Manuscritos estocados sob a rubrica 'Brasil'
30 de Outubro de 2007

O romance do macho solitário

Brasil, Sociedade

A elite de um homem só

TROPA DE ELITE é um filme passavelmente bom e tremendamente ruim; sutilmente verdadeiro e também uma farsa terrível. Não consigo pensar em filme brasileiro mais revolucionário, nem outro mais pelego.

Ser enlatado ou não
Tropa de Elite é permeado por um terrível dilema de consciência - e não se trata dos fantasmas que perseguem o capitão Nascimento ou da controvérsia extra-tela sobre se o filme é de fato fascista (é), se apresenta com justiça as complexidades do tráfico (não) ou faz apologia da tortura (faz).

O dilema do qual Tropa de Elite não consegue escapar é mais constrangedor do que todas essas questões porque é mais irrelevante do que todas elas; ele diz respeito à decisão (ou indecisão) do filme de ser um blockbuster, uma história convencional de polícia e ladrão, um grande filme de ação como os que Hollywood injeta incessantemente nos canais usuais. Um filme de herói.

Como não há precedente, a audiência não sabe exatamente como deve reagir diante de atores de tevê com pistola na mão, ostentando expressões faciais que pertencem por direito a Clint Eastwood e Bruce Willis. Será uma comédia? Uma esquete dos Trapalhões? “O que estou fazendo aqui?” parece se perguntar o ator principal. “Devo mesmo tentar encarnar a sério um herói brasileiro?” “Devo engoli-lo?, parece perguntar-se o espectador.

Fica a dúvida.

Por si só, um filme em que o policial é o herói viola a grande regra não-escrita da produção cinematográfica brasileira contemporânea, gravada a estilete na lente desfocada de Glauber Rocha: um cineasta de verdade não deve rebaixar-se a imitar uma produção hollywoodiana – em especial, não deve cometer jamais um filme com herói incorruptível e final feliz.

Vilões, para Nascimento, são todos os que não tem a felicidade de serem ele mesmo.

Na tentativa de ocultar essa contravenção, Tropa de Elite comete mais erros do que acertos – mas tratam-se de erros reveladores. Para começar, Tropa rejeita por completo a convenção mais usual dos filmes de ação norte-americanos, o fato de serem em geral buddy movies – isto é, o protagonista tem um parceiro que se contrapõe a ele e o completa. Há uma infinidade de razões dramáticas para o sucesso da fórmula da dupla, mas Tropa de Elite não quer saber delas. O capitão Nascimento não apenas não tem um parceiro: ele não tem amigos. Nascimento não tem paz em lugar algum e com ninguém, nem mesmo em casa e com a esposa. Em termos dramáticos, isto quer dizer que o protagonista não tem, em momento algum, onde aliviar a sua tensão ou onde acentuá-la em contraste com uma outra vontade que ele respeite (na cena no consultório psiquiátrico ele deliberadamente, estoicamente, rejeita essa oportunidade). Por outro lado, também quer dizer que o filme não fornece ao espectador qualquer ferramenta que o ajude a identificar-se com o conflito do protagonista. Nossa alienação deve refletir, aparentemente, a do capitão Nascimento.

Talvez pela mesma razão, o filme rechaça outra convenção de Hollywood, a inclusão de um vilão nítido e memorável, um antagonista cuja eliminação possa fornecer uma completa e satisfatória catarse. Baiano, o dono do morro, não é esse cara, nem tampouco o são os burgueses da faculdade ou os policias corruptos da polícia convencional. Tropa de Elite não tem vilões – ou melhor: vilões, para Nascimento, são todos os que não tem a felicidade de serem ele mesmo.

Porém o mais fundamental ingrediente dramático que falta para que o protagonista de Tropa de Elite exista num verdadeiro filme policial é o mais genérico de todos: um dilema de lealdades, um conflito de interesses. Nascimento vive dizendo para si mesmo que precisa de alguém para substituí-lo no BOPE a fim de poder “voltar para a família”, mas em determinado momento da história ele mesmo deixa de sustentar essa balela. Seu conflito de lealdades não é entre a corporação e a família, porque sua lealdade para com a corporação não sofre qualquer risco.

Nascimento é um cara claramente atormentado, que se entope de pílulas como um bom policial de filme noir, mas não pela razão dramática usual, o conflito de lealdades. A raiz de sua piração deve estar em outro lugar.

O discurso da guerra
Para o capitão Nascimento, a relação do policial honesto com o tráfico é, sem rodeios, uma guerra. Esta é sua imagem favorita, e ele volta repetidamente a ela nas suas reflexões em off – e discursos em off Tropa de Elite tem muito, mais do que qualquer outro filme brasileiro ou estrangeiro que me sugira a memória. Nascimento cede constantemente à compulsão de justificar a sua postura, e sua justificativa mais freqüente é precisamente essa que nada explica: “isto aqui é uma guerra”.

Mas sua guerra é mesmo contra quem? Contra a corrupção? Contra a lei que sustenta o tráfico proibindo-o? Contra burgueses superficiais? Contra mortes desnecessárias? Contra um sistema mutilador de crianças? Contra os traficantes? Qual defeito da sociedade ele está querendo eliminar? Quem ele está querendo defender?

Nunca ficamos sabendo, porque a guerra não é aparentemente momento de se oferecer explicações. Devem-nos bastar, supõe-se, verdades soltas como “enquanto o traficante tiver dinheiro para se armar a guerra continua” ou “só rico com consciência social é que não entende que guerra é guerra” ou “o treinamento do BOPE ensina a matar com eficiência e dignidade” ou (sobre essa última afirmação) “acredite, isso é possível”.

Ao Brasil, que nunca teve uma verdadeira mitologia de guerra, Tropa de Elite oferece uma.

Nascimento tortura e mata, portanto, protegido pelo mesmo discurso à prova de balas com que Bush invade o Iraque; sua guerra contra o tráfico, como a guerra contra o terrorismo, é credencial que justifica todas as pontarias.

Ao Brasil, que nunca teve uma verdadeira mitologia de guerra, Tropa de Elite oferece uma, com direito a bandeira do Brasil sobre o caixão do herói tombado na batalha.

Nesse sentido sua vocação secreta é mais para filme de guerra do que para filme policial. Afinal de contas, numa guerra os dois lados fazem simplesmente o que tem que fazer. Nascimento talvez não goste de torturar adolescentes, e Baiano talvez preferisse não ter de assar vivo o alemão da ONG, mas o combate exige esse tipo de distanciamento. Guerra é guerra. Não está em questão qual lado está certo, mas qual dos dois vence.

É especialmente revelador que ao capturar Baiano na seqüência final e antes de puni-lo exemplarmente pela morte de um policial honesto, Nascimento escolha fornecer ao traficante uma única explicação:

– Você perdeu.

Tudo, meu irmão, não passa de um jogo.

O romance do macho solitário
Uma matéria da revista VEJA opinou que o apelo popular de Tropa de Elite deve-se ao fato do filme evitar um clichê do cinema nacional, a romantização do bandido, a glorificação do marginal.

De fato.

Não se iluda, no entanto, porque o filme encontra um alvo para glorificar, um alvo pelo menos tão arbitrário quanto a figura do bandido. Tropa de Elite romantiza, e o faz espetacularmente, o drama do macho solitário – a dura sina do homem “de verdade”, afogado em testosterona, destinado a vagar por um oceano de incompetentes e efeminados sem saber se existe no mundo alguém tão notável quanto ele.

De certa forma, portanto, o apelo de Tropa de Elite está no fato do filme conseguir ocultar, a custo de muita voz grossa e tiroteio, o que de fato é: uma história de amor.

Embora seja protagonizado pelo protótipo do homem com H, Tropa de Elite é essencialmente uma jornada romântica. Eis o seu conflito: Nascimento, o macho e o compenetrado, está à procura de um homem que o entenda e que lhe corresponda, um homem que esteja à sua altura, um homem para chamar de ele mesmo.

Tropa de Elite é uma história de amor.

Nascimento vive dizendo que está buscando apenas um substituto, mas sua linguagem e sua obsessão sugerem mais do que isso. Basta ponderar sobre efusões como “se o Neto tivesse a inteligência do Mathias, minha escolha teria sido fácil” ou, perto do final do filme, “faltava ainda conquistar o coração do Mathias”.

O capitão Nascimento incorpora o paradoxo do macho que é tão macho que não consegue efetivar qualquer ligação importante com mulheres, nem mesmo com sua esposa. Significativamente, os únicos momentos em que o herói usa de alguma ternura para falar com a esposa é ao celular, onde os companheiros de equipe podem ouvi-lo e talvez admirá-lo. Quando está sozinho com ela, a mulher é apenas motivo de irritação. “Pior do que aquela mancada no serviço”, explica ele em determinado momento, “era ter de ouvir a mulher me dizendo o que fazer”. Um macho de verdade, ele deixa logo muito claro, não agüenta esse tipo de desaforo. Afinal de contas, ele pode perder a família desde que tenha tempo para se dedicar à prioridade de encontrar o seu homem.

No final o herói acaba perdendo tudo, mas lhe resta o coração de Mathias. Corta para o final feliz, e Hollywood venceu.

16 de Outubro de 2007

A urgência de uma reforma no vestuário oficial da República

Brasil, Sociedade

O que os nativos brasileiros sabiam e os portugueses ignoravam? Que é simultânea insensatez e imoralidade usar gravata, paletó, meia preta e sapato fechado numa terra tropical como esta de Santa Cruz. Muitas vezes mais pertinente do que uma reforma ortográfica seria uma reforma no guarda-roupa oficial do país.

A crise é de graves proporções. O rei de Sião andava descalço no seu palácio, os líderes africanos caminham pelo saguão das Nações Unidas em arejadas roupas coloridas, e aqui, no Brasil dos índios, o rei não está nu.

Tudo bem, não exijo a nudez diplomática compulsória, pelo menos não ainda – me dê cinco minutos – mas devo insistir no saneamento mais básico:

1. Todos os cidadãos que recebem dinheiro público, de escriturários a presidentes da república, deverão andar descalços em seus ambientes de trabalho.

1.1 Pessoas com necessidades especiais (tipo bombeiros, policiais e capitães do BOPE) poderão usar alpercatas de couro cru, havaianas ou – em casos extremos e com porte de arma – tênis.

2. Gravatas, sapatos fechados e colarinhos fechados de qualquer natureza são símbolos decadentes do imperialismo e relíquias dos regimes monárquicos antidemocráticos; serão banidos sob multa de extradição.

2.1 Paletós serão permitidos, desde que usados sobre camisetas ou camisas de colarinho aberto.

3. Para homens, calções e bermudas terão preferência sobre calças, e camisetas sobre camisas.

4. Para mulheres, saias, vestidos e calções terão preferência sobre calças.

5. Para todos, tecidos crus terão preferência sobre tecidos tingidos, tecidos naturais terão preferência sobre tecidos sintéticos e tecidos estampados terão preferência sobre tecidos lisos.

6. Toda nudez não é obrigatória, mas nenhuma será castigada.

7. Revogam-se as disposições em contrário.

Photo by mr oji

01 de Agosto de 2007

A tristeza de todos os Jecas

Brasil

Este documento contém clipes de áudio que só podem ser ouvidos na página da Bacia na internet.

“Lá no mato tudo é triste”, resume celebremente um verso triste de Tristeza do Jeca, obra do compositor paulista Angelino de Oliveira (1888-1964).

Nesta viola eu canto
e gemo de verdade
Cada quadra
Representa uma saudade

A letra de Tristeza do Jeca é apenas a mais famosa das poesias sertanejas a associar o mato (isto é, a zona rural, o campo – a “roça” em oposição à “cidade”) à tristeza, ao choro e à lamentação. Está longe de ser a única. Antes de resvalar no country e no brega romântico a música sertaneja brasileira era um gemido só - um lamento de rasgar o coração motivado não pela desilusão amorosa, mas, estranhamente, pela leitura direta da tristeza na “paisagem existencial” do sertão.

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07 de Maio de 2007

Como diz o outro

Brasil, Gírias e Falares

O TEXTO QUE DEU ORIGEM À BACIA!

Em 2004, com a conclusão de um projeto no qual trabalháramos dez anos juntos, deixei de conviver diariamente com meu amigo Ivan e experimentei uma severa crise. Percebi que não tinha mais em quem despejar minha dose diária de reflexões infundadas e fragmentos de leituras sacrílegas. Um dia, sem ter com quem dividir determinada percepção que me acometera no ônibus, resolvi colocá-la por escrito junto com a experiência que a inspirara.

A meio caminho da composição do texto lembrei da internet. Quem sabe eu devesse reivindicar a posse de uma ilha no mar global em que pudesse me desvencilhar de todo o conteúdo que me assombrava havia décadas; quem sabe eu pudesse, no caminho, descobrir alguma ligação entre partes de mim que permaneciam até aquele momento desconectadas umas das outras; quem sabe eu pudesse finalmente superar minha egrégia falta de disciplina e escrever algo que tivesse começo, meio e fim. Ai de nós! Acreditei insensatamente nessas promessas e levantei a Bacia.

Por alguma razão, no entanto, o episódio que deu origem à série permaneceu offline por todos esses anos, informe, inconcluso, cheio de pontas soltas. O estilo do Brabo estará talvez todo aí, mas sem muita convicção, tadinho. Está aqui, incipiente, o espírito que me levaria a deitar minha série de confissões sobre a ANA (”o paradoxo está em que somos um dos povos menos proeminentes da história”).

Deixo-o aqui então, para livrar-me dele, incompleto como o deixei, de interesse apenas para os completistas.

 

COMO DIZ O OUTRO (2004)

Apreensões sobre o Brasil, o mundo e acervo étnico

Não era, que eu soubesse, representativa em sentido algum aquela conversa entreouvida no ônibus. Era até mesmo incomum, porque na civilizada cidade em que resido (embora seja no Brasil) três estranhos normalmente não conversam em voz alta dentro de um coletivo sobre seja o que for – e estava claro que os três protagonistas eram isso mesmo, desconhecidos entre si, trocando opiniões com a desajeitada retórica de quem percebe ter uma audiência cativa.

– No meu tempo – dizia o veterano do trio, um baixinho grisalho que aparentava ser mais velho do que os sessenta e poucos anos que em determinado momento afirmou ter, – quando eu cheguei em 76 a essa Curitiba, a coisa não era assim. Tinha emprego pra todo mundo. Eu ganhava por semana, chegava o final de semana e eu recebia 600, 700 reais, réis na época, que a gente gastava e ainda sobrava pra semana seguinte. O sujeito saía de um emprego e já tinha outro esperando ali na esquina. A coisa era diferente, eu pude até construir alguma coisa. Mas agora, do jeito que vão as coisas, nesses últimos vinte anos não deu pra fazer nada.

Olhei de relance para o velho, que numa rápida avaliação profissional não me pareceu o tipo que tivesse construído alguma coisa, mesmo vinte anos atrás.

– Pois já diz o meu avô, ele lutou na Segunda Guerra – retomou depressa o segundo interlocutor, trinta e tantos anos de idade, cabelos pretos engomados, o que falava mais e mais alto dos três – que pra consertar mesmo esse país era só mesmo colocando os militares na rua. Tirar tudo que é deputado e vereador e deixar só os militares e o presidente no governo. Fechar o Palácio, deixar um vereador ou outro e fazer essa gente trabalhar o dia inteiro. Tem vereador aí ganhando oito mil reais pra não fazer nada. Acabar com essa roubalheira, e vê se o país não vai pra frente.

O velhinho concordou de imediato, e o terceiro participante, um jovem prematuramente barrigudo que usava óculos e barba por fazer, evidentemente mais politizado e convicto de não nutrir opiniões tão simplistas, calou e deu um meio sorriso.

– Pois com os bilhões que gastam esses deputados – concluiu o velho, empolgado pela sensatez da sua argumentação – imagine o que não dava pra fazer.

Enquanto eu tentava assuntar o mais desapaixonadamente que podia as eventuais vantagens e riscos de uma rigorosa intervenção militar, o segundo interlocutor, o falador, voltou à carga.

– Trabalha comigo um cara que veio da China. Ele disse que na China, se alguém rouba, o sujeito é algemado em praça pública e leva um tiro na cabeça, e ainda vão cobrar a bala da família.

– Pois aqui deveria ser assim – concordou na mesma hora o velhinho, empolgadamente.

O terceiro, o jovem, claramente incomodado pelo rumo reacionário que a conversa estava tomando, não conseguiu mais ficar quieto.

– É, mas se fosse tão bom lá ele não teria vindo pra cá.

O segundo entendeu e não ousou responder, mas o velhinho tentou impor a sua própria lógica.

– É – disse ele. – Essa gente ouve que aqui é bom, que aqui é primeiro mundo, e vem pra ver como é. Depois vem a decepção.

– Só sei que o Brasil é muito complicado – voltou o segundo. Sem interrupção, para preencher o vácuo, ele lançou a estocada seguinte. – A culpa toda é mesmo dos estrangeiros que vieram aqui colonizar. Vieram, como diz o outro, roubar as nossas terras.

– Pera lá – retrucou o jovem, que a essa altura não estava disposto a deixar passar mais nada. – Você é descendente de europeus. Você não tem como dizer que eles vieram roubar “as nossas terras”. Você não é descendente dos índios.

– Sou descendente de espanhóis – reconheceu o outro. E arrematou, como se explicasse alguma coisa: – Mas se pelo menos tivesse sido um povo só.

A platéia ao redor guardava desinteressado silêncio, entre um solavanco e outro, e quem deu a última palavra foi ele mesmo, o falador.

– Só sei que esse país não tem mais jeito – disse ele. – A gente vai morrer e daqui a cinqüenta anos isso aqui vai estar a mesma coisa.

O jovem e o velho, sem acrescentarem nada à discussão e sem se despedirem, desceram no ponto seguinte. Ficamos só eu, que não havia dito nada, e o falador, que agora desviava os olhos de todos porque não tinha com quem conversar.

Sem deixar de observar impassivelmente a paisagem urbana que passava janela afora (eu, como todos os outros, não havia dado indicação alguma de que tinha estado prestando atenção; estávamos aparentemente acima daquele tipo de coisa), fiquei tentando diagnosticar o que naquele trecho roubado de conversa havia me perturbado ao ponto de não conseguir tirá-lo da cabeça.

Tive de concluir que, extraídos os lugares-comuns, três questões levantadas naquela conferência coletiva haviam colocado meu giroscópio interior para funcionar: a menção de passagem à Segunda Guerra, uma das minhas obsessões mais caras; a questão da diversidade dos povos na formação do país; e as implicações da expressão “como diz o outro”.

Aproveito esse pretexto, então, para expor certas impressões pessoais que me são muito caras e talvez não tenha oportunidade de deixar registradas em outro lugar. Só algumas dizem respeito ao Brasil. Mesmo que eu e você não estejamos no mesmo ônibus, essas impressões talvez sejam de interesse coletivo; mesmo se fazendo de desentendido, você pode querer ouvir.

* * *

Gosto muito, para minha vergonha, do jeitão do brasileiro (digo “jeitão” no esforço de evitar abstrações ainda maiores, abominações como “povo brasileiro”). Não quero defender e não tenho como justificar o nosso desempenho econômico e político, mas não são esses, deixo logo claro, os quesitos que levo em conta na minha avaliação.

Devo admitir, por outro lado, que não há como separar uma coisa da outra: é nosso jeitão como povo que determina em última instância a natureza – peculiar, para dizer pouco – do nosso desempenho econômico e político. Não vou dizer que para se produzir um país verdadeiramente bem-sucedido nas arenas econômica e financeira requer-se um povo tão insuportável quanto o norte-americano – mas, pensando bem, acabei de dizer. Para se gerar um país improvável como o Brasil, um imenso e sublimado Portugal, um gigante marginal, pacato, generoso, reflexivo e submisso, requer-se um povo tão absurdo e tão impagável quanto o nosso.

No desenrolar do enredo étnico, nos anais da destilação dos povos, o brasileiro é talvez o resultado mais prodigioso. Por todos os testemunhos que contam (o meu), o mais inclassificável, mais redundante e subutilizado; ao mesmo tempo o mais e o menos presunçoso de todos.

O paradoxo está em que somos um dos povos menos proeminentes da história. Deixamos, em quinhentos anos, pegada nenhuma que não seja de chuteira. Nenhuma bandeira fincada, nenhum número importante, nenhum nome de destaque, nenhuma causa exageradamente meritória, nenhuma revolução de monta, nem um conflito que mereça lugar nas crônicas do futuro. Mais ou menos como Portugal na periferia da Europa, passamos nossa história sem quaisquer ocorrências especiais, à margem do que acontece no resto mundo – porque, por definição, nada acontece no Brasil. Se acontece, foi fora daqui.

Somos uma nação de voyeurs, um dos povos mais bem informados do mundo, mas residentes no mirante dos fatos alheios, sobrevivendo com injeções regulares de cinema e noticiários estrangeiros. Como o Popular da crônica de Veríssimo, somos o curioso que aparece em segundo plano quando alguém está dando uma entrevista na rua a um repórter de televisão. É sempre “o outro” que opina, não a gente: como diz o outro. Somos meros observadores desinteressados no meio dessa confusão.

Assistimos com perplexidade ao desfile de problemas internacionais, na bem-intencionada tentativa de compreender o que na nossa ótica faz pouco ou nenhum sentido. Pois, aparentemente, nenhum dos conflitos que impulsionam as agendas internacionais nos movem ou nos dizem respeito: o partidarismo, o fanatismo religioso, a ambição territorial, a devoção a idéias, as obsessões éticas. Nenhum desse motores nos motiva ou nos faz seguir adiante. Somos literalmente hours-concours, fora da competição – cem milhões de personagens complexos perdidos num enredo sem conflito, reclinados com enfado e alguma volúpia na proverbial mas apropriada imagem do berço esplêndido. Eternamente.

Sem virtude, mas também sem ambição. Talvez estejamos nos preservando para um momento em que nossos recursos especiais sejam realmente necessários. Como o personagem de Chico Buarque, passamos pela vida nos reservando para ocasião oportuna.

Quem me vê sempre parado, distante,
garante que eu não sei sambar
Tô me guardando prá quando o carnaval chegar
Eu tô só vendo, sabendo, sentindo,
escutando, não posso falar
Tô me guardando prá quando o carnaval chegar
E quem me ofende, humilhando,
pisando, pensando que eu vou aturar
Tô me guardando prá quando o carnaval chegar
E quem me vê apanhando da vida
duvida que eu vá revidar
Tô me guardando prá quando o carnaval chegar.

26 de Março de 2007

AO VIVO: La Domenica del Corriere

Brasil, História

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Antes de ser deposta pela fotografia e finalmente pela televisão, a ilustração reinava absoluta no campo da comunicação visual. Na imprensa e na publicidade cabia à ilustração transmitir todo o drama, o impacto e o movimento que associamos hoje à imagem “ao vivo”.

O Brasil teve revistas notáveis movidas basicamente à ilustração, publicações como a Revista da Globo (quando eu imaginaria ver uma ilustração de Érico Veríssimo?) e o “Magazine Mensal Ilustrado” Eu Sei Tudo. Porém quero hoje recomendar a exposição virtual de uma curiosa publicação italiana, La Domenica del Corriere (1899-1989), encarte dominical do Corriere della Sera (Correio da Tarde) de Milão.

Precisando de um pouco de drama na sua segunda-feira? Você pode começar o dia visitando as seções de animais (que dizer desta hiena roubando um bebê, deste gorila à solta na Bélgica ou deste cachorro salvando uma menina de um atropelamento?) e de acidentes da Domenica – e isso só para começar.

Nos arquivos virtuais da revista encontrei seis capas dedicadas ao Brasile. Selecionei quatro para colocar aqui: pancadaria no futebol, perigo no Rio de Janeiro, monstros marinhos e discos voadores – reminiscências de um tempo em que o Brasil era interessante.

Clique como sempre para ampliar.

A PATADA DO VELHO LEÃO
22 de julho de 1951

“Em São Paulo, Brasil, durante a partida de futebol entre Juventus e Stella Rossa, o ex-campeão europeu de peso-pesado Erminio Spalla, ao ouvir frases de expectadores ofensivas aos italianos, faz voar arquibancada abaixo, ao som de murros, quatro dos insolentes. Detido pela polícia, é solto na mesma tarde.”

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RESGATE SOBRE O ABISMO
Março de 1951

“No teleférico do Pão de Açúcar, sobre o Rio de Janeiro, uma cabine fica presa a 300 metros do chão. Os vinte passageiros são trazidos à segurança em várias levas, através de acrobática manobra, por meio de um bondinho de serviço preso a um cabo secundário.”

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O MONSTRO DO RIO
23 de fevereiro de 1958

“Os pescadores da baía defronte a capital do Brasil viram um estranho e gigantesco monstro de cerca de vinte metros de comprimento, com um pescoço de girafa coroado por uma cabeça de serpente. A existência do monstro é colocada em dúvida por outros pescadores, que sustentam tratar-se de uma alucinação. Alucinação ou não, o fato é que muitos não ousam enfrentar as águas da baía com medo de um encontro com a fabulosa criatura.”

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RAPTADO PELO DISCO VOADOR
30 de setembro de 1962

“Raimundo Aleluia Mafra, um menino de nove anos, conta que seu pai, Rivalino Mafra, foi raptado por um disco voador em Duas Pontas, junto a Belo Horizonte. ‘O disco – conta o pequeno Raimundo – pousou na frente da nossa casa quando estávamos tomanda a fresca [da tarde] e “sugou” meu pai para dentro dele. Depois desapareceu’. O garoto está sob observação. Vítima de uma alucinação? Certo é que seu pai está realmente desaparecido.”

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REFERÊNCIA:
La Domenica del Corriere
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