Manuscritos estocados sob a rubrica 'Manuscritos'
10 de Outubro de 2008

É o momento decisivo

Manuscritos

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É o momento decisivo da história e Eva e a serpente, que são os dois personagens mais marginais da narrativa, estão sozinhos no palco. Adão está longe ou não está prestando atenção, e quando se aproximar as palavras definitivas já terão sido ditas. Deus está em outra parte, fiel à sua decisão de deixar o primeiro casal em paz à exceção de uma visita ocasional; quando ele chegar, as brechas derradeiras já terão sido abertas.

Neste que é o mais prenhe de conseqüências dos momentos, apenas Eva, a serpente e o leitor (isto é, eu e você) estamos presentes para testemunhar a coisa toda. Nem mesmo Deus está aqui, mas eu e você estamos, porque o narrador nos amarrou e nos arrastou até este ponto. Nem mesmo Deus sabe o que está acontecendo, mas nós sabemos, porque o narrador segura o nosso rosto e nos obriga a olhar.

No relato da queda o Narrador é mais onisciente do que o próprio Deus.

03 de Outubro de 2008

Individuação

Manuscritos

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Individuação é o processo pelo qual o protagonista da história – isto é, você – acaba descobrindo quem realmente é.

Os protagonistas de todas as histórias, lendas, filmes e contos de fada a que somos submetidos funcionam, neste sentido, como substitutos vicários e temporários de nós mesmos. As agruras e vitórias dos personagens da ficção servem de indicação e símbolo de nossos próprios desafios rumo à condição de indivíduo.

Quando o pequeno hobbit dá o seu primeiro passo para longe do Condado, quando Luke Skywalker recebe um chamado urgente para abandonar Tatooine, quando a sereiazinha afunda os pés descalços na areia seca, estão todos tomando o primeiro passo para longe de seu círculo de conforto, rumo à individuação. No final da jornada o herói terá descoberto sua vocação e será capaz de conciliar passado, presente e futuro, mas no caminho será obrigado a resolver enigmas e matar dragões – sendo que o maior enigma e o maior dragão que terá de enfrentar será invariavelmente ele mesmo.

01 de Outubro de 2008

A plenitude dos tempos

Manuscritos

Quando chegou o dia de Pentecostes/Qüinquagésimo estavam todos reunidos de comum acordo.

De repente veio do céu um ruído, como o de um vento forte e impetuoso, e encheu toda a casa onde eles estavam reunidos. Apareceram então línguas como que de fogo, que se ramificavam e pousaram sobre cada um deles. Todos foram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, de acordo com o que o Espírito Santo concedia que falassem.

Havia residindo em Jerusalém, naquela ocasião, homens judeus religiosos de todas as nações que há debaixo do céu. Por causa daquele ruído juntou-se uma multidão; estavam todos confusos, porque cada um os ouvia falar em seu próprio idioma. Todos estavam espantados e admirados.

– Vejam – eles começaram a dizer uns aos outros, – não são da Galiléia todos esses que estão falando? Como então cada um de nós pode ouvi-los em seu próprio idioma, da terra em que nasceu? Porque todos nós, da Pártia, da Pérsia, de Elã, residentes na Mesopotâmia, na Judéia, na Capadócia, em Ponto e na província da Ásia, na Frígia, na Panfília, no Egito e nos distritos da Líbia ao redor da cidade de Cirene, romanos residentes, tanto judeus de nascimento quanto convertidos ao judaísmo, de Creta e da Arábia, os ouvimos falar das grandezas de Deus em nossas próprias línguas.

Todos estavam boquiabertos e perplexos.

– O que será isso? - perguntavam uns aos outros.

Atos 2:1-12

Porque a resposta da narrativa (isto é, da mão divina) à iniciativa organizatória de Pedro é imediata, fulminante e inequívoca. O que acontece em seguida é o único momento verdadeiramente sobrenatural de toda a narrativa do Novo Testamento; talvez da Bíblia inteira.

Jesus fizera levantar os mortos, mas o mesmo havia realizado Eliseu; dera visão aos cegos, mas antes dele o Rio havia levado as chagas de Naamã; o Filho do Homem subira ao céu, mas tinha sido precedido por Elias. Até este momento o poder divino reservara para si recatos, apegara-se ao rigor de seu método. O Espírito descera, cegante, mas sempre sobre um escolhido ou outro; guiara, mas pela mão do profeta; falara, mas à distância segura do Outro. O próprio Jesus, que venceria com uma palavra a própria morte, não havia sido capaz de superar por completo o obstáculo de ser ele mesmo: a incontornável dificuldade de não ser a pessoa com quem estava falando.

Porém agora, enquanto os seguidores do Cristo desaparecido aguardam reunidos um momento que não sabem se reconhecerão, o espírito de Cristo derrama-se por completo e sem recatos sobre todos e sobre cada um. As línguas de fogo descem sem distinção: todos os reunidos contemplam sem véu a nudez divina e sua glória, e todos imediatamente transbordam dela.

A Encarnação do Filho, em sua atordoante exuberância, aparentemente não bastara para um Deus suficientemente ambicioso. A divindade provera para si, através do precedente de Jesus, uma segunda e definitiva encarnação, efetuada pelo derramamento profuso da consciência universal de Cristo sobre os que eram tocados por ele. Deus revelava finalmente seu plano: um Filho singular não lhe bastava; seu projeto era ter uma multidão de Filhos, uma comunidade vertiginosa e viva de conspiradores forjados segundo o molde revolucionário da mente de Cristo.

E, quando acontece, acontece sobre todos sem exceção, homens e mulheres, velhos e adolescentes. O texto enfatiza continuamente esta unanimidade pelo uso acumulado das expressões “todo”, “todos” e “cada um”. Nisto, na verdade, está a singularidade da coisa toda: nesta perfeitamente cavalheiresca abrangência de generosidade, sem precedentes e sem sucessores na história de todos os cultos. Em todas as tradições, o sobrenatural é de algum modo seletivo; o que acontece no dia de Pentecostes, em seu generoso abraço, é sobre-sobrenatural.

Que o evento está colocado no relato de modo a contrastar com a recente votação orquestrada por Pedro não deve haver nenhuma dúvida. Pois a iniciativa de Pedro é, no fim das contas, elitista e institucional; o derramamento do espírito é universal e democrático (para não dizer socialista ou, ainda melhor, anárquico).

A votação de Pedro, de iniciativa humana, é delimitadora, fazendo apenas confirmar e legitimar as categorias pré-estabelecidas; o derramar do Pentecostes, de iniciativa de Cristo, é igualitário, dissolvendo em sua embaraçosa unanimidade todos os rótulos e categorias.

A votação de Pedro é sensata, ordenada e ordeira, mas nada realmente produz; o derramamento do espírito é loucura e vento e ruído e caos e, nisto, todos se entendem e todos serão transformados.

De um universo de muitos, a eleição de Pedro peneira dois e premia finalmente um. O espírito escolhe todos e sobre todos reparte a sua honra.

A votação de Pedro é manobra de exclusão, enquanto o sopro do espírito é abraço todo-inclusivo; mesmo os “de fora” são inequivocamente tocados pelo milagre (”ouvimos falar das grandezas de Deus em nossas próprias línguas”), e num instante estarão incluídos nele.

Impossível não ver, em toda essa subversão, a marca distintiva do homem de Nazaré. Pode ser possível perder Jesus de vista no livro de Atos, mas este definitivamente não é o momento. Jesus dissera que teria de partir para que seu espírito viesse; garantira que não deixaria os discípulos orfãos; assegurara que todas as nações veriam a sua glória. Eram promessas grandes e tremendas, mas seu plano se mostrara ainda mais arrojado.

Pois o que testemunhamos neste dia de Pentecostes é nada menos, senhoras e senhores, do que a volta de Cristo.

Jesus dissera que na sua vinda seria visto num instante do oriente ao ocidente, e aqui estão todos – da Pártia, da Pérsia, de Elã, residentes na Mesopotâmia, na Judéia, na Capadócia, em Ponto e na província da Ásia, na Frígia, na Panfília, no Egito e nos distritos da Líbia ao redor da cidade de Cirene, romanos residentes, tanto judeus de nascimento quanto convertidos ao judaísmo, de Creta e da Arábia – sendo tocados por ele e contemplando sem intermediários o seu esplendor.

É por isso que Jesus insistia ser necessário que ele fosse, isto é, não permanecesse neste mundo fazendo no nosso lugar o que não éramos capazes de fazer; era por isso que ele assegurava que seus discípulos fariam maravilhas maiores do que as que ele havia feito. Era esta sua promessa, era este o seu plano. Não devemos olhar para o céu aguardando a volta de Cristo, porque o Pentecostes explica-nos sem rodeios que ele voltou imediatamente.

A volta de Cristo somos nós.

26 de Setembro de 2008

Outro resultado

Manuscritos

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Outro resultado do recato da narrativa está em que, embora a queda traga consequências terríveis para todos os envolvidos (inclusive, é preciso lembrar, para a serpente), não temos pela letra do texto como saber se a trama se encaixa no molde clássico da tragédia.

Para Aristóteles, o que caracteriza a tragédia está em que o reverso de fortuna que desaba sobre o protagonista deve ser desencadeado por um erro de julgamento, e na história da queda simplesmente não sabemos o bastante para concluir que houve algum erro de julgamento – e, se houve, de quem foi.

O erro de julgamento poderia ter ocorrido da parte de Deus, por ter confidenciado demais à serpente (de outra forma, como a serpente poderia saber da natureza da árvore e das consequências do seu consumo?). Poderia ter sido de Adão, por não ter enfatizado o bastante os perigos da Árvore diante de Eva (de outra forma, não teria Eva se mostrado mais firmemente preparada para resistir ao seu esplendor?). Poderia ter sido de Eva, por não ter visto motivo para considerar a opinião da serpente menos digna de confiança do que a de Deus (num mundo sem maldade, como suspeitar do mal? Num mundo sem limites, como entender a única proibição?). E poderia ter sido da serpente, por ter compreendido mal uma benevolente ou inofensiva intenção divina (de outra forma, por que iria desejar a queda do homem?).

Porém, como sabemos pouco da história prévia de todos, em especial da serpente, não há como decidir. E, pela mesma razão, não há como determinar, de todos, qual é o protagonista da história.

Pelo menos ainda não.

19 de Setembro de 2008

O silêncio da história

Manuscritos

36

O silêncio da história sobre os motivos da serpente mostrou-se um tremendo embaraço para os que se propuseram a interpretar a narrativa da queda ao longo dos milênios. Praticamente nenhum intérprete resistiu à tentação de preencher com sua própria teoria a lacuna deixada pelo texto.

Segundo uma tradição judaica, o que motivou a serpente a precipitar a queda foi sua inveja das capacidades do ser humano, que em muitos sentidos equiparavam-se às suas. Outra interpretação sugere que a serpente foi ela mesmo enganada ou possuída por um anjo caído, Satanás (cuja queda e cujos motivos precisam portanto ser explicados em outro lugar).

A maior parte dos cristãos, seguindo uma sugestão lançada pelo próprio Jesus, passou a identificar a serpente com o próprio Satanás – a despeito do fato de a narrativa explicar, de forma um tanto desconcertante, que se tratava de um animal como qualquer outro.

Na interpretação de muitas seitas gnósticas, a serpente é o secreto e incompreendido herói da história. Sua boa intenção era salvar Adão e Eva do cativeiro de um deus menor e perverso, cujo plano era mantê-los para sempre longe da verdade, incapazes de reconhecerem a chama da sua própria divindade.

Muito menos ambiciosa e talvez menos ambígua, tudo que a narrativa tem a dizer sobre a serpente é que ela era “o mais astuto de todos os animais do campo que o Senhor Deus tinha feito”.

Deus não tem um álibi, ou aparentemente não requer um.