Manuscritos estocados sob a rubrica 'Homens e Mulheres'
29 de Agosto de 2009

A diferença entre um homem e uma manga verde

Filmes, Homens e Mulheres



é que a manga amadurece.

Há uma estupidez essencial embutida na alma masculina (para não dizer nas suas gônadas). Não se engane: não há homens sérios, espirituais e compenetrados. Não há um de nós que se alce ao sublime. Dizemos coisas inconsequentes, fazemos coisas fora de propósito e rimos de coisas impróprias. Essa leviandade faz parte do segredo comum que torna os homens frequentemente repugnantes e ocasionalmente irresistíveis.

Shakespeare não se considerava acima de piadas sobre sexo, mas ele era Shakespeare, amparado por uma redação impecável e uma compaixão inabalável diante de tudo que é humano. Vindo de alguém que absolutamente abominou Quem vai ficar com Mary e jamais recomendaria Borat em público: vá assistir Se beber não case (The Hangover/A ressaca, 2009).

Não se deixe enganar pelo trailer, que o levará a pensar num daqueles filmes genéricos em que homens adultos falam merda e agem como adolescentes. Acredite, os protagonistas de Se beber não case falam mais merda e agem mais como adolescentes do que sugere o trailer, talvez quase tanto quanto os homens da vida real, mas não há nada de genérico nas suas aventuras ou no humor que incitam. Por trás dessas inconsequências espreita algo que não comparece em nenhuma boa comédia que me venha à lembrança (nem mesmo as que mais gosto, que costumam ser um amontoado pouco coeso de piadas e esquetes soltas): uma história.

O complemento perfeito a Pra que servem os homens.

16 de Julho de 2008

A longa rixa da misericórdia com as ordens da criação

Divino preconceito, Homens e Mulheres

A misericórdia triunfa sobre o juízo.
Tiago 2:13

No princípio era o caos, até que Deus instaurou a ordem. O primeiro capítulo de Gênesis enfatiza à exaustão o caráter organizatório da iniciativa divina primordial. Deus, o primeiro enciclopedista, fixa os astros nas suas órbitas, fatia céu e terra, divide céus e mares, coloca luz e escuridão em compartimentos estanques, põe dia e noite em suas respectivas prateleiras, faz brotar cada planta rasteira, cada árvore, cada ave, cada peixe, cada animal rastejante, cada animal doméstico e cada animal selvagem “segundo as suas espécies”, distribui o ser humano entre homem e mulher, reparte a semana em sete dias, fende o dia em tarde e manhã, e coloca em cada um metódicos crachás escritos por ele mesmo.

A organização aparece na história como característica fundamental e inseparável do universo e do próprio Deus. A ordem das coisas na terra, demonstram as burocráticas enumerações de Gênesis, reflete o planejamento da mente divina no céu. Dito de outra forma, as coisas são precisamente como deveriam ser, e o nosso é o melhor dos mundos possíveis.

Ao longo dos séculos, na mente da esmagadora maioria dos cristãos, esse estado inicial da criação tem representado uma espécie de intocável Idade do Ouro. Segundo esse modo de ver as coisas, Gênesis 1 e 2 estabelecem o conjunto de circunstâncias que encapsula a essência do que o cristianismo deve defender. Aqui estão, afinal de contas, a soberania divina, a singularidade da humanidade em relação às demais criaturas, a instituição da família e do casamento, o direito de domínio do ser humano sobre a natureza. O mundo como Deus o criou em Gênesis estaria dessa forma demarcado por “ordens da criação”, categorias muito precisas e muito fixas que cabe aos puros de coração defender, porque violá-las é devolver o mundo ao desfigurante e degradante caos que precedeu a iniciativa ordenatória de Deus.

Não mexa no meu queijo.

Contra as mulheres, pela procriação

É o argumento das “ordens da criação” que, ainda hoje, impede que mulheres sejam ordenadas ao sacerdócio ou ao ministério em igrejas cristãs de todas as estirpes. Em 1969, por exemplo, o sínodo da igreja luterana do Missouri legislou que “diante das declarações da Escritura que a mulher não deve ensinar ou exercer autoridade sobre o homem, entendemos que mulheres não devem assumir cargos pastorais ou qualquer outra posição que viole de alguma forma a ordem da criação”.

Afinal de contas, deixa claro o Apóstolo, é coisa vergonhosa que uma esposa fale na igreja; a própria Lei afirma que as mulheres devem ser submissas; Adão precedeu a mulher na ordem cronológica da criação; o homem não foi criado para a mulher, mas a mulher para o homem; o marido é a cabeça da esposa; a mulher veio do homem, e não o homem da mulher; o homem não foi enganado, mas a mulher deixou-se enganar pela serpente. A conclusão é clara: na hierarquia ideal da criação, que não cabe ao ser humano querer violar, a mulher é inerentemente subordinada ao homem. Almejar uma posição de igualdade funcional é arrogância e rebelião; é lutar contra as ordens da criação, ou seja, contra a integridade da tessitura mais essencial do universo.

O relatório do mesmo sínodo faz os seguintes esclarecimentos adicionais: “A ordem da redenção não deve viciar o relacionamento apropriado entre mulheres e homens estabelecido na ordem da criação”. “A unicidade do homem e da mulher em Cristo não apaga a distinção estabelecida na criação”. “A subordinação da mulher ao homem na ordem da criação é uma relação funcional dada pelo criador, que escolheu estruturar a existência em determinadas linhas”. “O casamento e o estado pertencem às ordens da criação”. “Deus é o criador de certos relacionamentos básicos que impedem a vida e a sociedade de degenerarem em anarquia”. “Paulo não queria que as mulheres transtornassem a hierarquia de funções estabelecida na criação, especialmente logo após a queda”. “A subordinação da esposa ao marido é parte da ordem da criação”. “A convicção do apóstolo é que a igreja não deve minar, mas santificar as ordens da criação”. “Paulo está decidido a defender a instituição do matrimônio como pertencente às ordens da criação, em que a renovação não é alcançada por meio de desordem e ruptura, mas pela observância e pela santificação da prática de autoridade por parte do marido e de submissão por parte da esposa”.

Em outras palavras, a mulher pode não ser criatura de segunda classe, mas na ordem da criação ficou estabelecido que deve agir como se fosse. Mulheres e esposas devem abraçar esse destino de bom grado, da mesma forma que homens e maridos devem se conformarem à dura posição de primazia que a criação deixou-lhe nas mãos.

A questão do sacerdócio feminino é hoje relevante para uma diminuta fração da população, mas sua lógica subjacente é a mesma que manteve fechado, durante dois mil anos, o acesso da mulher a um status igualitário em termos jurídicos, financeiros, políticos e profissionais. A inferioridade da mulher é coisa que nem ao menos se discutia, por ser uma das verdades evidentes patenteadas na ordem da criação.

Assim, ao longo de dois mil anos de civilização cristã, as mulheres foram silenciadas e reprimidas, ao mesmo tempo em que eram acusadas (via Eva, de quem teriam herdado suas fraquezas) de serem culpadas por virtualmente todos os males que assolam a humanidade; foram perseguidas como bruxas, torturadas sem dó, separadas de suas famílias e queimadas publicamente; tiveram suas vidas legisladas, suas opiniões enterradas e direitos cerceados, mesmo nos nossos dias.

E contra esse estado de coisas não ocorria a ninguém dizer uma palavra, porque tacitamente todos concordavam que Deus “escolheu estruturar a existência em determinadas linhas”. A estratificação social do primeiro casal e suas relações internas de autoridade e subordinação haviam sido estabelecidas pelo Criador no princípio, e é assim que deveriam se manter. A alternativa era inimaginável.

“Quem está pedindo o voto para as mulheres?” quis saber Justin Fulton em 1869. “Os que amam a Deus e seguem a Cristo é que não são! A maior parte dos que reivindicam o voto para as mulheres repudiam a legislação do Céu e os prazeres domésticos, e deixam-se levar pela infidelidade e pela ruína”.

Contra os negros, pela escravidão

Aplacados pela lógica da “ordem da criação”, os cristãos conviveram pacificamente, ao longo de dezoito séculos, com toda forma de escravidão e preconceito de raça.

A supremacia dos brancos sobre todas as outras raças havia sido, afinal de contas, estabelecida diretamente por Deus. Os negros, em particular, eram tidos como descendentes de Cão, o filho amaldiçoado de Noé cujo filho Canaã fora condenado a ser “servo dos servos de seus irmãos”1.

Com essa desculpa, a divisão racial fendeu por séculos países como os Estados Unidos e a África do Sul, com a devida sanção de seus líderes cristãos. “A escravidão foi estabelecida por decreto do Deus Todo-Poderoso”, explicou Jefferson Davis, presidente da Confederação. “Ela é sancionada pela Bíblia em ambos os testamentos, de Gênesis a Apocalipse. Tem existido em todas as épocas, sendo encontrada entre os povos da mais alta civilização e nas nações de maior destaque nas artes”.

Como ainda se crê que as distinções fundamentais entre as raças foram estabelecidas por Deus na criação, em muitas áreas dos Estados Unidos o casamento entre pessoas de raças diferentes permanece sendo visto como inaceitável – verdadeira abominação. Um juiz da Virgínia observou em 1959: “O Deus Todo-Poderoso criou as raças branca, negra, amarela, malaia e vermelha e colocou-as em continentes separados. A não ser que se queira perturbar esse arranjo de coisas, não vejo motivo para esses casamentos [mistos]“.

Pela pátria, contra as outras nações

Na Alemanha de Hitler, nos anos que antecederam à Segunda Guerra, o conceito cristão de ordem da criação alimentou o nacionalismo doentio que acabou gerando o nacional-socialismo – nazismo – e seus excessos.

Para os teólogos do popularíssimo movimento “Cristãos Germânicos” o Volk, a nacionalidade, era visto como uma ordem particular de Deus para a humanidade. A pátria era a vocação espiritual por excelência e o Estado o mais direto desdobramento dessa ordem divina, pelo que rebelar-se contra a liderança de Hitler era rebelar-se contra Deus.

“Cada desvio da ordem divina”, admitiu Walter Künneth (que nem mesmo era simpatizante de Hitler), “ocasiona decadência e caos”, enquanto Emile Hirsch explicava que a nacionalidade é “um meio de revelação de Deus”. Gerhard May argumentava que a liberdade cristã é na verdade obediência às leis e demais determinações do Estado, e em favor de sua posição citava a postura do Novo Testamento sobre a escravidão.

A liberdade de opinião que exigiam os membros da Igreja Confessante, a liberdade de discordar da ordem divina manifesta no Estado, era “a satânica liberdade dos pecadores”, que nenhum cristão deveria querer reivindicar para si. Pois “a vontade divina expressa na lei é demonstrada pelas ordenanças claras e invioláveis que governam a vida das nações”2.

Dito de outra forma, para ser cristão é preciso ser patriota, e para ser patriota é preciso demonstrar apoio irrestrito às ações do governo3. Pois foi assim que Deus quis quando deitou nas formas do futuro as ordens imutáveis da criação.

Pela fraternidade, pela igualdade, pela graça

Ao longo da história os cristãos que ousaram discordar da supremacia da “ordem da criação” tiveram de lutar contra a corrente da interpretação estática das Escrituras. Afinal de contas, o próprio Novo Testamento não oferece uma palavra de condenação à escravidão; ao contrário, em muitas passagens parece sancioná-la sem encontrar na questão qualquer dilema moral. Era muito difícil para os abolicionistas justificar biblicamente sua posição, enquanto que os escravagistas tinham (e ainda tem) dúzias de versículos para acenar em seu favor. Dispor-se a lutar pela abolição era, em grande medida, dispor-se a lutar contra Deus e contra a Bíblia.

Da mesma forma, os que advogavam pelos direitos das mulheres tinham de procurar uma agulha no enorme palheiro patriarcal e sexista que é o texto bíblico. Para cada momento em que Jesus é amigo das mulheres há dez em que Paulo nos lembra de que Eva é quem foi enganada pela serpente.

O milagre está em que muito lentamente, um imperceptível passo de cada vez, as vozes da misericórdia e da sanidade (que são uma só) acabam sendo ouvidas, mesmo quando os ouvidos são cristãos.

Os anabatistas foram os primeiros a criticar escravidão, logo seguidos pelos quacres e os menonitas, mas foi John Wesley (fundador da Igreja Metodista) quem deu verdadeira forma e credibilidade pública à posição abolicionista.

Influenciado por Barth, Dietrich Bonhoeffer passou questionar diante dos teólogos nazistas toda a validade da sua argumentação. Para Bonhoeffer o argumento das ordens da criação é falho porque pode ser usado para justificar virtualmente qualquer estado de coisas, por mais injusto ou arbitrário que seja. Para ele, as ordens do mundo derivam seu valor não de si mesmas, mas de Cristo, que é a nova criação e portanto a nova referência para todas as coisas. “Qualquer ordem”, enfatiza ele, “pode ser dissolvida e deve ser dissolvida quando deixa de permitir a proclamação da revelação”.

Em todos os casos os proponentes da graça, quando dispuseram-se a combater o preconceito, o racismo, o sexismo, o totalitarismo, a escravidão e o abismo entre as classes tiveram de abraçar a Bíblia sem abraçar-lhe a letra. Não começaram, porque não é possível, negando o sexismo dos patriarcas e discípulos ou a sanção bíblica da escravidão. Como os profetas antes deles, tiveram de apontar para um sentido mais profundo e mais abrangente da mensagem bíblica, uma mensagem transversal fundamentada não na forma dos mandamentos mas no exemplo de Jesus – e na pressuposição de que não há exemplo mais cristão a ser seguido.

Porque em Jesus, se você acredita nele, fica tudo de repente muito claro. Em Jesus, Deus, e portanto a criação, toma partido dos desamparados e dos marginalizados.

No tempo de Jesus todos sabiam que, na ordem dura da criação, os doentes eram pecadores que Deus estava punindo, as mulheres eram seres impuros que não podiam candidatar-se ao discipulado e os pobres eram desamparados por Deus que não tinham recursos para cumprir as minuciosas exigências da lei. E Jesus, contra mundum, beija cuidadosamente cada um e acolhe-os no abraço da graça.

Num único e coerente gesto de vida ele transtorna a ordem estabelecida, coloca as coisas em lugares inesperados e explica que age em nome de Deus. O Filho do Homem deixa que seus amigos colham espigas no sábado, e ele mesmo efetua curas nesse dia de descanso, não apenas porque a criação não está pronta (“meu pai ainda está trabalhando”), mas porque – e eis a grande e desconcertante revelação – “a ordem da criação foi feita para o homem, e não o homem para o ordem da criação”.

O que há em Jesus, é essencialmente, uma crítica pungente a toda espécie de dominação, mesmo a que é feita em nome de Deus. Sua postura é, portanto, uma ameaça a todo conforto e a todo estado de coisas. Agora ele está pendurado na cruz, mas com o tempo sua mensagem alcançará e redimirá a condição de todos os pequenos deste mundo. Agora fecham-no no túmulo, mas graças a ele haverá no futuro um momento em que escravos, pobres, mulheres, crianças e gente de todas as raças não terão mais de se envergonhar da sua condição.

Contra os gays, contra o planeta

Agora que você não pode mais contar piadas que ridicularizem os negros, agora que sua chefe ganha mais do que você, os preconceitos embasados no conceito das ordens da criação escolheram novos alvos.

São alvos mais fragéis e inesperados, e portanto mais adequados à predação neste momento da história. Hoje em dia, quando acenam com o argumento das ordens da criação, os cristãos estarão fatalmente [1] condenando a conduta homossexual ou [2] asseverando o seu direito de explorar os recursos do planeta.

O alvo mais fácil são, naturalmente, os homossexuais. Quando o relato de Gênesis deixa claro que Deus criou a mulher para o homem, o que pode haver de mais contrário à disposição inicial das coisas do que a união sexual entre pessoas do mesmo sexo? Se Jesus disse do divórcio que “no princípio não era assim”, o que teria dito do casamento entre homossexuais?

Isso porque todos os argumentos bíblicos apontados contra a homossexualidade resolvem-se em nada quando comparados a este, que é na verdade o único: na ordem original das coisas não era assim.

Um documento que circula na porção cristã da internet deixa clara a argumentação subjacente: “a pressão para que a igreja aprove a união entre homossexuais representa um ataque direto aos valores do casamento e da família, pois a união entre pessoas do mesmo sexo nega as ordens da criação, a complementaridade entre homem e mulher estabelecida por Deus e o mandamento valorizador de vida que afirma ‘fruticai-vos e multiplicai’”. A homossexualidade, portanto, é em sua essência uma afronta aos pilares divinamente estabelecidos em Gênesis: as ordens da criação.

Numa instância paralela, as ordens da criação são mencionadas pelos protestantes norte-americanos como credencial para explorarem até o sumo os recursos naturais da terra. Quem irá levantar-se para denunciar os abusos do homem contra a natureza, quando Gênesis assegura que Deus lhe conferiu pleno domínio sobre a terra? Como condenar os desmatamentos, a extinção escandalosa das espécies e o aquecimento global, quando a narrativa da criação esclarece que o homem foi criado para colocar o planeta sob sujeição?

Pelo que lêem em Gênesis, Deus não apenas deu ao homem carta branca para violentar a terra; deu-lhe essa missão.

Contra o medo

Como intuiu Bonhoeffer, o argumento das ordens da criação permanece sendo usado a fim de manter o estado confortável de coisas para os que se sentem confortáveis com o modo como as coisas estão.

A proliferação de união homossexuais é vista como uma ameaça formidável à instituição da família – e a família é a ordem da criação por excelência, a unidade essencial que mantém no lugar os fundamentos do cosmos. Violar essa ordem primordial das coisas é tido como a forma mais abominável de rebelião; não apenas contra Deus (como se não bastasse), mas contra o próprio universo.

Do mesmo modo, alimentar uma consciência ecológica é, em última instância, voltar-se contra a ordem divina revelada em Gênesis 1. Nosso dever como seres humanos não é preservar o planeta, mas mostrar a ele quem manda; Deus, afinal de contas, está quase pronto para dar-nos um novo e inteiramente remodelado.

E o fundamento para todos esses raciocínios, é preciso enfatizar, é um só: o Criador não quer que seja de outra forma, do contrário teria feito diferente desde o começo. Os verdadeiros crentes desejarão conformar-se à vontade divina, pelo que não ousarão inverter a ordem das coisas.

A solução para o dilema, quero crer, está em determinar até que ponto Deus deixou de ser Criador, ou em que momento a criação foi de fato concluída. A Bíblia, é claro, oferece curiosas evidências para sugerir que a obra da criação permanece em aberto. Deus é, até a última página, aquele que “faz novas todas as coisas”. O Filho do Homem e seus seguidores são em especial descritos como “novas criaturas”, isto é, protagonistas de uma nova e totalmente inusitada criação – porque, observa Jesus, um tanto blasfemamente, “meu Pai continua trabalhando”.

Como propõe Edward H. Schroeder em sua análise sobre a questão da ordenação feminina: se Deus permanece sendo o Deus Criador, como não concluir que as mudanças sociais ocorridas no tempo que nos separa de Paulo, mudanças que acabaram possibilitando o status igualitário da mulher, são obra do mesmo Criador? Como não concluir que foram mudanças sopradas na humanidade pelo exemplo singular e subversivo de Cristo? A obra do evangelho não estará derramando sobre o mundo seus inesperados desdobramentos?

“A consequência clara do evangelho,” observa Schroeder, “é que as ordens da criação são impermanentes. Com o tempo acabarão passando, juntamente com ‘o céu e a terra’”. A igreja não deve temer essa impermanência, porque “a própria igreja veio à existência através de um ato de violação”. A ordem fundamental da criação, pela qual o pecador deve ser invariavelmente punido com a morte, foi espetacularmente contornada pelo esvaziamento de Deus, e dessa formidável violação nasceu uma formidável possibilidade de vida. É por isso que em seu cerne a mensagem do evangelho é um escândalo – uma violação extrema da lógica e da ordem inerentes ao universo.

“A preocupação da igreja”, conclui Schroeder, “deve ser evitar que o próprio evangelho seja violado; fora isso, ela deve deixar que o evangelho promova suas próprias violações, credenciado pela autoridade do próprio Cristo”.

Jacques Ellul, refletindo sobre essas coisas, concluiu que toda a lei e toda a justiça devem estar embasadas em Cristo. O mundo e a condição humana, propõe ele, encontram-se numa situação inteiramente nova diante da revelação e da obra redentora de Deus em Cristo. O que era considerado lei natural deve perder de agora em diante o seu caráter normativo, sendo relativizado pela desconcertante reviravolta da justificação.

Ou, na reflexão de James Alison, nossa visão de Deus como Criador deve deixar de ser a de alguém que fez algo no passado para a de alguém que está fazendo algo nos nossos dias por meio de Jesus – Jesus que estava com o Pai desde o princípio, fazendo todas as coisas.

A escandalosa verdade é que a liga que sustenta o universo não é a família ou o casamento, mas a misericórdia, soprada por Deus e manifesta pelos homens. De um modo transversal o próprio Jesus demonstrou esse princípio quando explicou que “no princípio não era assim, mas o divórcio foi instituído por causa da dureza do coração de vocês”. Em outras palavras, ele está revelando que o divórcio foi instituído, incrivelmente, por uma vitória da misericórdia contra a ordem da criação. Está longe de ser uma solução ideal e não estava prevista na ordem original das coisas, mas é uma resposta da graça diante da irreversível complexidade da condição humana.

Nos dois mil anos que nos separam da cruz a condição humana imergiu em muitas camadas adicionais de complexidade. Porém a misericórdia tem continuando a violar, de forma sistemática e sempre escandalosa, as ordens da criação. Quando a sua obra estará concluída? Talvez no momento em que cumprir-se por completo a profecia de Paulo, e em Cristo não houver mais judeu e grego, civilizado e bárbaro, escravo e livre, homem e mulher.

Ou, para citar João, no momento em que o amor lançar fora todo o medo.

Pois o apego irresistível às ordens da criação é, essencialmente, o apego dos seres humanos (especialmente os do sexo masculino) às formas de dominação, como alternativa ao medo e ao sentimento de inadequação. Porque é sabido que os homens, que escreveram até recentemente toda a história, sentem que devem provar continuamente o seu valor, que pensam ser a mesma coisa que sua masculinidade. Se lutavam para manter o estado de coisas por meio de sexismo, do racismo e do nacionalismo é por que temiam instintivamente a competição das mulheres, dos homens de outras raças e dos povos de outras nações. É pelo mesmo motivo que recusam-se a trocar o seu Hummer, que epitomiza tão adequadamente a sua masculinidade, por uma scooter ou um carro mais econômico. E, porque não querem ver a sua própria masculinidade de alguma forma colocada em cheque, lutam por um mundo em que não precisem testemunhar o beijo apaixonado de dois barbados ou (talvez pior) de duas mulheres. As ordens da criação acenam com um mundo seguro, em que todas as coisas tem o seu lugar, e é apavorante imaginar que possa ser diferente.

Enquanto isso o Filho do Homem, que morreu virilmente na cruz e procura nos atrair incessantemente para a mesma posição, divulga sem pausa o escândalo e a boa nova de que não há absolutamente o que temer.

NOTAS
  1. Gênesis 9:22-25 []
  2. De forma semelhante, Lutero sentia-se à vontade para imprecar contra os judeus e Hitler para exterminá-los, afirmando-se cristãos os dois []
  3. Os Estados Unidos, um tanto paradoxalmente, abraçam crenças semelhantes através do conceito de Destino Manifesto []
11 de Junho de 2008

Com as mulheres

Homens e Mulheres

– Está vendo essa mulher? Eu entrei na sua casa e você não me ofereceu água para lavar os pés. Ela, no entanto, lavou meus pés com lágrimas, e enxugou-os com os seus cabelos. Você não me cumprimentou com um beijo, mas ela, desde que entrou, não parou de beijar-me os pés. Você não me derramou óleo sobre a cabeça, mas ela passou essência perfumada nos meus pés.
Lucas 7:44-46

A distância cultural nos impedirá para sempre de apreender a extensão da sua influência e a absoluta novidade da sua postura, mas é certo que nenhuma outra figura masculina da Antiguidade ocidental – seja no domínio da realidade ou da ficção – sentiu-se mais à vontade entre as mulheres do que o Jesus dos evangelhos. Nenhum outro personagem do seu tempo, e talvez de tempo algum, fez mais para corrigir a distorção das lentes culturais através das quais a imagem da mulher era interpretada – e em muitos sentidos permanece sendo.

A singularidade de Jesus nesse aspecto não é menos do que tremenda. Acho notável ao ponto do milagroso que as posturas de Jesus diante das mulheres, conforme descritas nos evangelhos, não tenham sido censuradas posteriormente por homens menos preparados do que ele para abraçá-las.

É preciso lembrar o óbvio, que não faz cem anos que as mulheres alcançaram status social igualitário no ocidente, e que os evangelhos descrevem o que ocorreu há dois mil.

Numa época em que um marido não deveria dirigir-se à própria esposa em lugar público e homem algum deveria trocar palavra com uma mulher desconhecida (em ambos os casos para proteger a sua honra, não a dela), o rabi de Nazaré buscava a companhia amistosa de mulheres, puxava conversava com elas, tratava-as com admiração e naturalidade, interessava-se sem demagogia pelos seus interesses, deixava que tocassem publicamente o seu corpo e o seu coração.

O Filho do Homem não se constrangia em ser sustentado por mulheres, não virava o rosto à possibilidade de ser acarinhado por elas, não hesitava em recorrer a imagens que diziam respeito ao seu dia-a-dia, não sonegava histórias em que mulheres eram (muito subversivamente, na ótica do seu tempo) exemplo de humanidade, de integridade, de engenhosidade e de virtude.

Falamos de um tempo, num certo sentido não muito distante, em que os homens que não denegriam abertamente a imagem da mulher soterravam-na por completo debaixo de idealizações simplistas. Dependendo de quem estava falando, a mulher era vista como incômodo necessário, como homem imperfeito, como criança, como objeto mecânico de desejo, como objeto idealizado de poesia, como animal fraco e sensual; figura às vezes inocente, às vezes desejável, normalmente imprevisível, normalmente indigna de confiança, invariavelmente inferior.

Contra esse cenário, o rabi de Nazaré resgatou uma mulher adúltera das garras da justiça e da morte sem recorrer ao que seria o mais fácil e popular dos argumentos antes e depois dele, o que afirma que a mulher é criatura de mente obtusa e vontade fraca, particularmente suscetível às sensualidades da carne. Num único golpe eficaz ele transferiu a culpa da mulher acuada para os seus acusadores, todos eles homens e emblemas de poder e desenvoltura, até serem publicamente dissolvidos pela mão de Jesus. A vítima, a transgressora, foi ao mesmo tempo salva da condenação e tratada, talvez pela primeira vez, como ser humano independente e responsável (João 8:1-11).

Aqui estava um homem que, irresistivelmente, olhava para as mulheres sem rebaixar-se a preconceitos ou recorrer a idealizações. Jesus lia as mulheres como seres humanos, e foram necessários séculos para que o mundo arriscasse repetir a sua ousadia. Ainda hoje, transcorridos milênios ineficazes, não há homem que esteja imune a ler a mulher através de estereótipos novos e velhos; ainda somos tentados a enxergar o homem incompleto, a flor de pureza, a criança sem rédea. Mas ali, nas esquinas empoeiradas de um canto do mundo, as estruturas do mundo social haviam sido abaladas para sempre.

Para mim não há evidência maior de que o espírito subversivo de Jesus permaneceu vivo nos primeiros discípulos, logo após a ressurreição, do que a descrição da comunidade de seguidores em Atos 1:14: “Todos estes [homens] perseveravam unanimemente em oração, com as mulheres, e Maria, mãe de Jesus, e com os irmãos dele”.

Este com as mulheres me pega desprevenido todas as vezes, tanto pela sua necessidade quanto pelo impensável que representava no seu tempo. Em retrospecto é difícil avaliar o quanto está sendo efetivamente dito aqui, mas é preciso lembrar constantemente que naquela cultura as esferas de atividade de homens e mulheres eram divididas ao ponto do incompatível. Essa fenda corria de uma ponta à outra o tecido da sociedade, mas seu ponto nevrálgico talvez residisse na esfera religiosa, na qual era preciso ser homem para ter participação eficaz – isto é, para ter acesso verdadeiro e relevante à divindade.

Na visão de mundo vigente homens e mulheres habitavam espaços separados no universo; essa incompatibilidade era espelhada na sociedade e prontamente celebrada através de espaços diferenciados de adoração. Tanto o Templo quanto as sinagogas tinham áreas separadas para homens e mulheres, e os recintos reservados para os homens ficavam invariavelmente mais próximos de Deus. Era uma sociedade em que não ocorreria a ninguém colocar homens e mulheres compartilhando voluntariamente de um mesmo espaço, muito menos um espaço religioso.

Agora que Jesus havia subido ao céu e os homens de branco haviam dito que mantivessem os olhos fixos na terra, os discípulos viram-se diante de um problema e de um embaraço. Jesus, o amigo das mulheres, havia partido, mas as mulheres haviam ficado. Deveriam eles, homens de respeito e maridos de boa fama, retornar ao antigo e unânime padrão social, devolvendo as mulheres ao seu devido lugar? Agora que Jesus não estava mais ali para efetuar a sua mágica, não seria inevitável que restabelecessem a fenda social que ele havia coberto temporariamente? Quando a multidão de seguidores retornasse a Jerusalém (onde Jesus dissera que aguardassem) deveriam o grupo de discípulos e o de discípulas “perseverar unanimemente” em recintos separados?

Escolher o contrário, escolher o abraço comunitário e a convivência santa nos padrões inaugurados por Jesus, seria nadar contra a corrente de todas as instituições sociais em efeito no seu tempo. Um observador só encontraria um modo razoável de interpretar uma reunião voluntária e regular entre homens e mulheres: como ocasião para licenciosidade. Foi efetivamente dessa maneira que as reuniões cristãs “de amor” foram interpretadas por seus antagonistas ao longo de seus primeiros séculos. Tinham que ser desculpas para sexo – porque, que mais poderia um homem querer fazer com uma mulher?

A momentosa decisão encapsulada nesse único verso demorou a encontrar compreensão e aceitação, tanto dentro quanto fora do grupo. Escolhendo reunir-se regularmente no mesmo recinto, tanto homens quanto mulheres abriram voluntariamente mão da ficção da “boa fama” em troca da generosidade, da inclusão e da convivência. Escolhendo sentar-se de modo criativo ao lado de um Outro com quem não criam ter nada em comum, romperam um véu ancestral e convidaram o mundo a explorar um universo de possibilidades inimaginadas. Nos dois casos, seguiam o desafio formidável deixado pelo exemplo de Jesus.

07 de Maio de 2008

Meramente viviam

Fé e Crença, Homens e Mulheres

Eu adoraria encontrar registros da existência de teólogas influentes na igreja primitiva, na era medieval e na Reforma. Porém, embora as mulheres estivessem certamente presentes e tenham sido fundamentais na vida espiritual do Cristianismo ao longo de toda a sua história, até recentemente nenhuma delas foi capaz de influenciar consideravelmente o curso e a direção da teologia da igreja.

Para alguns a escassez de “mães da igreja” é evidência de preconceito por parte dos teólogos de sexo masculino, ou do caráter irremediavelmente patriarcal do próprio cristianismo. Creio que essa escassez é evidência da natureza patriarcal da cultura ocidental como um todo (da qual o cristinismo é parte integral) e da acomodação cultural por parte da igreja e de suas instituições. Deveriam ter existido mães da igreja paralelamente aos pais da igreja. O fato de que não tenham existido é um escândalo para a igreja, mas não justifica as histórias revisionistas que as inventam.

Este é Roger E. Olson na introdução de seu The Story of Christian Theology, de resto um livro valiosíssimo, embora não pelos motivos que supõe o seu autor.

Neste trecho Olson está se esforçando para, sem ofender ninguém, corrigir uma falácia: a idéia revisionista de que na história do cristianismo existiram mulheres que se ocuparam de teologia, pensadoras cuja voz foi silenciada por uma ardilosa conspiração de teólogos do sexo masculino. Olson está certo em dizer que historicamente as mulheres não se ocuparam de teologia, mas para corrigir essa falácia ele reforça outra ainda maior e muitas vezes mais popular, a noção de que a teologia é o modo relevante, o modo último e ótimo de se exercer o cristianismo. Ele está efetivamente dizendo: “é uma pena que não tenham havido mulheres teólogas, porque o pensamento teológico é a esfera na qual o cristianismo verdadeiro se desenrola”.

Falando assim, Olson está destilando eficazmente dois mil anos de pensamento masculino: para os homens, fazer cristianismo é fazer teologia.

Para os homens, fazer cristianismo é fazer teologia.

Não importa o que pensem Olson ou os revisionistas que ele procura refutar: o fato é que não foi por mera falta de oportunidade que as mulheres não se ocuparam de teologia. Num sentido muito essencial, o que as manteve longe das especulações teológicas foi a consciência profunda de que tinham (como mulheres e como cristãs) coisa mais importante para fazer.

A teologia é um exercício intelectual, uma manobra de idéias, um jogo expansionista cujo objetivo é anular a posição do antagonista. A proposta da teologia não é apenas fixar, tabular e estabelecer limites para a imponderável verdade espiritual; seu objetivo declarado é vencer, derrubar, eliminar a oposição pela manobra rasteira do convencimento. Essa sua qualidade de “jogo de quem é mais forte” (ou, no caso, “quem está mais certo”) mantem-na, irremediavelmente, no terreno dos interesses masculinos.

Não é caminho que as mulheres tenham prazer em trilhar. O jogo masculino, qualquer que seja, não as interessa.

Além disso é preciso reconhecer que escrever teologia é tradicionalmente a atividade de homens que não estão fazendo sexo (naturalmente há outros homens, além de teólogos, que não estão fazendo sexo, mas esses estão amortizando essa carência compondo poemas candentes, escrevendo romances vigorosos ou buscando uma solução ainda mais eficaz para remediar a sua situação). Historicamente, portanto – e disso dão evidência tanto as linhas quanto as entrelinhas – a teologia foi escrita por homens obcecados por sexo, e pelos motivos errados. A teologia é o esforço masculino de demonstrar que a verdadeira espiritualidade implica em afastamento do mundo real; daí a abstinência, daí a assepsia das idéias, daí o caráter infantilmente selado das discussões, das quais só podem efetivamente participar os iniciados na adequada gnose.

Escrever teologia é tradicionalmente a atividade de homens que não estão fazendo sexo.

Falando claramente, as mulheres não têm esse problema sexual. Não acham necessário constrastar a vida cristã com o que quer que seja, muito menos com algo tão desejável e natural quanto o sexo ou os demais embaraços e delícias da realidade física. Nesse sentido as mulheres rendem-se imediatamente aos charmes de Jesus de Nazaré, o curador e contador de histórias, que por um lado recusava-se a rebaixar-se à especulação teológica, por outro abraçava o mundo dos sentidos com mais avidez e candura do que o mundo das idéias.

Intuitivamente, portanto, as mulheres sabem que a espiritualidade não é coisa a ser cultivada na cabeça, mas no coração; não é atividade que se desenrole no palco das idéias, mas nos bastidores das atitudes. Ao longo da história, enquanto os homens se ocupavam de teologia, as mulheres cristãs viviam (e, como homem, minha tentação é escrever “meramente viviam”, como se viver fosse coisa de somenos).

Elas apostaram consistentemente na idéia de que, se havia algo de relevante na herança de Jesus, isso se manifestava em pés empoeirados, em abraços, em unhas sujas, em panelas de comida, em manchas difíceis de sair, em cafunés, em consolos, em longas conversas na madrugada, na cabeceira dos doentes, na limpeza das secreções, em lágrimas, na confecção de presentes, na sustentação de relacionamentos, na cura de doentes, nas visitas aos esquecidos, no repartir do pão, no sorriso dividido, no dilema de consciência, na intimidade da cama, na companhia silenciosa, na ausência impensável.

Em primeiro de abril de 1933, aos 91 anos de idade, Julie Bonhoeffer (avó do teólogo Dietrich) atravessou desafiadoramente o cordão de isolamento que os soldados das tropas de assalto nazistas haviam estendido no centro de Berlim para promover o boicote aos estabelecimentos judeus. Caminhando além da linha divisória e dos soldados perplexos, Julie foi fazer suas compras na Kaufhaus des Westens, a loja de proprietários judeus que costumava freqüentar.

Se resta na terra evidência que honre a herança de Jesus, isso não se deve aos meandros da teologia; não se deve, em grande parte, a homens.

22 de Setembro de 2007

Toda a pornografia da Terra

Homens e Mulheres

Tive outro dia uma incontinente revelação: toda a pornografia da terra é feita para ser consumida por homens. Não fossem os homens, não haveria como manter lucrativo esse negócio. Dizem-me que há mulheres interessadas no assunto, mas essas permanecem, por alguma incompreensível diferença de constituição, exceção e curiosidade.

A pornografia existe, essencialmente, para os homens (e os homens, naturalmente, para a pornografia). Somos o público-alvo. Essa revelação pareceu-me especialmente notável quando se considera que a fidelidade dessa audiência independe, em grande parte, do conteúdo do material pornográfico em si. Quer mostre homens com mulheres, homens com homens ou mulheres com mulheres, do lado de cá serão basicamente homens assistindo.

Se isso não diz algo sobre nós, não sei o que pode dizer.