Manuscritos estocados sob a rubrica 'Homens e Mulheres'
01 de Outubro de 2011
Pode ser no entanto o momento de lembrar a única regra que, diz-se, Mae West usava e recomendava para lidar com os homens: “Diga aos bonitos que são inteligentes, diga aos inteligentes que são bonitos”.
Ignoro, naturalmente, o que ela teria a dizer a mim.
Paulo Brabo, em comentário
a uma discussão gerada por este documento
Da série: Do tempo em que a Bacia era aberta a comentários
30 de Setembro de 2011
Se houvesse sobre a terra uma fé tão grande quanto é a recompensa de fé aguardada no céu, nenhuma de vocês, amadas irmãs, desde o momento em que conheceram o Senhor e aprenderam [a verdade] sobre sua própria condição [isto é, a condição feminina], teria desejo por um estilo de vestimenta vistoso demais (para não dizer vaidoso demais).
Usariam, ao contrário, vestes humildes, de modo a transmitir uma aparência miserável, andando pelo mundo como Eva arrependida e de luto, a fim de através de toda veste de penitência expiar de modo mais completo aquilo que [cada uma de vocês] deriva de Eva:Você persuadiu aquele que o diabo não foi corajoso o bastante para atacar. a vergonha, quero dizer, do primeiro pecado, e a infâmia da perdição humana.
“Multiplicarei grandemente a dor da tua concepção e em dor darás à luz filhos; o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará.”
E vocês não sabem que são, cada uma de vocês, uma Eva? A sentença de Deus sobre o sexo de vocês persiste nesta era; necessariamente, a culpa persiste também.
Você, mulher, é o portão de entrada do inferno; é a descerradora da árvore [proibida]; é a primeira desertora da lei divina. Você persuadiu aquele que o diabo não foi corajoso o bastante para atacar. Você destruiu, e de modo tão frívolo, a imagem de Deus, que é o homem. Como consequência da sua deserção – isto é, a morte, – até mesmo o Filho de Deus teve de morrer.
E você pensa ainda em adornar-se acima e além de sua túnica de pele? Ora, imagino que se no princípio do mundo os milesianos já criassem ovelhas, os serianos já fiassem árvores, os tirianos já tingissem, os frígios já bordassem com a agulha e os babilônios com o tear; se pérolas já cintilassem, se pedras de ônix já reluzissem e se o ouro já tivesse brotado do solo; se o espelho já tivesse se tornado coisa tão comum, então Eva, mesmo depois de expulsa do paraíso, mesmo depois de morta, teria também cobiçado todas essas coisas.
Não mais, portanto, a mulher deve agora desejar ou conhecer, se é que deseja voltar a viver, aquilo que quando viva não possuía nem conhecia. Todas essas coisas são a bagagem da mulher em seu estado de condenação e morte, instituídas como que para acentuar a pompa de seu funeral.
Tertuliano (160-220 d.C.), pai da igreja,
em Sobre a indumentária feminina

Leia também:
Appoio moral (Tertuliano estava vivo e com saúde em 1926 – e em Pernambuco)
Sexo entre pares
19 de Setembro de 2011
Embora queiramos por vezes encontrá-lo ou enxertá-lo em épocas a que não pertence, o homem romântico é invenção relativamente recente e demorou séculos para ser aprimorado, tendo se fixado na forma como o conhecemos hoje a coisa de duzentos anos. Talvez seu primeiro inventor tenha sido de fato o apóstolo Paulo, quando sonhou há dois mil anos um homem que, embora permanecesse sendo cabeça da esposa (isto é, sem ter sua masculinidade ou sua primazia ameaçadas), teria sua relação com sua mulher caracterizada por amá-la ao ponto de entregar-se por ela. Nesse “entregar-se”, como foi se desdobrando culturalmente através dos milênios, está encapsulado todo o ideal romântico.
A manifestação mais antiga na cultura cristã da corrente que desembocaria no homem romântico parece ter sido a veneração de Maria, devoção que já era uma realidade potentíssima no quarto século da cristandade. Com o avançar dos séculos essa devoção idealizada ao feminino na pessoa da mãe de Deus foi transfigurada e glorificada na figura dos cavaleiros (sempre cristãos), os legítimos proto-românticos e campeões da ideologia do amor cortês – com sua ênfase na bravura, na gentileza e na proteção da mulher.
Isso não quer dizer que os ideais do amor cortês fossem universalmente colocados em prática, ou que o mundo estivesse se tornando imediatamente mais seguro ou mais justo para as mulheres. No período medieval e no início da era Moderna a mulher era idealizada por um lado, como ícone de pureza em Maria, e demonizada por outro, como emblema de perfídia nas feiticeiras. A mulher genérica e pura (a Virgem Maria) era venerada; a mulher do dia a dia, específica e impura, era com frequência vilipendiada, segregada e usada como bode expiatório.
Porém a figura do homem romântico atravessou as chamas indignas da Inquisição e sobreviveu ao apagar da cultura dos cavaleiros. Com o avançar da era moderna a demonização da mulher foi cedendo espaço à noção de que não há objetivo mais nobre para um homem do que amar e dedicar-se à sua mulher – mesmo que fosse ainda uma mulher idealizada, símbolo admirável de pureza mas sempre carecendo de proteção e de condução. A imagem da mulher, que parecia destinada a residir em extremos, deixou de ser a de um demônio e passou a ser a de uma flor.
Ao longo do século XIX o homem romântico e sua consorte, a mulher apaixonada, conquistaram lastro cultural suficiente para produzir uma imensa guinada na visão ocidental do casamento. Foi mais ou menos nessa época que a massa da sociedade decidiu que havia algo de intrinsecamente inaceitável nos casamentos arranjados. Os poetas criticavam a ideia fazia séculos, mas foram necessários esses séculos de transição para a sociedade aprender a sentenciar que o casamento “por amor” devia ser considerado norma cabível e ideal para todos, em todas as camadas sociais. O romantismo ganhara o coração popular. Como tudo na relação do casal deveria ser guiado pelo amor, e sendo que a voz da mulher era agora ouvida com cada vez maior seriedade (nesse período as mulheres lutaram e ganharam o direito a voto, e continuaram a lutar por direitos iguais em outras frentes), o casamento socialmente sancionado passou a ser aquele realizado por consentimento mútuo.
E em meados do século XX, precisamente no momento em que seu ideal havia conquistado uma indisputada supremacia no imaginário ocidental (e isso em grande parte graças à pregação de Hollywood), o homem romântico deixou de ser necessário, tendo sido tornado obsoleto pela revolução que veio a seguir. Pois nas décadas de 1960 e 1970 um novo paradigma passou a injetar-se implacavelmente nas veias da cultura e da sociedade, inaugurando a partir do selo “paz e amor” o que viria a se tornar a era das relações igualitárias.
Sexo entre pares
Nesse mundo novo a mulher encontrava (pelo menos em teoria) a plena paridade com o homem, passando a ser vista como agente tão livre quanto ele e detentora dos mesmos direitos. Essa igualdade passou imediatamente a refletir-se e a ser universalmente celebrada em todas as áreas: no modo como as mulheres se vestiam, no modo como ocupavam o espaço de trabalho, no modo como exerciam sua iniciativa e sua sexualidade dentro do casamento e fora dele. A mulher deixava de ser uma flor infantilizada e frágil que exigia condescendência e proteção paternalista, e passava a ser uma pessoa que merecia dos direitos de pessoa. A própria lei passou a ajustar-se de modo a incorporar essas novas concepções.
Os anos que gestaram essa nova mentalidade são às vezes chamados de Revolução Sexual, ou pelo menos costuma-se considerar que as duas coisas nasceram juntas. Essa porém foi uma revolução sexual no sentido de revolução na dinâmica entre os sexos muito antes e muito mais do que uma revolução de sexo livre. Não foi o sexo descompromissado e sem barreiras que ensinou ao homem a noção da igualdade entre os sexos, mas o contrário: a noção da igualdade estrita entre os sexos é que patrocinou o relaxamento mais ou menos universal dos escrúpulos sexuais que vigoravam anteriormente.
Durante séculos as legislações sexuais haviam existido primariamente para delimitar, conter e normatizar o uso do sexo como ritual de dominação. Num mundo de iguais, foram tomadas imediatamente por obsoletas.
Dito de outro modo, as correntes socioculturais que impulsionaram os anos 60 e 70 mudaram para sempre o modo como as pessoas enxergam a dinâmica do sexo e da sexualidade. Pela primeira vez na história o sexo deixou de ser visto como ilustração de uma relação de dominação, e passou a ser tido como testemunho inequívoco (e por vezes socialmente esperado) de uma postura de paridade e interesse mútuo. Ainda estamos aprendendo a ponderar o peso dessa reviravolta.
Aqueles anos inauguraram a postura geral que herdamos hoje: a de que o sexo mais casual é legítimo, desde que não seja ato constrangedor (isto é, não represente uma relação de dominação) para qualquer um dos participantes. Na verdade, o sexo forçado é praticamente a única expressão sexual que consideramos unanimemente ilegítima, e isso porque a presente cultura não admite (como permitia-se e até se incentivava antes) que o sexo tenha qualquer conotação de relação de poder. Da mesma forma e com a mesma intenção com que se decidira que igreja e estado devem viver em esferas independentes, promulgamos como necessária e irrevogável a separação entre poder e sexo.
No tempo do homem romântico era considerado inconcebível o casamento sem amor, mas as disparidades internas de poder na relação eram toleradas e às vezes desejadas. No nosso tempo é concebível sexo sem amor, mas em hipótese alguma o sexo sem respeito, o sexo sem correspondência – mesmo que seja a mais tênue e temporária das correspondências. O efeito mais duradouro e mais prenhe de consequências da revolução sexual foi esse: o de despir para sempre a relação sexual de seu estigma de ilustração de desigualdade. Para nós, quer sejamos libertinos ou conservadores, o sexo é agora (ou deve ser) invariavelmente o testemunho oposto: o de paridade e de interesse mútuo.
Num mundo de mudança acelerada como o nosso pode ser fácil esquecer o quanto é recente essa mudança de paradigma em relação aos sexos e ao sexo; num mundo que tem tão rapidamente se adequado a ela, pode ser fácil esquecer o quanto essa mudança é radical em vista do que prevaleceu por milênios antes dela.
O ser humano comum acompanha essas reviravoltas com parcelas iguais de interesse e de deleite, considerando-as em grande parte justas e naturais, e procurando a seu modo a ajustar-se aos ritmos e necessidades gerados pela nova mentalidade. O sistema anterior, que pressupunha um desequilíbrio perpétuo dos pratos da balança, é que lhe parece agora inaceitável e incompreensível. Porém para aqueles de nós obcecados com questões de sexo e de moral sexual – leia-se: para os cristãos religiosos – a nova mentalidade parece representar a mais satânica das ofensas. Em especial, interpreta-se que a nova ordem constitua uma ameaça formidável às instituições gêmeas que crê-se representar o que há de mais duradouro e sacrossanto na tradição cristã e no projeto divino: o casamento e a família.
A grande controvérsia, no que diz respeito aos católicos, está centrada nas questões do celibato e da contracepção. Para evangélicos e protestantes, que endossam na prática (quando não na teoria) a legitimidade do sexo não-reprodutivo dentro do casamento, a era das relações igualitárias (e a postura vigente a respeito do sexo) representa uma ameaça em outras duas frentes: na aprovação tácita de sexo descompromissado e nos crescentes desafios à heteronormatividade.
Enquanto a nova mentalidade toma por legítima qualquer relação sexual que não ilustre uma relação de poder, a tradição cristã e a leitura tradicional do Novo Testamento não encontram brecha para qualquer relação sexual lícita fora do casamento (como vimos, uma corrente influente da tradição cristã não vê o sexo como legítimo mesmo dentro do casamento.). Partindo dessa disposição, interpretamos o presente relaxamento da sociedade com relação ao sexo como sendo sinal inequívoco da universal apostasia, a gargalhada final da Grande Prostituta.
A primeira grande curiosidade a respeito disso é que a ascensão das relações igualitárias pode ser vista como a vitória histórica e final de princípios de igualdade que são originalmente cristãos – e essa é uma ironia que deve ser devidamente saboreada. Pense o que quiser, a atmosfera cultural que respiramos é a materialização na vida real de um sonho que quando foi proferido representava um contrassenso e um desvario: o mundo, profetizado por Paulo, onde não há nem escravo nem livre, nem grego nem judeu, nem homem nem mulher. Numa palavra, um mundo de relações igualitárias. O mais idealista dos cristãos de dois mil anos de tradição cristã não ousaria sonhar uma realidade terrena em que essa imprevidência se concretizasse ou conquistasse verdadeiro espaço no imaginário coletivo, e é isso o que (aos trancos e barrancos, e acompanhado da devida torrente de contradições pertinentes à condição humana) tem acontecido. No mínimo, é este o mundo com o qual aprendemos a sonhar.
A segunda curiosidade é que a nova mentalidade representa a seu modo uma apropriação secular da noção cristã da supremacia do amor.
Estamos prontos a ficar chocados quando a sociedade tolera o sexo sem compromisso, mas nisso nos recusamos a enxergar o outro lado da moeda – que na nova norma a sociedade deixou de tolerar o que a igreja tolerou por séculos: sexo sem correspondência e sem mutualidade. Os mais promíscuos dentre nós intuem hoje, de modo natural, o que o Novo Testamento propunha subversivamente há dois mil anos: que só a igualdade, a plena horizontalidade, é plataforma sobre a qual se constrói legitimamente o amor. Esses caras galinhas que você condena podem não estar prontos para amar, mas saberão testemunhar que, se for para nascer, o verdadeiro amor nascerá a partir da mutualidade: “você é aceitável para mim e não me coloco acima de você”.
A seu modo, a nova mentalidade representa uma nova e improvável profissão social de fé, a de que igualdade e mutualidade devem preceder o amor. Não foi o sexo antes do casamento que a sociedade decidiu ser uma necessidade; foi a mutualidade como base de qualquer relação.
O Novo Testamento, que tem tão pouco a legislar sobre sexo e tanto a sonhar sobre fraternidade, promulga por todos os poros a importância da mutualidade. É na verdade muito provável que tenha sido a partir da herança de Jesus e dos desafios da graça que nossa cultura tenha esboçado seu projeto de imparcialidade universal.
A própria encarnação, isto é, a descida divina ao nível do ser humano de modo a poder olhá-lo nos olhos, não é mera demonstração de amor; é um hino à graça e portanto à paridade. Nem mesmo Deus ousou dizer que amava este mundo antes de estar aqui ralando conosco – e explicando ainda que todos aqui devem tratar-se com a mais escandalosa e estrita paridade. A encarnação é desse modo a manifestação mais formidável de um conceito evangélico que é reforçado de uma ponta a outra do Novo Testamento, o de que o amor legítimo é todo-inclusivo e portanto todo-horizontal: ao próximo como a si mesmo.
Não é justo, portanto, dizer simplesmente que a nova moralidade se satisfaz com a solução rasa do sexo sem amor; mais justo seria dizer que a nova mentalidade recusa-se a considerar possível ou desejável o amor que não parta de um princípio de paridade e de interesse mútuo. O sexo, que deixou de ser visto como ritual de dominação e passou a ser encarado como celebração de paridade, encontrou essa brecha para dobrar-se à supremacia do amor.
Aqui reside o contrassenso do ressentimento evangélico contra a noção do sexo “consensual”, a ideia socialmente aceita de que deve ser considerada em princípio legítima toda relação sexual, mesmo a mais distraída, que [1] for decidida e executada de comum acordo pelos participantes, [2] demonstrando desse modo não ser ilustração de uma relação de dominação.
Para os evangélicos o sexo consensual é testemunho do quanto a sociedade está perto de sancionar a mais completa promiscuidade; para a sociedade, ele é testemunho do quanto estamos levando a sério nossos esforços de separar sexo de poder.
O próprio casamento, se persiste no ocidente (e isso quer dentro quer fora da subcultura cristã), é inteiramente transfigurado: suas relações internas são na verdade o oposto do que era tido como norma anteriormente. O casamento é agora visto como uma relação entre agentes independentes, equivalentes e com direitos estritamente iguais. Tanto é assim que qualquer desequilíbrio nessa dinâmica interna pode ser tomado como motivo para invalidá-lo social ou juridicamente.
O paradoxo está em que a igreja, defensora autorizada da família, do casamento e do amor, tolerou por quase dois milênios o casamento (e portanto o sexo) não-consensual. Hoje em dia, devidamente instruído pela sociedade sobre o mérito evidente da consensualidade, não há cristão que discorde que o compromisso do casamento deve ser decidido livremente pelos cônjuges e somente por eles. Porém sexo consensual quer dizer sexo igualitário, e isso os cristãos absolutamente não conseguem consentir. A igreja mostra-se disposta a ser corrigida pela cultura apenas naquilo que não ameace as suas posições oficiais (e portanto o alcance de seu próprio poder sobre a sociedade), e nisso demonstra ser ainda mais culturalmente condicionada do que a sociedade que condena.
Hoje a grande parte dos evangélicos saberá reconhecer que Paulo mantinha-se culturalmente condicionado quando aprovava tacitamente a escravatura (“vocês, escravos, obedeçam em tudo aos seus mestres”) e quando sancionava a noção vigente do status inferior da mulher (“que as mulheres se calem nas assembleias e se mantenham em submissão, como afirma a própria Lei”, e “não permito à mulher ensinar e governar o homem”), mas uma parcela muito menor admitirá que ele estava culturalmente condicionado quando condenava a homossexualidade.
Porém, do mesmo modo que não tinha como vislumbrar uma sociedade sem escravos e uma sociedade que decidisse pela estrita igualdade da mulher, Paulo não tinha como antever a noção contemporânea de relação homossexual igualitária.
Como vimos, Paulo não conseguia conceber sexo que não fosse um exercício de defraudação, o emblema claro de uma relação de dominação, e portanto inerentemente vergonhoso para uma das partes. Ele achava que isso era particularmente verdadeiro no que diz respeito às relações homossexuais, e tinha muitos motivos culturais para pensar assim. A relação carnal entre homens adultos e meninos na antiga Grécia, por exemplo, tinha seu caráter legitimado justamente pela desigualdade de idade e de papéis entre os seus participantes. Quando o menino atingia a puberdade e o sexo passava a ser “entre iguais”, a relação era encerrada (ou perdia a aprovação social) porque cria-se que ela perdia o caráter didático (isto é, de dominação e submissão) e portanto a legitimidade.
Devidamente doutrinada pelas ideias subversivas do amor e da mutualidade, propostas pelo Novo Testamento e não inteiramente abafadas pela igreja, a sociedade defende hoje em dia a postura oposta. A relação homossexual contemporânea é tida como legítima precisamente porque é igualitária, isto é, porque não ilustra ou perpetua uma relação de dominação e poder. Como está fundada na mutualidade, passamos a crer que não é inconcebível que acabe sendo atingida pelo amor.
A questão, portanto, não está em determinar se durante dois milênios de tradição cristã a conduta homossexual foi considerada lícita ou não; a questão está em reconhecer que foram os ideais cristãos do amor e da mutualidade que criaram um mundo em que só o amor entre iguais pudesse ser considerado legítimo.

NOTAS
12 de Setembro de 2011
No Novo Testamento a lógica do sexo como ritual de dominação é menos explícita, mas permanece sendo importante substrato (uma daquelas realidades sociais tão unânimes que permanecem ocultas, subindo poucas vezes à superfície da consciência ou do discurso) todas as vezes que o assunto é mencionado ou aludido. A questão é na verdade de importância fundamental para os autores do Novo Testamento, porque a mensagem de Jesus e sua boa nova são interpretadas por todos eles como representando um chamado universal ao abandono dos mecanismos de controle e manipulação que compõem o sistema deste mundo.
Muito acuradamente, portanto, os autores do Novo Testamento entenderam que a implantação do reino de Deus, conforme apregoado pelo filho do carpinteiro, representava uma ameaça a todos os sistemas de controle, porque requeria essencialmente um mundo de pares e irmãos, uma fraternidade de “próximos” – um mundo que renunciasse a todas as formas de dominação. Isso eles viram claramente na pessoa do Jesus dos evangelhos, e cada um à sua maneira e com sua própria ênfase buscou uma forma de articular e de perseguir esse projeto. Ninguém sabia (ninguém ainda sabe) como seria um mundo livre de sistemas de manipulação, mas nas décadas febris que se seguiram à despedida do crucificado seus seguidores não sonharam e não batalharam por outra coisa. A única coisa que sabiam ao certo é esse novo mundo seria encontrado, colonizado e definido pelo amor – o amor como haviam-no delineado a vida e as palavras do rabi de Nazaré, o amor com o qual ele os deixara absolutamente inflamados.
E nada permanece o mesmo depois de ser tocado pelo amor. A revolução do reino teria que virar o mundo do avesso, sem poupar qualquer área da cultura e do comportamento; incluiria por certo a esfera da sexualidade. E as indicações dadas por Jesus com relação ao assunto eram tão exigentes, sua descrição e aplicação do amor tão subversivas, que só restava em todos uma espécie de perplexidade.
Havia, por exemplo, a postura de Jesus com relação à sua própria sexualidade.
Se Jesus não foi casado (e temos pouca razão para crer que tenha sido), sua subversão começava por aqui. Numa sociedade como a sua, permanecer solteiro era uma insubordinação raríssima e sempre voluntária, e também por isso profundamente constrangedora. No judaísmo o celibato não era (e não é) exigido de sacerdotes, de santos ou de profetas; ao contrário, esperava-se de todos os judeus que se casassem, mas especialmente dos grandes e admiráveis. Para um homem, casar era uma demonstração basilar de masculinidade e portanto de valor; alguém que se dispusesse seriamente a candidatar-se ao cargo de rei e messias não se arriscaria a deixar de cumprir esse mais fundamental dos requisitos.
Mantendo-se solteiro, Jesus recusou-se a endossar todo esse modo de ver as coisas. Como parte de seu projeto de demolir as formas estabelecidas de dominação, ele voluntariamente negou-se a assumir (e portando aprovar) o modelo do grande macho dominante. O valor de um homem, conforme indicado pela sua postura, deixava de estar fixado na universalmente aprovada posição de provedor e de reprodutor. O rabi de Nazaré, pelo que sabemos, não se reproduziu das formas usuais, e suas necessidades eram elas mesmas providas por mulheres.
E esse último pode não ter sido o componente mais socialmente escandaloso da maneira como Jesus se relacionava com as mulheres. Provavelmente nenhum outro personagem da antiguidade, na história ou na ficção, sentiu-se tão à vontade entre elas. Naquela sociedade um homem não conversava com mulheres em público, um rabi não permitia que se juntassem ao seu grupo, um homem santo não deixava que elas o tocassem. Jesus fazia indiscriminadamente esse tipo de coisas, tratando mulheres como se fossem gente milênios antes que a ideia ganhasse qualquer popularidade – e se alguém chegou a lhe dizer que isso colocava em dúvida a sua autoridade ou sua masculinidade, só pode ter levado um formidável chega-pra-lá.
Outra área em que Jesus trabalhou de modo a minar a ideologia da supremacia do macho foi na questão do divórcio. Não sabemos como funcionavam exatamente as coisas no tempo dele, mas há indicações de que um homem podia pedir o divórcio – deixando a mulher desamparada pelo menos temporariamente e marginalizada para sempre – pelo mais banal dos motivos, e que a mulher não tinha como pedir o divórcio mesmo para proteger-se de um relacionamento tóxico ou abusivo. Como se sabe, Jesus insistiu que as coisas não eram tão simples assim, tomando o “serão um só corpo” do Gênesis como representando um compromisso de – pasme-se – amor, amor que deveria ser colocado em prática de modo a proteger o relacionamento e seus benefícios para ambas as partes, não só uma delas.
Ao proteger a mulher apanhada em adultério de seus algozes masculinos, Jesus chegou a relativizar a própria letra da Lei, argumentando basicamente que a universalidade do pecado deveria produzir não uma demanda universal por uma justiça estrita que ninguém é capaz de honrar, mas uma postura universal de misericórdia – lição que aprendemos a esquecer tão logo foi pronunciada.
Numa palavra, Jesus promulgou a supremacia do amor: apenas o amor deve e pode ser usado como bússola em todos os relacionamentos interpessoais. Todas as formas de dominação devem cair por terra diante desse regime de graça e aceitação, porque “o maior passa a ser quem serve”, e “não há maior amor do que dar a vida pelos amigos”. Num mundo onde todos são irmãos, toda generosidade é gratuita; a boa vontade não precisa ser extorquida pelos métodos usuais de dominação e temor, desejo e recompensa.
O amor mudava tudo, e foi desse modo que os discípulos entenderam a coisa. Paulo apresenta uma visão do casamento que, embora por vezes nos pareça terrivelmente retrógrada e patriarcal, virava de cabeça para baixo todas as expectativas de seu público de barbudos pouco sofisticados. Para ele, o marido deve amar a esposa como Cristo amou sua igreja, ao ponto de entregar-se por ela. Ouvida ao longo de dois mil anos, a coisa não tem como não soar como inofensivo lugar-comum, mas deve ter parecido subversiva ao ponto da ofensa para os ouvidos originais.
Para Paulo a visão tradicional do casamento deve mudar porque ele, mais do que ninguém, entende a boa nova como anúncio da derrocada de todas as formas de dominação que caracterizam o reino deste mundo e levantam barreiras artificiais entre as pessoas. Em Jesus não há judeu nem gentio, nem escravo nem livre, (e agora ele abandona o terreno do lugar-comum mesmo nos nossos dias) nem homem nem mulher.
Essa é uma postura delicada, especialmente porque Paulo não entende que essa nova paridade deve mudar de imediato os papéis convencionais dos agentes dentro das instituições deste mundo. Ele não hesita em chamar o homem de “cabeça” da mulher, e não tem nada a dizer contra a escravatura em si. Mas ao mesmo tempo insiste que devemos agir como se essas barreiras formais não existissem: o marido deve demonstrar seu amor entregando-se pela esposa, e a relação entre escravo e senhor deve ser como a de irmãos. Essas soluções podem nos parecer insuficientes, e talvez de fato sejam, mas não era menos que revolucionárias quando foram proferidas.
Importante é entender que, ao contrário do que alguns chegaram a concluir, a posição de Paulo sobre o casamento não desautoriza o sexo, mas absolutamente desautoriza – como prevalecia no sistema anterior – qualquer uso do sexo como ilustração de dominação. É por isso que, embora endosse a hierarquia clássica de supremacia masculina quando fala de outras áreas do casamento, quando fala de sexo ele usa imagens que evocam paridade e reciprocidade, nunca supremacia. “Os maridos devem amar as mulheres como a seus próprios corpos”, “quem ama a sua mulher ama-se a si mesmo” e “a mulher não tem autoridade sobre o seu próprio corpo, mas sim o marido; e o marido não tem autoridade sobre o seu próprio corpo, mas sim a mulher”. O centro do universo conjugal transferia-se dos testículos para um ponto indeterminado (ou para o encontro) entre o corpo do marido e o da esposa.
Não é inconcebível, portanto, que a chave para compreensão do caráter distintivo da sexualidade cristã em seus primeiros séculos esteja em que nenhum autor do Novo Testamento – e por certo nenhum de seus leitores depois deles – conseguia conceber um mundo em que as relações sexuais não fossem relações estilizadas de poder e portanto emblemas de formas ilegítimas de dominação. Não tinham como conceber que o sexo não representasse um rito de desequilíbrio e portanto de desigualdade, inteiramente degradante para a parte “dominada” ou “possuída”. Paulo tentou reformar essa visão dentro do casamento – o único espaço social em que o sexo é inevitável, – mas ele mesmo continuou considerando-a válida em todos os outros espaços.
Isso pode ajudar a explicar o mistério da obsessão cristã com o celibato e com a abstinência, posturas que não tinham precedente dentro do judaísmo e surgiram muito cedo na cultura da igreja (nos apócrifos Atos de Paulo, do segundo século, e nos Atos de Tomé, do terceiro, os apóstolos aparecem exigindo castidade total mesmo dentro do casamento). Alguns supõem que essa paixão pela abstinência tenha se originado de uma visão do sexo como animal no sentido de descontrolado e sensual, e portanto inerentemente impuro e antiespiritual. Porém a cultura judaica pré-cristã, que não pode ser acusada de ignorar questões de pureza e não negava que o sexo tem um forte componente animal/sensual, por vezes incentivava até mesmo o sexo recreativo, isto é, não-reprodutivo, dentro do casamento (e por vezes fora dele).
O motivo parece residir em que os primeiros cristãos adotaram muito cedo (ou capturaram-na imediatamente da atmosfera cultural) uma visão do sexo como animal no sentido de brutal, lesivo e opressor. Num mundo de iguais, em que “não há homem nem mulher”, não se encontrava espaço para uma prática como o sexo, que cria-se por natureza celebrar e ilustrar a desigualdade. Esse resvalar num desequilíbrio que separa ao invés de unir talvez seja o que o apóstolo entendia como representando a grande tentação “da carne”.
Essa mesma chave pode ainda explicar o que Paulo encontra de particularmente abominável nas relações homossexuais, cujos participantes têm “seus corpos desonrados entre si”, “cometendo torpeza” e “recebendo em si mesmos a devida recompensa do seu erro”. Embora tenha desenvolvido uma visão igualitária do sexo dentro do casamento, aqui ele reflete a mesma visão “sexo como defraudação” que orientava as legislações do Pentateuco. Não se trata meramente de uma prática sexual fora do âmbito do casamento (como, digamos, o adultério) ou fora do convencional (como, digamos, o sexo de um homem com sua sogra). Sua descrição da transgressão e das suas implicações serve apenas para pontuar que para ele a conduta homossexual deve ser vista como especialmente condenável porque representa uma relação “desigual” (caracterizada necessariamente por um agente de dominação e outro de submissão) entre “iguais”. Como todas fora do casamento, uma relação sexual nesses termos não tinha como não ser degradante para uma das partes, e portanto inteiramente condenável para ambas – mas ele acredita o bastante no ideal da honra do macho para considerar o leito homossexual particularmente repulsivo.
Para resumir: a partir das indicações e da postura de Jesus, os autores do Novo Testamento trabalharam de modo a [1] estabelecer os fundamentos de um status igualitário para a mulher dentro do casamento e na sociedade como um todo e [2] desautorizar qualquer uso do sexo como ritual de dominação (uso que, pelo menos dentro do casamento, o Antigo Testamento tacitamente incentivava).
Uma das consequências não planejadas dessas ênfases foi uma preocupação muito arraigada e muito popular, desde os primeiros séculos do cristianismo, com as ideias de celibato e de abstinência. Essa preocupação requereu a pública transfiguração da abrangência da palavra “casto”. A castidade, ideia que se reservava como virtude para as virgens abstinentes e para os casados que se preservavam de excessos e de contatos extramaritais, encontrou brecha para deitar-se no leito matrimonial e separar os mais apaixonados dos cônjuges.

NOTAS
05 de Setembro de 2011
Que as três grandes ortodoxias que brotaram do tronco bíblico são sexualmente conservadoras não deve haver dúvida, mas às vezes penso que não gastamos tempo suficiente tentando determinar porquê. À primeira vista pode parecer que as coisas são assim porque religiões lineares como o judaísmo, o cristianismo e o islamismo tendem à ordenação e ao controle, e em seu processo civilizatório sentem-se impelidas a produzir mecanismos que refreiem o poder socialmente disruptivo do sexo. Desde o primeiro momento, afinal de contas, Deus aparece levantando restrições e barreiras que protejam sua criação de resvalar no caos original – e parece haver poucos emblemas mais unânimes e mais formidáveis do caos do que a multiforme, embriagadora e infracionável bagagem sexual humana.
Esse argumento de contenção do caos, pode estar ocultando, no entanto, uma lógica falha. Talvez seja vantajoso para o sistema, justamente a fim de manter o estado de coisas e perpetuar a dominação, sustentar artificialmente a ideia de que o sexo tem um poder socialmente disruptivo que na realidade não tem. Se o sexo não se mostrar na prática tão socialmente destrutivo quanto se supunha que fosse, as ortodoxias perderão grande margem de alavancagem em outras áreas. Esse, por si só, pode ser um excelente motivo para que as instituições mantenham sua ênfase na obediência estrita aos regulamentos: desse modo a base não comprovada dos seus argumentos permanecerá oculto pela cortina das proibições.
Mas estou me adiantando, e talvez da forma errada.
Talvez eu devesse colocar em cheque logo de início as suas preconcepções, e explicar que quando a Bíblia fala de sexo não está falando de pureza, mas de mecanismos de dominação. Onde parece estar falando de contatos proibidos entre corpos, está na verdade ilustrando e estabelecendo (e por vezes desafiando) jogos sociais de poder e mecanismos sociais de controle.
Para demonstrar adequadamente este ponto será necessário um livro que ainda não comecei a escrever. Por enquanto algumas indicações terão de bastar.
Antigo Testamento: a honra do macho
Para começar há o Antigo Testamento, e a vantagem de começarmos por aqui é que não há lugar em que essas coisas fiquem mais claras. Se as legislações do Pentateuco dão a impressão de ter um caráter chauvinista e patriarcal é porque em grande parte o tem. Essa ênfase fica muito clara nas passagens que regulamentam o sexo. Embora por vezes aparente estar tratando da questão geral da legitimidade dos contatos sexuais (de modo a beneficiar a todos), A principal função social do sexo era ilustrar uma relação de dominação.o texto está essencialmente levantando barreiras sociais que protejam a honra do macho (de modo a legitimar a supremacia do ser humano adulto do sexo masculino).
Isso porque, como em muitas culturas da Antiguidade (e até recentemente em muitas culturas ocidentais), na esfera do Antigo Testamento a principal função social do sexo era ilustrar uma relação de dominação. O sexo era tido como um ritual estilizado de poder e de submissão que refletia em privado uma diferença de status muito real na esfera social.
Nessa configuração, tomada como válida por muita gente ainda nos nossos dias, a própria anatomia é interpretada como confirmando o status superior do homem, primazia que a relação sexual periodicamente celebra. O homem tem papel ativo: ele supre, penetra, domina, possui e fertiliza; o papel da mulher é passivo: ela acolhe, é penetrada, é dominada, é possuída e é fertilizada. Tudo nessa visão clássica da relação, bem como nas palavras que escolhemos para descrevê-la, serve para maximizar o papel do homem e minimizar o papel da mulher. O ativo é honrado e valoroso, o passivo é submisso e desprezível.
Parece haver pouca dúvida de que os povos da Antiguidade desenvolveram essa visão do sexo como emblema de dominação a partir da observação do comportamento dos animais, já que para muitos mamíferos superiores o sexo tem uma função claramente política, além da reprodutiva. O líder é via de regra o grande reprodutor, o macho fertilíssimo que tem o maior número de parceiras, e ele pode resolver ilustrar a sua superioridade e a submissão dos demais tomando como parceiros passivos até mesmo os machos abaixo dele na hierarquia.
Muito claramente, foi essa visão da sexualidade como registro social de dominação e controle, e não nenhuma inclinação homossexual generalizada, que levou os homens de Sodoma a rejeitar as filhas virgens de Ló em favor do sexo com os seus visitantes. Eram homens bárbaros que queriam mostrar barbaramente o seu poder; na sua visão de mundo, possuir visitantes ilustres simbolizaria mais formidavelmente a sua potência do que simplesmente violentar moças locais.
Embora em muitos sentidos mais generosa, mais liberal e mais sofisticada do que as leis que regiam outros povos na mesma época, a legislação do Pentateuco toma como certa essa noção do sexo como ritual de dominação. Ele favorece claramente a ideologia da supremacia do macho, e deita medidas explícitas para proteger a sua honra. O adultério, por exemplo, é visto como transgressão especialmente grave não por violar a santidade da família, mas porque representa uma afronta à honra e à potência/suficiência do homem casado/macho reprodutor.
O sexo entre homens é julgado “abominável” essencialmente pela mesma razão. Um homem não deve deitar-se com outro homem “como se fosse com mulher”, porque isso ilustraria uma relação de dominação e de submissão entre agentes que para o sistema devem permanecer invariavelmente dominantes – nunca submissos ou passivos. O banimento do comportamento homossexual não está embasado no intercâmbio entre corpos incompatíveis, mas na conotação politicamente inaceitável que uma relação “desigual” entre “iguais” é interpretada como tendo. Ambos os transgressores devem ser mortos: um porque aceita a submissão que denigre a honra inerente do macho, outro porque a proporciona.
Semelhantemente, de modo a manter a virtude masculina intocada, um homem não deve absolutamente deitar-se com uma mulher menstruada (isto é, inadequada e impura), e um homem com os testículos esmagados deixa de ter cacife para apresentar ofertas diante de Deus: tudo para que o homem ideal permaneça o grande dominador de honra intacta, o eficaz reprodutor suficiente e desimpedido.
Em conformidade com essa tendência, na Bíblia são sempre as mulheres que são estéreis, nunca os homens. Não conviria a um herói magnífico como Abraão mostrar-se deficiente (mesmo que divinamente suprido, como ocorre com Sara) nessa mais significativa das áreas. Em retrospecto, talvez a função original de Hagar e de Ismael na narrativa tenha sido apenas deixar claro além da dúvida que a culpa pela infertilidade do casal residia sobre Sara, não sobre seu marido.
Roland Boer estava apenas em parte brincando quando escreveu seu provocativo e constrangedoramente meticuloso artigo The Patriarch’s Nuts: Concerning the Testicular Logic of Biblical Hebrew (As bolas do patriarca: considerações sobre a lógica testicular do hebraico bíblico). Os autores do Antigo Testamento de fato criam que algo grande, sagrado e preferencialmente inviolável residia entre as coxas do ser humano do sexo masculino; isso fica evidente no uso quase reverente que fazem dos termos hebraicos que em português se traduzem comumente como “lombos” ou “coxa”, mas são eufemismo para regiões do corpo mais exclusivamente masculinas (como, por exemplo, na expressão “fruto dos teus lombos”). Os testículos, mais do que o pênis, eram tidos como residência da masculinidade e da iniciativa, e portanto daquilo que a humanidade tinha de mais íntegro, momentoso e admirável.
Nesse mundo, em que o sexo era visto como registro social do status de dominação e de submissão de seus participantes, e os testículos como os tabernáculos mais sagrados da virtude, apenas as manifestações sexuais que não comprometiam a honra e a primazia do macho eram tidas como legítimas.

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os arquivos d A Bacia das Almas sob a rubrica 'Homens e Mulheres'.
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