Manuscritos estocados sob a rubrica 'Manuscritos'
05 de Setembro de 2008

A serpente permanece um enigma

Manuscritos

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A serpente permanece um enigma também porque, embora conheçamos bastante sobre o seu crime, desconhecemos por completo os seus motivos. Dos personagens que a narrativa apresentou até agora acompanhamos algum desenvolvimento dramático. De Deus, Adão e Eva conhecemos os poderes, os limites, a missão.

Quando a serpente comparece na história tudo que está ali para nos receber é o mistério da sua presença, o enigma da sua necessidade. Sabemos como funcionam as narrativas (esta, mesmo sendo a história das primeiras coisas, não é a primeira história que ouvimos), e sabemos que a narrativa caminharia para o seu inevitável fim, com desdobramentos espetaculares para a relação entre Deus e o homem, sem a presença necessária de um vilão.

Mas já que somos premiados com um criminoso, a primeira coisa que exigimos conhecer são os seus motivos, isto é, a natureza da sua relação – sua tensão – com os demais personagens. Porém, quando descobrimos alguma coisa sobre os poderes e sobre a missão da serpente, é pelo que o proprio vilão faz e diz, não pelo que o narrador nos alerta ou confidencia sobre ele.

O narrador, que nos levara pela mão até aqui, deixa-nos de repente à mercê da serpente. Deixa-nos sozinhos inclusive para ponderar porque raios ele faria uma coisa dessas.

29 de Agosto de 2008

A narrativa é límpida

Manuscritos

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A narrativa é límpida e impoluta; nem ainda a serpente será capaz de contaminá-la. Se o texto esquiva-se até o fim de usar os termos “tentação” e “pecado” é porque isso seria atribuir à proibição e seu conflito uma nuança moral que não estava originalmente lá.

Até este momento a interdição aparece na história como um conflito muito real, mas de modo algum um conflito ético.

De um lado, Deus diz “não coma esse fruto” do mesmo modo que um adulto diz a uma criança “olhe para os dois lados antes de atravessar a rua” e “não beba a garrafa que tem o rótulo da caveira”. Ou seja, equivale a dizer “se você não me der ouvidos, as consequências podem ser terríveis; nem mesmo eu posso garantir ser capaz de remediá-las”. Nada na sua postura ou no enunciado da proibição sugere que a morte seria mais do que consequência – terrível, porém de modo algum punitiva – da transgressão.

De seu lado Adão e Eva, enquanto contornam a árvore da morte, talvez sintam-se atraídos pelo seu brilho ou curiosos diante das suas promessas – mas a atração que os inflama e o conflito que os aperta nada tem de moral. Se comerem, Deus poderá acusá-los de terem feito algo estúpido, infantil ou irracional, mas não exatamente desonesto.

O conflito que impeliu até este momento a narrativa é puramente mecânico, o homem sozinho diante de um terrível interruptor. Paira sobre o protagonista o peso da responsabilidade e talvez o da calamidade iminente, mas não o dilema ético.

É a serpente que imprime à narrativa um fundamento moral.

Porém nesta esquina da história está a serpente, e é precisamente a intervenção da serpente, sua insinuante deliberação, que imprime à narrativa um fundamento moral. É a sugestão da serpente que transforma a formulação inequívoca da proibição numa questão de certo e errado.

Fique portanto muito claro: como fez com Adão e Eva, a serpente tentará tudo para nos convencer de que esse fundamento moral encontrava-se embutido no conflito original.

A admonição da própria narrativa, no entanto, é não acreditarmos em sugestão alguma da serpente. Pensar no que está acontecendo em termos de “tentação” e “pecado” é, precisamente, cair no seu engano.

27 de Agosto de 2008

São poucos os que ENTER

Manuscritos

Metade dos cristãos digita os seus próprios comandos e pressiona a tecla Enter de Deus, na esperança de que Deus comece a fazer magicamente o que eles querem. A outra metade digita os comandos de Deus e aperta a sua própria tecla Enter, na esperança de começarem a fazer magicamente o que Deus quer.

A boa nova, a assustadora boa nova, é que Deus quer programadores, não usuários.

Ele espera que digitemos os nossos próprios comandos e apertemos a nossa própria tecla Enter e ainda assim – com toda a responsabilidade, todo o risco e mágica nenhuma – produzamos um mundo que promova a graça (ou seja, a beleza, o cavalheirismo e a criatividade) e honre a herança do seu idealizador.

* * *

Leia também:
Além da submissão
Nós, protestantes

22 de Agosto de 2008

A serpente é astuta

Manuscritos

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A serpente é astuta e não revelará com facilidade o seu verdadeiro papel numa narrativa que, em termos estritos, não precisa dela para levar o seu conflito adiante. Requer-se-á uma outra forma de astúcia para entender o que a serpente está fazendo na história do Éden, e serão necessários dois mil anos para que Jesus contribua com uma interpretação esclarecedora.

Por enquanto deverá bastar contrapor a singeleza do texto às evasivas complexidades da nossa própria tradição. Para começar, é necessário contornar os rótulos que intérpretes e tradições dão ao que está acontecendo. Dar nomes é interpretar, e as interpretações acabam resvalando para dentro das histórias antes que cheguemos a elas pela primeira vez (e, precisamente da mesma forma que a história da Queda prescinde da serpente, o significado de uma narrativa prescinde das interpretações que lhe impõe a tradição).

Quem se aproxima do terceiro capítulo de Gênesis é invariavelmente guiado por um título que não faz parte do texto original. Estará, sem escapatória, na sua própria edição de Bíblia: “A tentação de Adão e Eva” – ou alguma variante desse mesmo preconceito. Este crédito de abertura, inserido pelos que tinham a boa intenção de catalogar em compartimentos estanques o inquieto fluido da narrativa bíblica, é pelo menos tão enganador quanto a serpente.

Pois a narrativa, incrivelmente, não usa a palavra tentação nem qualquer uma de suas variantes; não usa a palavra pecado, nem qualquer uma de suas variantes; não remete de forma direta (e quem sabe mesmo indireta) a qualquer um desses conceitos. Quando damos a este episódio o nome de “tentação de Adão e Eva” e à sua resolução o nome de “pecado original”, imprimimos à história uma interpretação retrospectiva que ela mesma procura evitar.

E por uma boa razão.

15 de Agosto de 2008

Porém quando percebo

Manuscritos

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Porém quando percebo, no meu sonho, a presença de uma ameaça secreta que meus amigos desconhecem, a bem-aventurança do grupo se transmuta imediatamente em material mais frágil e mais fluido, mais difícil de segurar entre os vãos dos dedos.

Meu sentimento de segurança e bem-estar estava ligado à sensação de ser parte indeferenciada do grupo: não se originava do fato de sentir-me alguém em particular, mas de sentir-me um diluído entre muitos. A aparição da serpente que ninguém mais parecia ver mudava tudo, porque me obrigava a um posicionamento de que eu preferia poder me esquivar.

O mero fato de enxergar uma ameaça que nenhum deles era capaz de perceber já me afastava, talvez irremediavelmente, dos demais componentes do grupo. Apesar de que nada mudara no acolhimento dos meus companheiros, no que me dizia respeito uma enorme distância se abrira sem aviso e sem cura entre nós.

Por outro lado, a serpente estava logo ali, caminhando impunemente entre as pernas dos meus amigos. Eu não sabia há quanto tempo aquela ameaça estivera entre nós ou o que a havia mantido oculta até aquele momento, mas agora eu via um perigo muito real, muito próximo, à minha integridade e à dos meus companheiros.

Meu dilema estava em que para proteger o grupo eu precisava apontar uma ameaça que o próprio grupo não aparentava perceber. Meu dilema estava em que, para proteger o grupo, eu precisava dar um passo para além da indiferenciação – perdendo, assim, todas as seguranças e privilégios que ser parte indiferenciada do grupo me havia conferido até aquele momento.

A singularidade daquela percepção me pressionava na direção de um processo que eu buscara por longos anos evitar: aquilo que Jung chamou de individuação, a penosa tarefa de se tornar um indivíduo.