Manuscritos estocados sob a rubrica 'Sonhos'
24 de Julho de 2008

Altercação

Sonhos

Como parte da pesquisa para sua tese de mestrado, o Carlos havia de alguma forma conseguido criar, do nada, um ser humano totalmente perverso: inteligente e empreendedor mas desprovido de qualquer virtude. Esse homem de maldade pura havia escapado e estava agora à solta pela cidade, procurando uma forma de destruir o Carlos e a pesquisa dele.

Era de noite e eu caminhava pelos pátios internos de alguma universidade, do lado de fora de ginásios e refeitórios iluminados, esperando. O Carlos apareceu e disse que a hora havia chegado e a mesa examinadora estava pronta para examinar a evidência do caso, que ele havia por segurança apagado da própria memória mas havia me dado para guardar. Tirei do bolso da camisa e entreguei para ele um pen drive e um maço de pequenos pedaços retangulares de folhas de caderno, com anotações a lápis e à caneta. Ele explicou que a teoria toda lhe voltava à lembrança enquanto lia as anotações, e correu para o auditório.

Fiquei ali fora no pátio; sem aviso e pulando agilmente de alguma quina de telhado, pôs-se de pé na minha frente o homem perverso, para me atacar. Antes que ele pudesse me pegar, no entanto, chegou por outro lado um homem idêntico a este mas de caráter inverso; o Carlos havia, sem que eu soubesse, criado um homem integralmente bom a fim de anular as perversidades do primeiro.

O homem bom avançou na direção do mau, na intenção de me proteger, e parou a dois passos dele.

– Este é um mundo mau – disse o homem mau, andando devagar ao redor do outro e estudando-o com falsa boa vontade nos olhos. – Muita maldade e poucos abraços.

E deu enquanto falava um passo na direção do homem bom, como se fosse passar o braço ao redor do seu ombro, mas atirou-se em vez disso no pescoço dele, com a intenção de estrangulá-lo. Logo estavam os dois altercando-se no chão, rolando de um lado para o outro, e como eram idênticos eu não podia distinguir quem estava levando vantagem.

A luta durou o que pode ter sido uma hora ou poucos segundos; depois desse intervalo entendi que o homem bom havia vencido, mas continuava a golpear sem clemência o corpo inerte do perverso que havia matado. O vencedor segurou o cadáver por um dos braços e passou a atirá-lo de um lado para o outro, fazendo-o bater com força contra o piso de cimento, até que todas as juntas se romperam: a cabeça, as mãos, os braços, os pés e as pernas desconectaram-se do conjunto, mantendo-se ligados uns aos outros e ao tronco por ligamentos vermelhos que pareciam molas. Mas homem bom, tomado de uma raiva que nada podia aplacar, continuava golpeando o corpo desconjuntado contra o piso.

Na noite do dia 22 para o dia 23

14 de Maio de 2008

Tese

Sonhos

Há numa moderna cidade italiana uma universidade que transforma as teses de mestrado e doutorado que lhe são submetidas em contos de fadas. Não se sabe exatamente como acontece, mas as tramas resultantes seguem muito livremente a estrutura das obras originais (o proponente da tese é o protagonista, a hipótese seu conflito, os dados nas tabelas os habitantes do reino, os nomes na bibliografia seus ajudantes mágicos, a conclusão o antagonista que deve ser eliminado). A atmosfera e o desenlace, no entanto, são invariavelmente originais ao ponto do desconcertante.

Um acadêmico que tente recuperar do arquivo da universidade uma tese que propôs se mostrará inteiramente incapaz de reconhecer a obra que ja foi sua, e será ao mesmo tempo incapaz de não reconhecer-se nela. O conto de fadas lhe deixará nos lábios o sabor agridoce da lembrança de um sonho.

* * *

Há os que acreditem que a própria cidade esteja se transformando aos poucos num local de sonho.

Numa meia-noite de 2001 eu e mais doze ou treze acadêmicos, todos de ligeiramente bêbados a um pouco mais, descemos de um ônibus num isolado e escuro bairro dessa cidade, achando que estávamos descendo numa quadra do centro que pensamos reconhecer. Em seguida descobrimos que um agente invisível havia roubado no ônibus nossas carteiras e telefones, e não tínhamos idéia de como voltar ao hotel.

Eu falava o idioma menos mal de que meus acompanhantes, pelo que deixei-os na rua e abri o portãozinho de ferro de uma casa de esquina, atravessei o caminho que serpenteava por um jardinzinho e bati na porta de uma casa inteiramente às escuras. Uma luz se acendeu lá no fundo e uma senhora mostrou o rosto na janela ao lado da porta, mas a porta que se abriu, inundando-me de luz amarela, ficava na lateral da casa, um pouco atrás de mim e à direita.

Estendeu a mão para me cumprimentar um homem muito alto, quase um gigante. Ele tinha o rosto alongado e estreito, como o de um cíclope, só que não tinha olho algum no lugar onde o único olho deveria estar. Expliquei a situação e ele me disse que, embora não tivessem telefone, eu e meus amigos podíamos passar a noite ali, desde que não ligássemos de dormir no chão do depósito dos fundos, cuja porta ele acabara de abrir.

Ajudei esse homem a empilhar numa salinha lá atrás as mesas de madeira e outros móveis que ocupavam o chão desse depósito, cujo traçado era irregular, estreito e comprido, formado apenas por ângulos agudos. Logo veio nos ajudar o seu irmão, que era idêntico a ele mas tinha um único olho azul no centro da testa, e não falava.

Num ângulo da salinha, enquanto empilhávamos as coisas, vi duas jaulas muito grandes e douradas, uma sobre a outra. Dentro delas, meio ocultos por flâmulas e pedestais e plataformas de partituras, dois homens gordos como piões, com feição de anão, faces rosadas e roupas coloridas de circo, que haviam sido presos ali por se comportarem mal.

06 de Dezembro de 2007

Hino que ouvi num sonho

MP3, Sonhos

Este documento contém clipes de áudio que só podem ser ouvidos na página da Bacia na internet.

Não é com pouca freqüência que sonho com música (veja, por exemplo, aqui), mas nunca antes eu havia conseguido agarrar-me a uma música de tal modo a arrastá-la comigo para o mundo da vigília.

Foi na noite de 1º para 2 de dezembro deste ano, e do sonho em si lembro muito pouco. Sei que era um entarceder frio mas ensolarado, e eu estava numa cidade que podia ser Curitiba ou algum lugar da Europa que me falta conhecer. Pelas ruas e galerias do centro da cidade homens de capacete de construção e mulheres de lenço na cabeça (precisamente como num cartaz de propaganda soviético) caminhavam cantando um hino marcial numa língua que eu não soube reconhecer. Cantavam entusiasticamente, como se a música fosse parte de sua constituição e de seus destinos. A melodia era simples, mas a harmonia ia para lugares que eu não esperava; acordei solfejando e gravei imediatamente a primeira versão da música no computador.

A música é simples demais para não existir em alguma versão na vida real; não é mesmo impossível que eu tenha esquecido sua fonte na vigília só para poder recordá-la triunfalmente no sonho. Se você souber de algum pé da música na vida real, fique à vontade para me dar um toque por email.

Na tentativa de adoçar o acompanhamento de orgão amontoei instrumentos de orquestra, mas foi inutilmente. Na qualidade de hino, para sentir a extensão do seu poder seria necessário ouvi-lo sendo cantado por gente, mesmo que seja a gente que só existe nos meus sonhos.

Gravado na Capelinha de Melão do Monastério de São Brabo, etc. Clique no triângulo para ouvir.


Sapnis Himna - Hino da República dos Sonhos

Atualização

14h30 > escreve-me o Anderson para observar a semelhança entre o Hino da República dos Sonhos e Deus dos Antigos.

24 de Julho de 2007

A hora perdida

Sonhos

Eu caminhava na divisa entre o sono e a vígilia, procurando o reino das formigas com asas, quando me deparei com uma gaiola dourada banhada pela luz do entardecer. Dentro da gaiola havia uma ave fabulosa com o porte e a aparência de uma arara, mas que ostentava uma plumagem translúcida de um colorido formidável: verdes incrivelmente luminescentes com toques de amarelo candente e vermelho.

Olhando para o animal enjaulado intuí logo que aquela, incrivelmente, não era apenas uma ave; era ao mesmo tempo uma hora do dia, uma hora de todos os dias da minha existência, bela, incandescente e aprisionada ali diante de mim. Entendi que por mais belo que fosse contemplar aquela visão capturada de bem-aventurança, cabia a mim a terrível responsabilidade de libertar de sua prisão e ave e a hora do dia que ela representava - caso contrário ambas permaneceriam ociosas, estéreis e infrutíferas naquele dia e por todos os dias para sempre.

Decidi então que libertaria imediatamente a ave magnífica e sua magnífica hora perdida. Gastei uns últimos instantes desfrutando da beatitude do seu cativeiro, e acordei do sonho antes que pudesse estender a mão na direção da gaiola.

17 de Março de 2007

O povo do Futôr

Sonhos

A televisão mostrava um comercial em que crianças superpoderosas, usando pás como se fosse pula-pulas, cavavam enormes trincheiras em poucos segundos.

– Ouviu essa? – perguntou-me a Lúcia Helena, sobre a observação que o Arthur tinha acabado de lhe fazer sobre o comercial, erguendo um instante os olhos do prato de comida.

– Não – respondi, sorrindo por antecipação.

– É o povo do Futôr.