Manuscritos estocados sob a rubrica 'Goiabas Roubadas'
08 de Setembro de 2008

Com Deus, Sem Deus

Goiabas Roubadas

Não temos como avançar nessa questão [de servir a Cristo no mundo] até que abracemos radicalmente a idéia de uma existência “sem Deus” no mundo. Isto é, até que nos recusemos a abraçar qualquer ilusão de sermos capazes de agir “com Deus” no dia a dia do mundo. Essa ilusão nos desencaminha vez após outra, fazendo com que abandonemos a justificação e a graça, levando-nos a adotar uma devoção artificial e uma ética legalista, convencendo-nos a abrir mão de nossa liberdade em troca de uma espécie de servidão às avessas.

Theodor Litt, na entrada de 24 de janeiro de 1941 de seu diário, depois de uma conversa com Dietrich Bonhoeffer

A presente terra pode ser levada a sério em sua dignidade, sua glória, sua maldição.

Dietrich Bonhoeffer, em carta de 1940 a Theodor Litt

Um cristão é um bicho estranho. Quisera Deus fossemos todos bons pagãos que seguissem a lei natural – para não falar na lei de Cristo.

Martinho Lutero, citado por Theodor Litt num cartão postal a Bonhoeffer, pouco antes de Bonhoeffer ser preso pelo seu envolvimento numa conspiração contra Hitler

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Como se Deus não existisse
A anulação da bondade
Além da submissão

01 de Setembro de 2008

Os ocupantes da arca

Goiabas Roubadas

NOÉ: Os ocupantes da arca

A arca foi completada de acordo com as instruções contidas no livro de Raziel. A próxima tarefa de Noé foi reunir os animais.

Ele teria de levar consigo nada menos do que trinta e duas espécies de pássaros e trezentas e sessenta e cinco espécies de répteis. Deus, no entanto, ordenou aos animais que se dirigissem até a arca, e sem que Noé tivesse de mover um dedo todos eles agruparam-se ali.

Na verdade os animais compareceram em número maior do que seria necessário, pelo que Deus instruiu Noé a sentar-se junto à porta da arca e prestar atenção em quais animais deitavam e quais ficavam em pé assim que chegavam à entrada. Os primeiros pertenceriam à arca, porém não esses últimos.

Assumindo seu posto como lhe havia sido ordenado, Noé ficou observando uma leoa acompanhada de seus dois filhotes. Os três animais estavam deitados, mas os dois filhotes começaram a brigar com a mãe, que logo levantou-se e ficou em pé ao lado deles – e Noé levou os filhotes para dentro da arca.

Os animais selvagens, os animais domésticos e os pássaros que não foram aceitos ficaram em pé ao redor da arca por um total de sete dias, porque o ajuntamento dos animais ocorreu uma semana antes que o dilúvio descesse. No dia em que eles chegaram à arca o sol escureceu, as fundações da terra tremeram, luziram relâmpagos e soaram trovões como nunca havia acontecido antes, porém ainda assim os pecadores não se arrependeram: nada mudaram na sua conduta perversa durante aqueles sete últimos dias.

Quando o dilúvio finalmente desabou, setecentos mil dos filhos dos homens reuniram-se ao redor da arca e imploraram pela proteção de Noé.

Em voz muito alta ele respondeu:

– Não eram vocês que viviam em rebelião contra Deus, dizendo “Deus não existe”? Ele então trouxe ruína sobre vocês, a fim de aniquilá-los e destruí-los da face da terra. Não tenho estado profetizando essas coisas entre vocês ao longo destes cento e vinte anos, sem que vocês desses ouvidos à voz de Deus? E agora vocês querem ficar vivos!

– Que seja! – gritaram os pecadores. – Estamos dispostos a voltarmos para Deus, desde que você abra a porta da sua arca e nos receba, de modo a que vivamos ao invés de morrer.

Noé respondeu:

– Isso vocês fazem agora, quando é tão urgente a sua necessidade. Porque não voltaram para Deus nos duzentos e vinte anos do período de graça em que Deus colocou-me entre vocês? Agora vocês vêm e falam assim, mas é porque suas vidas correm perigo. Deus portanto não ouvirá nem lhes dará ouvidos; vocês nada conseguirão.

A multidão de pecadores tentou então entrar na arca à força, mas os animais selvagens que vigiavam ao redor da arca lançaram-se sobre eles. Muitos foram mortos mas alguns escaparam, apenas para encontrarem a morte nas águas do dilúvio.

A água sozinha não foi capaz de ocasionar-lhes a morte, pois eram gigantes em força e estatura. Quando Noé os ameaçava com o castigo divino eles costumavam responder:

– Se as águas do dilúvio vierem de cima, nunca nos chegarão à altura do pescoço; se vierem de baixo, as solas dos nossos pés são grandes o bastante para tampar as nascentes.

Porém Deus fez com que cada gota passasse pelo Geena antes de cair na terra, de modo que o calor da chuva queimava a pele dos pecadores – punição apropriada para os seus crimes. Da mesma forma que foram aquecidos por seus desejos sensuais, que os inflamavam a excessos de imoralidade, foram castigados com água aquecida.

Nem mesmo na hora da morte os pecadores conseguiram suprimir seus instintos perversos. Quando a água começou a jorrar das nascentes eles começaram a atirar seus filhinhos dentro delas, na tentativa de estancar o dilúvio.

Foi pela graça de Deus, e não por seus próprios méritos, que Noé encontrou na arca refúgio para a força devastadora das águas. Embora tenha se mostrado mais íntegro do que seus contemporâneos, não era ainda sim digno das maravilhas realizadas em seu favor. Noé tinha fé tão pequena que não entrou na arca até que a água lhe chegava na altura dos joelhos. Escaparam o perigo com ele sua piedosa esposa Naamá, filha de Enos, seus três filhos e suas respectivas esposas.

Noé não casou até completar quatrocentos e noventa e oito anos de idade; o Senhor então disse a ele que tomasse uma esposa para si. Sua intenção tinha sido não colocar filhos no mundo, sabendo que morreriam todos no dilúvio, pelo que teve apenas três filhos, nascidos não muito antes que o dilúvio viesse.

Deus lhe deu um número pequeno de filhos, a fim de poupá-lo da necessidade de construir uma arca grande demais caso eles se mostrasse piedosos. E poupá-lo também, caso se mostrassem depravados como os demais da sua geração, da tristeza de testemunhar a sua destruição.

Da mesma forma que Noé e sua família foram os únicos a não compartilharem do caráter corrompido da sua época, os animais acolhidos na arca haviam também vivido uma vida natural. Pois naquela época os animais eram tão imorais quanto os homens: o cão unia-se ao lobo, o galo ao pavão, e muitos outros viviam sem qualquer pureza sexual. Os que se salvaram foram os que se mantiveram imaculados.

Antes do dilúvio os animais impuros era mais numerosos do que os animais puros. Depois do dilúvio a proporção foi invertida, porque sete pares de animais puros foram preservados na arca para cada dois pares de animais impuros.

Um animal, o reem, Noé não pode receber na arca, por causa do seu enorme tamanho. Em vista disso Noé amarrou-o à arca, e o reem acompanhou-os correndo atrás. Noé também não conseguiu espaço para o gigante Ogue, rei de Basã, que escapou do dilúvio amarrado no topo da arca, sobre a qual veio sentado. Noé alimentou-o diariamente através de um buraco, pois Ogue havia prometido que ele e seus descendentes seriam seus escravos perpetuamente.

Duas criaturas muito peculiares também encontraram refúgio na arca. Dentre os seres que vieram até Noé pedindo abrigo, estava a Falsidade. Foi-lhe negada a entrada porque não tinha um companheiro, e Noé estava apenas admitindo animais em pares. Falsidade saiu então em busca de um parceiro, e encontrou o Infortúnio, que juntou-se à Falsidade com a condição de poder apropriar-se de tudo que a Falsidade obtivesse para si. O par foi dessa forma admitido à arca. Quando saíram, Falsidade percebeu que tudo que juntava desaparecia de imediato, e foi procurar seu companheiro para uma explicação.

– Não concordamos – disse o Infortúnio à Falsidade – que eu poderia ficar com tudo que você conseguisse?

Assim a Falsidade teve de partir de mãos vazias.

* * *

Lendas dos Judeus é uma compilação de lendas judaicas recolhidas das fontes originais do midrash (particularmente o Talmude) pelo talmudista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). Lendas foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.

26 de Agosto de 2008

Contra a paz, pelas ordens da criação

Goiabas Roubadas, História

Na Alemanha nazista dos meses que antecedaram a guerra muitos cristãos criam que a igreja era uma realidade que ultrapassava fronteiras e limitações locais; para esses, fazia todo sentido ouvir e discutir os apelos pela paz que chegavam à Alemanha das igrejas de todos os cantos do globo.

Para os ultranacionalistas cristãos nazistas, no entanto, só havia sentido em falar numa igreja Nacional. A Pátria era para eles uma das inescapáveis ordens da criação, uma vocação ou propensão estabelecida no princípio por Deus e que não cabe a homem algum questionar. A igreja mantinha-se assim livre para afastar-se o quanto achasse necessário do evangelho (como de fato acabou acontecendo), desde que se mantivesse fiel à baliza das ordens da criação. Rejeitá-las (em nome, talvez, da compaixão) é que lhes parecia blasfemo.

* * *

Em 4 de abril de 1939 [...] o periódico oficial da Igreja Evangélica Alemã publicou a Declaração Godesberg, assinada pelo Dr. [Friedrich] Werner. Ela em parte dizia:

[O Nacional Socialismo dá prosseguimento] à obra de Martinho Lutero em seus aspectos ideológicos e políticos, bem como em seu aspecto religioso, na recuperação de uma verdadeira compreensão da fé cristã… A fé cristã é o oposto irreconciliável do judaísmo… Uma estrutura eclesiástica supranacional e internacional nos moldes católico-romano ou protestante representa uma degeneração política da fé cristã. Um desenvolvimento proveitoso da genuína fé cristã é possível apenas dentro das dadas ordens da criação.

Eberhard Bethge, em sua biografia de Bonhoeffer (grifo meu)

Leia também:
A longa rixa da misericórdia com as ordens da criação
A solução final de Lutero
Lutero alerta os alemães

11 de Agosto de 2008

O livro santo

Goiabas Roubadas

NOÉ: O livro santo

Foi necessária grande sabedoria na construção da arca, que deveria ter espaço para abrigar todos os seres da terra, até mesmo os espíritos. Apenas para os peixes não foi necessário prover lugar. Noé adquiriu a sabedoria necessária no livro que Adão deu ao anjo Raziel, no qual todo conhecimento celestial e terreno está registrado.

Enquanto o primeiro casal estava ainda no paraíso, aconteceu certa vez que Samael, acompanhado de um rapazinho, chegou até Eva e pediu que ela ficasse de olho em seu filho até que ele voltasse. Eva prometeu que o faria.

Quando voltou de uma caminhada pelo paraíso, Adão encontrou com Eva uma criança berrando e chorando muito; em resposta à sua pergunta, Eva contou-lhe que o menino era de Samael. Adão ficou irritado, e sua irritação foi crescendo à medida em que o menino chorava e berrava com mais violência. Em sua exasperação, Adão desferiu-lhe um golpe que acabou matando o garoto.

O cadáver porém não parou de chorar e lamentar-se, e não parou nem mesmo quando Adão cortou-o em pedaços. Para livrar-se da praga Adão cozinhou os restos do menino, e ele e Eva comeram-no.

Mal tinham terminado e Samael apareceu exigindo seu filho. Os dois malfeitores tentaram negar tudo; fingiram que não sabiam do menino. Porém Samael disse a eles:

– Quê! Vocês ousam mentir, quando no futuro Deus dará a Israel a Torá, que diz: “não darás falso testemunho”?

Enquanto eles assim falavam, a voz do menino assassinado fez-se ouvir do coração de Adão e Eva, e disse a Samael as seguintes palavras:

– Pode ir embora! Penetrei o coração de Adão e o coração de Eva, e jamais deixarei em paz os seus corações, nem os corações de seus filhos, nem os dos filhos de seus filhos, até o fim de todas as gerações.

Samael partiu, mas Adão ficou profundamente arrependido; vestiu-se de saco e cinza e jejuou por muitos, muitos dias, até que Deus apareceu a ele e disse:

– Meu filho, não tenha medo de Samael. Darei a você um remédio que irá ajudá-lo contra ele, porque foi a meu pedido que ele foi até você.

– Qual é esse remédio? – perguntou Adão.

Deus:

– A Torá.

Adão:

– E onde está a Torá?

Deus então deu a ele o livro do anjo Raziel, o qual ele estudou dia e noite. Passado algum tempo os anjos visitaram Adão e, invejosos da sabedoria que ele havia extraído do livro, tentaram destruí-lo através de astúcia, chamando-o de deus e prostando-se diante de Adão, apesar do protesto deste:

– Não ajoelhem-se diante de mim! Exaltem a Deus comigo; louvemos juntos o seu nome.

Porém a inveja dos anjos era tamanha que eles acabaram roubando o livro que Deus dera a Adão, atirando-o no mar. Adão procurou-o em vão em todo lugar, e a perda afligiu-o profundamente. Mais uma vez ele jejuou por muitos dias, até que Deus lhe apareceu e disse:

– Não tenha medo! Darei o livro de volta a você.

Deus chamou então Rahab, o anjo do mar, e ordenou que ele recobrasse o livro do mar e o devolvesse a Adão, e assim ele fez.

Com a morte de Adão o livro santo desapareceu, porém mais tarde a caverna na qual fora escondido foi revelada num sonho a Enoque. Foi desse livro que Enoque extraiu seu conhecimento da natureza, da terra e dos céus, tornando-se através dele tão sábio que sua sabedoria ultrapassou a de Adão. Depois de ter guardado seu conteúdo na memória, Enoque escondeu o livro novamente.

Ora, quando resolveu trazer o dilúvio sobre a terra, Deus mandou o arcanjo Rafael até Noé, levando a seguinte mensagem:

– Com isto dou a você o livro santo, para que lhe sejam manifestos todos os segredos e mistérios que ele contém, a para que você saiba como cumprir o mandado dele em santidade, pureza, modéstia e humildade. Nele você aprenderá como construir a arca de madeira de gôfer, dentro da qual você, seus filhos e sua esposa encontrarão proteção.

Noé tomou o livro e, quando passou a estudá-lo, o espírito santo veio sobre ele, e passou a conhecer todas as coisas necessárias para a construção da arca e para o arrebanhamento dos animais. O livro, que era feito de safiras, Noé levou consigo para dentro da arca, tendo-o colocado antes num estojo dourado. Durante todo o tempo em que ele esteve na arca o livro serviu-o de relógio, pelo qual ele distinguia a noite do dia.

Antes de morrer Noé confiou o livro a Sem, e este por sua vez a Abraão. De Abraão ele chegou, passando por Jacó, Levi, Moisés e Josué, até Salomão, que extraiu dele toda sua sabedoria, sua habilidade na arte da cura e seu domínio sobre os demônios.

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Lendas dos Judeus é uma compilação de lendas judaicas recolhidas das fontes originais do midrash (particularmente o Talmude) pelo talmudista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). Lendas foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.

04 de Agosto de 2008

A sombra e sua réplica

Goiabas Roubadas

Um homem inconsciente de si mesmo age de modo cego e instintivo; ele é além disso enganado por todas as ilusões que se levantam quando vê tudo aquilo de que não tem consciência em si mesmo vindo de encontro a ele de fora, na forma de projeções sobre o seu próximo.

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As projeções transformam o mundo na réplica da face desconhecida de cada um.

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A regra psicológica afirma que quando uma situação interior não é tornada consciente ela acontece na realidade exterior na forma de destino. Quer dizer, quando o indivíduo permanece indiviso e não toma consciência de seu oposto interior, o mundo é forçado a exprimir o conflito, sendo fendido em metades opostas.

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Encher a mente consciente de concepções idealizadas é característica da teosofia ocidental, mas não o confronto com a sombra e o mundo da escuridão. Não se alcança a iluminação imaginando-se figuras de luz, mas tornando a escuridão consciente.

Carl Jung