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	<title>A Bacia das Almas &#187; Homens e Mulheres</title>
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	<description>Onde as ideias não descansam</description>
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		<title>Sem palavras</title>
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		<pubDate>Sat, 01 Oct 2011 08:59:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Homens e Mulheres]]></category>
		<category><![CDATA[aforismos]]></category>
		<category><![CDATA[humor]]></category>

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		<description><![CDATA[Pode ser no entanto o momento de lembrar a única regra que, diz-se, Mae West usava e recomendava para lidar com os homens: “Diga aos bonitos que são inteligentes, diga aos inteligentes que são bonitos”. Ignoro, naturalmente, o que ela teria a dizer a mim. &#160; Paulo Brabo, em comentário a uma discussão gerada por [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Pode ser no entanto o momento de lembrar a única regra que, diz-se, Mae West usava e recomendava para lidar com os homens: “Diga aos bonitos que são inteligentes, diga aos inteligentes que são bonitos”.</p>
<p>Ignoro, naturalmente, o que ela teria a dizer a mim.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p align="right"><small><strong>Paulo Brabo</strong>, em comentário<br />
a uma discussão gerada por <a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/a-gripe-levou-me-para-a-cama/">este documento</a></small><br />
<span style="color:#B0B0A0"><small>Da série: Do tempo em que a Bacia era aberta a comentários</small></span></p>
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		<title>Eva arrependida e de luto</title>
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		<pubDate>Fri, 30 Sep 2011 09:43:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Divino preconceito]]></category>
		<category><![CDATA[Homens e Mulheres]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
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		<description><![CDATA[Se houvesse sobre a terra uma fé tão grande quanto é a recompensa de fé aguardada no céu, nenhuma de vocês, amadas irmãs, desde o momento em que conheceram o Senhor e aprenderam [a verdade] sobre sua própria condição [isto é, a condição feminina], teria desejo por um estilo de vestimenta vistoso demais (para não [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Se houvesse sobre a terra uma fé tão grande quanto é a recompensa de fé aguardada no céu, nenhuma de vocês, amadas irmãs, desde o momento em que conheceram o Senhor e aprenderam [a verdade] sobre sua própria condição [isto é, a condição feminina], teria desejo por um estilo de vestimenta vistoso demais (para não dizer vaidoso demais).</p>
<p>Usariam, ao contrário, vestes humildes, de modo a transmitir uma aparência miserável, andando pelo mundo como Eva arrependida e de luto, a fim de através de toda veste de penitência expiar de modo mais completo aquilo que [cada uma de vocês] deriva de Eva:<span style="float:right; text-align:right; width:35%; color:#7c836d; margin:12px 0 12px 12px; font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps; font-size:1.4em; line-height: 1.3em">Você persuadiu aquele que o diabo não foi corajoso o bastante para atacar.</span> a vergonha, quero dizer, do primeiro pecado, e a infâmia da perdição humana.</p>
<p>&#8220;Multiplicarei grandemente a dor da tua concepção e em dor darás à luz filhos; o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará.&#8221;</p>
<p>E vocês não sabem que são, cada uma de vocês, uma Eva? A sentença de Deus sobre o sexo de vocês persiste nesta era; necessariamente, a culpa persiste também. </p>
<p>Você, mulher, é o portão de entrada do inferno; é a descerradora da árvore [proibida]; é a primeira desertora da lei divina. Você persuadiu aquele que o diabo não foi corajoso o bastante para atacar. Você destruiu, e de modo tão frívolo, a imagem de Deus, que é o homem. Como consequência da sua deserção &#8211; isto é, a morte, &#8211; até mesmo o Filho de Deus teve de morrer.</p>
<p>E você pensa ainda em adornar-se acima e além de sua túnica de pele? Ora, imagino que se no princípio do mundo os milesianos já criassem ovelhas, os serianos já fiassem árvores, os tirianos já tingissem, os frígios já bordassem com a agulha e os babilônios com o tear; se pérolas já cintilassem, se pedras de ônix já reluzissem e se o ouro já tivesse brotado do solo; se o espelho já tivesse se tornado coisa tão comum, então Eva, mesmo depois de expulsa do paraíso, mesmo depois de morta, teria também cobiçado todas essas coisas.</p>
<p>Não mais, portanto, a mulher deve agora desejar ou conhecer, se é que deseja voltar a viver, aquilo que quando viva não possuía nem conhecia. Todas essas coisas são a bagagem da mulher em seu estado de condenação e morte, instituídas como que para acentuar a pompa de seu funeral.</p>
<p align="right"><small><strong>Tertuliano</strong> (160-220 d.C.), pai da igreja,<br />
em <a href="http://www.tertullian.org/anf/anf04/anf04-06.htm">Sobre a indumentária feminina</a></small></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug015.gif"></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2004/1926-appoio-moral/">Appoio moral</a> (Tertuliano estava vivo e com saúde em 1926 &#8211; e em Pernambuco)<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/sexo-entre-pares-o-homem-romantico-e-a-era-das-relacoes-igualitarias/">Sexo entre pares</a></p>
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		<title>Sexo entre pares: o homem romântico e a era das relações igualitárias</title>
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		<pubDate>Mon, 19 Sep 2011 08:53:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Homens e Mulheres]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[sexo]]></category>

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		<description><![CDATA[Embora queiramos por vezes encontrá-lo ou enxertá-lo em épocas a que não pertence, o homem romântico é invenção relativamente recente e demorou séculos para ser aprimorado, tendo se fixado na forma como o conhecemos hoje a coisa de duzentos anos. Talvez seu primeiro inventor tenha sido de fato o apóstolo Paulo, quando sonhou há dois [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Embora queiramos por vezes encontrá-lo ou enxertá-lo em épocas a que não pertence, o homem romântico é invenção relativamente recente e demorou séculos para ser aprimorado, tendo se fixado na forma como o conhecemos hoje a coisa de duzentos anos. Talvez seu primeiro inventor tenha sido de fato o apóstolo Paulo, quando sonhou há dois mil anos um homem que, embora permanecesse sendo cabeça da esposa (isto é, sem ter sua masculinidade ou sua primazia ameaçadas), teria sua relação com sua mulher caracterizada por <em>amá-la ao ponto de entregar-se por ela.</em> Nesse &#8220;entregar-se&#8221;, como foi se desdobrando culturalmente através dos milênios, está encapsulado todo o ideal romântico.</p>
<p>A manifestação mais antiga na cultura cristã da corrente que desembocaria no homem romântico parece ter sido a veneração de Maria, devoção que já era uma realidade potentíssima no quarto século da cristandade. Com o avançar dos séculos essa devoção idealizada ao feminino na pessoa da mãe de Deus foi transfigurada e glorificada na figura dos cavaleiros (sempre cristãos), os legítimos proto-românticos e campeões da ideologia do <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Amor_cort%C3%AAs">amor cortês</a> &#8211; com sua ênfase na bravura, na gentileza e na proteção da mulher.</p>
<p>Isso não quer dizer que os ideais do amor cortês fossem universalmente colocados em prática, ou que o mundo estivesse se tornando imediatamente mais seguro ou mais justo para as mulheres<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/sexo-entre-pares-o-homem-romantico-e-a-era-das-relacoes-igualitarias/#footnote_0_2650" id="identifier_0_2650" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="A gera&ccedil;&atilde;o apost&oacute;lica n&atilde;o esfriara ainda no t&uacute;mulo e a tradi&ccedil;&atilde;o crist&atilde; j&aacute; esquecera a postura de Jesus com rela&ccedil;&atilde;o &agrave; mulher. Agostinho (354- 430 d.C.) opinava seriamente que o homem &eacute; feito a imagem de Deus, mas n&atilde;o a mulher, e Tertuliano (160-220 d.C.) implorava &agrave;s mulheres que reconhecessem ser o &amp;#8220;port&atilde;o de entrada do inferno&amp;#8221;, respons&aacute;veis pela entrada do pecado no mundo e pela morte do Filho de Deus.
Foram s&eacute;culos dif&iacute;ceis para ser mulher, e a mera passagem do tempo n&atilde;o parecia melhorar as coisas: mil anos depois de Tertuliano, Tom&aacute;s de Aquino (1225-1274 d.C.) estava ainda endossando a opini&atilde;o de Arist&oacute;teles de que a mulher &eacute; essencialmente &amp;#8220;um homem malfeito&amp;#8221;, n&atilde;o possuindo como o homem uma alma racional e tendo sido feita apenas para &amp;#8220;assistir com a procria&ccedil;&atilde;o&amp;#8221;.
As coisas s&oacute; pioraram para condi&ccedil;&atilde;o feminina com os acenderes da Inquisi&ccedil;&atilde;o.">1</a></sup>. No período medieval e no início da era Moderna a mulher era idealizada por um lado, como ícone de pureza em Maria, e demonizada por outro, como emblema de perfídia nas feiticeiras. A mulher genérica e pura (a Virgem Maria) era venerada; a mulher do dia a dia, específica e impura, era com frequência vilipendiada, segregada e usada como bode expiatório.</p>
<p>Porém a figura do homem romântico atravessou as chamas indignas da Inquisição e sobreviveu ao apagar da cultura dos cavaleiros. Com o avançar da era moderna a demonização da mulher foi cedendo espaço à noção de que não há objetivo mais nobre para um homem do que amar e dedicar-se à sua mulher &#8211; mesmo que fosse ainda uma mulher idealizada, símbolo admirável de pureza mas sempre carecendo de proteção e de condução. A imagem da mulher, que parecia destinada a residir em extremos, deixou de ser a de um demônio e passou a ser a de uma flor.</p>
<p>Ao longo do século XIX o homem romântico e sua consorte, a mulher apaixonada, conquistaram lastro cultural suficiente para produzir uma imensa guinada na visão ocidental do casamento. Foi mais ou menos nessa época que a massa da sociedade decidiu que havia algo de intrinsecamente inaceitável nos casamentos arranjados. Os poetas criticavam a ideia fazia séculos, mas foram necessários esses séculos de transição para a sociedade aprender a sentenciar que o casamento &#8220;por amor&#8221; devia ser considerado norma cabível e ideal para todos, em todas as camadas sociais. O romantismo ganhara o coração popular. Como tudo na relação do casal deveria ser guiado pelo amor, e sendo que a voz da mulher era agora ouvida com cada vez maior seriedade (nesse período as mulheres lutaram e ganharam o direito a voto, e continuaram a lutar por direitos iguais em outras frentes), o casamento socialmente sancionado passou a ser aquele realizado por consentimento mútuo. </p>
<p>E em meados do século XX, precisamente no momento em que seu ideal havia conquistado uma indisputada supremacia no imaginário ocidental (e isso em grande parte graças à pregação de Hollywood), o homem romântico deixou de ser necessário, tendo sido tornado obsoleto pela revolução que veio a seguir. Pois nas décadas de 1960 e 1970 um novo paradigma passou a injetar-se implacavelmente nas veias da cultura e da sociedade, inaugurando a partir do selo &#8220;paz e amor&#8221; o que viria a se tornar a era das relações igualitárias.</p>
<p><strong>Sexo entre pares</strong></p>
<p>Nesse mundo novo a mulher encontrava (pelo menos em teoria) a plena paridade com o homem, passando a ser vista como agente tão livre quanto ele e detentora dos mesmos direitos. Essa igualdade passou imediatamente a refletir-se e a ser universalmente celebrada em todas as áreas: no modo como as mulheres se vestiam, no modo como ocupavam o espaço de trabalho, no modo como exerciam sua iniciativa e sua sexualidade dentro do casamento e fora dele. A mulher deixava de ser uma flor infantilizada e frágil que exigia condescendência e proteção paternalista, e passava a ser uma pessoa que merecia dos direitos de pessoa. A própria lei passou a ajustar-se de modo a incorporar essas novas concepções.</p>
<p>Os anos que gestaram essa nova mentalidade são às vezes chamados de Revolução Sexual, ou pelo menos costuma-se considerar que as duas coisas nasceram juntas. Essa porém foi uma revolução sexual no sentido de <em>revolução na dinâmica entre os sexos</em> muito antes e muito mais do que uma revolução de sexo livre. Não foi o sexo descompromissado e sem barreiras que ensinou ao homem a noção da igualdade entre os sexos, mas o contrário: a noção da igualdade estrita entre os sexos é que patrocinou o relaxamento mais ou menos universal dos escrúpulos sexuais que vigoravam anteriormente.</p>
<p>Durante séculos as legislações sexuais haviam existido primariamente para delimitar, conter e normatizar o uso do sexo como ritual de dominação. Num mundo de iguais, foram tomadas imediatamente por obsoletas. </p>
<p>Dito de outro modo, as correntes socioculturais que impulsionaram os anos 60 e 70 mudaram para sempre o modo como as pessoas enxergam a dinâmica do sexo e da sexualidade. Pela primeira vez na história o sexo deixou de ser visto como ilustração de uma relação de dominação, e passou a ser tido como testemunho inequívoco (e por vezes socialmente esperado) de uma postura de paridade e interesse mútuo. Ainda estamos aprendendo a ponderar o peso dessa reviravolta.</p>
<p>Aqueles anos inauguraram a postura geral que herdamos hoje: a de que o sexo mais casual é legítimo, desde que não seja ato constrangedor (isto é, não represente uma relação de dominação) para qualquer um dos participantes. Na verdade, o sexo forçado é praticamente a única expressão sexual que consideramos unanimemente ilegítima, e isso porque a presente cultura não admite (como permitia-se e até se incentivava antes) que o sexo tenha qualquer conotação de relação de poder. Da mesma forma e com a mesma intenção com que se decidira que igreja e estado devem viver em esferas independentes, promulgamos como necessária e irrevogável a separação entre poder e sexo.</p>
<p>No tempo do homem romântico era considerado inconcebível o casamento sem amor, mas as disparidades internas de poder na relação eram toleradas e às vezes desejadas. No nosso tempo é concebível sexo sem amor, mas em hipótese alguma o sexo sem respeito, o sexo sem correspondência &#8211; mesmo que seja a mais tênue e temporária das correspondências. O efeito mais duradouro e mais prenhe de consequências da revolução sexual foi esse: o de despir para sempre a relação sexual de seu estigma de ilustração de desigualdade. Para nós, quer sejamos libertinos ou conservadores, o sexo é agora (ou deve ser) invariavelmente o testemunho oposto: o de paridade e de interesse mútuo. </p>
<p>Num mundo de mudança acelerada como o nosso pode ser fácil esquecer <em>o quanto é recente</em> essa mudança de paradigma em relação aos sexos e ao sexo; num mundo que tem tão rapidamente se adequado a ela, pode ser fácil esquecer <em>o quanto essa mudança é radical</em> em vista do que prevaleceu por milênios antes dela.</p>
<p>O ser humano comum acompanha essas reviravoltas com parcelas iguais de interesse e de deleite, considerando-as em grande parte justas e naturais, e procurando a seu modo a ajustar-se aos ritmos e necessidades gerados pela nova mentalidade. O sistema anterior, que pressupunha um desequilíbrio perpétuo dos pratos da balança, é que lhe parece agora inaceitável e incompreensível<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/sexo-entre-pares-o-homem-romantico-e-a-era-das-relacoes-igualitarias/#footnote_1_2650" id="identifier_1_2650" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="O que explica em parte o fasc&iacute;nio contempor&acirc;neo por aqueles &uacute;ltimos momentos da hist&oacute;ria em que a separa&ccedil;&atilde;o de m&eacute;rito e de esfera entre os sexos era vista como coisa natural; &eacute; com esse assombro diante do que nos parece quase extraterrestre que se acompanha o seriado norte-americano Mad Men, que se passa em meados da d&eacute;cada de 1960.">2</a></sup>. Porém para aqueles de nós obcecados com questões de sexo e de moral sexual &#8211; leia-se: para os cristãos religiosos &#8211; a nova mentalidade parece representar a mais satânica das ofensas. Em especial, interpreta-se que a nova ordem constitua uma ameaça formidável às instituições gêmeas que crê-se representar o que há de mais duradouro e sacrossanto na tradição cristã e no projeto divino: o casamento e a família.</p>
<p>A grande controvérsia, no que diz respeito aos católicos, está centrada nas questões do celibato e da contracepção. Para evangélicos e protestantes, que endossam na prática (quando não na teoria) a legitimidade do sexo não-reprodutivo dentro do casamento, a era das relações igualitárias (e a postura vigente a respeito do sexo) representa uma ameaça em outras duas frentes: na aprovação tácita de sexo descompromissado e nos crescentes desafios à heteronormatividade.</p>
<p>Enquanto a nova mentalidade toma por legítima qualquer relação sexual que não ilustre uma relação de poder, a tradição cristã e a leitura tradicional do Novo Testamento não encontram brecha para qualquer relação sexual lícita fora do casamento (como vimos, uma corrente influente da tradição cristã não vê o sexo como legítimo mesmo <em>dentro</em> do casamento.). Partindo dessa disposição, interpretamos o presente relaxamento da sociedade com relação ao sexo como sendo sinal inequívoco da universal apostasia, a gargalhada final da Grande Prostituta.</p>
<p>A primeira grande curiosidade a respeito disso é que a ascensão das relações igualitárias pode ser vista como a vitória histórica e final de princípios de igualdade que são originalmente cristãos &#8211; e essa é uma ironia que deve ser devidamente saboreada. Pense o que quiser, a atmosfera cultural que respiramos é a materialização na vida real de um sonho que quando foi proferido representava um contrassenso e um desvario: o mundo, profetizado por Paulo, onde não há nem escravo nem livre, nem grego nem judeu, nem homem nem mulher. Numa palavra, um mundo de relações igualitárias. O mais idealista dos cristãos de dois mil anos de tradição cristã não ousaria sonhar uma realidade terrena em que essa imprevidência se concretizasse ou conquistasse verdadeiro espaço no imaginário coletivo, e é isso o que (aos trancos e barrancos, e acompanhado da devida torrente de contradições pertinentes à condição humana) tem acontecido. No mínimo, é este o mundo com o qual aprendemos a sonhar. </p>
<p>A segunda curiosidade é que a nova mentalidade representa a seu modo uma apropriação secular da noção cristã da supremacia do amor.</p>
<p>Estamos prontos a ficar chocados quando a sociedade tolera o sexo sem compromisso, mas nisso nos recusamos a enxergar o outro lado da moeda &#8211; que na nova norma a sociedade deixou de tolerar o que a igreja tolerou por séculos: sexo sem correspondência e sem mutualidade. Os mais promíscuos dentre nós intuem hoje, de modo natural, o que o Novo Testamento propunha subversivamente há dois mil anos: que só a igualdade, a plena horizontalidade, é plataforma sobre a qual se constrói legitimamente o amor. Esses caras galinhas que você condena podem não estar prontos para amar, mas saberão testemunhar que, se for para nascer, o verdadeiro amor nascerá a partir da mutualidade: &#8220;você é aceitável para mim e não me coloco acima de você&#8221;.</p>
<p>A seu modo, a nova mentalidade representa uma nova e improvável profissão social de fé, a de que igualdade e mutualidade devem preceder o amor. Não foi o sexo antes do casamento que a sociedade decidiu ser uma necessidade; foi a mutualidade como base de qualquer relação.</p>
<p>O Novo Testamento, que tem tão pouco a legislar sobre sexo e tanto a sonhar sobre fraternidade, promulga por todos os poros a importância da mutualidade. É na verdade muito provável que tenha sido a partir da herança de Jesus e dos desafios da graça que nossa cultura tenha esboçado seu projeto de imparcialidade universal.</p>
<p>A própria encarnação, isto é, a descida divina ao nível do ser humano de modo a poder olhá-lo nos olhos, não é mera demonstração de amor; é um hino à graça e portanto à paridade. Nem mesmo Deus ousou dizer que amava este mundo antes de estar aqui ralando conosco &#8211; e explicando ainda que todos aqui devem tratar-se com a mais escandalosa e estrita paridade. A encarnação é desse modo a manifestação mais formidável de um conceito evangélico que é reforçado de uma ponta a outra do Novo Testamento, o de que o amor legítimo é todo-inclusivo e portanto todo-horizontal: <em>ao próximo como a si mesmo.</em> </p>
<p>Não é justo, portanto, dizer simplesmente que a nova moralidade se satisfaz com a solução rasa do sexo sem amor; mais justo seria dizer que a nova mentalidade recusa-se a considerar possível ou desejável o amor que não parta de um princípio de paridade e de interesse mútuo. O sexo, que deixou de ser visto como ritual de dominação e passou a ser encarado como celebração de paridade, encontrou essa brecha para dobrar-se à supremacia do amor.</p>
<p>Aqui reside o contrassenso do ressentimento evangélico contra a noção do sexo &#8220;consensual&#8221;, a ideia socialmente aceita de que deve ser considerada em princípio legítima toda relação sexual, mesmo a mais distraída, que [1] for decidida e executada de comum acordo pelos participantes, [2] demonstrando desse modo não ser ilustração de uma relação de dominação.</p>
<p>Para os evangélicos o sexo consensual é testemunho do quanto a sociedade está perto de sancionar a mais completa promiscuidade; para a sociedade, ele é testemunho do quanto estamos levando a sério nossos esforços de separar sexo de poder.</p>
<p>O próprio casamento, se persiste no ocidente (e isso quer dentro quer fora da subcultura cristã), é inteiramente transfigurado: suas relações internas são na verdade o oposto do que era tido como norma anteriormente. O casamento é agora visto como uma relação entre agentes independentes, equivalentes e com direitos estritamente iguais. Tanto é assim que qualquer desequilíbrio nessa dinâmica interna pode ser tomado como motivo para invalidá-lo social ou juridicamente. </p>
<p>O paradoxo está em que a igreja, defensora autorizada da família, do casamento e do amor, tolerou por quase dois milênios <em>o casamento</em> (e portanto o sexo) <em>não-consensual.</em> Hoje em dia, devidamente instruído pela sociedade sobre o mérito evidente da consensualidade, não há cristão que discorde que o compromisso do casamento deve ser decidido livremente pelos cônjuges e somente por eles. Porém sexo consensual quer dizer sexo igualitário, e isso os cristãos absolutamente não conseguem consentir. A igreja mostra-se disposta a ser corrigida pela cultura apenas naquilo que não ameace as suas posições oficiais (e portanto o alcance de seu próprio poder sobre a sociedade), e nisso demonstra ser ainda mais culturalmente condicionada do que a sociedade que condena.</p>
<p>Hoje a grande parte dos evangélicos saberá reconhecer que Paulo mantinha-se culturalmente condicionado quando aprovava tacitamente a escravatura (&#8220;vocês, escravos, obedeçam em tudo aos seus mestres&#8221;) e quando sancionava a noção vigente do status inferior da mulher (&#8220;que as mulheres se calem nas assembleias e se mantenham em submissão, como afirma a própria Lei&#8221;, e &#8220;não permito à mulher ensinar e governar o homem&#8221;), mas uma parcela muito menor admitirá que ele estava culturalmente condicionado quando condenava a homossexualidade.</p>
<p>Porém, do mesmo modo que não tinha como vislumbrar uma sociedade sem escravos e uma sociedade que decidisse pela estrita igualdade da mulher, Paulo não tinha como antever a noção contemporânea de relação homossexual igualitária.</p>
<p><a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/novo-testamento-a-supremacia-e-o-carater-subversivo-do-amor/">Como vimos</a>, Paulo não conseguia conceber sexo que não fosse um exercício de defraudação, o emblema claro de uma relação de dominação, e portanto inerentemente vergonhoso para uma das partes. Ele achava que isso era particularmente verdadeiro no que diz respeito às relações homossexuais, e tinha muitos motivos culturais para pensar assim. A relação carnal entre homens adultos e meninos na antiga Grécia, por exemplo, tinha seu caráter legitimado justamente pela desigualdade de idade e de papéis entre os seus participantes. Quando o menino atingia a puberdade e o sexo passava a ser &#8220;entre iguais&#8221;, a relação era encerrada (ou perdia a aprovação social) porque cria-se que ela perdia o caráter didático (isto é, de dominação e submissão) e portanto a legitimidade.</p>
<p>Devidamente doutrinada pelas ideias subversivas do amor e da mutualidade, propostas pelo Novo Testamento e não inteiramente abafadas pela igreja, a sociedade defende hoje em dia a postura oposta. A relação homossexual contemporânea é tida como legítima precisamente porque é igualitária, isto é, porque não ilustra ou perpetua uma relação de dominação e poder<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/sexo-entre-pares-o-homem-romantico-e-a-era-das-relacoes-igualitarias/#footnote_2_2650" id="identifier_2_2650" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="&Eacute; por isso que, ao contr&aacute;rio do que pressagiam alguns cr&iacute;ticos, a legitima&ccedil;&atilde;o da homossexualidade n&atilde;o implica que a sociedade se mostrar&aacute; pronta a aprovar qualquer rela&ccedil;&atilde;o sexual que era condenada anteriormente, especialmente a pedofilia &amp;#8211; porque, ao contr&aacute;rio da rela&ccedil;&atilde;o igualit&aacute;ria entre adultos, a pedofilia pressup&otilde;e uma rela&ccedil;&atilde;o intrinsecamente desigual, e disso aprendemos a tentar proteger todos e qualquer um.">3</a></sup>. Como está fundada na mutualidade, passamos a crer que não é inconcebível que acabe sendo atingida pelo amor.</p>
<p>A questão, portanto, não está em determinar se durante dois milênios de tradição cristã a conduta homossexual foi considerada lícita ou não; a questão está em reconhecer que foram os ideais cristãos do amor e da mutualidade que criaram um mundo em que só o amor entre iguais pudesse ser considerado legítimo.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug018.gif"></p>
<p>&nbsp;</p>
<b><small>NOTAS</small></b><ol class="footnotes"><li id="footnote_0_2650" class="footnote">A geração apostólica não esfriara ainda no túmulo e a tradição cristã já esquecera a postura de Jesus com relação à mulher. Agostinho (354- 430 d.C.) opinava seriamente que o homem é feito a imagem de Deus, mas não a mulher, e Tertuliano (160-220 d.C.) <a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/eva-arrependida-e-de-luto/">implorava às mulheres que reconhecessem</a> ser o &#8220;portão de entrada do inferno&#8221;, responsáveis pela entrada do pecado no mundo e pela morte do Filho de Deus.<br />
Foram séculos difíceis para ser mulher, e a mera passagem do tempo não parecia melhorar as coisas: mil anos depois de Tertuliano, Tomás de Aquino (1225-1274 d.C.) estava ainda endossando a opinião de Aristóteles de que a mulher é essencialmente &#8220;um homem malfeito&#8221;, não possuindo como o homem uma alma racional e tendo sido feita apenas para &#8220;assistir com a procriação&#8221;.<br />
As coisas só pioraram para condição feminina com os acenderes da Inquisição.</li><li id="footnote_1_2650" class="footnote">O que explica em parte o fascínio contemporâneo por aqueles últimos momentos da história em que a separação de mérito e de esfera entre os sexos era vista como coisa natural; é com esse assombro diante do que nos parece quase extraterrestre que se acompanha o seriado norte-americano <em>Mad Men</em>, que se passa em meados da década de 1960.</li><li id="footnote_2_2650" class="footnote">É por isso que, ao contrário do que pressagiam alguns críticos, a legitimação da homossexualidade não implica que a sociedade se mostrará pronta a aprovar qualquer relação sexual que era condenada anteriormente, especialmente a pedofilia &#8211; porque, ao contrário da relação igualitária entre adultos, a pedofilia pressupõe uma relação intrinsecamente desigual, e disso aprendemos a tentar proteger todos e qualquer um.</li></ol><div class='series_toc'><h3>Sexo e poder</h3><ol><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2011/sexo-e-poder/' title='Sexo e poder'>Sexo e poder</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2011/novo-testamento-a-supremacia-e-o-carater-subversivo-do-amor/' title='Novo Testamento: a supremacia (e o caráter subversivo) do amor'>Novo Testamento: a supremacia (e o caráter subversivo) do amor</a></li><li>Sexo entre pares: o homem romântico e a era das relações igualitárias</li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2011/na-cama-com-a-biblia/' title='Na cama com a Bíblia'>Na cama com a Bíblia</a></li></ol></div>]]></content:encoded>
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		<title>Novo Testamento: a supremacia (e o caráter subversivo) do amor</title>
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		<pubDate>Mon, 12 Sep 2011 10:22:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Homens e Mulheres]]></category>
		<category><![CDATA[cristianismo]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[reino de deus]]></category>
		<category><![CDATA[sexo]]></category>

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			<content:encoded><![CDATA[<p>No Novo Testamento a lógica do sexo como ritual de dominação é menos explícita, mas permanece sendo importante <em>substrato</em> (uma daquelas realidades sociais tão unânimes que permanecem ocultas, subindo poucas vezes à superfície da consciência ou do discurso) todas as vezes que o assunto é mencionado ou aludido. A questão é na verdade de importância fundamental para os autores do Novo Testamento, porque a mensagem de Jesus e sua boa nova são interpretadas por todos eles como representando um chamado universal ao <em>abandono dos mecanismos de controle e manipulação</em> que compõem o sistema deste mundo.</p>
<p>Muito acuradamente, portanto, os autores do Novo Testamento entenderam que a implantação do reino de Deus, conforme apregoado pelo filho do carpinteiro, representava uma ameaça a todos os sistemas de controle, porque requeria essencialmente um mundo de pares e irmãos, uma fraternidade de &#8220;próximos&#8221; &#8211; um mundo que renunciasse a todas as formas de dominação. Isso eles viram claramente na pessoa do Jesus dos evangelhos, e cada um à sua maneira e com sua própria ênfase buscou uma forma de articular e de perseguir esse projeto. Ninguém sabia (ninguém ainda sabe) como seria um mundo livre de sistemas de manipulação, mas nas décadas febris que se seguiram à despedida do crucificado seus seguidores não sonharam e não batalharam por outra coisa. A única coisa que sabiam ao certo é esse novo mundo seria encontrado, colonizado e definido pelo amor &#8211; o amor como haviam-no delineado a vida e as palavras do rabi de Nazaré, o amor com o qual ele os deixara absolutamente inflamados.</p>
<p>E nada permanece o mesmo depois de ser tocado pelo amor. A revolução do reino teria que virar o mundo do avesso, sem poupar qualquer área da cultura e do comportamento; incluiria por certo a esfera da sexualidade. E as indicações dadas por Jesus com relação ao assunto eram tão exigentes, sua descrição e aplicação do amor tão subversivas, que só restava em todos uma espécie de perplexidade.</p>
<p>Havia, por exemplo, a postura de Jesus com relação à sua própria sexualidade.</p>
<p>Se Jesus não foi casado (e temos pouca razão para crer que tenha sido), sua subversão começava por aqui. Numa sociedade como a sua, permanecer solteiro era uma insubordinação raríssima e sempre voluntária, e também por isso profundamente constrangedora. No judaísmo o celibato não era (e não é) exigido de sacerdotes, de santos ou de profetas; ao contrário, esperava-se de todos os judeus que se casassem, mas especialmente dos grandes e admiráveis. Para um homem, casar era uma demonstração basilar de masculinidade e portanto de valor; alguém que se dispusesse seriamente a candidatar-se ao cargo de rei e messias não se arriscaria a deixar de cumprir esse mais fundamental dos requisitos.</p>
<p>Mantendo-se solteiro, Jesus recusou-se a endossar todo esse modo de ver as coisas. Como parte de seu projeto de demolir as formas estabelecidas de dominação, ele voluntariamente negou-se a assumir (e portando aprovar) o modelo do grande macho dominante. O valor de um homem, conforme indicado pela sua postura, deixava de estar fixado na universalmente aprovada posição de provedor e de reprodutor. O rabi de Nazaré, pelo que sabemos, não se reproduziu das formas usuais, e suas necessidades eram elas mesmas providas por mulheres.</p>
<p>E esse último pode não ter sido o componente mais socialmente escandaloso da maneira como Jesus se relacionava com as mulheres. Provavelmente nenhum outro personagem da antiguidade, na história ou na ficção, <a href="http://www.baciadasalmas.com/2008/com-as-mulheres/">sentiu-se tão à vontade entre elas</a>. Naquela sociedade um homem não conversava com mulheres em público, um rabi não permitia que se juntassem ao seu grupo, um homem santo não deixava que elas o tocassem. Jesus fazia indiscriminadamente esse tipo de coisas, tratando mulheres como se fossem gente milênios antes que a ideia ganhasse qualquer popularidade &#8211; e se alguém chegou a lhe dizer que isso colocava em dúvida a sua autoridade ou sua masculinidade, só pode ter levado um formidável chega-pra-lá.</p>
<p>Outra área em que Jesus trabalhou de modo a minar a ideologia da supremacia do macho foi na questão do divórcio. Não sabemos como funcionavam exatamente as coisas no tempo dele, mas há indicações de que um homem podia pedir o divórcio &#8211; deixando a mulher desamparada pelo menos temporariamente e marginalizada para sempre &#8211; pelo mais banal dos motivos, e que a mulher não tinha como pedir o divórcio mesmo para proteger-se de um relacionamento tóxico ou abusivo. Como se sabe, Jesus insistiu que as coisas não eram tão simples assim, tomando o &#8220;serão um só corpo&#8221; do Gênesis como representando um compromisso de &#8211; pasme-se &#8211; amor, amor que deveria ser colocado em prática de modo a proteger o relacionamento e seus benefícios para ambas as partes, não só uma delas.</p>
<p>Ao proteger a mulher apanhada em adultério de seus algozes masculinos, Jesus chegou a relativizar a própria letra da Lei, argumentando basicamente que a universalidade do pecado deveria produzir não uma demanda universal por uma justiça estrita que ninguém é capaz de honrar, mas uma postura universal de misericórdia &#8211; lição que aprendemos a esquecer tão logo foi pronunciada.</p>
<p>Numa palavra, Jesus promulgou a supremacia do amor: apenas o amor deve e pode ser usado como bússola em todos os relacionamentos interpessoais. Todas as formas de dominação devem cair por terra diante desse regime de graça e aceitação, porque &#8220;o maior passa a ser quem serve&#8221;, e &#8220;não há maior amor do que dar a vida pelos amigos&#8221;. Num mundo onde todos são irmãos, toda generosidade é gratuita; a boa vontade não precisa ser extorquida pelos métodos usuais de dominação e temor, desejo e recompensa.</p>
<p>O amor mudava tudo, e foi desse modo que os discípulos entenderam a coisa. Paulo apresenta uma visão do casamento que, embora por vezes nos pareça terrivelmente retrógrada e patriarcal, virava de cabeça para baixo todas as expectativas de seu público de barbudos pouco sofisticados. Para ele, o marido deve <em>amar</em> a esposa como Cristo amou sua igreja, ao ponto de <em>entregar-se por ela</em>. Ouvida ao longo de dois mil anos, a coisa não tem como não soar como inofensivo lugar-comum, mas deve ter parecido subversiva ao ponto da ofensa para os ouvidos originais. </p>
<p>Para Paulo a visão tradicional do casamento <em>deve mudar</em> porque ele, mais do que ninguém, entende a boa nova como anúncio da derrocada de todas as formas de dominação que caracterizam o reino deste mundo e levantam barreiras artificiais entre as pessoas. Em Jesus não há judeu nem gentio, nem escravo nem livre, (e agora ele abandona o terreno do lugar-comum mesmo nos nossos dias) nem homem nem mulher.</p>
<p>Essa é uma postura delicada, especialmente porque Paulo não entende que essa nova paridade deve mudar de imediato os papéis convencionais dos agentes dentro das instituições deste mundo. Ele não hesita em chamar o homem de &#8220;cabeça&#8221; da mulher, e não tem nada a dizer contra a escravatura em si. Mas ao mesmo tempo insiste que devemos agir <em>como se essas barreiras formais não existissem</em><sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/novo-testamento-a-supremacia-e-o-carater-subversivo-do-amor/#footnote_0_2638" id="identifier_0_2638" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="Os que t&ecirc;m mulher sejam como se n&atilde;o a tivessem; os que choram, como se n&atilde;o chorassem; os que folgam, como se n&atilde;o folgassem; os que compram, como se n&atilde;o possu&iacute;ssem; e os que usam deste mundo, como se dele n&atilde;o usassem em absoluto, porque a apar&ecirc;ncia deste mundo passa (1 Cor&iacute;ntios 7:29-31).">1</a></sup>: o marido deve demonstrar seu amor entregando-se pela esposa, e a relação entre escravo e senhor deve ser como a de irmãos. Essas soluções podem nos parecer insuficientes, e talvez de fato sejam, mas não era menos que revolucionárias quando foram proferidas.</p>
<p>Importante é entender que, ao contrário do que alguns chegaram a concluir, a posição de Paulo sobre o casamento não desautoriza o sexo, mas absolutamente desautoriza &#8211; como prevalecia no sistema anterior &#8211; qualquer uso do sexo como ilustração de dominação. É por isso que, embora endosse a hierarquia clássica de supremacia masculina quando fala de outras áreas do casamento, quando fala de sexo ele usa imagens que evocam paridade e reciprocidade, nunca supremacia. &#8220;Os maridos devem amar as mulheres como a seus próprios corpos&#8221;, &#8220;quem ama a sua mulher ama-se a si mesmo&#8221; e &#8220;a mulher não tem autoridade sobre o seu próprio corpo, mas sim o marido; e o marido não tem autoridade sobre o seu próprio corpo, mas sim a mulher&#8221;. O centro do universo conjugal transferia-se dos testículos para um ponto indeterminado (ou para o encontro) entre o corpo do marido e o da esposa.</p>
<p>Não é inconcebível, portanto, que a chave para compreensão do caráter distintivo da sexualidade cristã em seus primeiros séculos esteja em que nenhum autor do Novo Testamento &#8211; e por certo nenhum de seus leitores depois deles &#8211; conseguia conceber um mundo em que as relações sexuais não fossem relações estilizadas de poder e portanto emblemas de formas ilegítimas de dominação. Não tinham como conceber que o sexo não representasse um rito de desequilíbrio e portanto de desigualdade, inteiramente degradante para a parte &#8220;dominada&#8221; ou &#8220;possuída&#8221;. Paulo tentou reformar essa visão dentro do casamento &#8211; o único espaço social em que o sexo é inevitável, &#8211; mas ele mesmo continuou considerando-a válida em todos os outros espaços.</p>
<p>Isso pode ajudar a explicar o mistério da obsessão cristã com o celibato e com a abstinência, posturas que não tinham precedente dentro do judaísmo e surgiram muito cedo na cultura da igreja (nos apócrifos Atos de Paulo, do segundo século, e nos Atos de Tomé, do terceiro, os apóstolos aparecem exigindo castidade total mesmo dentro do casamento). Alguns supõem que essa paixão pela abstinência tenha se originado de uma visão do sexo como animal no sentido de <em>descontrolado e sensual</em>, e portanto inerentemente impuro e antiespiritual. Porém a cultura judaica pré-cristã, que não pode ser acusada de ignorar questões de pureza e não negava que o sexo tem um forte componente animal/sensual, por vezes incentivava até mesmo o sexo recreativo, isto é, não-reprodutivo, dentro do casamento (e por vezes fora dele).</p>
<p>O motivo parece residir em que os primeiros cristãos adotaram muito cedo (ou capturaram-na imediatamente da atmosfera cultural) uma visão do sexo como animal no sentido de <em>brutal, lesivo e opressor</em>. Num mundo de iguais, em que &#8220;não há homem nem mulher&#8221;, não se encontrava espaço para uma prática como o sexo, que cria-se por natureza celebrar e ilustrar a desigualdade<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/novo-testamento-a-supremacia-e-o-carater-subversivo-do-amor/#footnote_1_2638" id="identifier_1_2638" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="Naturalmente a abstin&ecirc;ncia &eacute; ela mesmo uma pr&aacute;tica sexual e pode ser usada como emblema de poder. As virgens souberam-no nos primeiros s&eacute;culos do cristianismo e os padres sabem-no ainda hoje, mas essa &eacute; outra hist&oacute;ria &amp;#8211; uma hist&oacute;ria interessant&iacute;ssima, mas outra hist&oacute;ria.">2</a></sup>. Esse resvalar num desequilíbrio que separa ao invés de  unir talvez seja o que o apóstolo entendia como representando a grande tentação &#8220;da carne&#8221;.</p>
<p>Essa mesma chave pode ainda explicar o que Paulo encontra de particularmente abominável nas relações homossexuais, cujos participantes têm &#8220;seus corpos desonrados entre si&#8221;, &#8220;cometendo torpeza&#8221; e &#8220;recebendo em si mesmos a devida recompensa do seu erro&#8221;. Embora tenha desenvolvido uma visão igualitária do sexo dentro do casamento, aqui ele reflete a mesma visão &#8220;sexo como defraudação&#8221; que orientava as legislações do Pentateuco. Não se trata meramente de uma prática sexual fora do âmbito do casamento (como, digamos, o adultério) ou fora do convencional (como, digamos, o sexo de um homem com sua sogra). Sua descrição da transgressão e das suas implicações serve apenas para pontuar que para ele a conduta homossexual deve ser vista como especialmente condenável porque representa uma relação &#8220;desigual&#8221; (caracterizada necessariamente por um agente de dominação e outro de submissão) entre &#8220;iguais&#8221;. Como todas fora do casamento, uma relação sexual nesses termos não tinha como não ser degradante para uma das partes, e portanto inteiramente condenável para ambas &#8211; mas ele acredita o bastante no ideal da <a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/sexo-e-poder/">honra do macho</a> para considerar o leito homossexual particularmente repulsivo.</p>
<p>Para resumir: a partir das indicações e da postura de Jesus, os autores do Novo Testamento trabalharam de modo a [1] estabelecer os fundamentos de um status igualitário para a mulher dentro do casamento e na sociedade como um todo e [2] desautorizar qualquer uso do sexo como ritual de dominação (uso que, pelo menos dentro do casamento, o Antigo Testamento tacitamente incentivava). </p>
<p>Uma das consequências não planejadas dessas ênfases foi uma preocupação muito arraigada e muito popular, desde os primeiros séculos do cristianismo, com as ideias de celibato e de abstinência. Essa preocupação requereu a pública transfiguração da abrangência da palavra &#8220;casto&#8221;. A castidade, ideia que se reservava como virtude para as virgens abstinentes e para os casados que se preservavam de excessos e de contatos extramaritais, encontrou brecha para deitar-se no leito matrimonial e separar os mais apaixonados dos cônjuges<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/novo-testamento-a-supremacia-e-o-carater-subversivo-do-amor/#footnote_2_2638" id="identifier_2_2638" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="Uma das imagens recorrentes nos Atos ap&oacute;crifos dos ap&oacute;stolos &eacute; a de maridos que se levantam em insurrei&ccedil;&atilde;o contra os ap&oacute;stolos, acusando-os (com justi&ccedil;a, dentro da narrativa) de seduzir suas esposas &agrave; castidade.">3</a></sup>.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug020.gif"></p>
<p>&nbsp;</p>
<b><small>NOTAS</small></b><ol class="footnotes"><li id="footnote_0_2638" class="footnote">Os que têm mulher sejam como se não a tivessem; os que choram, como se não chorassem; os que folgam, como se não folgassem; os que compram, como se não possuíssem; e os que usam deste mundo, como se dele não usassem em absoluto, porque a aparência deste mundo passa (1 Coríntios 7:29-31).</li><li id="footnote_1_2638" class="footnote">Naturalmente a abstinência é ela mesmo uma prática sexual e pode ser usada como emblema de poder. As virgens souberam-no nos primeiros séculos do cristianismo e os padres sabem-no ainda hoje, mas essa é outra história &#8211; uma história interessantíssima, mas outra história.</li><li id="footnote_2_2638" class="footnote">Uma das imagens recorrentes nos Atos apócrifos dos apóstolos é a de maridos que se levantam em insurreição contra os apóstolos, acusando-os (com justiça, dentro da narrativa) de seduzir suas esposas à castidade.</li></ol><div class='series_toc'><h3>Sexo e poder</h3><ol><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2011/sexo-e-poder/' title='Sexo e poder'>Sexo e poder</a></li><li>Novo Testamento: a supremacia (e o caráter subversivo) do amor</li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2011/sexo-entre-pares-o-homem-romantico-e-a-era-das-relacoes-igualitarias/' title='Sexo entre pares: o homem romântico e a era das relações igualitárias'>Sexo entre pares: o homem romântico e a era das relações igualitárias</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2011/na-cama-com-a-biblia/' title='Na cama com a Bíblia'>Na cama com a Bíblia</a></li></ol></div>]]></content:encoded>
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		<title>Sexo e poder</title>
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		<pubDate>Mon, 05 Sep 2011 10:48:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Homens e Mulheres]]></category>
		<category><![CDATA[sexo]]></category>

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		<description><![CDATA[Que as três grandes ortodoxias que brotaram do tronco bíblico são sexualmente conservadoras não deve haver dúvida, mas às vezes penso que não gastamos tempo suficiente tentando determinar porquê. À primeira vista pode parecer que as coisas são assim porque religiões lineares como o judaísmo, o cristianismo e o islamismo tendem à ordenação e ao [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Que as três grandes ortodoxias que brotaram do tronco bíblico são sexualmente conservadoras não deve haver dúvida, mas às vezes penso que não gastamos tempo suficiente tentando determinar porquê. À primeira vista pode parecer que as coisas são assim porque religiões lineares como o judaísmo, o cristianismo e o islamismo tendem à ordenação e ao controle, e em seu processo civilizatório sentem-se impelidas a produzir mecanismos que refreiem o poder socialmente disruptivo do sexo. Desde <a href="http://www.baciadasalmas.com/2008/a-longa-rixa-da-misericordia-com-as-ordens-da-criacao/">o primeiro momento</a>, afinal de contas, Deus aparece levantando restrições e barreiras que protejam sua criação de resvalar no caos original &#8211; e parece haver poucos emblemas mais unânimes e mais formidáveis do caos do que a multiforme, embriagadora e infracionável bagagem sexual humana.</p>
<p>Esse argumento de contenção do caos, pode estar ocultando, no entanto, uma lógica falha. Talvez seja vantajoso para o sistema, justamente a fim de manter o estado de coisas e perpetuar a dominação, sustentar artificialmente a ideia de que o sexo tem um poder socialmente disruptivo que na realidade não tem. Se o sexo não se mostrar na prática tão socialmente destrutivo quanto se supunha que fosse, as ortodoxias perderão grande margem de alavancagem em outras áreas. Esse, por si só, pode ser um excelente motivo para que as instituições mantenham sua ênfase na obediência estrita aos regulamentos: desse modo a base não comprovada dos seus argumentos permanecerá oculto pela cortina das proibições.</p>
<p>Mas estou me adiantando, e talvez da forma errada.</p>
<p>Talvez eu devesse colocar em cheque logo de início as suas preconcepções, e explicar que quando a Bíblia fala de sexo não está falando de pureza, mas de mecanismos de dominação. Onde parece estar falando de contatos proibidos entre corpos, está na verdade ilustrando e estabelecendo (e por vezes desafiando) jogos sociais de poder e mecanismos sociais de controle.</p>
<p>Para demonstrar adequadamente este ponto será necessário um livro que ainda não comecei a escrever. Por enquanto algumas indicações terão de bastar.</p>
<p><strong>Antigo Testamento: a honra do macho</strong></p>
<p>Para começar há o Antigo Testamento, e a vantagem de começarmos por aqui é que não há lugar em que essas coisas fiquem mais claras. Se as legislações do Pentateuco dão a impressão de ter um caráter chauvinista e patriarcal é porque em grande parte o tem. Essa ênfase fica muito clara nas passagens que regulamentam o sexo. Embora por vezes aparente estar tratando da questão geral da legitimidade dos contatos sexuais (de modo a beneficiar a todos), <span style="float:right; text-align:right; width:35%; color:#7c836d; margin:12px 0 12px 12px; font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps; font-size:1.4em; line-height: 1.3em">A principal função social do sexo era ilustrar uma relação de dominação.</span>o texto está essencialmente levantando barreiras sociais que protejam a honra do macho<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/sexo-e-poder/#footnote_0_2634" id="identifier_0_2634" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="Embora tamb&eacute;m esteja, em menor grau, estabelecendo mecanismos que perpetuem a na&ccedil;&atilde;o judaica diante da competi&ccedil;&atilde;o cultural e num&eacute;rica dos povos que a circundam.">1</a></sup> (de modo a legitimar a supremacia do ser humano adulto do sexo masculino). </p>
<p>Isso porque, como em muitas culturas da Antiguidade (e até recentemente em muitas culturas ocidentais), na esfera do Antigo Testamento a principal função social do sexo era ilustrar uma relação de dominação. O sexo era tido como um ritual estilizado de poder e de submissão que refletia em privado uma diferença de status muito real na esfera social.</p>
<p>Nessa configuração, tomada como válida por muita gente ainda nos nossos dias, a própria anatomia é interpretada como confirmando o status superior do homem, primazia que a relação sexual periodicamente celebra. O homem tem papel ativo: ele supre, penetra, domina, possui e fertiliza; o papel da mulher é passivo: ela acolhe, é penetrada, é dominada, é possuída e é fertilizada. Tudo nessa visão clássica da relação, bem como nas palavras que escolhemos para descrevê-la, serve para maximizar o papel do homem e minimizar o papel da mulher. O ativo é honrado e valoroso, o passivo é submisso e desprezível<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/sexo-e-poder/#footnote_1_2634" id="identifier_1_2634" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="A religi&atilde;o do Antigo Testamento (e portanto a vida social do juda&iacute;smo antigo) estava estruturada de modo a perpetuar e ilustrar essa dist&acirc;ncia. No Templo de Jerusal&eacute;m as mulheres n&atilde;o podiam aproximar-se do santo dos santos mais do que o p&aacute;tio externo que levava o seu nome; nas sinagogas, seu espa&ccedil;o de adora&ccedil;&atilde;o e de aprendizado delimitava uma dist&acirc;ncia e uma desigualdade semelhante. No tempo de Jesus, mais de mil anos depois da publica&ccedil;&atilde;o do Pentateuco, n&atilde;o era de bom tom (porque seria desonroso para o homem) que um marido fosse visto falando em p&uacute;blico com sua pr&oacute;pria esposa.">2</a></sup>.</p>
<p>Parece haver pouca dúvida de que os povos da Antiguidade desenvolveram essa visão do sexo como emblema de dominação a partir da observação do comportamento dos animais, já que para muitos mamíferos superiores o sexo tem uma função claramente política, além da reprodutiva. O líder é via de regra o grande reprodutor, o macho fertilíssimo que tem o maior número de parceiras, e ele pode resolver ilustrar a sua superioridade e a submissão dos demais tomando como parceiros passivos até mesmo os machos abaixo dele na hierarquia.</p>
<p>Muito claramente, foi essa visão da sexualidade como registro social de dominação e controle, e não nenhuma inclinação homossexual generalizada, que levou os homens de Sodoma a rejeitar as filhas virgens de Ló em favor do sexo com os seus visitantes. Eram homens bárbaros que queriam mostrar barbaramente o seu poder; na sua visão de mundo, possuir visitantes ilustres simbolizaria mais formidavelmente a sua potência do que simplesmente violentar moças locais<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/sexo-e-poder/#footnote_2_2634" id="identifier_2_2634" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="Ind&iacute;cios muito claros desse modo de ver as coisas restam no nosso mundo e no nosso linguajar. Assim um homem ofendido pode dizer a outro &amp;#8220;vou te foder&amp;#8221; (querendo dizer &amp;#8220;vou me vingar e mostrar quem &eacute; que manda&amp;#8221;), e quem est&aacute; numa situa&ccedil;&atilde;o dif&iacute;cil pode dizer &amp;#8220;estou fodido&amp;#8221; (querendo dizer &amp;#8220;estou numa situa&ccedil;&atilde;o desfavor&aacute;vel e desprez&iacute;vel&amp;#8221;">3</a></sup>.</p>
<p>Embora em muitos sentidos mais generosa, mais liberal e mais sofisticada do que as leis que regiam outros povos na mesma época, a legislação do Pentateuco toma como certa essa noção do sexo como ritual de dominação. Ele favorece claramente a ideologia da supremacia do macho, e deita medidas explícitas para proteger a sua honra. O adultério, por exemplo, é visto como transgressão especialmente grave não por violar a santidade da família<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/sexo-e-poder/#footnote_3_2634" id="identifier_3_2634" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="O Pentateuco parece ser muito tolerante com rela&ccedil;&atilde;o &agrave; poligamia, por exemplo, e tem pouco a condenar no homem casado que faz sexo com mulheres solteiras.">4</a></sup>, mas porque representa uma afronta à honra e à potência/suficiência do homem casado/macho reprodutor.</p>
<p>O sexo entre homens é julgado &#8220;abominável&#8221; essencialmente pela mesma razão. Um homem não deve deitar-se com outro homem &#8220;como se fosse com mulher&#8221;, porque isso ilustraria uma relação de dominação e de submissão entre agentes que para o sistema devem permanecer invariavelmente dominantes &#8211; nunca submissos ou passivos. O banimento do comportamento homossexual não está embasado no intercâmbio entre corpos incompatíveis, mas na conotação politicamente inaceitável que uma relação &#8220;desigual&#8221; entre &#8220;iguais&#8221; é interpretada como tendo. Ambos os transgressores devem ser mortos: um porque aceita a submissão que denigre a honra inerente do macho, outro porque a proporciona. </p>
<p>Semelhantemente, de modo a manter a virtude masculina intocada, um homem não deve absolutamente deitar-se com uma mulher menstruada (isto é, inadequada e impura), e um homem com os testículos esmagados deixa de ter cacife para apresentar ofertas diante de Deus: tudo para que o homem ideal permaneça o grande dominador de honra intacta, o eficaz reprodutor suficiente e desimpedido.</p>
<p>Em conformidade com essa tendência, na Bíblia são sempre as mulheres que são estéreis, nunca os homens. Não conviria a um herói magnífico como Abraão mostrar-se deficiente (mesmo que divinamente suprido, como ocorre com Sara) nessa mais significativa das áreas. Em retrospecto, talvez a função original de Hagar e de Ismael na narrativa tenha sido apenas deixar claro além da dúvida que a culpa pela infertilidade do casal residia sobre Sara, não sobre seu marido.</p>
<p>Roland Boer estava apenas em parte brincando quando escreveu seu provocativo e constrangedoramente meticuloso artigo <a href="http://www.pelicanweb.org/solisustv07n09page7.html">The Patriarch&#8217;s Nuts: Concerning the Testicular Logic of Biblical Hebrew</a> <em>(As bolas do patriarca: considerações sobre a lógica testicular do hebraico bíblico).</em> Os autores do Antigo Testamento de fato criam que algo grande, sagrado e preferencialmente inviolável residia entre as coxas do ser humano do sexo masculino; isso fica evidente no uso quase reverente que fazem dos termos hebraicos que em português se traduzem comumente como &#8220;lombos&#8221; ou &#8220;coxa&#8221;, mas são eufemismo para regiões do corpo mais exclusivamente masculinas (como, por exemplo, na expressão &#8220;fruto dos teus lombos&#8221;). Os testículos, mais do que o pênis, eram tidos como residência da masculinidade e da iniciativa, e portanto daquilo que a humanidade tinha de mais íntegro, momentoso e admirável<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/sexo-e-poder/#footnote_4_2634" id="identifier_4_2634" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="Em particular, e como observa Boer, manusear as g&ocirc;nadas de um homem adulto era visto como tendo implica&ccedil;&otilde;es legais profundas. Quando quiseram obter um juramento inviol&aacute;vel de seu servo e de seu filho Jos&eacute;, tanto Abra&atilde;o quanto Isaque ordenaram: &amp;#8220;P&otilde;e a m&atilde;o debaixo da minha coxa e prometa&amp;#8221; (G&ecirc;nesis 24:2-3, 47-29).">5</a></sup>.</p>
<p>Nesse mundo, em que o sexo era visto como registro social do status de dominação e de submissão de seus participantes, e os testículos como os tabernáculos mais sagrados da virtude, apenas as manifestações sexuais que não comprometiam a honra e a primazia do macho eram tidas como legítimas.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug021.gif"></p>
<p>&nbsp;</p>
<b><small>NOTAS</small></b><ol class="footnotes"><li id="footnote_0_2634" class="footnote">Embora também esteja, em menor grau, estabelecendo mecanismos que perpetuem a nação judaica diante da competição cultural e numérica dos povos que a circundam.</li><li id="footnote_1_2634" class="footnote">A religião do Antigo Testamento (e portanto a vida social do judaísmo antigo) estava estruturada de modo a perpetuar e ilustrar essa distância. No Templo de Jerusalém as mulheres não podiam aproximar-se do santo dos santos mais do que o pátio externo que levava o seu nome; nas sinagogas, seu espaço de adoração e de aprendizado delimitava uma distância e uma desigualdade semelhante. No tempo de Jesus, mais de mil anos depois da publicação do Pentateuco, não era de bom tom (porque seria desonroso para o homem) que um marido fosse visto falando em público com sua própria esposa.</li><li id="footnote_2_2634" class="footnote">Indícios muito claros desse modo de ver as coisas restam no nosso mundo e no nosso linguajar. Assim um homem ofendido pode dizer a outro &#8220;vou te foder&#8221; (querendo dizer &#8220;vou me vingar e mostrar quem é que manda&#8221;), e quem está numa situação difícil pode dizer &#8220;estou fodido&#8221; (querendo dizer &#8220;estou numa situação desfavorável e desprezível&#8221;</li><li id="footnote_3_2634" class="footnote">O Pentateuco parece ser muito tolerante com relação à poligamia, por exemplo, e tem pouco a condenar no homem casado que faz sexo com mulheres solteiras.</li><li id="footnote_4_2634" class="footnote">Em particular, e como observa Boer, manusear as gônadas de um homem adulto era visto como tendo implicações legais profundas. Quando quiseram obter um juramento inviolável de seu servo e de seu filho José, tanto Abraão quanto Isaque ordenaram: &#8220;Põe a mão debaixo da minha coxa e prometa&#8221; (Gênesis 24:2-3, 47-29).</li></ol><div class='series_toc'><h3>Sexo e poder</h3><ol><li>Sexo e poder</li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2011/novo-testamento-a-supremacia-e-o-carater-subversivo-do-amor/' title='Novo Testamento: a supremacia (e o caráter subversivo) do amor'>Novo Testamento: a supremacia (e o caráter subversivo) do amor</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2011/sexo-entre-pares-o-homem-romantico-e-a-era-das-relacoes-igualitarias/' title='Sexo entre pares: o homem romântico e a era das relações igualitárias'>Sexo entre pares: o homem romântico e a era das relações igualitárias</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2011/na-cama-com-a-biblia/' title='Na cama com a Bíblia'>Na cama com a Bíblia</a></li></ol></div>]]></content:encoded>
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		<title>Por isso não provoque</title>
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		<pubDate>Thu, 14 Apr 2011 19:11:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Divino preconceito]]></category>
		<category><![CDATA[Homens e Mulheres]]></category>
		<category><![CDATA[biografia]]></category>

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		<description><![CDATA[Quando quer defender qualquer comportamento, seja universalmente aceito ou mania particular sua, meu pai costuma usar o mais arbitrário, incontornável e rasteiro dos [falsos] argumentos: &#8220;está na Bíblia&#8221;. Para usar o exemplo mais clássico, ele preferencialmente não come feijão aos domingos, porque &#8220;domingo é dia branco&#8221;. Quando perguntado sobre o fundamento espiritual ou científico dessa [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Quando quer defender qualquer comportamento, seja universalmente aceito ou mania particular sua, meu pai costuma usar o mais arbitrário, incontornável e rasteiro dos [falsos] argumentos: <em>&#8220;está na Bíblia&#8221;</em>. Para usar o exemplo mais clássico, ele preferencialmente não come feijão aos domingos, porque &#8220;domingo é dia branco&#8221;. Quando perguntado sobre o fundamento espiritual ou científico dessa noção, ele invariavelmente responde &#8220;está na Bíblia&#8221;. E ele sabe muito bem que não está.</p>
<p>Ou estará? Informando o seu cinismo está a noção (baseada em fatos reais) de que a Bíblia é tão vasta e multiforme que pode conter informação e diretrizes que o mais ilustrado dos interlocutores não será capaz de recordar num dado momento. Ou ainda, que o texto bíblico já foi sujeito a tantas, variadas e infundadas interpretações que pode ser usado para fundamentar qualquer postura. Especialmente a de quem está falando.</p>
<p align="center">***</p>
<p>Azul é cor de menino e cor-de-rosa é cor de menina. Alguma dúvida? </p>
<p>Em 1918, um artigo do <em>Ladies&#8217; Home Journal</em> explicava o que naquela época aparentemente todos sabiam: &#8220;A regra universalmente aceita é que cor-de-rosa é para os meninos e azul para as meninas. O motivo é que o cor-de-rosa, por ser uma cor mais forte, é mais própria para os meninos, enquanto o azul, que é mais delicado e mimoso, fica mais bonito para a menina.&#8221;</p>
<p>A historiadora Jeanne Maglaty, do <em>Smithsonian Institute</em>, está para publicar um livro no qual demonstra que o paradigma moderno (e portanto arbitrário) das cores que demarcam a diferença entre os sexos só ficou estabelecido a partir de 1940, e que a tendência anterior apontava precisamente na outra direção.</p>
<p>Por isso não provoque: é cor-de-rosa choque.</p>
<p><a href=" http://www.smithsonianmag.com/arts-culture/When-Did-Girls-Start-Wearing-Pink.html?c=y&#038;page=1">Quando as garotas começaram a usar cor-de-rosa?</a></p>
<p align="center">***</p>
<p>No mesmo dia em que li a nota acima fiquei sabendo da reação conservadora norte-americana a um <a href="http://gawker.com/#!5791301/conservative-idiots-freak-out-about-boy-wearing-nail-polish-in-j-crew-ad">anúncio da companhia de moda J. Crew</a> que mostrava a diretora da empresa pintando as unhas do filho de cor-de-rosa. &#8220;Sorte minha que tenho um filho cuja cor favorita é o cor-de-rosa&#8221;, dizia a chamada abaixo da foto.</p>
<p>O psicólogo neoconservador Keith Ablow reagiu num artigo em que explica o seguinte:</p>
<blockquote><p>Garotas surram garotas no Youtube. Rapazes fazem malhação e se embelezam até ficarem com abdomen de tanquinho e um penteado impecável. Embora aparentemente não haja nada de mais nisso, pode haver graves consequências quando ficar demonstrado que nenhum dos sexos permanece à vontade com a ideia de criar filhos acima de qualquer outra coisa, que nenhum dos sexos classifica manter uma família como coisa mais desejável do que fazer sexo arrebatador para sempre, e que nenhum dos sexos está motivado a proteger a nação marchando em combate contra outros homens, arriscando nisso as suas vidas.</p></blockquote>
<p>E com isso aprendo uma preciosa lição, que o único valor humano mais sublime do que procriar é sair em resoluto combate de modo a eliminar a competição do DNA alheio.</p>
<p>E que é isso que nos coloca acima dos animais.</p>
<p align="center">***</p>
<p>E que cada um coloca na sua Bíblia o que quer. Porque, embora considere o ideal da barriga de tanquinho esteticamente tão lamentável (e certamente tão arbitrário) quanto o de unhas pintadas de qualquer cor, não pude deixar de notar que Keith Ablow usa o rosto ativamente <a href="http://www.google.com.br/images?q=Keith Ablow">barbeado</a> &#8211; e não preciso lembrar o leitor que ninguém deve confiar num homem sem barba. Está na Bíblia.</p>
<p>Ou, como acrescenta algumas vezes o meu pai: &#8220;se não está, pode colocar que é bom&#8221;.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug005.gif"></p>
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		<title>A diferença entre um homem e uma manga verde</title>
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		<pubDate>Sat, 29 Aug 2009 09:09:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Filmes]]></category>
		<category><![CDATA[Homens e Mulheres]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[humor]]></category>

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		<description><![CDATA[é que a manga amadurece. Há uma estupidez essencial embutida na alma masculina (para não dizer nas suas gônadas). Não se engane: não há homens sérios, espirituais e compenetrados. Não há um de nós que se alce ao sublime. Dizemos coisas inconsequentes, fazemos coisas fora de propósito e rimos de coisas impróprias. Essa leviandade faz [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="center"><a href="http://www.23hq.com/paulobrabo/photo/4893513"><br />
   <img src="http://www.23hq.com/23666/4893513_881c0060b3288f004b00943b6905214f_standard.jpg" height="306" width="460" title="Clique para ampliar" /><br />
</a></p>
<p>é que a manga amadurece.</p>
<p>Há uma estupidez essencial embutida na alma masculina (para não dizer nas suas gônadas). Não se engane: não há homens sérios, espirituais e compenetrados. Não há um de nós que se alce ao sublime. Dizemos coisas inconsequentes, fazemos coisas fora de propósito e rimos de coisas impróprias. Essa leviandade faz parte do segredo comum que torna os homens frequentemente repugnantes e ocasionalmente irresistíveis.</p>
<p>Shakespeare não se considerava acima de piadas sobre sexo, mas ele era Shakespeare, amparado por uma redação impecável e uma compaixão inabalável diante de tudo que é humano. Vindo de alguém que absolutamente abominou <em>Quem vai ficar com Mary</em> e jamais recomendaria <em>Borat</em> em público: vá assistir <em>Se beber não case</em> (<em>The Hangover/A ressaca</em>, 2009).</p>
<p>Não se deixe enganar <a href="http://www.youtube.com/watch?v=Cm7eAq1PaXE">pelo trailer</a>, que o levará a pensar num daqueles filmes genéricos em que homens adultos falam merda e agem como adolescentes. Acredite, os protagonistas de <em>Se beber não case</em> falam mais merda e agem mais como adolescentes do que sugere o trailer, talvez quase tanto quanto os homens da vida real, mas não há nada de genérico nas suas aventuras ou no humor que incitam. Por trás dessas inconsequências espreita algo que não comparece em nenhuma boa comédia que me venha à lembrança (nem mesmo as que mais gosto, que costumam ser um amontoado pouco coeso de piadas e esquetes soltas): uma história.</p>
<p>O complemento perfeito a <a href="http://www.baciadasalmas.com/2007/pra-que-servem-os-homens">Pra que servem os homens</a>.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug069.gif"></p>
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		<title>A longa rixa da misericórdia com as ordens da criação</title>
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		<pubDate>Wed, 16 Jul 2008 03:45:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Divino preconceito]]></category>
		<category><![CDATA[Homens e Mulheres]]></category>

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		<description><![CDATA[A misericórdia triunfa sobre o juízo. Tiago 2:13 No princípio era o caos, até que Deus instaurou a ordem. O primeiro capítulo de Gênesis enfatiza à exaustão o caráter organizatório da iniciativa divina primordial. Deus, o primeiro enciclopedista, fixa os astros nas suas órbitas, fatia céu e terra, divide céus e mares, coloca luz e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="right"><small>A misericórdia triunfa sobre o juízo.</small><br />
<span style="font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps">Tiago 2:13</span></p>
<p>No princípio era o caos, até que Deus instaurou a ordem. O primeiro capítulo de Gênesis enfatiza à exaustão o caráter organizatório da iniciativa divina primordial. Deus, o primeiro enciclopedista, fixa os astros nas suas órbitas, fatia céu e terra, divide céus e mares, coloca luz e escuridão em compartimentos estanques, põe dia e noite em suas respectivas prateleiras, faz brotar cada planta rasteira, cada árvore, cada ave, cada peixe, cada animal rastejante, cada animal doméstico e cada animal selvagem &#8220;segundo as suas espécies&#8221;, distribui o ser humano entre homem e mulher, reparte a semana em sete dias, fende o dia em tarde e manhã, e coloca em cada um metódicos crachás escritos por ele mesmo.</p>
<p>A organização aparece na história como característica fundamental e inseparável do universo e do próprio Deus. A ordem das coisas na terra, demonstram as burocráticas enumerações de Gênesis, reflete o planejamento da mente divina no céu. Dito de outra forma, as coisas são precisamente como deveriam ser, e o nosso é o melhor dos mundos possíveis.</p>
<p>Ao longo dos séculos, na mente da esmagadora maioria dos cristãos, esse estado inicial da criação tem representado uma espécie de intocável Idade do Ouro. Segundo esse modo de ver as coisas, Gênesis 1 e 2 estabelecem o conjunto de circunstâncias que encapsula a essência do que o cristianismo deve defender. Aqui estão, afinal de contas, a soberania divina, a singularidade da humanidade em relação às demais criaturas, a instituição da família e do casamento, o direito de domínio do ser humano sobre a natureza. O mundo como Deus o criou em Gênesis estaria dessa forma demarcado por &#8220;ordens da criação&#8221;, categorias muito precisas e muito fixas que cabe aos puros de coração defender, porque violá-las é devolver o mundo ao desfigurante e degradante caos que precedeu a iniciativa ordenatória de Deus.</p>
<p>Não mexa no meu queijo.</p>
<p><strong>Contra as mulheres, pela procriação</strong></p>
<p>É o argumento das &#8220;ordens da criação&#8221; que, ainda hoje, impede que mulheres sejam ordenadas ao sacerdócio ou ao ministério em igrejas cristãs de todas as estirpes. Em 1969, por exemplo, o sínodo da igreja luterana do Missouri legislou que &#8220;diante das declarações da Escritura que a mulher não deve ensinar ou exercer autoridade sobre o homem, entendemos que mulheres não devem assumir cargos pastorais ou qualquer outra posição que viole de alguma forma a ordem da criação&#8221;.</p>
<p>Afinal de contas, deixa claro o Apóstolo, é coisa vergonhosa que uma esposa fale na igreja; a própria Lei afirma que as mulheres devem ser submissas; Adão precedeu a mulher na ordem cronológica da criação; o homem não foi criado para a mulher, mas a mulher para o homem; o marido é a cabeça da esposa; a mulher veio do homem, e não o homem da mulher; o homem não foi enganado, mas a mulher deixou-se enganar pela serpente. A conclusão é clara: na hierarquia ideal da criação, que não cabe ao ser humano querer violar, a mulher é inerentemente subordinada ao homem. Almejar uma posição de igualdade funcional é arrogância e rebelião; é lutar contra as ordens da criação, ou seja, contra a integridade da tessitura mais essencial do universo.</p>
<p>O relatório do mesmo sínodo faz os seguintes esclarecimentos adicionais: &#8220;A ordem da redenção não deve viciar o relacionamento apropriado entre mulheres e homens estabelecido na ordem da criação&#8221;. &#8220;A unicidade do homem e da mulher em Cristo não apaga a distinção estabelecida na criação&#8221;. &#8220;A subordinação da mulher ao homem na ordem da criação é uma relação funcional dada pelo criador, que escolheu estruturar a existência em determinadas linhas&#8221;. &#8220;O casamento e o estado pertencem às ordens da criação&#8221;. &#8220;Deus é o criador de certos relacionamentos básicos que impedem a vida e a sociedade de degenerarem em anarquia&#8221;. &#8220;Paulo não queria que as mulheres transtornassem a hierarquia de funções estabelecida na criação, especialmente logo após a queda&#8221;. &#8220;A subordinação da esposa ao marido é parte da ordem da criação&#8221;. &#8220;A convicção do apóstolo é que a igreja não deve minar, mas santificar as ordens da criação&#8221;. &#8220;Paulo está decidido a defender a instituição do matrimônio como pertencente às ordens da criação, em  que a renovação não é alcançada por meio de desordem e ruptura, mas pela observância e pela santificação da prática de autoridade por parte do marido e de submissão por parte da esposa&#8221;. </p>
<p>Em outras palavras, a mulher pode não ser criatura de segunda classe, mas na ordem da criação ficou estabelecido que deve agir como se fosse. Mulheres e esposas devem abraçar esse destino de bom grado, da mesma forma que homens e maridos devem se conformarem à dura posição de primazia que a criação deixou-lhe nas mãos.</p>
<p>A questão do sacerdócio feminino é hoje relevante para uma diminuta fração da população, mas sua lógica subjacente é a mesma que manteve fechado, durante dois mil anos, o acesso da mulher a um status igualitário em termos jurídicos, financeiros, políticos e profissionais. A inferioridade da mulher é coisa que nem ao menos se discutia, por ser uma das verdades evidentes patenteadas na ordem da criação. </p>
<p>Assim, ao longo de dois mil anos de civilização cristã, as mulheres foram silenciadas e reprimidas, ao mesmo tempo em que eram acusadas (via Eva, de quem teriam herdado <a href="http://www.baciadasalmas.com/2007/a-mulher">suas fraquezas</a>) de serem culpadas por virtualmente todos os males que assolam a humanidade; foram perseguidas como bruxas, torturadas sem dó, separadas de suas famílias e queimadas publicamente; tiveram suas vidas legisladas, suas opiniões enterradas e direitos cerceados, mesmo <a href="http://www.baciadasalmas.com/2004/1926-appoio-moral">nos nossos dias</a>.</p>
<p>E contra esse estado de coisas não ocorria a ninguém dizer uma palavra, porque tacitamente todos concordavam que Deus &#8220;escolheu estruturar a existência em determinadas linhas&#8221;. A estratificação social do primeiro casal e suas relações internas de autoridade e subordinação haviam sido estabelecidas pelo Criador no princípio, e é assim que deveriam se manter. A alternativa era inimaginável.</p>
<p>&#8220;Quem está pedindo o voto para as mulheres?&#8221; quis saber Justin Fulton em 1869. &#8220;Os que amam a Deus e seguem a Cristo é que não são! A maior parte dos que reivindicam o voto para as mulheres repudiam a legislação do Céu e os prazeres domésticos, e deixam-se levar pela infidelidade e pela ruína&#8221;.</p>
<p><strong>Contra os negros, pela escravidão</strong></p>
<p>Aplacados pela lógica da &#8220;ordem da criação&#8221;, os cristãos conviveram pacificamente, ao longo de dezoito séculos, com toda forma de escravidão e preconceito de raça.</p>
<p>A supremacia dos brancos sobre todas as outras raças havia sido, afinal de contas, estabelecida diretamente por Deus. Os negros, em particular, eram tidos como descendentes de Cão, o filho amaldiçoado de Noé cujo filho Canaã fora condenado a ser &#8220;servo dos servos de seus irmãos&#8221;<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2008/a-longa-rixa-da-misericordia-com-as-ordens-da-criacao/#footnote_0_1600" id="identifier_0_1600" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="G&ecirc;nesis 9:22-25">1</a></sup>.</p>
<p>Com essa desculpa, a divisão racial fendeu por séculos países como os Estados Unidos e a África do Sul, com a devida sanção de seus líderes cristãos. &#8220;A escravidão foi estabelecida por decreto do Deus Todo-Poderoso&#8221;, explicou Jefferson Davis, presidente da Confederação. &#8220;Ela é sancionada pela Bíblia em ambos os testamentos, de Gênesis a Apocalipse. Tem existido em todas as épocas, sendo encontrada entre os povos da mais alta civilização e nas nações de maior destaque nas artes&#8221;.</p>
<p>Como ainda se crê que as distinções fundamentais entre as raças foram estabelecidas por Deus na criação, em muitas áreas dos Estados Unidos o casamento entre pessoas de raças diferentes permanece sendo visto como inaceitável &#8211; verdadeira abominação. Um juiz da Virgínia observou em 1959: &#8220;O Deus Todo-Poderoso criou as raças branca, negra, amarela, malaia e vermelha e colocou-as em continentes separados. A não ser que se queira perturbar esse arranjo de coisas, não vejo motivo para esses casamentos [mistos]&#8220;.</p>
<p><strong>Pela pátria, contra as outras nações</strong></p>
<p>Na Alemanha de Hitler, nos anos que antecederam à Segunda Guerra, o conceito cristão de ordem da criação alimentou o nacionalismo doentio que acabou gerando o nacional-socialismo &#8211; nazismo &#8211; e seus excessos.</p>
<p>Para os teólogos do popularíssimo movimento &#8220;Cristãos Germânicos&#8221; o <em>Volk</em>, a nacionalidade, era visto como uma ordem particular de Deus para a humanidade. A pátria era a vocação espiritual por excelência e o Estado o mais direto desdobramento dessa ordem divina, pelo que rebelar-se contra a liderança de Hitler era rebelar-se contra Deus.</p>
<p>&#8220;Cada desvio da ordem divina&#8221;, admitiu Walter Künneth (que nem mesmo era simpatizante de Hitler), &#8220;ocasiona decadência e caos&#8221;, enquanto Emile Hirsch explicava que a nacionalidade é &#8220;um meio de revelação de Deus&#8221;. Gerhard May argumentava que a liberdade cristã é na verdade obediência às leis e demais determinações do Estado, e em favor de sua posição citava a postura do Novo Testamento sobre a escravidão. </p>
<p>A liberdade de opinião que exigiam os membros da <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Igreja_Confessante">Igreja Confessante</a>, a liberdade de discordar da ordem divina manifesta no Estado, era &#8220;a satânica liberdade dos pecadores&#8221;, que nenhum cristão deveria querer reivindicar para si. Pois &#8220;a vontade divina expressa na lei é demonstrada pelas ordenanças claras e invioláveis que governam a vida das nações&#8221;<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2008/a-longa-rixa-da-misericordia-com-as-ordens-da-criacao/#footnote_1_1600" id="identifier_1_1600" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="De forma semelhante, Lutero sentia-se &agrave; vontade para imprecar contra os judeus e Hitler para extermin&aacute;-los, afirmando-se crist&atilde;os os dois">2</a></sup>.</p>
<p>Dito de outra forma, para ser cristão é preciso ser patriota, e para ser patriota é preciso demonstrar apoio irrestrito às ações do governo<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2008/a-longa-rixa-da-misericordia-com-as-ordens-da-criacao/#footnote_2_1600" id="identifier_2_1600" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="Os Estados Unidos, um tanto paradoxalmente, abra&ccedil;am cren&ccedil;as semelhantes atrav&eacute;s do conceito de Destino Manifesto">3</a></sup>. Pois foi assim que Deus quis quando deitou nas formas do futuro as ordens imutáveis da criação.</p>
<p><strong>Pela fraternidade, pela igualdade, pela graça</strong></p>
<p>Ao longo da história os cristãos que ousaram discordar da supremacia da &#8220;ordem da criação&#8221; tiveram de lutar contra a corrente da interpretação estática das Escrituras. Afinal de contas, o próprio Novo Testamento não oferece uma palavra de condenação à escravidão; ao contrário, em muitas passagens parece sancioná-la sem encontrar na questão qualquer dilema moral. Era muito difícil para os abolicionistas justificar biblicamente sua posição, enquanto que os escravagistas tinham (e ainda tem) dúzias de versículos para acenar em seu favor. Dispor-se a lutar pela abolição era, em grande medida, dispor-se a lutar contra Deus e contra a Bíblia.</p>
<p>Da mesma forma, os que advogavam pelos direitos das mulheres tinham de procurar uma agulha no enorme palheiro patriarcal e sexista que é o texto bíblico. Para cada momento em que <a href="http://www.baciadasalmas.com/2008/com-as-mulheres">Jesus é amigo das mulheres</a> há dez em que Paulo nos lembra de que Eva é quem foi enganada pela serpente.</p>
<p>O milagre está em que muito lentamente, um imperceptível passo de cada vez, as vozes da misericórdia e da sanidade (que são uma só) acabam sendo ouvidas, mesmo quando os ouvidos são cristãos.</p>
<p>Os anabatistas foram os primeiros a criticar escravidão, logo seguidos pelos quacres e os menonitas, mas foi John Wesley (fundador da Igreja Metodista) quem deu verdadeira forma e credibilidade pública à posição abolicionista.</p>
<p>Influenciado por Barth, Dietrich Bonhoeffer passou questionar diante dos teólogos nazistas toda a validade da sua argumentação. Para Bonhoeffer o argumento das ordens da criação é falho porque pode ser usado para justificar virtualmente qualquer estado de coisas, por mais injusto ou arbitrário que seja. Para ele, as ordens do mundo derivam seu valor não de si mesmas, mas de Cristo, que é a nova criação e portanto a nova referência para todas as coisas. &#8220;Qualquer ordem&#8221;, enfatiza ele, &#8220;pode ser dissolvida e deve ser dissolvida quando deixa de permitir a proclamação da revelação&#8221;.</p>
<p>Em todos os casos os proponentes da graça, quando dispuseram-se a combater o preconceito, o racismo, o sexismo, o totalitarismo, a escravidão e o abismo entre as classes tiveram de abraçar a Bíblia sem abraçar-lhe a letra. Não começaram, porque não é possível, negando o sexismo dos patriarcas e discípulos ou a sanção bíblica da escravidão. <a href="http://www.baciadasalmas.com/2008/a-invasao-do-mundo">Como os profetas</a> antes deles, tiveram de apontar para um sentido mais profundo e mais abrangente da mensagem bíblica, uma mensagem transversal fundamentada não na forma dos mandamentos mas no exemplo de Jesus &#8211; e na pressuposição de que não há exemplo mais cristão a ser seguido.</p>
<p>Porque em Jesus, se você acredita nele, fica tudo de repente muito claro. Em Jesus, Deus, e portanto a criação, toma partido dos desamparados e dos marginalizados.</p>
<p>No tempo de Jesus todos sabiam que, na ordem dura da criação, os doentes eram pecadores que Deus estava punindo, as mulheres eram seres impuros que não podiam candidatar-se ao discipulado e os pobres eram desamparados por Deus que não tinham recursos para cumprir as minuciosas exigências da lei. E Jesus, <em>contra mundum</em>, beija cuidadosamente cada um e acolhe-os no abraço da graça.</p>
<p>Num único e coerente gesto de vida ele transtorna a ordem estabelecida, coloca as coisas em lugares inesperados e explica que age em nome de Deus. O Filho do Homem deixa que seus amigos colham espigas no sábado, e ele mesmo efetua curas nesse dia de descanso, não apenas porque a criação não está pronta (&#8220;meu pai ainda está trabalhando&#8221;), mas porque &#8211; e eis a grande e desconcertante revelação &#8211; &#8220;a ordem da criação foi feita para o homem, e não o homem para o ordem da criação&#8221;.</p>
<p>O que há em Jesus, é essencialmente, uma crítica pungente a toda espécie de dominação, mesmo a que é feita em nome de Deus. Sua postura é, portanto, uma ameaça a todo conforto e a todo estado de coisas. Agora ele está pendurado na cruz, mas com o tempo sua mensagem alcançará e redimirá a condição de todos os pequenos deste mundo. Agora fecham-no no túmulo, mas graças a ele haverá no futuro um momento em que escravos, pobres, mulheres, crianças e gente de todas as raças não terão mais de se envergonhar da sua condição.<a name="planeta"></a></p>
<p><strong>Contra os gays, contra o planeta</strong></p>
<p>Agora que você não pode mais contar piadas que ridicularizem os negros, agora que sua chefe ganha mais do que você, os preconceitos embasados no conceito das ordens da criação escolheram novos alvos.</p>
<p>São alvos mais fragéis e inesperados, e portanto mais adequados à predação neste momento da história. Hoje em dia, quando acenam com o argumento das ordens da criação, os cristãos estarão fatalmente [1] condenando a conduta homossexual ou [2] asseverando o seu direito de explorar os recursos do planeta.</p>
<p>O alvo mais fácil são, naturalmente, os homossexuais. Quando o relato de Gênesis deixa claro que Deus criou a mulher para o homem, o que pode haver de mais contrário à disposição inicial das coisas do que a união sexual entre pessoas do mesmo sexo? Se Jesus disse do divórcio que &#8220;no princípio não era assim&#8221;, o que teria dito do casamento entre homossexuais?</p>
<p>Isso porque todos os argumentos bíblicos apontados contra a homossexualidade resolvem-se em nada quando comparados a este, que é na verdade o único: na ordem original das coisas não era assim.</p>
<p>Um documento que circula na porção cristã da internet deixa clara a argumentação subjacente: &#8220;a pressão para que a igreja aprove a união entre homossexuais representa um ataque direto aos valores do casamento e da família, pois a união entre pessoas do mesmo sexo nega as ordens da criação, a complementaridade entre homem e mulher estabelecida por Deus e o mandamento valorizador de vida que afirma &#8216;fruticai-vos e multiplicai&#8217;&#8221;. A homossexualidade, portanto, é em sua essência uma afronta aos pilares divinamente estabelecidos em Gênesis: as ordens da criação.</p>
<p>Numa instância paralela, as ordens da criação são mencionadas pelos protestantes norte-americanos como credencial para explorarem até o sumo os recursos naturais da terra. Quem irá levantar-se para denunciar os abusos do homem contra a natureza, quando Gênesis assegura que Deus lhe conferiu pleno domínio sobre a terra? Como condenar os desmatamentos, a extinção escandalosa das espécies e o aquecimento global, quando a narrativa da criação esclarece que o homem foi criado para colocar o planeta sob sujeição?</p>
<p>Pelo que lêem em Gênesis, Deus não apenas deu ao homem carta branca para violentar a terra; deu-lhe essa missão.</p>
<p><strong>Contra o medo</strong></p>
<p>Como intuiu Bonhoeffer, o argumento das ordens da criação permanece sendo usado a fim de manter o estado confortável de coisas para os que se sentem confortáveis com o modo como as coisas estão.</p>
<p>A proliferação de união homossexuais é vista como uma ameaça formidável à instituição da família &#8211; e a família é a ordem da criação por excelência, a unidade essencial que mantém no lugar os fundamentos do cosmos. Violar essa ordem primordial das coisas é tido como a forma mais abominável de rebelião; não apenas contra Deus (como se não bastasse), mas contra o próprio universo. </p>
<p>Do mesmo modo, alimentar uma consciência ecológica é, em última instância, voltar-se contra a ordem divina revelada em Gênesis 1. Nosso dever como seres humanos não é preservar o planeta, mas mostrar a ele quem manda; Deus, afinal de contas, está quase pronto para dar-nos um novo e inteiramente remodelado.</p>
<p>E o fundamento para todos esses raciocínios, é preciso enfatizar, é um só: o Criador não quer que seja de outra forma, do contrário teria feito diferente desde o começo. Os verdadeiros crentes desejarão conformar-se à vontade divina, pelo que não ousarão inverter a ordem das coisas.</p>
<p>A solução para o dilema, quero crer, está em determinar até que ponto Deus deixou de ser Criador, ou em que momento a criação foi de fato concluída. A Bíblia, é claro, oferece curiosas evidências para sugerir que a obra da criação permanece em aberto. Deus é, até a última página, aquele que &#8220;faz novas todas as coisas&#8221;. O Filho do Homem e seus seguidores são em especial descritos como &#8220;novas criaturas&#8221;, isto é, protagonistas de uma nova e totalmente inusitada criação &#8211; porque, observa Jesus, um tanto blasfemamente, &#8220;meu Pai continua trabalhando&#8221;.</p>
<p>Como propõe Edward H. Schroeder em sua <a href="http://pdfmenot.com/view/http://www.crossings.org/archive/ed/TheOrdersofCreation.pdf">análise sobre a questão da ordenação feminina</a>: se Deus permanece sendo o Deus Criador, como não concluir que as mudanças sociais ocorridas no tempo que nos separa de Paulo, mudanças que acabaram possibilitando o status igualitário da mulher, são obra do mesmo Criador? Como não concluir que foram mudanças sopradas na humanidade pelo exemplo singular e subversivo de Cristo? A obra do evangelho não estará derramando sobre o mundo seus inesperados desdobramentos?</p>
<p>&#8220;A consequência clara do evangelho,&#8221; observa Schroeder, &#8220;é que as ordens da criação são impermanentes. Com o tempo acabarão passando, juntamente com &#8216;o céu e a terra&#8217;&#8221;.  A igreja não deve temer essa impermanência, porque &#8220;a própria igreja veio à existência através de um ato de violação&#8221;. A ordem fundamental da criação, pela qual o pecador deve ser invariavelmente punido com a morte, foi espetacularmente contornada pelo esvaziamento de Deus, e dessa formidável violação nasceu uma formidável possibilidade de vida. É por isso que em seu cerne a mensagem do evangelho é um escândalo &#8211; uma violação extrema da lógica e da ordem inerentes ao universo.</p>
<p>&#8220;A preocupação da igreja&#8221;, conclui Schroeder, &#8220;deve ser evitar que o próprio evangelho seja violado; fora isso, ela deve deixar que o evangelho promova suas próprias violações, credenciado pela autoridade do próprio Cristo&#8221;.</p>
<p>Jacques Ellul, refletindo sobre essas coisas, concluiu que toda a lei e toda a justiça devem estar embasadas em Cristo. O mundo e a condição humana, propõe ele, encontram-se numa situação inteiramente nova diante da revelação e da obra redentora de Deus em Cristo. O que era considerado lei natural deve perder de agora em diante o seu caráter normativo, sendo relativizado pela desconcertante reviravolta da justificação.</p>
<p>Ou, na reflexão de James Alison, nossa visão de Deus como Criador deve deixar de ser a de alguém que fez algo no passado para a de alguém que está fazendo algo nos nossos dias por meio de Jesus &#8211; Jesus que estava com o Pai desde o princípio, fazendo todas as coisas.</p>
<p>A escandalosa verdade é que a liga que sustenta o universo não é a família ou o casamento, mas a misericórdia, soprada por Deus e manifesta pelos homens. De um modo transversal o próprio Jesus demonstrou esse princípio quando explicou que &#8220;no princípio não era assim, mas o divórcio foi instituído por causa da dureza do coração de vocês&#8221;. Em outras palavras, ele está revelando que o divórcio foi instituído, incrivelmente, por uma vitória da misericórdia contra a ordem da criação. Está longe de ser uma solução ideal e não estava prevista na ordem original das coisas, mas é uma resposta da graça diante da irreversível complexidade da condição humana.</p>
<p>Nos dois mil anos que nos separam da cruz a condição humana imergiu em muitas camadas adicionais de complexidade. Porém a misericórdia tem continuando a violar, de forma sistemática e sempre escandalosa, as ordens da criação. Quando a sua obra estará concluída? Talvez no momento em que cumprir-se por completo a profecia de Paulo, e em Cristo não houver mais judeu e grego, civilizado e bárbaro, escravo e livre, homem e mulher. </p>
<p>Ou, para citar João, no momento em que o amor lançar fora todo o medo.</p>
<p>Pois o apego irresistível às ordens da criação é, essencialmente, o apego dos seres humanos (especialmente os do sexo masculino) às formas de dominação, como alternativa ao medo e ao sentimento de inadequação. Porque é sabido que os homens, que escreveram até recentemente toda a história, sentem que devem provar continuamente o seu valor, que pensam ser a mesma coisa que sua masculinidade. Se lutavam para manter o estado de coisas por meio de sexismo, do racismo e do nacionalismo é por que temiam instintivamente a competição das mulheres, dos homens de outras raças e dos povos de outras nações. É pelo mesmo motivo que recusam-se a trocar o seu <a href="http://www.flickr.com/search/?q=hummer+truck&#038;m=tags&#038;z=t&#038;ss=2&#038;s=int">Hummer</a>, que epitomiza tão adequadamente a sua masculinidade, por uma scooter ou um carro mais econômico. E, porque não querem ver a sua própria masculinidade de alguma forma colocada em cheque, lutam por um mundo em que não precisem testemunhar o beijo apaixonado de dois barbados ou (talvez pior) de duas mulheres. As ordens da criação acenam com um mundo seguro, em que todas as coisas tem o seu lugar, e é apavorante imaginar que possa ser diferente.<a name="temor"></p>
<p>Enquanto isso o Filho do Homem, que morreu virilmente na cruz e procura nos atrair incessantemente para a mesma posição, divulga sem pausa o escândalo e a boa nova de que não há absolutamente o que temer.</p>
<b><small>NOTAS</small></b><ol class="footnotes"><li id="footnote_0_1600" class="footnote">Gênesis 9:22-25</li><li id="footnote_1_1600" class="footnote">De forma semelhante, Lutero sentia-se à vontade para <a href="http://www.baciadasalmas.com/2005/lutero-alerta-os-alemaes">imprecar contra os judeus</a> e Hitler para exterminá-los, afirmando-se cristãos os dois</li><li id="footnote_2_1600" class="footnote">Os Estados Unidos, um tanto paradoxalmente, abraçam crenças semelhantes através do conceito de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Destino_Manifesto">Destino Manifesto</a></li></ol>]]></content:encoded>
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		<title>Com as mulheres</title>
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		<pubDate>Wed, 11 Jun 2008 09:01:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Homens e Mulheres]]></category>

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		<description><![CDATA[&#8211; Está vendo essa mulher? Eu entrei na sua casa e você não me ofereceu água para lavar os pés. Ela, no entanto, lavou meus pés com lágrimas, e enxugou-os com os seus cabelos. Você não me cumprimentou com um beijo, mas ela, desde que entrou, não parou de beijar-me os pés. Você não me [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<table cellpadding="10" width="45%" align="center" border="0" unselectable="on">
<tbody>
<tr>
<td>
<p align="left"><small>&#8211; Está vendo essa mulher? Eu entrei na sua casa e você não me ofereceu água para lavar os pés. Ela, no entanto, lavou meus pés com lágrimas, e enxugou-os com os seus cabelos. Você não me cumprimentou com um beijo, mas ela, desde que entrou, não parou de beijar-me os pés. Você não me derramou óleo sobre a cabeça, mas ela passou essência perfumada nos meus pés.</small><br />
<span style="font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps;">Lucas 7:44-46</span></p>
</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>A distância cultural nos impedirá para sempre de apreender a extensão da sua influência e a absoluta novidade da sua postura, mas é certo que nenhuma outra figura masculina da Antiguidade ocidental &#8211; seja no domínio da realidade ou da ficção &#8211; sentiu-se mais à vontade entre as mulheres do que o Jesus dos evangelhos. Nenhum outro personagem do seu tempo, e talvez de tempo algum, fez mais para corrigir a distorção das lentes culturais através das quais a imagem da mulher era interpretada &#8211; e em muitos sentidos permanece sendo.</p>
<p>A singularidade de Jesus nesse aspecto não é menos do que tremenda. Acho notável ao ponto do milagroso que as posturas de Jesus diante das mulheres, conforme descritas nos evangelhos, não tenham sido censuradas posteriormente por homens <a href="http://www.baciadasalmas.com/2008/meramente-viviam">menos preparados do que ele para abraçá-las</a>. </p>
<p>É preciso lembrar o óbvio, que não faz cem anos que as mulheres alcançaram status social igualitário no ocidente, e que os evangelhos descrevem o que ocorreu há dois mil.</p>
<p>Numa época em que um marido não deveria dirigir-se à própria esposa em lugar público e homem algum deveria trocar palavra com uma mulher desconhecida (em ambos os casos para proteger a sua honra, não a dela), o rabi de Nazaré buscava a companhia amistosa de mulheres, puxava conversava com elas, tratava-as com admiração e naturalidade, interessava-se sem demagogia pelos seus interesses, deixava que tocassem publicamente o seu corpo e o seu coração.</p>
<p>O Filho do Homem não se constrangia em ser sustentado por mulheres, não virava o rosto à possibilidade de ser acarinhado por elas, não hesitava em recorrer a imagens que diziam respeito ao seu dia-a-dia, não sonegava histórias em que mulheres eram (muito subversivamente, na ótica do seu tempo) exemplo de humanidade, de integridade, de engenhosidade e de virtude.</p>
<p>Falamos de um tempo, num certo sentido não muito distante, em que os homens que não denegriam abertamente a imagem da mulher soterravam-na por completo debaixo de idealizações simplistas. Dependendo de quem estava falando, a mulher era vista como incômodo necessário, como homem imperfeito, como criança, como objeto mecânico de desejo, como objeto idealizado de poesia, como animal fraco e sensual; figura às vezes inocente, às vezes desejável, normalmente imprevisível, normalmente indigna de confiança, invariavelmente inferior.</p>
<p>Contra esse cenário, o rabi de Nazaré resgatou uma mulher adúltera das garras da justiça e da morte sem recorrer ao que seria o mais fácil e popular dos argumentos antes e depois dele, o que afirma que a mulher é criatura de mente obtusa e vontade fraca, particularmente suscetível às sensualidades da carne. Num único golpe eficaz ele transferiu a culpa da mulher acuada para os seus acusadores, todos eles homens e emblemas de poder e desenvoltura, até serem publicamente dissolvidos pela mão de Jesus. A vítima, a transgressora, foi ao mesmo tempo salva da condenação e tratada, talvez pela primeira vez, como ser humano independente e responsável (João 8:1-11). </p>
<p>Aqui estava um homem que, irresistivelmente, olhava para as mulheres sem rebaixar-se a preconceitos ou recorrer a idealizações. Jesus lia as mulheres como seres humanos, e foram necessários séculos para que o mundo arriscasse repetir a sua ousadia. Ainda hoje, transcorridos milênios ineficazes, não há homem que esteja imune a ler a mulher através de estereótipos novos e velhos; ainda somos tentados a enxergar o homem incompleto, a flor de pureza, a criança sem rédea. Mas ali, nas esquinas empoeiradas de um canto do mundo, as estruturas do mundo social haviam sido abaladas para sempre. </p>
<p>Para mim não há evidência maior de que o espírito subversivo de Jesus permaneceu vivo nos primeiros discípulos, logo após a ressurreição, do que a descrição da comunidade de seguidores em Atos 1:14: &#8220;Todos estes [homens] perseveravam unanimemente em oração, com as mulheres, e Maria, mãe de Jesus, e com os irmãos dele&#8221;.</p>
<p>Este <em>com as mulheres</em> me pega desprevenido todas as vezes, tanto pela sua necessidade quanto pelo impensável que representava no seu tempo. Em retrospecto é difícil avaliar o quanto está sendo efetivamente dito aqui, mas é preciso lembrar constantemente que naquela cultura as esferas de atividade de homens e mulheres eram divididas ao ponto do incompatível. Essa fenda corria de uma ponta à outra o tecido da sociedade, mas seu ponto nevrálgico talvez residisse na esfera religiosa, na qual era preciso ser homem para ter participação eficaz &#8211; isto é, para ter acesso verdadeiro e relevante à divindade.</p>
<p>Na visão de mundo vigente homens e mulheres habitavam espaços separados no universo; essa incompatibilidade era espelhada na sociedade e prontamente celebrada através de espaços diferenciados de adoração. Tanto o Templo quanto as sinagogas tinham áreas separadas para homens e mulheres, e os recintos reservados para os homens ficavam invariavelmente mais próximos de Deus. Era uma sociedade em que não ocorreria a ninguém colocar homens e mulheres compartilhando voluntariamente de um mesmo espaço, muito menos um espaço religioso.</p>
<p>Agora que Jesus havia subido ao céu e os homens de branco haviam dito que mantivessem os olhos fixos na terra, os discípulos viram-se diante de um problema e de um embaraço. Jesus, o amigo das mulheres, havia partido, mas as mulheres haviam ficado. Deveriam eles, homens de respeito e maridos de boa fama, retornar ao antigo e unânime padrão social, devolvendo as mulheres ao seu devido lugar? Agora que Jesus não estava mais ali para efetuar a sua mágica, não seria inevitável que restabelecessem a fenda social que ele havia coberto temporariamente? Quando a multidão de seguidores retornasse a Jerusalém (onde Jesus dissera que aguardassem) deveriam o grupo de discípulos e o de discípulas &#8220;perseverar unanimemente&#8221; em recintos separados?</p>
<p>Escolher o contrário, escolher o abraço comunitário e a convivência santa nos padrões inaugurados por Jesus, seria nadar contra a corrente de todas as instituições sociais em efeito no seu tempo. Um observador só encontraria <a href="http://www.baciadasalmas.com/2008/acusacoes-contra-um-culto-invisivel">um modo razoável de interpretar</a> uma reunião voluntária e regular entre homens e mulheres: como ocasião para licenciosidade. Foi efetivamente dessa maneira que as reuniões cristãs &#8220;de amor&#8221; foram interpretadas por seus antagonistas ao longo de seus primeiros séculos. Tinham que ser desculpas para sexo &#8211; porque, que mais poderia um homem querer fazer com uma mulher?</p>
<p>A momentosa decisão encapsulada nesse único verso demorou a encontrar compreensão e aceitação, tanto dentro quanto fora do grupo. Escolhendo reunir-se regularmente no mesmo recinto, tanto homens quanto mulheres abriram voluntariamente mão da ficção da &#8220;boa fama&#8221; em troca da generosidade, da inclusão e da convivência. Escolhendo sentar-se de modo criativo ao lado de um Outro com quem não criam ter nada em comum, romperam um véu ancestral e convidaram o mundo a explorar um universo de possibilidades inimaginadas. Nos dois casos, seguiam o desafio formidável deixado pelo exemplo de Jesus.</p>
<div class='series_toc'><h3>Rastros dos apóstolos</h3><ol><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/como-perder-jesus-de-vista-no-livro-de-atos/' title='Como perder Jesus de vista no livro de Atos'>Como perder Jesus de vista no livro de Atos</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/ascensao-sem-tregua-das-testemunhas/' title='Ascensão sem trégua das testemunhas'>Ascensão sem trégua das testemunhas</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/a-escassez-seletiva-selecionar-e-interpretar/' title='A escassez seletiva: selecionar é interpretar'>A escassez seletiva: selecionar é interpretar</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/o-jesus-terreno-e-o-cristo-extraterrestre/' title='O Jesus terreno e o Cristo extraterrestre'>O Jesus terreno e o Cristo extraterrestre</a></li><li>Com as mulheres</li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/como-reconhecer-entre-dois-discipulos-um-apostolo/' title='Como reconhecer, entre dois discípulos, um apóstolo'>Como reconhecer, entre dois discípulos, um apóstolo</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/a-plenitude-dos-tempos/' title='A plenitude dos tempos'>A plenitude dos tempos</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/a-verdadeira-mensagem/' title='A verdadeira mensagem'>A verdadeira mensagem</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-lucidez-profetica/' title='A lucidez profética'>A lucidez profética</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-vexacao-de-satanas/' title='A vexação de Satanás'>A vexação de Satanás</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-volta-ao-que-poderia-ter-sido/' title='A volta ao que poderia ter sido'>A volta ao que poderia ter sido</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-fermentacao-da-morte/' title='A fermentação da morte'>A fermentação da morte</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-incubacao-do-espirito/' title='A incubação do espírito'>A incubação do espírito</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/formato-minimo/' title='Formato mínimo'>Formato mínimo</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/o-que-se-diz-e-o-que-nao-se-diz/' title='O que se diz é o que não se diz'>O que se diz é o que não se diz</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-linhagem-do-batismo/' title='A linhagem do batismo'>A linhagem do batismo</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/as-transgressoes-do-ceu/' title='As transgressões do céu'>As transgressões do céu</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/um-mundo-alem-do-perdao/' title='Um mundo além do perdão'>Um mundo além do perdão</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/breve-historia-do-arrependimento/' title='Breve história do arrependimento'>Breve história do arrependimento</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/arrepender-se-e-mudar-o-mundo/' title='Arrepender-se é mudar o mundo'>Arrepender-se é mudar o 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divina soltura</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/a-graca-dos-vasos-comunicantes/' title='A graça dos vasos comunicantes'>A graça dos vasos comunicantes</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/a-invencao-da-gentileza/' title='A invenção da gentileza'>A invenção da gentileza</a></li></ol></div>]]></content:encoded>
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		<title>Meramente viviam</title>
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		<pubDate>Wed, 07 May 2008 09:20:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fé e Crença]]></category>
		<category><![CDATA[Homens e Mulheres]]></category>
		<category><![CDATA[cristianismo]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
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		<description><![CDATA[Eu adoraria encontrar registros da existência de teólogas influentes na igreja primitiva, na era medieval e na Reforma. Porém, embora as mulheres estivessem certamente presentes e tenham sido fundamentais na vida espiritual do Cristianismo ao longo de toda a sua história, até recentemente nenhuma delas foi capaz de influenciar consideravelmente o curso e a direção [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<blockquote><p>Eu adoraria encontrar registros da existência de teólogas influentes na igreja primitiva, na era medieval e na Reforma. Porém, embora as mulheres estivessem certamente presentes e tenham sido fundamentais na vida espiritual do Cristianismo ao longo de toda a sua história, até recentemente nenhuma delas foi capaz de influenciar consideravelmente o curso e a direção da teologia da igreja.<br />
<br />
Para alguns a escassez de &#8220;mães da igreja&#8221; é evidência de preconceito por parte dos teólogos de sexo masculino, ou do caráter irremediavelmente patriarcal do próprio cristianismo. Creio que essa escassez é evidência da natureza patriarcal da cultura ocidental como um todo (da qual o cristinismo é parte integral) e da acomodação cultural por parte da igreja e de suas instituições. Deveriam ter existido mães da igreja paralelamente aos <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Anexo:Lista_de_Padres_da_Igreja">pais da igreja</a>. O fato de que não tenham existido é um escândalo para a igreja, mas não justifica as histórias revisionistas que as inventam.</p></blockquote>
<p>Este é Roger E. Olson na introdução de seu <a href="http://www.editoravida.com.br/loja/product_info.php?products_id=87">The Story of Christian Theology</a>, de resto um livro valiosíssimo, embora não pelos motivos que supõe o seu autor.</p>
<p>Neste trecho Olson está se esforçando para, sem ofender ninguém, corrigir uma falácia: a idéia revisionista de que na história do cristianismo existiram mulheres que se ocuparam de teologia, pensadoras cuja voz foi silenciada por uma ardilosa conspiração de teólogos do sexo masculino. Olson está certo em dizer que historicamente as mulheres não se ocuparam de teologia, mas para corrigir essa falácia ele reforça outra ainda maior e muitas vezes mais popular, a noção de que a teologia é o modo relevante, o modo último e ótimo de se exercer o cristianismo. Ele está efetivamente dizendo: &#8220;é uma pena que não tenham havido mulheres teólogas, porque o pensamento teológico é a esfera na qual o cristianismo verdadeiro se desenrola&#8221;.</p>
<p>Falando assim, Olson está destilando eficazmente dois mil anos de pensamento masculino: para os homens, fazer cristianismo é fazer teologia.</p>
<h5>Para os homens, fazer cristianismo é fazer teologia.</h5>
<p>Não importa o que pensem Olson ou os revisionistas que ele procura refutar: o fato é que não foi por mera falta de oportunidade que as mulheres não se ocuparam de teologia. Num sentido muito essencial, o que as manteve longe das especulações teológicas foi a consciência profunda de que tinham (como mulheres e como cristãs) coisa mais importante para fazer.</p>
<p>A teologia é um exercício intelectual, uma manobra de idéias, um jogo expansionista cujo objetivo é anular a posição do antagonista. A proposta da teologia não é apenas fixar, tabular e estabelecer limites para a imponderável verdade espiritual; seu objetivo declarado é vencer, derrubar, eliminar a oposição pela <a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/a-seducao-da-ortodoxia/">manobra rasteira do convencimento</a>. Essa sua qualidade de &#8220;jogo de quem é mais forte&#8221; (ou, no caso, &#8220;quem está mais certo&#8221;) mantem-na, irremediavelmente, no terreno dos interesses masculinos.</p>
<p>Não é caminho que as mulheres tenham prazer em trilhar. O jogo masculino, qualquer que seja, não as interessa.</p>
<p>Além disso é preciso reconhecer que escrever teologia é tradicionalmente a atividade de homens que não estão fazendo sexo (naturalmente há outros homens, além de teólogos, que não estão fazendo sexo, mas esses estão amortizando essa carência compondo poemas candentes, escrevendo romances vigorosos ou buscando uma solução ainda mais eficaz para remediar a sua situação). Historicamente, portanto &#8211; e disso dão evidência tanto as linhas quanto as entrelinhas &#8211; a teologia foi escrita por homens obcecados por sexo, e pelos motivos errados. A teologia é o esforço masculino de demonstrar que a verdadeira espiritualidade implica em afastamento do mundo real; daí a abstinência, daí a assepsia das idéias, daí o caráter infantilmente selado das discussões, das quais só podem efetivamente participar os iniciados na adequada gnose.</p>
<h5>Escrever teologia é tradicionalmente a atividade de homens que não estão fazendo sexo.</h5>
<p>Falando claramente, as mulheres não têm esse problema sexual. Não acham necessário constrastar a vida cristã com o que quer que seja, muito menos com algo tão desejável e natural quanto o sexo ou os demais embaraços e delícias da realidade física. Nesse sentido as mulheres rendem-se imediatamente aos charmes de Jesus de Nazaré, o curador e contador de histórias, que por um lado recusava-se a rebaixar-se à especulação teológica, por outro <a href="http://www.baciadasalmas.com/2007/sexto-passo-sensualize-a-sua-espiritualidade/">abraçava o mundo dos sentidos</a> com mais avidez e candura do que o mundo das idéias.</p>
<p>Intuitivamente, portanto, as mulheres sabem que a espiritualidade não é coisa a ser cultivada na cabeça, mas no coração; não é atividade que se desenrole no palco das idéias, mas nos bastidores das atitudes. Ao longo da história, enquanto os homens se ocupavam de teologia, as mulheres cristãs viviam (e, como homem, minha tentação é escrever &#8220;meramente viviam&#8221;, como se viver fosse coisa de somenos).</p>
<p>Elas apostaram consistentemente na idéia de que, se havia algo de relevante na herança de Jesus, isso se manifestava em pés empoeirados, em abraços, em unhas sujas, em panelas de comida, em manchas difíceis de sair, em cafunés, em consolos, em longas conversas na madrugada, na cabeceira dos doentes, na limpeza das secreções, em lágrimas, na confecção de presentes, na sustentação de relacionamentos, na cura de doentes, nas visitas aos esquecidos, no repartir do pão, no sorriso dividido, no dilema de consciência, na intimidade da cama, na companhia silenciosa, na ausência impensável. </p>
<p>Em primeiro de abril de 1933, aos 91 anos de idade, Julie Bonhoeffer (avó do teólogo Dietrich) atravessou desafiadoramente o cordão de isolamento que os soldados das tropas de assalto nazistas haviam estendido no centro de Berlim para promover o boicote aos estabelecimentos judeus. Caminhando além da linha divisória e dos soldados perplexos, Julie foi fazer suas compras na <em>Kaufhaus des Westens</em>, a loja de proprietários judeus que costumava freqüentar.</p>
<p>Se resta na terra evidência que honre a herança de Jesus, isso não se deve aos meandros da teologia; não se deve, em grande parte, a homens.</p>
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		<title>Toda a pornografia da Terra</title>
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		<pubDate>Sat, 22 Sep 2007 10:38:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Homens e Mulheres]]></category>
		<category><![CDATA[sexo]]></category>

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		<description><![CDATA[Tive outro dia uma incontinente revelação: toda a pornografia da terra é feita para ser consumida por homens. Não fossem os homens, não haveria como manter lucrativo esse negócio. Dizem-me que há mulheres interessadas no assunto, mas essas permanecem, por alguma incompreensível diferença de constituição, exceção e curiosidade. A pornografia existe, essencialmente, para os homens [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Tive outro dia uma incontinente revelação: toda a pornografia da terra é feita para ser consumida por homens. Não fossem os homens, não haveria como manter lucrativo esse negócio. Dizem-me que há mulheres interessadas no assunto, mas essas permanecem, por alguma incompreensível diferença de constituição, exceção e curiosidade.</p>
<p>A pornografia existe, essencialmente, para os homens (e os homens, naturalmente, para a pornografia). Somos o público-alvo. Essa revelação pareceu-me especialmente notável quando se considera que a fidelidade dessa audiência independe, em grande parte, do conteúdo do material pornográfico em si. Quer mostre homens com mulheres, homens com homens ou mulheres com mulheres, do lado de cá serão basicamente homens assistindo.</p>
<p>Se isso não diz algo sobre nós, não sei o que pode dizer.</p>
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		<title>Pra que servem os homens</title>
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		<pubDate>Tue, 28 Aug 2007 09:06:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Homens e Mulheres]]></category>
		<category><![CDATA[Quase Ciência]]></category>
		<category><![CDATA[biologia]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>

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		<description><![CDATA[Uma pesquisa recente compilou dados sobre os estereótipos que as pessoas desenvolvem a respeito de homens e mulheres, revelando&#160;uma tendência&#160;que recebeu o nome de efeito MSM (&#8220;Mulheres São Maravilhosas&#8221;):&#160;tanto homens quanto mulheres tem uma visão mais favorável a respeito das mulheres do que a respeito dos homens. Quase todo mundo gosta mais de mulheres do [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="center"><a title="Clique para ampliar" href="http://www.baciadasalmas.com/images/2007/bits/superficiais-b.jpg" atomicselection="true"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2007/bits/superficiais.png"></a> </p>
<p>Uma pesquisa recente compilou dados sobre os estereótipos que as pessoas desenvolvem a respeito de homens e mulheres, revelando&nbsp;uma tendência&nbsp;que recebeu o nome de efeito MSM (&#8220;Mulheres São Maravilhosas&#8221;):&nbsp;tanto homens quanto mulheres tem uma visão mais favorável a respeito das mulheres do que a respeito dos homens. <strong>Quase todo mundo gosta mais de mulheres do que de homens.</strong> Eu sem dúvida sou um desses.</p>
<p>Porém, ao invés de ver a cultura como um patriarcado, isto é, uma conspiração de homens para explorar as mulheres, creio que é mais acurado dizer que uma cultura (por exemplo, um país ou uma religião) é um sistema abstrato que compete contra sistemas rivais – usando tanto homens quanto mulheres para avançar a sua causa.</p>
<p>Quando digo que estou pesquisando sobre as formas como a cultura explora os homens, a primeira reação das pessoas é dizer: &#8220;Como você pode dizer que a cultura explora os homens, se os homens estão no controle de tudo? A maior parte dos governantes mundiais e executivos de corporações são homens.&#8221; O erro desse modo de pensar é que ele olha apenas para o topo. Se olharmos para a porção inferior da sociedade, veremos que ali também há mais homens do que mulheres. Quem está nas prisões do mundo, seja como criminosos ou prisioneiros políticos? Quem são os sem-teto? Quem a sociedade usa para desempenhar atividades insalubres ou perigosas? Quem é morto nas guerras? Basicamente, homens.</p>
<p>A maior parte das culturas tende a usar homens ao invés de mulheres <strong>para tarefas de alto risco e elevado retorno</strong>, e quero apresentar razões práticas para que seja assim. A maior parte das culturas protege as mulheres do risco, e por isso não concede a elas grandes recompensas. Não estou dizendo que seja eticamente certo agir assim, mas culturas não são entidades éticas; fazem o que fazem a fim de competir com outros sistemas e outros grupos.</p>
<h5>Descendemos de mulheres que não se arriscaram e de homens que assumiram riscos.</h5>
<p>Levantou-se uma grande controvérsia quando Larry Summers, na época presidente da universidade de Harvard, opinou que talvez não fosse o preconceito que levasse a haver menos mulheres do que homens em lugares de destaque no cenário científico; talvez, sugeriu ele, a razão fosse simplesmente o fato de haver mais homens inteligentes do que mulheres. Ele teve de pedir desculpas, de se retratar e finalmente de abandonar o cargo, porque hoje em dia a única explicação permitida para a falta de mulheres de destaque no campo da ciência é o patriarcado, a conspiração dos homens contra as mulheres, não a habilidade inata.</p>
<p>Na média os homens são precisamente tão inteligentes quanto as mulheres, mas não foi isso que Sander disse. Ele opinou que há mais homens inteligentes do que mulheres, o que não altera a média se ficar provado – como demonstram também as estatísticas&nbsp;– que há mais homens na porção inferior da escala, ou seja, <strong>há mais homens realmente estúpidos do que mulheres</strong>. Confirmam todas as evidências que o padrão de retardamento mental é o mesmo da genialidade: há mais homens do que mulheres nesses dois extremos, e creio que a razão para que seja assim é biológica e genética. A natureza arrisca mais com os homens do que com as mulheres, mesmo em coisas como altura. <b>Homens tendem aos extremos mais do que as mulheres. </b></p>
<p>Você quer pensar que os homens são melhores do que as mulheres? Olhe para o topo, para os heróis, os inventores, os filantropos. Quer pensar que as mulheres são melhores do que os homens? Olhe para baixo, para os criminosos, os drogados, os perdedores.&nbsp;
<p>As principais teorias sustentadas sobre a diferença entre os sexos são três: [1] os homens são melhores, [2] não existe diferença, e [3] as mulheres são melhores. Quero propor uma teoria alternativa: sustento que a seleção natural preserva diferenças inatas entre homens e mulheres desde que essas características se mostrem benéficas em circunstâncias diferentes ou para diferentes tarefas. Talvez homens e mulheres sejam diferentes, mas cada vantagem pode estar associada a uma desvantagem.
<p>Além disso, creio que <strong>as diferenças entre homens e mulheres digam mais respeito a motivação do que habilidade</strong>. Tavez as mulheres sejam capazes de fazer precisamente as mesmas coisas que os homens, mas simplesmente não tenham vontade. Homens e mulheres tem comprovadamente a mesma &#8220;habilidade&#8221; para o sexo, mas homens são mais obcecados por sexo do que mulheres. Da mesma forma, salários maiores vem para quem trabalha mais horas por semana, e a maior parte dos viciados em trabalho são homens. A criatividade talvez seja outro exemplo de diferença de motivação. Todos os estudos comprovam que mulheres são tão criativas quanto os homens, mas os grandes artistas e criadores são em geral do sexo masculino.</p>
<p>Quais são as diferenças de motivação entre homens e mulheres? Quero enfatizar duas.</p>
<p><strong><font color="#008000">Risco e retorno</font></strong></p>
<p>A primeira diferença diz respeito a uma questão que é raramente levada em conta: que percentagem de nossos ancestrais eram mulheres? Qual a percentagem de gente que já viveu e tem um descendente vivo hoje? A resposta não é 50%. Toda criança tem um pai e uma mãe, mas alguns pais têm mais de um filho.<br />Dois anos atrás uma pesquisa utilizando análise de DNA revelou que <strong>a população humana de hoje descende de duas vezes mais mulheres do que homens.</strong> Na história da humanidade cerca de 80% das mulheres, mas apenas 40% dos homens, se reproduziram. </p>
<p>Esse&nbsp;comportamento reprodutivo pode ser explicado pela teoria da evolução. Ao longo da história, as chances de reprodução para as mulheres mantiveram-se definitivamente boas. Por que foi tão raro que cem mulheres se reunissem e construíssem um navio e se lançassem ao mar para explorar regiões desconhecidas, enquanto para os homens foi razoalvemente comum realizarem coisas assim? O fato é que assumir riscos como esses seria estúpido da perspectiva de um organismo biológico buscando se reproduzir. Elas podiam se afogar, ser mortas por selvagens, ou pegar alguma doença. Para uma mulher, a coisa ótima a se fazer é ficar na sua, seguir com a corrente, não arriscar. As chances são boas de que apareçam homens dispostos a fazer sexo e você poderá ter filhos. O que importa é fazer a escolha correta. <strong>Descendemos de mulheres que não se arriscaram. </strong>
<p>Para os homens, as coisas foram sempre radicalmente diferentes. Se você seguir a corrente e não se arriscar, as chances são que você vai acabar não tendo filhos. A maior parte dos homens que já viveu não tem descendentes vivos hoje em dia. Por essa razão era necessário assumir riscos, tentar coisas novas, ser criativo, explorar novas possibilidades. Navegar para o desconhecido pode ser arriscado, mas se você ficar em casa não vai de qualquer modo se reproduzir. A maior parte de nós descende do tipo de homens que fez a viagem arriscada e voltou <strong>rico</strong>. Nesse caso ele teria uma chance de passar adiante os seus genes. <strong>Descendemos de homens que assumiram riscos </strong>(e tiveram sorte).
<p>Coisas como&nbsp;ambição, criatividade e&nbsp;obsessão por sexo provavelmente importavam mais para o sucesso masculino (medido em número de filhos) do que para a mulher.
<p>Quando olho ao redor para homens e mulheres, não tenho como escapar da impressão de que as mulheres são simplesmente mais agradáveis e amáveis do que os homens (isso explica o efeito MSM, mencionado antes). Os homens podem querer ser amáveis, e podem fazer com que mulheres os amem (portanto a habilidade está lá), mas homens tem outras prioridades, outras motivações. Para as mulheres, ser amável era a chave para atrair o melhor parceiro. Para os homens, no entanto, a questão era mais de superar outros homens para chegar a ter a chance de obter uma parceira.
<p><strong>Talvez a natureza tenha projetado as mulheres para buscarem serem amáveis, enquanto os homens foram projetados para correrem (na maioria das vezes sem sucesso) atrás da grandeza</strong>. Para os homens, valeu a pena. Estima-se que Genghis Khan, que assumiu grandes riscos e conquistou a maior parte do mundo conhecido, tenha tido mais de mil filhos. Mulher alguma, mesmo que tivesse conquistado o dobro de território de Khan, poderia ter tido mil filhos. Correr atrás da grandeza não oferecia à mulher retorno biológico algum. Por definição são poucos os homens que conseguem se alçar à grandeza, mas para esses os ganhos se mostraram reais.</p>
<p><strong><font color="#008000">Sociável com quem</font></strong></p>
<p>Dez anos atrás um estudo propunha a tese de que as mulheres são mais sociáveis do que os homens, visto que os homens são mais agressivos, e a agressividade coloca em risco os relacionamentos. Escrevi uma resposta argumentando que <strong>há duas maneiras de ser sociável</strong>. Na psicologia social tendemos a enfatizar relacionamentos próximos, relações íntimas, e talvez nesses as mulheres sejam de fato melhores do que os homens. Mas os homens podem também ser considerados sociáveis em termos de terem grandes redes de relacionamentos superficiais; talvez nesse campo os homens sejam mais sociáveis do que as mulheres.</p>
<p>Costumamos dizer que ter uns poucos amigos íntimos é melhor do que se ter um grande número de conhecidos, mas uma grande rede de relacionamentos pouco profundos pode ser importante também. Não devemos ver os homens como seres humanos de segunda classe apenas porque eles se especializam na forma de relacionamento menos importante e menos satisfatória.</p>
<p>Reexaminemos a evidência. Está certo, as mulheres são menos agressivas do que os homens, mas será porque as mulheres não querem colocar em risco o relacionamento? Acontece que, em relacionamentos íntimos, as mulheres são bastante agressivas, sendo que a maior parte das violências domésticas é iniciada pela mulher. A diferença está em que as mulheres não são violentas com estranhos. As chances de uma mulher acabar se envolvendo com outra numa briga de faca numa saída ao shopping são pequenas. As mulheres não se envolvem em violência nessa rede mais ampla de relacionamentos, mas os homens sim, porque para eles essa rede é mais importante. Da mesma forma, os homens mostram-se mais dispostos a ajudar os amigos do que as mulheres, enquanto as mulheres mostram-se mais dispostas a oferecer ajuda dentro de casa.</p>
<p>As mulheres tendem a ser ao mesmo tempo mais solícitas e mais agressivas na esfera dos relacionamentos íntimos, porque é com isso que se importam. Em contraste, os homens importam-se com a rede mais ampla de relacionamentos superficiais, por isso mostram-se bastante solícitos e violentos no âmbito dela.</p>
<p>Estudos feitos em jardins da infância comprovam essa tendência. Se duas meninas estão brincando e os pesquisadores trazem uma terceira, as duas meninas oferecem resistência para aceitá-la, enquanto que dois meninos aceitarão de bom grado que um terceiro se junte à brincadeira. Ou seja, as meninas preferem a conexão um-a-um, enquanto os meninos sentem-se atraídos por grupos maiores e redes mais amplas. <strong>As mulheres especializam-se na esfera estreita dos relacionamentos íntimos. Os homens especializam-se no grupo mais amplo.</strong> </p>
<p>Importantes diferenças de personalidade originam-se dessa diferença no tipo de relacionamento que interessa homens e mulheres.
<p>É lugar comum, por exemplo, dizer que as mulheres sabem expressar suas emoções melhor do que os homens. Isso se explica: num relacionamento íntimo, em que a comunicação é fundamental, pode ser vantajoso ser capaz de expressar o que se está sentindo, mas num grupo maior, em que você pode ter rivais ou inimigos, pode ser arriscado deixar transparecer as suas emoções.</p>
<p>Numa distribuição de recursos, as mulheres tendem a defender que todos os envolvidos recebam a mesma parcela de um montante, enquanto os homens tendem a defender que quem trabalhou mais deve receber mais. <strong>A solução masculina está melhor adaptada a grandes grupos, enquanto a solução feminina está melhor adaptada para pares íntimos.</strong></p>
<p>Há também a noção de que os homens são mais competitivos e as mulheres mais cooperativas&nbsp;– e, naturalmente, a cooperação é muito mais útil do que a competição para relacionamentos íntimos. Já em grandes grupos chegar ao topo pode ser fundamental. Não esqueça que a maior parte dos homens não se reproduz, e descendemos de homens que chegaram ao topo. Para as mulheres não foi assim.</p>
<p><strong><font color="#008000">Como a cultura usa os homens</font></strong></p>
<p>O feminismo ensinou-nos a ver a cultura como uma questão de homens contra mulheres. Penso que a evidência indica que a cultura surgiu de homens e mulheres trabalhando juntos, mas trabalhando contra outros grupos de homens e mulheres. A cultura pode ser vista como uma estratégia biológica, o passo seguinte na linha evolutiva que tornou os animais sociais. </p>
<p>A cultura depende do ganho sistêmico, da sinergia, da formação de um todo maior que a somatória das partes. Apenas sistemas maiores são capazes de prover isso. Um relacionamento entre duas pessoas pouco pode fazer em termos de divisão de trabalho e compartilhamento de informações, mas um grupo de 20 pessoas pode fazer muito mais.</p>
<p>Como resultado, <strong>a cultura surgiu essencialmente no modo de relacionamento social favorecido pelos homens</strong>. As mulheres favorecem relacionamentos íntimos, que são mais importantes para a sobrevivência da espécie. A rede mais ampla de relacionamentos superficiais não é vital para a sobrevivência, mas é vital para o desenvolvimento da cultura.</p>
<p>Não é o caso que em algum momento da História os homens tenham escanteado as mulheres. O que aconteceu foi que a esfera das mulheres se manteve essencialmente a mesma, enquanto que a esfera dos homens, dos relacionamentos mais superficiais, foi vagarosamente se beneficiando com o progresso da cultura. </p>
<p>Eis porque a religião, a literatura, a arte, a ciência, a tecnologia, a ação militar, os mercados, a organização política e a medicina emegiram primariamente da esfera masculina. A esfera feminina não produziu essas coisas, embora tenha feito coisas valiosas, como tomar conta da geração seguinte para que a espécie continuasse a existir.</p>
<p>A diferença não se origina no fato dos homens terem mais habilidades ou talentos, mas na natureza de seus relacionamentos sociais. A esfera das mulheres organizava-se na base dos relacionamentos íntimos, um-a-um, que são favorecidos pelas mulheres. Tratam-se de relacionamentos vitais e profundamente satisfatórios, que contribuem vitalmente para a saúde e para a sobrevivência. <strong>Os homens</strong>, por outro lado, <strong>favoreceram as redes mais amplas de relacionamentos superficiais, que são menos satisfatórios e emocionalmente compensadores, mas formam uma base mais fértil para a emergência da cultura. </strong></p>
<p>Coisas como arte, literatura e ciência são opcionais, sendo que as mulheres estavam fazendo o que era vital para a sobrevivência da espécie. A cultura, no entanto, tem um tremendo potencial de tornar a vida melhor, e desenvolve-se com mais eficácia em cadeias de relacionamento mais amplas e menos exigentes, terreno tradicionalmente masculino.</p>
<p><strong>A cultura conta com os homens para criar as grandes estruturas sociais</strong> que a compõem. Isso provavelmente tem menos a ver com uma conspiração patriarcal para oprimir as mulheres do que com o fato de que os homens demonstram mais interesse do que as mulheres em formar grandes grupos, trabalhar com eles e chegar ao seu topo.</p>
<p>Outro modo pela qual a cultura usa o homem é naquilo que chamo de descartabilidade masculina. Por que motivo, num acidente ou emergência, convenciona-se que &#8220;mulheres e crianças&#8221; têm preferência para serem resgatados, em detrimento dos homens?</p>
<h5>Há normalmente um excedente de pênis.</h5>
<p>Penso que haja razões biológicas para que seja assim. Na competição entre culturas, um grupo maior tem maiores chances de vencer um grupo menor. É por essa razão que a maior parte das culturas tem promovido o crescimento númerico, que depende das mulheres. <strong>Para maximizar a reprodução uma cultura precisa de todos os úteros de que puder dispor, mas basta uns poucos pênis para fazer o serviço.</strong> Há normalmente um excedente de pênis. Se uma geração perder metade dos seus homens, a geração seguinte poderá ainda assim chegar ao tamanho da anterior.&nbsp;Se perder metade das suas mulheres, o tamanho da geração seguinte estará gravemente prejudicado. É por isso que a maior parte das culturas mantém as mulheres fora de perigo e coloca os homens para fazer o serviço arriscado.</p>
<p>Outra base do caráter descartável do homem está embutida nos diferentes modos de ser sociável. Num relacionamento íntimo, um-a-um, nenhuma das partes pode ser de fato substituída em caso de uma perda. Grandes grupos, por outro lado (digamos, empresas) podem substituir e de fato substituem quem acham por bem. Dessa forma, <strong>os homens criam redes sociais onde os indivíduos são descartáveis e podem ser substituídos.</strong> As mulheres favorecem relacionamentos em que cada pessoa é preciosa e não pode ser verdadeiramente substituída.</p>
<p><strong><font color="#008000">Seja homem</font></strong></p>
<p>Na maior parte das culturas toda pessoa adulta do sexo feminino merece o título de mulher e é respeitada intrinsecamente como tal, mas muitas culturas não concedem essa honra aos homens até que demonstrem o seu valor. Alguns estudos sociológicos têm enfatizado que, culturalmente falando, <strong>ser homem é produzir mais do que você consome</strong>. Quer dizer, espera-se dos homens, em primeiro lugar, que provejam o seu próprio sustento; se outra pessoa o sustenta, você não chega a ser homem. Em segundo lugar, o homem deve ser capaz de gerar riqueza adicional de modo a ser capaz de beneficiar a outros&nbsp;– esposa, filhos, outros dependentes&nbsp;ou subordinandos&nbsp;– além de si mesmo. Você não é homem de verdade até ter chegado nesse estágio. </p>
<p>Não creio que seja mais difícil ser homem do que mulher, mas é preciso lembrar que a cultura explora&nbsp;o homem de modos muito específicos. Um desses é requerer que o homem mostre-se merecedor de respeito produzindo valor de modo a prover sustento para si mesmo e para outros. As mulheres não têm de enfrentar esse desafio em particular.
<p>Essas exigências contribuem na formação de muitos dos padrões comportamentais masculinos. A ambição, a competição e a busca pela grandeza talvez estejam ligados ao requerimento dessa luta por respeito. Grupos compostos exclusivamente por homens são marcados por zombarias e outras práticas denigridoras de modo a lembrar a todos&nbsp;que NÃO HÁ respeito suficiente para&nbsp;todo mundo, porque essa consciência pode motivar cada homem a esforçar-se mais a fim de angariar respeito para si. Essa mostrou ser uma grande fonte de fricção quando as mulheres adentraram o mercado de trabalho; as organizações tiveram de mudar suas políticas de modo a que todos fossem considerados dignos de respeito. Originalmente, por serem compostas apenas de homens, as organizações não haviam sido projetadas para serem assim.
<p><strong>O ego masculino</strong>, com sua preocupação em provar a si mesmo e competir com os outros, <strong>parece ter sido projetado para agüentar os sistemas em que há escassez de respeito e você tem de trabalhar duro para conseguir algum</strong>&nbsp;– ou será fatalmente exposto a humilhação.
<p><strong><font color="#008000">Conclusão </font></strong>
<p>Uma cultura usa tanto homens quanto mulheres, mas a maior parte das culturas usa-os de modos diferentes. A maior parte das culturas vê homens individuais como mais descartáveis do que mulheres individuais, e essa diferença tem provavelmente origem biológica.
<p>Os homens tendem aos extremos mais do que as mulheres, e isso se encaixa no modo como a cultura faz uso deles, incitando-os a tentarem todo tipo de coisas diferentes, recompensando os vencedores e esmagando impiedosamente os perdedores.<br />
<h5>O modo como uma cultura usa o homem depende de uma insegurança social crônica.</h5>
<p>A cultura não é uma questão de homens contra mulheres. Em grande parte, o progresso cultural emergiu de grupos de homens trabalhando com&nbsp;e contra outros grupos de homens. Enquanto as mulheres se concentraram em relacionamentos íntimos que permitiram que a espécie sobrevivesse, os homens criaram as grandes redes de relacionamentos superficiais, menos necessários para a sobrevivência mas que acabaram permitindo o desenvolvimento da cultura. Os homens criaram as grandes estruturas sociais que compõem a sociedade e ainda são em grande parte responsáveis por elas, embora vejamos agora que as mulheres podem ter desempenho tão bem quanto eles dentro desses grandes sistemas.
<p>O que parece funcionar melhor para as culturas é jogar os homens uns contra os outros, competindo por respeito e outras recompensas que acabam distribuídas de modo bastante desigual. Requer-se dos homens que provem o seu valor produzindo coisas que a sociedade valoriza. Eles tem de vencer tanto rivais quanto inimigos em competições culturais, provável motivo pelo qual não são tão amáveis quanto as mulheres.
<p>O modo como uma cultura usa o homem depende de uma insegurança social crônica&nbsp;– insegurança que é, na verdade, social, existencial e biológica. Embutido no papel do homem está o perigo de não ser bom o bastante para ser aceito e respeitado e até mesmo o perigo de não ter um desempenho bom o bastante para gerar descendentes. Essa insegurança social essencial é fonte de stress para o homem, e não de admirar que tantos homens&nbsp;entrem em colapso&nbsp;ou façam coisas terríveis ou heróicas ou morram mais jovens do que as mulheres. Essa insegurança, no entanto, é util e produtiva para a cultura, para o sistema.
<p>Não estou dizendo que é certo ou ético ou adequado que seja assim. Mas tem funcionado. As culturas que usam essa fórmula têm se mostrado bem sucedidas, e é uma das razões pelas quais venceram suas rivais.
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug011.gif">
<p><small>Versão condensada de <a href="http://www.psy.fsu.edu/~baumeistertice/goodaboutmen.htm"><strong>Is There Anything Good About Men?</strong></a>, de <a href="http://www.psy.fsu.edu/~baumeistertice">Roy F. Baumeister</a>, <em>Eppes Eminent Professor of Psychology &amp; Head of Social Psychology Area</em>, Florida State University, Tallahassee, FL</small></p>
<p><small>Palestra concedida à Associação de Psicologia Norte-Americana, 2007</small></p>
<p>Leia também:<br /><strong>O enigma de Páris</strong>, <a href="http://www.baciadasalmas.com/2004/o-enigma-de-paris">parte 1</a> e <a href="http://www.baciadasalmas.com/2004/o-enigma-de-paris-parte-2/">parte 2</a></p>
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		<title>Coisas que fazem de você um homem</title>
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		<pubDate>Tue, 10 Apr 2007 10:57:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>
		<category><![CDATA[Homens e Mulheres]]></category>

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		<description><![CDATA[1. ABRIR VIDROS QUE TODOS JÁ TENTARAM, e dizer modestamente que foi porque os outros já tinham afrouxado a tampa. Você sabe que foi você e isso basta. 2. CHAMAR OUTROS HOMENS DE &#8220;FILHO&#8221;, mesmo que sejam mais velhos que você. &#8220;Filho, foi você quem deixou essa multa no meu pára-brisas?&#8221; 3. AFIAR LÁPIS COM [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>1. ABRIR VIDROS QUE TODOS JÁ TENTARAM, e dizer modestamente que foi porque os outros já tinham afrouxado a tampa. Você sabe que foi você e isso basta.</p>
<p>2. CHAMAR OUTROS HOMENS DE &#8220;FILHO&#8221;, mesmo que sejam mais velhos que você. &#8220;Filho, foi você quem deixou essa multa no meu pára-brisas?&#8221;</p>
<p>3. AFIAR LÁPIS COM A FACA GRANDE DA COZINHA. Casualmente.</p>
<p>4. FICAR ESPETACULARMENTE BÊBADO e ser carregado para casa. Vomitar é plus.</p>
<p>5. TER UM PEDAÇO ROLIÇO DE MADEIRA. Na prateleira da garagem, só para misturar tinta.</p>
<p>6. TER UMA CICATRIZ. Idealmente um talho de faca no rosto, mas uma queimadura de ferro de passar no pulso já serve. &#8220;Doeu muito?&#8221; &#8220;Que nada!&#8221;</p>
<p>7. USAR FERRAMENTAS ELÉTRICAS, especialmente aquelas um pouco mais poderosas do que você precisa ou pode usar com segurança. &#8220;Pra isso é melhor eu ir em casa buscar a minha Bosch Semi-profissional&#8221;.</p>
<p>8. NÃO LIGAR PARA O PRÓPRIO PESO.</p>
<p>9. PEITO PELUDO, CAMISA ABERTA E CORRENTINHA. Quando tudo isso faltar, ande pelo menos sem camisa pela casa.</p>
<p>10. LIGAÇÕES TELEFÔNICAS QUE DURAM MENOS DE UM MINUTO. &#8220;O CD do Corel? Não, não está comigo. Tá. Té mais&#8221;.</p>
<p>11. ESTACIONAR EM BALIZA. Na primeira vez.</p>
<p>12. CHAMAR AS GAROTAS DE &#8220;PRINCESA&#8221;. Elas odeiam, mas faz de você um homem: é um serviço sujo, mas alguém tem de fazer.</p>
<p>13. SABER DISTINGUIR UMA CHAVE DE FENDA DA OUTRA. &#8220;Uma Philips, pra isso? Ficou doida, mulher?&#8221;</p>
<p>15. ARROTAR EM PÚBLICO.</p>
<p>17. NUNCA, JAMAIS, TER UM BLOG.</p>
<p>16. NÃO DAR A MÍNIMA PARA ACIDENTES E FERIMENTOS ESPETACULARES QUE LHE ACOMETEM. &#8220;Por que não vim trabalhar? Foi nada demais, só uma hemorragia cerebral&#8221;.</p>
<p>17. NUNCA, JAMAIS, LER UM BLOG.</p>
<p>21. NÃO LIGAR PARA DETALHES.</p>
<p>
<p style="text-align:right;"><small> Roubada em parte de <a href="http://www.office-humour.co.uk/g/i/3546">Office Humour</a> </small></p>
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		<title>Quando as mulheres dominavam a Terra</title>
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		<pubDate>Wed, 14 Mar 2007 10:29:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Homens e Mulheres]]></category>
		<category><![CDATA[Sociedade]]></category>

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		<description><![CDATA[O maior emblema da vitória final da ideologia capitalista no século XX não foi a Queda do Muro e a subseqüente derrocada dos socialismos, mas a entrada da mulher no mercado de trabalho. A transição recebeu diferentes rótulos, todos com conotações positivas para as mulheres &#8211; feminismo, liberação da mulher, regime igualitário, &#8211; porém minha [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O maior emblema da vitória final da ideologia capitalista no século XX não foi a Queda do Muro e a  subseqüente <a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/partiya-lenina">derrocada dos socialismos</a>, mas a entrada da mulher no mercado de trabalho.</p>
<p>A transição recebeu diferentes rótulos, todos com conotações positivas para as mulheres &#8211; feminismo, liberação da mulher, regime igualitário, &#8211; porém minha impressão é que, oculto sob o discurso da valorização da mulher, estava o triunfo definitivo de valores tradicionalmente masculinos.</p>
<p>Cedendo à simplificação e deixando de lado as exceções, pode-se dizer que durante milênios a participação da mulher na sociedade ocidental representou uma alternativa real ao modo masculino de agir e pensar. Ser mulher era epitomar um modo de vida subversivo, livre (em maior ou menor grau) das obsessões circulares da testosterona: a agressividade, a competividade, a combatividade e a acumulação compulsiva de territórios, bens e parceiros sexuais. </p>
<p>O mundo dos homens sempre foi das conquistas e rivalidades, e portanto dos capitalismos. O domínio da mulher permanecia em grande parte no campo do imponderável, o domínio de coisas antiquadas e gays como o amor, o silêncio, a compaixão, a generosidade, a expressividade, a pausa, o cultivo, o sacrifício, a partilha. O homem cultuava tradicionalmente a performance, a mulher cultuava o afeto. Os homens eram combativos como cristãos, as mulheres desprendidas e zen. O homem priorizava os objetivos, a mulher priorizava os relacionamentos. A postura do homem era sair para o combate, a da mulher abraçar na esperança de que o homem enxergasse a insensatez do combate. O patriarca, mais fraco, saía para trabalhar e caçar; a matriarca, infinitamente mais poderosa e influente, governava de sua cadeira e fazia com que os homens girassem ao seu redor como satélites.</p>
<p>Com a entrada definitiva da mulher no mercado de trabalho, por ocasião do escoamento dos homens no crivo da Segunda Guerra Mundial, esse cenário se alterou. Oficialmente as mulheres estavam a partir de agora &#8220;reivindicando seus direitos&#8221; e &#8220;conquistando o seu espaço&#8221;. Mais propriamente, estavam dando o seu aval às obsessões masculinas e confessando que apenas o espaço dos homens era legítimo. Depois de séculos de brava resistência, as mulheres dobravam-se no altar da <a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/o-culto-da-performance">performance</a>. </p>
<p>Como conseqüência, o ocidente sofreu uma tremenda perda no campo da &#8220;biodiversidade&#8221; cultural, e o capitalismo voltou para casa com o braço cheio de troféus e trunfos.</p>
<h5>As mulheres foram alçadas à condição de <em>homens honorários.</em></h5>
</p>
<p>A situação é inusitada. Não sabemos dizer com qualquer grau de certeza o que espreita hoje por trás do conceito de &#8220;feminino&#8221;, exceto que grande parte das mulheres receberia o qualificativo como insulto.</p>
<p>Como tornou-se politicamente incorreto associar a mulher ao conceito tradicional de feminilidade, a história e a arte vêm sofrendo uma rigorosa e contínua revisão. Os traços do feminino não-combativo são eliminados com diligência bolchevique tanto de lendas quanto de narrativas históricas.</p>
<p>A doce donzela Guinevere, do ciclo das lendas da Távola Redonda, teve de ser redesenhada como guerreira implacável, precisa e sanguinária no filme Rei Arthur, de 2004. Esta decisão é emblema de uma onipresente tendência: a fim de evitar os embaraços causados pela postura tradicionalmente feminina de heroínas como Guinevere, essas são &#8220;alçadas&#8221; artificialmente à condição de <em>homens honorários</em> &#8211; altura de onde lançam flechas, desferem socos, lideram exércitos e cospem no chão. Na verdade apenas os homens e seu mundo é que são honrados, mas a maioria das mulheres parece se aplacar diante dessa insultuosa homenagem.</p>
<p>Mesmo um livro como <em>O Código Da Vinci,</em> cuja trama secreta diz respeito à recuperação do &#8220;feminino&#8221; na história, faz de Maria Madalena mera competidora na luta tipicamente masculina dos discípulos pelo poder. A Madalena de Dan Brown é mulher sem face e sem alma, inteiramente mergulhada no mundo dos homens e deixando-se moldar eficazmente por ele.</p>
<p>O capitalismo, como eu ia dizendo, celebra nessa capitulação das mulheres à combatividade masculina sua mais retumbante vitória. Assim que a mulher caiu na tentação do mundo dos resultados a oferta de mão de obra dobrou instantaneamente, e o mercado encheu-se de possibilidades e promessas que renderam exponencialmente. Não apenas a mulher tornou-se público consumidor independente, com direito a seus próprios produtos e meios de comunicação, mas sua entrada em cena possibilitou a criação de novos públicos onde ninguém imaginava que poderia haver um. Sentindo-se culpadas por não ficarem em casa &#8220;cuidando dos filhos,&#8221; e ao mesmo tempo benificiando-se de sua nova independência financeira, as mulheres passaram a <em>encher seus filhos de presentes,</em> transformando o infantil no público de maior poder decisão de todo o mercado &#8211; condição inteiramente inconcebível há meros cinqüenta anos atrás.</p>
<p>Se por um lado o mercado saiu ganhando com a glorificação do individualismo, por outro homens e mulheres contabilizam ainda as suas perdas. Os homens foram privados do exemplo de sanidade que lhes restava, e não são mais convidados pelo exemplo das mulheres à salubridade de uma vida menos ambiciosa e de maior significado. Hoje não há quem não acredite que só existe auto-realização e auto-expressão, e portanto valor, no trabalho remunerado. Seduzidas por essa conversa, as mulheres perderam muitos de seus privilégios mais incisivos e essenciais; em especial, a autoridade de zombar do modo de vida dos homens.</p>
<p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug048.gif" alt="" width="77" height="82" /></p>
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		<title>Noite de verão</title>
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		<pubDate>Thu, 13 Apr 2006 09:43:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>
		<category><![CDATA[Homens e Mulheres]]></category>

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		<description><![CDATA[Difícil dizer todos os jeitos de que gosto desta canção com música de Edu Lobo e letra de Chico Buarque, escrita para a peça Cambaio (2001) de Adriana e João Falcão (que estiveram juntos recentemente no cinema com o singelo A Máquina). O que mais me agrada é possivelmente o quão ao mesmo tempo ambiciosa [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Difícil dizer todos os jeitos de que gosto desta canção com música de <a href="http://www.edulobo.com">Edu Lobo</a> e letra de Chico Buarque, escrita para a peça <em>Cambaio</em> (2001) de Adriana e João Falcão (que estiveram juntos recentemente no cinema com o singelo <a href="http://adorocinema.cidadeinternet.com.br/filmes/maquina/maquina.asp">A Máquina</a>).</p>
<p>O que mais me agrada é possivelmente o quão ao mesmo tempo ambiciosa e incerta é sua mensagem. Não fica claro se estamos diante de uma declaração de amor ou de uma ego trip; se se trata da terna confissão de alguém que ansiou tão ardentemente pela felicidade que quando a encontra sente que precisa distanciar-se dela (&#8220;este não sou eu&#8221;), ou de uma ode à tendência masculina de concentrar-se reflexivamente na própria sexualidade (&#8220;deve ser o tal o homem que lhe faz tão bem&#8221;) ao invés de avançar construtivamente na relação. </p>
<p>A letra circular nunca responde definitivamente à pergunta: quem o sujeito venera de fato? A si mesmo, à mulher diante dele ou ao amante ideal que não acredita ser?</p>
<p>O que quer que esteja acontecendo, gosto da forma como a declaração de insuficiência se transforma paradoxalmente em instrumento de charme e manipulação. &#8220;Que importa que eu só tenha esta noite de favor&#8221; tem ainda, pode ser pertinente observar, um acentuado sabor de <a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/basta-um-dia">pra mim basta um dia</a>.</p>
<p>E que dizer da orquestração <em>noir</em> desta versão, com metais surdos e piano bêbado de <em>blues,</em> que empresta à confissão um toque estilizado de <em>Sin City?</em> Dizem-me que a versão da peça, em ritmo de tango, era superior, mas não tenho como acreditar.</p>
<h5>* * *</h5>
</p>
<p>
<p style="padding-left:4em;padding-right:4em;">Este não sou eu<br />Meus lábios nos seus lábios não são meus<br />O meu olho no seu olho no meu olho no seu <br />Duvida do que vê</p>
<p>
<p style="padding-left:4em;padding-right:4em;">Deve ser um rei<br />Deve ser um deus<br />O homem que possui você</p>
<p>
<p style="padding-left:4em;padding-right:4em;">Não pode ser eu<br />Você fala meu nome, quem sou eu<br />Você fala meu homem, sim, mas qual<br />Eu nunca fui ninguém</p>
<p>
<p style="padding-left:4em;padding-right:4em;">Deve ser demais<br />Deve ser o tal<br />O homem que lhe faz tão bem</p>
<p>
<p style="padding-left:4em;padding-right:4em;">Sonho de mulher<br />Em noite de verão<br />Por que é que você veio me perder<br />Quer se divertir<br />Fingindo me adorar<br />Ou finge se enganar<br />Me amando pra valer</p>
<p>
<p style="padding-left:4em;padding-right:4em;">Beije-me outro beijo uma outra vez<br />Que importa se esses beijos não são meus<br />Que eu só tenha esta noite de favor<br />Nos braços de uma atriz</p>
<p>
<p style="padding-left:4em;padding-right:4em;">Este não sou eu<br />Este é um impostor<br />Que pobre de amor se diz</p>
<p>
<p style="padding-left:4em;padding-right:4em;">Deve ser um rei<br />Deve ser um deus<br />Como deve ser feliz</p>
<p>	[Visite a Bacia para ouvir o áudio]</p>
<p>
<p style="text-align:right;"><strong>Edu Lobo/Chico Buarque</strong></p>
]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>O teste das duas buzinadinhas</title>
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		<pubDate>Sat, 01 Apr 2006 10:07:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Homens e Mulheres]]></category>

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		<description><![CDATA[Sou um cientista. Deve fazer uns quinze anos que estou envolvido num experimento secreto a que eu mesmo dei início. A natureza e os resultados dessa pesquisa estão sendo divulgados aqui pela primeira vez. O método Sempre que estou dirigindo sem muita pressa fico de olho nas pessoas andando na calçada e saindo/entrando de carros [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Sou um cientista.</p>
<p>Deve fazer uns quinze anos que estou envolvido num experimento secreto a que eu mesmo dei início. A natureza e os resultados dessa pesquisa estão sendo divulgados aqui pela primeira vez.</p>
<p><strong>O método</strong></p>
<p>Sempre que estou dirigindo sem muita pressa fico de olho nas pessoas andando na calçada e saindo/entrando de carros estacionados. Quando estou a ponto de passar pela pessoa (e aqui o <em>timing</em> é fundamental), dou aquelas duas buzinadinhas simpáticas (curtas e pouco espaçadas) que se costuma dar quando se encontra um amigo pela rua &#8211; ao mesmo tempo em que ergo o braço direito em saudação, mantendo-o levantado até sumir de vista. A idéia é dar à pessoa a impressão de que o motorista do carro está passando a conhece, não dando a ela a oportunidade de me ver mais do que de relance. Para fins de isenção e uniformidade, é importante que a pessoa a quem as buzinadinhas estão sendo dirigidas esteja sozinha e &#8211; naturalmente &#8211; me seja inteiramente desconhecida. Observo a reação da pessoa pelo retrovisor.</p>
<p><strong>Os resultados</strong></p>
<p>Ignoro quantas pessoas já submeti ao método, mas são pelo menos quinze anos de pesquisa: chutemos, por baixo, duzentos desconhecidos, entre homens e mulheres. Os resultados:</p>
<p>
<p style="padding-left:4em;padding-right:4em;"><em>Praticamente todos os homens respondem à buzinadinha acenando com a mão.</em></p>
<p>
<p style="padding-left:4em;padding-right:4em;"><em>Praticamente nenhuma mulher reage à buzinadinha (seja acenando com a mão ou olhando na minha direção).</em></p>
<p>Para ser mais exato, em todo tempo de pesquisa apenas uma mulher devolveu a minha saudação (ainda creio que ela possa ter me reconhecido!), e apenas dois homens abstiveram-se de fazê-lo.</p>
<p><strong>Conclusões possíveis</strong></p>
<p>
<ul>
<li>as mulheres são surdas</li>
<p>
<li>os homens são inseguros e querem agradar a todos, mesmo quando não têm certeza de quem se trata</li>
<p>
<li>as mulheres querem se fazer de difíceis</li>
<p>
<li>os homens são fáceis</li>
<p>
<li>as mulheres só respondem às saudações de quem reconhecem sem qualquer sombra de dúvida</li>
<p>
<li>os homens são mais sugestionáveis</li>
<p>
<li>as mulheres só respondem as buzinadinhas de outras mulheres</li>
<p></ul>
</p>
<p><strong>Extensão da pesquisa</strong></p>
<p>Agora que o projeto e seus primeiros resultados estão sendo divulgados, creio ser hora de estender a pesquisa. Convido os leitores da Bacia a aplicarem o método sobredescrito e publicarem aqui os resultados. Estou pessoalmente interessado nos resultados para os casos em que o <em>motorista</em> é mulher, e também nas variações regionais (nordeste, alguém? Estados Unidos?) nos casos em que o motorista é homem e o testado mulher. </p>
<p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug061.gif" alt="" width="55" height="69" /></p>
]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>Vocês</title>
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		<pubDate>Mon, 13 Mar 2006 10:45:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>
		<category><![CDATA[Homens e Mulheres]]></category>

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		<description><![CDATA[Queremos libertá-los do vocês que vocês estão sendo para que vocês possam ser o vocês que vocês são. Minha irmã Alice mandou-me esta tira da Cathy, sobre as expectativas singulares que as mulheres tem a respeito dos homens. TÍTULOS NA ESTANTEO que os homens realmente pensamO que os homens realmente queremO que os homens realmente [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>
<p style="text-align:center;"><a href="http://www.baciadasalmas.com/images/2006/bits/you-you-b.gif"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2006/bits/you-you.gif" title="Clique para ver o resto" alt="Clique para ver o resto" width="188" height="175" /></a></p>
<h5>Queremos libertá-los do vocês que vocês estão sendo para que vocês possam ser o vocês que vocês são.</h5>
</p>
<p>Minha irmã Alice mandou-me esta tira da Cathy, sobre as expectativas singulares que as mulheres tem a respeito dos homens.</p>
<p>
<p style="text-align:center;"><strong>TÍTULOS NA ESTANTE</strong><br />O que os homens realmente pensam<br />O que os homens realmente querem<br />O que os homens realmente querem dizer<br />O que os homens realmente sentem<br />Porque os homens fazem o que fazem<br /><i><em></i><i></em></i><em><em></em></em><br /><em>&#8220;Uma nova coleção escrita por mulheres&#8221;</em></p>
<p>CARA 1. Por que as mulheres ficam sempre tentando mudar os homens?</p>
<p>CATHY. Não, não ficamos! Só tentamos trazer à tona o verdadeiro eu de vocês.</p>
<p>CARA 2. Este é o nosso verdadeiro eu.</p>
<p>CATHY. Sabemos que vocês pensam isso&#8230; mas sabemos que vocês na verdade não são assim.</p>
<p>AMIGA DA CATHY. Sabemos quem vocês realmente são porque somos mulheres. Estudamos vocês nos livros.</p>
<p>CATHY. Temos poderes singulares de intuição!</p>
<p>AMIGA DA CATHY. Sentidos cósmicos femininos!</p>
<p>CATHY. Sabedoria milenar!</p>
<p>CATHY. Queremos libertá-los do vocês que vocês estão sendo para que vocês possam ser o vocês que vocês são.</p>
<p>CATHY E AMIGA DA CATHY. O você que é mais próximo de mim&#8230; o vocês que nos traria para mais perto de nós mesmas do que jamais sonhamos estar!</p>
<p>CARA 2 (desolado). Elas não são mesmo assim, são?</p>
<p>CARA 1 (perplexo). Deus nos ajude.</p>
<p>CATHY (enquanto a amiga chora, emocionada). O verdadeiro eu de vocês estaria agora nos abraçando e nos oferecendo seu lenço.</p>
<h5>* * *</h5>
</p>
<p>O original em inglês <a href="http://www.baciadasalmas.com/images/2006/bits/you-you-b.gif">aqui</a>.</p>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>A espada e a roda de fiar</title>
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		<pubDate>Tue, 07 Feb 2006 08:21:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fé e Crença]]></category>
		<category><![CDATA[Homens e Mulheres]]></category>

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		<description><![CDATA[EMBORA EU NÃO TENHA DITO CLARAMENTE, há algo sobre o assunto que o leitor de O Código Da Vinci poderia ter facilmente diagnosticado: muito genericamente falando, as religiões circulares são femininas, as lineares masculinas. Como eu ia dizendo, as religiões circulares definem-se pela sua reverência aos ciclos da natureza; celebram o circular, o cíclico, todos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>E<small>MBORA EU NÃO TENHA DITO CLARAMENTE,</small> há algo sobre o assunto que o leitor de <a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/a-heresia-secreta">O Código Da Vinci</a> poderia ter facilmente diagnosticado: muito genericamente falando, as religiões <em>circulares</em> são femininas, as <em>lineares</em> masculinas.</p>
<p><a href="http://memory.loc.gov/service/pnp/cph/3b00000/3b04000/3b04000/3b04081r.jpg"> <img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2006/bits/roda-de-fiar1.jpg" title="Clique para ampliar" border=0 class="right" /> </a><a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/os-ritos-circulares">Como eu ia dizendo</a>, as religiões circulares definem-se pela sua reverência aos ciclos da natureza; celebram o circular, o cíclico, todos os aspectos da existência que oferecem a segurança de voltar sempre ao lugar de origem: o ciclo sem fim da abertura e da conclusão de <em>O Rei Leão</em>. E às mulheres cabem tipicamente os <em>ciclos</em> da reprodução, da menstruação, da produção de leite; o cuidar de filhos depois netos depois bisnetos.</p>
<p>As religiões lineares, em contraste, definem-se pela sua crença na singularidade do momento histórico; rejeitam a supremacia dos ciclos e enxergam a existência como um implacável avanço, fundamentado tanto na peculiaridade do passado quanto na segurança do futuro: é o povo de Israel recebendo no Sinai as tábuas da aliança, depois de ter escapado do Egito (passado) e rumando à Terra Prometida (futuro). E aos homens, como se sabe, pertencem tipicamente as guerras, os <em>avanços</em> amorosos e territoriais, as alianças, a retórica, a política. </p>
<p>Essa conclusão é talvez inevitável porque, vistos como arquétipos<sup><a href="#fn1">1</a></sup> , as mulheres são tradicionalmente circulares e os homens lineares. Às mulheres pertencem o útero, a circular gravidez, a roda de fiar. Ao homem pertencem o pênis, a espada, a participação casual na fecundação.</p>
<p><a href="http://memory.loc.gov/service/pnp/cph/3b00000/3b04000/3b04000/3b04083r.jpg"> <img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2006/bits/roda-de-fiar2.jpg" title="Clique para ampliar" border=0 class="left" /> </a>Em conseqüência as religiões circulares, eminentemente femininas, tendem a ser <em>matriarcais,</em> enquanto que as lineares, eminentemente masculinas, tendem a ser <em>patriarcais.</em> As religiões circulares são <em>sedentárias</em> e caseiras, as lineares irriquietas e <em>nômades.</em> As circulares são <a href="http://www.baciadasalmas.com/2005/agostinho-e-teresa">místicas</a>, as lineares <a href="http://www.baciadasalmas.com/rubricas/fe-e-crenca/heresias-sensacionais">teológicas</a>. As circulares buscam a doce familiaridade da partilha©, as lineares o risco das regras exigentes do <a href="http://www.baciadasalmas.com/2004/o-enigma-de-paris-parte-2">jogo©</a>. As circulares acolhem os ciclos em seu ventre, as lineares penetram o futuro com a sua espada.</p>
<p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2006/ritos-circulares.jpg" alt="" width="300" height="569" /></p>
<p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug011.gif" alt="" width="32" height="47" /></p>
<p>
<p id="fn1"><sup>1</sup> <small><strong>Arquétipo</strong>. Literalmente, &#8220;padrão original&#8221;, &#8220;protótipo a partir do qual se fazem cópias&#8221;. Na psicologia de Jung, um <em>arquétipo</em> é uma &#8220;tipo genérico&#8221;, um carimbo universavelmente aplicável que resulta do amálgama de inúmeras experiências típicas da longa série de ancestrais que nos antecederam. São padrões de caráter universais originários do inconsciente coletivo e constituem o alicerce da mitologia, religião, lenda e contos de fadas. Segundo Jung, os mitos são a linguagem dos arquétipos, e por isso nos mitos se pode contemplar a história da humanidade com mais acerto do que na história acadêmica. </small></p>
<div class='series_toc'><h3>Os ritos circulares</h3><ol><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/os-ritos-circulares/' title='Os ritos circulares'>Os ritos circulares</a></li><li>A espada e a roda de fiar</li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/o-divisor-de-aguas/' title='O divisor de águas'>O divisor de águas</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/o-credo-narrativo-dos-judeus/' title='O credo narrativo dos judeus'>O credo narrativo dos judeus</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/3-maneiras-de-reconciliar-se-com-o-universo/' title='3 maneiras de reconciliar-se com o universo'>3 maneiras de reconciliar-se com o universo</a></li></ol></div>]]></content:encoded>
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		<title>A heresia secreta</title>
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		<pubDate>Mon, 09 Jan 2006 09:51:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Heresias Sensacionais]]></category>
		<category><![CDATA[Homens e Mulheres]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>

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		<description><![CDATA[Há bons bestsellers e maus bestsellers. O Código Da Vinci, de Dan Brown, é um bom bestseller: fácil de consumir mas não de descartar, pretensioso mas levíssimo, marcado por um ritmo impecável, alguma sofisticação de estilo, abordando um tema pseudo-erudito ao mesmo tempo em que evita as armadilhas mais fáceis do pedantismo. Não há como [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Há bons bestsellers e maus bestsellers. <em>O Código Da Vinci</em>, de Dan Brown, é um bom bestseller: fácil de consumir mas não de descartar, pretensioso mas levíssimo, marcado por um ritmo impecável, alguma sofisticação de estilo, abordando um tema pseudo-erudito ao mesmo tempo em que evita as armadilhas mais fáceis do pedantismo. Não há como deixar de admirar a esperteza do escritor, que requentou idéias que circulavam há muito tempo e amarrou-as num pacote cuja atração &#8211; sobre mim, pelo menos &#8211; é irresistível enquanto dura.</p>
<p>Está certo que, estruturalmente, <em>O Código</em> é uma única cena de perseguição estendida por cem capítulos. Está certo que os personagens são estereotípicos, a caracterização nenhuma, as probabilidades forçadas, a geografia incorreta, a teologia conspiratória, a acuracidade histórica risível, os procedimentos policiais, aéreos, alfandegários e judiciais absurdamente inexatos. Mérito maior do autor, cuja habilidade faz o leitor mais cético (este sou eu) passar por cima de tudo isso [quase] todo o tempo, deixando ainda um sabor agridoce de apressada originalidade. Não importa o que se pense do resultado, trata-se de um sujeito que fez bem o que propôs-se a fazer.</p>
<p><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2005/bits/davinci_code.jpg" class="left" />Ainda mais vantajosa para o sucesso do <em>Código</em> foi a miríade de livros que surgiu na sua cola para refutá-lo. Tratam-se, veja bem, de esforços para refutar <em>uma obra de ficção</em> &#8211; não creio que algo parecido tenha acontecido, em grau significativo, em qualquer outro momento da história. </p>
<p>A indignação contra as baboseiras históricas contidas no livro é de certa forma justificada; afinal de contas, algum leitor desavisado do <em>Código</em> pode de fato acreditar que, na teologia primitiva dos judeus, Deus de fato mantinha relações sexuais com sua esposa, a Shekiná. Essa é apenas uma das &#8220;informações&#8221; do livro que, embora não sobreviva ao exame histórico mais superficial, pode acabar passando por verdade. Funciona para manter a história andando, mas aqui, fora do livro, posso garantir que o Deus da Bíblia  &#8211; para eterno constrangimento de seus concorrentes &#8211; não tem e nunca teve vida sexual. A <em>shekiná</em> é sua glória, seu esplendor, um de seus atributos &#8211; e o menos informado dos hereges não ousaria interpretá-la como sendo sua consorte.</p>
<p>O livro está correto quando defende a tese de que o Deus dos judeus (e por tabela o dos cristãos e muçulmanos) esforça-se consistentemente para dissociar sexo de adoração, ao contrário do que fazem inúmeras religiões antigas e contemporâneas. Segundo o <em>Código</em>, o motivo dessa dissociação com o sexo é que o Deus cristão é uma aberração machista criada artificialmente para diminuir a importância do papel da mulher na sociedade e no culto. O motivo, na verdade, é menos romântico e mais pessoal: nas religiões que promovem ritos de fertilidade (como por exemplo as promíscuas religiões de Canaã, que a Torá não se cansa de condenar), o sexo ritual é usado como meio de manipulação da divindade. Os ritos sexuais servem como modo de extorquir fertilidade e prosperidade dos deuses associados a elas &#8211; e um traço fundamental do caráter do Deus de Abraão, Isaque e Jacó é que ele <em>não se deixa extorquir.</em> Deus <a href="http://www.baciadasalmas.com/2005/a-estranha-tese-de-um-judeu-errante-que-nao-errou-uma/">não faz barganhas</a>, e não quer que seu povo recorra ou acredite que qualquer esforço humano possa garantir o favor espiritual da divindade. Pelo mesmo motivo Deus baniu da vida de Israel qualquer associação com a magia e a mediunidade.</p>
<p><span id="more-734"></span></p>
<h5>O oposto é verdadeiro: nenhum fator na história da civilização ocidental serviu para reverter a condição secundária da mulher mais do que o ensino e o exemplo de Jesus e seus seguidores imediatos.</h5>
</p>
<p>Historicamente, o cristianismo institucional acabou de fato demonizando o sexo &#8211; coisa que o judaísmo nunca fez, &#8211; mas não pelos motivos expostos no livro (ou na Bíblia). Também, ao contrário do que sugere o texto do <em>Código</em>, o cristianismo não foi usado desde o início como ferramenta de opressão contra as mulheres. O oposto é verdadeiro: nenhum fator na história da civilização ocidental serviu para reverter a condição secundária da mulher mais do que o ensino e o exemplo de Jesus e seus seguidores imediatos &#8211; incluindo Paulo, que ousou proclamar há dois mil anos que <em>em Jesus</em> não há qualquer distinção entre homem e mulher. Sua proclamação permanece, na prática, herética para muitos cristãos dos nossos dias.</p>
<p>No que me diz respeito, no entanto, o mais interessante a respeito do <em>Código</em> é que a premissa central do livro, a proposição secreta da qual depende todo o conflito da narrativa, é menos herética do que poderia parecer.</p>
<p>Em <em>O Código Da Vinci</em>, o segredo que pode &#8220;ameaçar todos os fundamentos da Igreja cristã&#8221;, o terrível segredo escondido por Leonardo no quadro <em>A Última Ceia</em> e por uma milenar sociedade secreta cujos esforços estendem-se da ordem dos templários a Jean Cocteau, é que, contrário do que dão a entender os evangelhos, Jesus na verdade <em>foi casado</em> &#8211; e com Maria Madalena, dando origem a uma linhagem real cujos herdeiros sobrevivem até nossos dias.</p>
<p>(A propósito, se você ainda não leu <em>O Código Da Vinci</em>, não leia o parágrafo anterior.)</p>
<p>O autor e os personagens do livro parecem acreditar que um Jesus que fosse humano ao ponto de ter se casado &#8211; e com filhos! &#8211; ameaçaria toda a teologia cristã, especialmente a idéia da divindade de Jesus. Embora com toda a probabilidade Jesus não chegou a se casar (muito menos a ter filhos), esse enlace hipotético em nada prejudicaria a sua imagem, sua obra ou seus atributos. </p>
<h5>Esse enlace hipotético em nada prejudicaria a sua imagem.</h5>
</p>
<p>Parte do problema está em que essa premissa está baseada em outra noção fantasiosa defendida pelo livro: a idéia de que durante três séculos, até a intervenção do imperador Constantino, Jesus teria sido visto pelos seus seguidores como figura admirável mas inteiramente humana, desprovida de qualquer reivindicação à divindade. Uma conspiração liderada por Constantino teria forçado goela abaixo do cristianismo a estranha novidade, a idéia de um Jesus divino &#8211; que, portanto, não se rebaixaria a ninharias como o casamento.</p>
<p>Mais uma vez, o oposto é que é verdadeiro. Desde os primeiros momentos do cristianismo e entre todas as suas facções, o único ponto teológico inquestionável era a divindade de Jesus. Historicamente, muito mais problemático e controverso foi defender &#8211; e, para alguns, eventualmente provar &#8211; que ele era ainda, mas não contraditoriamente, integralmente humano. A noção de um Jesus homem era tão controversa e inverossímil que heresias inteiras foram elaboradas para contornar o constrangimento que isso implicaria. Para evitar a abominável (para alguns) noção de um Deus que se rebaixasse às mais sórdidas experiências da condição humana, como a tortura e a morte, os primeiros hereges propuseram que a <em>humanidade</em> de Jesus é que era ilusória &#8211; já que sua divindade era desde o princípio ponto pacífico.</p>
<p>Paradoxalmente, então, se Jesus tivesse casado e tido filhos a questão inicialmente controversa da sua humanidade teria sido mais fácil de defender &#8211; o que reverte por completo as premissas e as conclusões do suspense de Dan Brown.</p>
<p>Por outro lado, o sucesso de um livro como <em>O Código Da Vinci</em> só é concebível porque vivemos atualmente na situação cultural oposta: ao contrário do que aconteceu durante a maior parte da história, o que nos constrange hoje em dia é a <em>divindade</em> de Jesus, não a sua humanidade. Um Jesus integralmente humano (o que, no nosso vocabulário, quer dizer um Jesus sem qualquer pretensão à divindade) nos parece mais palatável e mais conectado com o espírito da modernidade &#8211; para não dizer mais verossímil.</p>
<p>A heresia de <em>O Código da Vinci</em> não está em defender um Jesus humano, mas um inofensivo &#8211; um sujeito bem intencionado mas que teve o bom senso de não ignorar os jogos de poder, escolhendo a consorte estratégica para inaugurar uma linhagem real. Esse Jesus é que é, na verdade, criado à nossa imagem e semelhança. Do ser humano indomável que dizia <em>quem vê a mim vê ao Pai</em> e defendia idéias impopulares como <em>meu reino não é deste mundo</em> e <em>bem-aventurados os pobres</em>, não queremos ler livro nenhum.</p>
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		<item>
		<title>Três Reis</title>
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		<pubDate>Tue, 20 Dec 2005 00:15:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Filmes]]></category>
		<category><![CDATA[Homens e Mulheres]]></category>
		<category><![CDATA[Nostalgia]]></category>

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		<description><![CDATA[Ontem à tarde precisei fazer uma visita em Curitiba e estiquei para assistir no Cinemark do Mueller o último King Kong, dirigido pelo Peter Jackson de O Senhor dos Anéis. Com este são três King Kongs na minha vida. O primeiro foi o passável King de 1977 (a loira era Jessica Lange), memorável para mim [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ontem à tarde precisei fazer uma visita em Curitiba e estiquei para assistir no Cinemark do Mueller o último King Kong, dirigido pelo Peter Jackson de <em>O Senhor dos Anéis</em>. Com este são três King Kongs na minha vida.</p>
<p>O primeiro foi o passável <em>King</em> de 1977 (a loira era Jessica Lange), memorável para mim porque aquela foi a primeira vez que fui ao cinema <em>sozinho</em>, sem os meus pais, com três amigos da escola. Era Londrina e eu tinha 10 anos.</p>
<p>Lembro que um dos colegas que arrastamos para aquela sessão nunca tinha ido ao cinema &#8211; coisa que aos dez anos de idade (decidimos os outros três) era inconcebível e constrangedor e precisava ser corrigido a todo custo. O sujeito acabou dormindo a maior parte do filme. Recordo que tive de ir ao banheiro durante a sessão; os banheiros ficavam na parte da frente da imensa sala de cinema, um em cada canto da tela, o dos meninos à esquerda. Quando voltei para a sala de projeção o rosto King Kong urrava enchendo a tela e meus amigos dizem que saí correndo de medo.</p>
<p>Depois veio o de 1933, em preto e branco e assistido pela primeira vez numa madrugada qualquer, e que permanece meu favorito. O mais recente <em>King</em> de Peter Jackson segue em inúmeros pontos o de 1933, (alguns muito curiosos, como a fala final do produtor diante do monstro morto e a maneira como Kong abre e fecha a boca do tiranossauro depois de matá-lo), mas trilha também muitos e congestionados caminhos novos.</p>
<p>
<hr style="width: 30%; height: 2px;" /></p>
<p>Embora o filme de 1977 tenha atualizado a ação &#8220;para os nossos dias&#8221;, a história é definitivamente a mesma nos três filmes. King Kong poderia se chamar <em>O Fim do Reinado do Macho Protetor.</em> Trata-se, na verdade, de um tratado velado sobre as relações entre homens e mulheres &#8211; especialmente sobre as contradições do recente papel &#8220;civilizado&#8221; da masculinidade.</p>
<p>King Kong é um trágico triângulo amoroso entre a Mulher, o Macho Protetor e o Homem Civilizado. Os perigos na Ilha da Caveira são impossivelmente numerosos, para que fique claro que uma mulher que não tenha um King Kong para chamar de seu não tem qualquer chance de sobreviver. Mesmo no lento filme de 1933, em menos de quinze minutos o Macho Protetor tem de matar três monstros diferentes para salvar a mocinha. Diante de um desempenho desses, os olhos da loirinha (todas as três) enchem-se de admiração, gratidão e amor pelos irresistíveis charmes do Macho Protetor &#8211; não importa que você tenha mau hálito e oito metros de altura, você matou um tiranossauro <em>por mim?</em></p>
<p>Mas meia hora depois mudam os pesos na balança, e também o amor da mocinha. Estamos agora na cidade mais civilizada do mundo, onde o Macho Protetor é uma intrusão e uma anacronia: não tem mais função e precisa ser eliminado. Os filmes deixam bem claro (especialmente o de Jackson) que toda a destruição que o monstro faz em Nova Iorque é motivada exclusivamente pela devoção e pelo amor do Macho Protetor &#8211; King Kong só quer proteger a mocinha de trens e aviões, como fez na ilha com serpentes e pterodáctilos. </p>
<p>Porém o terreno é agora do Homem Civilizado. Na civilização a Mulher não precisa e não quer ser protegida. O Macho Protetor é uma relíquia e portanto uma ameaça, e acaba saindo do caminho para que vença a sanidade e a mocinha fique com o mocinho. Saia para lá com esse peito peludo e esse braço forte, que o que eu preciso é de um homem que me satisfaça emocionalmente.</p>
<p>Aquela história.</p>
<p>
<hr style="width: 30%; height: 2px;" /></p>
<p>Neste último filme incomodaram-me, em especial, as infindáveis panorâmicas: tudo é visto simultaneamente em vertiginosas <em>pans</em>, de cima e de todos os ângulos. O <em>King Kong</em> de 2005 é definitivamente 3D &#8211; e no que me diz respeito aí reside seu maior defeito (maior mesmo do que a perda do sentido de proporção de algumas das aventurosas adições, que fazem as Missões Impossíveis de Tom Cruise parecerem inteiramente cabíveis).</p>
<p>Estou falando de uma preferência minha, mas tudo no <em>King Kong</em> de 1933 era admiravelmente 2D; cada cena parecia ter sido arrancada de uma página de livro ou de uma gravura de naturalista. O Kong de 1933 habitava num mundo que só existia &#8211; em luz, sombra e design &#8211; numa gravura de <a href="http://www.baciadasalmas.com/2005/lembrancas-a-dore">Gustave Doré</a>.</p>
<p>Ah, que saudade.</p>
<p><small>Clique em qualquer imagem para ver do que estou falando</small></p>
<p>
<p style="text-align:center;"><a href="http://www.baciadasalmas.com/images/2005/kk01.jpg"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2005/kk01_1.jpg" title="" alt="" width="155" height="119" /></a> <a href="http://www.baciadasalmas.com/images/2005/kk02.jpg"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2005/kk02_1.jpg" title="" alt="" width="155" height="119" /></a><br /><a href="http://www.baciadasalmas.com/images/2005/kk03.jpg"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2005/kk03_1.jpg" title="" alt="" width="155" height="119" /></a> <a href="http://www.baciadasalmas.com/images/2005/kk04.jpg"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2005/kk04_1.jpg" title="" alt="" width="155" height="119" /></a><br /><a href="http://www.baciadasalmas.com/images/2005/kk05.jpg"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2005/kk05_1.jpg" title="" alt="" width="155" height="119" /></a> <a href="http://www.baciadasalmas.com/images/2005/kk06.jpg"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2005/kk06_1.jpg" title="" alt="" width="155" height="119" /></a><br /><a href="http://www.baciadasalmas.com/images/2005/kk07.jpg"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2005/kk07_1.jpg" title="" alt="" width="155" height="119" /></a> <a href="http://www.baciadasalmas.com/images/2005/kk08.jpg"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2005/kk08_1.jpg" title="" alt="" width="155" height="119" /></a></p>
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		<title>10 palavras</title>
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		<pubDate>Thu, 17 Nov 2005 22:43:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Homens e Mulheres]]></category>

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		<description><![CDATA[O livro inevitável que acaba de sair é Será que os homens são necessários? &#8211; Are Men Necessary?, de Maureen Dowd, colunista do New York Times. O livro traz revelações que todos conhecem. As pesquisas demonstram que (1) os homens preferem parceiras mais submissas e menos inteligentes, (2) os homens acreditam que mulheres mais inteligentes [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O livro inevitável que acaba de sair é <em>Será que os homens são necessários?</em> &#8211; <a href="http://www.calendarlive.com/dating/cl-wk-tell17nov17,2,1965914.story">Are Men Necessary?</a>, de Maureen Dowd, colunista do New York Times.</p>
<p>O livro traz revelações que todos conhecem. As pesquisas demonstram que (1) os homens preferem parceiras mais submissas e menos inteligentes, (2) os homens acreditam que mulheres mais inteligentes tendem a traí-los com outros homens e (3) quanto menor o QI de uma mulher maior é a probabilidade de que ela se case.</p>
<p>Comentando sobre o livro, a (outra) colunista do Times Samantha Bonar revela que aprendeu a limitar o seu vocabulário a 10 palavras quase monossilábicas (em inglês elas são):</p>
<p>
<blockquote>Você </p>
<p>Grande</p>
<p>Forte</p>
<p>Sim</p>
<p>Cheetos</p>
<p>Jogo</p>
<p>Cerveja</p>
<p>Homem</p>
<p>Quer</p>
<p>Demais</p></blockquote>
<p>Por exemplo: &#8220;Homem grande forte quer cerveja?&#8221; &#8220;Você quer Cheetos?&#8221; &#8220;Você demais!&#8221;</p>
<p>E a evitar as seguintes palavras &#8220;como Nova Orleans&#8221;:</p>
<p>
<blockquote>Eu </p>
<p>Mim</p>
<p>Por que</p>
<p>O que</p>
<p>Posso</p>
<p>Vai</p>
<p>Não</p>
<p>Nunca</p>
<p>Pare</p>
<p>Eca</p></blockquote>
<p>Como em: &#8220;Porque você insiste em que eu vista essas meias-calças vermelhas?&#8221; &#8220;Posso pegar uma das suas quatro cervejas?&#8221; &#8220;Você não vai me deixar saber se é casado?&#8221;</p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug039.gif" alt="" width="33" height="47" /></p>
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		<title>Falsos detetores de mentiras e a Cidade dos Mentirosos</title>
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		<pubDate>Tue, 12 Jul 2005 09:05:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Homens e Mulheres]]></category>
		<category><![CDATA[Quase Ciência]]></category>
		<category><![CDATA[Sonhos]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>

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		<description><![CDATA[Li há duas semanas na Scientific American um artigo sobre a base evolucionária e científica da mentira (&#8220;Por que nós mentimos?&#8221;, pergunta o autor em determinado momento. &#8220;Porque funciona&#8221;, ele argumenta). Os homens mentem tanto quanto as mulheres. Mas há uma diferença. Dentre as pesquisas sobre o assunto realizadas recentemente, vale mencionar aquela que revelou [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Li há duas semanas na <em>Scientific American</em> um artigo sobre a base evolucionária e científica da mentira (&#8220;Por que nós mentimos?&#8221;, pergunta o autor em determinado momento. &#8220;Porque funciona&#8221;, ele argumenta).</p>
<h5> Os homens mentem tanto quanto as mulheres. Mas há uma diferença.</h5>
</p>
<p>Dentre as pesquisas sobre o assunto realizadas recentemente, vale mencionar aquela que revelou uma surpresa: quantitativamente, os homens mentem tanto quanto as mulheres. Porém há uma diferença. Em geral os homens mentem para vender uma imagem mais positiva de si mesmos, enquanto as mulheres mentem para que a pessoa com quem estão falando sinta-se mais à vontade. </p>
<p>Outra pesquisa levantou um dado importante, ao mesmo tempo previsível e paradoxal: todos, homens e mulheres, tendem a falar mais a verdade quando estão presos a falsos detetores de mentiras &#8211; desde que, é claro, acreditem nos pesquisadores quando eles mentem dizendo que o falso detetor de mentiras usado na pesquisa é verdadeiro. Esse, lembrei, é um velho e intrigante método usado em interrogatórios: usar uma mentira para extrair uma verdade. <em>A casa está cercada, o seu cúmplice já confessou,</em> et cetera.</p>
<p>
<hr style="width: 30%; height: 2px;" /></p>
<p>Na noite do dia em que li esse artigo sonhei que estava num ônibus de excursão numa cidade que parecia Curitiba, exatamente naquele laço de rua que circunda a Boca Maldita. Por alguma razão, comecei a conversar pela janela com as pessoas que passavam pela rua, enquanto o ônibus avançava devagar no trânsito. A todas fiz a mesma pergunta: &#8220;Por favor, que cidade é esta?&#8221;.</p>
<p>Cada pessoa, mesmo estando a menos de dois passos da outra, deu uma resposta diferente. &#8220;Francisco Beltrão&#8221;, disse um velho de chapéu. &#8220;Pato Branco&#8221;, disse uma mulher gorda com uma pele de raposa ao redor do pescoço. &#8220;Londres&#8221;, disse, impossivelmente, outro sujeito. E assim por diante. E, mesmo dentro da geografia impossível dos sonhos, eu sabia que estavam todos mentindo.</p>
<h5>Cada pessoa a que fiz a pergunta deu uma resposta diferente. </h5>
</p>
<p>O artigo da <em>Scientific American</em> lembra que a mentira é algo comum na criação: flores que lembram borboletas, lagartas que imitam frutas venenosas, pássaros e peixes que inflam o peito para parecerem maiores do que são ou, como encontrei outro dia numa das minhas caminhadas, um graveto que apenas a inspeção mais cuidadosa revelará ser um inseto.</p>
<p>A diferença no caso dos seres humanos (talvez também no de outros primatas) é que, além de <em>sabermos</em> que estamos mentindo, aprendemos a criar mentiras que se adaptem convenientemente a cada situação: maquiagens, implantes, ombreiras, ajustes contábeis e relatórios trimestrais.</p>
<p>Nosso problema é que nos tornamos, nós mesmos, sofisticados detetores de mentiras:  analisando sinais muito sutis de linguagem do corpo, sabemos dizer de forma intuitiva, e com elevado grau de acerto, se a outra pessoa está mentindo. A teoria do artigo é que nossa capacidade de diagnosticar mentiras nos outros tornou-se um problema para nós porque, sabendo o quanto a mentira é fácil de detetar, ficamos muito nervosos no momento em que vamos nós mesmos mentir deliberadamente. Nosso nervosismo nos denuncia, e perdemos as vantagens técnicas que a mentira poderia nos oferecer.</p>
<p>Para contornar esse problema, nosso cérebro, muito matreiro, encontrou um atalho sofisticado: <em>aprendemos a acreditar nas nossas mentiras</em>, de modo a que quando formos dizê-las aos outros elas pareçam mais convincentes. O processo é inteiramente inconsciente, mas tornou-nos mentirosos tão sofisticados que acabamos contornando nossos próprios mecanismos de detecção.</p>
<h5>Aprendemos a acreditar nas nossas mentiras.</h5>
</p>
<p>Os mentirosos mais eficazes são os que mentem para si mesmos.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Nunca entregue de todo o coração</title>
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		<pubDate>Mon, 11 Jul 2005 09:14:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>
		<category><![CDATA[Homens e Mulheres]]></category>

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		<description><![CDATA[W. B. Yeats Nunca entregue de todo o coraçãoPois se parecer certo para uma mulher apaixonadaO amor parecerá também que não vale nele nem pensarE nunca sonham elas que ele possa se esvair a cada beijo;Pois tudo que é adorável é prazer benfazejo, etéreo e fugaz. Ah, nunca entregue de imediato o coraçãoPois elas, como [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>
<p style="text-align:right;"><strong>W. B. Yeats</strong></p>
<p>Nunca entregue de todo o coração<br />Pois se parecer certo para uma mulher apaixonada<br />O amor parecerá também que não vale nele nem pensar<br />E nunca sonham elas que ele possa se esvair a cada beijo;<br />Pois tudo que é adorável é prazer benfazejo, etéreo e fugaz. <br />Ah, nunca entregue de imediato o coração<br />Pois elas, como testemunham todos os lábios suaves,<br />Entregaram seus corações ao folguedo.<br />E quem saberia brincar como convém<br />Se surdo e mudo e cego de amor?<br />Quem escreveu isto sabe que custo tem<br />Pois entregou de todo o coração e perdeu.</p>
<p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug069.gif" alt="" width="54" height="77" /></p>
<p>Never give all the heart, for love<br />Will hardly seem worth thinking of<br />To passionate women if it seem<br />Certain, and they never dream<br />That it fades out from kiss to kiss;<br />For everything that&#8217;s lovely is<br />But a brief, dreamy, kind delight.<br />O never give the heart outright,<br />For they, for all smooth lips can say,<br />Have given their hearts up to the play.<br />And who could play it well enough<br />If deaf and dumb and blind with love?<br />He that made this knows all the cost,<br />For he gave all his heart and lost.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Agostinho e Teresa</title>
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		<pubDate>Sun, 12 Jun 2005 09:19:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fé e Crença]]></category>
		<category><![CDATA[Homens e Mulheres]]></category>

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		<description><![CDATA[Assombram o cristianismo duas tentações opostas: a teologia e o misticismo. Mais fácil do que evitá-las é mapeá-las no eixo dos sexos: a teologia é distração eminentemente de homens, o misticismo é paixão de mulheres. Para usar os termos a que sempre retorno, a teologia é um jogo©, o misticismo busca a partilha© &#8211; sendo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Assombram o cristianismo duas tentações opostas: a teologia e o misticismo. Mais fácil do que evitá-las é mapeá-las no eixo dos sexos: a teologia é distração eminentemente de homens, o misticismo é paixão de mulheres. Para usar os termos a que sempre retorno, a teologia é um jogo©, o misticismo busca a partilha© &#8211; sendo que jogo© e partilha© referem-se aqui ao <a href="http://www.baciadasalmas.com/index.php?p=31">modo fundamental</a> em que operam, respectivamente, homens e mulheres.</p>
<p>A teologia apresenta todos os componentes básicos do jogo© masculino: o desafio, o código e o prêmio. O cristianismo místico, por outro lado, exibe as características da partilha© feminina: ele busca o contato e o equilíbrio e está fundamentado em fluxos, canais e trocas. A teologia busca incessantemente compreender, tabular, fixar limites; o misticismo quer conhecer, relacionar-se, desfazer os limites. A atividade fundamental da teologia é a especulação mental; do misticismo, a contemplação. O homem gasta o tempo com idéias a respeito de Deus, a mulher quer mergulhar num relacionamento intenso com ele.</p>
<p>Não é por acaso que a maioria esmagadora dos teólogos foi e é composta de homens como <a href="http://www.beatrix.pro.br/educacao/agostinho.htm">Agostinho</a>, e que os maiores expoentes do cristianismo místico foram mulheres como <a href="http://www.santateresadeavila.com/obras.htm">Teresa de Ávila</a>. Agostinho e Teresa representam respostas opostas a uma mesma carência, colocadas em ação pelos mecanismos naturais a cada um dos sexos (o místico <a href="http://www.baciadasalmas.com/index.php?p=141">São João da Cruz</a> é quase uma exceção, mas é preciso reconhecer que há em geral mais homens no terreno do cristianismo místico do que mulheres no terreno da teologia).</p>
<p>Para ser justo e apesar do meu evidente interesse no jogo©, não posso deixar de simpatizar mais com o misticismo do que com a teologia. Deveria parecer evidente que o Deus da Escritura cristã deseja menos ser <em>compreendido racionalmente</em> do que estabelecer um <em>relacionamento</em>. A filosofia é, na verdade, um jogo© mais razoável do que a teologia: a filosofia pelo menos, trata do que pode, em princípio, ser conhecido. A teologia é infinitamente mais ambiciosa; sua pretensão de destrinchar os meandros da insondável mente de Deus produz resultados quase sempre <a href="http://www.baciadasalmas.com/rubricas/fe-e-crenca/heresias-sensacionais/">desastrosos</a>.</p>
<p>Dos males o misticismo é, por certo, o menor. Sua ênfase na oração, na meditação e na contemplação mantém aceso o assombro de Deus e mantém-no como o insondável Outro &#8211; um Outro que não pode ser exatamente compreendido ou colocado numa caixinha mas com quem podemos, estranhamente, nos relacionar. Nesse sentido, Deus não é um Outro mais insondável do que somos para todos os outros.</p>
<p>A coisa ruim que o misticismo poderia fazer é, como já aconteceu, afastar-nos do mundo pelo mergulho irreversível em nós mesmos. Os bons místicos, no entanto, sabem que mergulhar em Deus é tocar os outros no mundo. Conhecer a Deus, é naturalmente, conhecer o amor. Deus amou o mundo de tal maneira, e não esperaria destino menos glorioso de nós.</p>
<hr style="width: 30%; height: 2px;" />
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		<title>Intimidade e alienação</title>
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		<pubDate>Wed, 18 May 2005 09:30:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>
		<category><![CDATA[Homens e Mulheres]]></category>

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		<description><![CDATA[Depois de uma dúzia &#8211; ou várias dúzias &#8211; desses diálogos unilaterais nós desistíamos de derramar nossa substância num poço seco. Perdíamos a fé num dos nossos mais preciosos recursos femininos. Os homens consertam as coisas com suas mentes, as mulheres resolvem problemas expondo os seus sentimentos, usando a fala como instrumento. Para nós conversar [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Depois de uma dúzia &#8211; ou várias dúzias &#8211; desses diálogos unilaterais nós desistíamos de derramar nossa substância num poço seco. Perdíamos a fé num dos nossos mais preciosos recursos femininos. Os homens consertam as coisas com suas mentes, as mulheres resolvem problemas expondo os seus sentimentos, usando a fala como instrumento. Para nós conversar é intimidade, silêncio é alienação. Mantendo-se em silêncio [os homens] criam que estavam mantendo o status quo, enquanto nós sentíamos que eles o estavam destruindo.</p>
<p align="right"><small><strong>Ann Arensberg,</strong> <em>Incubus</em></p>
<p></small></p>
]]></content:encoded>
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		<title>A dura casca dos fatos</title>
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		<pubDate>Tue, 03 May 2005 09:02:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>
		<category><![CDATA[Homens e Mulheres]]></category>

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		<description><![CDATA[&#8211; Henry &#8211; eu o lembrei, &#8211; estou esperando para ouvir o que aconteceu. Henry ficou surpreso de ser arrancado à força das suas especulações. Ele envolvia-se com o significado mais profundo dos eventos, que os fatos ocultavam. A verdade era para ele como uma castanha protegida por uma dura casca factual, e sua tarefa [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>&#8211; Henry &#8211; eu o lembrei, &#8211; estou esperando para ouvir o que aconteceu.</p>
<p>Henry ficou surpreso de ser arrancado à força das suas especulações. Ele envolvia-se com o significado mais profundo dos eventos, que os fatos ocultavam. A verdade era para ele como uma castanha protegida por uma dura casca factual, e sua tarefa era romper essa resistente cobertura exterior. Minha tendência era achar que os fatos eram verdade suficiente, e que eles ressentem-se de sondagens e interferências humanas. Essa era uma das diferenças entre nós dois, e entre a <a href="http://www.baciadasalmas.com/index.php?p=376">maior parte</a> dos homens e das mulheres.</p>
<p align="right"><small><strong>Ann Arensberg,</strong> <em>Incubus</em></small></p>
<p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug032.gif" alt="" width="37" height="52" /></p>
]]></content:encoded>
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		<title>O mundo sem as mulheres</title>
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		<pubDate>Tue, 19 Apr 2005 09:02:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Homens e Mulheres]]></category>

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		<description><![CDATA[Como homens e mulheres são geneticamente tão diferentes, existe sempre a possibilidade (God forbid) de que alguma epidemia devastadora aproveite-se de uma brecha genética particular e venha a atingir pessoas de apenas um dos sexos, deixando as pessoas do sexo oposto ilesas &#8211; e inteiramente solitárias. Tecnicamente, portanto, o mundo pode acabar sendo herdado pelos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Como homens e mulheres são geneticamente <a href="http://www.baciadasalmas.com/2005/pouca-diferenca">tão diferentes</a>, existe sempre a possibilidade (God forbid) de que alguma epidemia devastadora aproveite-se de uma brecha genética particular e venha a atingir pessoas de apenas um dos sexos, deixando as pessoas do sexo oposto ilesas &#8211; e inteiramente solitárias. Tecnicamente, portanto, o mundo pode acabar sendo herdado pelos homens antes de ser <a href="http://www.baciadasalmas.com/2005/o-mundo-sem-os-homens/">deixado para as mulheres</a>.</p>
<p>Fiquei pensando, então, se não seria necessário (ou engraçado) complementar a entrada <a href="http://www.baciadasalmas.com/2005/o-mundo-sem-os-homens/">o mundo sem os homens</a> com um correspondente &#8220;o mundo sem as mulheres&#8221;.</p>
<p>Cheguei a esboçar um item ou dois, como: &#8220;os homens continuarão a contar conquistas amorosas mirabolantes uns aos outros até perceberem que a última mulher desapareceu há muito tempo. Quando perceberem, deixarão de contar&#8221;.</p>
<p>Finalmente, achei que seria mais doce e mais breve dizer que simplesmente <em>não consigo imaginar o mundo sem as mulheres.</em></p>
<p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug037.gif" alt="" width="36" height="48" /></p>
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		<title>O mundo sem os homens</title>
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		<pubDate>Mon, 11 Apr 2005 09:34:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Homens e Mulheres]]></category>
		<category><![CDATA[Quase Ciência]]></category>

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		<description><![CDATA[O estudo científico do cromossomo Y traz ainda más notícias para os homens e boas notícias para as mulheres. A má notícia para os homens é que, como o cromossomo Y perdeu em algum momento a capacidade de se recombinar de modo a evitar as mutações danosas, os cientistas prevêm que em coisa de 100 [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://img.photobucket.com/albums/v244/pbpbpb/tidbits/comedy.gif" alt="" width="124" height="106" /></p>
<p>O estudo científico do <a href="http://www.baciadasalmas.com/index.php?p=328">cromossomo Y</a> traz ainda más notícias para os homens e boas notícias para as mulheres. A má notícia para os homens é que, como o cromossomo Y <a href="http://www.baciadasalmas.com/index.php?p=383">perdeu em algum momento a capacidade de se recombinar</a> de modo a evitar as mutações danosas, os cientistas prevêm que em coisa de 100 milhões de anos o dano será irreparável e os homens simplesmente <a href="http://www.hhmi.org/bulletin/bookofy/5.html">deixarão de existir</a>. Essa também é a boa notícia para as mulheres.</p>
<p><em>A Bacia das Almas</em>, sempre adiante do seu tempo, gostaria de dar aos seus broncos leitores e amáveis leitoras um vislumbre de como será esse &#8220;futuro inevitável&#8221;, um mundo em que os homens estarão extintos e as mulheres herdarão a terra.</p>
<p>Prevejo que num mundo sem homens:</p>
<p>
<p style="padding-left:3em;">(1) as privadas não terão mais tampa<br />(2) as mulheres continuarão a usar maquiagem<br />(3) todos os açougueiros, lenhadores, lixeiros e leões-de-chácara serão mulheres<br />(4) não haverá mais prostitutas<br />(5) as revistas masculinas deixarão de circular<br />(6) não haverá mais guerra (nem, provavelmente, fome)<br />(7) não haverá mais teorias de conspiração<br />(8) os shopping-centers passarão a ter lojas de ferragens, oferecendo ferramentas com cabos estampados e design alternativo<br />(9) a TPM durará o ano inteiro<br />(10) as mulheres não terão mais amigas, por falta de assunto<br />(11) as mulheres ficarão mais bonitas<br />(12) haverá em todas as cidades estátuas, memoriais e museus do Homem, sempre com a inscrição: &#8220;que esse erro não se repita&#8221;.<br />(13) o papa será mulher<br />(14) Romeu e Julieta e Titanic serão reencenados com elenco exclusivamente feminino<br />(15) todos os postos de gasolina terão banheiros impecáveis<br />(16) as comédias românticas deixarão de ser o gênero de filme favorito das mulheres<br />(17) as mulheres morarão sozinhas em seus apartamentos<br />(18) as regras do futebol serão alteradas para comportar um time só<br />(19) todos os recém-nascidos ganharão roupas cor-de-rosa<br />(20) os bancos de sêmen (congelado) terão caixas automáticas <br />(21) as pessoas amadurecerão mais cedo<br />(22) não haverá mais serial-killers<br />(23) as mulheres não terão medo de sair à noite<br />(24) as mulheres não abrirão as portas umas para as outras<br />(25) cada uma pagará a sua conta, sempre<br />(26) as mulheres não usarão mais bolsa<br />(27) haverá reservas ecológicas mas não zoológicos, e a flora e a fauna do planeta se recuperarão inteiramente<br />(28) a ninguém mais ocorrerá a idéia de matar baleias ou cantar rap<br />(29) as matérias de filosofia, teologia e artes marciais serão englobadas debaixo da disciplina &#8220;História&#8221;<br />(30) não haverá mais complexo de Peter Pan, mas todas as mulheres terão complexo de Édipo<br />(31) as pessoas comerão mais chocolate<br />(32) as mulheres serão menos felizes mas chorarão menos<br />(33) do lado de cada mulher continuará a existir um <a href="http://www.baciadasalmas.com/index.php?p=24">homem ausente</a>.</p>
<p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug042.gif" alt="" width="245" height="94" /></p>
<p>Se lembrar de algum item que esqueci, favor deixar um comentário.</p>
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		<title>Todos os homens</title>
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		<pubDate>Mon, 28 Mar 2005 09:44:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Homens e Mulheres]]></category>
		<category><![CDATA[Quase Ciência]]></category>
		<category><![CDATA[biologia]]></category>

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		<description><![CDATA[A ciência confirma o que as mulheres já sabiam há anos. Não apenas homens e mulheres são geneticamente distintos &#8211; ao ponto de ser quase correto afirmar que somos animais de espécies diferentes que acontecem de produzir prole fértil. O cromossomo Y, que define a masculinidade, tem outras surpresas. Como esclarece Delia K. Cabe em [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2005/allmen.jpg" alt="" /></p>
<p>A ciência confirma o que as mulheres já sabiam há anos.</p>
<p>Não apenas homens e mulheres são geneticamente distintos &#8211; ao ponto de ser quase correto afirmar que somos animais de <a href="http://www.baciadasalmas.com/index.php?p=328">espécies diferentes</a> que acontecem de produzir prole fértil.</p>
<p>O cromossomo Y, que define a masculinidade, tem outras surpresas. Como esclarece Delia K. Cabe em <a href="http://www.hhmi.org/bulletin/bookofy">The Book Of Y</a>:</p>
<blockquote><p>As mulheres trazem 23 pares de cromossomos, cada conjunto uma unidade completa &#8211; como um par de meias novo em folha. Nas mulheres o 23º par é um XX. Os homens também têm 23 pares, mas o 23º par é a dupla XY &#8211; uma meia completa e seu parceiro em frangalhos, o cromossomo Y, que é na verdade um X com uma das pernas cortada. O aleijado cromossomo Y tem apenas 20 ou 30 genes, comparado aos cerca de 2000 ou 3000 genes do poderoso cromossomo X.<br/></p>
<p>Os genes que o cromossomo Y perdeu ao longo do tempo tornaram-no incapaz de recombinar-se &#8211; isto é, de trocar genes com o X, como fazem os outros pares de cromossomos de modo a peneirar mutações danosas e preservar a sua integridade.</p></blockquote>
<p>O cromossomo Y é o estranho no ninho e não tem um parceiro de troca<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2005/todos-os-homens/#footnote_0_383" id="identifier_0_383" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="No restante do genoma humano, os 22 pares de autossomos (cromossomos n&atilde;o sexuais) alinham-se quando as c&eacute;lulas est&atilde;o preparando-se para se dividir de modo a criar esperma e &oacute;vulos para a gera&ccedil;&atilde;o seguinte. Nessa ocasi&atilde;o os pares de cromossomos freq&uuml;entemente passam por cima uns dos outros e trocam entre si por&ccedil;&otilde;es de genes. Nessa troca gen&eacute;tica seq&uuml;&ecirc;ncias que contem &amp;quot;erros tipogr&aacute;ficos&amp;quot; (envolvendo apenas uma ou duas das letras gen&eacute;ticas) ou grandes regi&otilde;es com DNA faltante ou rearranjado (que ocasionam mudan&ccedil;as funcionais &amp;#8211; muta&ccedil;&otilde;es) podem ser retificadas pela substitui&ccedil;&atilde;o das seq&uuml;&ecirc;ncias danificadas por seq&uuml;&ecirc;ncias normais.">1</a></sup>. Ao contrário dos extrovertidos X, o cromossomo Y é fechadão e não conversa nem troca informações com nenhum outro: para não se degenerar completamente ele aprendeu a trocar genes <em>internamente</em>. Talvez seja por isso, penso eu, que os homens são tão emsimesmados e relutantes em efetuar a <a href="http://www.baciadasalmas.com/index.php?p=31">partilha</a>. Muito literalmente, a partilha não é <em>natural</em> em nós.</p>
<p>Mas não é só isso. Por causa dessa sua limitação inerente, o cromossomo que define o sexo masculino (ao contrário de todos os outros) é passado de pai para filho através de <em>clonagem</em>, não sexualmente. O homem recebeu o cromossomo Y inalterado do seu pai, que recebeu o mesmo cromossomo Y do seu avô, que recebeu-o do seu bisavô e assim por diante, até Adão. Ao contrário das mulheres, que são fruto de saudáveis recombinações, os homens são frutos de precária clonagem.</p>
<p>Todas as mulheres são diferentes entre si, mas todos os cromossomos Y são de certa forma o mesmo. Num certo sentido muito profundo é correto dizer que <strong><em>todos os homens são iguais.</em></strong></p>
<p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug051.gif" alt="" width="77" height="70" /></p>
<b><small>NOTAS</small></b><ol class="footnotes"><li id="footnote_0_383" class="footnote">No restante do genoma humano, os 22 pares de autossomos (cromossomos não sexuais) alinham-se quando as células estão preparando-se para se dividir de modo a criar esperma e óvulos para a geração seguinte. Nessa ocasião os pares de cromossomos freqüentemente passam por cima uns dos outros e trocam entre si porções de genes. Nessa troca genética seqüências que contem &quot;erros tipográficos&quot; (envolvendo apenas uma ou duas das letras genéticas) ou grandes regiões com DNA faltante ou rearranjado (que ocasionam mudanças funcionais &#8211; mutações) podem ser retificadas pela substituição das seqüências danificadas por seqüências normais.</li></ol>]]></content:encoded>
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		<title>Muito pêlo contrário</title>
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		<pubDate>Sun, 13 Mar 2005 08:26:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Homens e Mulheres]]></category>
		<category><![CDATA[Quase Ciência]]></category>
		<category><![CDATA[biologia]]></category>
		<category><![CDATA[humor]]></category>

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		<description><![CDATA[Os brutos também pensam. O Dr. Aikarakudy Alias, psiquiatra do Chester Mental Health Center de Illinois, divulgou em 1996 o resultado de pesquisas conduzidas durante 22 anos entre estudantes e Homens peludos são mais inteligentes.professores universitários nos Estados Unidos e na Índia. Sua conclusão: os homens com corpo peludo são &#8220;estatisticamente&#8221; mais inteligentes. O estudo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Os brutos também pensam.</p>
<p>O Dr. Aikarakudy Alias, psiquiatra do <a href="http://www.siumed.edu/psych/html/chester_mental_health.html">Chester Mental Health Center</a> de Illinois, divulgou em 1996 o resultado de pesquisas conduzidas durante 22 anos entre estudantes e <span style="float:right; text-align:right; width:35%; color:#7c836d; margin:12px 0 12px 12px; font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps; font-size:1.4em; line-height: 1.3em">Homens peludos são mais inteligentes.</span>professores universitários nos Estados Unidos e na Índia. Sua conclusão: os homens com corpo peludo são &#8220;estatisticamente&#8221; mais inteligentes.</p>
<p>O estudo revelou que 45% dos estudantes universitários americanos são &#8220;muito peludos&#8221;, comparados com os meros 10% da população total masculina. Uma pesquisa conduzida entre 117 membros da <a href="http://www.mensa.org">Mensa</a> (gente com QI acima de 140) no sul da Índia produziu resultados similares: os homens mais inteligentes têm maiores chances de terem peito (e, em menor grau, costas) peludos.</p>
<p>E não é só isso; dentre os estudantes universitários, os que têm peito peludo são mais populares, mais emocionalmente estáveis, tiram melhores notas e tornam-se profissionais mais bem sucedidos do que seus companheiros lisos. </p>
<p>Na conferência da Associação de Psiquiatria Européia em que esses resultados foram anunciados pela primeira vez, alguém da platéia pediu, na hora das perguntas, que o Dr. Alias abrisse a sua camisa.</p>
<p>Ele se recusou.</p>
<p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug025.gif" alt="" width="67" height="73" /></p>
<p>Leia também:<br /><a href="http://www.baciadasalmas.com/index.php?p=447">Alias</a></p>
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