Manuscritos estocados sob a rubrica 'Documentos'
23 de Novembro de 2007

Isto aconteceu quando Jesus revelava sua doutrina aos homens

Documentos, Fé e Crença

Leo Tolstoi

I

Isto aconteceu quando Jesus revelava sua doutrina aos homens.

Seu ensino era tão claro, tão fácil de seguir e salvava os homens do mal de forma tão evidente que parecia impossível que não fosse aceito, ou que algo impedisse a sua disseminação.

Belzebu, pai e soberano de todos os demônios, ficou apreensivo. Ele via claramente que seu poder sobre os homens terminaria para sempre, a não ser que Jesus renunciasse ao seu ensino. Ficou apreensivo mas não perdeu as esperanças, e incitou os escribas e fariseus, seus obedientes servos, a que insultassem e atormentassem Jesus o máximo que pudessem, e aconselhou os discípulos de Jesus a que fugissem e o abandonassem. Ele esperava que a condenação a uma execução vergonhosa, a humilhação e o abandono por parte de todos os seus discípulos, e finalmente o sofrimento e a condenação em si, levariam Cristo a renunciar ao seu ensino no último momento, e que essa renúncia destruísse todo o seu poder.

A questão foi decidida na cruz. Quando Cristo exclamou: “Meu Deus, Meu Deus, por que me desemparaste?”, Belzebu exultou. Tomou os grilhões que tinha preparado para Jesus e experimentou-os em suas próprias pernas, ajustando-as de modo a que não se soltassem quando colocadas em Jesus.

De repente, no entanto, ouviram-se da cruz as seguintes palavras:

– Pai, perdoe-os porque eles não sabem o que fazem.

Depois disso Cristo exclamou: “Está consumado!” e entregou o espírito.

Belzebu compreendeu que tudo estava perdido.

Belzebu compreendeu que tudo estava perdido. Tentou libertar as pernas dos grilhões e fugir, mas não conseguiu sair do lugar. Os grilhões haviam se soldado a ele, e atavam seus próprios membros.

Tentou usar suas asas, mas não conseguiu estendê-las. E Belzebu viu como Cristo apareceu nos portões do inferno com uma auréola de luz, e como os pecadores, de Adão a Judas, saíram, e como os diabos fugiram, e como os próprios muros do inferno desabaram em silêncio em todas as quatro laterais. Incapaz de suportar mais disso, caiu pelo assoalho despedaçado, com um grito lancinante, para as regiões inferiores.

A restauração do inferno

  1. Isto aconteceu quando Jesus revelava sua doutrina aos homens
  2. Trezentos anos se passaram
  3. Que barulho é esse?
  4. O que é a igreja?
  5. Mas o ensino era tão claro
30 de Julho de 2007

O Livrinho do Coração

Documentos, Fé e Crença

“Um folheto célebre” traduzido do alemão Das Herz des Menschen, ein Tempel Gottes, oder eine Werkstaette des Satans. In zehn Figuren sinnbildisch dargestellt (O Coração Humano, Templo de Deus ou Oficina de Satanás. Com dez ilustrações alegóricas), que é, por sua vez, tradução de uma obra francesa de autor desconhecido.

Esta versão brasileira, com texto “vertido livremente do allemão, prefaciado, adaptado e aumentado com reflexões finais” por André Jensen, foi publicada em 1914 pela editora Casa Vanorden, de São Paulo. Explica o prefácio:

O Livrinho do Coração foi originalmente escripto em lingua franceza, mas sendo então muito differente do que actualmente é, visto ter passado por successivas edições revistas e melhoradas. No anno de 1732 foi traduzido em Würzburg, para o allemão, sendo as estampas obra do gravador universitário. O título então era: «Espelho espiritual em que se pode mirar quem deseja a salvação e, reconhecendo o estado de sua alma, reformar convenientemente a sua vida. Publicado mediante rogos e instancias de pessoas de bellos sentimentos.

O coração do livro, por assim dizer, são as dez gravuras ilustrativas, que representam alegoricamente os diferentes estados espirituais do coração do homem, de entregue ao pecado e governado pelo demônio a trono de Deus e morada do Espírito Santo. Ignoro se as gravuras que ilustram esta Edição Brazileira são aquelas do gravador da Universidade de Würzburg. Uma edição alemã do livro, disponível no Google Books e datada de 1831, traz ilustrações que parecem mais antigas.

O tradutor brasileiro conta que a versão alemã do Livrinho do Coração achou grande aceitação “não somente entre as classes inferiores, mas também nas rodas mais elevadas”: o naturalista Humboldt empenhou-se na sua distribuição, o imperador russo Alexandre trazia sempre um exemplar no bolso e Bultmann traduziu-o para o inglês. Ao longo dos séculos o Livrinho alcançou o milagre de ser adotado por “todos os grandes ramos que constituem a christandade, sendo amado pelos catholico-romanos, orthodoxos e evangelicos”.

Este exemplar estava numa das [muitas] caixas de livros antigos do meu pai, e parece fazer parte das suas memórias da vida na Colônia leta de Rio Novo, em Santa Catarina. Decidi reproduzir este Livrinho aqui na Bacia, uma estampa de cada vez, mediante rogos e instâncias de pessoas de belos sentimentos.

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02 de Outubro de 2006

E isso acontece durante todo o ano nessa terra do Brasil

Brasil, Documentos

TIVEMOS DESDE ENTÃO vento de oeste que nos foi propício e permaneceu tão constante que a 26 de fevereiro de 1557, pelas oito horas da manhã, avistamos a Índia Ocidental ou terra do Brasil, quarta parte do mundo, desconhecida dos antigos e também chamada América, do nome daquele que em 1497 primeiro a descobriu. Não é preciso dizer que muito nos alegramos e rendemos graças a Deus por estarmos tão perto do lugar que demandávamos. Com efeito há cerca de quatro meses não víamos porto e flutávamos no mar não raro com a idéia de que nos encontrávamos num exílio sem solução. Por isso logo que verificamos ser o continente que víamos, pois muitas vezes nos enganaram as nuvens, velejamos para a terra e no mesmo dia, com nosso almirante à frente fomos ancorar a meia légua de um lugar montanhoso chamado Huuassú (Iguaçu) pelos selvagens. Botamos nágua o escaler e depois de ter disparado alguns tiros de peça para avisar os habitantes, conforme o costume de quem chega a esse país, vimos reunirem-se na praia homens e mulheres em grande número. Nenhum de nossos marinheiros, já viajados, reconheceu bem o sítio; entretanto os selvagens eram da nação Margaiá, aliada dos portugueses e por conseqüência tão inimiga dos franceses que se nos apanhassem em condições favoráveis, não só não nos teriam pago resgate algum mas ainda nos teriam trucidado e devorado. E logo pudemos admirar as florestas, árvores e ervas desse país que, mesmo em fevereiro, mês em que o gelo oculta ainda no seio da terra todas essas coisas em quase toda a Europa, são tão verdes quanto na França em maio e junho. E isso acontece durante todo o ano nessa terra do Brasil.

Seis homens e uma mulher não hesitaram em vir visitar-nos no navio.

Não obstante a inimizade entre margaiás e franceses, muito bem dissimulada de parte a parte, nosso mestre, que lhes conhecia um pouco a língua, meteu-se num escaler com alguns marujos e dirigiu-se à praia cheia de selvagens. Não se fiando nestes entretanto, e temerosos de serem agarrados e moqueados, mantiveram-se fora do alcance de suas flechas acenando-lhes de longe com facas, espelhos, pentes e outras bugigangas. Ouvindo as nossas vozes apressaram-se os índios mais próximos em vir ao encontro dos nossos, com alguns companheiros. Desse modo obteve o nosso contramestre farinha fabricada de certa raiz, usada pelos da terra em vez de pão, e ainda carne de javali, frutas e mais coisas que a terra produz em abundância. Seis homens e uma mulher não hesitaram em vir visitar-nos no navio para vê-lo e dar-nos boas-vindas. Como eram os primeiros selvagens que eu via de perto, é natural que os observasse atentamente e embora os descreva minuciosamente noutro lugar, quero desde já dizer alguma coisa a seu respeito. Tanto os homens quanto as mulheres estavam tão nus como ao saírem do ventre materno mas para parecer mais garridos tinham o corpo todo pintado e manchado de preto.

[ . . . ]

Depois que os margaiás admiraram as nossas peças e tudo mais que desejaram no navio, pensando em outros franceses que por acaso lhes caíssem nas mãos, não os quisemos molestar nem reter; e pedindo eles regresso à terra tratamos de pagar-lhes os víveres que nos haviam trazido. Mas como desconhecessem o pagamento em moeda, foi o mesmo feito com camisas, facas, anzóis, espelhos e outras mercadorias usadas no comércio com os índios. Essa boa gente que não fôra avara, ao chegar, de mostrar-nos tudo quando trazia no corpo, do mesmo modo procedeu ao partir, embora já vestisse camisa. Ao sentarem-se no escaler os índios arregaçaram-se até o umbigo a fim de não estragar as vestes e descobriram tudo que convinha ocultar, querendo, ao despedir-se, que lhes víssemos ainda as nádegas e o traseiro. Agiram sem dúvida como honestos cavalheiros e embaixadores corteses. Contrariando o provérbio comum entre nós que a carne é mais cara do que a roupa revelaram a magnificência de sua hospedagem mostrando-nos as nádegas, na opinião de que valem mais as camisas do que a pele.

Jean de Léry, Viagem à terra do Brasil (1577),
Capítulo V – DO DESCOBRIMENTO E PRIMEIRA VISTA QUE TIVEMOS DA ÍNDIA OCIDENTAL OU TERRA DO BRASIL, BEM COMO DE SEUS HABITANTES SELVAGENS E DO MAIS QUE NOS ACONTECEU ATÉ O TRÓPICO DE CAPRICÓRNIO

09 de Setembro de 2006

Bula Romanus Pontifex

Documentos, Fé e Crença

1 – NÃO SEM GRANDE ALEGRIA chegou ao nosso conhecimento que o nosso dileto filho Infante D. Henrique, incendido no ardor da fé e zelo da salvação de almas, se esforça, como verdadeiro soldado de Cristo, por fazer conhecer e venerar em todo orbe, até os mais remotos lugares, o nome do gloriosíssimo Deus, reduzindo à sua fé não só os sarracenos inimigos dela, como também quaisquer outros infiéis; depois da conquista de Ceuta por seu pai, muito contra aqueles inimigos foi realizado pelo mesmo infante, às vezes com sua pessoal intervenção, não sem trabalhos, despesas e morte de sua gente; e sempre incansavelmente e cada vez mais animado do mesmo propósito, povoou de fiéis as ilhas desertas onde fez construir igrejas e outras casas piedosas, fez batizar e converter os habitantes de outras, para propagação da fé e aumento do culto divino.

2 – Além disso, tento este Infante conhecimento de que jamais, ao menos desde que há memória, o mar Oceano foi navegado em suas extensões orientais e meridionais, pelo que nada se sabe dos povos daquelas partes, julgou prestar grande serviço a Deus, tornando-o navegável até aqueles Índios que consta adorarem a Cristo. Assim poderia levar estes a auxiliar os cristãos contra os sarracenos, fazendo pregar o santo nome de Cristo entre os povos que a seita do nefando Mafoma infesta. Sempre munido de autoridade régia, há vinte e cinco anos que com grandes trabalhos, perigos e despesas não cessava com suas velozes naus, chamadas caravelas, devassar o mar, em direção das partes meridionais e Pólo Antártico. Aconteceu assim que foram perlustrados portos, ilhas e mares, atingida e ocupada a Guiné e portos, ilhas e mares adjacentes, navegando depois até a foz do rio reputado como o Nilo (Niger), fazendo guerra aos povos daquelas partes e apoderando-se das ilhas e mar adjacentes. Guinéus e negros tomados pela força, outros legitimamente adquiridos por contrato de compra foram trazidos ao reino, onde em grande número se converteram à fé católica, o que esperamos progrida até a conversão do povo ou ao menos de muitos mais.

Guinéus e negros tomados pela força, outros legitimamente adquiridos por contrato de compra, em grande número se converteram à fé católica.

3 – Tivemos, porém, conhecimento de que o Rei (D. Afonso) e o Infante, receando que tudo quanto obtiveram com tais perigos, trabalhos e despesas e possuem como verdadeiros senhores, outros, movidos de malícia e cupidez, venham usurpar ou danar, levando aos gentios o que os habilite a resistir-lhes mais fortemente, impedindo assim, não sem ofensa de Deus, o prosseguimento de tal obra, para a isso obviar, proibiram que se navegue para aquelas Províncias e por lá se trafique a não ser em suas naus e com seus nautas, licença expressa do Rei ou do Infante e pagamento de tributo. Pode, porém, suceder que, pelo decorrer dos tempos, pessoas de outros reinos ou nações sejam arrastadas pela cobiça, inveja ou malícia a infringir tal proibição, do que poderão resultar ódios, dissensões, rancores, guerras e escândalos ofensivos a Deus e perigosos para as almas.

4 – Por isso nós, tudo pensando com devida ponderação, por outras cartas nossas concedemos ao dito rei Afonso a plena e livre faculdade, dentre outras, de invadir, conquistar e subjugar quaisquer sarracenos e pagãos, inimigos de Cristo, suas terras e bens, a todos reduzir à servidão e tudo aplicar em utilidade própria e dos seus descendentes. Por esta mesma faculdade, o mesmo D. Afonso ou, por sua autoridade, o Infante legitimamente adquiriram mares e terras, sem que até aqui ninguém sem sua permissão neles se intrometesse, o mesmo devendo suceder a seus sucessores. E para que a obra mais ardentemente possa prosseguir.

5 – De moto próprio, e depois de amadurecida reflexão, em plenitude do poder apostólico, queremos que o teor daquelas cartas se considere, palavra por palavra, inserto nesta com todas e cada uma das cláusulas nelas contidas, vigorando até para quanto foi adquirido antes da data daquela faculdade, como para quanto posteriormente pode ou possa ser conquistado aos infiéis e pagãos, províncias e ilhas, portos e mares, incluindo ainda a conquista desde os cabos do Bojador e Não até toda a Guiné e, além dela, toda a extensão meridional; tudo declaramos pertencer de direito in perpetuum aos mesmos D. Afonso e seus descendentes, e ao Infante.

Concedemos ao dito rei Afonso a plena e livre faculdade, dentre outras, de invadir, conquistar e subjugar quaisquer sarracenos e pagãos, inimigos de Cristo, suas terras e bens, a todos reduzir à servidão e tudo aplicar em utilidade própria e dos seus descendentes.

6 – Determinamos e declaramos que o mesmo Rei Afonso, e seus sucessores, e o Infante poderão livremente e licitamente estabelecer naqueles, tal como nos outros seus domínios, proibições, estatutos e leis mesmo penais, assim como tributações, tanto nas terras já adquiridas como nas que venham a adquirir.

7 – Poderão eles ou as pessoas a quem o tenham permitido contratar ou negociar como convier com os sarracenos e infiéis em tudo que não sejam armas, naus, ferramentas, cordame, para o que vigoram os indultos já anteriormente concedidos.

8 – Poderão fundar nessas terras igrejas ou mosteiros para lá enviar eclesiásticos seculares e, com autorização dos superiores, regulares das ordens mendicantes, sendo lícito a tais eclesiásticos ali exercer suas funções e juridição própria.

9 – E a todos e cada um dos fiéis e eclesiásticos seculares e regulares, de qualquer categoria ou dignidade, exortamos e rogamos em nome de Deus que não transportem para os infiéis destas terras, adquiridas ou conquistadas, armas, ferro ou cordame.

Tudo declaramos pertencer de direito in perpetuum aos mesmos D. Afonso e seus descendentes, e ao Infante.

10 – E também que sem especial licença do mesmo Rei Afonso e seus sucessores e Infante ninguém, direta ou indiretamente, se intrometa na atividade do tráfego ou navegação dessas partes, ou por qualquer forma tente impedir a sua pacífica posse.

11. Se alguém, indivíduo ou coletividade, infringir estas determinações, seja excomungado, só podendo ser absolvido se, satisfeitos o Rei Afonso e seus sucessores ou Infante, eles nisso concordarem.

Papa Nicolau V, 8 de janeiro de 1454

23 de Janeiro de 2006

Matutino da Casa, Nr.3 Ano 1

Documentos, Família

Eu sabia que falávamos de antes de 1978, mas a capa deste número 3 do Matutino da Casa traz a data 11-4-76, portanto cabe supor que o número 2 seja mais antigo. Eu tinha oito anos.

O tédio parece ter tomado conta da casa da Rua Florianópolis em Londrina, mas isso não era empecilho para os intrépidos redatores do Matutino. Não importa o que não aconteça, não parem as rotativas – esse parece ter sido o nosso lema.

Sinto dizer que há pouco de notável neste número. Destaque absoluto para a capa, desenhada pela Isa. Até os classificados parecem ter sido sugados pelo tédio (“dá-se preguiça aos montes, montinhos e montões”).

De algum interesse é a página 6, com texto e ilustração deste que vos fala e a página 7, que contém uma receita de Bolo Fofinho© (“que o pai acha palhoso… mas é gostoso”) – testada e aprovada pela “cozinha experimentada Isa” – e uma declaração apócrifa de amor do pae para a mãe. continue lendo >

O Matutino da Casa

  1. Matutino da Casa, Nr.2 Ano 1
  2. Matutino da Casa, Nr.3 Ano 1