Manuscritos estocados sob a rubrica 'Sonhos'
28 de Abril de 2011

A consistência histórica dos dons carismáticos

Manuscritos, Sonhos

– Posso entrar? – ela diz, e no instante seguinte já está dentro.

Adália tem trinta e sete anos. É o tipo intimidador de mulher que tem o corpo esguio e aprumado de quando tinha vinte, e usa vestidos justos e acalorados para não deixar qualquer dúvida disso. O rosto anguloso é tão bonito quanto naquele tempo, mas com uma sobrancelha mais atrevida e um sorriso mais largo. Quando acontece dela sorrir, o que não é o caso agora.

Enquanto o mulherão desaba no sofá cruzo os braços e viro-me para o espelho da parede, para uma rápida conferência: encontro sorrindo com um vago beicinho um cara que é três ou quatro mais novo do que ela, o tipo do sujeito que foi sempre magro demais mas agora está amadurecendo bem, os anos fornecendo o necessário e atrasado recheio às carnes. Ao mesmo tempo em que está ficando bonito o sujeito está ficando careca: mais um lembrete de que no mundo nada é de graça.

Jateado na base do espelho está o meu logotipo: um planeta Terra, e sobre ele uma Bíblia aberta, como se fosse um telhado invertido; com um pé em cada página do livro está um homem de terno apontando uma arma diretamente para a frente, em posição de James Bond; acima dele paira uma cruz e acima dela uma pomba, englobada por um arco-íris circular do qual projetam-se línguas de fogo que se abrem em feixe logotipo abaixo; onde as línguas de fogo atingem as páginas da Bíblia levanta-se do papel um anjo; onde atingem a Terra nasce ali uma igreja. De cada lado do logotipo há uma letra, F e B; o Brandão insiste que querem dizer “Facebook”, mas que prefiro pensar que representam meu nome, Fabrício de Barros. É um logotipo simples, mas tem a minha cara.

Ajusto o sorriso e ignoro deliberadamente a careca do homem no espelho. Não faz diferença: eu e Adália sabemos que fomos desde sempre irresistíveis. É praticamente nossa descrição de cargo.

– Enquanto você estava fora o secretário executivo da convenção esteve aqui – ela começa a falar olhando para o maço de papéis que tem nas mãos em vez de para mim, sinal inequívoco de que existe entre nós alguma pendência de que não estou certo de lembrar, – e deixou o dossiê do caso de Londrina.

– Muito bem, vamos então aos detalhes – descruzo os braços e sento-me para limpar a Taurus 9mm que está desmontada em cima da mesa. É melhor ignorar as manhas e permanecer profissional, se não quiser que o briefing seja interrompido pelos inevitáveis quinze minutos de suor e reconciliação. Acabei de sair do banho, a camisa está limpa, e nesse calor é difícil manter sob controle o efeito do desodorante.

Adália cruza as pernas com deliberação, como se existisse numa página dupla, e folheia devagar o dossiê.

– Mega-igreja, configuração usual, público A-B. Entre as doze maiores da convenção. O secretário disse que nunca tivemos caso mais importante.

– Mas quanto vale exatamente a igreja?

– Treze pastores – ela desce uma coluna de texto com os dedos, erguendo uma sobrancelha quando acha necessário. – Seis congregações. Dois mil e trezentos membros. Programa na TV, o pacote básico. Passivo de quase um quarto de milhão. E entradas mais do que proporcionais.

– Treze? Uma igreja com mais pastores do que Jesus tinha discípulos. Nunca é bom sinal.

– Acredite, eu sei – ela me olha nos olhos pela primeira vez, e deixamos que as memórias se assentem em silêncio entre nós.

– E qual é o caso? – sou eu a quebrar o momento, voltando a limpar o cano da pistola.

– Começou com uma atividade de fim de semana; chamava-se originalmente Magazine mas logo mudaram o nome para Arrebatados! Com o ponto de exclamação.

– E do que se tratava?

– Pense um Big Brother para crentes. Montaram no centro da arena de esportes uma casa com paredes de vidro, todos os aposentos vigiados por câmeras de vídeo, com transmissão pela internet. Um grupo de doze membros da igreja ficava confinado na casa do Arrebatados! da noite de sexta-feira até segunda pela manhã.

– Não saíam nem para assistir os cultos? – fico admirado com a mera possibilidade.

– Participavam por um telão colocado no santuário, davam depoimentos, aquela história. E eram avaliados todos os domingos pelo seu comportamento: o quanto eram vistos orando, lendo a Bíblia, repartindo a comida e as horas de internet. O mais perverso tinha de sair da casa mas não era visto como “eliminado”: era deixado para trás. E na sexta-feira seguinte um novo membro da igreja entrava na casa para substituí-lo.

– Então não terminava nunca?

– Era pra terminar quando o público decidisse que nenhum dos remanescentes merecia ser eliminado, mas não chegou a chegar nesse ponto. Em fevereiro passado entrou na casa o nosso problema.

Ela estende três páginas impressas e uma foto pixelada, presos por um clipe.

– Caio de Jesus. Caio nunca é um bom presságio.

– Trinta e dois anos, auditor, casado, duas filhas. Na madrugada de domingo do seu primeiro fim de semana na casa, seu amigo Caio teve uma visão. Deus estava usando o Arrebatados! de Londrina para escolher novos doze discípulos, que deveriam julgar as nações no fim do mundo agora em 2012.

– E naturalmente todos refutaram a visão à luz da Bíblia.

– E naturalmente todos acreditaram. Caio explicou que a partir daquele dia não poderiam sair da casa nem mesmo durante a semana, até que o armagedom pessoal de cada um estivesse completo. Explicou ainda que para ganhar o prêmio os candidatos teriam que vencer todas as tentações: homens e mulheres da casa teriam de tomar banho juntos, confessar suas fantasias um ao outro e dormir pelados na mesma cama para demonstrar a sua pureza.

– Não há como negar que há uma consistência histórica nos dons carismáticos – opino, ajustando a mola do ferrolho e começando a remontar a Taurus. Adália me olha por um instante. Digamos que já havíamos visto o mesmo espírito exigindo as mesmas coisas.

– A controvérsia se estendeu durante semanas, blá-blá-blá, até que o pastor da igreja resolveu dar um basta na coisa e fechou sumariamente a casa. O que aparentemente demonstrou que ele era o Anticristo.

– É claro.

– O problema é que a essa altura metade da igreja já estava apoiando o profeta Caio. Para resumir: com o apoio dos seus Onze, o profeta convocou uma assembleia, conquistou a maioria, mudou o estatuto da igreja e expulsou como impenitente toda a ala moderada. E, desnecessário dizer, reinstaurou a casa.

– Mais uma vitória para a democracia.

– Para conferir acesse www etc.

Ela deixa que o dossiê caia sobre a mesa de centro e reclina-se no sofá olhando diretamente para mim. A esta altura já juntei o cano ao ferrolho e o ferrolho ao chassi; termino acoplando o carregador com um sensato clique.

– Estou supondo que nossa missão seja recuperar a igreja para a convenção, rever o patrimônio perdido e expulsar do templo o falso profeta e os sectários.

– E derrubar a casa – ela lembra. – Espero que dessa vez possamos usar explosivos.

Tento ignorar a provocação, mas não devo esquecer o que prometi.

– Já acionamos o Brandão?

Ela olha sem ver para o relógio de pulseira fina nas costas do pulso.

– A esta hora ele já deve estar em Londrina fazendo o trabalho dele.

– Muito bem, Adália – congratulo, congratulando-me secretamente por ser tão gentil.

Nesse momento entra sem bater o nosso cliente, Januário Cembrino, secretário executivo da convenção. Quarenta e tantos anos, sempre de terno e gravata, Januário e é um sujeito muito baixo e compacto, o tipo de homem que Adália gosta de chamar de portátil. Tem rosto quadrado, os cabelos curtos e encaracolados de imperador romano e a pele castanha de índio brasileiro. Adália estaria perdidamente apaixonada por ele se já não estivesse por mim.

– Fabrício, espero que Adália já tenha lhe colocado a par de tudo – ele se deixa cair sem vontade na cadeira na minha frente. – E da importância do caso.

Deixo sobre a mesa a pistola e o lenço de flanela que estava usando para dar o polimento final. Só então produzo meu melhor sorriso.

– Ora, boa tarde pra você também. Mais entusiasmo, Januário, você sabe muito bem que vamos tirar você de mais essa. Tenha um pouco de fé.

– Espero que sim – ele limpa a testa com o lenço.

– Agora, tenho de reconhecer que é um caso difícil. Preciso saber se tenho a sua permissão para usar todos os recursos. Línguas de fogo? Dons carismáticos? Cai-cai? Unção do riso? Água de Jerusalém?

– O que for necessário – ele cede.

Estendo o braço e aperto a mão dele de determinada maneira.

– O que for necessário – ele me olha muito sério.

– Então vamos, Adália, que o campo é o mundo.

Levantamos os três, pego as chaves do carro e Adália já colocou o dossiê na minha mochila. Guardo com todo o cuidado a pistola dentro da gaveta, pego a minha Bíblia e logo estamos longe dali.

30 de Dezembro de 2010

Elegia a um homem que esqueceu

Sonhos

Eu estava inteiramente nu, deitado sobre uma plataforma invisível vários quilômetros acima de um límpido mar azul turquesa, não maculado por traço de nuvem ou de terra. Depois de estar morto por tanto tempo, o toque do sol sobre o corpo fez-me o sangue queimar de nostalgia e de prazer, e me arrependi de não ter aproveitado mais daquele júbilo meramente sensorial enquanto estava vivo.

Percebi então que não estava sozinho; duas entidades radiantes mas muito translúcidas, com enormes rostos horizontais e braços em forma de W, pairavam dos lados da plataforma em que eu estava deitado, como médicos ao redor de uma mesa de operação.

– Brabo – disse-me uma delas, e estremeci por ver o meu nome sobrevivendo ao meu próprio esquecimento, – você está morto há quatro mil anos, mas usamos um algoritmo que você não compreenderia para reconstruí-lo a partir do conteúdo do seu blog.

A revelação não causou-me assombro ou desconforto, mas despertou-me a curiosidade. Ergui o braço e cobri o sol com a mão, e abri um sorriso perplexo ao entender que minhas palavras haviam bastado para reconstruir detalhes de mim mesmo que eu nunca havia colocado por escrito – coisas como a cicatriz em forma de meia-lua que tenho sobre o polegar da mão direita, e o fato de ser circuncidado.

– Reconstruímos com algum sucesso seu corpo e sua mente – continuou a entidade que havia dito meu nome, – mas não encontramos no que você deixou escrito qualquer traço de sentimento ou de um coração. Precisamos que você nos ajude aqui. Você escreveu por dez anos no seu blog; como se explica não ter deixado ali nenhuma parte do seu coração?

– Talvez ele não tivesse um coração em primeiro lugar – disse a segunda entidade, falando como se eu não estivesse ali. Entendi que não era a primeira vez que se expunha essa teoria a meu respeito.

Vendo que eu não tinha com que responder, a primeira entidade fez um gesto resignado com o braço e imediatamente a plataforma invisível que me sustentava desapareceu. Despenquei assobiando em direção ao mar lá embaixo.

Abracei o corpo que me restava e aguardei de olhos muito abertos o impacto, o esquecimento e o silêncio de morrer pela segunda vez.

07 de Setembro de 2010

A desculpa

Sonhos

Era de noite e conversávamos ao redor de uma mesa num pátio pendurado em terraço, numa aldeia de pedra nos apeninos italianos, debaixo de aviöes com som em retardo e de estrelas cadentes que não se podiam distinguir uns dos outros. Filosofávamos naquele tom codificado em que está implícito que o que foi dito deve ser esquecido assim que os interlocutores se levantarem da conversa; em determinado momento alguém sugeriu (estávamos em três ou quatro) que entrássemos no carro e partíssemos para algum outro lugar, meia dúzia de aldeias adiante ao longo do vale.

Costuramos as abas da noite com as curvas da estrada, e quando chegamos a uma aldeia iluminada, que talvez não fosse ainda o nosso destino, cercaram-nos grupos armados de jovens e adolescentes de alguma frente de libertação (num colete pensei entrever a palavra “Libano”, mas posso estar errado). Estavam parando e revistando todos os carros, e do meu posto no banco de trás fiquei refletindo no embaraço que podia representar para mim, como brasileiro, ser encontrado e capturado por aquela gente. Tirei do bolso a carteira e o passaporte e escondi na fenda do banco, pensando que a solução mais simples seria ficar quieto e passar silenciosamente por italiano; se me interrogassem, podia sempre falar inglês e, de acordo com a conveniência, dizer que havia deixado os documentos em casa ou no hotel.

Saímos do carro com as mãos para cima e deixamos as portas abertas, mas os soldados nos ignoraram por completo; obviamente não era gente o que estavam procurando noite adentro. Intuí que buscavam uma coisa – uma coisa antiga, secreta e poderosa, que valia todo esforço e toda violência recuperar. Alguém levou o carro embora, meus amigos perderam-se na multidão armada e fiquei ali sozinho, sem dinheiro e sem documentos, ponderando o embaraço da minha situação se alguém decidisse naquele ponto me interrogar – sem falar o bem italiano e sem ter como me identificar.

Afastei-me da multidão e vi-me no que podia ser um restaurante ao ar livre ou uma festa de igreja (tenho a memória indistinta de, entre uma coisa e outra, ter sido obrigado a roubar de um soldado uma metralhadora e de ter varrido com ela a multidão, a fim de encontrar uma oportunidade para escapar). Sentei-me diante de um padre numa mesa pequena com um único prato, e no instante seguinte conversávamos sobre Francisco de Assis, o padre acusando e eu defendendo. Apontei inclementemente a singularidade do santo e ele apontou de modo inclemente seus defeitos; quando sugeri que as falhas de Francisco podiam ser atribuídas à sua humanidade o padre exaltou-se e ergueu a voz pela primeira vez, “mas é a desculpa que usam todos!”

Atravessei em seguida densas florestas de aventura, mas na passagem para a vigília as dobras da consciência derrubaram de suas hastes o pólen da memória. Só recordo a cena final, em que beijava com despejo canastrão uma heroína sem rosto, aos pés de um paredão de pedra marcado por rugas verticais. Pouco antes uma folha de papel deslizou sobre uma plataforma côncava, com uma única palavra impressa, como se fosse o título de um filme; não lembro a palavra, mas lembro que representava o nome ou a condição da heroína, e que duas letras “i” haviam sido substituídas, adolescentemente, pelo algarismo “1″.

Na noite de ontem para hoje

01 de Novembro de 2009

O esquecimento dos sonhos

Sonhos

A última coisa que ele me disse foi que, se quisesse de fato esquecer o sonho, não deveria fazer como a maioria e cortá-lo em retalhos perpendiculares, como quem talha um pão de forma, pois nesse caso (entendi depois) fatias inteiras do sonho passariam por entre as barras da vigília e o sonho poderia ser reconstruído mais tarde, pelo menos em parte. Era necessário cortá-lo em fatias transversais, oblíquas, que ficariam presas em ângulo no crivo da consciência e deixariam o segredo do sonho seguro para sempre.

04 de Setembro de 2009

Na noite de ontem para hoje

Sonhos

82

Na noite de ontem para hoje, embora tivesse planejado acordar e escrever outra coisa para colocar neste espaço, sonhei que estava participando da gravação de uma novela de televisão. Eu fazia um extra ou personagem secundário, e por alguma razão (como na sequência climática de Tootsie) aquele capítulo da novela, que representava um baile de gala ou uma festa, estava sendo transmitido ao vivo.

Alguns segundos dentro daquela situação e senti-me compelido a aproveitar-me de que a cena era ao vivo e denunciar diante das câmeras – ignoro se por diversão, iconoclastia ou para alertar atores e espectadores, que poderiam ter-se esquecido de algum nível superior de realidade – de que aquilo era uma novela, e não a vida real que se propunha a representar.«Mas uma novela se passa dentro da televisão.» De alguma forma eu permanecia convencido, mesmo no sonho, de que a fim de elucidar a realidade fazia sempre sentido recorrer à metalinguagem – uma linguagem usada para se fazer referência às declarações de outra linguagem.

Avancei até o casal principal, que caminhava entre pares a três passos das câmeras, e disse bruscamente alguma coisa inequívoca sobre o fato de que tudo ao nosso redor não passava de cenário, e éramos todos ali atores gravando uma cena de novela.

– Mas uma novela se passa dentro da televisão – sorriu o protagonista, tentando esquivar-se do embaraço – e nós estamos aqui na vida real.

– Engano seu – eu disse, e caminhei até uma das câmeras. Toquei com a ponta dos dedos a lente – Nós estamos dentro da televisão. Estão nos vendo aqui dentro, pessoal?

E enquanto fazia isso imaginava os espectadores me vendo falando diretamente com eles, ao mesmo tempo salvos da farsa e indignados comigo porque tinham participado voluntariamente dela.

Acordei sobressaltado, porque intuíra que aquela era uma denúncia que podia ser feita em absolutamente todos os níveis de linguagem. A comunicação é consistentemente uma farsa; nenhuma denúncia é clara, pelo que nenhuma denúncia é suficiente.

Ali mesmo, no suor da cama, eu era por antecipação prisioneiro da metalinguagem. Assim que articulasse a memória do meu sonho, estaria acrescentando a ela uma camada não-intencional de artificialidade. Quando colocasse o sonho por escrito (como estou fazendo agora) deitaria sobre ele uma camada adicional de ruído. Camadas adicionais de imprecisão seriam acrescidas a esse material quando ele fosse lido, interpretado e transmitido aos outros, e assim até o infinito.

As tentativas que fazemos de esclarecer nosso conteúdo terminam por obscurecê-lo, e os esforços que empreendemos para representar com mais clareza a realidade acabam trabalhando para falsificá-la.

À salvo de todas as denúncias, o que há de mais real nisso tudo é a história inventada (de que não me lembro) que representavam os atores sem carne na novela do meu sonho e acompanhavam seus espectadores inexistentes; todo resto é inconsequente e intransmissível.

Minha tentativa de denunciar a fantasia não foi capaz de esconder que as palavras que escolhi para denunciá-la são fantasia ainda maior. A lenda é mais verdadeira do que o jornal, a narração desbanca a teologia, a metafísica vence a ciência. Porém, em termos estritos, somente a verdade à salvo da linguagem é – ou seria, se existisse – a verdade.

Somos, muito evidentemente, prisioneiros de carne no cárcere da linguagem. Esta redoma nos limita e classifica pelo menos tanto quanto aos atores encarcerados no vidro da televisão. Daqui de dentro, na cela solitária das palavras, somos como os que procuram ser entendidos enquanto berram e gesticulam do outro lado de uma janela à prova de som. Os outros podem ver que estamos falando, mas não podem absolutamente entender o que estamos dizendo.

E chorei, porque não havia ninguém capaz de abrir este livro.

Nasce um homem

  1. Era uma vez
  2. Adão era
  3. A teoria literária
  4. Para mim
  5. Se havia improvável graça
  6. O conflito que anima uma história
  7. A primeira blasfêmia
  8. Eu sentia ser minha obrigação
  9. Como demonstrado exemplarmente por Jesus
  10. De todos os detalhes
  11. A distinção mais antiga
  12. O homem em pé no centro
  13. Quando levantei-me do lugar
  14. Ele tinha o mundo natural aos seus pés
  15. Dois ou três personagens não bastam
  16. A proibição extrai seu poder
  17. Para caracterizar uma tragédia
  18. Pisei no andar térreo
  19. Você pode comer
  20. Um professor errante depara-se com um homem cego
  21. Nenhum outro elemento da trama
  22. Toda história sobre transgressão
  23. De todos os sonhos de que me recordo
  24. Não devemos deixar
  25. A chave, obviamente
  26. É curioso notar
  27. Para começar
  28. Neste ponto
  29. Com a entrada da serpente
  30. Dos enigmas da serpente
  31. Porém quando percebo
  32. A serpente é astuta
  33. A narrativa é límpida
  34. A serpente permanece um enigma
  35. Quando olho tempo suficiente
  36. O silêncio da história
  37. Outro resultado
  38. Individuação
  39. É o momento decisivo
  40. A ausência divina
  41. É uma pista falsa
  42. Não se trata
  43. Uma donzela encontra na floresta uma perigosa serpente
  44. A hora é agora
  45. Porque – e ignoro quantas vezes terei de voltar
  46. Alcançar a individuação
  47. Eva recua
  48. Deus sabe
  49. O motor do conflito
  50. A grande revelação
  51. Transgredir
  52. A obra da serpente
  53. Onde está a maldade
  54. O que me faz lembrar
  55. A transfiguração do conflito
  56. Que são a imitação e o jogo de espelhos
  57. O que esta história existe para mostrar
  58. É por isso
  59. É o último momento
  60. Quando volto à recordação
  61. O efeito imediato
  62. Como numa comédia de erros
  63. Minha primeira transgressão
  64. É só do lado de cá
  65. A esse princípio
  66. Não nos deverá
  67. A coisa boa
  68. Se o conflito é a graça
  69. A transgressão original
  70. Transgredir é escolher
  71. No espaço recém-aberto da minha transgressão
  72. Em si mesmo nada há de terrível
  73. O conceito teológico
  74. Bastaria a morte
  75. A ambivalência do poder
  76. A maldição do pó
  77. Há algo de terrível na autodeterminação
  78. Minha disciplina pessoal mais antiga
  79. Essa crueza
  80. Não é completa
  81. Essas histórias
  82. Na noite de ontem para hoje
  83. O outro símbolo universal
  84. A serpente é mentirosa
  85. O primeiro desdobramento
  86. Foi mais ou menos nessa época
  87. Todas as lendas
  88. Minha convicção