Manuscritos estocados sob a rubrica 'Sonhos'
12 de Julho de 2005

Falsos detetores de mentiras e A Cidade dos Mentirosos

Homens e Mulheres, Quase Ciência, Sonhos

Li há duas semanas na Scientific American um artigo sobre a base evolucionária e científica da mentira (“Por que nós mentimos?”, pergunta o autor em determinado momento. “Porque funciona”, ele argumenta).

Os homens mentem tanto quanto as mulheres. Mas há uma diferença.

Dentre as pesquisas sobre o assunto realizadas recentemente, vale mencionar aquela que revelou uma surpresa: quantitativamente, os homens mentem tanto quanto as mulheres. Porém há uma diferença. Em geral os homens mentem para vender uma imagem mais positiva de si mesmos, enquanto as mulheres mentem para que a pessoa com quem estão falando sinta-se mais à vontade.

Outra pesquisa levantou um dado importante, ao mesmo tempo previsível e paradoxal: todos, homens e mulheres, tendem a falar mais a verdade quando estão presos a falsos detetores de mentiras – desde que, é claro, acreditem nos pesquisadores quando eles mentem dizendo que o falso detetor de mentiras usado na pesquisa é verdadeiro. Esse, lembrei, é um velho e intrigante método usado em interrogatórios: usar uma mentira para extrair uma verdade. A casa está cercada, o seu cúmplice já confessou, et cetera.


Na noite do dia em que li esse artigo sonhei que estava num ônibus de excursão numa cidade que parecia Curitiba, exatamente naquele laço de rua que circunda a Boca Maldita. Por alguma razão, comecei a conversar pela janela com as pessoas que passavam pela rua, enquanto o ônibus avançava devagar no trânsito. A todas fiz a mesma pergunta: “Por favor, que cidade é esta?”.

Cada pessoa, mesmo estando a menos de dois passos da outra, deu uma resposta diferente. “Francisco Beltrão”, disse um velho de chapéu. “Pato Branco”, disse uma mulher gorda com uma pele de raposa ao redor do pescoço. “Londres”, disse, impossivelmente, outro sujeito. E assim por diante. E, mesmo dentro da geografia impossível dos sonhos, eu sabia que estavam todos mentindo.

Cada pessoa a que fiz a pergunta deu uma resposta diferente.

O artigo da Scientific American lembra que a mentira é algo comum na criação: flores que lembram borboletas, lagartas que imitam frutas venenosas, pássaros e peixes que inflam o peito para parecerem maiores do que são ou, como encontrei outro dia numa das minhas caminhadas, um graveto que apenas a inspeção mais cuidadosa revelará ser um inseto.

A diferença no caso dos seres humanos (talvez também no de outros primatas) é que, além de sabermos que estamos mentindo, aprendemos a criar mentiras que se adaptem convenientemente a cada situação: maquiagens, implantes, ombreiras, ajustes contábeis e relatórios trimestrais.

Nosso problema é que nos tornamos, nós mesmos, sofisticados detetores de mentiras: analisando sinais muito sutis de linguagem do corpo, sabemos dizer de forma intuitiva, e com elevado grau de acerto, se a outra pessoa está mentindo. A teoria do artigo é que nossa capacidade de diagnosticar mentiras nos outros tornou-se um problema para nós porque, sabendo o quanto a mentira é fácil de detetar, ficamos muito nervosos no momento em que vamos nós mesmos mentir deliberadamente. Nosso nervosismo nos denuncia, e perdemos as vantagens técnicas que a mentira poderia nos oferecer.

Para contornar esse problema, nosso cérebro, muito matreiro, encontrou um atalho sofisticado: aprendemos a acreditar nas nossas mentiras, de modo a que quando formos dizê-las aos outros elas pareçam mais convincentes. O processo é inteiramente inconsciente, mas tornou-nos mentirosos tão sofisticados que acabamos contornando nossos próprios mecanismos de detecção.

Aprendemos a acreditar nas nossas mentiras.

Os mentirosos mais eficazes são os que mentem para si mesmos.

05 de Dezembro de 2004

Na cidade antiga

Sonhos

Curitiba, mas uma Curitiba de sonho. O sol havia acabado de se pôr mas havia muita luz amarela na tarde gelada. Eu andava, talvez a esmo, por entre uma multidão que saía (de algum grandioso e não visto edifício) do que poderia ter sido um concerto ou um casamento, todos muito finamente vestidos e encasacados, caminhando em direção a seus carros ou esperando que seus carros viessem buscá-los. Não sei dizer ao certo quem, mas eu sabia que havia familiares meus por ali e depois de uma tarde de aventuras (eu não havia assistido o concerto) esperava ganhar uma carona para casa.

Enquanto procurava um rosto conhecido na multidão deparei-me, bem no meio da rua, com meu [falecido] tio-avô Reynaldo Purim. Ele estava em pé, sozinho e vagamente confuso entre as pessoas que passavam, vestindo um pesado casaco de lã que descia até abaixo dos joelhos, exatamente como me lembro dele: velhinho mas encorpado e posudo, os cabelos finos e muito brancos, o rosto avermelhado, a língua tentando formar alguma palavra que custava muito a cristalizar: quando a frase estava pronta para sair o interlocutor já havia perdido a paciência de se interessar pelo que ele tinha a dizer, ou a ocasião havia irremediavelmente se perdido. Foi o que aconteceu nessa ocasião: quando perguntei ao tio quem ia levá-lo para casa e antes que ele encontrasse as palavras para responder minha prima Vanelli apareceu de trás dele e tomou-o pelo braço, sorrindo para mim como que em resposta: eu não precisava me preocupar porque já tudo estava arranjado.

Quando a Vanelli afastou-se levando o tio levantei os olhos e vi, a uns vinte metros de onde eu estava, meu pai sentado dentro do carro (estacionado) dele, esperando atrás do volante como ele sempre faz. Pensei em chamar a sua atenção e pedir uma carona, mas por alguma razão tive por certo que o carro estaria cheio e resolvi voltar sozinho pelo meio da cidade. O prospecto na verdade não me parecia nada ruim; acho bem provável que eu estivesse escolhendo a travessia à pé pela cidade antiga.

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