Manuscritos estocados sob a rubrica 'História'
02 de Junho de 2010
Para começar por aquilo que incessantemente ignoramos ou esquecemos: a doutrina da morte substitutiva de Jesus (a noção de que Jesus morreu a fim de satisfazer em nosso lugar algum requerimento ligado à coerência interna da divindade) foi articulada pela primeira vez mil anos depois de Cristo, por Anselmo (1033-1109). Talvez seja necessário reler este parágrafo.
A tradição cristã defendeu desde sempre, a partir de indicações do Novo Testamento, a dupla noção de que a morte de Jesus foi de alguma forma necessária, e de que a passagem de Jesus pela terra – incluindo sua vida, morte e ressurreição – ocasionou de um modo misterioso mas inequívoco a Singularidade, a plenitude dos tempos, a redenção dos homens. Porém Anselmo foi o primeiro a tomar sobre a si a tarefa de montar um sistema teológico que explicasse exatamente porque a cruz havia se mostrado necessária, e de que modo a obra de Jesus havia ocasionado a redenção.
E para ele tudo tinha sido uma questão de honra.
Segundo Anselmo, a obrigação primeira de todos os homens é devolver a Deus a honra que lhe pertence por direito. Pecar é essencialmente sonegar a honra devida a Deus: é ao mesmo tempo roubá-lo de sua dignidade e desonrá-lo. O problema está em que, como a honra é a característica mais inegociável da natureza divina, Deus não é livre para perdoar o pecado por um simples ato de vontade: “nada é menos tolerável na ordem das coisas do que uma criatura tomar do Criador a honra que lhe é devida sem repor aquilo que tomou”. O pecado gera um débito, diante do qual a reparação da dignidade divina só pode ser obtida de duas formas: [1] pela punição implacável dos devedores ou [2] pelo satisfação da dívida, o que só ocorre quando se devolve a Deus mais do que foi tirado dele.
A redenção, então, se resumiria nisso: o homem deve devolver a honra que roubou de Deus; como só um homem deve satisfazer esse débito e como só um Deus é capaz de efetuá-lo, foi necessário que o homem-Deus fosse obediente até a morte para reparar essa injustiça e restaurar o prestígio divino.
A teologia de Anselmo (que acabou sendo conhecida como doutrina “satisfacional” ou, de modo ainda mais revelador, doutrina “comercial” da redenção) é, como todas, reflexo rigoroso da época em que foi concebida. A ideia de satisfação era fundamental na justificação do sistema corrente de penitências; a ênfase no ressarcimento era característica da obsessão romana/latina com o Direito Penal; e, finalmente, os conceitos de honra ferida e de compensação da honra através da obediência eram parte essencial da estrutura ideológica do feudalismo em que Anselmo vivia.
A primeira e maior falha na doutrina de Anselmo é também aquela que geraria mais graves consequências no futuro. Ao limitar a redenção à satisfação de um débito e ao limitar essa satisfação à obediência da cruz, Anselmo isolou a morte de Jesus do restante de sua obra de vida. A obsessão com os méritos da morte acabaria tornando a vida de Jesus irrelevante – como se sua vida não tivesse feito parte parte do seu esforço redentor. Nas palavras de Harnack: “Esse Deus-homem não precisava ter pregado e fundado um reino; nenhum discípulo precisava ter sido reunido: dele só era requerido que morresse.”
Em segundo lugar, se a redenção é essencialmente uma estratégia de Deus para recuperar o seu próprio prestígio, seu motivo não está fundamentado – a despeito da insistência das Escrituras neste ponto – no seu amor aos homens, mas no amor ao prestígio. Anselmo inaugurou um universo em que Deus mandou seu filho ao mundo por sua causa, não nossa. Ao contrário do que parecem insistir os autores bíblicos, a ênfase da reparação não está na reconciliação entre as partes, mas na restauração da mesma sorte de prestígio que um vassalo deve reconhecer ininterruptamente no suserano.
Finalmente, se a satisfação do débito é tão absolutamente incontornável e central na economia da redenção, em que a morte de Jesus tem a significância de uma transferência bancária, Deus é em última instância incapaz de perdoar, ao contrário do que sugerem a Bíblia e a tradição. Se o único modo de apagar a dívida é o inevitável ressarcimento, a fim de aprendermos a perdoar, desligar e esquecer devemos recorrer a um exemplo que não seja Deus. Orar pedindo “perdoa as nossas dívidas” passa a ser uma incorreção teológica e uma temeridade.
A doutrina de Anselmo ganhou poucos aderentes e causou quase nenhum impacto por 400 anos. Seu duvidoso mérito foi ter servido de base para a teologia da Reforma, que ecoa, será inevitável lembrar, com os mesmos temas: pagamento de débito, substituição, a redenção jurídica de uma condenação inalienável.
Lutero começou onde Anselmo havia começado, com a noção de que Deus não é livre para perdoar os pecados por um ato de livre vontade, porque o perdão do pecado não punido seria essencialmente injusto. Porém, ao contrário de Anselmo, que postulava que a redenção visava preservar a dignidade de Deus, Lutero sustentou que o que estava sendo protegido era a ordem moral do universo, que absolutamente requer alguém em quem se descarregar os débitos morais gerados pelo pecado.
Em Lutero a característica incontornável de Deus não é a sua honra, mas a sua justiça. Ao contrário do que havia sugerido Anselmo, a satisfação do pecado não pode ser obtida através da obediência, mas através da punição.
Se Anselmo havia drenado todo mérito da vida de Jesus e concentrado o mérito em sua morte, Lutero deu o passo seguinte nesse projeto de alienação. Para Anselmo, somos resgatados porque Jesus obedeceu quando nós é que deveríamos ter obedecido; para Lutero, somos resgatados porque Jesus foi punido quando nós é que deveríamos ter sido punidos. O mérito da morte de Jesus não foi ativo, como Anselmo havia pensado (obediência), mas meramente passivo (punição). Nas palavras de Jonathan Edwards, o moço:
Ouso dizer ainda que, não apenas a redenção de Cristo não consistiu essencialmente em sua ativa obediência, como sua ativa obediência não teve qualquer papel na redenção.
Se Anselmo havia conferido ao mundo um Deus obcecado com sua própria dignidade, Lutero deu ao mundo um Deus que não apenas imolou o seu Filho Amado, mas derramou sobre ele toda a ira e toda a maldição, porque sua justiça absolutamente requeria que ele descarregasse essas penas sobre alguém. Está dito na Confessão Saxã (1551) de Melâncton: “tamanha é a severidade da sua justiça que não pode haver reconciliação a não ser que a penalidade seja paga. Tamanha é a intensidade da ira de Deus que o Pai eterno não pode ser aplacado a não ser pela morte de seu Filho”.
Em conformidade com isso, Lutero deixou abundantemente claro que o seu Deus era limitado e definido pela justiça e não pelo amor. Seu Deus não tinha obrigação alguma de ser misericordioso, mas absolutamente não tinha como deixar de ser justo.
A Reforma ganhava assim um discurso – em vocabulário contemporâneo, um “diferencial”. Em Lutero a redenção encontrava uma explicação que ganharia tremenda popularidade porque refletia, num momento de absoluta transição, todo o espírito da nascente era Moderna. Ao mesmo tempo em que os homens descobriam e começavam a brincar com as Luzes que conduziriam aos movimentos nacionais e à Revolução Industrial, a Reforma oferecia uma doutrina em que a morte de Jesus não tinha apenas um significado (o que muito evidentemente não lhe bastava), mas uma lógica e um mecanismo: uma utilidade.
De tão imbuídos que estávamos no espírito dos tempos, tornamo-nos incapazes de enxergar que uma doutrina que nega qualquer significado ao trajeto terreno da encarnação, que não vê mérito na obediência do Filho do Homem, que postula um Deus incapaz de perdoar sem o recurso da satisfação, um Deus que é Justiça em tamanho grau que não pode dar-se ao luxo de ser Amor – não tem direito a requerer para si qualquer relação com o Deus de Jesus.
Porque, se em última instância o pecado não pode ser perdoado sem o gosto da satisfação, Lutero revelou um mundo em que a graça não é efetivamente graça e efetivamente não pode ser. Este é um universo em que tudo requer pagamento, em que nada pode ser livremente perdoado e em que toda condenação é inalienável (embora algumas sejam felizmente transferíveis). Na doutrina de Lutero Deus não vence a Lei, mas é vencido por ela mesmo no seu mais glorioso instante. A misericórdia não triunfa sobre o juízo, porque o juízo é de pedra e nem mesmo Deus pode conferir a ele um coração de carne.
O curioso está em que o Novo Testamento não nega que o pecado gera um débito; tanto em Jesus quanto em seus cronistas, a ideia de dívida é uma das figuras mais comumente associadas à noção de transgressão. Porém, ao contrário do que sugerem Anselmo e Lutero, a posição da boa nova não é de que o débito requer inescapavelmente o pagamento por parte do devedor ou de um seu substituto. Ao contrário; os evangelhos insistem que a solução da Magnanimidade para o débito não é a satisfação, mas a clemência, o indulto, o perdão: assim no batismo, assim nas parábolas, assim no “setenta vezes sete”, assim na oração do Pai Nosso, assim na absolvição dos executores diante da cruz. “A miseriórdia triunfa sobre o juízo” quer dizer isso mesmo: o amor triunfa sobre a satisfação.
Cada um a seu modo, Anselmo e Lutero abraçaram a Empresa Teológica, que é o esforço muito humano e contraditório de tentar defender a qualquer custo aquilo que em cada momento da história é tido como a coerência interna da divindade. A teologia nasce do amor à ordem, não do amor a Deus. Anselmo afirma claramente que sua doutrina parte do pressuposto de que o universo não deve permanecer desordenado (inordinatum). Não é de admirar que tanto ele quanto Lutero tenham defendido com unhas e dentes a teoria da satisfação, porque é uma doutrina que impõe alguma lógica sobre o que parece não ter razão alguma. No fim das contas o perdão puro e simples representa a maior e mais espetacular das desordens, e esse escândalo os homens moverão terra e céu para deslocar de seu campo de visão.
O Deus da Bíblia, ao contrário do que sugerem essas distrações, é inteiramente incapaz de encontrar satisfação na agonia, na punição e no castigo, que representam mais adequadamente as preferências de Moloque. Muito claramente, e disso dão testemunho todas as parábolas (que são a expressão mais precisa da realidade da redenção), o que pode satisfazer a divindade é somente a integridade voluntária, somente o retorno filial, somente o abraço incondicionado da demanda pela bondade, pela aceitação e pelo amor. É quase criminoso que tenhamos demorado tanto tempo para condenar a noção de que Deus possa se satisfazer com menos.

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NOTAS
12 de Maio de 2010
Porque ninguém sobrevive impunemente à guerra, muito menos a esta. A guerra é de tal natureza que, não importa quão bem-intencionado tenha sido o vencedor, o bem nunca vence no final.
Os aliados vencedores ocupavam agora a Alemanha, e sua primeira medida foi a denazificação da sociedade. Ter sido nazista passou a ser o grande estigma da vez, e nas cortes temporárias estabelecidas pelos aliados os alemães sob suspeita tinham que comprovar sua pureza ideológica durante o regime de Hitler. A igreja teria sido a entidade ideal para fornecer esses certificados de isenção, não fosse o fato de que – como não demoraram a apontar os rebeldes da Igreja Confessante – a própria igreja não estava isenta de culpa.
E, numa devastação de proporções tão descomunais, onde colocar a culpa? Onde não colocá-la? Depois de que impensável reparação um oficial nazista poderia voltar a frequentar a igreja que não hesitara em perseguir? Como se poderia esperar que um militante da resistência, trazendo no corpo e na mente as marcas da tortura, admitisse um ex-nazista em sua comunhão? Como poderia uma mãe perdoar-se por ter votado no ditador que despachara o seu filho para uma guerra da qual não tinha voltado? Quem estava pronto para reconhecer sua parcela de culpa? Quem estava pronto a perdoá-la?
Logo ficou claro que, estando todos os ressentimentos em alta, ninguém estava pronto para abraçar o fardo da culpa; não pelos horrores do nazismo. Uma declaração do Conselho da Igreja Evangélica Alemã, publicada em outubro de 1945 (portanto poucos meses depois do final da guerra), causou indignação e controvérsia ao sugerir uma medida de culpa coletiva:
Sabemos que nos encontramos não apenas numa comunidade de sofrimento, mas numa solidariedade de culpa. É com grande angústia que declaramos: através de nós incalculável sofrimento foi causado a diversos povos e terras. O que temos com frequência testemunhado diante de nossas congregações declaramos agora diante de toda a igreja: [...] somos culpados de não ter confessado de forma mais corajosa, de não ter orado de forma mais consciente, de não ter crido de modo mais jubiloso e de não ter amado de modo mais ardente.
A Declaração de Culpa de Stuttgart, como ficou conhecida, foi amplamente rejeitada na Alemanha assim que saiu a público, sendo considerada traição ao povo alemão e rendição às demandas dos ocupantes aliados. Ela, afinal de contas, trazia um doloroso “através de nós”, e ninguém estava disposto a admitir envolvimento direto com a máquina da morte. Cada sobrevivente de uma guerra que havia se mostrado custosa em todas as frentes podia elencar sua própria série de circunstâncias atenuantes: estavam protegendo suas famílias, estavam apenas sendo bons cidadãos, fizeram o que puderam mas estavam respeitando as leis de seu país, os russos também eram culpados de enormes atrocidades, e assim por diante.
Por outro lado os militantes da resistência, que haviam assumido impensáveis riscos pessoais durante o nazismo sem o apoio da igreja institucional, consideraram a Declaração de Culpa vaga e insuficiente. Só para citar um ponto fundamental, o documento não mencionava a fulgurante omissão da igreja na questão da exclusão e do extermínio dos judeus. Se reparações eram para ser feitas, alegavam os sobreviventes da resistência, todas as culpas e culpados deveriam ser trazidos à tona, por mais doloroso que fosse o processo. O sangue de mártires como Bonhoeffer exigia pelo menos essa hombridade tardia.
E, como observa Barnett, o que surgia na Alemanha de pós-guerra não era uma solidariedade de culpa, mas mais propriamente uma solidariedade de silêncio a respeito do passado recente. Os da maioria conservadora achavam que o país só voltaria a avançar se a mancha horrenda do nazismo fosse deixada de lado o mais cedo possível; incomodava-os ouvir a minoria radical, que insistia que não haveria verdadeiro progresso até que o passado fosse trazido publicamente à tona e publicamente tratado.
Nessa discordância inicial sobre a atribuição da culpa estava a semente de uma polarização que nos anos seguintes só iria se acentuar, mesmo entre os membros da Igreja Confessante. Os próprios cristãos que haviam concordado em se opor publicamente a Hitler, crendo que estavam nisso confessando a herança de Jesus, passaram a discordar muito gravemente a respeito de qual rumo a igreja deveria tomar agora que o regime havia caído.
De um lado postaram-se os conservadores, que criam que a fim de honrar o sacrifício da resistência a igreja deveria almejar uma completa “restauração” – isto é, um retorno à situação ideal que a nação e a igreja viviam antes da interrupção da guerra. Esses tradicionalistas abraçaram o discurso ocidental de democracia e “liberação”: ao mesmo tempo reassumiram o seu nacionalismo e se tornaram anticomunistas. Do outro lado, os militantes não-conformistas alegaram que havia sido muito claramente a própria posição conservadora da igreja a ter possibilitado impunemente os horrores de Hitler; o único modo da igreja honrar o legado da resistência seria lutar abertamente contra uma restauração nacionalista do status quo, mantendo sua postura de oposição mesmo no novo e confortável regime nacional financiado pelos aliados. Esses oposicionistas viam que a relação entre a guerra e o discurso nazista demonstrara além de qualquer dúvida que um retorno à tradição “pátria e família” era absolutamente impensável; tornaram-se antinacionalistas e pacifistas, e passaram a pender para a esquerda.
Para os conservadores, os não-conformistas estavam usando a igreja como plataforma de objetivos políticos (isto é, não-espirituais); para os não-conformistas, os conservadores estavam se rendendo a uma estrutura de poder que patrocinaria a seu tempo injustiças em tudo indistinguíveis às do nazismo. Agora que os mártires estavam mortos e não podiam advogar sua própria posição, quem podia dizer qual era a verdadeira herança da igreja que se opusera a Hitler? De que lado estavam os heróis?
Como se não bastasse, a polarização ideológica entre tradicionalistas e radicais ficou logo dolorosamente ilustrada no mundo real. A Grande Guerra chegara ao fim, mas o país foi sequestrado internacionalmente para se tornar o ícone planetário de uma nova estirpe de guerra, a Guerra Fria, sendo fendida segundo os critérios ideológicos de seus ocupantes. Nasciam duas Alemanhas, a República Federal Alemã – ocidental, capitalista e anticomunista – e a República Democrática Alemã – soviética, comunista e anticapitalista. E, rasgada entre as duas, em termos ideológicos e geográficos, quedava a igreja evangélica alemã.
A divisão política da Alemanha garantiu, entre outras coisas, que o discurso interno da igreja, dos dois lados da fronteira (e logo dos dois lados do Muro) passasse a ser vivido e articulado exclusivamente a partir dessa polarização. Nenhuma das facções podia acreditar que o outro lado estava de alguma forma coadunando com o sistema: para os tradicionalistas, uma igreja comunista era uma contradição em termos; para os não-conformistas, uma organização que se ajustasse confortavelmente a um sistema seletivo e opressor como o capitalismo era em tudo idêntica à igreja sob Hitler. Paralisada pelas limitações inerentes a esses discursos polarizadores, a igreja permaneceu durante décadas patinando entre direita e esquerda, inteiramente incapaz de sair do lugar.
Na narrativa de Barnett não há conversões nem redenção; conservadores morrem conservadores, militantes morrem militantes – cada um inteiramente incapaz de suportar a convivência mútua, cada um crendo que apenas o seu lado está sendo fiel à verdadeira vocação cristã e ao legado de oposição ao nazismo.
Os protagonistas dessa narrativa já abandonaram, em sua maioria, o palco dos acontecimentos e dos discursos, sendo que alguns morreram para pagar o preço de sua coerência interna, na esperança de poderem salvar o que para eles era futuro e que para nós é presente – mas suas conflagrações são também as nossas. De vez em quando sou lembrado, pessoalmente ou por e-mail, que cristão não deve ser de esquerda; eu mesmo, em contrapartida, posso passar horas explicando porque um cristão deveria se opor ao capitalismo. De um lado, os conservadores ainda proclamam aos quatro ventos que o ocidente defende os valores democráticos e portanto “cristãos”; por outro, os não-conformistas ainda intuem sem ruído o que afirmou Hans Iwand, militante da resistência alemã: “uma igreja confessante estará sempre na oposição, em todo partido, em todo sistema, em todo governo”. Os conservadores denunciam a teologia da libertação como lobo socialista em pele de cordeiro cristão, enquanto os esquerdistas condenam o capitalismo como abominação fascista mal ocultada. Quem está certo? Quem está realmente na oposição? Onde está o articulado questionador deste século? Quem é o verdadeiro promotor do reino?
Como enxergo a coisa, a história da igreja sob Hitler, bem como seus desdobramentos históricos, é capaz de acrescentar o que devem ser considerados novos fatores a essa discussão. Primeiro, deve ser capaz de estabelecer de uma vez por todas que a polarização entre esquerda e direita, na forma como a herdamos, é inteiramente condicionada; não apenas é um discurso que foi injetado externamente na tradição cristã, mas foi (e permanece sendo) utilizada por ambos os lados do espectro político como ferramenta de legitimação ideológica.
Segundo, é uma história que ilustra como o discurso político conduz invariavelmente à polarização – e a polarização, por sua vez, à paralisia (isto é, a omissão, e portanto o controle). O mal que o nazismo ocasionou não se restringe aos horrores literais do Reich, mas à divisão não menos literal a que o mundo foi submetido na mão dos vencedores. Esses venderam-nos a ideia de que um estava certo e o outro errado e, tendo gerado cada um o seu antagonista, garantiram a perpetuação de seus próprios sistemas. Com a queda do bloco soviético, o sistema sobrevivente procura incessantemente antagonistas que o legitimem – e faz isso porque absolutamente sabe que é só a polarização que pode salvar um discurso político. É vital que haja inimigos, por isso algumas vezes será necessário criá-los: Hitler sabia-o melhor do que ninguém. Enquanto permanecer politicamente útil, a polarização entre esquerda e direita continuará nos nossos lábios.
Finalmente, enxergo nessa narrativa um contraste trágico, inexcusável, entre as desventuras da igreja histórica e a posição apolítica de Jesus e dos primeiros cristãos – que, por sustentarem um modo de vida que ignorava faceiramente as soluções institucionais para “o problema da sociedade”, tornaram-se imediatamente ameaça aos discursos do sistema e a seus proponentes. Os primeiros cristãos sustentavam uma justiça que é intermediada através de indivíduos, não de instituições – e nessa postura estabeleciam um desconcertante reino que não é deste mundo.
E enquanto passamos a vida tentando determinar a posição de nossos antagonistas nos extremos do espectro político, mantemo-nos a salvo de assumir nós mesmos os riscos da verdadeira subversão cristã.
Porque, muito claramente, todas as culpas são coletivas, e uma consequência paradoxal disso é que só são concebíveis as bravuras individuais. Não existem soluções políticas, porque todas as soluções políticas são polarizadoras, e portanto paralisantes. O cristianismo que anuncia o fim de todos os governos faz isso demonstrando singelamente, na sua prática inargumentável, que qualquer discurso de redenção institucional é ilusório, servindo apenas de ferramenta aos poderes e potestades para nos manter sob o seu domínio. Como ensina o homem pregado na cruz e o sangue de todos os mártires, todas as bravuras são individuais. Arrepender-se é mudar o mundo a começar do nosso, e pecar é omitir-se.

NOTAS
10 de Maio de 2010

E por certo quando trago à lembrança que nosso vitorioso imperador presta ele mesmo louvores a este Poderoso Soberano, faço bem em seguir o seu exemplo, sabendo como sei que somente a Ele devemos o poder imperial sob o qual vivemos. Os piedosos Césares, instruídos pela sabedoria de seu pai, reconhecem-No como a fonte de toda benção; o corpo militar, a entidade coletiva do povo, tanto no campo quanto nas cidades do império, juntamente com os governantes das diversas províncias, reunidos de acordo com o preceito de seu grande Salvador e Mestre, prestam-Lhe adoração. Em suma, toda a família da humanidade, de toda nação, tribo e língua, tanto coletivamente quanto em separado, por mais diversas que sejam suas opiniões a respeito de outras questões, são unânimes com respeito a essa única confissão; e, em obediência à razão implantada neles e ao impulso espontâneo e voluntário de suas próprias mentes, unem-se em invocar o único e Uno Deus.
E dessa forma o Todo-Poderoso Soberano confere um acréscimo tanto de anos quanto de filhos a nosso piedosíssimo imperador, e mantém ainda vigoroso e próspero seu domínio sobre as nações, como se estivesse agora mesmo brotando em seu vigor inicial. É Ele quem o nomeia para o presente festival, em que foi Ele quem o fez vitorioso sobre todo inimigo que perturbou a sua paz; é Ele quem o exibe à raça humana como genuíno exemplo de integridade.
E assim nosso imperador, como o radiante sol, ilumina os mais remotos súditos de seu império através da presença dos Césares, que agem como os distantes e penetrantes raios de seu próprio esplendor. Tendo ainda como que atado sob o mesmo jugo os quatro mais nobres dos Césares para servirem de corcéis da carruagem imperial, ele mesmo assenta-se exaltado e conduz o seu curso com as rédeas da sagrada harmonia e da concórdia; e, estando ele mesmo em todo o lugar e observando cada acontecimento, percorre dessa forma cada região do mundo.
Finalmente, investido como que com uma semelhança da soberania celeste, dirige para o alto o seu olhar, e modela seu governo terreno em conformidade com o padrão do original divino, sentindo solidez em sua conformidade à monarquia de Deus. «A democracia, que é o oposto da monarquia, pode ser descrita como anarquia e desordem.»E dentre todas as criaturas da terra essa conformidade é conferida pelo Soberano universal apenas ao homem; pois apenas Ele é o autor do poder soberano, que decreta que todos devem sujeitar-se ao governo de apenas um.
E sem dúvida a monarquia ultrapassa em muito a toda outra constituição e forma de governo; pois a igualdade de poder da democracia, que é seu oposto, pode ser mais exatamente descrita como anarquia e desordem. Por conseguinte há um único Deus, e não dois, três ou mais: pois afirmar uma pluralidade de deuses é negar por completo o ser de Deus. Há um único Soberano, e são uma sua Palavra e sua régia Lei.
E o próprio Deus, como penhor da recompensa futura, confere hoje [ao imperador] coroas tricenais compostas de prósperos períodos de tempo; e agora, transcorridas as revoluções de três ciclos de dez anos, concede a toda humanidade permissão de celebrar este festival global – mais do que isso, universal.
E enquanto regozijam-se estes na terra, como que coroados com as flores do conhecimento divino, não deve ser exagero supor que os coros celestiais, atraídos por simpatia natural, unam seu próprio júbilo ao júbilo destes na terra; não apenas isso, que o próprio Supremo Soberano, na qualidade de gracioso pai, deleite-se na adoração de filhos obedientes, e ache assim por bem honrar com um período estendido de tempo o autor e causa dessa sua obediência; e, longe de limitar seu reinado a três ciclos decenais, estenda-o ao período mais remoto, até mesmo à distante eternidade.
Eusébio de Cesaréia (239-339), trechos do Discurso em louvor de Constantino (336), proferido no trigésimo aniversário de seu reinado. Constantino morreu no ano seguinte.

Leia também:
Dê-me um monoteísmo e moverei o mundo
Pela alma do povo: Omissões coletivas e bravuras individuais
Imagem: peacay
06 de Maio de 2010
Nós e o cristianismo só temos uma coisa em comum:
exigimos a pessoa toda!
O juiz nazista Roland Freisler a Helmut Moltke,
durante o julgamento de Moltke pelo seu envolvimento
no atentado de 20 de julho
Eu estava a meio caminho da interminável biografia de Dietrich Bonhoeffer (que ainda não terminei) quando comecei a ler For the soul of the people: Protestant protest against Hitler [Pela alma do povo: Protesto protestante contra Hitler], da historiadora Victoria Barnett. Pus de lado esta semana a última página do livro, e posso dizer que encontrei o que não procurava – talvez justamente porque (e eis a necessária reviravolta) não encontrei o que procurava.
O título do livro é ao mesmo tempo enganador e significativo porque, como a autora vai deixando agonizantemente claro, não houve protesto protestante contra Hitler. Não na Alemanha nazista. Não quando era necessário. Não quando um protesto poderia fazer diferença. Não com qualquer ênfase ou visibilidade, não por parte de um grupo significativo e certamente não por parte da instituição como um todo.
O que houve, e disso a história fornece redentora e incômoda evidência, foi protesto individual de protestantes contra Hitler. A instituição essencialmente nada fez, mas naquele mais vigiado, preconceituoso, intolerante e opressor dos regimes levantaram-se uns poucos heróis solitários que, precisamente como Bonhoeffer, colocaram-se publicamente em pé diante da máquina simplesmente porque não concordavam com a direção em que ela estava indo, e por causa de quem estava sendo esmagado no caminho. A maioria desses, precisamente como Bonhoeffer, não escapou com vida para testemunhar a primavera de 1945, quando o planeta despedaçado acordou perplexo para o fim da inocência mundial.
É uma narrativa que confirma da forma mais excruciante o que venho intuindo há muito tempo (“repita comigo: as instituições não existem, só existem pessoas“) sobre a insuficiência das instituições e a facilidade com que podem tornar-se carimbos coletivos que o sistema usa para endossar a injustiça. Na história como apresentada por Barnett é terrível constatar o tempo que perde, esperando alguma reação ou posicionamento da igreja formal, o punhado de pessoas realmente disposta a se levantar contra o regime – ou, talvez ainda mais importante, disposta a ajudar quem está sendo prejudicada por ele. Mesmo os militantes mais radicais da resistência protestante na Alemanha nazista demoraram anos até passarem a questionar a omissão do sistema eclesiástico em público e em privado; todos, mesmo os terrivelmente lúcidos como Bonhoeffer, simplesmente queriam que a instituição funcionasse. Muitos deles ficaram querendo até o último momento.
A verdade que esta parábola deixa evidente é que a instituição não existe para defender uma causa ou sua coerência ideológica interna, mas para garantir sua própria perpetuação – pelo que seu modo de operação mais fundamental é a cautela. Quando o governo nazista decretou que os judeus estavam a partir de determinado momento desclassificados para determinadas posições públicas e privadas, não ocorreu à igreja questionar esse julgamento, mesmo quando os que queriam comprovar a sua ascendência ariana recorreram em massa aos arquivos eclesiásticos, que detinham os registros de nascimento – e cujos responsáveis tiveram de trabalhar em dobro (e em alguns casos contratar assistentes e secretários) a fim de suprir a nova demanda de verificação racial gerada pelo estado.
Quando os judeus convertidos ao cristianismo se tornaram um embaraço inequívoco também dentro das igrejas, muitos sugeriram singelamente que uma solução amorosa seria que esses cristãos de origem “não-ariana” abrissem uma igreja só para eles, onde não representariam ameaça para outros além de si mesmos. Isso enquanto toda uma ala da igreja evangélica alemã, a dos chamados “Cristãos Germânicos”, propunha a sumária eliminação do Antigo Testamento de todas as Bíblias, de modo a sinalizar sem margem de dúvida o rompimento do cristianismo com a herança judaica.
Diante do ensurdecedor silêncio da igreja perante esses procedimentos, uma facção dela decidiu que era necessário postar-se publicamente contra a onda de insanidade. Esses, mais ou menos liderados por Bonhoeffer, deram a si mesmos o nome de Igreja Confessante, porque criam que confessar o nome/pessoa de Jesus implicava em manifestar-se publicamente contra toda forma de injustiça, mesmo diante de riscos institucionais e pessoais.
O livro de Barnett explica como essas três facções da igreja alemã (a minoria dos Cristãos Germânicos, a maioria conservadora/cautelosa e a minoria confessante) combateram umas com as outras durante o regime nazista de modo a, no fim das contas, se sujeitarem mutuamente ao mais completo silêncio diante das injustiças de Hitler.
Parte essencial da história, na verdade, está em que logo ficou claro que havia diferenças irreconciliáveis de convicção e de estratégia entre moderados e radicais mesmo dentro da Igreja Confessante. Essa polarização apenas se acentuou com o cerrar do cerco nazista, até que aqueles dispostos ao martírio entenderam que mesmo o movimento confessante era insuficiente para se proferir no meio do caos a Palavra, e partiram para a carreira solo no acolhimento de perseguidos ou no terrorismo secular. Entenderam que se haveria uma igreja contra a qual as portas do inferno não resistiriam, essa se manifestaria através de indivíduos e não da instituição. Porém essa sua distração com a fé no sistema custou muito para eles mesmos e para outros: quando esses poucos caras – a dissidência da dissidência – sacaram que não podiam e não deviam contar com as soluções institucionais, era essencialmente tarde demais.
O cerne do problema parece ter residido no fato de que, numa tradição que se estendia praticamente até Lutero, igreja e líderes eclesiásticos alemães haviam durante séculos sido incentivados a declarar mútua lealdade para com “o trono e o altar”. Nessa visão de mundo governo e igreja eram considerados sistemas independentes, mas unia-os um acordo tácito pelo qual um se comprometia a não interferir nos negócios do outro, e pelo qual ambos se comprometiam a fornecer ao outro legitimidade. Em outras palavras, a igreja não se sentia particularmente devedora a qualquer manifestação do Estado, mas sentia-se menos ainda inclinada a a interferir em negócios que diziam respeito a “outro domínio” que não o espiritual. Seu papel cristão era, muito declaradamente, pregar o evangelho e distribuir os sacramentos. Insurreição, resistência, desobediência civil – numa palavra, protesto – não desempenhavam qualquer papel no vocabulário prático da tradição protestante.
Essa sacrílega cumplicidade entre igreja e estado tem, evidentemente, raízes ainda mais antigas do que a Reforma, que apenas inseriu na equação o fator competição [à Igreja Católica]. Em sua manifestação original o movimento cristão era apolítico, anti-imperialista e subversivo ao ponto da anarquia funcional, mas o sucesso espetacular da sistematização do cristianismo terminou por apagar por completo os efeitos dessa herança subversiva – até que, em Constantino, igreja e império se transformaram numa única e abominável coisa. Para o historiador cristão Eusébio, escrevendo no ano 336, o imperador Constantino (o primeiro a conceder favor estatal à fé cristã) representava o modelo do governante espiritual, um “amigo de Deus” que “arranja seu governo terreno de acordo com o padrão do original divino”. Para Eusébio, Constantino deveria ser visto pelos crentes como “nosso imperador divinamente favorecido”, que havia recebido “como que uma transcrição da soberania divina” a fim de conduzir “em imitação do próprio Deus a administração dos negócios do mundo” – nada muito diferente do que cristãos alemães opinariam séculos mais tarde a respeito de Hitler.
Nessa única transação com o Poder o movimento cristão passava de frágil a influente, de subversivo a inofensivo, de marginal a detentor do status quo, de incendiário a bombeiro, de incômoda ameaça aos poderes e potestades deste mundo a seu mais valioso selo de confirmação. As tremendas desventuras, grandes vergonhas e pequenas ousadias encenadas pela igreja evangélica alemã durante o regime nazista apenas demonstram o quanto há de contemporâneo e de diabólico nessa aliança, mesmo em regimes que professam oficialmente divisão entre igreja e estado.
É uma história que demonstra muito claramente que o problema não reside na separação entre igreja e estado, porque enquanto permanece como instituição a igreja é obviamente inseparável dos governos deste mundo. Uma instituição é basicamente uma entidade coletiva que tem algo a perder (mesmo que seja apenas sua própria autoridade), e o movimento cristão é por definição bíblica o movimento dos desbravadores do reino – isto é, o domínio em permanente insurreição dos que confessam não ter nada a perder, e sustentam ao mesmo tempo que o único modo de confessar isso é demonstrá-lo.
É algo ao mesmo tempo belo e terrível que a história do protesto protestante contra Hitler só tenha para contar omissões coletivas e bravuras individuais. A segunda metade do século XX e sua extensão no terceiro milênio são resultado sem escalas da experiência coletiva da Segunda Guerra, e sobreviver a ela ensinou-nos não só a questionar incessantemente qualquer ideologia (porque tememos outro Hitler), mas a duvidar da eficácia e da legitimidade de soluções intermediadas/institucionais.
Essa, no entanto, é uma lição de humildade que o terreno beligerante da tradição cristã irá até o último momento recusar-se a absorver. Prova disso é o que aconteceu logo depois – porque Barnett, para minha surpresa, não termina sua história com o final da guerra. E se o drama da igreja alemã sob Hitler havia confirmado minhas piores suspeitas, nenhuma expectativa me havia preparado para o que veio em seguida.

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