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	<title>A Bacia das Almas &#187; História</title>
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	<description>Onde as ideias não descansam</description>
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		<title>Ready for that day [2]</title>
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		<pubDate>Wed, 14 Sep 2011 09:15:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[anarquismo]]></category>
		<category><![CDATA[comunismo]]></category>
		<category><![CDATA[cristianismo]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>

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		<description><![CDATA[Are you prepared to run this Christian race? [Visite a Bacia para ouvir o áudio] Welcome Para uma congregação degenerar-se em seita basta um único ingrediente: um líder. Nem todas as congregações tem um líder e nem todas as congregações são seitas, mas todas as seitas tem um líder. Destemperados todos somos; nosso problema é [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><span style="color:#B0B0A0"><small><em>Are you prepared to run this Christian race?</em></small></span></p>
<p><center>[Visite a Bacia para ouvir o áudio]</center></p>
<p><span style="color:#B0B0A0"><small>Welcome</small></span></p>
<p>Para uma congregação degenerar-se em seita basta um único ingrediente: um líder. Nem todas as congregações tem um líder e nem todas as congregações são seitas, mas todas as seitas tem um líder. Destemperados todos somos; nosso problema é que alguns de nós chegam ao poder. Nota para mim mesmo: Brabo, não siga líderes. Por tudo que é sagrado, não se torne um.</p>
<p>O líder bem intencionado só quer a perpetuação da instituição, e isso com o objetivo de proteger você.</p>
<p>O líder mal intencionado só quer o seu dinheiro, e afirmará que a causa mais sentida das coletas que faz é patrocinar os seus sonhos.</p>
<p>O líder de uma seita lhe estenderá na última ceia um copo com cianeto, irá convidar você e seus filhos a morrer com ele, e você aceitará de bom grado.</p>
<p>E até ser tarde demais você pode não ter como perceber com qual dos três está lidando.</p>
<p>A congregação <a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/ready-for-that-day/">de que estou falando</a> foi fundada na década de 1950 em Indianápolis, como ramo da denominação Discípulos de Cristo, e mudou-se em 1965 para a Califórnia, onde formou uma comunidade vibrante e engajada, comprometida com justiça social e integração racial. Em 1974 essa comunidade decidiu que era hora de abandonar os Estados Unidos, cuja postura fascista, corporativista e racista seus membros tomavam (com acerto) por anticristãs; em 1977 a maior parte do grupo transferiu-se para a Guiana, onde fundaram a colônia rural que ficaria conhecida como Jonestown, um &#8220;paraíso socialista&#8221; modelado para contrastar com a vida alienada e consumista que haviam abandonado nos Estados Unidos.</p>
<p>Porém a essa altura o líder e fundador original já dava há anos indicações de enraizados distúrbios mentais<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/ready-for-that-day-2/#footnote_0_2646" id="identifier_0_2646" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="Famosamente, o l&iacute;der de Jonestown vangloriava-se (ao que se sabe com pouco fundamento) de ser &amp;#8220;o &uacute;nico heterossexual&amp;#8221; do planeta.">1</a></sup>, e lapidara à excelência o dom psicopata de promulgar perversidades sem perder a doçura do tom de voz.</p>
<p>Em 18 de novembro de 1978, horas depois de uma complexa escaramuça envolvendo dissidentes e que resultou no assassinato de um deputado norte-americano que viera visitar a colônia, o líder da congregação reuniu a comunidade e conduziu um suicídio em massa no qual morreram mais de 900 pessoas, entre homens, mulheres e crianças &#8211; inclusive o próprio líder, Jim Jones. Pelo que se sabe, e conforme testemunha uma gravação feita na ocasião, o suicídio em si aconteceu calmamente, entre aleluias e choros de bebês, mas sem grandes manifestações de repúdio, de tristeza ou de horror. &#8220;Não estamos cometendo suicídio&#8221;, explica Jones; &#8220;este é um ato revolucionário&#8221;. E mais tarde: &#8220;Elas [as crianças] não estão chorando de dor; [o veneno] é que é um pouco amargo&#8221;. </p>
<p><center>[Visite a Bacia para ouvir o áudio]</center></p>
<p><span style="color:#B0B0A0"><small>As últimas deliberações em Jonestown<br />
Transcrição dos diálogos <a href="http://jonestown.sdsu.edu/AboutJonestown/Tapes/Tapes/DeathTape/Q042.html">aqui</a><br />
</small></span></p>
<p>A congregação chamava-se <em>Peoples Temple</em> e em 1973, ainda na Califórnia, seu coro gravou o disco He&#8217;s Able<em>/Ele é capaz</em>, da qual subtraí a canção Walking With You, Father<em>/Caminhando contigo, Pai</em>, que <a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/ready-for-that-day/">arquivei aqui</a>, bem com as outras canções que ilustram este documento.</p>
<p>***</p>
<p>Acima do altar na casa de reuniões da congregação do <em>Peoples Temple</em> na Guiana havia uma placa com o lema da comunidade: <em>Those who don&#8217;t remember the past are condemned to repeat it</em> &#8211; os que não lembram o passado estão condenados a repeti-lo.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2011/bits/jonestown.jpg" alt="" /></p>
<p><center>[Visite a Bacia para ouvir o áudio]</center></p>
<p><span style="color:#B0B0A0"><small>Walking with you, Father</small></span></p>
<p><center>[Visite a Bacia para ouvir o áudio]</center></p>
<p><span style="color:#B0B0A0"><small>Set them free</small></span></p>
<p><center>[Visite a Bacia para ouvir o áudio]</center></p>
<p><span style="color:#B0B0A0"><small>Walk a mile in my shows</small></span></p>
<p><center>[Visite a Bacia para ouvir o áudio]</center></p>
<p><span style="color:#B0B0A0"><small>Hold on, Brother</small></span></p>
<p><center>[Visite a Bacia para ouvir o áudio]</center></p>
<p><span style="color:#B0B0A0"><small>Down from his glory</small></span></p>
<p><center>[Visite a Bacia para ouvir o áudio]</center></p>
<p><span style="color:#B0B0A0"><small>He&#8217;s Able</small></span></p>
<p><center>[Visite a Bacia para ouvir o áudio]</center></p>
<p><span style="color:#B0B0A0"><small>Something got a hold of me</small></span></p>
<p><center>[Visite a Bacia para ouvir o áudio]</center></p>
<p><span style="color:#B0B0A0"><small>Because of Him</small></span></p>
<p><center>[Visite a Bacia para ouvir o áudio]</center></p>
<p><span style="color:#B0B0A0"><small>Black baby</small></span></p>
<p><center>[Visite a Bacia para ouvir o áudio]</center></p>
<p><span style="color:#B0B0A0"><small>Will you</small></span></p>
<p align="right"><small> Album via <a href="http://blog.wfmu.org/freeform/2006/02/he_was_able_mp3.html">wfmu.org</a></small></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2005/os-que-menos-sao/">Os que menos são</a><br />
<a href="http://jonestown.sdsu.edu/">Jonestown</a> (abundante material primário sobre o assunto, em inglês)</p>
<b><small>NOTAS</small></b><ol class="footnotes"><li id="footnote_0_2646" class="footnote">Famosamente, o líder de Jonestown vangloriava-se (ao que se sabe com pouco fundamento) de ser &#8220;o único heterossexual&#8221; do planeta.</li></ol>]]></content:encoded>
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		<title>Entra neste jovem movimento</title>
		<link>http://www.baciadasalmas.com/2010/entra-neste-jovem-movimento/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=entra-neste-jovem-movimento</link>
		<comments>http://www.baciadasalmas.com/2010/entra-neste-jovem-movimento/#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 10 Aug 2010 08:05:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[1970s]]></category>
		<category><![CDATA[biografia]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>

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		<description><![CDATA[Este documento contém clipes de áudio que só podem ser ouvidos na página da Bacia na internet. [Visite a Bacia para ouvir o áudio]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><center><img src="http://www.23hq.com/23666/5894821_8464af9a1ef66efeb3ef291592ebd63a_large.jpg"></center></p>
<p><span id="more-2338"></span></p>
<p align="center"><span style="color:#B0B0A0"><small>Este documento contém clipes de áudio que só podem ser ouvidos na <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/entra-neste-jovem-movimento">página da Bacia</a> na internet.</small></span></p>
<p><center>[Visite a Bacia para ouvir o áudio]</center></p>
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		<title>Os discursos ausentes: Jesus morreu em seu lugar [1]</title>
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		<pubDate>Wed, 02 Jun 2010 11:26:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fé e Crença]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[cristianismo]]></category>
		<category><![CDATA[lutero]]></category>
		<category><![CDATA[reforma protestante]]></category>

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		<description><![CDATA[Para começar por aquilo que incessantemente ignoramos ou esquecemos: a doutrina da morte substitutiva de Jesus (a noção de que Jesus morreu a fim de satisfazer em nosso lugar algum requerimento ligado à coerência interna da divindade) foi articulada pela primeira vez mil anos depois de Cristo, por Anselmo (1033-1109). Talvez seja necessário reler este [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Para começar por aquilo que incessantemente ignoramos ou esquecemos: a doutrina da morte substitutiva de Jesus (a noção de que Jesus morreu a fim de satisfazer em nosso lugar algum requerimento ligado à coerência interna da divindade) foi articulada pela primeira vez mil anos depois de Cristo, por Anselmo (1033-1109).  Talvez seja necessário reler este parágrafo.</p>
<p>A tradição cristã defendeu desde sempre, a partir de indicações do Novo Testamento, a dupla noção de que a morte de Jesus foi de alguma forma necessária, e de que a passagem de Jesus pela terra &#8211; incluindo sua vida, morte e ressurreição &#8211; ocasionou de um modo misterioso mas inequívoco a Singularidade, a plenitude dos tempos, a redenção dos homens. Porém Anselmo foi o primeiro a tomar sobre a si a tarefa de montar um sistema teológico que explicasse exatamente <em>porque</em> a cruz havia se mostrado necessária, e <em>de que modo</em> a obra de Jesus havia ocasionado a redenção.</p>
<p>E para ele tudo tinha sido uma questão de honra.</p>
<p>Segundo Anselmo, a obrigação primeira de todos os homens é devolver a Deus a honra que lhe pertence por direito. Pecar é essencialmente sonegar a honra devida a Deus: é ao mesmo tempo roubá-lo de sua dignidade e desonrá-lo. O problema está em que, como a honra é a característica mais inegociável da natureza divina, Deus não é livre para perdoar o pecado por um simples ato de vontade: &#8220;nada é menos tolerável na ordem das coisas do que uma criatura tomar do Criador a honra que lhe é devida sem repor aquilo que tomou&#8221;. O pecado gera um débito, diante do qual a reparação da dignidade divina só pode ser obtida de duas formas: [1] pela punição implacável dos devedores ou [2] pelo satisfação da dívida, o que só ocorre quando se devolve a Deus mais do que foi tirado dele.</p>
<p>A redenção, então, se resumiria nisso: o homem deve devolver a honra que roubou de Deus; como só um homem <em>deve </em>satisfazer esse débito e como só um Deus <em>é capaz</em> de efetuá-lo, foi necessário que o homem-Deus fosse obediente até a morte para reparar essa injustiça e restaurar o prestígio divino.</p>
<p>A teologia de Anselmo (que acabou sendo conhecida como doutrina &#8220;satisfacional&#8221; ou, de modo ainda mais revelador, doutrina &#8220;comercial&#8221; da redenção) é, como todas, reflexo rigoroso da época em que foi concebida. A ideia de satisfação era fundamental na justificação do sistema corrente de penitências; a ênfase no ressarcimento era característica da obsessão romana/latina com o Direito Penal; e, finalmente, os conceitos de honra ferida e de compensação da honra através da obediência eram parte essencial da estrutura ideológica do feudalismo em que Anselmo vivia<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/os-discursos-ausentes-jesus-morreu-em-seu-lugar-1/#footnote_0_2275" id="identifier_0_2275" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="&amp;#8220;O pecado&amp;#8221;, explica Anselmo, desligando o conceito do campo da &eacute;tica e deslocando-o para o da pol&iacute;tica, &amp;#8220;&eacute; uma afronta &agrave; sua infinita majestade&amp;#8221;.">1</a></sup>. </p>
<p>A primeira e maior falha na doutrina de Anselmo é também aquela que geraria mais graves consequências no futuro. Ao limitar a redenção à satisfação de um débito e ao limitar essa satisfação à obediência da cruz, Anselmo isolou a morte de Jesus do restante de sua obra de vida. A obsessão com os méritos da morte acabaria tornando a vida de Jesus irrelevante &#8211; como se sua vida não tivesse feito parte parte do seu esforço redentor. Nas palavras de Harnack: &#8220;Esse Deus-homem não precisava ter pregado e fundado um reino; nenhum discípulo precisava ter sido reunido: dele só era requerido que morresse.&#8221; </p>
<p>Em segundo lugar, se a redenção é essencialmente uma estratégia de Deus para recuperar o seu próprio prestígio, seu motivo não está fundamentado &#8211; a despeito da insistência das Escrituras neste ponto &#8211; no seu amor aos homens, mas no amor ao prestígio. Anselmo inaugurou um universo em que Deus mandou seu filho ao mundo <em>por sua causa</em>, não nossa. Ao contrário do que parecem insistir os autores bíblicos, a ênfase da reparação não está na reconciliação entre as partes, mas na restauração da mesma sorte de prestígio que um vassalo deve reconhecer ininterruptamente no suserano.</p>
<p>Finalmente, se a satisfação do débito é tão absolutamente incontornável e central na economia da redenção, em que a morte de Jesus tem a significância de uma transferência bancária, Deus é em última instância incapaz de perdoar, ao contrário do que sugerem a Bíblia e a tradição. Se o único modo de apagar a dívida é o inevitável ressarcimento, a fim de aprendermos a perdoar, desligar e esquecer devemos recorrer a um exemplo que não seja Deus. Orar pedindo &#8220;perdoa as nossas dívidas&#8221; passa a ser uma incorreção teológica e uma temeridade.</p>
<p>A doutrina de Anselmo ganhou poucos aderentes e causou quase nenhum impacto por 400 anos. Seu duvidoso mérito foi ter servido de base para a teologia da Reforma, que ecoa, será inevitável lembrar, com os mesmos temas: pagamento de débito, substituição, a redenção jurídica de uma condenação inalienável.</p>
<p>Lutero começou onde Anselmo havia começado, com a noção de que Deus não é livre para perdoar os pecados por um ato de livre vontade, porque o perdão do pecado não punido seria essencialmente injusto. Porém, ao contrário de Anselmo, que postulava que a redenção visava preservar a dignidade de Deus, Lutero sustentou que o que estava sendo protegido era a ordem moral do universo, que absolutamente requer alguém em quem se descarregar os débitos morais gerados pelo pecado.</p>
<p>Em Lutero a característica incontornável de Deus não é a sua honra, mas a sua justiça. Ao contrário do que havia sugerido Anselmo, a satisfação do pecado não pode ser obtida através da obediência, mas através da punição. </p>
<p>Se Anselmo havia drenado todo mérito da vida de Jesus e concentrado o mérito em sua morte, Lutero deu o passo seguinte nesse projeto de alienação. Para Anselmo, somos resgatados porque Jesus <em>obedeceu </em>quando nós é que deveríamos ter <em>obedecido</em>; para Lutero, somos resgatados porque Jesus foi <em>punido </em>quando nós é que deveríamos ter sido <em>punidos</em>. O mérito da morte de Jesus não foi ativo, como Anselmo havia pensado (obediência), mas meramente passivo (punição). Nas palavras de Jonathan Edwards, o moço:</p>
<blockquote><p>Ouso dizer ainda que, não apenas a redenção de Cristo não consistiu essencialmente em sua ativa obediência, como sua ativa obediência não teve qualquer papel na redenção. </p></blockquote>
<p>Se Anselmo havia conferido ao mundo um Deus obcecado com sua própria dignidade, Lutero deu ao mundo um Deus que não apenas imolou o seu Filho Amado, mas derramou sobre ele toda a ira e toda a maldição, porque sua justiça absolutamente requeria que ele descarregasse essas penas sobre alguém. Está dito na Confessão Saxã (1551) de Melâncton: &#8220;tamanha é a severidade da sua justiça que não pode haver reconciliação a não ser que a penalidade seja paga. Tamanha é a intensidade da ira de Deus que o Pai eterno <em>não pode ser aplacado</em> a não ser pela morte de seu Filho&#8221;.</p>
<p>Em conformidade com isso, Lutero deixou <a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/o-destino-eterno-de-deus/">abundantemente claro</a> que o seu Deus era limitado e definido pela justiça e não pelo amor. Seu Deus não tinha obrigação alguma de ser misericordioso, mas absolutamente não tinha como deixar de ser justo.</p>
<p>A Reforma ganhava assim um discurso &#8211; em vocabulário contemporâneo, um &#8220;diferencial&#8221;. Em Lutero a redenção encontrava uma explicação que ganharia tremenda popularidade porque refletia, num momento de absoluta transição, todo o espírito da nascente era Moderna. Ao mesmo tempo em que os homens descobriam e começavam a brincar com as Luzes que conduziriam aos movimentos nacionais e à Revolução Industrial, a Reforma oferecia uma doutrina em que a morte de Jesus não tinha apenas um significado (o que muito evidentemente não lhe bastava), mas uma lógica e um mecanismo: uma utilidade.</p>
<p>De tão imbuídos que estávamos no espírito dos tempos, tornamo-nos incapazes de enxergar que uma doutrina que nega qualquer significado ao trajeto terreno da encarnação, que não vê mérito na obediência do Filho do Homem, que postula um Deus incapaz de perdoar sem o recurso da satisfação, um Deus que é Justiça em tamanho grau que não pode dar-se ao luxo de ser Amor &#8211; não tem direito a requerer para si qualquer relação com o Deus de Jesus.</p>
<p>Porque, se em última instância o pecado não pode ser perdoado sem o gosto da satisfação, Lutero revelou um mundo em que a graça não é efetivamente graça e efetivamente não pode ser. Este é um universo em que tudo requer pagamento, em que nada pode ser livremente perdoado e em que toda condenação é inalienável (embora algumas sejam felizmente transferíveis). Na doutrina de Lutero Deus não vence a Lei, mas é vencido por ela mesmo no seu mais glorioso instante. A misericórdia não triunfa sobre o juízo, porque o juízo é de pedra e nem mesmo Deus pode conferir a ele um coração de carne.</p>
<p>O curioso está em que o Novo Testamento não nega que o pecado gera um débito; tanto em Jesus quanto em seus cronistas, a ideia de dívida é uma das figuras mais comumente associadas à noção de transgressão. Porém, ao contrário do que sugerem Anselmo e Lutero, a posição da boa nova não é de que o débito requer inescapavelmente o pagamento por parte do devedor ou de um seu substituto. Ao contrário; os evangelhos insistem que a solução da Magnanimidade para o débito não é a satisfação, mas a clemência, o indulto, o perdão: assim no batismo, assim nas parábolas, assim no &#8220;setenta vezes sete&#8221;, assim na oração do Pai Nosso, assim na absolvição dos executores diante da cruz. &#8220;A miseriórdia triunfa sobre o juízo&#8221; quer dizer isso mesmo: o amor triunfa sobre a satisfação.</p>
<p>Cada um a seu modo, Anselmo e Lutero abraçaram a Empresa Teológica, que é o esforço muito humano e contraditório de tentar defender a qualquer custo aquilo que em cada momento da história é tido como a coerência interna da divindade. A teologia nasce do amor à ordem, não do amor a Deus. Anselmo afirma claramente que sua doutrina parte do pressuposto de que o universo não deve permanecer desordenado (<em>inordinatum</em>). Não é de admirar que tanto ele quanto Lutero tenham defendido com unhas e dentes a teoria da satisfação, porque é uma doutrina que impõe alguma lógica sobre o que parece não ter razão alguma. No fim das contas o perdão puro e simples representa a maior e mais espetacular das desordens, e esse escândalo os homens moverão terra e céu para deslocar de seu campo de visão.</p>
<p>O Deus da Bíblia, ao contrário do que sugerem essas distrações, é inteiramente incapaz de encontrar <em>satisfação </em>na agonia, na punição e no castigo, que representam mais adequadamente as preferências de Moloque. Muito claramente, e disso dão testemunho todas as parábolas (que são a expressão mais precisa da realidade da redenção), o que pode satisfazer a divindade é somente a integridade voluntária, somente o retorno filial, somente o abraço incondicionado da demanda pela bondade, pela aceitação e pelo amor. É quase criminoso que tenhamos demorado tanto tempo para condenar a noção de que Deus possa se satisfazer com menos.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug041.gif"></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2008/o-amor-e-mais-severo-que-a-justica/">O amor é mais severo do que a justiça</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/o-clamor-que-provoca/">O clamor que provoca</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/a-seducao-da-ortodoxia/">A sedução da ortodoxia</a></p>
<b><small>NOTAS</small></b><ol class="footnotes"><li id="footnote_0_2275" class="footnote">&#8220;O pecado&#8221;, explica Anselmo, desligando o conceito do campo da ética e deslocando-o para o da política, &#8220;é uma afronta à sua infinita majestade&#8221;.</li></ol><div class='series_toc'><h3>Rastros dos apóstolos</h3><ol><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/como-perder-jesus-de-vista-no-livro-de-atos/' title='Como perder Jesus de vista no livro de Atos'>Como perder Jesus de vista no livro de Atos</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/ascensao-sem-tregua-das-testemunhas/' title='Ascensão sem trégua das testemunhas'>Ascensão sem trégua das testemunhas</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/a-escassez-seletiva-selecionar-e-interpretar/' title='A escassez seletiva: selecionar é interpretar'>A escassez seletiva: selecionar é interpretar</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/o-jesus-terreno-e-o-cristo-extraterrestre/' title='O Jesus terreno e o Cristo extraterrestre'>O Jesus terreno e o Cristo extraterrestre</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/com-as-mulheres/' title='Com as mulheres'>Com as mulheres</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/como-reconhecer-entre-dois-discipulos-um-apostolo/' title='Como reconhecer, entre dois discípulos, um apóstolo'>Como reconhecer, entre dois discípulos, um apóstolo</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/a-plenitude-dos-tempos/' title='A plenitude dos tempos'>A plenitude dos tempos</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/a-verdadeira-mensagem/' title='A verdadeira mensagem'>A verdadeira mensagem</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-lucidez-profetica/' title='A lucidez profética'>A lucidez profética</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-vexacao-de-satanas/' title='A vexação de Satanás'>A vexação de Satanás</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-volta-ao-que-poderia-ter-sido/' title='A volta ao que poderia ter sido'>A volta ao que poderia ter sido</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-fermentacao-da-morte/' title='A fermentação da morte'>A fermentação da morte</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-incubacao-do-espirito/' title='A incubação do espírito'>A incubação do espírito</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/formato-minimo/' title='Formato mínimo'>Formato mínimo</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/o-que-se-diz-e-o-que-nao-se-diz/' title='O que se diz é o que não se diz'>O que se diz é o que não se diz</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-linhagem-do-batismo/' title='A linhagem do batismo'>A linhagem do batismo</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/as-transgressoes-do-ceu/' title='As transgressões do céu'>As transgressões do céu</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/um-mundo-alem-do-perdao/' title='Um mundo além do perdão'>Um mundo além do perdão</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/breve-historia-do-arrependimento/' title='Breve história do arrependimento'>Breve história do arrependimento</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/arrepender-se-e-mudar-o-mundo/' title='Arrepender-se é mudar o mundo'>Arrepender-se é mudar o mundo</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/as-possibilidades-do-futuro/' title='As possibilidades do futuro'>As possibilidades do futuro</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/pecar-e-omitir-se/' title='Pecar é omitir-se'>Pecar é omitir-se</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/o-escandalo-da-hospitalidade/' title='O escândalo da hospitalidade'>O escândalo da hospitalidade</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/a-invencao-do-nao-condicionado/' title='A invenção do não-condicionado'>A invenção do não-condicionado</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/o-fim-do-mundo/' title='O fim do mundo'>O fim do mundo</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/os-recursos-necessarios/' title='Os recursos necessários'>Os recursos necessários</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/o-que-havia-sido-usurpado/' title='O que havia sido usurpado'>O que havia sido usurpado</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/o-fim-de-todos-os-governos/' title='O fim de todos os governos'>O fim de todos os governos</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/a-mesa-universal-e-as-redentoras-transgressoes/' title='A mesa universal e as redentoras transgressões'>A mesa universal e as redentoras transgressões</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/os-discursos-ausentes-ceu-e-inferno/' title='Os discursos ausentes: céu e inferno'>Os discursos ausentes: céu e inferno</a></li><li>Os discursos ausentes: Jesus morreu em seu lugar [1]</li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/os-discursos-ausentes-jesus-morreu-em-seu-lugar-2/' title='Os discursos ausentes: Jesus morreu em seu lugar [2]'>Os discursos ausentes: Jesus morreu em seu lugar [2]</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/os-discursos-ausentes-jesus-vai-voltar/' title='Os discursos ausentes: Jesus vai voltar'>Os discursos ausentes: Jesus vai voltar</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/os-discursos-ausentes-prosperidade/' title='Os discursos ausentes: prosperidade'>Os discursos ausentes: prosperidade</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/os-discursos-ausentes-jesus-te-ama/' title='Os discursos ausentes: Jesus te ama'>Os discursos ausentes: Jesus te ama</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/a-palavra-presente/' title='A Palavra presente'>A Palavra presente</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/a-disciplina-da-inclusao/' title='A disciplina da inclusão'>A disciplina da inclusão</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/o-acaso-e-o-heroi/' title='O acaso e o herói'>O acaso e o herói</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/a-divina-soltura/' title='A divina soltura'>A divina soltura</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/a-graca-dos-vasos-comunicantes/' title='A graça dos vasos comunicantes'>A graça dos vasos comunicantes</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/a-invencao-da-gentileza/' title='A invenção da gentileza'>A invenção da gentileza</a></li></ol></div>]]></content:encoded>
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		<title>A fissura do mundo: política, polarização e paralisia</title>
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		<pubDate>Wed, 12 May 2010 10:36:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[comunismo]]></category>
		<category><![CDATA[nazismo]]></category>
		<category><![CDATA[reino de deus]]></category>

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		<description><![CDATA[Porque ninguém sobrevive impunemente à guerra, muito menos a esta. A guerra é de tal natureza que, não importa quão bem-intencionado tenha sido o vencedor, o bem nunca vence no final. Os aliados vencedores ocupavam agora a Alemanha, e sua primeira medida foi a denazificação da sociedade. Ter sido nazista passou a ser o grande [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Porque ninguém sobrevive impunemente à guerra, muito menos a esta. A guerra é de tal natureza que, não importa quão bem-intencionado tenha sido o vencedor, o bem nunca vence no final.</p>
<p>Os aliados vencedores ocupavam agora a Alemanha, e sua primeira medida foi a denazificação da sociedade. Ter sido nazista passou a ser o grande estigma da vez, e nas cortes temporárias estabelecidas pelos aliados os alemães sob suspeita tinham que comprovar sua pureza ideológica durante o regime de Hitler<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/a-fissura-do-mundo-politica-polarizacao-e-paralisia/#footnote_0_2255" id="identifier_0_2255" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="Como neste mundo nenhuma ironia se perde, mesmo oficiais nazistas de alto escal&atilde;o esfor&ccedil;aram-se para obter o seu Persilscheine &amp;#8211; certificado de isen&ccedil;&atilde;o, &amp;#8211; em alguns casos das pr&oacute;prias pessoas que haviam perseguido.">1</a></sup>. A igreja teria sido a entidade ideal para fornecer esses certificados de isenção, não fosse o fato de que &#8211; como não demoraram a apontar os rebeldes da Igreja Confessante &#8211; a própria igreja não estava isenta de culpa.</p>
<p>E, numa devastação de proporções tão descomunais, onde colocar a culpa? Onde não colocá-la? Depois de que impensável reparação um oficial nazista poderia voltar a frequentar a igreja que não hesitara em perseguir? Como se poderia esperar que um militante da resistência, trazendo no corpo e na mente as marcas da tortura, admitisse um ex-nazista em sua comunhão? Como poderia uma mãe perdoar-se por ter votado no ditador que despachara o seu filho para uma guerra da qual não tinha voltado? Quem estava pronto para reconhecer sua parcela de culpa? Quem estava pronto a perdoá-la? </p>
<p>Logo ficou claro que, estando todos os ressentimentos em alta, ninguém estava pronto para abraçar o fardo da culpa; não pelos horrores do nazismo. Uma declaração do Conselho da Igreja Evangélica Alemã, publicada em outubro de 1945 (portanto poucos meses depois do final da guerra), causou indignação e controvérsia ao sugerir uma medida de culpa coletiva:</p>
<blockquote><p>Sabemos que nos encontramos não apenas numa comunidade de sofrimento, mas numa solidariedade de culpa. É com grande angústia que declaramos: através de nós incalculável sofrimento foi causado a diversos povos e terras. O que temos com frequência testemunhado diante de nossas congregações declaramos agora diante de toda a igreja: [...] somos culpados de não ter confessado de forma mais corajosa, de não ter orado de forma mais consciente, de não ter crido de modo mais jubiloso e de não ter amado de modo mais ardente. </p></blockquote>
<p>A Declaração de Culpa de Stuttgart, como ficou conhecida, foi amplamente rejeitada na Alemanha assim que saiu a público, sendo considerada traição ao povo alemão e rendição às demandas dos ocupantes aliados. Ela, afinal de contas, trazia um doloroso &#8220;através de nós&#8221;, e ninguém estava disposto a admitir envolvimento direto com a máquina da morte. Cada sobrevivente de uma guerra que havia se mostrado custosa em todas as frentes podia elencar sua própria série de circunstâncias atenuantes: estavam protegendo suas famílias, estavam apenas sendo bons cidadãos, fizeram o que puderam mas estavam respeitando as leis de seu país, os russos também eram culpados de enormes atrocidades, e assim por diante.</p>
<p>Por outro lado os militantes da resistência, que haviam assumido impensáveis riscos pessoais durante o nazismo sem o apoio da igreja institucional, consideraram a Declaração de Culpa vaga e insuficiente. Só para citar um ponto fundamental, o documento não mencionava a fulgurante omissão da igreja na questão da exclusão e do extermínio dos judeus. Se reparações eram para ser feitas, alegavam os sobreviventes da resistência, todas as culpas e culpados deveriam ser trazidos à tona, por mais doloroso que fosse o processo. O sangue de mártires como Bonhoeffer exigia pelo menos essa hombridade tardia.</p>
<p>E, como observa Barnett, o que surgia na Alemanha de pós-guerra não era uma solidariedade de culpa, mas mais propriamente uma solidariedade de silêncio a respeito do passado recente. Os da maioria conservadora achavam que o país só voltaria a avançar se a mancha horrenda do nazismo fosse deixada de lado o mais cedo possível; incomodava-os ouvir a minoria radical, que insistia que não haveria verdadeiro progresso até que o passado fosse trazido publicamente à tona e publicamente tratado.</p>
<p>Nessa discordância inicial sobre a atribuição da culpa estava a semente de uma polarização que nos anos seguintes só iria se acentuar, mesmo entre os membros da Igreja Confessante. Os próprios cristãos que haviam concordado em se opor publicamente a Hitler, crendo que estavam nisso confessando a herança de Jesus, passaram a discordar muito gravemente a respeito de qual rumo a igreja deveria tomar agora que o regime havia caído. </p>
<p>De um lado postaram-se os conservadores, que criam que a fim de honrar o sacrifício da resistência a igreja deveria almejar uma completa &#8220;restauração&#8221; &#8211; isto é, um retorno à situação ideal que a nação e a igreja viviam antes da interrupção da guerra. Esses tradicionalistas abraçaram o discurso ocidental de democracia e &#8220;liberação&#8221;: ao mesmo tempo reassumiram o seu nacionalismo e se tornaram anticomunistas. Do outro lado, os militantes não-conformistas alegaram que havia sido muito claramente a própria posição conservadora da igreja a ter possibilitado impunemente os horrores de Hitler; o único modo da igreja honrar o legado da resistência seria lutar abertamente contra uma restauração nacionalista do status quo, mantendo sua postura de oposição mesmo no novo e confortável regime nacional financiado pelos aliados. Esses oposicionistas viam que a relação entre a guerra e o discurso nazista demonstrara além de qualquer dúvida que um retorno à tradição &#8220;pátria e família&#8221; era absolutamente impensável; tornaram-se antinacionalistas e pacifistas, e passaram a pender para a esquerda.</p>
<p>Para os conservadores, os não-conformistas estavam usando a igreja como plataforma de objetivos políticos (isto é, não-espirituais); para os não-conformistas, os conservadores estavam se rendendo a uma estrutura de poder que patrocinaria a seu tempo injustiças em tudo indistinguíveis às do nazismo. Agora que os mártires estavam mortos e não podiam advogar sua própria posição, quem podia dizer qual era a verdadeira herança da igreja que se opusera a Hitler? De que lado estavam os heróis<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/a-fissura-do-mundo-politica-polarizacao-e-paralisia/#footnote_1_2255" id="identifier_1_2255" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="Barnett: &amp;#8220;Membros de igreja que haviam criticado mais abertamente o regime nazista se mostraram posteriormente mais dispostos a criticar os governos de p&oacute;s-guerra; aqueles que haviam se ajustado ao sistema durante o Terceiro Reich continuaram a faz&ecirc;-lo depois de 1945&amp;#8243;.">2</a></sup>?</p>
<p>Como se não bastasse, a polarização ideológica entre tradicionalistas e radicais ficou logo dolorosamente ilustrada no mundo real. A Grande Guerra chegara ao fim, mas o país foi sequestrado internacionalmente para se tornar o ícone planetário de uma nova estirpe de guerra, a Guerra Fria, sendo fendida segundo os critérios ideológicos de seus ocupantes. Nasciam duas Alemanhas, a República Federal Alemã &#8211; ocidental, capitalista e anticomunista &#8211; e a República Democrática Alemã &#8211; soviética, comunista e anticapitalista. E, rasgada entre as duas, em termos ideológicos e geográficos, quedava a igreja evangélica alemã.</p>
<p>A divisão política da Alemanha garantiu, entre outras coisas, que o discurso interno da igreja, dos dois lados da fronteira (e logo dos dois lados do <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Muro_de_berlim">Muro</a>) passasse a ser vivido e articulado exclusivamente a partir dessa polarização. Nenhuma das facções podia acreditar que o outro lado estava de alguma forma coadunando com o sistema: para os tradicionalistas, uma igreja comunista era uma contradição em termos<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/a-fissura-do-mundo-politica-polarizacao-e-paralisia/#footnote_2_2255" id="identifier_2_2255" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="Num primeiro momento a igreja na Alemanha oriental n&atilde;o viu verdadeira incompatibilidade entre cristianismo e socialismo; ao contr&aacute;rio, enxergou no discurso coletivista uma poss&iacute;vel alternativa &agrave; vis&atilde;o nacionalista de mundo que possibilitara a aberra&ccedil;&atilde;o nazista. Nas d&eacute;cadas que se seguiram, cerceada por um Estado cada vez mais totalit&aacute;rio, a igreja na Alemanha socialista manteve a voca&ccedil;&atilde;o de oposi&ccedil;&atilde;o inaugurada pela Igreja Confessante, tornando-se catalisadora de protesto, resist&ecirc;ncia e desobedi&ecirc;ncia civil at&eacute; a capitula&ccedil;&atilde;o do sistema.">3</a></sup>; para os não-conformistas, uma organização que se ajustasse confortavelmente a um sistema seletivo e opressor como o capitalismo era em tudo idêntica à igreja sob Hitler. Paralisada pelas limitações inerentes a esses discursos polarizadores, a igreja permaneceu durante décadas patinando entre direita e esquerda, inteiramente incapaz de sair do lugar.</p>
<p>Na narrativa de Barnett não há conversões nem redenção; conservadores morrem conservadores, militantes morrem militantes &#8211; cada um inteiramente incapaz de suportar a convivência mútua, cada um crendo que apenas o seu lado está sendo fiel à verdadeira vocação cristã e ao legado de oposição ao nazismo.</p>
<p>Os protagonistas dessa narrativa já abandonaram, em sua maioria, o palco dos acontecimentos e dos discursos, sendo que alguns morreram para pagar o preço de sua coerência interna, na esperança de poderem salvar o que para eles era futuro e que para nós é presente &#8211; mas suas conflagrações são também as nossas. De vez em quando sou lembrado, pessoalmente ou por e-mail, que cristão não deve ser de esquerda; eu mesmo, em contrapartida, posso passar horas explicando porque um cristão deveria se opor ao capitalismo. De um lado, os conservadores ainda proclamam aos quatro ventos que o ocidente defende os valores democráticos e portanto &#8220;cristãos&#8221;; por outro, os não-conformistas ainda intuem sem ruído o que afirmou Hans Iwand, militante da resistência alemã: &#8220;uma igreja confessante estará sempre na oposição, em todo partido, em todo sistema, em todo governo&#8221;. Os conservadores denunciam a teologia da libertação como lobo socialista em pele de cordeiro cristão, enquanto os esquerdistas condenam o capitalismo como abominação fascista mal ocultada. Quem está certo? Quem está realmente na oposição? Onde está o articulado questionador deste século? Quem é o verdadeiro promotor do reino?</p>
<p>Como enxergo a coisa, a história da igreja sob Hitler, bem como seus desdobramentos históricos, é capaz de acrescentar o que devem ser considerados novos fatores a essa discussão. Primeiro, deve ser capaz de estabelecer de uma vez por todas que a polarização entre esquerda e direita, na forma como a herdamos, é inteiramente condicionada; não apenas é um discurso que foi injetado externamente na tradição cristã, mas foi (e permanece sendo) utilizada por ambos os lados do espectro político como ferramenta de legitimação ideológica.  </p>
<p>Segundo, é uma história que ilustra como o discurso político conduz invariavelmente à polarização &#8211; e a polarização, por sua vez, à paralisia (isto é, a omissão, e portanto o controle). O mal que o nazismo ocasionou não se restringe aos horrores literais do Reich, mas à divisão não menos literal a que o mundo foi submetido na mão dos vencedores. Esses venderam-nos a ideia de que um estava certo e o outro errado e, tendo gerado cada um o seu antagonista, garantiram a perpetuação de seus próprios sistemas. Com a queda do bloco soviético, o sistema sobrevivente procura incessantemente antagonistas que o legitimem &#8211; e faz isso porque absolutamente <em>sabe </em>que é só a polarização que pode salvar um discurso político. É vital que haja inimigos, por isso algumas vezes será necessário criá-los: Hitler sabia-o melhor do que ninguém. Enquanto permanecer politicamente útil, a polarização entre esquerda e direita continuará nos nossos lábios.</p>
<p>Finalmente, enxergo nessa narrativa um contraste trágico, inexcusável, entre as desventuras da igreja histórica e a posição apolítica de Jesus e dos primeiros cristãos &#8211; que, por sustentarem um modo de vida que ignorava faceiramente as soluções institucionais para &#8220;o problema da sociedade&#8221;, tornaram-se imediatamente ameaça aos discursos do sistema e a seus proponentes. Os primeiros cristãos sustentavam uma justiça que é <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/o-fim-de-todos-os-governos/">intermediada através de indivíduos</a>, não de instituições &#8211; e nessa postura estabeleciam um desconcertante reino que não é deste mundo.</p>
<p>E enquanto passamos a vida tentando determinar a posição de nossos antagonistas nos extremos do espectro político, mantemo-nos a salvo de assumir nós mesmos os riscos da verdadeira subversão cristã.</p>
<p>Porque, muito claramente, todas as culpas são coletivas, e uma consequência paradoxal disso é que só são concebíveis as bravuras individuais. Não existem soluções políticas, porque todas as soluções políticas são polarizadoras, e portanto paralisantes. O cristianismo que anuncia <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/o-fim-de-todos-os-governos/">o fim de todos os governos</a> faz isso demonstrando singelamente, na sua prática inargumentável, que qualquer discurso de redenção institucional é ilusório, servindo apenas de ferramenta aos poderes e potestades para nos manter sob o seu domínio. Como ensina o homem pregado na cruz e o sangue de todos os mártires, todas as bravuras são individuais. Arrepender-se é mudar o mundo <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/arrepender-se-e-mudar-o-mundo/">a começar do nosso</a>, e <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/pecar-e-omitir-se/">pecar é omitir-se</a>.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug053.gif"></p>
<b><small>NOTAS</small></b><ol class="footnotes"><li id="footnote_0_2255" class="footnote">Como neste mundo nenhuma ironia se perde, mesmo oficiais nazistas de alto escalão esforçaram-se para obter o seu <em>Persilscheine </em>&#8211; certificado de isenção, &#8211; em alguns casos das próprias pessoas que haviam perseguido.</li><li id="footnote_1_2255" class="footnote">Barnett: &#8220;Membros de igreja que haviam criticado mais abertamente o regime nazista se mostraram posteriormente mais dispostos a criticar os governos de pós-guerra; aqueles que haviam se ajustado ao sistema durante o Terceiro Reich continuaram a fazê-lo depois de 1945&#8243;.</li><li id="footnote_2_2255" class="footnote">Num primeiro momento a igreja na Alemanha oriental não viu verdadeira incompatibilidade entre cristianismo e socialismo; ao contrário, enxergou no discurso coletivista uma possível alternativa à visão nacionalista de mundo que possibilitara a aberração nazista. Nas décadas que se seguiram, cerceada por um Estado cada vez mais totalitário, a igreja na Alemanha socialista manteve a vocação de oposição inaugurada pela Igreja Confessante, tornando-se catalisadora de protesto, resistência e desobediência civil até a capitulação do sistema.</li></ol><div class='series_toc'><h3>A igreja e o Poder</h3><ol><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/pela-alma-do-povo-omissoes-coletivas-e-bravuras-individuais/' title='Pela alma do povo: omissões coletivas e bravuras individuais'>Pela alma do povo: omissões coletivas e bravuras individuais</a></li><li>A fissura do mundo: política, polarização e paralisia</li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/capitalismo-socialismo-alienacao-e-o-capeta/' title='Capitalismo, socialismo, alienação e o capeta'>Capitalismo, socialismo, alienação e o capeta</a></li></ol></div>]]></content:encoded>
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		<title>A monarquia de Deus</title>
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		<pubDate>Mon, 10 May 2010 10:39:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[cristianismo]]></category>

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		<description><![CDATA[E por certo quando trago à lembrança que nosso vitorioso imperador presta ele mesmo louvores a este Poderoso Soberano, faço bem em seguir o seu exemplo, sabendo como sei que somente a Ele devemos o poder imperial sob o qual vivemos. Os piedosos Césares, instruídos pela sabedoria de seu pai, reconhecem-No como a fonte de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="center"><a href="http://www.baciadasalmas.com/images/2010/bits/morte-de-constantino-b.jpg"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2010/bits/morte-de-constantino.jpg" title="Clique para ampliar" /></a></p>
<p>E por certo quando trago à lembrança que nosso vitorioso imperador presta ele mesmo louvores a este Poderoso Soberano, faço bem em seguir o seu exemplo, sabendo como sei que somente a Ele devemos o poder imperial sob o qual vivemos. Os piedosos Césares, instruídos pela sabedoria de seu pai, reconhecem-No como a fonte de toda benção; o corpo militar, a entidade coletiva do povo, tanto no campo quanto nas cidades do império, juntamente com os governantes das diversas províncias, reunidos de acordo com o preceito de seu grande Salvador e Mestre, prestam-Lhe adoração. Em suma, toda a família da humanidade, de toda nação, tribo e língua, tanto coletivamente quanto em separado, por mais diversas que sejam suas opiniões a respeito de outras questões, são unânimes com respeito a essa única confissão; e, em obediência à razão implantada neles e ao impulso espontâneo e voluntário de suas próprias mentes, unem-se em invocar o único e Uno Deus.</p>
<p>E dessa forma o Todo-Poderoso Soberano confere um acréscimo tanto de anos quanto de filhos a nosso piedosíssimo imperador, e mantém ainda vigoroso e próspero seu domínio sobre as nações, como se estivesse agora mesmo brotando em seu vigor inicial. É Ele quem o nomeia para o presente festival, em que foi Ele quem o fez vitorioso sobre todo inimigo que perturbou a sua paz; é Ele quem o exibe à raça humana como genuíno exemplo de integridade.</p>
<p>E assim nosso imperador, como o radiante sol, ilumina os mais remotos súditos de seu império através da presença dos Césares, que agem como os distantes e penetrantes raios de seu próprio esplendor. Tendo ainda como que atado sob o mesmo jugo os quatro mais nobres dos Césares para servirem de corcéis da carruagem imperial, ele mesmo assenta-se exaltado e conduz o seu curso com as rédeas da sagrada harmonia e da concórdia; e, estando ele mesmo em todo o lugar e observando cada acontecimento, percorre dessa forma cada região do mundo.</p>
<p>Finalmente, investido como que com uma semelhança da soberania celeste, dirige para o alto o seu olhar, e modela seu governo terreno em conformidade com o padrão do original divino, sentindo solidez em sua conformidade à monarquia de Deus. <span style="float:right; text-align:right; width:35%; color:#7c836d; margin:12px 0 12px 12px; font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps; font-size:1.4em; line-height: 1.3em">«A democracia, que é o oposto da monarquia, pode ser descrita como anarquia e desordem.»</span>E dentre todas as criaturas da terra essa conformidade é conferida pelo Soberano universal apenas ao homem; pois apenas Ele é o autor do poder soberano, que decreta que todos devem sujeitar-se ao governo de apenas um.</p>
<p>E sem dúvida a monarquia ultrapassa em muito a toda outra constituição e forma de governo; pois a igualdade de poder da democracia, que é seu oposto, pode ser mais exatamente descrita como anarquia e desordem. Por conseguinte há um único Deus, e não dois, três ou mais: pois afirmar uma pluralidade de deuses é negar por completo o ser de Deus. Há um único Soberano, e são uma sua Palavra e sua régia Lei.</p>
<p>E o próprio Deus, como penhor da recompensa futura, confere hoje [ao imperador] coroas tricenais compostas de prósperos períodos de tempo; e agora, transcorridas as revoluções de três ciclos de dez anos, concede a toda humanidade permissão de celebrar este festival global &#8211; mais do que isso, universal.</p>
<p>E enquanto regozijam-se estes na terra, como que coroados com as flores do conhecimento divino, não deve ser exagero supor que os coros celestiais, atraídos por simpatia natural, unam seu próprio júbilo ao júbilo destes na terra; não apenas isso, que o próprio Supremo Soberano, na qualidade de gracioso pai, deleite-se na adoração de filhos obedientes, e ache assim por bem honrar com um período estendido de tempo o autor e causa dessa sua obediência; e, longe de limitar seu reinado a três ciclos decenais, estenda-o ao período mais remoto, até mesmo à distante eternidade.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><small><strong>Eusébio de Cesaréia</strong> (239-339), trechos do <em> Discurso em louvor de Constantino</em> (336), proferido no trigésimo aniversário de seu reinado. <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Constantino_I">Constantino</a> morreu no ano seguinte.</small></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug073.gif"></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/de-me-um-monoteismo-e-moverei-o-mundo/">Dê-me um monoteísmo e moverei o mundo</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/pela-alma-do-povo-omissoes-coletivas-e-bravuras-individuais/">Pela alma do povo: Omissões coletivas e bravuras individuais</a></p>
<p><small><br />
Imagem: <a href="http://www.flickr.com/photos/bibliodyssey/4501669379/">peacay</a><br />
</small></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Pela alma do povo: omissões coletivas e bravuras individuais</title>
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		<pubDate>Thu, 06 May 2010 11:50:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>
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		<description><![CDATA[Nós e o cristianismo só temos uma coisa em comum: exigimos a pessoa toda! O juiz nazista Roland Freisler a Helmut Moltke, durante o julgamento de Moltke pelo seu envolvimento no atentado de 20 de julho Eu estava a meio caminho da interminável biografia de Dietrich Bonhoeffer (que ainda não terminei) quando comecei a ler [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="right"><small><strong>Nós e o cristianismo só temos uma coisa em comum:<br />
exigimos a pessoa toda!</strong><br />
O juiz nazista Roland Freisler a Helmut Moltke,<br />
durante o julgamento de Moltke pelo seu envolvimento<br />
no <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Atentado_de_20_de_julho">atentado de 20 de julho</a></small></p>
<p>Eu estava a meio caminho da interminável biografia de Dietrich Bonhoeffer (que ainda não terminei) quando comecei a ler <em>For the soul of the people: Protestant protest against Hitler</em> [<strong>Pela alma do povo: Protesto protestante contra Hitler</strong>], da historiadora Victoria Barnett. Pus de lado esta semana a última página do livro, e posso dizer que encontrei o que não procurava &#8211; talvez justamente porque (e eis a necessária reviravolta) não encontrei o que procurava.</p>
<p>O título do livro é ao mesmo tempo enganador e significativo porque, como  a autora vai deixando agonizantemente claro,<em> não houve protesto protestante contra Hitler</em>. Não na Alemanha nazista. Não quando era necessário. Não quando um protesto poderia fazer diferença. Não com qualquer ênfase ou visibilidade, não por parte de um grupo significativo e certamente não por parte da instituição como um todo.</p>
<p>O que houve, e disso a história fornece redentora e incômoda evidência, foi protesto <em>individual</em> de protestantes contra Hitler. A instituição essencialmente nada fez, mas naquele mais vigiado, preconceituoso, intolerante e opressor dos regimes levantaram-se uns poucos heróis solitários que, precisamente como <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Dietrich_Bonhoeffer">Bonhoeffer</a>, colocaram-se publicamente em pé diante da máquina simplesmente porque não concordavam com a direção em que ela estava indo, e por causa de quem estava sendo esmagado no caminho. A maioria desses, precisamente como Bonhoeffer, não escapou com vida para testemunhar a primavera de 1945, quando o planeta despedaçado acordou perplexo para o fim da inocência mundial.</p>
<p>É uma narrativa que confirma da forma mais excruciante o que venho intuindo há muito tempo (&#8220;repita comigo: as instituições não existem, <a href="http://www.baciadasalmas.com/2007/microsalvamentos-como-salvar-o-mundo-um-instante-de-cada-vez/">só existem pessoas</a>&#8220;) sobre a insuficiência das instituições e a facilidade com que podem tornar-se carimbos coletivos que o sistema usa para endossar a injustiça. Na história como apresentada por Barnett é terrível constatar o tempo que perde, esperando alguma reação ou posicionamento da igreja formal, o punhado de pessoas realmente disposta a se levantar contra o regime &#8211; ou, talvez ainda mais importante, disposta a ajudar quem está sendo prejudicada por ele. Mesmo os militantes mais radicais da resistência protestante na Alemanha nazista demoraram anos até passarem a questionar a omissão do sistema eclesiástico em público e em privado; todos, mesmo os terrivelmente lúcidos como Bonhoeffer, simplesmente queriam que a instituição funcionasse. Muitos deles ficaram querendo até o último momento.</p>
<p>A verdade que esta parábola deixa evidente é que a instituição não existe para defender uma causa ou sua coerência ideológica interna, mas para garantir sua própria perpetuação &#8211; pelo que seu modo de operação mais fundamental é a cautela. Quando o governo nazista decretou que os judeus estavam a partir de determinado momento desclassificados para determinadas posições públicas e privadas, não ocorreu à igreja questionar esse julgamento, mesmo quando os que queriam comprovar a sua ascendência ariana recorreram em massa aos arquivos eclesiásticos, que detinham os registros de nascimento &#8211; e cujos responsáveis tiveram de trabalhar em dobro (e em alguns casos contratar assistentes e secretários) a fim de suprir a nova demanda de verificação racial gerada pelo estado.</p>
<p>Quando os judeus convertidos ao cristianismo se tornaram um embaraço inequívoco também dentro das igrejas, muitos sugeriram singelamente que uma solução amorosa seria que esses cristãos de origem &#8220;não-ariana&#8221; abrissem uma igreja só para eles, onde não representariam ameaça para outros além de si mesmos. Isso enquanto toda uma ala da igreja evangélica alemã, a dos chamados &#8220;Cristãos Germânicos&#8221;, propunha a sumária eliminação do Antigo Testamento de todas as Bíblias, de modo a sinalizar sem margem de dúvida o rompimento do cristianismo com a herança judaica.</p>
<p>Diante do ensurdecedor silêncio da igreja perante esses procedimentos, uma facção dela decidiu que era necessário postar-se publicamente contra a onda de insanidade. Esses, mais ou menos liderados por Bonhoeffer, deram a si mesmos o nome de Igreja Confessante, porque criam que confessar o nome/pessoa de Jesus implicava em manifestar-se publicamente contra toda forma de injustiça, mesmo diante de riscos institucionais e pessoais. </p>
<p>O livro de Barnett explica como essas três facções da igreja alemã (a minoria dos Cristãos Germânicos, a maioria conservadora/cautelosa e a minoria confessante) combateram umas com as outras durante o regime nazista de modo a, no fim das contas, se sujeitarem mutuamente ao mais completo silêncio diante das injustiças de Hitler.</p>
<p>Parte essencial da história, na verdade, está em que logo ficou claro que havia diferenças irreconciliáveis de convicção e de estratégia entre moderados e radicais mesmo dentro da Igreja Confessante. Essa polarização apenas se acentuou com o cerrar do cerco nazista, até que aqueles dispostos ao martírio entenderam que mesmo o movimento confessante era insuficiente para se proferir no meio do caos a Palavra, e partiram para a carreira solo no acolhimento de perseguidos ou no terrorismo secular. Entenderam que se haveria uma igreja contra a qual as portas do inferno não resistiriam, essa se manifestaria através de indivíduos e não da instituição. Porém essa sua distração com a fé no sistema custou muito para eles mesmos e para outros: quando esses poucos caras &#8211; a dissidência da dissidência &#8211; sacaram que não podiam e não deviam contar com as soluções institucionais, era essencialmente tarde demais. </p>
<p>O cerne do problema parece ter residido no fato de que, numa tradição que se estendia praticamente até Lutero, igreja e líderes eclesiásticos alemães haviam durante séculos sido incentivados a declarar mútua lealdade para com &#8220;o trono e o altar&#8221;. Nessa visão de mundo governo e igreja eram considerados sistemas independentes, mas unia-os um acordo tácito pelo qual um se comprometia a não interferir nos negócios do outro, e pelo qual ambos se comprometiam a fornecer ao outro legitimidade. Em outras palavras, a igreja não se sentia particularmente devedora a qualquer manifestação do Estado, mas sentia-se menos ainda inclinada a a interferir em negócios que diziam respeito a &#8220;outro domínio&#8221; que não o espiritual. Seu papel cristão era, muito declaradamente, pregar o evangelho e distribuir os sacramentos. Insurreição, resistência, desobediência civil &#8211; numa palavra, protesto &#8211; não desempenhavam qualquer papel no vocabulário prático da tradição protestante.</p>
<p>Essa sacrílega cumplicidade entre igreja e estado tem, evidentemente, raízes ainda mais antigas do que a Reforma, que apenas inseriu na equação o fator competição [à Igreja Católica]. Em sua manifestação original o movimento cristão era apolítico, anti-imperialista e subversivo ao ponto da anarquia funcional, mas o sucesso espetacular da sistematização do cristianismo terminou por apagar por completo os efeitos dessa herança subversiva &#8211; até que, em Constantino, igreja e império se transformaram numa única e abominável coisa. Para o historiador cristão Eusébio, escrevendo no ano 336, o imperador Constantino (o primeiro a conceder favor estatal à fé cristã) representava o modelo do governante espiritual, um &#8220;amigo de Deus&#8221; que &#8220;arranja seu governo terreno de acordo com o padrão do original divino&#8221;. Para Eusébio, Constantino deveria ser visto pelos crentes como &#8220;nosso imperador divinamente favorecido&#8221;, que havia recebido &#8220;como que uma transcrição da soberania divina&#8221; a fim de conduzir &#8220;em imitação do próprio Deus a administração dos negócios do mundo&#8221;<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/pela-alma-do-povo-omissoes-coletivas-e-bravuras-individuais/#footnote_0_2251" id="identifier_0_2251" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="Eus&eacute;bio de Cesar&eacute;ia, Discurso em louvor do imperador Constantino. Citado em Richard Fletcher, The Barbarian Conversion. Fletcher tamb&eacute;m observa que &amp;#8220;n&atilde;o &eacute; para Eus&eacute;bio que devemos recorrer para saber que Constantino assassinou seu sogro, sua esposa e seu filho&amp;#8221;.">1</a></sup> &#8211; nada muito diferente do que cristãos alemães opinariam séculos mais tarde a respeito de Hitler.</p>
<p>Nessa única transação com o Poder o movimento cristão passava de frágil a influente, de subversivo a inofensivo, de marginal a detentor do <em>status quo</em>, de incendiário a bombeiro, de incômoda ameaça aos poderes e potestades deste mundo a seu mais valioso selo de confirmação. As tremendas desventuras, grandes vergonhas e pequenas ousadias encenadas pela igreja evangélica alemã durante o regime nazista apenas demonstram o quanto há de contemporâneo e de diabólico nessa aliança, mesmo em regimes que professam oficialmente divisão entre igreja e estado. </p>
<p>É uma história que demonstra muito claramente que o problema não reside na separação entre igreja e estado, porque enquanto permanece como instituição a igreja é obviamente inseparável dos governos deste mundo. Uma instituição é basicamente uma entidade coletiva <em>que tem algo a perder</em> (mesmo que seja apenas sua própria autoridade), e o movimento cristão é por definição bíblica o movimento dos desbravadores do reino &#8211; isto é, o domínio em permanente insurreição dos que confessam não ter nada a perder, e sustentam ao mesmo tempo que o único modo de confessar isso <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/o-que-havia-sido-usurpado/">é demonstrá-lo</a>.</p>
<p>É algo ao mesmo tempo belo e terrível que a história do protesto protestante contra Hitler só tenha para contar omissões coletivas e bravuras individuais. A segunda metade do século XX e sua extensão no terceiro milênio são resultado sem escalas da experiência coletiva da Segunda Guerra, e sobreviver a ela ensinou-nos não só a questionar incessantemente qualquer ideologia (porque tememos outro Hitler), mas a duvidar da eficácia e da legitimidade de soluções intermediadas/institucionais.</p>
<p>Essa, no entanto, é uma lição de humildade que o terreno beligerante da tradição cristã irá até o último momento recusar-se a absorver. Prova disso é o que aconteceu logo depois &#8211; porque Barnett, para minha surpresa, não termina sua história com o final da guerra. E se o drama da igreja alemã sob Hitler havia confirmado minhas piores suspeitas, nenhuma expectativa me havia preparado para o que veio em seguida.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug022.gif"></p>
<b><small>NOTAS</small></b><ol class="footnotes"><li id="footnote_0_2251" class="footnote">Eusébio de Cesaréia, <em><a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/a-monarquia-de-deus/">Discurso em louvor do imperador Constantino</a></em>. Citado em Richard Fletcher, <em>The Barbarian Conversion</em>. Fletcher também observa que &#8220;não é para Eusébio que devemos recorrer para saber que Constantino assassinou seu sogro, sua esposa e seu filho&#8221;.</li></ol><div class='series_toc'><h3>A igreja e o Poder</h3><ol><li>Pela alma do povo: omissões coletivas e bravuras individuais</li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/a-fissura-do-mundo-politica-polarizacao-e-paralisia/' title='A fissura do mundo: política, polarização e paralisia'>A fissura do mundo: política, polarização e paralisia</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/capitalismo-socialismo-alienacao-e-o-capeta/' title='Capitalismo, socialismo, alienação e o capeta'>Capitalismo, socialismo, alienação e o capeta</a></li></ol></div>]]></content:encoded>
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		<title>Florianópolis em 1780</title>
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		<pubDate>Sun, 25 Apr 2010 10:21:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>

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		<description><![CDATA[Da coleção David Rumsey de mapas. Clique para ampliar. Veja também: Sv. Ekateriny e mais do Brasil na Biblioteca Pública de Nova Iorque]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Da coleção <a href="http://www.davidrumsey.com/">David Rumsey</a> de mapas. Clique para ampliar.</p>
<p align="center"><a href="http://www.23hq.com/paulobrabo/photo/5567420/original"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2010/bits/florianopolis-1780.jpg" alt="Clique para ampliar" /></a></p>
<p>Veja também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/sv-ekateriny/">Sv. Ekateriny e mais do Brasil na Biblioteca Pública de Nova Iorque</a></p>
]]></content:encoded>
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		<title>A árvore que chora</title>
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		<pubDate>Mon, 09 Nov 2009 09:31:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
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		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>

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		<description><![CDATA[Na Amazônia ela era conhecida como “a árvore que chora”, o sangue branco da floresta, e por gerações os índios haviam retalhado o seu tronco, deixando o látex gotejar em folhas, de onde podia ser moldado à mão na forma de vasos e lâminas impermeáveis à chuva. Colombo encontrou índios arauacãs jogando com estranhas bolas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="center"><a href="http://www.baciadasalmas.com/images/2009/bits/arvore-que-chora-b.jpg"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2009/bits/arvore-que-chora.jpg" title="Clique para ampliar" /></a></p>
<p>Na Amazônia ela era conhecida como “a árvore que chora”, o sangue branco da floresta, e por gerações os índios haviam retalhado o seu tronco, deixando o látex gotejar em folhas, de onde podia ser moldado à mão na forma de vasos e lâminas impermeáveis à chuva. Colombo encontrou índios arauacãs jogando com estranhas bolas que quicavam e voavam. Thomas Jefferson e Benjamin Franklin descobriram que o material era ideal para apagar anotações à lápis. Devido à crença generalizada de que se originava nas Índias Ocidentais, a substância era chamada de<em> India rubber</em>. Na verdade o produto vinha do Brasil, onde o rei de Portugal já havia estabelecido uma ativa indústria que produzia sapatos, capas e bolsas de borracha.</p>
<p>Todos esses produtos, no entanto, tinham uma grande falha. No frio a borracha tornava-se tão quebradiça que rachava como porcelana. No verão uma capa de borracha reduzia-se a um manto viscoso. Então, em 1839, <span style="float:right; text-align:right; width:35%; color:#7c836d; margin:12px 0 12px 12px; font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps; font-size:1.4em; line-height: 1.3em">Cada um deles precisava de borracha, e a única fonte era a Amazônia.</span>Charles Goodyear descobriu (inteiramente por acidente) a vulcanização, um processo que torna a borracha resistente aos elementos, transformando-a assim de curiosidade num ingrediente essencial da Era Industrial. Em 1888 John Dunlop inventou os pneus infláveis de borracha para que o seu filho pudesse ganhar uma corrida de triciclo em Belfast. Sete anos mais tarde os irmãos Michelin deixaram a crítica boquiaberta ao introduzirem pneus removíveis no rally Paris-Bordeaux. Na virada do século havia cinqüenta fábricas de automóveis nos Estados Unidos. A Oldsmobile, a mais bem sucedida, vendeu 425 carros só em 1901. Menos de uma década depois os primeiros 15 milhões de Modelos T deslizaram para fora da linha de produção de Henry Ford. Cada um deles precisava de borracha, e a única fonte era a Amazônia.</p>
<p>O repente de riqueza foi hipnotizante. Em Londres e Nova Iorque homens jogavam moedas para decidir se sairiam em busca de ouro no Klondike ou borracha no Brasil. No pico da corrida 5.000 aventureiros chegavam à Amazônia por semana. Em 1909 os negociantes estavam despachando rio abaixo 500 toneladas de borracha a cada dez dias. Em 1910 a borracha representava 40 por cento das exportações brasileiras. Um ano depois a produção atingia o seu pico máximo de 44.296 toneladas. Isso valia, numa estimativa conservadora, mais de 200 milhões de dólares. Em Pittsburgh o magnata do aço Andrew Carnegie lamentava: “eu deveria ter escolhido a borracha”.</p>
<p>Manaus, situada no coração do comércio brasileiro de borracha, transformou-se em poucos anos de um modesto vilarejo à beira do rio numa próspera cidade cuja opulência atingia níveis bizarros.<span style="float:right; text-align:right; width:35%; color:#7c836d; margin:12px 0 12px 12px; font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps; font-size:1.4em; line-height: 1.3em">Os barões da borracha acendiam charutos com notas de 100 dólares.</span> Os barões da borracha acendiam charutos com notas de 100 dólares e saciavam a sede dos seus cavalos em baldes de prata cheios de champagne francesa gelada. Suas esposas, desdenhosas das águas barrentas do Amazonas, mandavam seus linhos a Portugal para serem lavados. Prostitutas de Tangiers e de São Petesburgo chegavam a ganhar 8.000 dólares por uma noite de trabalho, tarifas que eram freqüentemente pagas em tiaras e jóias; em 1907 os cidadãos de Manaus eram os maiores consumidores <em>per capita</em> de diamantes do mundo.</p>
<p>Ao longo do território do Amazonas o comércio da borracha desencadeou um reino de terror a que não se via igual desde a consquista espanhola. No fim o que salvou a população nativa foi um ato da política imperial britânica. Em 1877 sementes de borracha trazidas pelos ingleses das florestas do Brasil chegaram à Malaia, uma terra tropical de clima similar à Amazônia, mas intocada pela praga da folha. Aqui não era necessário que as árvores crescessem tão separadas umas das outras; plantações densas e eficientes eram possíveis. Em 1909 mais de 40 milhões de pés de seringueira haviam sido plantados na Malaia (hoje em dia parte da Malásia), em intervalos de apenas seis metros, em fileiras regulares que permitiam que um único trabalhador sulcasse 400 árvores por dia. A produção dobrava a cada doze meses.</p>
<p>Com o sucesso das plantações, o boom da borracha da Amazônia implodiu. Em 1910 o Brasil produzia cerca de metade do consumo mundial; em 1918 a cifra caía para 20 por cento. Em 1940 o Brasil era responsável por apenas 1.3 por cento da produção mundial de borracha, e a nação havia se tornado importadora inveterada do produto que havia dado ao mundo.</p>
<p align="right">
<small>Wade Davis, <strong>Shadows In The Sun</strong> (1998)</small></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug041.gif"></p>
<div class='series_toc'><h3>O Brasil e os brasileiros</h3><ol><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/o-brasil-e-os-brasileiros/' title='O Brasil e os brasileiros'>O Brasil e os brasileiros</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/prodigiosa/' title='Prodigiosa'>Prodigiosa</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/dois-dolares/' title='Dois dólares'>Dois dólares</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/vara-de-condao/' title='Vara de condão'>Vara de condão</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-camara-dos-deputados/' title='A Câmara dos Deputados'>A Câmara dos Deputados</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/essa-pobreza/' title='Essa pobreza'>Essa pobreza</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/uma-especie-de-luxo/' title='&#8220;Uma espécie de luxo&#8230;&#8221;'>&#8220;Uma espécie de luxo&#8230;&#8221;</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/e-provavelmente-verdade/' title='É provavelmente verdade'>É provavelmente verdade</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-casa-da-supplicacao/' title='A casa da supplicação'>A casa da supplicação</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/perdidos-para-o-mundo/' title='Perdidos para o mundo'>Perdidos para o mundo</a></li><li>A árvore que chora</li></ol></div>]]></content:encoded>
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		<title>Conversa de um filho da Terra com um filho do capitalismo</title>
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		<pubDate>Mon, 28 Sep 2009 09:20:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>
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		<description><![CDATA[Os nossos tupinambás muito se admiram dos franceses e outros estrangeiros se darem o trabalho de vir buscar o seu arabutan. Uma vez um velho perguntou-me: &#8211; Por que vêm vocês, mairs e perôs (franceses e portugueses) buscar lenha de tão longe para se aquecerem? Vocês não tem madeira na sua terra?«E vocês por acaso [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Os nossos <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Tupinamb%C3%A1">tupinambás</a> muito se admiram dos franceses e outros estrangeiros se darem o trabalho de vir buscar o seu <em><a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Caesalpinia_echinata">arabutan</a></em>. Uma vez um velho perguntou-me:</p>
<p>&#8211; Por que vêm vocês, <em>mairs</em> e <em>perôs</em> (franceses e portugueses) buscar lenha de tão longe para se aquecerem? Vocês não tem madeira na sua terra?<span style="float:right; text-align:right; width:35%; color:#7c836d; margin:12px 0 12px 12px; font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps; font-size:1.4em; line-height: 1.3em">«E vocês por acaso precisam de muita?»</span></p>
<p>Respondi que tínhamos muita mas não daquela qualidade, e que não a queimávamos, como ele o supunha, mas extraíamos dela tinta para tingir, tal o qual eles faziam com os seus cordões de algodão e suas plumas.</p>
<p>Retrucou o velho imediatamente:</p>
<p>&#8211; E vocês por acaso precisam de muita?</p>
<p>&#8211; Sim &#8211; respondi-lhe &#8211; pois no nosso país existem negociantes que possuem mais panos, facas, tesouras, espelhos e outras mercadorias do que vocês podem imaginar, e um só deles compra todo o pau-brasil com que muitos navios voltam carregados.</p>
<p>&#8211; Ah! &#8211; retrucou o selvagem &#8211; É assombroso o que você me conta.</p>
<p>E acrescentou, depois de compreender bem o que eu lhe dissera:</p>
<p>&#8211; Mas esse homem rico de quem você me fala não morre?</p>
<p>&#8211; Sim &#8211; disse eu &#8211; morre como os outros.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><small>O missionário calvinista <strong><a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Jean_de_l%C3%A9ry">Jean de Léry</a></strong> tenta explicar <a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/a-teologia-do-capital/">o espírito do capitalismo</a> a um índio tupinambá, durante sua permanência <s>no Brasil</s> na <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Fran%C3%A7a_Ant%C3%A1rtica">França Antártica</a> em 1557.<br />
<strong>Histoire d&#8217;un Voyage Fait en la Terre du Brésil</strong>, 1578</small></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug050.gif"></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2004/a-integridade-das-coisas/">A integridade das coisas</a></p>
]]></content:encoded>
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		<title>A casa da supplicação</title>
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		<pubDate>Mon, 06 Jul 2009 08:56:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
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		<description><![CDATA[Logo que o Principe Regente Nosso Senhor com a sua Real Presença felicitou a grande e abençoada terra do Brazil, e nella estabelecêo o seu Throno, este Paiz deixou de facto de ser Colonia, por cujo motivo, ainda bem não tinha sua Alteza Real chegado ao termo da sua jornada, quando na Cidade da Bahia [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Logo que o Principe Regente Nosso Senhor com a sua Real Presença felicitou a grande e abençoada terra do Brazil, e nella estabelecêo o seu Throno, este Paiz deixou de facto de ser Colonia, por cujo motivo, ainda bem não tinha sua Alteza Real chegado ao termo da sua jornada, quando na Cidade da Bahia se apressa a quebrar as cadêas, que prendião o commercio, e a industria dos Brazileiros, abrindo os portos deste vastissimo Continente a todas as Nações amigas, e concedendo aos habitantes do Brazil a franquesa do commercio: e nesta Cidade do Rio de Janeiro, onde fixou sua Côrte, passou não só a crear todos os estabelecimentos públicos, indispensaveis ao decoro e magestade da sua Corôa, mas tambem os necessarios, e uteis para o bem, e prosperidade dos seus Vassallos nesta parte do novo Mundo. Assim, além dos arranjos da sua Real Casa, e Familia, e da erecção de huma Capella tão magnifica, e devota, Sua Alteza Real Creou os Regios Tribunaes do Desembargo do Paço, da Mesa da Consciencia, e Ordens, do Conselho da Fazenda, do Supremo Conselho Militar, e de Justiça; creou mais a Casa da Supplicação do Brazil, a Juncta do Commercio e outras Junctas Administrativas, como a do Arsenal Real do Exercito, da Academia Militar, etc.; creou tambem o Erario Regio, a Relação do Maranhão, novas Comarcas, e novas Villas; fundou o Banco do Brazil; mandou abrir estradas pelo interior do Certão até ao Pará, explorar a navegação dos rios, aldear, e civilizar os Indios barbaros e ferozes; promulgou muitas, e saudaveis leis analogas ao liberal Systema Politico, que adoptara, para favorecer, animar, e dar toda a extensão possivel ao commercio, á agricultura, á industria, ás artes, e ás sciencias; mandou estabelecer fabricas de ferro, de polvora e outras de diversos generos; concedêo a Typographia, creou a Academia Militar, e a Escóla Medico-Cirurgica; promovêo a população, já permittindo aos Estrangeiros estabelecimentos ao Brazil, recebendo com affabilidade os que se distinguem pelos seus conhecimentos uteis em quaesquer das artes liberaes, e mechanicas, sem preferencia de Nação, ou de Religião; e concedendo liberalmente sesmarias aos que se propõem exercer a lavoura; já mandando vir dos Açores por diferentes vezes muitos casaes de Ilheos, aos quais benignamente mandou prestar todos os meios de subsistencia, e além disto terras, gado, intrumentos de agricultura, privilegios, isenções; e não havendo hum só ramo de publica prosperidade, que não sentisse os beneficos efeitos da sollicitude de Sua Alteza Real para engrandecer, e fazer prosperar este Estado, como temos visto na primeira parte destas Memorias, com tudo, o seu Generoso, e Magnanimo Coração não se dava ainda por satisfeito. <em>Aliquid maius, et excelsius a Principle postulatur. </em>Sim, o Principe Regente Nosso Senhor desde muito conhecia, que o Brazil exigia da Sua Real Munificencia, e Grandeza cousa maior, e mais relevante: isto he, que ao Brazil faltava ser de Direito hum Reino, por tal conhecido, e havido entre as Nações.</p>
<p><small><em>Memorias para servir a&#8217; historia do Brazil</em><br />
Escriptas na Corte do Rio de Janeiro no anno de 1821<br />
e offerecidas a S. Magestade Elrei Nosso Senhor<br />
o Senhor D. João VI pelo<br />
<strong>Padre Luiz Gonçalves dos Sanctos</strong></small></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug014.gif"></p>
<div class='series_toc'><h3>O Brasil e os brasileiros</h3><ol><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/o-brasil-e-os-brasileiros/' title='O Brasil e os brasileiros'>O Brasil e os brasileiros</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/prodigiosa/' title='Prodigiosa'>Prodigiosa</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/dois-dolares/' title='Dois dólares'>Dois dólares</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/vara-de-condao/' title='Vara de condão'>Vara de condão</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-camara-dos-deputados/' title='A Câmara dos Deputados'>A Câmara dos Deputados</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/essa-pobreza/' title='Essa pobreza'>Essa pobreza</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/uma-especie-de-luxo/' title='&#8220;Uma espécie de luxo&#8230;&#8221;'>&#8220;Uma espécie de luxo&#8230;&#8221;</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/e-provavelmente-verdade/' title='É provavelmente verdade'>É provavelmente verdade</a></li><li>A casa da supplicação</li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/perdidos-para-o-mundo/' title='Perdidos para o mundo'>Perdidos para o mundo</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-arvore-que-chora/' title='A árvore que chora'>A árvore que chora</a></li></ol></div>]]></content:encoded>
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		<title>www.historiaambiental.org</title>
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		<pubDate>Sun, 21 Jun 2009 09:16:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Recomendações]]></category>
		<category><![CDATA[ambiente]]></category>

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		<description><![CDATA[A Rede Brasileira de História Ambiental é pilotada pelo meu amigo renascentista Alessandro Casagrande, membro do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná e obcecado pela História em estágio muito mais adiantado e terminal do que eu mesmo. Mapas históricos, expedições, documentos, fotos, vídeos, entrevistas, artigos exclusivos e reflexões apaixonadas sobre a desconcertante história ambiental do [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A <strong>Rede Brasileira de História Ambiental</strong> é pilotada pelo meu amigo renascentista Alessandro Casagrande, membro do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná e obcecado pela História em estágio muito mais adiantado e terminal do que eu mesmo.</p>
<p>Mapas históricos, expedições, documentos, fotos, vídeos, entrevistas, artigos exclusivos e reflexões apaixonadas sobre a desconcertante história ambiental do Brasil aguardam no <a href="http://www.historiaambiental.org">sáite da Rede</a>. Não sei o que você ainda está fazendo aqui.</p>
<p align="center"><a href="http://www.historiaambiental.org"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2009/bits/rbha.jpg" title="Rede Brasileira de História Ambiental" /></a></p>
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		<title>Somos mais sofisticados</title>
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		<pubDate>Wed, 17 Jun 2009 09:21:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[consumo]]></category>
		<category><![CDATA[nazismo]]></category>

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		<description><![CDATA[A leitura de Hitler teve ajuda me deixou inquieto, e ver o texto arquivado aqui na Bacia deixou-me ainda mais. Embora Edwin Black tenha publicado alguns dos livros-denúncia mais obsessivamente bem documentados dos últimos anos, quando são expostas assim a seco, despidas de qualquer bibliografia, suas conclusões soam excêntricas e improváveis ao ponto do surreal. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A leitura de <a href="http://www.baciadasalmas.com/2009/hitler-teve-ajuda">Hitler teve ajuda</a> me deixou inquieto, e ver o texto arquivado aqui na Bacia deixou-me ainda mais. Embora Edwin Black tenha publicado alguns dos livros-denúncia mais obsessivamente bem documentados dos últimos anos, quando são expostas assim a seco, despidas de qualquer bibliografia, suas conclusões soam excêntricas e improváveis ao ponto do surreal. <span style="float:right; text-align:right; width:35%; color:#7c836d; margin:12px 0 12px 12px; font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps; font-size:1.4em; line-height: 1.3em">Com os erros dos nazistas, aprendemos a ocultar melhor os nossos rastros.</span>Como acreditar que o nazismo existiu e persistiu por mais de uma década na forma como ele o descreve? Como crer que eram seres humanos os envolvidos naquela transação?</p>
<p>Pesquisas como as de Black fornecem indicações de que não é à toa que associamos, inconscientemente, as atrocidades do nazismo aos pecados desumanizadores da indústria. Era ainda 1943 e o desenho animado <em>Der Fuehrer&#8217;s Face</em>, dos estúdios Disney, já <a href="http://www.baciadasalmas.com/der-fuehrer">mostrava o Pato Donald vivendo na Alemanha nazista</a> um pesadelo proletário debaixo de roldanas, esteiras, engrenagens e metas de produção. </p>
<p>Porém essas eram imagens, iconografias &#8211; talvez por demais inclementes, tendo em vista que os norte-americanos viviam naquela época debaixo de limites semelhantes e semelhantes promessas. Foram necessárias multidões áridas de documentos, como os levantados por Edwin Black, para mostrar sem equívoco o fundamento e as <a href="http://www.baciadasalmas.com/2009/hitler-teve-ajuda">estranhas irmandades</a> por trás da representação.</p>
<p>Hoje podemos concluir, com horrenda sobriedade, que o nazismo era uma indústria de morte e exclusão não porque era regido por loucos sem rédea, mas porque era regido literalmente pelo espírito do capitalismo. </p>
<p>Henry Ford, o americano obcecado com os méritos da performance, engendrou a moderna linha de montagem e dessa forma gerou tudo no nosso mundo: de tuíteres a iPhones, de <a href="http://www.e-brabo.com">ilustradores que vendem seu trabalho pela internet</a> a <a href="http://www.nlcnet.org/article.php?id=613">fábricas chinesas que mais parecem campos de concentração</a>. Adolf Hitler, o austríaco obcecado com os méritos da performance, tinha um retrato de Henry Ford em seu escritório de Munique, e dois anos antos de tornar-se chanceler revelou numa entrevista ter Henry Ford &#8220;como sua inspiração&#8221;.</p>
<p>Essa mostrou ser uma inspiração muito literal. Os campos de extermínio assemelham-se a fábricas de matar porque foram projetados tomando como modelo fábricas de verdade. Tudo nos campos nazistas foi inspirado nas luzes do recém-canonizado capitalismo industrial: as metas, a obsessão com a produtividade e com a limpeza, as chaminés, a sincronia na entrada de insumos, a eliminação eficiente de dejetos.</p>
<p>Porém Henry Ford e Adolf Hitler tinham em comum mais do que uma simpatia pela eficiência e um interesse nos prêmios da mecanização. Ambos compartilhavam de uma convicção mais essencial e mais próxima à raiz dos seus discursos: a crença de que uma raça superior, que fosse capaz de demostrar sua superioridade pela excelência de seu desempenho, merecia privilégios muito evidentes que todos os inferiores deveriam respeitar. Este, que prega o mérito auto-evidente do desempenho superior, não é apenas o espírito do nazismo, como demonstrado pela História, mas o espírito do capitalismo, como ocultado por ela.</p>
<p>Desprezamos Hitler porque sabemos que a superioridade racial que Hitler queria ver premiada não tinha fundamento científico. Sabemos hoje que ser ariano é não ser melhor do que ninguém. A superioridade pregada por Hitler era falsa, portanto as atrocidades realizadas em seu nome declaramos ilegítimas.</p>
<p>Aceitamos de bom grado o capitalismo porque sabemos que a superioridade que ele quer ver premiada tem fundamento no bom senso e na <a href="http://www.baciadasalmas.com/2004/as-variedades-da-experiencia-capitalista">igualdade de oportunidades</a>; ser trabalhador é, evidentemente, ser melhor de quem não quer trabalhar ou não foi capaz de mostrar o seu valor. Acreditamos que a superioridade pregada pelo capitalismo é verdadeira, por isso são legítimas as atrocidades realizadas em seu nome. Quem demonstra sua superioridade pela excelência do seu desempenho merece privilégios muito evidentes que todos os inferiores devem respeitar &#8211; e crendo nisso nos cremos muito diferentes de Hitler e tantas vezes mais esclarecidos do que ele, embora fosse essencialmente nisso que ele acreditava e sendo isso o que o movia.</p>
<p>A questão é que depois dos erros muito evidentes e públicos do nazismo aprendemos a ocultar melhor os nossos rastros. Onde os nazistas deixaram pontas soltas, somos mais sofisticados. Ninguém deverá ser capaz de rastrear nossos cadáveres, e nossos campos de concentração produzem oportunidades ao invés de montes de cinza.</p>
<p>A quem ousar acusar o capitalismo de alguma injustiça estaremos prontos a lembrar que o socialismo (como se capitalismo selvagem e socialismo cego fossem as únicas opções no mercado de destinos econômicos) gerou injustiças maiores. Aos que ousarem denunciar as condições desumanas de pobres e subempregados, lembraremos que as últimas décadas testemunharam um sensível aumento nos padrões de vida do mundo inteiro, e que mesmo os mais miseráveis estão sendo de alguma forma beneficiados.</p>
<p>O que permanecemos ocultando habilmente, com uma habilidade que os comparsas de Hitler saberiam admirar, é que a raça superior continua a desfrutar de seus merecidos privilégios. O rótulo é diverso, mas permanecemos fundamentados na mesma ideologia e instruídos na mesma tarefa de exclusão e morte.</p>
<p><span style="float:left; text-align:left; width:35%; color:#7c836d; margin:12px 12px 12px 0px; font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps; font-size:1.4em; line-height: 1.3em">20% da população do planeta consomem 80% dos recursos dele.</span>Poderíamos de comum acordo decidir ignorar, por exemplo, que 2% da população mundial retém metade da riqueza do mundo. Esqueçamos isso. Sou o primeiro a admitir que &#8220;riqueza&#8221; é um conceito muito fluido, e que o valor do dinheiro é puramente convencional. Em termos estritos, dinheiro não vale nada.</p>
<p>Muito mais grave, mais irreversível e criminosa é a realidade subjacente, o fato de que 20% da população do planeta consomem 80% dos recursos disponibilizados por ele &#8211; coisas como <a href="www.baciadasalmas.com/2009/esta-e-sua-casa">água potável, ar respirável, madeira nativa, minério, metais, petróleo e biodiversidade</a>.</p>
<p>Os premiados pela performance &#8211; nós, os membros da <a href="http://www.baciadasalmas.com/2004/a-raca-superior">raça superior</a> &#8211; sentimo-nos autorizados para não apenas confiscar, mas consumir numa transação sem volta os recursos que pertencem a todos.</p>
<p>Este é o nosso crime, e com o tempo os tribunais da sanidade saberão nos encontrar.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug024.gif"></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="www.baciadasalmas.com/2007/camera-lenta">Em câmera lenta</a><br />
<a href="www.baciadasalmas.com/2006/o-culto-da-performance">O culto da performance</a></p>
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		<title>É provavelmente verdade</title>
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		<pubDate>Mon, 15 Jun 2009 09:43:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>

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		<description><![CDATA[Diz-se que aqui os padrões morais do clero são grandemente depravados, e é provavelmente verdade. Homens como os sacerdotes católicos, privados de todas as graças positivas da vida social, têm apenas os recursos da ciência e da literatura para combater suas paixões e vícios. Aqui, no entanto, os próprios nomes de literatura e ciência são [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Diz-se que aqui os padrões morais do clero são grandemente depravados, e é provavelmente verdade. Homens como os sacerdotes católicos, privados de todas as graças positivas da vida social, têm apenas os recursos da ciência e da literatura para combater suas paixões e vícios. Aqui, no entanto, os próprios nomes de literatura e ciência são quase totalmente desconhecidos. O colégio e a biblioteca de Olinda estão em franco declínio. Em todo o estado de Pernambuco, cuja população totaliza 70.000 almas, há um único vendedor de livros. Um jornal razoavelmente bem escrito, do qual não fui capaz de encontrar o primeiro número, foi lançado em março, mas sinto dizer que esse único periódico não tem circulado há dois meses. Ao que parece se editor tornou-se secretário do governo, não tendo mais tempo para supervisionar a imprensa.<br />
<small><strong>29 de setembro de 1821</strong></small></p>
<p align="right"><small>Maria Graham, <strong>Journal of a Voyage to Brazil</strong><br />
Londres, 1824</small></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug022.gif"></p>
<div class='series_toc'><h3>O Brasil e os brasileiros</h3><ol><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/o-brasil-e-os-brasileiros/' title='O Brasil e os brasileiros'>O Brasil e os brasileiros</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/prodigiosa/' title='Prodigiosa'>Prodigiosa</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/dois-dolares/' title='Dois dólares'>Dois dólares</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/vara-de-condao/' title='Vara de condão'>Vara de condão</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-camara-dos-deputados/' title='A Câmara dos Deputados'>A Câmara dos Deputados</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/essa-pobreza/' title='Essa pobreza'>Essa pobreza</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/uma-especie-de-luxo/' title='&#8220;Uma espécie de luxo&#8230;&#8221;'>&#8220;Uma espécie de luxo&#8230;&#8221;</a></li><li>É provavelmente verdade</li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-casa-da-supplicacao/' title='A casa da supplicação'>A casa da supplicação</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/perdidos-para-o-mundo/' title='Perdidos para o mundo'>Perdidos para o mundo</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-arvore-que-chora/' title='A árvore que chora'>A árvore que chora</a></li></ol></div>]]></content:encoded>
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		<title>Hitler teve ajuda</title>
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		<pubDate>Mon, 08 Jun 2009 09:20:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Quase Ciência]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[judaísmo]]></category>
		<category><![CDATA[nazismo]]></category>

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		<description><![CDATA[Adolf Hitler foi completamente responsável pelo Holocausto. Mas Hitler teve ajuda. Henry Ford e os Protocolos dos Sábios de Sião Quem forneceu a Hitler a base inicial a fim de trasmutar séculos de ódio religioso no novo antisemitismo político do século vinte? Foi Henry Ford, agindo diretamente através da Ford Motor Company. Em 1920 o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Adolf  Hitler foi completamente responsável pelo Holocausto. Mas Hitler teve ajuda.</p>
<p align="center"><a href="http://www.baciadasalmas.com/images/2009/bits/rockefeller-center-b.jpg"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2009/bits/rockefeller-center.jpg" title="Rockefeller Center | Clique para ampliar" /></a></p>
<p><strong>Henry Ford e os Protocolos dos Sábios de Sião</strong></p>
<p>Quem forneceu a Hitler a base inicial a fim de trasmutar séculos de ódio religioso no novo antisemitismo político do século vinte? Foi Henry Ford, agindo diretamente através da <em>Ford Motor Company</em>. Em 1920 o crédulo porém arrebatado Ford adquiriu um texto datilografado forjado, que convenceu-o da existência de uma conspiração judaica maléfica e internacional, determinada a subjugar o mundo pela manipulação indireta de governos, jornais e sistemas econômicos. <span style="float:right; text-align:right; width:35%; color:#7c836d; margin:12px 0 12px 12px; font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps; font-size:1.4em; line-height: 1.3em">&#8220;Tenho Henry Ford como minha inspiração.&#8221;<br /></br>Adolf Hitler</span>Essas revelações constavam do notório &#8211; e inteiramente falso &#8211; <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Os_Protocolos_dos_S%C3%A1bios_de_Si%C3%A3o">Os Protocolos dos Sábios de Sião</a>.</p>
<p>A fim de abastecer o mundo com essa nova modalidade de ódio aos judeus, Ford comprou um jornal falido, o <em>Dearborn Independent</em>, que serializou <em>Os Protocolos</em> por 91 semanas. Sua empresa em seguida publicou a série sob a forma de livro, com o título <em>O Judeu Internacional</em> (<em>The International Jew</em>). Usando as técnicas de produção de massa, Ford pode expandir o alcance dos <em>Protocolos</em>, transformando-o de panfleto insignificante circulado entre uns poucos numa sensação nacional com tiragem de 500.000 exemplares. Ao devotar a força nacional de vendas e os ativos da <em>Ford Motor Company</em> à tarefa da hostilidade, Henry Ford foi o primeiro a organizar o antisemitismo político nos Estados Unidos. Acabou tornando-se, na verdade, herói dos antisemitas do mundo inteiro.</p>
<p>Na Alemanha, onde Ford era venerado, <em>O Judeu Internacional</em> foi traduzido e publicado em fevereiro de 1921. O livro conheceu seis edições em dois anos, com milhares de exemplares impressos. O livro de Ford tornou-se rapidamente a bíblia dos antisemitas alemães e das primeiras encarnações do partido nazista. Os nazistas distribuíam a obra país afora &#8220;aos borbotões&#8221;.</p>
<p>Entre os alemães que foram profundamente influenciados pelo livro estava Adolf Hitler. O Führer leu a obra pelo menos dois anos antes de escrever o <em>Mein Kampf</em>. E deixa claro que leu. No capítulo 11 do<em> Mein Kampf</em> Hitler escreveu: &#8220;Toda a existência deste povo é baseada numa mentira contínua, como demonstrado incomparavelmente pelos <em>Protocolos dos Sábios de Sião</em>. Com segurança absolutamente aterrorizadora, esses documentos revelam a natureza e a atividade do povo judeu, bem como seus objetivos últimos&#8221;. Hitler descreveu Ford como &#8220;seu herói&#8221;. Não é de admirar que Ford tenha recebido a Medalha da Águia Alemã de Hitler, numa suntuosa cerimônia em Berlim. A medalha era reservada para estrangeiros que prestavam serviços especialmente valiosos ao Reich.</p>
<p><strong>O Instituto Carnegie e a ciência americana do melhoramento genético</strong></p>
<p>Quem forneceu a Hitler as argumentações médicas pseudocientíficas que justificaram uma guerra a fim de gerar uma raça superior loira e de olhos azuis com o dever de obliterar as demais raças, tidas como inferiores? Foi o Instituto Carnegie (a encarnação filantrópica da maior fortuna de aço dos Estados Unidos), que propagou a <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Nazismo_e_ra%C3%A7a">eugenia</a>, a letal ciência racial americana. A partir de 1911 os cientistas do Instituto Carnegie passaram a defender com sucesso a noção de que os milhões ao redor do mundo que não se conformavam ao estereótipo nórdico do loiro de olhos azuis não eram dignos de existir sobre a terra.</p>
<p>A ciência norte-americana da eugenia acreditava que traços sociais como a pobreza, a prostituição e a preguiça eram determinados geneticamente. A permanência de linhagens racialmente inferiores &#8211; uma faixa ampla, que abrangia 90 por cento da humanidade &#8211; devia ser combatida através de vários métodos. Esses métodos incluíam meticulosa identificação, apreensão de bens, proibição ou anulação de casamento, esterilização cirúrgica forçada, segregação em campos e câmaras de gás operadas pelo governo. Numerosas propostas de melhoramento genético foram promulgadas sob a forma de lei em 27 estados americanos. Em última análise, 60.000 pessoas foram esterilizadas a força, milhares foram encarceradas em campos estatais e inúmeras tiveram suas uniões civis anuladas, sendo, em alguns casos, sujeitas a negligência médica organizada e letal. O juiz Oliver Wendell Holmes, da Suprema Corte norte-americana, conferiu a essas práticas o status de lei legítima do país, declarando justificados atos dessa natureza. &#8220;Será melhor para todo o mundo&#8221;, escreveu Holmes, &#8220;se ao invés de esperar para executar uma prole degenerada pelos seus crimes, ou deixar que morram de fome por sua imbecilidade, a sociedade passe a impedir os que são manifestamente incapazes de darem continuidade à sua linhagem&#8221;.</p>
<p>O Instituto Carnegie e o movimento patrocinado por ele gastou milhões de dólares na tarefa de propagar as teorias americanas de melhoramento genético na Alemanha de pós-Primeira-Guerra, financiando programas de ciência racial em universidades e outras instituições oficiais. Essas teorias incluiam a idéia de que os judeus deviam ser eliminados.</p>
<p>Enquanto estava na prisão Hitler estudou com atenção a eugenia norte-americana. No <em>Mein Kampf</em> ele insistiria: &#8220;Existe hoje em dia um único Estado em que são detetáveis iniciativas hesitantes no sentido de uma concepção de qualidade superior. Esse Estado não é, obviamente, nossa modelar República Alemã, mas os Estados Unidos.&#8221; Hitler diria com orgulho a seus camaradas: &#8220;Tenho estudado com grande interesse as leis de diversos estados norte-americanos com respeito à prevenção da reprodução de gente cuja prole se mostraria, com toda a probabilidade, de pouco valor ou mesmo prejudicial à qualidade da raça&#8221;. Hitler teve apenas de substituir o termo norte-americano &#8220;nórdico&#8221; pelo termo nazista &#8220;ariano&#8221;, medicalizando em seguida seu antisemitismo virulento e pré-existente e seu fascismo nacionalista, a fim de formular o conceito da raça superior de cabelos loiros e olhos azuis glorificada por ele no seu <em>Mein Kampf</em>.</p>
<p>Hitler estava de tal modo mergulhado na ciência racial norte-americana que escreveu uma carta de fã entusiasmado ao lider eugenista americano Madison Grant, chamando sua obra de &#8220;minha bíblia&#8221;.</p>
<p>O terceiro Reich implementou todos os princípios eugenistas norte-americanos com enormes ferocidade e velocidade, respaldado por um exército conquistador. &#8220;Enquanto estamos aqui pisando em ovos&#8221;, incensou Leon Whitney, secretário executivo da Sociedade Norte-Americana de Eugenia, &#8220;os alemães estão dando nome aos bois&#8221;. Conforme insistia Rudolf Hess, adjunto de Hitler, &#8220;o nazismo nada mais é do que biologia aplicada&#8221;.</p>
<p><strong>A Fundação Rockefeller e as experiências com gêmeos</strong></p>
<p>Quem forneceu aos odiosos experimentos médicos de eugenia de Hitler os recursos para cometer crimes atrozes contra gêmeos inocentes? Foi a Fundação Rockefeller, a encarnação filantrópica da <em>Standard Oil</em>. A Fundação agiu como parceira integral do Instituto Carnegie no estabelecimento da eugenia na América e na Alemanha. Na busca do aperfeiçoamento da raça superior, milhões de dólares da era da Depressão foram transferidos por Rockfeller para os médicos mais antisemitas de Hitler. Nessa busca, uma espécie de cobaia era desejada acima de todas as outras: irmãos gêmeos.</p>
<p>Rockefeller patrocinou o principal eugenista de Hitler, Otmar Verschuer, e seus insaciáveis programas de experimentação em irmãos gêmeos. Acreditava-se que os gêmeos traziam em si o segredo da multiplicação industrial do arquétipo racial ariano e da rápida eliminação dos biologicamente indesejáveis. Verschuer tinha um assistente, Josef Mengele. O patrocínio de Rockefeller cessou durante a Segunda Guerra, mas àquela altura Mengele já havia se transferido para Auschwitz a fim de dar continuidade de forma monstruosa à sua pesquisa com gêmeos. Sempre o métodico eugenista, Mengele continuou mandando semanalmente minuciosos relatórios clínicos para Verschuer.</p>
<p><strong>A <em>General Motors</em> e a Blitzkrieg</strong></p>
<p>Quem tirou Hitler de cima de cavalos e colocou seus exércitos letais em caminhões de modo a travar sua <em>Blitzkrieg </em>&#8211; guerra relâmpago &#8211; contra a Europa? Foi a <em>General Motors</em>, que fabricou o <a href="http://www.battlegroupsouth.com/vehicles4.html">caminhão Blitz</a> para a <em>Blitzkrieg</em>. Na qualidade de maior fornecedora de carros e caminhões para o Reich, a GM tornou-se parceira indispensável da guerra de Hitler. Desde as primeiras semanas do Terceiro Reich o presidente da GM, Alfred Sloan, dedicou sua companhia e sua divisão alemã, a Opel, a motorizar uma Alemanha que ainda dependia substancialmente da tração animal, preparando-a dessa forma para a guerra. Antes disso a Alemanha tinha sido um país devotado a uma legendária engenharia automotiva, mas tratavam-se de carros construídos um a um, artesanalmente. A GM trouxe a produção de massa até o Reicch, convertendo-a de país puxado a cavalo a potência motorizada.</p>
<p>Sloan e a GM conscientemente prepararam a <em>Wehrmacht</em> para travar a guerra na Europa. Detroit chegou a tranferir volumosos estoques de peças de substituição dos veículos Blitz para a fronteira da Polônia na semana que antecedeu a invasão de 1º de setembro de 1939, de modo a facilitar a <em>Blitzkrieg</em>.</p>
<p>Fazendo uso de uma camada dissimulatória de reuniões a portas fechadas e comitês executivos especiais, Sloan manteve o papel da GM em segredo o quanto foi possível. Quando a Opel precisava de peças ou moeda estrangeira, Detroit mandava que outras subsidiárias internacionais prestassem socorro de forma clandestina.</p>
<p>Além de motorizar a força militar, Sloan encetou programas maciços de re-emprego, a fim de ajudar a reviver a economia nazista &#8211; isso enquanto a companhia recusava-se a recontratar americanos atingidos pela devastação da Depressão. O sucesso da GM gerou diretamente a necessidade da <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Autobahn">Autobahn</a>. O executivo chefe da GM na Alemanha, James Mooney, recebeu a mesma medalha de Ford, por serviços prestados ao Reich.</p>
<p><strong>A IBM e a solução final</strong></p>
<p>Quem projetou sob medida e planejou em conjunto as soluções nazistas para o problema dos judeus? Foi a <em>International Business Machines</em>, inventora do <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Hollerith">cartão perfurado Hollerith</a>, precursor do computador contemporâneo. A IBM desfrutava na época de completo monopólio sobre tecnologia de informação. Sob a microgerência de seu presidente, Thomas Watson, e anunciando-se como &#8220;uma empresa de soluções&#8221;, em 1933 a IBM alcançou o novo regime de Hitler, oferecendo-se para organizar e sistematizar qualquer solução que o Reich desejasse, inclusive soluções para o problema dos judeus.</p>
<p>Com a parceria da IBM o regime de Hitler consegiu automatizar e acelerar substancialmente todas as fases do Holocausto de doze anos: identificação, exclusão, confisco, guetoização, deportação e até mesmo o extermínio.</p>
<p>Como fazia com qualquer cliente, a IBM simplesmente perguntou ao regime de Hitler qual era o resultado desejado. Em seguida os engenheiros da companhia projetaram sob medida os sistemas de cartões perfurados que gerassem esses resultados. Em primeiro lugar, determinar quem era judeu e onde os judeus moravam &#8211; isso com exatidão. A solução da IBM: um censo racial e religioso projetado e tabulado pela companhia. Em segundo lugar, uma vez identificados, a expulsão sistemática dos judeus de todos os segmentos da sociedade. A solução da IBM: a criação de bases de dados que tabulavam e cruzavam as informações de toda sorte de organizações e comunidades, de relações de membros a listas de casamentos, mortes e nascimentos.</p>
<p>Em terceiro lugar, o confisco dos bens dos judeus. A solução da IBM: todos os bancos e instituições financeiras faziam uso dos cartões da IBM, que podiam ser programados para procurar nomes de judeus e suas contas bancárias para confisco. Quarto, a guetoização dos judeus. A solução da IBM: tranferir de modo cruzado quadros inteiros de famílias de suas residências atuais para para cortiços abarrotados, de modo que num único dia milhares de pessoas pudessem ser deslocadas do ponto A para o ponto B. Quinto, a deportação dos judeus. A solução da IBM: a maior parte das estradas de ferro européias tinha suas rotas determinadas pelos cartões perfurados da IBM. Estações especiais deveriam ser criadas, de modo a garantir que trens com vagões de gado pudessem ser disponibilizados para transportar judeus para os campos. Quando entravam, esses trens estavam abarrotados de pessoas impotentes. Quando saíam, estavam vazios.</p>
<p>Sexto: os judeus deveriam ser mortos de forma industrial e sistemática. Primeira solução da IBM: estabelecer diferentes códigos para a classificação de cada categoria de prisioneiros em campos de concentração. O <em>Código de Prisioneiro</em> 8 designava um judeu. O <em>Código de Status</em> 6 designava morte pela câmara de gás. Desse modo, o Reich sabia sempre quantos judeus estava matando. Nos campos de extermínio, quase todos os judeus eram mortos na chegada &#8211; pela cordenação de um sistema desenhado pela IBM, que regulava em sincronia letal a saída das vítimas dos guetos e sua viagem de trem até os campos de morte. Segunda solução da IBM: criar o programa de &#8220;extermínio por exaustão&#8221; através de programas de cartão perfurado que faziam a correspondência entre as necessidades de trabalho do Reich, onde quer que surgissem, e as habilidades dos prisioneiros judeus. Uma vez transferidos para o local de trabalho, os judeus trabalhavam até morrer.</p>
<p>Havia uma central de atendimento ao consumidor IBM em cada campo de concentração.</p>
<h5>* * *</h5>
<p>Não fosse o continuado e consciente envolvimento de icônicas corporações norte-americanas na guerra de Hitler contra os judeus, a velocidade, o formato e as estatísticas do Holocausto como o conhecemos teriam sido dramaticamente diferentes. Ninguém sabe dizer quão diferentes seriam, mas as dimensões astronômicas nunca teriam sido atingidas. Em sua maior parte, os colaboradores corporativos de Hitler nos Estados Unidos vêm tentando há muito tempo obscurecer ou ocultar os detalhes de sua conivência, fazendo uso das consagradas ferramentas de desinformação corporativa, contribuições financeiras e análises críticas compradas e pagas a historiadores. Porém, numa era em que as pessoas deixaram de acreditar nas grandes corporações, os pontos podem ser finalmente ligados, de modo a desvendar o perfil de uma indispensável conexão nazista.</p>
<p align="right"><small>Edwin Black, autor de <strong>A IBM e o Holocausto</strong>, em resumo do seu <a href="http://www.nazinexus.com">A Conexão Nazista</a> </small></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug046.gif"></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2009/somos-mais-sofisticados">Somos mais sofisticados</a></p>
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		<title>Essa pobreza</title>
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		<pubDate>Mon, 20 Apr 2009 09:51:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[&#8220;Cada colônia neste vasto continente&#8221;, afirma Abbé Raynal, &#8220;tem seus próprios idiomas, mas nenhum desses possui palavras que expressem idéias gerais ou abstratas. Essa pobreza de linguagem, comum a todas as nações da América do Sul, representa prova convincente do diminuto progresso alcançado pela compreensão humana nesses países&#8221;. A History of Brazil, Andrew Grant, M.D. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>&#8220;Cada colônia neste vasto continente&#8221;, afirma Abbé Raynal, &#8220;tem seus próprios idiomas, mas nenhum desses possui palavras que expressem idéias gerais ou abstratas. Essa pobreza de linguagem, comum a todas as nações da América do Sul, representa prova convincente do diminuto progresso alcançado pela compreensão humana nesses países&#8221;.</p>
<p align="right"><small><strong>A History of Brazil,</strong> Andrew Grant, M.D.<br />
London, Henrt Colburn, New Bond Street, 1809</small></p>
<div class='series_toc'><h3>O Brasil e os brasileiros</h3><ol><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/o-brasil-e-os-brasileiros/' title='O Brasil e os brasileiros'>O Brasil e os brasileiros</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/prodigiosa/' title='Prodigiosa'>Prodigiosa</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/dois-dolares/' title='Dois dólares'>Dois dólares</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/vara-de-condao/' title='Vara de condão'>Vara de condão</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-camara-dos-deputados/' title='A Câmara dos Deputados'>A Câmara dos Deputados</a></li><li>Essa pobreza</li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/uma-especie-de-luxo/' title='&#8220;Uma espécie de luxo&#8230;&#8221;'>&#8220;Uma espécie de luxo&#8230;&#8221;</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/e-provavelmente-verdade/' title='É provavelmente verdade'>É provavelmente verdade</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-casa-da-supplicacao/' title='A casa da supplicação'>A casa da supplicação</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/perdidos-para-o-mundo/' title='Perdidos para o mundo'>Perdidos para o mundo</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-arvore-que-chora/' title='A árvore que chora'>A árvore que chora</a></li></ol></div>]]></content:encoded>
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		<title>O Brasil e os brasileiros</title>
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		<pubDate>Mon, 15 Dec 2008 09:08:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[&#8220;Paciência&#8221;, &#8220;amanhã&#8221;, &#8220;espere um pouco!&#8221; Essas palavras em ação contemplam nos olhos, em todo lugar do Brasil, o anglo-americano nervoso, irritado, impaciente e estressado. O ex-governador Kent residiu por quatro anos no Rio de Janeiro como cônsul norte-americano, e era sua deliberada opinião que o Brasil é o melhor lugar do mundo para abrandar um [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="center"><a href="http://www.baciadasalmas.com/images/2008/bits/o-brasil-e-os-brasileiros-b.png"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2008/bits/o-brasil-e-os-brasileiros.png" title="Clique para ampliar" /></a></p>
<p>&#8220;Paciência&#8221;, &#8220;amanhã&#8221;, &#8220;espere um pouco!&#8221; Essas palavras em ação contemplam nos olhos, em todo lugar do Brasil, o anglo-americano nervoso, irritado, impaciente e estressado. O ex-governador Kent residiu por quatro anos no Rio de Janeiro como cônsul norte-americano, e era sua deliberada opinião que o Brasil é o melhor lugar do mundo para abrandar um ianque fervoroso, fazedor de discursos e agitador da comunidade.</p>
<p>&#8220;Há para o homem maduro, calado e temperado, que já presenciou muito dos aspectos brutos da humanidade, algo de agradável e gratificante nos hábitos tranquilos, calmos e silenciosos dos brasileiros. Passar um ano inteiro sem estar presente a uma convenção partidária ou manifestação, ouvir nada sobre eleições, não presenciar nenhuma aglomeração de pessoas, não ler cartazes incitando a reivindicação de direitos, não ouvir discursos nas esquinas ou palestras em jantares, jamais ser importunado a participar de uma passeata política&#8230;&#8221;</p>
<h5>* * *</h5>
<p>Informaram-me no Rio que alguns anos antes o sr. Gordon, de Boston, então cônsul norte-americano, ofereceu ao governo brasileiro para imprimir ao seu serviço postal o mesmo grau de eficiência que existe nos Estados Unidos. Sua oferta não foi aceita, porque os brasileiros, embora mais progressivos do que a maioria dos povos sul-americanos, herdam ainda muitas das características de seus ancestrais portugueses, e uma proeminente dessas é a aversão à mudança (. . .) Uma vez Adão pediu permissão para visitar a terra, e um anjo foi designado para acompanhá-lo. Porém tudo lhe pareceu tão mudado e estranho que em lugar algum Adão sentiu-se em casa, até chegar à Portugal. &#8220;Agora sim&#8221;, exclamou ele, &#8220;ponha-me no chão. Tudo aqui está como eu deixei&#8221;.</p>
<h5>* * *</h5>
<p>A gôndola [do Rio de Janeiro] em tudo se assemelha ao seu ônibus, exceto que nenhum condutor a acompanha. Você paga no Largo do Paço ao senhor Bernardo ou senhor fulano, e se há tarifas adicionais são recebidas pelo cocheiro. A gôndola não possui a conveniência que tem os ônibus de Nova Iorque, na forma de um cordão de couro pelo qual o passageiro quando deseja leva o cocheiro a parar para que ele desça. Em lugar disso, os passageiros fazem livre uso de bengalas, guarda-chuvas e punhos, massacrando à razão máxima a extremidade da gôndola mais próxima ao cocheiro; e ocasionalmente a perna desse último é agarrada de forma mais esquentada do que afetuosa pelo indivíduo sentado junto à janela próxima.</p>
<p>Algumas vezes a gôndola não pode ser propelida pelos seus remos vivos; e, nessas circunstâncias, enquanto um escocês, um americano ou um francês despejarão palavras duras sobre o cocheiro infeliz, os brasileiros permanecem perfeitamente calmos, sem se rebaixarem a descer para ver qual é o problema, conversando uns com os outros de forma filosófica como se nada tivesse acontecido.</p>
<p>(. . .) Tendo chegado a uma espécie de transtorno filosófico, perguntei certa vez porque esses transportes públicos haviam recebido o nome de gôndolas. Não demorou e descobri que havia sido concedido a determinadas empresas de ônibus um monopólio, o qual fora considerado oneroso. O governo municipal não podia em são consciência abolir esse contrato ou conferir uma nova concessão a outra <em>companhia de ônibus</em>, porém todos os escrúpulos foram vencidos quando se decidiu conceder a uma <em>empresa de gôndolas</em> o direito de transportar passageiros.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug067.gif"></p>
<p align="right"><small>Rev. D. P. Kidder e Rev. J. C. Fletcher<br />
<strong>Brasil e os brasileiros retratados em ensaios históricos e descritivos</strong>,<br />
Filadélfia, 1857</small></p>
<p>Veja também:<br />
<a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Hist%C3%B3ria_do_%C3%B4nibus_urbano_no_Rio_de_Janeiro">História do ônibus urbano no Rio de Janeiro</a></p>
<div class='series_toc'><h3>O Brasil e os brasileiros</h3><ol><li>O Brasil e os brasileiros</li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/prodigiosa/' title='Prodigiosa'>Prodigiosa</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/dois-dolares/' title='Dois dólares'>Dois dólares</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/vara-de-condao/' title='Vara de condão'>Vara de condão</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-camara-dos-deputados/' title='A Câmara dos Deputados'>A Câmara dos Deputados</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/essa-pobreza/' title='Essa pobreza'>Essa pobreza</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/uma-especie-de-luxo/' title='&#8220;Uma espécie de luxo&#8230;&#8221;'>&#8220;Uma espécie de luxo&#8230;&#8221;</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/e-provavelmente-verdade/' title='É provavelmente verdade'>É provavelmente verdade</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-casa-da-supplicacao/' title='A casa da supplicação'>A casa da supplicação</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/perdidos-para-o-mundo/' title='Perdidos para o mundo'>Perdidos para o mundo</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-arvore-que-chora/' title='A árvore que chora'>A árvore que chora</a></li></ol></div>]]></content:encoded>
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		<title>O toque da língua</title>
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		<pubDate>Wed, 22 Oct 2008 10:01:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fé e Crença]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
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		<description><![CDATA[Não habitamos um país, habitamos um idioma. Emil Cioran (a quem, Gustavo, eu nunca havia citado antes) em Aveux et anathèmes (1987) &#160; Ao conquistar as duas faces opostas do mundo antigo, três séculos antes de Cristo, o Macedônio realizava sem o saber sua maior façanha: abolira formidavelmente a fronteira entre oriente e ocidente. O [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="right">Não habitamos um país, habitamos um idioma.<br />
<strong><small>Emil Cioran</strong> (a quem, Gustavo, eu nunca havia citado antes) em</small> <span style="font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps">Aveux et anathèmes</span> (1987)</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Ao conquistar as duas faces opostas do mundo antigo, três séculos antes de Cristo, o Macedônio realizava sem o saber sua maior façanha: abolira formidavelmente a fronteira entre oriente e ocidente.</p>
<p>O perplexo mundo unificado passou a aguardar obedientemente sob os pés vitoriosos de Alexandre, e sob sua supervisão a cultura grega passou a ser injetada diretamente nas veias do império. Poucas gerações depois a língua grega se tornara idioma universal e indispensável, da Pérsia ao Egito e em qualquer região que se colocasse no seu caminho: o mundo se dobrava ao avanço irresistível da <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Helenismo">helenização</a> (de <em>hellenizein</em>, palavra grega que quer dizer tanto &#8220;falar grego&#8221; quanto &#8220;viver como grego&#8221;).</p>
<p><a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Alexandre,_o_Grande">Alexandre</a>, que nunca esteve em Jerusalém e não se demorou na Judéia, acabou determinando dessa forma o espírito que viria a permear a porção final do Antigo Testamento e servir de pano de fundo para o seguinte.</p>
<p>Os judeus tinham vivido por séculos dentro de um universo cultural peculiar, isolado e muito bem amarrado, repleto de dispositivos internos contra a penetração de idéias estrangeiras. Graças a esses mecanismos de preservação a cultura judaica sobrevivera mais ou menos intacta à influência de babilônios e persas. </p>
<p>Porém a cultura grega tinha uma voz doce e articulada, e não demorou para que o sistema estanque do judaísmo começasse a fazer água. Com a passagem de não muitos anos havia duas facções muito distintas dentro do judaísmo, a dos ortodoxos (que rejeitavam e lutavam ativamente contra qualquer influência grega) e a dos helenizados (que afirmavam o valor do pensamento grego e sua compatibilidade com o judaísmo). Essa disputa acabaria estendendo-se cristianismo adentro.</p>
<p>A despeito dos esforços e do relativo sucesso dos ortodoxos, mesmo o judaísmo mais conservador acabou acolhendo em alguma medida a influência grega. O mundo conhecido se tornara helenista, e irresistivelmente helenista. A começar da capital Alexandria, mas não apenas ali, os judeus começaram a falar o grego no dia a dia, relegando o costumeiro aramaico ao segundo lugar e o hebraico a um distante terceiro.</p>
<p>E no pacote do idioma grego vinha encapsulada toda uma visão de mundo. Primeiro os judeus cederam e abraçaram o idioma, mas em seguida estavam adotando os costumes e o modo grego de pensar. Os velhos judeus começaram a ler os clássicos, os jovens começaram a lutar nus nos seus estádios.</p>
<p>Não demorou e o helenismo havia tocado o mais sacrossanto cerne da identidade judaica, sua religião e suas Escrituras. Essa influência pode ser entrevista na própria composição dos textos bíblicos, especialmente na terceira porção da Bíblia Hebraica (em hebraico <a href="http://www.baciadasalmas.com/2007/sobre-o-costume-de-agrupar-livros">Ketubim</a>) &#8211; mas a coisa não parou aí. Não apenas as idéias gregas acabaram infiltrando-se no texto bíblico, mas (talvez mais importante) os métodos gregos de interpretação passaram a mudar o modo como a Bíblia era lida.</p>
<div class='series_toc'><h3>Palavra por palavra</h3><ol><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/de-onde-tirei-essa-ideia/' title='De onde tirei essa idéia'>De onde tirei essa idéia</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/o-mundo-dos-pre-canonicos/' title='O mundo dos pré-canônicos'>O mundo dos pré-canônicos</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/uma-questao-de-relevancia-estendida/' title='Uma questão de relevância estendida'>Uma questão de relevância estendida</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/antes-que-houvesse-o-paraiso/' title='Antes que houvesse o Paraíso'>Antes que houvesse o Paraíso</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/a-invasao-do-mundo/' title='A invasão do mundo'>A invasão do mundo</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/a-invencao-do-futuro/' title='A invenção do futuro'>A invenção do futuro</a></li><li>O toque da língua</li></ol></div>]]></content:encoded>
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		<title>Contra a paz, pelas ordens da criação</title>
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		<pubDate>Tue, 26 Aug 2008 09:16:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[bonhoeffer]]></category>
		<category><![CDATA[cristianismo]]></category>
		<category><![CDATA[guerra]]></category>
		<category><![CDATA[judaísmo]]></category>
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		<description><![CDATA[Na Alemanha nazista dos meses que antecedaram a guerra muitos cristãos criam que a igreja era uma realidade que ultrapassava fronteiras e limitações locais; para esses, fazia todo sentido ouvir e discutir os apelos pela paz que chegavam à Alemanha das igrejas de todos os cantos do globo. Para os ultranacionalistas cristãos nazistas, no entanto, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Na Alemanha nazista dos meses que antecedaram a guerra muitos cristãos criam que a igreja era uma realidade que ultrapassava fronteiras e limitações locais; para esses, fazia todo sentido ouvir e discutir os apelos pela paz que chegavam à Alemanha das igrejas de todos os cantos do globo.</p>
<p>Para os ultranacionalistas cristãos nazistas, no entanto, só havia sentido em falar numa igreja Nacional. A Pátria era para eles uma das inescapáveis <a href="http://www.baciadasalmas.com/2008/a-longa-rixa-da-misericordia-com-as-ordens-da-criacao/">ordens da criação</a>, uma vocação ou propensão estabelecida no princípio por Deus e que não cabe a homem algum questionar. A igreja mantinha-se assim livre para afastar-se o quanto achasse necessário do evangelho (como de fato acabou acontecendo), desde que se mantivesse fiel à baliza das ordens da criação. Rejeitá-las (em nome, talvez, da compaixão) é que lhes parecia blasfemo.</p>
<h5>* * *</h5>
<p>Em 4 de abril de 1939 [...] o periódico oficial da Igreja Evangélica Alemã publicou a Declaração Godesberg, assinada pelo Dr. [Friedrich] Werner. Ela em parte dizia:</p>
<blockquote><p>[O Nacional Socialismo dá prosseguimento] à obra de Martinho Lutero em seus aspectos ideológicos e políticos, bem como em seu aspecto religioso, na recuperação de uma verdadeira compreensão da fé cristã&#8230; A fé cristã é o oposto irreconciliável do judaísmo&#8230; Uma estrutura eclesiástica supranacional e internacional nos moldes católico-romano ou protestante representa uma degeneração política da fé cristã. Um desenvolvimento proveitoso da genuína fé cristã é possível apenas <strong>dentro das dadas <a href="http://www.baciadasalmas.com/2008/a-longa-rixa-da-misericordia-com-as-ordens-da-criacao">ordens da criação</a></strong>.</p>
</blockquote>
<p align="center"><small>Eberhard Bethge, em sua biografia de Bonhoeffer (grifo meu)</small></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug073.gif"></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2008/a-longa-rixa-da-misericordia-com-as-ordens-da-criacao/">A longa rixa da misericórdia com as ordens da criação</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2005/a-solucao-final-de-lutero">A solução final de Lutero</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2005/lutero-alerta-os-alemaes">Lutero alerta os alemães</a></p>
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		<title>A invasão do mundo</title>
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		<pubDate>Wed, 02 Jul 2008 03:28:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fé e Crença]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>

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		<description><![CDATA[Os hebreus da primeira metade do Antigo Testamento são um povo isolado e definido pelo seu isolamento. Israel é uma nação singular definida por um Deus singular: uma nação entre nações regida pelo Deus acima de todos os deuses. A crença na vocação da singularidade determinou, por mil anos, o modo pelo qual os hebreus [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Os hebreus da primeira metade do Antigo Testamento são um povo isolado e definido pelo seu isolamento. Israel é uma nação singular definida por um Deus singular: uma nação entre nações regida pelo Deus acima de todos os deuses.</p>
<p>A crença na vocação da singularidade determinou, por mil anos, o modo pelo qual os hebreus interpretavam o mundo e a Escritura. Eram um povo apontado para um presente glorioso e um futuro certo; eram um país protegido sobrenaturalmente do destino arbitrário ou vergonhoso que definia o percurso de nações menos afortunadas. Eram a cabeça, e não a cauda.</p>
<p>Então as coisas começaram a dar errado, e os filhos de Israel viram-se obrigados a reavaliar, vez após outra, a sua invulnerabilidade. Primeiro vieram os assírios, 720 anos antes de Cristo, e numa campanha certeira literalmente apagaram do mapa dez das doze tribos que compunham a família original de Israel. O reino do Norte virou pó, e as duas tribos remanescentes aquartelaram-se em Jerusalém, buscando a proteção de seu rei e de seu templo &#8211; os quais recebiam, por sua vez, proteção direta da mão divina.</p>
<p>As tribos negligentes e pecadoras do norte haviam sido eliminadas (o que era visto como coisa ao mesmo tempo inevitável e lamentável), mas Jerusalém era uma fortaleza inabalável e o centro do mundo. Aqui nada tinha como dar errado.</p>
<p>Então, 586 anos antes de Cristo, os habitantes de Judá testemunharam o impensável: os babilônios pisaram o lugar santo, onde o próprio Deus descansava os seus pés, destruíram o inviolável templo de Jerusalém, tomaram para si as relíquias sagradas e acorrentaram o rei. E, como se não bastasse, a própria população de Judá, reduto dos últimos defensores da verdade da Torá no vasto universo, foi arrancada da Terra Prometida e condenada a viver no exílio em diferentes pontos do império babilônico.  Tiveram arrancados de si o seu coração, e foram condenados a viver longe do corpo. Perderam, diante de si mesmos e dos olhos de todo o mundo, sua terra, sua segurança, sua promessa.</p>
<p>Não é de admirar que tenham-se vistos obrigados a rever o seu triunfalismo. Israel, a nação isolada e singular, havia sido invadida pelo mundo e finalmente engolida por ele. Habitava agora suas entranhas.</p>
<p>A nova condição alterou marcadamente o modo pelo qual os judeus interpretavam o mundo e &#8211; ainda mais importante, no caso deles &#8211; sua própria Escritura. Talvez, viram-se forçados a ponderar, não tivessem entendido da primeira vez o que Deus queria realmente deles. E, se é que podiam sonhar com uma segunda chance, seria necessário vasculhar as Escrituras e reinterpretá-las à luz da nova situação. Era preciso encontrar novas revelações onde pensara-se durante tanto tempo estar cimentadas as antigas.</p>
<p>Essa mudança de paradigma fica evidente nos escritos dos profetas. Esses não apenas refletem os dilemas da nação isolada diante da impensável internacionalização, mas propõem maneiras radicalmente novas de se interpretar a vontade tradicional de Deus. Olhando para a mesma Torá e para as mesmas tradições, os profetas encontram a imagem de um Deus que não se sonhava residir ali. Que havia sido o pecado a ocasionar a derrocada da nação todos concordavam. Os profetas, no entanto, contornavam os pecados da religiosidade tradicional e apontavam transgressões mais sutis; destilavam uma moralidade mais refinada que, garantiam eles, Deus exigira desde o começo.</p>
<p>Uma nova espiritualidade nasceu, dessa forma, dos dissabores do exílio. Como não dispunham do templo, os judeus da dispersão passaram a reunir-se em sinagogas; aqui não tinham como apresentar os sacrifícios regulares previstos no código de Moisés, mas ofereciam constantes orações, súplicas e louvor. Descobriram que nessas casas de oração podiam manter acesa a sua vocação espiritual, estudando a Torá e buscando nela a relevância necessária para o momento. Vendo-se privados do seu insubstituível Lugar de adoração, intuíram com o passar do tempo a vertigem de que Deus não está preso a lugar algum e pode ser eficazmente buscado e encontrado seja onde for. Não é necessário, ousaram concluir, estar no templo certo, com o sacerdócio certo, o ritual certo ou no país certo. A nova espiritualidade era menos legalista, mais generosa e universal; o cativeiro revelara, paradoxalmente, um Deus maior.</p>
<p>Os exilados não encontraram apenas uma nova religiosidade mas ainda, e de forma inusitada, a prosperidade e a paz. Tornaram-se, em particular, comerciantes bem-sucedidos nas rotas de comércio babilônicas. O perfil do novo judeu era o de alguém fiel às suas raízes, mas ao mesmo tempo plenamente adaptado ao seu novo ambiente. Quando Ciro permitiu que os judeus dispersos pelo império retornassem à Palestina para reconstruir o templo e retomar o seu modo de vida (isso foi em 539 a.C.), muitos preferiram ficar.</p>
<p>A maioria, no entanto, escolheu o retorno à Judéia, onde os libertos e suas gerações reconstruíram o templo e os muros de Jerusalém sob a liderança de Esdras e Neemias. Um novo e improvável sol de esperança brilhara sobre Judá, e seu Deus agora era ainda mais singular por não ser limitado pelo espaço.</p>
<p>Porém não demorou e veio o indomável Alexandre, e no rastro dele os gregos. Israel saberia, agora sim, o que é ser efetivamente invadido por uma cultura. Logo o mundo judeu estaria falando em grego, e mesmo essa não seria a mudança mais radical.</p>
<div class='series_toc'><h3>Palavra por palavra</h3><ol><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/de-onde-tirei-essa-ideia/' title='De onde tirei essa idéia'>De onde tirei essa idéia</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/o-mundo-dos-pre-canonicos/' title='O mundo dos pré-canônicos'>O mundo dos pré-canônicos</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/uma-questao-de-relevancia-estendida/' title='Uma questão de relevância estendida'>Uma questão de relevância estendida</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/antes-que-houvesse-o-paraiso/' title='Antes que houvesse o Paraíso'>Antes que houvesse o Paraíso</a></li><li>A invasão do mundo</li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/a-invencao-do-futuro/' title='A invenção do futuro'>A invenção do futuro</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/o-toque-da-lingua/' title='O toque da língua'>O toque da língua</a></li></ol></div>]]></content:encoded>
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		<title>O livro dos mártires</title>
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		<pubDate>Mon, 19 May 2008 09:58:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Quase Ciência]]></category>

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		<description><![CDATA[Do século dezesseis até meados do século dezessete os médicos com formação universitária recebiam treinamento puramente teórico nos princípios da fisiologia humoral conforme delineada nas obras de Hipócrates, Aristóteles e Galeno. Eram ensinados que a doença era resultado de um desequilíbrio entre os quatro humores (sangue, fleuma, bílis amarela e bílis negra). O diagnóstico consistia [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="center"><a href="http://www.baciadasalmas.com/images/2008/bits/sangria-b.png"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2008/bits/sangria.gif" title="Clique para ampliar" /></a></p>
<p>Do século dezesseis até meados do século dezessete os médicos com formação universitária recebiam treinamento puramente teórico nos princípios da <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Hip%C3%B3crates">fisiologia humoral</a> conforme delineada nas obras de Hipócrates, Aristóteles e Galeno.  Eram ensinados que a doença era resultado de um desequilíbrio entre os quatro humores (sangue, fleuma, bílis amarela e bílis negra). O diagnóstico consistia em estabelecer qual desses humores encontrava-se em desacordo, e a terapia em tomar-se passos a fim de restaurar o equilíbrio, quer por sangria (por secção da veia, escarificação ou <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Sangria_(medicina)">aplicação de sanguessugas</a>) ou sujeitando o paciente a uma série de limpezas intestinais e purgantes. O médico seguia dessa forma uma deprimente rotina de sangrias e purgações, juntamente com a prescrição de emplastros, ungüentos e poções. A urina do paciente era tida como o melhor indicador da sua condição, e havia profissionais que criam que bastava ver a urina sem ver o paciente.</p>
<h5>Os pais demoravam-se para reconhecer a individualidade dos filhos.</h5>
<p>Não havia raios-X nem estetoscópios, e os médicos normalmente ignoravam por completo o que se passava no corpo da pessoa enferma. Havia cirurgiões especializados em tumores, úlceras, fraturas e doenças venéreas, mas sua arte era considerada inferior pela classe médica. Além disso, sem anestésicos e sem o conhecimento de antissépticos, havia pouco que esses pudessem fazer. As cirurgias eram em grande parte limitadas a amputações, trepanações do crânio, remoção aberta de pedras urinárias, reposicionamente de ossos e incisão de abcessos. Compreensivelmente, os pacientes viam com terror a perspectiva desse tipo de tortura, e a taxa de mortalidade depois dessas operações era elevada. O <em>Severall Chirurgicall Treatises</em> (1676) de Richard Wiseman era conhecido popularmente como &#8220;O Livro dos Mártires de Wiseman&#8221;.</p>
<p>Mesmo entre a nobreza, cujas chances eram provavelmente maiores do que as de qualquer outra classe, a expectativa de vida para meninos nascidos no terceiro quarto do século dezessete era de 29,6 anos (hoje seria ao redor de 70). Um terço dessas crianças da aristocracia morria antes de atingir os cinco anos de idade, sendo que o nível de mortalidade dos que chegavam à idade adulta lembrava de perto o da Índia na última década do século dezenove. O primeiro demógrafo inglês, John Graunt, estimava em 1662 que a cada cem crianças nascidas em Londres, trinta e seis morriam nos seus primeiros seis anos, e mais vinte e quatro nos dez anos seguintes.</p>
<p>Quanto a hospitais, o St. Bartholomew e o St. Thomas eram os dois únicos disponíveis para os fisicamente enfermos em Londres no final do século dezessete, e havia pouquíssimos em outros lugares. E eram de qualquer modo direcionados primariamente para os pobres. Nenhuma pessoa com alguma pretensão social sonharia em colocar o pé num hospital como paciente, e se o fizesse estaria certamente aumentando suas chances de contrair alguma infecção fatal.</p>
<p>Certas formas de doença mental eram consideradas casos de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Melancolia">melancolia</a> a serem tratados com purgações e sangrias, ou erroneamente diagnosticadas como &#8220;histeria&#8221; ocasionada por uma determinada condição do útero. A noção da origem uterina de doenças nervosas não foi desafiada com sucesso na Inglaterra até fins do século dezessete, quando Thomas Willis formulou a teoria da origem cerebral da histeria, tornando-se pioneiro da ciência da neurologia.</p>
<p>Na Inglaterra daqueles séculos as pessoas estavam inteiramente habituadas à doença e à baixa expectativa de vida. Os pais demoravam-se para reconhecer a individualidade dos filhos, sabendo muito bem que podiam perdê-los ainda na infância. Maridos e esposas viviam bem ajustados à idéia de que o cônjuge que sobrevivesse poderia se casar depois da morte do outro. A atitude dos pobres diante de sua sorte parece ter sido freqüentemente de distanciado estoicismo. Ao contrário dos habitantes dos países subdesenvolvidos nos nossos dias, eles não conheciam países estrangeiros em que o padrão de vida fosse consideravelmente mais elevado. Ao invés de lutarem por reforma social, os pobres com freqüência recorriam a métodos mais diretos de liberação.</p>
<p>A cerveja era ingrediente fundamental da dieta de todos, tanto de crianças quanto adultos [. . .]</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2008/bits/sangria2.gif"></p>
<p align="right"><small><strong>Keith Thomas</strong>, Religion and the Decline of Magic (1971)</small></p>
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		<title>Al-Kashf &#8216;an Manahij al-Adilla</title>
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		<pubDate>Mon, 07 Apr 2008 09:01:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[islam]]></category>

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		<description><![CDATA[Esta obra tem por objeto de estudo as críticas de Averróis contra os argumentos dos teólogos em favor da existência de Deus em seu livro Al-Kashf ‘an Manahij al-Adilla fi &#8216;Aqaid al-Milla (&#8220;Exposição dos métodos de comprovação referentes às crenças da comunidade&#8221;). Nesse livro Averróis assume a delicada posição de criticar todas as principais escolas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Esta obra tem por objeto de estudo as críticas de Averróis contra os argumentos dos teólogos em favor da existência de Deus em seu livro <i>Al-Kashf ‘an Manahij al-Adilla fi &#8216;Aqaid al-Milla</i> (&#8220;Exposição dos métodos de comprovação referentes às crenças da comunidade&#8221;).</p>
<p>Nesse livro Averróis assume a delicada posição de criticar todas as principais escolas de teologia do seu tempo. Ele o faz em nome da razão, sustentando que qualquer interpretação dos versos do Alcorão que não sobreviva ao escrutínio da razão não merece ser abraçada; é na verdade perigoso aceitá-la. E o que é pior, não é conduta legítima impor essa interpretação à força sobre as pessoas comuns, ainda que em nome de Deus ou da lei.</p>
<p>De acordo com Averróis (1126-1198 d.C.), os teólogos interpretaram a Escritura de uma forma que concedeu a eles autoridade sobre as mentes e sobre as vidas dos crentes. Os teólogos definiram o que é crença correta e o que é heresia, preparando dessa forma o terreno para a definição do Verdadeiro Muçulmano e exercitando tremenda influência sobre a vida política da comunidade islâmica. Eles monopolizaram o acesso à verdadeira fé e ostracizaram &#8220;a todos que discordam deles, relegando-os à posição de hereges e incrédulos cujo sangue e propriedades estão à disposição de qualquer um&#8221;.</p>
<p>Essa postura intransigente, segundo Averróis, era causa de grande parte do derramamento de sangue e das lutas internas que assolavam a comunidade religiosa. Ao criticar a posição dos teólogos e desafiar o seu monopólio em determinar os padrões religiosos, morais e políticos da comunidade muçulmana, Averróis esperava enfraquecer a sua influência política e libertar o povo comum da obrigação de segui-los. Porém, apesar dessas boas intenções, as críticas de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Averr%C3%B3is">Averróis</a> acabaram produzindo o efeito contrário, minando a sua própria posição dentro da comunidade. Seus livros foram queimados publicamente, o ensino da sua filosofia foi banido de um extremo a outro do Califado Árabe ocidental e ele mesmo foi expulso de Córdoba, sua cidade natal.</p>
<p><small><b>Dr. Ibrahim Y. Najjar</b>, em <a href="http://www.al-bab.com/arab/articles/ibnrushd1.htm">Ibn Rushd&#8217;s criticisms of the theologians&#8217; arguments for the existence of God</a></small></p>
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		<title>Caráter nacional</title>
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		<pubDate>Sat, 29 Dec 2007 14:02:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Documentos]]></category>

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		<description><![CDATA[Um brasileiro num cartaz de teatro digitalizado pela Biblioteca do Congresso Norte-Americano.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="center"><a href="http://www.23hq.com/paulobrabo/photo/2763056/original"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2007/bits/the-brazilian.jpg" title="Clique para ampliar"></a></p>
<p>Um brasileiro num <a href="http://hdl.loc.gov/loc.pnp/var.0765">cartaz de teatro</a> digitalizado pela Biblioteca do Congresso Norte-Americano.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>A aquisição da boa vontade</title>
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		<pubDate>Wed, 26 Dec 2007 12:58:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[natal]]></category>

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		<description><![CDATA[Os puritanos compreendiam ainda outra coisa: muito dos excessos sazonais que ocorriam no Natal não eram mera desordem caótica, mas comportamento que assumia forma profundamente ritualizada. Essencialmente, o Natal era uma ocasião em que a própria hierarquia social era simbolicamente virada de cabeça para baixo, num gesto que invertia os papéis designados de gênero, idade [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Os puritanos compreendiam ainda outra coisa: muito dos excessos sazonais que ocorriam no Natal não eram mera desordem caótica, mas comportamento que assumia forma profundamente ritualizada. Essencialmente, o Natal era uma ocasião em que a própria hierarquia social era simbolicamente virada de cabeça para baixo, num gesto que invertia os papéis designados de gênero, idade e classe social. Durante a temporada do Natal aqueles próximos à base da pirâmide social agiam com desfaçatez e presunção. Homens podiam vestir-se de mulheres e mulheres podiam vestir-se (e agir) como homens. Gente jovem podia imitar e zombar dos mais velhos (por exemplo, um menino podia ser escolhido como &#8220;bispo&#8221; e assumir por um breve período a autoridade de um bispo de verdade). Um camponês ou aprendiz podia tornar-se &#8220;Barão da Desordem&#8221;e imitar a autoridade dos verdadeiros &#8220;nobres&#8221;.</p>
<p>Com lucidez de antropólogo, Increase Mather explicou quais cria serem as origens da prática: &#8220;Nos dias da <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Saturnália">Saturnália</a> os senhores serviam seus escravos [...] Os gentios chamavam os dias de Saturno a Idade de Ouro, porque nela não havia servidão, em Comemoração pelo que no seu Festival os Servos deviam ser os Senhores&#8221;. Essa prática, como muitas outras, foi apenas tomada e transposta para o Natal, em que os de baixa posição social tornavam-se &#8220;Barões da Desordem&#8221;. Ainda hoje, no exército britânico, no dia 25 de dezembro os oficiais são obrigados a servir os soldados nas refeições.</p>
<p>A forma mais comum de inversão social ocorrida durante a temporada do Natal envolvia algo que ainda associamos ao Natal nos nossos dias, e chamamos de caridade. Esperava-se que gente próspera e poderosa oferecesse os frutos da abundância de sua colheita aos vizinhos mais pobres e dependentes. A a noção contemporânea de caridade, no entanto, não transmite um quadro adequado de como esse intercâmbio ocorria – pois eram normalmente os próprios pobres que davam início a transação, que era encenada face a face, em rituais que nos pareceriam hoje uma intolerável invasão de privacidade.</p>
<p>No restante do ano eram os pobres que deviam bens, trabalho e respeito aos ricos, mas nessa ocasião eles viravam a mesa – literalmente. Grupos de pobres – em sua maioria meninos e rapazes – invocavam o direito de marchar até as casas dos abastados, adentrar seus salões e receber presentes sob a forma de comida, bebida e por vezes dinheiro. E os ricos tinham de deixá-los entrar.</p>
<h5>O senhor da terra podia sempre usar um generoso donativo de Natal como modo de reparar a acumulação de um ano inteiro de pequenas injustiças.</h5>
<p>O Natal era ocasião em que os camponeses, servos e aprendizes exercitavam o direito de exigir de seus vizinhos mais ricos e benfeitores que os tratassem como se <em>eles</em> fossem ricos e poderosos. O senhor da casa grande deixava entrarem os camponeses e oferecia-lhes um banquete. Em troca os camponeses ofereciam algo de verdadeiro valor numa sociedade paternalista: sua <em>boa vontade</em>. Essa troca de presentes por boa vontade incluia com freqüência a execução de canções, frequentemente canções relacionadas à bebida (desta transação ritualizada foi apenas a promessa de boa vontade a sobreviver nas canções contemporâneas de Natal).</p>
<blockquote><p>
Viemos exigir nosso direito<br />
Se não abrires tua porta<br />
Derrubaremos-te no chão<br />
[...]<br />
Mais uma vez nos reunimos, para um feliz Ano Novo<br />
Desejar a cada um desta família<br />
Que haja abundância de batatas e arenques<br />
De manteiga e de queijo, e toda sorte de guloseima<br />
[...]<br />
Deus mande ao senhor da casa um copo de cerveja de qualidade<br />
Deus mande à senhora da casa uma boa torta de Natal<br />
[...]<br />
Vem, mordomo, traz-nos um garrafão da melhor [cerveja]<br />
Assim rezaremos para que tua alma no céu descanse;<br />
Mas se vierdes com um garrafão da menor [qualidade],<br />
Abaixo virão mordomo, garrafão e tudo mais.</p></blockquote>
<p>Numa economia agrícola o tipo de &#8220;desordem&#8221; que estou descrevendo não representava de fato uma ameaça à autoridade da nobreza. O historiador E. P. Thompson observou que o senhor da terra podia sempre tentar usar um generoso donativo de Natal como modo de reparar a acumulação de um ano inteiro de pequenas injustiças, readquirindo no processo a boa vontade de seus inquilinos.</p>
<p>Na verdade, episódios de desordem eram amplamente tolerados pela elite. Alguns historiadores argumentam que a inversão de valores funcionava na verdade como uma válvula de segurança que continha os ressentimentos de classe dentro de limites claramente definidos, e que ao inverter a hierarquia estabelecida (ao invés de simplesmente ignorá-la), tais inversões serviam na verdade como reafirmação da ordem social existente.</p>
<p align="right"><small>Stephen Nissenbaum, <strong>The Battle For Christmas</strong></small></p>
<div class='series_toc'><h3>A burlesca história da comemoração do Natal</h3><ol><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2005/a-burlesca-historia-da-comemoracao-do-natal-parte-112/' title='A burlesca história da comemoração do Natal, parte 112'>A burlesca história da comemoração do Natal, parte 112</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/a-transicao-de-sao-nicolau/' title='A transição de São Nicolau'>A transição de São Nicolau</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/os-desgovernos-do-natal/' title='Os desgovernos do Natal'>Os desgovernos do Natal</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/uma-concessao/' title='Uma concessão'>Uma concessão</a></li><li>A aquisição da boa vontade</li></ol></div>]]></content:encoded>
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		<title>Uma concessão</title>
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		<pubDate>Tue, 18 Dec 2007 08:14:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[natal]]></category>

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		<description><![CDATA[A comemoração do Natal envolvia comportamentos que a maior parte de nós consideraria ofensivo e até chocante fosse nos nossos dias – tumultuosas exibições públicas de glutonaria e embriaguez, a ridicularização de autoridades estabelecidas, mendicância agressiva (muitas vezes com ameaça de dano físico) e até mesmo invasão das casas mais abastadas. Episódios como esses ofereciam [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A comemoração do Natal envolvia comportamentos que a maior parte de nós consideraria ofensivo e até chocante fosse nos nossos dias – tumultuosas exibições públicas de glutonaria e embriaguez, a ridicularização de autoridades estabelecidas, mendicância agressiva (muitas vezes com ameaça de dano físico) e até mesmo invasão das casas mais abastadas.</p>
<p>Episódios como esses ofereciam outra razão, e mais profunda, para as objeções dos puritanos contra o Natal. Eis como o reverendo Increase Mather colocou a coisa em 1687:</p>
<blockquote><p>A maior parte dos que guardam o Natal observam essa festividade de um modo altamente desonroso para o nome de Cristo. [Esses dias] são consumidos em Embriaguezas, em Interlúdios, em jogatina de Cartas, em excesso de Vinho, em louca Folia&#8230;</p></blockquote>
<p>Escrevendo em 1725, o reverendo Heny Bourne de New Castle, Inglaterra, embora aprovasse ele mesmo &#8220;a observância&#8221; do Natal, admitia que para a grande massa da população a época natalina era mera &#8220;desculpa para Embriaguez, Tumulto e Licenciosidade&#8221;. </p>
<p>Bourne distinguia duas práticas especialmente perigosas das festividades, a folia sob disfarce [mumming] e o canto de canções de natal. A prática do <em>mumming</em> envolvia normalmente &#8220;uma troca de Vestimenta entre Homens e Mulheres, os quais, vestidos nas roupas um do outro, iam à casa de um Vizinho após o outro&#8230; foliando sob disfarce&#8221;. Quanto ao canto público de canções de Natal, Bourne considerava a prática &#8220;uma afronta&#8221;, visto que era normalmente realizada &#8220;em meio a Desordens, Fornicação e Luxúria&#8221;. Foi outro clérigo anglicano do século dezesseis, o bispo Hugh Latimer, quem colocou a questão de forma mais sucinta: &#8220;As pessoas fazem mais para desonrar a Cristo nos doze dias do Natal do que no restante dos doze meses&#8221;.</p>
<p>Os puritanos sabiam o que gerações subseqüentes esqueceriam: que quando a Igreja, mais de um milênio antes, colocara o Natal no final de dezembro, a decisão era parte do que representava na verdade uma contemporização, uma concessão pela qual a Igreja pagaria um alto preço. As festividades do final de dezembro estavam profundamente enraizadas na cultura popular, tanto na observância do solstício do inverno quanto na celebração do único breve período de ociosidade e abundância do ano agrícola. Em troca de angariarem ampla observância para a comemoração do aniversário do Salvador, alocando-o nessa data ressonante, a Igreja por sua vez concordava tacitamente em permitir que o feriado fosse celebrado mais ou menos do modo como tinha sempre sido. Desde o começo o controle da Igreja sobre o Natal foi (e permanece) tênue. Sempre houve gente para quem o Natal era época de devoção ao invés de carnaval, mas esses foram sempre a minoria. Não é ir longe demais dizer que o Natal sempre foi um feriado tremendamente difícil de <em>cristianizar</em>.</p>
<p align="right"><small>Stephen Nissenbaum, <strong>The Battle For Christmas</strong></small></p>
<div class='series_toc'><h3>A burlesca história da comemoração do Natal</h3><ol><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2005/a-burlesca-historia-da-comemoracao-do-natal-parte-112/' title='A burlesca história da comemoração do Natal, parte 112'>A burlesca história da comemoração do Natal, parte 112</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/a-transicao-de-sao-nicolau/' title='A transição de São Nicolau'>A transição de São Nicolau</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/os-desgovernos-do-natal/' title='Os desgovernos do Natal'>Os desgovernos do Natal</a></li><li>Uma concessão</li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/a-aquisicao-da-boa-vontade/' title='A aquisição da boa vontade'>A aquisição da boa vontade</a></li></ol></div>]]></content:encoded>
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		<title>Sobre o costume de agrupar livros</title>
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		<pubDate>Sat, 15 Dec 2007 11:21:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fé e Crença]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[bíblia]]></category>

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		<description><![CDATA[Como se sabe, o conjunto de livros sagrados dos judeus – Tanakh, como se diz em hebraico – aparece nas Bíblias cristãs com o nome de Velho Testamento (&#8220;velho&#8221;, preste atenção – como que para anular qualquer relevância que os textos possam ter). Embora consistam essencialmente do mesmo conjunto de livros (católicos e ortodoxos acrescentam [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Como se sabe, o conjunto de livros sagrados dos judeus – <em>Tanakh</em>, como se diz em hebraico – aparece nas Bíblias cristãs com o nome de <em>Velho Testamento </em>(&#8220;velho&#8221;, preste atenção – como que para anular qualquer relevância que os textos possam ter). </p>
<p>Embora consistam essencialmente do mesmo conjunto de livros (católicos e ortodoxos acrescentam uma meia dúzia), os cristãos dividem os livros do Velho Testamento de forma diferente do que os judeus fazem com a sua Tanakh. Para os cristãos o Velho Testamento está dividido em 3 grandes agrupamentos de textos, os <strong>livros históricos</strong>, os <strong>livros poéticos</strong> (ou &#8220;de sabedoria&#8221;) e os <strong>livros proféticos</strong> (ou apenas &#8220;os profetas&#8221;) – nesta ordem.</p>
<p>O principal efeito desta divisão está em que, ao concluir com os profetas, os cristãos reduzem-nos imediatamente a meros arautos do que está por vir (isto é, Jesus e o Novo Testamento). É como se tudo que os profetas tivessem a dizer fosse &#8220;prepare-se, porque o melhor está por vir! Se você acha este trailer bom, espere até ver o filme completo – somente nas melhores salas do Novo Testamento&#8221;.</p>
<p>Perde-se com isso a característica mais essencial (e mais relevante para os cristãos) da literatura dos profetas: o fato de que eles não apenas <strong>predizem</strong> que Jesus está por vir (coisa que, quando os vemos fazer, devemos supor que faziam-no sem perceber), mas em grande parte <strong>prefiguram</strong> o seu discurso. Jesus foi um cara <a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/1-viva-a-intolerancia">revolucionário e original</a>, mas quando entra em cena, centenas de anos depois do silêncio do último profeta, ele reflete anseios e visões de mundo que os profetas já haviam exposto de forma muito eloqüente. Na vertiginosa ousadia de suas imagens e propostas, alguns profetas foram na verdade mais longe do que Jesus.</p>
<p>Os judeus dividem o mesmo conjunto de livros em três grupos distintos, a <strong>Lei</strong> (em hebraico <strong>Torah</strong>), os <strong>Profetas</strong> (hebraico <strong>Nebiim</strong>) e os <strong>Escritos</strong> (hebraico <strong>Ketubim</strong>), também chamados <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Meton&iacute;mia">metonimicamente</a> de <strong>Salmos </strong>– nesta ordem. O nome &#8220;Tanakh&#8221; é na verdade uma abreviatura formada pelas iniciais destas três seções, &#8220;T&#8221;, &#8220;N&#8221; e &#8220;K&#8221;.</p>
<p>A surpresa desta divisão não está apenas na ordem (os Profetas vêm logo depois da Lei e antes dos Salmos), mas no conteúdo. Para um cristão parecerá no mínimo singular ver que os livros de Josué e Juízes são contados entre os profetas, ou que os livros de Ester, Daniel e Neemias são tomados por literatura, ao lado de obras poéticas como o Cânticos dos Cânticos.</p>
<p>Jesus e seus seguidores, que desconheciam a distinção cristã entre Velho e Novo Testamento (esse último naturalmente não havia sido escrito), pensavam nas Escrituras hebraicas nos termos da divisão da Tanakh. Em Lucas 24:44, por exemplo, Jesus explica que era necessário cumprir-se tudo que estava escrito a respeito dele &#8220;na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos&#8221; – ou seja, na <em>Torah</em>, nos <em>Nebiim</em> e nos <em>Ketubim</em>. </p>
<p>Os antropólogos contemporâneos <a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/sobre-dar-nomes-a-primatas">já diagnosticaram</a> o tremendo poder ideológico que há por trás de algo tão aparentemente inofensivo quanto uma classificação. Imagine, por exemplo, as conseqüências de se viver num mundo em que a poesia e a literatura estão mais perto de Jesus do que os profetas, ou em que Gênesis não está classificado entre os livros históricos.</p>
<table cellpadding="10" width="400" align="center" border="0" unselectable="on">
<tbody>
<tr>
<td width="192">
<p align="center"><strong>JUDEUS<br /></strong>Tanakh</p>
</td>
<td width="200">
<p align="center"><strong>CRISTÃOS<br /></strong>Velho Testamento</p>
</td>
</tr>
<tr>
<td width="192">
<p align="center"><strong>Lei (Torah)</strong><br />Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio</p>
</td>
<td width="200">
<p align="center"><strong>Livros históricos</strong><br />Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio, Josué, Juízes, Rute, 1 e 2 Samuel, 1 e 2 Reis, 1 e 2 Crônicas, Esdras, Neemias, Ester</p>
</td>
</tr>
<tr>
<td width="192">
<p align="center"><strong>Profetas (Nebiim)</strong><br />Profetas anteriores: Josué, Juízes, 1 e 2 Samuel, 1 e 2 Reis; Profetas posteriores: Isaías, Jeremias, Ezequiel, Oséias, Joel, Amós, Obadias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias, Malaquias</p>
</td>
<td width="200">
<p align="center"><strong>Livros poéticos</strong><br />Jó, Salmos, Provérbios, Eclesiastes, Cântico dos Cânticos</p>
</td>
</tr>
<tr>
<td width="192">
<p align="center"><strong>Escrituras ou Salmos (Ketubim)</strong><br />Jó, Salmos, Provérbios, Rute, Cântico dos Cânticos, Eclesiastes, Lamentações, Ester, Daniel, Esdras, Neemias, 1 e 2 Crônicas</p>
</td>
<td width="200">
<p align="center"><strong>Profetas</strong><br />Profetas maiores: Isaías, Jeremias, Lamentações, Ezequiel, Daniel Profetas menores: Oséias, Joel, Amós, Obadias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias, Malaquias</p>
</td>
</tr>
</tbody>
</table>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>Mas o ensino era tão claro</title>
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		<pubDate>Thu, 13 Dec 2007 08:02:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Documentos]]></category>
		<category><![CDATA[tolstoi]]></category>

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		<description><![CDATA[– Mas o ensino era tão simples e claro – disse Belzebu, ainda relutando em acreditar que seus servos tivessem feito o que não lhe ocorrera fazer. – Era impossível interpretá-lo de forma errada. &#8220;Façais aos outros o que quereis que vos façam!&#8221; Como distorcer isso? – Bem, aconselhados por mim eles utilizaram diversos métodos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>– Mas o ensino era tão simples e claro – disse Belzebu, ainda relutando em acreditar que seus servos tivessem feito o que não lhe ocorrera fazer. – Era impossível interpretá-lo de forma errada. &#8220;Façais aos outros o que quereis que vos façam!&#8221; Como distorcer isso?</p>
<p>– Bem, aconselhados por mim eles utilizaram diversos métodos – respondeu o diabo de capa. – Os homens contam a história de um mágico bom que salvou uma pessoa de um mágico perverso transformando a pessoa num minúsculo grão de trigo; o mágico mau, tendo se transformando num galo, estava prestes a bicar o grãozinho, mas o mágico bom esvaziou uma saca de trigo sobre ele. O mágico mau não tinha como comer todo o trigo, pelo que não conseguiu encontrar o único grão que desejava. Foi isto que a conselho meu fizeram com o ensino daquele que ensinava que a lei consiste em fazer aos outros o que desejamos que façam a nós. Eles aceitaram sessenta e seis livros diferentes como sendo a exposição sagrada da lei de Deus, e declararam que cada palavra desses livros era produção de Deus, o Espírito Santo. Sobre o simples e facilmente compreensível eles derramaram tamanha coleção de verdades pseudo-sacras que tornou-se impossível, por um lado, aceitá-las todas, e por outro encontrar entre elas a única verdade necessária para o homem.</p>
<p>– Este foi o primeiro método. O segundo, que usaram com sucesso por mais de mil anos, consistiu simplesmente em matar e queimar qualquer pessoa que desejasse revelar a verdade. Este método está entrando agora em desuso, mas eles não o abandonam por completo; embora não queimem os que expõem a verdade, caluniam-nos e envenenam as suas vidas de tal forma que são poucos os que arriscam desmascará-los.</p>
<p>– Este foi o segundo método. O terceiro é que, sustentando serem eles mesmos a Igreja e portanto infalíveis, eles ensinam simplesmente, e quando lhes convém, o contrário do que dizem as Escrituras, deixando para seus discípulos extraírem eles mesmos, a partir dessas contradições, o que puderem e o que lhes agrade. Por exemplo, se as Escrituras dizem: &#8220;A ninguém na terra chameis de vosso pai, porque um só é o vosso Pai, o qual está nos céus. Nem vos chameis mestres, porque um só é o vosso Mestre, que é o Cristo&#8221;, eles dizem: &#8220;Nós apenas somos os pais, e nós apenas somos os mestres dos homens&#8221;. Foi dito: &#8220;Tu, quando orares, faze-o em oculto, e Deus te ouvirá&#8221;, mas eles ensinam que os homens devem orar em igrejas, na companhia de outros, com cântico e música. As Escrituras dizem: &#8220;De maneira nenhuma jureis&#8221;, mas eles afirmam que é necessário jurar obediência implícita às autoridades qualquer que seja a demanda delas. Foi dito: &#8220;Não matarás&#8221;, mas eles ensinam que podemos e devemos matar, em conformidade com a lei. Foi dito: &#8220;Meu ensino é espírito e vida. Alimentai-vos dele como que de pão&#8221;, mas eles ensinam que se pedacinhos de pão forem molhados em vinho e certas palavras forem proferidas sobre eles, esses pedacinhos de pão tornam-se carne e o vinho torna-se sangue, e que comer este pão e beber este vinho é muito proveitoso para a salvação da alma. As pessoas acreditam nisso e comem obedientemente esses bocados molhados de pão, e depois quando caem nas nossas mãos ficam perplexos de que os bocados não os tenham ajudado.</p>
<p>E o diabo de capa, rolando os olhos e virando as órbitas para cima, sorriu de orelha a orelha.</p>
<p>– Isso é excelente – disse Belzebu, e sorriu. E todos os diabos caíram na risada.</p>
<div class='series_toc'><h3>A restauração do inferno</h3><ol><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/isto-aconteceu-quando-jesus-revelava-sua-doutrina-aos-homens/' title='Isto aconteceu quando Jesus revelava sua doutrina aos homens'>Isto aconteceu quando Jesus revelava sua doutrina aos homens</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/trezentos-anos-se-passaram/' title='Trezentos anos se passaram'>Trezentos anos se passaram</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/que-barulho-e-esse/' title='Que barulho é esse?'>Que barulho é esse?</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/o-que-e-a-igreja/' title='O que é a igreja?'>O que é a igreja?</a></li><li>Mas o ensino era tão claro</li></ol></div>]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>Os desgovernos do Natal</title>
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		<pubDate>Tue, 11 Dec 2007 11:42:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[natal]]></category>

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		<description><![CDATA[Na Nova Inglaterra, durante os dois primeiros séculos de colonização branca a maior parte das pessoas não comemorava o Natal. Na verdade, o feriado foi sistematicamente suprimido pelos puritanos durante o período colonial e amplamente ignorado pelos seus descendentes. Foi na verdade ilegal celebrar o Natal em Massachusetts entre 1659 e 1681 (a multa era [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Na Nova Inglaterra, durante os dois primeiros séculos de colonização branca a maior parte das pessoas não comemorava o Natal. Na verdade, o feriado foi sistematicamente suprimido pelos puritanos durante o período colonial e amplamente ignorado pelos seus descendentes. Foi na verdade <em>ilegal</em> celebrar o Natal em Massachusetts entre 1659 e 1681 (a multa era de cinco shillings). Foi só em meados do século dezenove que o Natal ganhou reconhecimento legal como feriado público oficial na Nova Inglaterra. Escrevendo perto do final daquele século, um natural da Nova Inglaterra, nascido em 1822, recordava ir à escola quando criança no dia de Natal, acrescentando que mesmo em 1850, em Worcester, Massachusetts, &#8220;os tribunais deliberavam no Natal, os mercados abriam, e duvido que houvesse qualquer serviço religioso na cidade, a não ser que fosse domingo&#8221;. Mesmo em 1952, um escritor lembrava ter ouvido de seus avós que na Nova Inglaterra um trabalhador corria o risco de perder o emprego se chegasse tarde ao trabalho no dia 25 de dezembro, e que por vezes &#8220;os proprietários das fábricas mudavam os horários de chegada para as cinco da manhã no dia de Natal, para que os que quisessem assistir a uma celebração na igreja tivessem de abrir mão ou ser dispensados por chegarem tarde ao trabalho&#8221;.</p>
<h5>Dezembro era a única época de carne fresca.</h5>
<p>[...] Na Europa pré-Moderna, mais ou menos entre 1500 e 1800, a estação natalina era época para dar vazão aos apetites – e refestelar-se. Hoje em dia é difícil entender o que era essa celebração sazonal. Para a maior parte dos leitores deste livro, comida de qualidade está disponível em quantidade suficiente ao longo do ano inteiro. Mas a Europa pré-moderna era acima de tudo um mundo de escassez. Pouca gente comia comida de qualidade, e para todos a disponibilidade de comida era determinada pelas estações. Final de verão e começo do outono era a época dos vegetais frescos, mas dezembro era a época – a única época – de carne fresca. Os animais não podiam ser mortos até que o clima estivesse suficientemente frio para garantir que a carne não estragaria; e qualquer carne reservada para o restante do ano teria de ser preservada (e tornada portanto menos saborosa) pela conservação no sal. Dezembro era também o mês quando o suprimento anual de cerveja ou vinho estava pronto para beber. E para os fazendeiros, além disso, a época marcava o início do período de ócio. Não é de se admirar, portanto, que fosse a ocasião de excesso celebratório.</p>
<p>Os excessos tomavam inúmeras formas. Os festejos tornavam-se com facilidade desvario; lubrificada pelo álcool, as comemorações acabavam mesclando-se com desordem. O Natal era uma época de &#8220;desgoverno&#8221;, ocasião em que os freios comportamentais usuais podiam ser violados com impunidade. Era parte do que um historiador chamou de &#8220;mundo do carnaval&#8221; (o termo carnaval tem suas raízes nas palavras latinas <em>carne</em> e <em>vale</em> – &#8220;adeus à carne&#8221;. E carne aqui refere-se não apenas à comida mas também ao sexo – <em>carnal</em> bem como <em>carnívoro</em>). O &#8220;desgoverno&#8221; do Natal significava que não apenas a fome, mas também a ira e a luxúria podiam ser expressas em público (Não foi por acidente que [o reverendo] Increase Mather chamou dezembro de <em>Mensis Genialis</em>, &#8220;o mês da voluptuosidade&#8221;). As pessoas costumavam passar tinta negra nos rostos ou fantasiar-se de animais ou vestiar roupas típicas do sexo oposto, operando assim sob o manto da anonimidade. O historiador John Ashton, do século dezenove, conta um episódio acontecido em Lincolnshire em 1637, em que o homem escolhido pela multidão de foliões como &#8220;Barão do Desgoverno&#8221; recebeu uma &#8220;esposa&#8221; numa cerimônia conduzida por um homem vestido de sacerdote. Em seguida, conta Ashton em linguagem contidamente vitoriana, &#8220;o negócio foi levado até as últimas conseqüências&#8221;.</p>
<p align="right"><small>Stephen Nissenbaum, <strong>The Battle For Christmas</strong></small></p>
<div class='series_toc'><h3>A burlesca história da comemoração do Natal</h3><ol><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2005/a-burlesca-historia-da-comemoracao-do-natal-parte-112/' title='A burlesca história da comemoração do Natal, parte 112'>A burlesca história da comemoração do Natal, parte 112</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/a-transicao-de-sao-nicolau/' title='A transição de São Nicolau'>A transição de São Nicolau</a></li><li>Os desgovernos do Natal</li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/uma-concessao/' title='Uma concessão'>Uma concessão</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/a-aquisicao-da-boa-vontade/' title='A aquisição da boa vontade'>A aquisição da boa vontade</a></li></ol></div>]]></content:encoded>
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		<title>O que é a igreja?</title>
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		<pubDate>Sat, 01 Dec 2007 08:48:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[– O que é &#8220;a Igreja&#8221;? – perguntou Belzebu severamente, relutando em acreditar que seus servos fossem mais espertos do que ele. – Bom, quando uma pessoa diz uma mentira e teme que não vão acreditar nela, chama sempre Deus por testemunha, e diz: &#8220;Por Deus, estou dizendo a verdade!&#8221; Isso, em essência, é &#8220;a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>– O que é &#8220;a Igreja&#8221;? – perguntou Belzebu severamente, relutando em acreditar que seus servos fossem mais espertos do que ele.</p>
<p>– Bom, quando uma pessoa diz uma mentira e teme que não vão acreditar nela, chama sempre Deus por testemunha, e diz: &#8220;Por Deus, estou dizendo a verdade!&#8221; Isso, em essência, é &#8220;a Igreja&#8221;, porém com uma peculiaridade: aqueles que reconhecem a si mesmos como sendo &#8220;a Igreja&#8221; acabam convencidos de que são incapazes de errar, e portanto qualquer besteira que proferem não podem nunca refutar. A Igreja é constituída da seguinte forma: homens asseguram a si mesmos e a outros de que seu mestre, Deus, a fim de assegurar que a lei que revelou aos homens não seja mal interpretada, deu poder a determinados homens que, juntamente com aqueles a quem transferem esse poder, são os únicos capazes de interpretar corretamente o ensino dele. Assim esses homens, que chamam a si mesmos de &#8220;Igreja&#8221;, consideram-se defensores da verdade não porque pregam o que é verdadeiro, mas porque se consideram os únicos verdadeiros sucessores dos discípulos dos discípulos dos discípulos, até os discípulos do próprio mestre, Deus. Embora esse método, como o dos milagres, tenha a desvantagem de que as pessoas possam afirmar simultaneamente, cada uma por si mesma, serem membros da única Igreja verdadeira (como de fato sempre acontece), tem a vantagem de que tão logo os homens declaram que são a Igreja e desenvolvem sua doutrina com base nessa afirmação, não podem mais renunciar ao que já disseram, por mais absurdo que seja, não importa o que digam as outras pessoas.</p>
<h5>A própria posição deles obrigava-os a distorcer o ensino.</h5>
<p>– Mas por que a Igreja distorceu o ensino em nosso favor? – perguntou Belzebu.</p>
<p>– Fizeram isso – prosseguiu o diabo de capa – porque uma vez tendo se declarado os únicos expositores legítimos da lei de Deus, e tendo persuadido os outros disso, tornaram-se os árbitros máximos do destino dos homens e obtiveram portanto o poder máximo. Tendo obtido este poder, ficaram naturalmente orgulhosos e, em sua maior parte, depravados, e deste modo provocaram a indignação e a inimizade de outros contra eles mesmos. E na sua luta contra esses inimigos, não tendo outros meios além de violência, começaram a perseguir, executar e queimar na fogueira todos que não reconheciam a sua autoridade. Portanto a própria posição deles obrigava-os a distorcer o ensino, de modo a justificar tanto suas vidas perversas quanto a crueldade empregada contra os seus inimigos. E foi exatamente isso que fizeram.</p>
<div class='series_toc'><h3>A restauração do inferno</h3><ol><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/isto-aconteceu-quando-jesus-revelava-sua-doutrina-aos-homens/' title='Isto aconteceu quando Jesus revelava sua doutrina aos homens'>Isto aconteceu quando Jesus revelava sua doutrina aos homens</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/trezentos-anos-se-passaram/' title='Trezentos anos se passaram'>Trezentos anos se passaram</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/que-barulho-e-esse/' title='Que barulho é esse?'>Que barulho é esse?</a></li><li>O que é a igreja?</li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/mas-o-ensino-era-tao-claro/' title='Mas o ensino era tão claro'>Mas o ensino era tão claro</a></li></ol></div>]]></content:encoded>
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		<title>Que barulho é esse?</title>
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		<pubDate>Sun, 25 Nov 2007 08:39:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[– Que barulho é esse? – perguntou Belzebu, apontando para o alto. – O que está acontecendo lá em cima? – Só o que costumava sempre acontecer – respondeu o diabo reluzente de capa. – Quer dizer que temos mesmo uns novos pecadores? – quis saber Belzebu. – Muitos – explicou o reluzente. – Mas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>– Que barulho é esse? – perguntou Belzebu, apontando para o alto. – O que está acontecendo lá em cima?</p>
<p>– Só o que costumava sempre acontecer – respondeu o diabo reluzente de capa.</p>
<p>– Quer dizer que temos mesmo uns novos pecadores? – quis saber Belzebu.</p>
<p>– Muitos – explicou o reluzente.</p>
<p>– Mas que é do ensino daquele de quem não quero dizer o nome? – perguntou Belzebu.</p>
<p>O diabo de capa deu um sorriso que revelou seus dentes pontiagudos, enquanto risadas abafadas ouviam-se entre todos os outros demônios.</p>
<p>– Esse ensino não nos atrapalha de modo algum. As pessoas não acreditam nele – disse o diabo de capa.</p>
<p>– Mas é evidente que esse ensino salvou-as de nós, e isso ele selou pela sua morte – disse Belzebu.</p>
<p>– Mudei tudo isso – disse o diabo de capa, batendo rápido com a cauda no chão.</p>
<p>– O que você fez?</p>
<p>– Consegui que as pessoas não acreditem no ensino dele mas no meu, que chamam pelo nome dele.</p>
<p>– E como conseguiu isso? – quis saber Belzebu.</p>
<p>– Aconteceu espontaneamente. Só dei uma ajudinha.</p>
<h5>&#8220;Passei a sugerir que aquele desacordo era muito importante.&#8221;</h5>
<p>– Conte resumidamente o que aconteceu – disse Belzebu.</p>
<p>O diabo de capa baixou a cabeça e gastou um intervalo em silêncio, como se ponderasse sem pressa. Em seguida começou a sua história:</p>
<p>– Quando aquela coisa terrível aconteceu, quando o inferno foi derrubado e nosso pai e governante nos deixou – disse ele, – fui aos lugares onde o ensino que quase nos arruinara havia sido pregado. Eu queria ver como viviam as pessoas que colocavam-no em prática, e vi que os que viviam de acordo com aquele ensino eram inteiramente felizes e inteiramente fora do nosso alcance. Eles não se enfureciam uns com os outros, não cediam aos charmes das mulheres, não se casavam e, quando casavam, tinham uma única esposa. Não tinham propriedade privada, mas possuíam tudo em comum; não se defendiam de ataque algum, mas retribuíam o mal com o bem. Sua vida era tão virtuosa que um número cada vez maior de pessoas era atraído para o grupo deles.</p>
<p>– Quando vi isso pensei que tudo estava pedido, e tive vontade de desistir. Mas algo aconteceu, algo que embora insignificante em si mesmo pareceu-me merecer atenção, e permaneci. Entre essas pessoas alguns achavam necessário que todos se circuncidassem e que ninguém comesse a carne que havia sido oferecida aos ídolos, enquanto outros achavam que isso não era essencial; criam que não precisavam ser circuncidados e que podiam comer qualquer coisa. Passei então a sugerir para as pessoas dos dois grupos que aquele desacordo era muito importante, e que como a questão dizia respeito ao serviço de Deus, nenhum dos lados deveria ceder. Eles acreditaram em mim, e suas disputas tornaram-se mais violentas. Gente dos dois lados começou a ceder à raiva, e passei então a instilar em cada um deles que poderiam provar a verdade da sua posição através de milagres. Embora seja evidente que milagres não podem provar a verdade de doutrina alguma, eles estavam tão ansiosos para estarem certos que acreditaram em mim, e providenciei milagres para eles. Isso não foi difícil: eles acreditavam em qualquer coisa que confirmasse o seu desejo de demonstrar que apenas eles estavam certos.</p>
<p>– Alguns diziam que línguas de fogo haviam descido sobre eles; outros afirmavam que tinham visto o próprio corpo ressurreto do seu mestre, e muitas outras coisas. Ficavam inventando coisas que nunca tinham acontecido e, no nome daquele que nos chamou de mentirosos, mentiam não menos do que nós. Um dizia para o outro: &#8220;Os seus milagres não são genuínos, os nossos é que são&#8221;. E o outro respondia: &#8220;Não, os de vocês não são genuínos, os nossos é que são&#8221;.</p>
<p>– As coisas estavam indo bem, mas eu tinha medo que, de tão evidente que era, eles pudessem discernir aquele engodo; por isso inventei &#8220;A Igreja&#8221;. E quando eles acreditaram nA Igreja, fiquei em paz. Entendi que estávamos salvos, e que o inferno havia sido restaurado.</p>
<div class='series_toc'><h3>A restauração do inferno</h3><ol><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/isto-aconteceu-quando-jesus-revelava-sua-doutrina-aos-homens/' title='Isto aconteceu quando Jesus revelava sua doutrina aos homens'>Isto aconteceu quando Jesus revelava sua doutrina aos homens</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/trezentos-anos-se-passaram/' title='Trezentos anos se passaram'>Trezentos anos se passaram</a></li><li>Que barulho é esse?</li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/o-que-e-a-igreja/' title='O que é a igreja?'>O que é a igreja?</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/mas-o-ensino-era-tao-claro/' title='Mas o ensino era tão claro'>Mas o ensino era tão claro</a></li></ol></div>]]></content:encoded>
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		<title>Trezentos anos se passaram</title>
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		<pubDate>Sat, 24 Nov 2007 08:46:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
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		<category><![CDATA[tolstoi]]></category>

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		<description><![CDATA[II Cem anos, duzentos anos, trezentos anos se passaram. Belzebu não contava o tempo. Ao seu redor o que havia era negra escuridão e silêncio completo. Ele jazia imóvel e tentava não pensar no que havia acontecido, mas pensava assim mesmo, e odiava impotentemente aquele que havia ocasionado a sua queda. Mas de repente – [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>II</p>
<p>Cem anos, duzentos anos, trezentos anos se passaram.</p>
<p>Belzebu não contava o tempo. Ao seu redor o que havia era negra escuridão e silêncio completo. Ele jazia imóvel e tentava não pensar no que havia acontecido, mas pensava assim mesmo, e odiava impotentemente aquele que havia ocasionado a sua queda.</p>
<p>Mas de repente – ele não recordava ou não sabia quantas centenas de anos haviam transcorrido – ouviu acima de si sons que lembravam passos, gemidos, gritos e ranger de dentes.</p>
<p>Belzebu ergueu a cabeça e começou a ouvir.</p>
<p>Que o inferno pudesse ser restabelecido depois da vitória de Cristo era incrível demais para ele acreditar, mas os passos, os gemidos, os gritos e o ranger de dentes soavam cada vez mais nítidos.</p>
<p>Ele ergueu o corpo e pôs-se de pé com suas pernas hirsutas e seus cascos crescidos pela falta de uso (para sua perplexidade os grilhões caíram por si mesmos) e, batendo livremente as asas estendidas, deu o assobio pelo qual costumava convocar seus servos e assistentes para junto de si.</p>
<p>Antes que ele pudesse dar o fôlego seguinte uma abertura surgiu acima da sua cabeça, chamas rubras feriram-lhe a vista e uma multidão de diabos, empurrando uns aos outros, desceram pela abertura para aquela região inferior e acomodaram-se ao redor de Belzebu como urubus ao redor de carniça.</p>
<p>Havia diabos grandes e diabos pequenos, diabos gordos e diabos magros, diabos com rabos compridos e diabos com rabos curtos, diabos com chifres pontudos, diabos com chifres retos e diabos com chifres curvos.</p>
<p>Um diabo de um negro reluzente, nu exceto pela capa atirada sobre os ombros, com um rosto redondo sem pelos e uma enorme pança saliente, agachou-se diante do rosto do próprio Belzebu e, rolando os olhos para cima e para baixo, sorria sem cessar, balançando a comprida cauda de modo ritmado, de um lado para o outro.</p>
<div class='series_toc'><h3>A restauração do inferno</h3><ol><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/isto-aconteceu-quando-jesus-revelava-sua-doutrina-aos-homens/' title='Isto aconteceu quando Jesus revelava sua doutrina aos homens'>Isto aconteceu quando Jesus revelava sua doutrina aos homens</a></li><li>Trezentos anos se passaram</li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/que-barulho-e-esse/' title='Que barulho é esse?'>Que barulho é esse?</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/o-que-e-a-igreja/' title='O que é a igreja?'>O que é a igreja?</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/mas-o-ensino-era-tao-claro/' title='Mas o ensino era tão claro'>Mas o ensino era tão claro</a></li></ol></div>]]></content:encoded>
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