Manuscritos estocados sob a rubrica 'História'
26 de Agosto de 2008

Contra a paz, pelas ordens da criação

Goiabas Roubadas, História

Na Alemanha nazista dos meses que antecedaram a guerra muitos cristãos criam que a igreja era uma realidade que ultrapassava fronteiras e limitações locais; para esses, fazia todo sentido ouvir e discutir os apelos pela paz que chegavam à Alemanha das igrejas de todos os cantos do globo.

Para os ultranacionalistas cristãos nazistas, no entanto, só havia sentido em falar numa igreja Nacional. A Pátria era para eles uma das inescapáveis ordens da criação, uma vocação ou propensão estabelecida no princípio por Deus e que não cabe a homem algum questionar. A igreja mantinha-se assim livre para afastar-se o quanto achasse necessário do evangelho (como de fato acabou acontecendo), desde que se mantivesse fiel à baliza das ordens da criação. Rejeitá-las (em nome, talvez, da compaixão) é que lhes parecia blasfemo.

* * *

Em 4 de abril de 1939 [...] o periódico oficial da Igreja Evangélica Alemã publicou a Declaração Godesberg, assinada pelo Dr. [Friedrich] Werner. Ela em parte dizia:

[O Nacional Socialismo dá prosseguimento] à obra de Martinho Lutero em seus aspectos ideológicos e políticos, bem como em seu aspecto religioso, na recuperação de uma verdadeira compreensão da fé cristã… A fé cristã é o oposto irreconciliável do judaísmo… Uma estrutura eclesiástica supranacional e internacional nos moldes católico-romano ou protestante representa uma degeneração política da fé cristã. Um desenvolvimento proveitoso da genuína fé cristã é possível apenas dentro das dadas ordens da criação.

Eberhard Bethge, em sua biografia de Bonhoeffer (grifo meu)

Leia também:
A longa rixa da misericórdia com as ordens da criação
A solução final de Lutero
Lutero alerta os alemães

02 de Julho de 2008

A invasão do mundo

Fé e Crença, História

Os hebreus da primeira metade do Antigo Testamento são um povo isolado e definido pelo seu isolamento. Israel é uma nação singular definida por um Deus singular: uma nação entre nações regida pelo Deus acima de todos os deuses.

A crença na vocação da singularidade determinou, por mil anos, o modo pelo qual os hebreus interpretavam o mundo e a Escritura. Eram um povo apontado para um presente glorioso e um futuro certo; eram um país protegido sobrenaturalmente do destino arbitrário ou vergonhoso que definia o percurso de nações menos afortunadas. Eram a cabeça, e não a cauda.

Então as coisas começaram a dar errado, e os filhos de Israel viram-se obrigados a reavaliar, vez após outra, a sua invulnerabilidade. Primeiro vieram os assírios, 720 anos antes de Cristo, e numa campanha certeira literalmente apagaram do mapa dez das doze tribos que compunham a família original de Israel. O reino do Norte virou pó, e as duas tribos remanescentes aquartelaram-se em Jerusalém, buscando a proteção de seu rei e de seu templo – os quais recebiam, por sua vez, proteção direta da mão divina.

As tribos negligentes e pecadoras do norte haviam sido eliminadas (o que era visto como coisa ao mesmo tempo inevitável e lamentável), mas Jerusalém era uma fortaleza inabalável e o centro do mundo. Aqui nada tinha como dar errado.

Então, 586 anos antes de Cristo, os habitantes de Judá testemunharam o impensável: os babilônios pisaram o lugar santo, onde o próprio Deus descansava os seus pés, destruíram o inviolável templo de Jerusalém, tomaram para si as relíquias sagradas e acorrentaram o rei. E, como se não bastasse, a própria população de Judá, reduto dos últimos defensores da verdade da Torá no vasto universo, foi arrancada da Terra Prometida e condenada a viver no exílio em diferentes pontos do império babilônico. Tiveram arrancados de si o seu coração, e foram condenados a viver longe do corpo. Perderam, diante de si mesmos e dos olhos de todo o mundo, sua terra, sua segurança, sua promessa.

Não é de admirar que tenham-se vistos obrigados a rever o seu triunfalismo. Israel, a nação isolada e singular, havia sido invadida pelo mundo e finalmente engolida por ele. Habitava agora suas entranhas.

A nova condição alterou marcadamente o modo pelo qual os judeus interpretavam o mundo e – ainda mais importante, no caso deles – sua própria Escritura. Talvez, viram-se forçados a ponderar, não tivessem entendido da primeira vez o que Deus queria realmente deles. E, se é que podiam sonhar com uma segunda chance, seria necessário vasculhar as Escrituras e reinterpretá-las à luz da nova situação. Era preciso encontrar novas revelações onde pensara-se durante tanto tempo estar cimentadas as antigas.

Essa mudança de paradigma fica evidente nos escritos dos profetas. Esses não apenas refletem os dilemas da nação isolada diante da impensável internacionalização, mas propõem maneiras radicalmente novas de se interpretar a vontade tradicional de Deus. Olhando para a mesma Torá e para as mesmas tradições, os profetas encontram a imagem de um Deus que não se sonhava residir ali. Que havia sido o pecado a ocasionar a derrocada da nação todos concordavam. Os profetas, no entanto, contornavam os pecados da religiosidade tradicional e apontavam transgressões mais sutis; destilavam uma moralidade mais refinada que, garantiam eles, Deus exigira desde o começo.

Uma nova espiritualidade nasceu, dessa forma, dos dissabores do exílio. Como não dispunham do templo, os judeus da dispersão passaram a reunir-se em sinagogas; aqui não tinham como apresentar os sacrifícios regulares previstos no código de Moisés, mas ofereciam constantes orações, súplicas e louvor. Descobriram que nessas casas de oração podiam manter acesa a sua vocação espiritual, estudando a Torá e buscando nela a relevância necessária para o momento. Vendo-se privados do seu insubstituível Lugar de adoração, intuíram com o passar do tempo a vertigem de que Deus não está preso a lugar algum e pode ser eficazmente buscado e encontrado seja onde for. Não é necessário, ousaram concluir, estar no templo certo, com o sacerdócio certo, o ritual certo ou no país certo. A nova espiritualidade era menos legalista, mais generosa e universal; o cativeiro revelara, paradoxalmente, um Deus maior.

Os exilados não encontraram apenas uma nova religiosidade mas ainda, e de forma inusitada, a prosperidade e a paz. Tornaram-se, em particular, comerciantes bem-sucedidos nas rotas de comércio babilônicas. O perfil do novo judeu era o de alguém fiel às suas raízes, mas ao mesmo tempo plenamente adaptado ao seu novo ambiente. Quando Ciro permitiu que os judeus dispersos pelo império retornassem à Palestina para reconstruir o templo e retomar o seu modo de vida (isso foi em 539 a.C.), muitos preferiram ficar.

A maioria, no entanto, escolheu o retorno à Judéia, onde os libertos e suas gerações reconstruíram o templo e os muros de Jerusalém sob a liderança de Esdras e Neemias. Um novo e improvável sol de esperança brilhara sobre Judá, e seu Deus agora era ainda mais singular por não ser limitado pelo espaço.

Porém não demorou e veio o indomável Alexandre, e no rastro dele os gregos. Israel saberia, agora sim, o que é ser efetivamente invadido por uma cultura. Logo o mundo judeu estaria falando em grego, e mesmo essa não seria a mudança mais radical.

19 de Maio de 2008

O livro dos mártires

História, Quase Ciência

Do século dezesseis até meados do século dezessete os médicos com formação universitária recebiam treinamento puramente teórico nos princípios da fisiologia humoral conforme delineada nas obras de Hipócrates, Aristóteles e Galeno. Eram ensinados que a doença era resultado de um desequilíbrio entre os quatro humores (sangue, fleuma, bílis amarela e bílis negra). O diagnóstico consistia em estabelecer qual desses humores encontrava-se em desacordo, e a terapia em tomar-se passos a fim de restaurar o equilíbrio, quer por sangria (por secção da veia, escarificação ou aplicação de sanguessugas) ou sujeitando o paciente a uma série de limpezas intestinais e purgantes. O médico seguia dessa forma uma deprimente rotina de sangrias e purgações, juntamente com a prescrição de emplastros, ungüentos e poções. A urina do paciente era tida como o melhor indicador da sua condição, e havia profissionais que criam que bastava ver a urina sem ver o paciente.

Os pais demoravam-se para reconhecer a individualidade dos filhos.

Não havia raios-X nem estetoscópios, e os médicos normalmente ignoravam por completo o que se passava no corpo da pessoa enferma. Havia cirurgiões especializados em tumores, úlceras, fraturas e doenças venéreas, mas sua arte era considerada inferior pela classe médica. Além disso, sem anestésicos e sem o conhecimento de antissépticos, havia pouco que esses pudessem fazer. As cirurgias eram em grande parte limitadas a amputações, trepanações do crânio, remoção aberta de pedras urinárias, reposicionamente de ossos e incisão de abcessos. Compreensivelmente, os pacientes viam com terror a perspectiva desse tipo de tortura, e a taxa de mortalidade depois dessas operações era elevada. O Severall Chirurgicall Treatises (1676) de Richard Wiseman era conhecido popularmente como “O Livro dos Mártires de Wiseman”.

Mesmo entre a nobreza, cujas chances eram provavelmente maiores do que as de qualquer outra classe, a expectativa de vida para meninos nascidos no terceiro quarto do século dezessete era de 29,6 anos (hoje seria ao redor de 70). Um terço dessas crianças da aristocracia morria antes de atingir os cinco anos de idade, sendo que o nível de mortalidade dos que chegavam à idade adulta lembrava de perto o da Índia na última década do século dezenove. O primeiro demógrafo inglês, John Graunt, estimava em 1662 que a cada cem crianças nascidas em Londres, trinta e seis morriam nos seus primeiros seis anos, e mais vinte e quatro nos dez anos seguintes.

Quanto a hospitais, o St. Bartholomew e o St. Thomas eram os dois únicos disponíveis para os fisicamente enfermos em Londres no final do século dezessete, e havia pouquíssimos em outros lugares. E eram de qualquer modo direcionados primariamente para os pobres. Nenhuma pessoa com alguma pretensão social sonharia em colocar o pé num hospital como paciente, e se o fizesse estaria certamente aumentando suas chances de contrair alguma infecção fatal.

Certas formas de doença mental eram consideradas casos de melancolia a serem tratados com purgações e sangrias, ou erroneamente diagnosticadas como “histeria” ocasionada por uma determinada condição do útero. A noção da origem uterina de doenças nervosas não foi desafiada com sucesso na Inglaterra até fins do século dezessete, quando Thomas Willis formulou a teoria da origem cerebral da histeria, tornando-se pioneiro da ciência da neurologia.

Na Inglaterra daqueles séculos as pessoas estavam inteiramente habituadas à doença e à baixa expectativa de vida. Os pais demoravam-se para reconhecer a individualidade dos filhos, sabendo muito bem que podiam perdê-los ainda na infância. Maridos e esposas viviam bem ajustados à idéia de que o cônjuge que sobrevivesse poderia se casar depois da morte do outro. A atitude dos pobres diante de sua sorte parece ter sido freqüentemente de distanciado estoicismo. Ao contrário dos habitantes dos países subdesenvolvidos nos nossos dias, eles não conheciam países estrangeiros em que o padrão de vida fosse consideravelmente mais elevado. Ao invés de lutarem por reforma social, os pobres com freqüência recorriam a métodos mais diretos de liberação.

A cerveja era ingrediente fundamental da dieta de todos, tanto de crianças quanto adultos [. . .]

Keith Thomas, Religion and the Decline of Magic (1971)

07 de Abril de 2008

Al-Kashf ‘an Manahij al-Adilla

Goiabas Roubadas, História

Esta obra tem por objeto de estudo as críticas de Averróis contra os argumentos dos teólogos em favor da existência de Deus em seu livro Al-Kashf ‘an Manahij al-Adilla fi ‘Aqaid al-Milla (”Exposição dos métodos de comprovação referentes às crenças da comunidade”).

Nesse livro Averróis assume a delicada posição de criticar todas as principais escolas de teologia do seu tempo. Ele o faz em nome da razão, sustentando que qualquer interpretação dos versos do Alcorão que não sobreviva ao escrutínio da razão não merece ser abraçada; é na verdade perigoso aceitá-la. E o que é pior, não é conduta legítima impor essa interpretação à força sobre as pessoas comuns, ainda que em nome de Deus ou da lei.

De acordo com Averróis (1126-1198 d.C.), os teólogos interpretaram a Escritura de uma forma que concedeu a eles autoridade sobre as mentes e sobre as vidas dos crentes. Os teólogos definiram o que é crença correta e o que é heresia, preparando dessa forma o terreno para a definição do Verdadeiro Muçulmano e exercitando tremenda influência sobre a vida política da comunidade islâmica. Eles monopolizaram o acesso à verdadeira fé e ostracizaram “a todos que discordam deles, relegando-os à posição de hereges e incrédulos cujo sangue e propriedades estão à disposição de qualquer um”.

Essa postura intransigente, segundo Averróis, era causa de grande parte do derramamento de sangue e das lutas internas que assolavam a comunidade religiosa. Ao criticar a posição dos teólogos e desafiar o seu monopólio em determinar os padrões religiosos, morais e políticos da comunidade muçulmana, Averróis esperava enfraquecer a sua influência política e libertar o povo comum da obrigação de segui-los. Porém, apesar dessas boas intenções, as críticas de Averróis acabaram produzindo o efeito contrário, minando a sua própria posição dentro da comunidade. Seus livros foram queimados publicamente, o ensino da sua filosofia foi banido de um extremo a outro do Califado Árabe ocidental e ele mesmo foi expulso de Córdoba, sua cidade natal.

Dr. Ibrahim Y. Najjar, em Ibn Rushd’s criticisms of the theologians’ arguments for the existence of God

29 de Dezembro de 2007

Caráter nacional

Documentos

Um brasileiro num cartaz de teatro digitalizado pela Biblioteca do Congresso Norte-Americano.