Manuscritos estocados sob a rubrica 'Sonhos'
23 de Dezembro de 2006

Parábola

Sonhos

Eu estava no corredor de uma escola ao lado de um menino de pouco mais de dez anos que não tinha qualquer interesse em conversar comigo. Eu havia sido chamado por um professor (que permanecia à distância) para tentar decifrar uma dissertação daquele menino, um texto que consistia num único e compacto parágrafo inteiramente lúcido e coerente mas incompreensível em sua esmagadora originalidade e independência intelectual. Deixei o texto de lado e tentei sondar o garoto.

Sem descruzar os braços e rebaixando-se a procurar um modo de ilustrar o que parecia saber-me inteiramente capaz de apreender, o menino disse:

– Imagine uma nevasca. Uma nevasca que reduza tudo e todos à imobilidade.

Imaginei. Ele prosseguiu fazendo uma longa pausa entre uma pausa e outra, como se falasse com uma criança.

– Em condições assim, pode acontecer de em meio à humanidade surgir, sem ser percebido, um útero. Dentro deste útero pode chegar a desenvolver-se, em silêncio e quietude, uma nova humanidade. Mantidas as condições de anonimidade e sossego, essa nova humanidade pode chegar a nascer.

Depois de acordar pensei em Jesus e em Nietzsche, mas no sonho não me ocorreu nada além de concordar.

– Pois – reclamou o menino, profundamente ofendido – comecei a escrever um texto narrando como poderia ser esse processo, e meus professores recusaram-se a avaliá-lo positivamente. “Onde está o conflito?” eles perguntaram. “Onde está o desenvolvimento dos personagens?”. Eles alegaram, entenda, que naquela história nada acontecia, quando era justamente esse o meu ponto.

Na noite de ontem para hoje.

16 de Novembro de 2006

Tudo na mesma noite

Sonhos

Estava com alguns amigos (não me lembro quais) numa cidade não muito grande, talvez em Santa Catarina. Entramos animadamente, eu por último, num prédio baixo junto da praça central; não recordo se o edifício abrigava uma rodoviária, um mercado municipal, uma prefeitura, um clube. Uma placa ou cartaz anunciava que alguém havia improvisado um museu de alguma coisa (não recordo o quê) na Sala 00 (a placa mencionava também as Salas 01 e 02). Eu quis ver o museu: deixei que meus amigos seguissem adiante e entrei no corredor à esquerda: a Sala 00 era a primeira (à esquerda). A porta estava aberta; alguém havia feito um caminho muito estreito que levava ao interior do museu, definido à direita por cadeiras e à esquerda por cones de trânsito. Para entrar era preciso acompanhar de lado esse caminho numa curva acentuada para a direita; o restante da sala, onde deveria estar o museu propriamente dito, estava oculto por duas ou três divisórias. O caminho era muito estreito, e quando tentei avançar acabei empurrando algumas das cadeiras, que derrubaram por sua vez as divisórias. Isso revelou que na sala, que era muito pequena, não parecia haver museu algum. Uma burocrata de meia-idade, sentada atrás de uma mesa no fim do caminho de cadeiras e cones, deu-me uma bronca porque eu havia atrapalhado a sessão inaugural de fotografias. Duas ou três moças, vestidas como cheerleaders norte-americanas, pareciam compartilhar da frustração dela. Ajudei alguém a reerguer os tapumes e saí dali.

* * *

No corredor encontrei meu boné, que havia aparentemente deixado cair antes de entrar no museu. Aninhado no interior do boné alguém havia deixado um recém-nascido com uma cabeça enorme, comprida no sentido horizontal. Tirei o nenê do boné e tomei-o no colo, na tentativa de fazê-lo parar de chorar. Eu estava agora (sem qualquer transição), na velha casa de madeira de minha vó Vergínia; eu tentava contar a minha mãe como havia encontrado o bebê, mas ela estava no telefone e fez sinal que eu esperasse. Caminhei embalando o bebê pela casa; sua cabeça parecia estar voltando ao normal. Perguntei se ele estava com fome e ele respondeu que sim. Achei monstruoso um bebê tão jovem ter respondido; olhei para ele e, em tom de acusação, choque ou revelação, disse: “Você agora está parecendo mais um pássaro do que um nenê, não é?” Ele olhou-me com perversidade e ressentimento, abriu as asas brancas e saiu voando pela janela.

* * *

Aparentemente não relacionado ao anterior:

Chego à casa térrea onde moro [no sonho], depois de dormir duas noites fora. É noite, e vindo da sala pelo corredor vejo que as luzes dos quartos estão acesas. Isso é inconcebível, por isso corrijo o sonho para que estejam apagadas.

* * *

Aparentemente não relacionado aos anteriores:

Falta pouco para o sol se pôr e estou dirigindo na estrada de terra que liga o Monastério à rodovia. Percebo, no alto de um morro, que as cores da tarde estão maravilhosamente saturadas. Algum efeito atmosférico está tingindo a paisagem de matizes indescritivelmente pungentes. O sol está brincando de Photoshop. Uma luminosa bruma azul-violeta desce do céu e tinge as árvores e colinas de azul turquesa, uma neblina verde-limão sobe da terra e tinge de um verde impossível casas e campinas. Arrependo-me na hora de não ter trazido minha câmera para registrar aquele momento. Termino de descer a curva e lembro que trouxe, sim, a câmera: está ali no banco do passageiro. Para o carro e dou a ré a fim de voltar ao alto do morro e capturar a paisagem como eu a tinha visto. Quando chego ao topo, no momento seguinte, já está escuro.

* * *

Aparentemente não relacionado aos anteriores:

Estou mostrando a minha irmã Alice um trecho do filme que [no sonho] inspirou Steven Spielberg, dez anos depois daquilo, a filmar E.T., O Extra-Terrestre. Plano americano da lateral de uma kombi estacionada numa campina com a porta lateral aberta: um menino de dez anos aproxima-se e senta-se no chão da kombi. Ele inclina-se para a frente e começa a mexer com um objeto que está fora do nosso campo de visão, mas que aparece por alguns momentos quando o menino o revira com uma vareta. É um modelo de plástico de um boneco marrom com uma cabeça enorme, coroada (ao contrário de E.T.) por quatro chifres. Comento com minha irmã que a cabeça e os chifres são tão proeminentes na figura que, virado de cabeça para baixo, o boneco poderia ser usado como cadeira.

(na noite de 14 para 15 de novembro de 2006)

05 de Setembro de 2006

Fuggite

Sonhos

Ontem sonhei com uma Curitiba minimalista composta basicamente de calçadas, calçadões, escadarias, muralhas, galerias, pátios, portais e antigos edifícios, igrejas e museus. Essa cidade essencial prescindia inteiramente, que eu me lembre, de portas e janelas; tampouco havia árvores, pedestres, carros, céu, lojas, placas de trânsito ou de publicidade. Talvez houvesse ônibus, ou a possibilidade de tomar-se um, e creio lembrar-me de postes baixos de metal.

Os únicos pedestres que entrevi eram de natureza fantástica: primeiro os esquivos gigantes gorduchos de oito metros de altura vestidos inteiramente de preto, trajando elegantes coletes de seda e sapatos impecavelmente engraxados; depois, o que só posso descrever como cabeças enormes, de três metros de altura, negras como fuligem, com nariz afilado e sobrancelhas brancas, que se equilibravam diretamente sobre pernas de tamanho normal. Essas cabeças apareciam sem aviso de alguma galeria e recuavam imediatamente, de costas, quando percebiam a nossa presença (eu estava com algum amigo que não sei nomear).

Os gigantes de negro também pareciam preferir não serem vistos. Em determinado momento, porém, um deles aproximou-se a passos largos na nossa direção, e meu amigo alertou: “Fuggite!” (fuja, em italiano). Tudo que consegui extrair do meu italiano de ópera quando vi as pernas e o colete do gigante a três passos de mim foi um intimidado “Eccolo qua!” – ei-lo aqui.

O gigante saltou o portal que eu tinha planejado atravessar e desapareceu depois de cruzar o ar sobre nossas cabeças. Lembro ter percebido que ele não tinha pernas, mas usava abaixo da articulação dos joelhos as encurvadas próteses negras de metal que eu tinha visto no sábado em algum programa de televisão.

Estávamos depois, sem qualquer transição de que eu me recorde, dentro de uma loja de material de arte. Meu amigo apontou pelo balcão de vidro e comprou dois estojos idênticos de madeira com lápis de desenho de diversos calibres (de acabamento retangular, inclusive nas pontas), e delicados formões de cabos de madeira clara.

Quando o balconista afastou-se por um momento perguntei a meu amigo qual era o preço, e ele provocou:

– Na feirinha, 15 reais. Aqui, 200.

Olhei na nota sobre o balcão que os dois estojos tinham custado juntos trezentos reais. Achei que a 150 reais valiam o preço e resolvi comprar um. Perguntei ao balconista se ele aceitava cheques e só neste momento o homem materializou-se de fato na minha frente, um sujeito de meia-idade, bigodão, colocando na onipresente sacola de plástico a compra de meu amigo.

Ele disse que, sendo possível, preferia dinheiro por motivos de aperto imediato. Dei a ele as duas únicas notas de cinqüenta que tinha na carteira, peguei minha sacola e saí pela cidade à procura de uma caixa automática.

17 de Junho de 2006

A morte

Sonhos

Sonhei na noite de quinta para sexta-feira que havia sido assassinado. Morri com um único tiro de trabuco no peito, pela mão de um homem triste que matou comigo outras duas pessoas, e no sonho a morte era indolor e silenciosa e vi de imediato a futilidade e a prepotência da minha tentativa de proteger da morte (como havia feito, sem sucesso) os que estavam comigo.

Logo em seguida, como nos créditos finais de um filme, o assassino desapareceu tela acima e começou a rolar um festivo clipe de música: uma multidão sempre crescente avançava pelas ruas centrais de uma grande cidade, descendo de aindames e subindo de estações de metrô, reunindo-se em grupos cada vez maiores e cantando incessantemente sob uma mesma vigorosa cadência, celebrando em perpétuo clímax uma unânime e não-vista vitória. A reviravolta está em que foi-me concedido saber que a música (talvez inédita na vida real) era de autoria do assassino; Deus ou destino exigiam que eu me dobrasse à ironia que era ser eliminado pelas mãos de quem criara música tão bonita e tão rigorosamente celebratória, e na morte e no sonho cantei e, balançando incredulamente a cabeça, sorri.

14 de Abril de 2006

Visita a uma cidade e a uma casa, e também ao mar e a um box de banheiro

Sonhos

Eu estava dentro de um enorme armazém conversando com um homem muito sorridente de uns trinta anos, cabelos castanhos lisos que ele tirava eventualmente da testa. Perguntei, como costumo fazer, de onde ele era.

O homem revelou que era de Santa Catarina e perguntei de que cidade. Ele abriu um sorriso e disse que era de uma cidade muito pequena do interior que eu certamente não conhecia. Insisti (conheço algumas cidades do interior de Santa Catarina), e ele disse um nome muito real (do qual não me lembro) que podia ser mesmo de uma cidade mas que eu de fato não conhecia. Perguntei por uma cidade próxima que servisse de referência. Ele, sem deixar de sorrir, disse que ficava perto de Pioneira. Essa eu disse que já tinha ouvido falar mas não sabia onde era, e dei a entender que essa não servia porque devia haver um número enorme de Pioneiras Brasil afora. Meio irritado com o jeito evasivo do cara e não disposto a capitular, pedi o nome de outra cidade conhecida que ficasse perto. Ele disse um nome, depois outro, em seguida outro – nenhum dos quais representava referência para mim.

Em seguida e sem qualquer transição eu estava em pé, sozinho, bem no meio da tranqüila rua principal de uma cidade que não reconheci. Intuí em algum momento da narrativa que segue que se tratava da cidade do sujeito com quem eu havia estado falando.

A avenida, separada em duas pistas por um imaculado canteiro central, estendia-se para os dois lados de onde eu estava no sentido norte-sul. Era o crepúsculo e a luz inclinada do sol (que eu não via, porque estava se pondo atrás da linha de casas diretamente à minha frente) tingia de amarelo-dourado o verde da copa arredondada das árvores que ladeavam a rua.

O verdadeiro e imediato assombro estava em que a cidade era uniformemente bem cuidada, limpa, ordeira e viçosa ao ponto do surreal, com uma beleza terrível e ininterrupta de foto de calendário. Todas as casas eram impecavelmente construídas, bem acabadas e pintadas – a maioria com mais de um piso e todas emolduradas por gramados e canteiros impossivelmente alinhados. A despeito da escuridão crescente, todas as cores eram muito saturadas, sendo que sobressaíam os terracotas, os amarelos com um sutílissimo toque de laranja e verdes-limão. Nenhum automóvel que eu pudesse ver, e uns poucos pedestres caminhavam elegantemente e sem pressa para longe.

A longa avenida parecia não ter transversais, mas do meio onde eu estava dava para ver onde a cidade terminava nas duas pontas. No extremo sul a rua acabava numa curva brusca (para oeste) que eu não tinha como ver para onde dava – mas além das últimas casas naquela direção erguiam-se incongruentemente, contra o céu violeta, dois picos nevados de montanha tingidos de amarelo-laranja pelo sol que se punha em algum lugar à minha direita.

Por alguma razão (talvez a vontade de assistir aquele pôr-do-sol cujo fulgor irreal transformava em ouro tudo que tocava) decidi entrar numa das casas e escolhi logo a mansão de três pisos imediatamente adiante de mim, cuja fachada impecável, escura mas otimista, erguia-se diretamente do gramado da calçada.

A porta estava aberta e entrei; o hall, largo porém estreito, estava silencioso e deserto e a casa talvez vazia e às escuras. A única luminosidade (dourada) parecia derramar-se das janelas do andar superior pela curva da escada cujo primeiro degrau aguardava à minha esquerda. Apesar do que talvez fossem inúmeros quadros ou papéis de parede muito ornamentados na penumbra, a casa exsudava uma atmosfera acarpetada de luxuosa residência contemporânea.

O térreo aparentemente não me interessava. Lancei-me imediatamente aos degraus da curva da escada, que ascendia da esquerda para a direita ao longo da parede de trás da casa (por trás da qual, eu cria, o sol estava para morrer). A escada acompanhava uma parede de três planos, como uma bay window, e na terceira folha de parede, logo antes do piso superior, abria-se uma janela.

O ângulo não me permitia ver o sol diretamente, mas a vista me fez perder o fôlego. A casa e a rua deviam pousar na crista de uma colina, já que o que eu via era uma sucessão de telhados elegantes e (sim! eram gloriosos minaretes cintilando sob a luz amarela do crepúsculo!) descendo até uma avenida beira-mar muitos metros abaixo. Um único carro avançava pela avenida, afastando-se lentamente de mim, emoldurado pelas árvores incendiadas pela última luz do sol.

Eu queria ver melhor antes que escurecesse. Cruzei depressa o corredor do piso superior e lancei-me a subir outro lance de escadas, exatamente como o primeiro. Parei para olhar na janela correspondente, que também estava aberta. Sim: dali eu via com mais clareza, à minha esquerda, uma fatia do mar onde o sol estava se pondo (embora um ângulo da parede externa me negasse uma visão direta dos dois). Lá estavam, entre os telhados das casas, dois prédios coroados por cinco ou seis minaretes cada um: um mais claro à minha esquerda, junto à orla, e outro escuro à minha direita, beirando a avenida no lado do interior. Lá estava o carro solitário afastando-se na paisagem cinza-azulada sob o que tinha de ser o último raio do sol.

Eu precisava encontrar naquele andar uma janela que abrisse diretamente para a parte de trás da casa, de onde eu pudesse ver o apagar final do crepúsculo e o mar lá embaixo. Caminhei pelo corredor daquele piso no sentido sul e parei diante da primeira porta à minha direita, que abria para oeste, para o sol e (no sonho) para o mar. A porta era inteiramente negra e cedeu de imediato quando tentei a fechadura.

Da porta aberta, que eu me recorde, descortinava-se diretamente a atordoante paisagem quilômetros abaixo: a curva perfeita de uma baía de azul profundo sob um céu pacífico de violeta no qual não restava qualquer sinal de sol. Era noite perfeita e não havia nuvem no céu, mas sobre o plácido azul-turquesa da baía uma frota de nuvens brancas (digamos, doze) repousava diretamente sobre a água; talvez, ocorreu-me na mesma hora, fossem navios brancos construídos para se assemelharem a nuvens, mas naquele momento a distinção não me pareceu especialmente importante.

Segui descendo o corredor daquele andar até a última porta na extremidade sul, que abria-se (descobri) para uma varanda bege com piso em forma de triângulo. Era noite ainda mas, impossívelmente, o eixo central do arco da baía estava agora mais de um quilômetro à minha direita, ao norte (ele havia estado exatamente diante de mim na paisagem da porta anterior). Olhando da varanda eu via, à minha esquerda e muitos metros abaixo, um belíssimo (e deserto) parque arborizado, iluminado por lâmpadas amarelas e pontuado por transparentes lagos e chafarizes e, junto da entrada, uma cascata. À direita descortinavam-se o mar e a orla iluminada da cidade: dois barcos de vários deques concêntricos em labirinto (um pequeno e um grande, ambos brancos mas não em forma de nuvem) chapinhavam na água ali perto. Olhando pela mureta vi que terra e mar dividiam-se precisamente abaixo de mim: se eu pulasse da varanda pelo seu vértice direito cairia diretamente na água lá embaixo.

De algum modo senti que o sonho estava chegando ao fim, e intuí que havia dois modos de terminá-lo: saindo pela porta da varanda de volta para a casa ou saltando para a água verde-azulada do mar lá embaixo. Decidi pular. Ignorei a mureta e despenquei da varanda com as mãos abraçando o peito, sentindo primeiro a vertigem depois a paisagem se aproximando e finalmente a água me abraçando numa terna lufada azul.

Estranhamente, o sonho não terminou como eu previra, e observei para mim mesmo o quanto isso era irregular enquanto nadava para a superfície. Saí do mar num único golpe de corpo, como quem saí de uma piscina, e caminhei pingando pelo quintal de uma casa (ignoro se a mesma, mas devia ser logo abaixo da varanda que eu acabara de abandonar) a meros dez passos dali. Esta estava muito iluminada, e entrei pelas folhas (abertas) da porta de vidro sem ver ninguém.

Decidi que precisava de um banho para me livrar da sensação daquele mar – embora muito límpida e de um tom belíssimo de turquesa, a água tinha a consistência filamentosa e vagamente pegajosa da gelatina que a geladeira ainda não endureceu. Encontrei um banheiro atrás da primeira porta (à direita), e no momento seguinte estava debaixo de uma inclemente chuveirada dentro de um box de acrílico semifosco. Eu lavava a cabeça e os braços e refletia o quanto aquele sonho era peculiar: ao contrário de na primeira metade do sonho, eu agora sabia definitivamente que estava sonhando, e ponderei com alguma surpresa o quanto as sensações da água do mar e do banho de chuveiro eram verossímeis e indistinguíveis da coisa em si, e – em especial – como era estranho estar dentro de um sonho que eu mesmo decidira que já devia ter terminado.

Eu estava pensando nisso quando vi, pela translucência indistinta do box, um vulto se aproximando. Não senti medo nem constrangimento, e ocorreu-me que isso era desnecessária prova de que estava mesmo sonhando. A porta do box se abriu sem a minha intervenção e lá fora estava um burocrata: entre trinta e cinco e quarenta anos de idade, camisa branca de manga curta e calça social escura, cabelo loiro-avermelhado ralo e desalinhado, o rosto nada notável, redondo, pálido e cansado, bondoso mas sem expressão. Ele não esboçou reação: apenas inclinou-se para a frente, estendeu o braço para dentro do box e apertou um interruptor retangular branco na parede de trás. Isso acionou um rápido flash de luz branca no alto do box, e senti como se estivesse sendo submetido a algo como uma radiografia.

Tentei falar com o sujeito mas ele recusou-se a responder. Disse finalmente que estava muito triste. Tinha perdido um filho ou, talvez, um filho seu estava desaparecido. Nada mais parecia importar.

* * *

na noite de 12 para 13 de abril de 2006