Manuscritos estocados sob a rubrica 'Brasil'
09 de Novembro de 2009

Na Amazônia ela era conhecida como “a árvore que chora”, o sangue branco da floresta, e por gerações os índios haviam retalhado o seu tronco, deixando o látex gotejar em folhas, de onde podia ser moldado à mão na forma de vasos e lâminas impermeáveis à chuva. Colombo encontrou índios arauacãs jogando com estranhas bolas que quicavam e voavam. Thomas Jefferson e Benjamin Franklin descobriram que o material era ideal para apagar anotações à lápis. Devido à crença generalizada de que se originava nas Índias Ocidentais, a substância era chamada de India rubber. Na verdade o produto vinha do Brasil, onde o rei de Portugal já havia estabelecido uma ativa indústria que produzia sapatos, capas e bolsas de borracha.
Todos esses produtos, no entanto, tinham uma grande falha. No frio a borracha tornava-se tão quebradiça que rachava como porcelana. No verão uma capa de borracha reduzia-se a um manto viscoso. Então, em 1839, Cada um deles precisava de borracha, e a única fonte era a Amazônia.Charles Goodyear descobriu (inteiramente por acidente) a vulcanização, um processo que torna a borracha resistente aos elementos, transformando-a assim de curiosidade num ingrediente essencial da Era Industrial. Em 1888 John Dunlop inventou os pneus infláveis de borracha para que o seu filho pudesse ganhar uma corrida de triciclo em Belfast. Sete anos mais tarde os irmãos Michelin deixaram a crítica boquiaberta ao introduzirem pneus removíveis no rally Paris-Bordeaux. Na virada do século havia cinqüenta fábricas de automóveis nos Estados Unidos. A Oldsmobile, a mais bem sucedida, vendeu 425 carros só em 1901. Menos de uma década depois os primeiros 15 milhões de Modelos T deslizaram para fora da linha de produção de Henry Ford. Cada um deles precisava de borracha, e a única fonte era a Amazônia.
O repente de riqueza foi hipnotizante. Em Londres e Nova Iorque homens jogavam moedas para decidir se sairiam em busca de ouro no Klondike ou borracha no Brasil. No pico da corrida 5.000 aventureiros chegavam à Amazônia por semana. Em 1909 os negociantes estavam despachando rio abaixo 500 toneladas de borracha a cada dez dias. Em 1910 a borracha representava 40 por cento das exportações brasileiras. Um ano depois a produção atingia o seu pico máximo de 44.296 toneladas. Isso valia, numa estimativa conservadora, mais de 200 milhões de dólares. Em Pittsburgh o magnata do aço Andrew Carnegie lamentava: “eu deveria ter escolhido a borracha”.
Manaus, situada no coração do comércio brasileiro de borracha, transformou-se em poucos anos de um modesto vilarejo à beira do rio numa próspera cidade cuja opulência atingia níveis bizarros.Os barões da borracha acendiam charutos com notas de 100 dólares. Os barões da borracha acendiam charutos com notas de 100 dólares e saciavam a sede dos seus cavalos em baldes de prata cheios de champagne francesa gelada. Suas esposas, desdenhosas das águas barrentas do Amazonas, mandavam seus linhos a Portugal para serem lavados. Prostitutas de Tangiers e de São Petesburgo chegavam a ganhar 8.000 dólares por uma noite de trabalho, tarifas que eram freqüentemente pagas em tiaras e jóias; em 1907 os cidadãos de Manaus eram os maiores consumidores per capita de diamantes do mundo.
Ao longo do território do Amazonas o comércio da borracha desencadeou um reino de terror a que não se via igual desde a consquista espanhola. No fim o que salvou a população nativa foi um ato da política imperial britânica. Em 1877 sementes de borracha trazidas pelos ingleses das florestas do Brasil chegaram à Malaia, uma terra tropical de clima similar à Amazônia, mas intocada pela praga da folha. Aqui não era necessário que as árvores crescessem tão separadas umas das outras; plantações densas e eficientes eram possíveis. Em 1909 mais de 40 milhões de pés de seringueira haviam sido plantados na Malaia (hoje em dia parte da Malásia), em intervalos de apenas seis metros, em fileiras regulares que permitiam que um único trabalhador sulcasse 400 árvores por dia. A produção dobrava a cada doze meses.
Com o sucesso das plantações, o boom da borracha da Amazônia implodiu. Em 1910 o Brasil produzia cerca de metade do consumo mundial; em 1918 a cifra caía para 20 por cento. Em 1940 o Brasil era responsável por apenas 1.3 por cento da produção mundial de borracha, e a nação havia se tornado importadora inveterada do produto que havia dado ao mundo.
Wade Davis, Shadows In The Sun (1998)

06 de Julho de 2009
Logo que o Principe Regente Nosso Senhor com a sua Real Presença felicitou a grande e abençoada terra do Brazil, e nella estabelecêo o seu Throno, este Paiz deixou de facto de ser Colonia, por cujo motivo, ainda bem não tinha sua Alteza Real chegado ao termo da sua jornada, quando na Cidade da Bahia se apressa a quebrar as cadêas, que prendião o commercio, e a industria dos Brazileiros, abrindo os portos deste vastissimo Continente a todas as Nações amigas, e concedendo aos habitantes do Brazil a franquesa do commercio: e nesta Cidade do Rio de Janeiro, onde fixou sua Côrte, passou não só a crear todos os estabelecimentos públicos, indispensaveis ao decoro e magestade da sua Corôa, mas tambem os necessarios, e uteis para o bem, e prosperidade dos seus Vassallos nesta parte do novo Mundo. Assim, além dos arranjos da sua Real Casa, e Familia, e da erecção de huma Capella tão magnifica, e devota, Sua Alteza Real Creou os Regios Tribunaes do Desembargo do Paço, da Mesa da Consciencia, e Ordens, do Conselho da Fazenda, do Supremo Conselho Militar, e de Justiça; creou mais a Casa da Supplicação do Brazil, a Juncta do Commercio e outras Junctas Administrativas, como a do Arsenal Real do Exercito, da Academia Militar, etc.; creou tambem o Erario Regio, a Relação do Maranhão, novas Comarcas, e novas Villas; fundou o Banco do Brazil; mandou abrir estradas pelo interior do Certão até ao Pará, explorar a navegação dos rios, aldear, e civilizar os Indios barbaros e ferozes; promulgou muitas, e saudaveis leis analogas ao liberal Systema Politico, que adoptara, para favorecer, animar, e dar toda a extensão possivel ao commercio, á agricultura, á industria, ás artes, e ás sciencias; mandou estabelecer fabricas de ferro, de polvora e outras de diversos generos; concedêo a Typographia, creou a Academia Militar, e a Escóla Medico-Cirurgica; promovêo a população, já permittindo aos Estrangeiros estabelecimentos ao Brazil, recebendo com affabilidade os que se distinguem pelos seus conhecimentos uteis em quaesquer das artes liberaes, e mechanicas, sem preferencia de Nação, ou de Religião; e concedendo liberalmente sesmarias aos que se propõem exercer a lavoura; já mandando vir dos Açores por diferentes vezes muitos casaes de Ilheos, aos quais benignamente mandou prestar todos os meios de subsistencia, e além disto terras, gado, intrumentos de agricultura, privilegios, isenções; e não havendo hum só ramo de publica prosperidade, que não sentisse os beneficos efeitos da sollicitude de Sua Alteza Real para engrandecer, e fazer prosperar este Estado, como temos visto na primeira parte destas Memorias, com tudo, o seu Generoso, e Magnanimo Coração não se dava ainda por satisfeito. Aliquid maius, et excelsius a Principle postulatur. Sim, o Principe Regente Nosso Senhor desde muito conhecia, que o Brazil exigia da Sua Real Munificencia, e Grandeza cousa maior, e mais relevante: isto he, que ao Brazil faltava ser de Direito hum Reino, por tal conhecido, e havido entre as Nações.
Memorias para servir a’ historia do Brazil
Escriptas na Corte do Rio de Janeiro no anno de 1821
e offerecidas a S. Magestade Elrei Nosso Senhor
o Senhor D. João VI pelo
Padre Luiz Gonçalves dos Sanctos

15 de Junho de 2009
Diz-se que aqui os padrões morais do clero são grandemente depravados, e é provavelmente verdade. Homens como os sacerdotes católicos, privados de todas as graças positivas da vida social, têm apenas os recursos da ciência e da literatura para combater suas paixões e vícios. Aqui, no entanto, os próprios nomes de literatura e ciência são quase totalmente desconhecidos. O colégio e a biblioteca de Olinda estão em franco declínio. Em todo o estado de Pernambuco, cuja população totaliza 70.000 almas, há um único vendedor de livros. Um jornal razoavelmente bem escrito, do qual não fui capaz de encontrar o primeiro número, foi lançado em março, mas sinto dizer que esse único periódico não tem circulado há dois meses. Ao que parece se editor tornou-se secretário do governo, não tendo mais tempo para supervisionar a imprensa.
29 de setembro de 1821
Maria Graham, Journal of a Voyage to Brazil
Londres, 1824

20 de Abril de 2009
“Cada colônia neste vasto continente”, afirma Abbé Raynal, “tem seus próprios idiomas, mas nenhum desses possui palavras que expressem idéias gerais ou abstratas. Essa pobreza de linguagem, comum a todas as nações da América do Sul, representa prova convincente do diminuto progresso alcançado pela compreensão humana nesses países”.
A History of Brazil, Andrew Grant, M.D.
London, Henrt Colburn, New Bond Street, 1809
31 de Março de 2009

* * *
Bem junto ao paço encontra-se a seu turno a Câmara dos Deputados, uma das raridades mais dignas de se ver nesta original capital imperial.
A tolice rude, a protérvia ignorante com que esses representantes da nação brasileira sustentam seus presumidos direitos e muitas vezes abdicam do essencial, para conquistarem ninharias sem importância; a arrogância ridícula com que se equiparam às nações européias, até em certos sentidos presumem ultrapassá-las mil vezes; os desaforos verdadeiramente bárbaros com que mutuamente se honram em seus discursos, pondo adequado arremate ao carnaval; tudo se ajunta para oferecer uma das mais degradantes cenas da vida pública do Brasil e do espírito coletivo, para o estrangeiro atônito que a princípio se julgava diante duma assembléia dos homens mais notáveis de uma grande nação.
A língua portuguesa já de si possui quantidade considerável de tão enérgicas, características galanterias do rancor e do vexame, mas os senhores deputados em seu zeloso ardor funcional não se contentam com isso, e ainda muitas vezes sublinham as palavras altamente escabrosas com uma mímica demasiado compreensível, indecente, para que nada se perca da sua grosseira produção.

O alemão Carl Seidler, no mesmo Dez anos no Brasil (1835).
Seidler foi evidentemente um dos primeiros agentes da ANA.
NOTAS
|