Manuscritos estocados sob a rubrica 'Bluteau'

01 de Junho de 2006

Bluteau, o Magnífico

Bluteau, Gírias e Falares

Houve um tempo, talvez mais são, em que as línguas eram infinitamente mais fluidas do que são. Em português “homem” escrevia-se homem, omem, omee ou ome – intercambiavelmente e muitas vezes num mesmo parágrafo. Nos nossos dias, em comparação, um idioma é coisa mais ou menos congelada, graças em parte a autores como Camões e Shakespeare, cujos textos acabaram consagrando determinadas soluções e ajudando a fixar o idioma. Porém a maior culpa – ou mérito – por essa recente fixidez das línguas, tanto em grafia quanto em significado, é dos dicionários.

Os dicionários são coisa moderna e demoraram a ser inventados. Durante milênios o que existiu basicamente foram dicionários bilingües, utilizados para traduzir e ensinar um outro idioma. Não ocorreria a ninguém empreender a tarefa insensata e redundante de compor um dicionário completo esclarecendo os termos de uma língua utilizando os termos dessa mesma língua. Por essa razão, antes dos dicionários nasceram as listas de palavras, e depois das listas de palavras vieram os dicionários de sinônimos, que não continham definições.

O primeiro verdadeiro dicionário da língua portuguesa é o vertiginoso Vocabulario Portuguez e Latino do padre Raphael Bluteau, publicado em 8 volumes (mais 2 de suplemento) entre 1712 e 1728.

O Vocabulario, cujo título completo é Vocabulario Portuguez e Latino, Aulico, Anatomico, Architectonico, Bellico, Botanico, Brasilico, Comico, Critico, Chimico, Dogmatico, Dialectico, Dendrologico, Ecclesiastico, Etymologico, Economico, Florifero, Forense, Fructifero, Geographico, Geometrico, Gnomonico, Hydrographico, Homonymico, Hierologico, Ichtyologico, Indico, Ifagogico, Laconico, Liturgico, Lithologico, Medico, Musico, Meteorologico, Nautico, Numerico, Neoterico, Ortographico, Optico, Ornithologico, Poetico, Philologico, Phramaceutico, Quiddotativo, Qualitativo, Quantitativo, Rethorico, Rustico, Romano, Symbolico, Synonimico, Syllabico, Theologico, Terapeutico, Technologico, Uranologico, Xenophonico e Zoologico (autorizado com exemplos dos melhores escritores portuguezes e latinos, e offerecido a el-rey de Portvgval D. Joaõ V pelo Padre D. Raphael Bluteau, clerigo regular, doutor na Sagrada Theologia, Prêgador da Raynha da Inglaterra, Henriqueta Maria de França e Calificador no sagrado Tribunal da Inquisição de Lisboa) é uma daquelas obras tão vastas e ambiciosas que beira a lenda. Se algo pode ser dito com justiça sobre Bluteau, é que suas idéias não descansam, mas vagueiam incessantemente pelas rubricas do seu dicionário.

Ao contrário do que sugeriram amigos intrigados, não foi por razões teológicas ou devocionais, mas meramente hedonistas, que estoquei há alguns dias a página do Bluteau com entrada Baal.

A leitura de Bluteau me dá prazer em inúmeros níveis; quero apenas destacar alguns. Primeiro há a sensatez de um tempo em que a língua portuguesa não tinha acentos, a não ser os estritamente necessários ou diferenciais – um tempo em que era correto escrever tambem, opiniam, e demonio, e “é” escrevia-se he, mais ou menos como na internet dos nossos dias.

Num outro plano, gosto das evocativas informações de segunda mão, como Alexandre, cognominado Polyhistor, diz que os Chaldeos se jactavam de ter uns comentários de quinze mil annos nos quais se fazia mençam das grandezas do seu Bel como criador do mundo e ainda Dizem que em Alemanha costumaõ os Judeos escrever nas portas de suas casas Bagad, ou Mazaltob – precauções que falam de uma época em que os fatos eram extremamente difíceis de confirmar e a imaginação era indistinguível da informação. Que me importa a factualidade da transação? Poucas coisas me soam mais intrigantes ou prenhes de possibilidades do que um livro de quinze mil anos que descreve a criação do mundo. Lovecraft teria adorado.

O tom austero e distanciado das definições dos dicionários não havia sido inventado.

Terceiro, Bluteau escreve num momento da história em que o tom austero e distanciado das definições dos dicionários não havia sido inventado. Ninguém sabia de fato dizer o que devia constar ou ser descartado numa entrada de dicionário (na verdade ninguém sabe dizer ainda hoje, embora o laconismo e a aridez tenham se estabelecido). Bluteau por essa razão se permite deliciosas liberdades: seu dicionário faz alternar o tom de enciclópedia, de nota jornalística, de confissão, de devocional, de blog – como quando, ao enumerar os nomes pelos quais os homens adoraram o demônio ao longo da história, ele conclui: “por infinitas
Sortes de Nomes vaõs, que não tê conto”.

Finalmente, há o classicismo puro e simples do estilo, cuja precisão me faz às vezes pensar em Borges: Assentada numa dilatada campina está cercada de altos muros, fortificada com torres, & ornada de Pyramides.

Raphael Bluteau (1638-1734), como convém às figuras meteóricas de sua época, era homem internacional: nasceu em Londres de pais franceses, estudou na França e doutorou-se em Roma, porém adotou Portugal e faleceu em Lisboa.

Os últimos anos da sua longa vida, pois faleceu com perto de 95 anos, passou-os descansadamente, respeitado pelos homens mais doutos e instruídos do seu tempo que o estimavam como amigo e mestre. O Padre Bluteau era mais ou menos versado em todo o género de estudos, merecendo-lhe particular predileção o das línguas mortas e vivas. Falava desembaraçadamente a inglesa, francesa, italiana, portuguesa, espanhola e grega, tendo aprofundado o conhecimento das gramáticas de todas estas línguas, compondo e escrevendo com facilidade. Na Biblioteca Nacional de Lisboa há dois retratos seus, e dizem que na Imprensa Nacional também existe um na sala da contadoria.
Dicionário Histórico e Corográfico de Portugal (1904-1915)

20 de Maio de 2006

Baal

Bluteau

BAAL, Baâl. He Palavra Phenicia, que val o mesmo que Senhor. Debaixo desse nome Real adoravam os Phenicios ao seu principal idolo; os Babylonios, & os Caldeos adoravaõ ao seu debaixo do nome de Bel ; & segundo a observação de alguns Authores, Bel & Bealim, são Pluraes de Baal, & na sagrada Escritura sam os nomes de diversas Deidades. Foram muitas, & muito differentes as accepçoens destes nomes, Baal, Bel & Baalim. Alexandre cognominado Polyhistor, diz que os Chaldeos se jactavam de ter uns comentários de quinze mil annos, nos quais se fazia mençam das grandezas do seu Bel, como criador do mundo. Com o discurso do tempo, degenerando a piedade em superstiçam, o sol, respeitado como Deos do Ceo, foi adorado debaixo do nome de Bel; depois se deu o nome de Bel, ou Baal aos mais astros celestes, e finalmente aos Reys. Aos fabulosos Deoses Marte, & Jupiter se deram estes mesmos nomes de Baal, & Bel; & primeiro que o mao uso corrõpesse com a idolatria o nome de Baal, sem criminosa aplicaçam os Hebreos o appropriavam a Deos, o que finalmête prohibio Deos. He opiniam commua, que Baal foi o primeiro idolo do mundo, & origem de toda a Idolatria. Segundo outra acepçam Baal, ou Bel, é aquele Nembrode do qual a Escritura faz mençam no cap. 11 do Genesis; era filho de Chus, que foi filho de Saturno, era neto de Cham, & bisneto de Noe.

Baâl. Também he um dos nomes, & titulos, que a cegueira humana deu ao Demonio.
,Chamaramlhe Belial os Ninivitas.
,Babylonia Baâl, & Acheronto,
,Os Philisteos Dagon, & os Moabitas
,Beelfegor, nome infame de Ellespõto.
,Por Bacco, por Behemot, por infinitas
,Sortes de Nomes vaõs, que não tê conto;
,Foi na terra adorado em toda parte
,E de Israel por Baâl, Camos, & Astarte.
Malaca conquist. livro I.oit.48.

Baâl. Cidade do Tribu de Benjamim. Também Baâl he o nome de um Levita, filho de Abigabaon, & de Maacha. Em Phenicia houve um Rey de Tyro, chamado Baâl, o qual succedeo a Ithobelo.

BAALA, Baâla, Por outro nome Cariat hiarim. He huma Cidade do Tribu de Judâ nos confins do Tribu de Benjamim, na qual ficou depositada por espaçõ de 20 annos a Arca, na casa de hum homem santo, chamado Aminadab. Josue, 15.28, I.Reg.7.

BAALBERITH. Baalberîth. Cidade do Tribu de Manasses alem do Rio Jordão. Tambem he o nome de hum Templo na Cidade de Sichem, muito sumptuoso, & muito rico, dedicado ao idolo Baâl.

BAAL-GAD. Baal-gâd. Derivase de Baâl, Senhor, ou Deos, & de Gâd, Fortuna. Era um Idolo dos Assirios, a que elles chamavam tambem de Bagad, ou Begad, de sorte que Baal-gâd vinha a ser o mesmo que Senhor, ou Deus da boa fortuna. Dizem que em Alemanha costumaõ os Judeos escrever nas portas de suas casas Bagad, ou Mazaltob, que val o mesmo que Boa fortuna, ou Bom Genio, com esperança de attrahirem grandes prosperidades para a sua familia.

BAALI. Cidade do deserto da Arabia, assim chamada por ser sepultura de Ali, Genro de Mafoma. Assentada numa dilatada campina está cercada de altos muros, fortificada com torres, & ornada de Pyramides. Canos subterraneos lhe trazem agoa do Euphrates de tres legoas de distancia. Na Relação da sua viagem pag. 120. o P. Man. Godinho a descreve amplamente.

BAARAS. He um lugar da syria, no monte Lybano, & juntamente he o nome de huma prodigiosa planta, que sô no ditto lugar se acha no caminho, que vai para Damasco. No livro 7 da guerra Judaica, cap.23. escreve Joseph Hebreo, que no Mez de Mayo, quando se derretem as neves, sahe esta planta, com singulares propriedades, que vindo

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Vocabulario Portuguez e Latino (1712-1728), Raphael Bluteau