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	<title>A Bacia das Almas &#187; Bluteau</title>
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	<description>Onde as ideias não descansam</description>
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		<title>Bluteau, o Magnífico</title>
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		<pubDate>Thu, 01 Jun 2006 12:22:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Bluteau]]></category>
		<category><![CDATA[Gírias e Falares]]></category>

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		<description><![CDATA[Houve um tempo, talvez mais são, em que as línguas eram infinitamente mais fluidas do que são. Em português &#8220;homem&#8221; escrevia-se homem, omem, omee ou ome &#8211; intercambiavelmente e muitas vezes num mesmo parágrafo. Nos nossos dias, em comparação, um idioma é coisa mais ou menos congelada, graças em parte a autores como Camões e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Houve um tempo, talvez mais são, em que as línguas eram infinitamente mais fluidas do que são. Em português &#8220;homem&#8221; escrevia-se homem, omem, omee ou ome &#8211; intercambiavelmente e muitas vezes num mesmo parágrafo. Nos nossos dias, em comparação, um idioma é coisa mais ou menos congelada, graças em parte a autores como Camões e Shakespeare, cujos textos acabaram consagrando determinadas soluções e ajudando a <em>fixar</em> o idioma. Porém a maior culpa &#8211; ou mérito &#8211; por essa recente fixidez das línguas, tanto em grafia quanto em significado, é dos dicionários.</p>
<p>Os dicionários são coisa <a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/o-que-e-pos-moderno-e-o-que-nao-e">moderna</a> e demoraram a ser inventados. Durante milênios o que existiu basicamente foram dicionários bilingües, utilizados para traduzir e ensinar um outro idioma. Não ocorreria a ninguém empreender a tarefa insensata e redundante de compor um dicionário completo esclarecendo os termos de uma língua utilizando os termos dessa mesma língua. Por essa razão, antes dos dicionários nasceram as listas de palavras, e depois das listas de palavras vieram os dicionários de sinônimos, que não continham definições.</p>
<p>O primeiro verdadeiro dicionário da língua portuguesa é o vertiginoso <em>Vocabulario Portuguez e Latino</em> do padre Raphael Bluteau, publicado em 8 volumes (mais 2 de suplemento) entre 1712 e 1728.<a href="http://www.baciadasalmas.com/images/2006/bits/blu-00004-b.gif"> <img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2006/bits/blu-00004.gif" title="Clique para ampliar" border=0 class="left" /> </a></p>
<p>O Vocabulario, cujo título completo é <em>Vocabulario Portuguez e Latino, Aulico, Anatomico, Architectonico, Bellico, Botanico, Brasilico, Comico, Critico, Chimico, Dogmatico,  Dialectico, Dendrologico, Ecclesiastico, Etymologico, Economico, Florifero, Forense, Fructifero, Geographico, Geometrico, Gnomonico, Hydrographico, Homonymico, Hierologico, Ichtyologico, Indico, Ifagogico, Laconico, Liturgico, Lithologico, Medico, Musico, Meteorologico, Nautico, Numerico, Neoterico, Ortographico, Optico, Ornithologico, Poetico, Philologico, Phramaceutico, Quiddotativo, Qualitativo, Quantitativo, Rethorico, Rustico, Romano, Symbolico, Synonimico, Syllabico, Theologico, Terapeutico, Technologico, Uranologico, Xenophonico e Zoologico</em> (autorizado com exemplos dos melhores escritores portuguezes e latinos, e offerecido a el-rey de Portvgval D. Joaõ V pelo Padre D. Raphael Bluteau, clerigo regular, doutor na Sagrada Theologia, Prêgador da Raynha da Inglaterra, Henriqueta Maria de França e Calificador no sagrado Tribunal da Inquisição de Lisboa) é uma daquelas obras tão vastas e ambiciosas que beira a lenda. Se algo pode ser dito com justiça sobre Bluteau, é que suas idéias não descansam, mas vagueiam incessantemente pelas rubricas do seu dicionário.</p>
<p>Ao contrário do que sugeriram amigos intrigados, não foi por razões teológicas ou devocionais, mas meramente hedonistas, que estoquei há alguns dias a página do Bluteau com entrada <a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/baal">Baal</a>.</p>
<p>A leitura de Bluteau me dá prazer em inúmeros níveis; quero apenas destacar alguns. Primeiro há a sensatez de um tempo em que a língua portuguesa não tinha acentos, a não ser os estritamente necessários ou diferenciais &#8211; um tempo em que era <a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/duzentas-gramas">correto</a> escrever <em>tambem,</em> <em>opiniam,</em> e <em>demonio,</em> e &#8220;é&#8221; escrevia-se <em>he,</em> mais ou menos como na internet dos nossos dias.</p>
<p>Num outro plano, gosto das evocativas informações de segunda mão, como <em>Alexandre, cognominado Polyhistor, diz que os Chaldeos se jactavam de ter uns  comentários de quinze mil annos nos quais se fazia mençam das grandezas do seu Bel como criador do mundo</em> e ainda <em>Dizem que em Alemanha costumaõ os Judeos escrever nas portas de suas casas Bagad, ou Mazaltob</em> &#8211; precauções que falam de uma época em que os fatos eram extremamente difíceis de confirmar e a imaginação era indistinguível da informação. Que me importa a factualidade da transação? Poucas coisas me soam mais intrigantes ou prenhes de possibilidades do que um livro de quinze mil anos que descreve a criação do mundo. <a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/post-mortem">Lovecraft</a> teria adorado.</p>
<h5>O tom austero e distanciado das definições dos dicionários não havia sido inventado.</h5>
</p>
<p>Terceiro, Bluteau escreve num momento da história em que o tom austero e distanciado das definições dos dicionários não havia sido inventado. Ninguém <em>sabia</em> de fato dizer o que devia constar ou ser descartado numa entrada de dicionário (na verdade ninguém sabe dizer ainda hoje, embora o laconismo e a aridez tenham se estabelecido). Bluteau por essa razão se permite deliciosas liberdades: seu dicionário faz alternar o tom de enciclópedia, de nota jornalística, de confissão, de devocional, de blog &#8211; como quando, ao enumerar os nomes pelos quais os homens adoraram o demônio ao longo da história, ele conclui: &#8220;por infinitas<br />Sortes de Nomes vaõs, <em>que não tê conto&#8221;.</em> </p>
<p>Finalmente, há o <em>classicismo</em> puro e simples do estilo, cuja precisão me faz às vezes pensar em Borges: <em>Assentada numa dilatada campina está cercada de altos muros, fortificada com torres, &#38; ornada de Pyramides.</em></p>
<p>Raphael Bluteau (1638-1734), como convém às figuras meteóricas de sua época, era homem internacional: nasceu em Londres de pais franceses, estudou na França e doutorou-se em Roma, porém adotou Portugal e faleceu em Lisboa. </p>
<p>
<p style="padding-left:4em;padding-right:4em;">Os últimos anos da sua longa vida, pois faleceu com perto de 95 anos, passou-os descansadamente, respeitado pelos homens mais doutos e instruídos do seu tempo que o estimavam como amigo e mestre. O Padre Bluteau era mais ou menos versado em todo o género de estudos, merecendo-lhe particular predileção o das línguas mortas e vivas. Falava desembaraçadamente a inglesa, francesa, italiana, portuguesa, espanhola e grega, tendo aprofundado o conhecimento das gramáticas de todas estas línguas, compondo e escrevendo com facilidade. Na Biblioteca Nacional de Lisboa há dois retratos seus, e dizem que na Imprensa Nacional também existe um na sala da contadoria. <br /><small> <a href="http://www.arqnet.pt/dicionario/bluteau.html">Dicionário Histórico e Corográfico de Portugal</a> (1904-1915)</small></p>
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		<title>Baal</title>
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		<pubDate>Sat, 20 May 2006 03:48:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Bluteau]]></category>

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		<description><![CDATA[BAAL, Baâl. He Palavra Phenicia, que val o mesmo que Senhor. Debaixo desse nome Real adoravam os Phenicios ao seu principal idolo; os Babylonios, &#38; os Caldeos adoravaõ ao seu debaixo do nome de Bel ; &#38; segundo a observação de alguns Authores, Bel &#38; Bealim, são Pluraes de Baal, &#38; na sagrada Escritura sam [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-family: Georgia; color: #3e4c00; text-align: justify; font-size: 1.5em; line-height: 1.4em;"> <strong>BAAL,</strong> Baâl. He Palavra Phenicia, que val o mesmo que <em>Senhor.</em> Debaixo desse nome <em>Real</em> adoravam os Phenicios ao seu principal idolo; os Babylonios, &#38; os Caldeos adoravaõ ao seu debaixo do nome de <em>Bel</em> ; &#38; segundo a observação de alguns Authores, <em>Bel &#38; Bealim,</em> são Pluraes de Baal, &#38; na sagrada Escritura sam os nomes de diversas Deidades. Foram muitas, &#38; muito differentes as accepçoens destes nomes, <em>Baal, Bel &#38; Baalim.</em> Alexandre cognominado Polyhistor, diz que os Chaldeos se jactavam de ter uns </span><span style="font-family: Georgia; color: #3e4c00; text-align: justify; font-size: 1.5em; line-height: 1.4em;"> comentários de quinze mil annos, nos quais se fazia mençam das grandezas do seu <em>Bel,</em> como criador do mundo. Com o discurso do tempo, degenerando a piedade em superstiçam, o sol, respeitado como Deos do Ceo, foi adorado debaixo do nome de Bel; depois se deu o nome de Bel, ou <em>Baal</em> aos mais astros celestes, e finalmente aos Reys. Aos fabulosos Deoses Marte, &#38; Jupiter se deram estes mesmos nomes de Baal, &#38; Bel; &#38; primeiro que o mao uso corrõpesse com a idolatria o nome de Baal, sem criminosa aplicaçam os Hebreos o appropriavam a Deos, o que finalmête prohibio Deos. He opiniam commua, que Baal foi o primeiro idolo do mundo, &#38; origem de toda a Idolatria. Segundo outra acepçam <em>Baal,</em> ou <em>Bel,</em> é aquele Nembrode do qual a Escritura faz mençam no cap. 11 do Genesis; era filho de Chus, que foi filho de Saturno, era neto de Cham, &#38; bisneto de Noe.</span></p>
<p><span style="font-family: Georgia; color: #3e4c00; text-align: justify; font-size: 1.5em; line-height: 1.4em;"> Baâl. Também he um dos nomes, &#38; titulos, que a cegueira humana deu ao Demonio.<br />,Chamaramlhe Belial os Ninivitas.<br />,Babylonia <em>Baâl,</em> &#38; Acheronto,<br />,Os Philisteos Dagon, &#38; os Moabitas<br />,Beelfegor, nome infame de Ellespõto.<br />,Por Bacco, por Behemot, por infinitas<br />,Sortes de Nomes vaõs, que não tê conto;<br />,Foi na terra adorado em toda parte<br />,E de Israel por <em>Baâl,</em> Camos, &#38; Astarte.<br />Malaca conquist. livro I.oit.48.</span></p>
<p><span style="font-family: Georgia; color: #3e4c00; text-align: justify; font-size: 1.5em; line-height: 1.4em;"> Baâl. Cidade do Tribu de Benjamim. Também Baâl he o nome de um Levita, filho de Abigabaon, &#38; de Maacha. Em Phenicia houve um Rey de Tyro, chamado Baâl, o qual succedeo a Ithobelo.</span></p>
<p><span style="font-family: Georgia; color: #3e4c00; text-align: justify; font-size: 1.5em; line-height: 1.4em;"><strong>BAALA,</strong> Baâla, Por outro nome <em>Cariat hiarim.</em> He huma Cidade do <em>Tribu</em> de Judâ nos confins do Tribu de Benjamim, na qual ficou depositada por espaçõ de 20 annos a Arca, na casa de hum homem santo, chamado Aminadab. Josue, 15.28, I.Reg.7.</span></p>
<p><span style="font-family: Georgia; color: #3e4c00; text-align: justify; font-size: 1.5em; line-height: 1.4em;"> <strong>BAALBERITH.</strong> Baalberîth. Cidade do Tribu de Manasses alem do Rio Jordão. Tambem he o nome de hum Templo na Cidade de Sichem, muito sumptuoso, &#38; muito rico, dedicado ao idolo Baâl.</span></p>
<p><span style="font-family: Georgia; color: #3e4c00; text-align: justify; font-size: 1.5em; line-height: 1.4em;"> <strong>BAAL-GAD.</strong> Baal-gâd. Derivase de <em>Baâl, Senhor,</em> ou <em>Deos,</em> &#38; de <em>Gâd, Fortuna.</em> Era um Idolo dos Assirios, a que elles chamavam tambem de <em>Bagad,</em> ou <em>Begad,</em> de sorte que <em>Baal-gâd</em> vinha a ser o mesmo que <em>Senhor,</em> ou <em>Deus da boa fortuna</em>. Dizem que em Alemanha costumaõ os Judeos escrever nas portas de suas casas <em>Bagad,</em> ou <em>Mazaltob,</em> que val o mesmo que <em>Boa fortuna,</em> ou <em>Bom Genio,</em> com esperança de attrahirem grandes prosperidades para a sua familia.</span></p>
<p><span style="font-family: Georgia; color: #3e4c00; text-align: justify; font-size: 1.5em; line-height: 1.4em;"> <strong>BAALI.</strong> Cidade do deserto da Arabia, assim chamada por ser sepultura de Ali, Genro de Mafoma. Assentada numa dilatada campina está cercada de altos muros, fortificada com torres, &#38; ornada de Pyramides. Canos subterraneos lhe trazem agoa do Euphrates de tres legoas de distancia. Na Relação da sua viagem pag. 120. o P. Man. Godinho a descreve amplamente.</span></p>
<p><span style="font-family: Georgia; color: #3e4c00; text-align: justify; font-size: 1.5em; line-height: 1.4em;"> <strong>BAARAS.</strong> He um lugar da syria, no monte Lybano, &#38; juntamente he o nome de huma prodigiosa planta, que sô no ditto lugar se acha no caminho, que vai para Damasco. No livro 7 da guerra Judaica, cap.23. escreve Joseph Hebreo, que no Mez de Mayo, quando se derretem as neves, sahe esta planta, com singulares propriedades, que vindo</p>
<p>
<p style="text-align:center;"><a href="http://www.baciadasalmas.com/images/2006/bits/bluteau-baal-b.gif"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2006/bits/bluteau-baal.gif" title="Clique para ampliar" alt="Clique para ampliar" width="400" height="276" /></a><br /><small> <em>Vocabulario Portuguez e Latino</em> (1712-1728), Raphael Bluteau</small></span></p>
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