Caráter nacional
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Um brasileiro num cartaz de teatro digitalizado pela Biblioteca do Congresso Norte-Americano.

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Manuscritos estocados sob a rubrica 'História'
29 de Dezembro de 2007
Caráter nacionalDocumentosUm brasileiro num cartaz de teatro digitalizado pela Biblioteca do Congresso Norte-Americano. 26 de Dezembro de 2007
A aquisição da boa vontadeHistória, SociedadeOs puritanos compreendiam ainda outra coisa: muito dos excessos sazonais que ocorriam no Natal não eram mera desordem caótica, mas comportamento que assumia forma profundamente ritualizada. Essencialmente, o Natal era uma ocasião em que a própria hierarquia social era simbolicamente virada de cabeça para baixo, num gesto que invertia os papéis designados de gênero, idade e classe social. Durante a temporada do Natal aqueles próximos à base da pirâmide social agiam com desfaçatez e presunção. Homens podiam vestir-se de mulheres e mulheres podiam vestir-se (e agir) como homens. Gente jovem podia imitar e zombar dos mais velhos (por exemplo, um menino podia ser escolhido como “bispo” e assumir por um breve período a autoridade de um bispo de verdade). Um camponês ou aprendiz podia tornar-se “Barão da Desordem”e imitar a autoridade dos verdadeiros “nobres”. Com lucidez de antropólogo, Increase Mather explicou quais cria serem as origens da prática: “Nos dias da Saturnália os senhores serviam seus escravos [...] Os gentios chamavam os dias de Saturno a Idade de Ouro, porque nela não havia servidão, em Comemoração pelo que no seu Festival os Servos deviam ser os Senhores”. Essa prática, como muitas outras, foi apenas tomada e transposta para o Natal, em que os de baixa posição social tornavam-se “Barões da Desordem”. Ainda hoje, no exército britânico, no dia 25 de dezembro os oficiais são obrigados a servir os soldados nas refeições. A forma mais comum de inversão social ocorrida durante a temporada do Natal envolvia algo que ainda associamos ao Natal nos nossos dias, e chamamos de caridade. Esperava-se que gente próspera e poderosa oferecesse os frutos da abundância de sua colheita aos vizinhos mais pobres e dependentes. A a noção contemporânea de caridade, no entanto, não transmite um quadro adequado de como esse intercâmbio ocorria – pois eram normalmente os próprios pobres que davam início a transação, que era encenada face a face, em rituais que nos pareceriam hoje uma intolerável invasão de privacidade. No restante do ano eram os pobres que deviam bens, trabalho e respeito aos ricos, mas nessa ocasião eles viravam a mesa – literalmente. Grupos de pobres – em sua maioria meninos e rapazes – invocavam o direito de marchar até as casas dos abastados, adentrar seus salões e receber presentes sob a forma de comida, bebida e por vezes dinheiro. E os ricos tinham de deixá-los entrar. O senhor da terra podia sempre usar um generoso donativo de Natal como modo de reparar a acumulação de um ano inteiro de pequenas injustiças.O Natal era ocasião em que os camponeses, servos e aprendizes exercitavam o direito de exigir de seus vizinhos mais ricos e benfeitores que os tratassem como se eles fossem ricos e poderosos. O senhor da casa grande deixava entrarem os camponeses e oferecia-lhes um banquete. Em troca os camponeses ofereciam algo de verdadeiro valor numa sociedade paternalista: sua boa vontade. Essa troca de presentes por boa vontade incluia com freqüência a execução de canções, frequentemente canções relacionadas à bebida (desta transação ritualizada foi apenas a promessa de boa vontade a sobreviver nas canções contemporâneas de Natal).
Numa economia agrícola o tipo de “desordem” que estou descrevendo não representava de fato uma ameaça à autoridade da nobreza. O historiador E. P. Thompson observou que o senhor da terra podia sempre tentar usar um generoso donativo de Natal como modo de reparar a acumulação de um ano inteiro de pequenas injustiças, readquirindo no processo a boa vontade de seus inquilinos. Na verdade, episódios de desordem eram amplamente tolerados pela elite. Alguns historiadores argumentam que a inversão de valores funcionava na verdade como uma válvula de segurança que continha os ressentimentos de classe dentro de limites claramente definidos, e que ao inverter a hierarquia estabelecida (ao invés de simplesmente ignorá-la), tais inversões serviam na verdade como reafirmação da ordem social existente. Stephen Nissenbaum, The Battle For Christmas
Este documento faz parte da série A burlesca história da comemoração do Natal18 de Dezembro de 2007
Uma concessãoHistóriaA comemoração do Natal envolvia comportamentos que a maior parte de nós consideraria ofensivo e até chocante fosse nos nossos dias – tumultuosas exibições públicas de glutonaria e embriaguez, a ridicularização de autoridades estabelecidas, mendicância agressiva (muitas vezes com ameaça de dano físico) e até mesmo invasão das casas mais abastadas. Episódios como esses ofereciam outra razão, e mais profunda, para as objeções dos puritanos contra o Natal. Eis como o reverendo Increase Mather colocou a coisa em 1687:
Escrevendo em 1725, o reverendo Heny Bourne de New Castle, Inglaterra, embora aprovasse ele mesmo “a observância” do Natal, admitia que para a grande massa da população a época natalina era mera “desculpa para Embriaguez, Tumulto e Licenciosidade”. Bourne distinguia duas práticas especialmente perigosas das festividades, a folia sob disfarce [mumming] e o canto de canções de natal. A prática do mumming envolvia normalmente “uma troca de Vestimenta entre Homens e Mulheres, os quais, vestidos nas roupas um do outro, iam à casa de um Vizinho após o outro… foliando sob disfarce”. Quanto ao canto público de canções de Natal, Bourne considerava a prática “uma afronta”, visto que era normalmente realizada “em meio a Desordens, Fornicação e Luxúria”. Foi outro clérigo anglicano do século dezesseis, o bispo Hugh Latimer, quem colocou a questão de forma mais sucinta: “As pessoas fazem mais para desonrar a Cristo nos doze dias do Natal do que no restante dos doze meses”. Os puritanos sabiam o que gerações subseqüentes esqueceriam: que quando a Igreja, mais de um milênio antes, colocara o Natal no final de dezembro, a decisão era parte do que representava na verdade uma contemporização, uma concessão pela qual a Igreja pagaria um alto preço. As festividades do final de dezembro estavam profundamente enraizadas na cultura popular, tanto na observância do solstício do inverno quanto na celebração do único breve período de ociosidade e abundância do ano agrícola. Em troca de angariarem ampla observância para a comemoração do aniversário do Salvador, alocando-o nessa data ressonante, a Igreja por sua vez concordava tacitamente em permitir que o feriado fosse celebrado mais ou menos do modo como tinha sempre sido. Desde o começo o controle da Igreja sobre o Natal foi (e permanece) tênue. Sempre houve gente para quem o Natal era época de devoção ao invés de carnaval, mas esses foram sempre a minoria. Não é ir longe demais dizer que o Natal sempre foi um feriado tremendamente difícil de cristianizar. Stephen Nissenbaum, The Battle For Christmas
Este documento faz parte da série A burlesca história da comemoração do Natal15 de Dezembro de 2007
Sobre o costume de agrupar livrosFé e Crença, HistóriaComo se sabe, o conjunto de livros sagrados dos judeus – Tanakh, como se diz em hebraico – aparece nas Bíblias cristãs com o nome de Velho Testamento (”velho”, preste atenção – como que para anular qualquer relevância que os textos possam ter). Embora consistam essencialmente do mesmo conjunto de livros (católicos e ortodoxos acrescentam uma meia dúzia), os cristãos dividem os livros do Velho Testamento de forma diferente do que os judeus fazem com a sua Tanakh. Para os cristãos o Velho Testamento está dividido em 3 grandes agrupamentos de textos, os livros históricos, os livros poéticos (ou “de sabedoria”) e os livros proféticos (ou apenas “os profetas”) – nesta ordem. O principal efeito desta divisão está em que, ao concluir com os profetas, os cristãos reduzem-nos imediatamente a meros arautos do que está por vir (isto é, Jesus e o Novo Testamento). É como se tudo que os profetas tivessem a dizer fosse “prepare-se, porque o melhor está por vir! Se você acha este trailer bom, espere até ver o filme completo – somente nas melhores salas do Novo Testamento”. Perde-se com isso a característica mais essencial (e mais relevante para os cristãos) da literatura dos profetas: o fato de que eles não apenas predizem que Jesus está por vir (coisa que, quando os vemos fazer, devemos supor que faziam-no sem perceber), mas em grande parte prefiguram o seu discurso. Jesus foi um cara revolucionário e original, mas quando entra em cena, centenas de anos depois do silêncio do último profeta, ele reflete anseios e visões de mundo que os profetas já haviam exposto de forma muito eloqüente. Na vertiginosa ousadia de suas imagens e propostas, alguns profetas foram na verdade mais longe do que Jesus. Os judeus dividem o mesmo conjunto de livros em três grupos distintos, a Lei (em hebraico Torah), os Profetas (hebraico Nebiim) e os Escritos (hebraico Ketubim), também chamados metonimicamente de Salmos – nesta ordem. O nome “Tanakh” é na verdade uma abreviatura formada pelas iniciais destas três seções, “T”, “N” e “K”. A surpresa desta divisão não está apenas na ordem (os Profetas vêm logo depois da Lei e antes dos Salmos), mas no conteúdo. Para um cristão parecerá no mínimo singular ver que os livros de Josué e Juízes são contados entre os profetas, ou que os livros de Ester, Daniel e Neemias são tomados por literatura, ao lado de obras poéticas como o Cânticos dos Cânticos. Jesus e seus seguidores, que desconheciam a distinção cristã entre Velho e Novo Testamento (esse último naturalmente não havia sido escrito), pensavam nas Escrituras hebraicas nos termos da divisão da Tanakh. Em Lucas 24:44, por exemplo, Jesus explica que era necessário cumprir-se tudo que estava escrito a respeito dele “na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos” – ou seja, na Torah, nos Nebiim e nos Ketubim. Os antropólogos contemporâneos já diagnosticaram o tremendo poder ideológico que há por trás de algo tão aparentemente inofensivo quanto uma classificação. Imagine, por exemplo, as conseqüências de se viver num mundo em que a poesia e a literatura estão mais perto de Jesus do que os profetas, ou em que Gênesis não está classificado entre os livros históricos.
13 de Dezembro de 2007
Mas o ensino era tão claroDocumentos– Mas o ensino era tão simples e claro – disse Belzebu, ainda relutando em acreditar que seus servos tivessem feito o que não lhe ocorrera fazer. – Era impossível interpretá-lo de forma errada. “Façais aos outros o que quereis que vos façam!” Como distorcer isso? – Bem, aconselhados por mim eles utilizaram diversos métodos – respondeu o diabo de capa. – Os homens contam a história de um mágico bom que salvou uma pessoa de um mágico perverso transformando a pessoa num minúsculo grão de trigo; o mágico mau, tendo se transformando num galo, estava prestes a bicar o grãozinho, mas o mágico bom esvaziou uma saca de trigo sobre ele. O mágico mau não tinha como comer todo o trigo, pelo que não conseguiu encontrar o único grão que desejava. Foi isto que a conselho meu fizeram com o ensino daquele que ensinava que a lei consiste em fazer aos outros o que desejamos que façam a nós. Eles aceitaram sessenta e seis livros diferentes como sendo a exposição sagrada da lei de Deus, e declararam que cada palavra desses livros era produção de Deus, o Espírito Santo. Sobre o simples e facilmente compreensível eles derramaram tamanha coleção de verdades pseudo-sacras que tornou-se impossível, por um lado, aceitá-las todas, e por outro encontrar entre elas a única verdade necessária para o homem. – Este foi o primeiro método. O segundo, que usaram com sucesso por mais de mil anos, consistiu simplesmente em matar e queimar qualquer pessoa que desejasse revelar a verdade. Este método está entrando agora em desuso, mas eles não o abandonam por completo; embora não queimem os que expõem a verdade, caluniam-nos e envenenam as suas vidas de tal forma que são poucos os que arriscam desmascará-los. – Este foi o segundo método. O terceiro é que, sustentando serem eles mesmos a Igreja e portanto infalíveis, eles ensinam simplesmente, e quando lhes convém, o contrário do que dizem as Escrituras, deixando para seus discípulos extraírem eles mesmos, a partir dessas contradições, o que puderem e o que lhes agrade. Por exemplo, se as Escrituras dizem: “A ninguém na terra chameis de vosso pai, porque um só é o vosso Pai, o qual está nos céus. Nem vos chameis mestres, porque um só é o vosso Mestre, que é o Cristo”, eles dizem: “Nós apenas somos os pais, e nós apenas somos os mestres dos homens”. Foi dito: “Tu, quando orares, faze-o em oculto, e Deus te ouvirá”, mas eles ensinam que os homens devem orar em igrejas, na companhia de outros, com cântico e música. As Escrituras dizem: “De maneira nenhuma jureis”, mas eles afirmam que é necessário jurar obediência implícita às autoridades qualquer que seja a demanda delas. Foi dito: “Não matarás”, mas eles ensinam que podemos e devemos matar, em conformidade com a lei. Foi dito: “Meu ensino é espírito e vida. Alimentai-vos dele como que de pão”, mas eles ensinam que se pedacinhos de pão forem molhados em vinho e certas palavras forem proferidas sobre eles, esses pedacinhos de pão tornam-se carne e o vinho torna-se sangue, e que comer este pão e beber este vinho é muito proveitoso para a salvação da alma. As pessoas acreditam nisso e comem obedientemente esses bocados molhados de pão, e depois quando caem nas nossas mãos ficam perplexos de que os bocados não os tenham ajudado. E o diabo de capa, rolando os olhos e virando as órbitas para cima, sorriu de orelha a orelha. – Isso é excelente – disse Belzebu, e sorriu. E todos os diabos caíram na risada.
Este documento faz parte da série A restauração do infernoVocê está examinando
os arquivos dA Bacia das Almas sob a rubrica 'História'.
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