças positivas da vida social, têm apenas os recursos da ciência e da literatura para combater suas paixões e vícios. Aqui, no entanto, os próprios nomes de literatura e ciência são quase totalmente desconhecidos. O colégio e a biblioteca de Olinda estão em franco declínio. Em todo o estado de Pernambuco, cuja população totaliza 70.000 almas, há um único vendedor de livros. Um jornal razoavelmente bem escrito, do qual não fui capaz de encontrar o primeiro número, foi lançado em março, mas sinto dizer que esse único periódico não tem circulado há dois meses. Ao que parece se editor tornou-se secretário do governo, não tendo mais tempo para supervisionar a imprensa.
29 de setembro de 1821
Maria Graham, Journal of a Voyage to Brazil
Londres, 1824

20 de Abril de 2009
“Cada colônia neste vasto continente”, afirma Abbé Raynal, “tem seus próprios idiomas, mas nenhum desses possui palavras que expressem idéias gerais ou abstratas. Essa pobreza de linguagem, comum a todas as nações da América do Sul, representa prova convincente do diminuto progresso alcançado pela compreensão humana nesses países”.
A History of Brazil, Andrew Grant, M.D.
London, Henrt Colburn, New Bond Street, 1809
31 de Março de 2009

* * *
Bem junto ao paço encontra-se a seu turno a Câmara dos Deputados, uma das raridades mais dignas de se ver nesta original capital imperial.
A tolice rude, a protérvia ignorante com que esses representantes da nação brasileira sustentam seus presumidos direitos e muitas vezes abdicam do essencial, para conquistarem ninharias sem importância; a arrogância ridícula com que se equiparam às nações européias, até em certos sentidos presumem ultrapassá-las mil vezes; os desaforos verdadeiramente bárbaros com que mutuamente se honram em seus discursos, pondo adequado arremate ao carnaval; tudo se ajunta para oferecer uma das mais degradantes cenas da vida pública do Brasil e do espírito coletivo, para o estrangeiro atônito que a princípio se julgava diante duma assembléia dos homens mais notáveis de uma grande nação.
A língua portuguesa já de si possui quantidade considerável de tão enérgicas, características galanterias do rancor e do vexame, mas os senhores deputados em seu zeloso ardor funcional não se contentam com isso, e ainda muitas vezes sublinham as palavras altamente escabrosas com uma mímica demasiado compreensível, indecente, para que nada se perca da sua grosseira produção.

O alemão Carl Seidler, no mesmo Dez anos no Brasil (1835).
Seidler foi evidentemente um dos primeiros agentes da ANA.
NOTAS
30 de Março de 2009
O Brasil é a terra matriz da natureza e do mundo das fadas, terra da fantasia e da insensatez, da anarquia, da especulação, terra de macacos, frades e mulatos, o estado imperial de um arlequim de traje multicor, que com sua vara de condão transforma ouro em papel, pão em pedra, homens em animais, e que, na velha pantomima Juca, o macaco brasileiro, mostra sua ascendência sobre súditos quadrúpedes.
Carl Seidler, Dez anos no Brasil (1835)

O texto integral de Dez anos no Brasil (título original Zehn jahre in Brasilien), saborosa confissão de um mercenário alemão que visitou a terra no início do século XIX e odiou rigorosamente tudo que viu, está disponível na página da série O Brasil visto por estrangeiros da Biblioteca Digital do Senado Brasileiro. O texto está em formato pdf: para ler é preciso ter instalado no seu navegador o Acrobat Reader. A leitura é um pouco truncada, visto que é preciso ler/baixar um capítulo de cada vez. Uma versão mais antiga, mas completa, pode ser subtraída das prateleiras digitais do armazém archive.org. Se você prefere o cheiro de livro antigo e a sensualidade do papel e da impressão, pode fazer como eu e comprar um exemplar usado.
Morda-se de inveja, Diogo Mainardi.

|