Manuscritos estocados sob a rubrica 'História'
10 de Maio de 2010

A monarquia de Deus

História, Política

E por certo quando trago à lembrança que nosso vitorioso imperador presta ele mesmo louvores a este Poderoso Soberano, faço bem em seguir o seu exemplo, sabendo como sei que somente a Ele devemos o poder imperial sob o qual vivemos. Os piedosos Césares, instruídos pela sabedoria de seu pai, reconhecem-No como a fonte de toda benção; o corpo militar, a entidade coletiva do povo, tanto no campo quanto nas cidades do império, juntamente com os governantes das diversas províncias, reunidos de acordo com o preceito de seu grande Salvador e Mestre, prestam-Lhe adoração. Em suma, toda a família da humanidade, de toda nação, tribo e língua, tanto coletivamente quanto em separado, por mais diversas que sejam suas opiniões a respeito de outras questões, são unânimes com respeito a essa única confissão; e, em obediência à razão implantada neles e ao impulso espontâneo e voluntário de suas próprias mentes, unem-se em invocar o único e Uno Deus.

E dessa forma o Todo-Poderoso Soberano confere um acréscimo tanto de anos quanto de filhos a nosso piedosíssimo imperador, e mantém ainda vigoroso e próspero seu domínio sobre as nações, como se estivesse agora mesmo brotando em seu vigor inicial. É Ele quem o nomeia para o presente festival, em que foi Ele quem o fez vitorioso sobre todo inimigo que perturbou a sua paz; é Ele quem o exibe à raça humana como genuíno exemplo de integridade.

E assim nosso imperador, como o radiante sol, ilumina os mais remotos súditos de seu império através da presença dos Césares, que agem como os distantes e penetrantes raios de seu próprio esplendor. Tendo ainda como que atado sob o mesmo jugo os quatro mais nobres dos Césares para servirem de corcéis da carruagem imperial, ele mesmo assenta-se exaltado e conduz o seu curso com as rédeas da sagrada harmonia e da concórdia; e, estando ele mesmo em todo o lugar e observando cada acontecimento, percorre dessa forma cada região do mundo.

Finalmente, investido como que com uma semelhança da soberania celeste, dirige para o alto o seu olhar, e modela seu governo terreno em conformidade com o padrão do original divino, sentindo solidez em sua conformidade à monarquia de Deus. «A democracia, que é o oposto da monarquia, pode ser descrita como anarquia e desordem.»E dentre todas as criaturas da terra essa conformidade é conferida pelo Soberano universal apenas ao homem; pois apenas Ele é o autor do poder soberano, que decreta que todos devem sujeitar-se ao governo de apenas um.

E sem dúvida a monarquia ultrapassa em muito a toda outra constituição e forma de governo; pois a igualdade de poder da democracia, que é seu oposto, pode ser mais exatamente descrita como anarquia e desordem. Por conseguinte há um único Deus, e não dois, três ou mais: pois afirmar uma pluralidade de deuses é negar por completo o ser de Deus. Há um único Soberano, e são uma sua Palavra e sua régia Lei.

E o próprio Deus, como penhor da recompensa futura, confere hoje [ao imperador] coroas tricenais compostas de prósperos períodos de tempo; e agora, transcorridas as revoluções de três ciclos de dez anos, concede a toda humanidade permissão de celebrar este festival global – mais do que isso, universal.

E enquanto regozijam-se estes na terra, como que coroados com as flores do conhecimento divino, não deve ser exagero supor que os coros celestiais, atraídos por simpatia natural, unam seu próprio júbilo ao júbilo destes na terra; não apenas isso, que o próprio Supremo Soberano, na qualidade de gracioso pai, deleite-se na adoração de filhos obedientes, e ache assim por bem honrar com um período estendido de tempo o autor e causa dessa sua obediência; e, longe de limitar seu reinado a três ciclos decenais, estenda-o ao período mais remoto, até mesmo à distante eternidade.

 

Eusébio de Cesaréia (239-339), trechos do Discurso em louvor de Constantino (336), proferido no trigésimo aniversário de seu reinado. Constantino morreu no ano seguinte.

Leia também:
Dê-me um monoteísmo e moverei o mundo
Pela alma do povo: Omissões coletivas e bravuras individuais


Imagem: peacay

06 de Maio de 2010

Pela alma do povo: omissões coletivas e bravuras individuais

História, Livros, Manuscritos

Nós e o cristianismo só temos uma coisa em comum:
exigimos a pessoa toda!

O juiz nazista Roland Freisler a Helmut Moltke,
durante o julgamento de Moltke pelo seu envolvimento
no atentado de 20 de julho

Eu estava a meio caminho da interminável biografia de Dietrich Bonhoeffer (que ainda não terminei) quando comecei a ler For the soul of the people: Protestant protest against Hitler [Pela alma do povo: Protesto protestante contra Hitler], da historiadora Victoria Barnett. Pus de lado esta semana a última página do livro, e posso dizer que encontrei o que não procurava – talvez justamente porque (e eis a necessária reviravolta) não encontrei o que procurava.

O título do livro é ao mesmo tempo enganador e significativo porque, como a autora vai deixando agonizantemente claro, não houve protesto protestante contra Hitler. Não na Alemanha nazista. Não quando era necessário. Não quando um protesto poderia fazer diferença. Não com qualquer ênfase ou visibilidade, não por parte de um grupo significativo e certamente não por parte da instituição como um todo.

O que houve, e disso a história fornece redentora e incômoda evidência, foi protesto individual de protestantes contra Hitler. A instituição essencialmente nada fez, mas naquele mais vigiado, preconceituoso, intolerante e opressor dos regimes levantaram-se uns poucos heróis solitários que, precisamente como Bonhoeffer, colocaram-se publicamente em pé diante da máquina simplesmente porque não concordavam com a direção em que ela estava indo, e por causa de quem estava sendo esmagado no caminho. A maioria desses, precisamente como Bonhoeffer, não escapou com vida para testemunhar a primavera de 1945, quando o planeta despedaçado acordou perplexo para o fim da inocência mundial.

É uma narrativa que confirma da forma mais excruciante o que venho intuindo há muito tempo (“repita comigo: as instituições não existem, só existem pessoas“) sobre a insuficiência das instituições e a facilidade com que podem tornar-se carimbos coletivos que o sistema usa para endossar a injustiça. Na história como apresentada por Barnett é terrível constatar o tempo que perde, esperando alguma reação ou posicionamento da igreja formal, o punhado de pessoas realmente disposta a se levantar contra o regime – ou, talvez ainda mais importante, disposta a ajudar quem está sendo prejudicada por ele. Mesmo os militantes mais radicais da resistência protestante na Alemanha nazista demoraram anos até passarem a questionar a omissão do sistema eclesiástico em público e em privado; todos, mesmo os terrivelmente lúcidos como Bonhoeffer, simplesmente queriam que a instituição funcionasse. Muitos deles ficaram querendo até o último momento.

A verdade que esta parábola deixa evidente é que a instituição não existe para defender uma causa ou sua coerência ideológica interna, mas para garantir sua própria perpetuação – pelo que seu modo de operação mais fundamental é a cautela. Quando o governo nazista decretou que os judeus estavam a partir de determinado momento desclassificados para determinadas posições públicas e privadas, não ocorreu à igreja questionar esse julgamento, mesmo quando os que queriam comprovar a sua ascendência ariana recorreram em massa aos arquivos eclesiásticos, que detinham os registros de nascimento – e cujos responsáveis tiveram de trabalhar em dobro (e em alguns casos contratar assistentes e secretários) a fim de suprir a nova demanda de verificação racial gerada pelo estado.

Quando os judeus convertidos ao cristianismo se tornaram um embaraço inequívoco também dentro das igrejas, muitos sugeriram singelamente que uma solução amorosa seria que esses cristãos de origem “não-ariana” abrissem uma igreja só para eles, onde não representariam ameaça para outros além de si mesmos. Isso enquanto toda uma ala da igreja evangélica alemã, a dos chamados “Cristãos Germânicos”, propunha a sumária eliminação do Antigo Testamento de todas as Bíblias, de modo a sinalizar sem margem de dúvida o rompimento do cristianismo com a herança judaica.

Diante do ensurdecedor silêncio da igreja perante esses procedimentos, uma facção dela decidiu que era necessário postar-se publicamente contra a onda de insanidade. Esses, mais ou menos liderados por Bonhoeffer, deram a si mesmos o nome de Igreja Confessante, porque criam que confessar o nome/pessoa de Jesus implicava em manifestar-se publicamente contra toda forma de injustiça, mesmo diante de riscos institucionais e pessoais.

O livro de Barnett explica como essas três facções da igreja alemã (a minoria dos Cristãos Germânicos, a maioria conservadora/cautelosa e a minoria confessante) combateram umas com as outras durante o regime nazista de modo a, no fim das contas, se sujeitarem mutuamente ao mais completo silêncio diante das injustiças de Hitler.

Parte essencial da história, na verdade, está em que logo ficou claro que havia diferenças irreconciliáveis de convicção e de estratégia entre moderados e radicais mesmo dentro da Igreja Confessante. Essa polarização apenas se acentuou com o cerrar do cerco nazista, até que aqueles dispostos ao martírio entenderam que mesmo o movimento confessante era insuficiente para se proferir no meio do caos a Palavra, e partiram para a carreira solo no acolhimento de perseguidos ou no terrorismo secular. Entenderam que se haveria uma igreja contra a qual as portas do inferno não resistiriam, essa se manifestaria através de indivíduos e não da instituição. Porém essa sua distração com a fé no sistema custou muito para eles mesmos e para outros: quando esses poucos caras – a dissidência da dissidência – sacaram que não podiam e não deviam contar com as soluções institucionais, era essencialmente tarde demais.

O cerne do problema parece ter residido no fato de que, numa tradição que se estendia praticamente até Lutero, igreja e líderes eclesiásticos alemães haviam durante séculos sido incentivados a declarar mútua lealdade para com “o trono e o altar”. Nessa visão de mundo governo e igreja eram considerados sistemas independentes, mas unia-os um acordo tácito pelo qual um se comprometia a não interferir nos negócios do outro, e pelo qual ambos se comprometiam a fornecer ao outro legitimidade. Em outras palavras, a igreja não se sentia particularmente devedora a qualquer manifestação do Estado, mas sentia-se menos ainda inclinada a a interferir em negócios que diziam respeito a “outro domínio” que não o espiritual. Seu papel cristão era, muito declaradamente, pregar o evangelho e distribuir os sacramentos. Insurreição, resistência, desobediência civil – numa palavra, protesto – não desempenhavam qualquer papel no vocabulário prático da tradição protestante.

Essa sacrílega cumplicidade entre igreja e estado tem, evidentemente, raízes ainda mais antigas do que a Reforma, que apenas inseriu na equação o fator competição [à Igreja Católica]. Em sua manifestação original o movimento cristão era apolítico, anti-imperialista e subversivo ao ponto da anarquia funcional, mas o sucesso espetacular da sistematização do cristianismo terminou por apagar por completo os efeitos dessa herança subversiva – até que, em Constantino, igreja e império se transformaram numa única e abominável coisa. Para o historiador cristão Eusébio, escrevendo no ano 336, o imperador Constantino (o primeiro a conceder favor estatal à fé cristã) representava o modelo do governante espiritual, um “amigo de Deus” que “arranja seu governo terreno de acordo com o padrão do original divino”. Para Eusébio, Constantino deveria ser visto pelos crentes como “nosso imperador divinamente favorecido”, que havia recebido “como que uma transcrição da soberania divina” a fim de conduzir “em imitação do próprio Deus a administração dos negócios do mundo”1 – nada muito diferente do que cristãos alemães opinariam séculos mais tarde a respeito de Hitler.

Nessa única transação com o Poder o movimento cristão passava de frágil a influente, de subversivo a inofensivo, de marginal a detentor do status quo, de incendiário a bombeiro, de incômoda ameaça aos poderes e potestades deste mundo a seu mais valioso selo de confirmação. As tremendas desventuras, grandes vergonhas e pequenas ousadias encenadas pela igreja evangélica alemã durante o regime nazista apenas demonstram o quanto há de contemporâneo e de diabólico nessa aliança, mesmo em regimes que professam oficialmente divisão entre igreja e estado.

É uma história que demonstra muito claramente que o problema não reside na separação entre igreja e estado, porque enquanto permanece como instituição a igreja é obviamente inseparável dos governos deste mundo. Uma instituição é basicamente uma entidade coletiva que tem algo a perder (mesmo que seja apenas sua própria autoridade), e o movimento cristão é por definição bíblica o movimento dos desbravadores do reino – isto é, o domínio em permanente insurreição dos que confessam não ter nada a perder, e sustentam ao mesmo tempo que o único modo de confessar isso é demonstrá-lo.

É algo ao mesmo tempo belo e terrível que a história do protesto protestante contra Hitler só tenha para contar omissões coletivas e bravuras individuais. A segunda metade do século XX e sua extensão no terceiro milênio são resultado sem escalas da experiência coletiva da Segunda Guerra, e sobreviver a ela ensinou-nos não só a questionar incessantemente qualquer ideologia (porque tememos outro Hitler), mas a duvidar da eficácia e da legitimidade de soluções intermediadas/institucionais.

Essa, no entanto, é uma lição de humildade que o terreno beligerante da tradição cristã irá até o último momento recusar-se a absorver. Prova disso é o que aconteceu logo depois – porque Barnett, para minha surpresa, não termina sua história com o final da guerra. E se o drama da igreja alemã sob Hitler havia confirmado minhas piores suspeitas, nenhuma expectativa me havia preparado para o que veio em seguida.

A igreja e o Poder

  1. Pela alma do povo: omissões coletivas e bravuras individuais
  2. A fissura do mundo: política, polarização e paralisia
  3. Capitalismo, socialismo, alienação e o capeta
NOTAS
  1. Eusébio de Cesaréia, Discurso em louvor do imperador Constantino. Citado em Richard Fletcher, The Barbarian Conversion. Fletcher também observa que “não é para Eusébio que devemos recorrer para saber que Constantino assassinou seu sogro, sua esposa e seu filho”. []
25 de Abril de 2010

Florianópolis em 1780

Brasil, História

Da coleção David Rumsey de mapas. Clique para ampliar.

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Veja também:
Sv. Ekateriny e mais do Brasil na Biblioteca Pública de Nova Iorque

09 de Novembro de 2009

A árvore que chora

Brasil, História

Na Amazônia ela era conhecida como “a árvore que chora”, o sangue branco da floresta, e por gerações os índios haviam retalhado o seu tronco, deixando o látex gotejar em folhas, de onde podia ser moldado à mão na forma de vasos e lâminas impermeáveis à chuva. Colombo encontrou índios arauacãs jogando com estranhas bolas que quicavam e voavam. Thomas Jefferson e Benjamin Franklin descobriram que o material era ideal para apagar anotações à lápis. Devido à crença generalizada de que se originava nas Índias Ocidentais, a substância era chamada de India rubber. Na verdade o produto vinha do Brasil, onde o rei de Portugal já havia estabelecido uma ativa indústria que produzia sapatos, capas e bolsas de borracha.

Todos esses produtos, no entanto, tinham uma grande falha. No frio a borracha tornava-se tão quebradiça que rachava como porcelana. No verão uma capa de borracha reduzia-se a um manto viscoso. Então, em 1839, Cada um deles precisava de borracha, e a única fonte era a Amazônia.Charles Goodyear descobriu (inteiramente por acidente) a vulcanização, um processo que torna a borracha resistente aos elementos, transformando-a assim de curiosidade num ingrediente essencial da Era Industrial. Em 1888 John Dunlop inventou os pneus infláveis de borracha para que o seu filho pudesse ganhar uma corrida de triciclo em Belfast. Sete anos mais tarde os irmãos Michelin deixaram a crítica boquiaberta ao introduzirem pneus removíveis no rally Paris-Bordeaux. Na virada do século havia cinqüenta fábricas de automóveis nos Estados Unidos. A Oldsmobile, a mais bem sucedida, vendeu 425 carros só em 1901. Menos de uma década depois os primeiros 15 milhões de Modelos T deslizaram para fora da linha de produção de Henry Ford. Cada um deles precisava de borracha, e a única fonte era a Amazônia.

O repente de riqueza foi hipnotizante. Em Londres e Nova Iorque homens jogavam moedas para decidir se sairiam em busca de ouro no Klondike ou borracha no Brasil. No pico da corrida 5.000 aventureiros chegavam à Amazônia por semana. Em 1909 os negociantes estavam despachando rio abaixo 500 toneladas de borracha a cada dez dias. Em 1910 a borracha representava 40 por cento das exportações brasileiras. Um ano depois a produção atingia o seu pico máximo de 44.296 toneladas. Isso valia, numa estimativa conservadora, mais de 200 milhões de dólares. Em Pittsburgh o magnata do aço Andrew Carnegie lamentava: “eu deveria ter escolhido a borracha”.

Manaus, situada no coração do comércio brasileiro de borracha, transformou-se em poucos anos de um modesto vilarejo à beira do rio numa próspera cidade cuja opulência atingia níveis bizarros.Os barões da borracha acendiam charutos com notas de 100 dólares. Os barões da borracha acendiam charutos com notas de 100 dólares e saciavam a sede dos seus cavalos em baldes de prata cheios de champagne francesa gelada. Suas esposas, desdenhosas das águas barrentas do Amazonas, mandavam seus linhos a Portugal para serem lavados. Prostitutas de Tangiers e de São Petesburgo chegavam a ganhar 8.000 dólares por uma noite de trabalho, tarifas que eram freqüentemente pagas em tiaras e jóias; em 1907 os cidadãos de Manaus eram os maiores consumidores per capita de diamantes do mundo.

Ao longo do território do Amazonas o comércio da borracha desencadeou um reino de terror a que não se via igual desde a consquista espanhola. No fim o que salvou a população nativa foi um ato da política imperial britânica. Em 1877 sementes de borracha trazidas pelos ingleses das florestas do Brasil chegaram à Malaia, uma terra tropical de clima similar à Amazônia, mas intocada pela praga da folha. Aqui não era necessário que as árvores crescessem tão separadas umas das outras; plantações densas e eficientes eram possíveis. Em 1909 mais de 40 milhões de pés de seringueira haviam sido plantados na Malaia (hoje em dia parte da Malásia), em intervalos de apenas seis metros, em fileiras regulares que permitiam que um único trabalhador sulcasse 400 árvores por dia. A produção dobrava a cada doze meses.

Com o sucesso das plantações, o boom da borracha da Amazônia implodiu. Em 1910 o Brasil produzia cerca de metade do consumo mundial; em 1918 a cifra caía para 20 por cento. Em 1940 o Brasil era responsável por apenas 1.3 por cento da produção mundial de borracha, e a nação havia se tornado importadora inveterada do produto que havia dado ao mundo.

Wade Davis, Shadows In The Sun (1998)

28 de Setembro de 2009

Conversa de um filho da Terra com um filho do capitalismo

Goiabas Roubadas, História

Os nossos tupinambás muito se admiram dos franceses e outros estrangeiros se darem o trabalho de vir buscar o seu arabutan. Uma vez um velho perguntou-me:

– Por que vêm vocês, mairs e perôs (franceses e portugueses) buscar lenha de tão longe para se aquecerem? Vocês não tem madeira na sua terra?«E vocês por acaso precisam de muita?»

Respondi que tínhamos muita mas não daquela qualidade, e que não a queimávamos, como ele o supunha, mas extraíamos dela tinta para tingir, tal o qual eles faziam com os seus cordões de algodão e suas plumas.

Retrucou o velho imediatamente:

– E vocês por acaso precisam de muita?

– Sim – respondi-lhe – pois no nosso país existem negociantes que possuem mais panos, facas, tesouras, espelhos e outras mercadorias do que vocês podem imaginar, e um só deles compra todo o pau-brasil com que muitos navios voltam carregados.

– Ah! – retrucou o selvagem – É assombroso o que você me conta.

E acrescentou, depois de compreender bem o que eu lhe dissera:

– Mas esse homem rico de quem você me fala não morre?

– Sim – disse eu – morre como os outros.

 

O missionário calvinista Jean de Léry tenta explicar o espírito do capitalismo a um índio tupinambá, durante sua permanência no Brasil na França Antártica em 1557.
Histoire d’un Voyage Fait en la Terre du Brésil, 1578

Leia também:
A integridade das coisas