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	<title>A Bacia das Almas &#187; Goiabas Roubadas</title>
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	<description>Onde as ideias não descansam</description>
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		<title>Enquanto resta alguma lei neste mundo</title>
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		<pubDate>Thu, 19 Jan 2012 08:14:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>PILATOS. Você está desrespeitando seu pai e sua mãe. Está desrespeitando a sua Igreja. Está violando os mandamentos do seu Deus, e alegando ter direito a agir assim. Está pleiteando em favor dos pobres, e declarando que é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no paraíso de Deus; apesar disso você banqueteou-se na mesa dos ricos, e encorajou meretrizes a gastar em perfume para os seus pés o dinheiro que poderia ter sido dado aos pobres, deixando nisso o seu tesoureiro tão revoltado que ele o traiu ao Sumo Sacerdote por um punhado de prata. Ora, banqueteie-se o quanto quiser: não culpo você por recusar-se a fazer-se de faquir e a tornar-se exposição ambulante de austeridades tolas. Porém preciso impor um limite quando você promove tumulto no templo e arremessa o dinheiro dos cambistas para ser disperso entre os seus simpatizantes. Tenho uma lei para administrar. A lei proíbe obscenidade, sedição e blasfêmia, e você foi acusado de sedição e de blasfêmia. Você não as nega: você fala sem parar sobre a verdade, que acontece de ser apenas aquilo em que você gosta de acreditar. Sua blasfêmia não representa nada para mim: toda a religião judaica, do começo ao fim, é blasfêmia do meu ponto de vista romano; mas significa muito para o Sumo Sacerdote, e não posso manter a ordem em meio aos hebreus a não ser lidando com os tolos judeus de acordo com a tolice judaica. Já a sedição diz respeito a mim e ao meu cargo muito de perto. Quando você promete suplantar o Império Romano com um reino em que é você e não César a ocupar o trono, torna-se culpado da mais grave sedição. Sou avesso a mandar crucificá-lo; embora seja judeu, e como se não bastasse jovem e imaturo, percebo que você é à sua maneira judia um homem de qualidade. Não me sinto à vontade em atirar à multidão um homem de qualidade, mesmo que sua qualidade seja meramente judaica. Pois como aristocrata sou eu mesmo um homem de qualidade, e falcão não arranca olho de falcão. Na verdade, se condescendo em parlamentar com você tão extensamente é na misericordiosa esperança de encontrar uma desculpa para tolerar sua blasfêmia e sedição. Em sua defesa você oferece apenas uma frase vazia sobre a verdade. Sou sincero quando digo que desejo poupá-lo, porque se não libertá-lo terei de libertar aquele patife Barrabás, que foi mais longe do que você e cometeu assassinato, enquanto entendo que você só ressuscitou dos mortos um judeu. Então, pela última vez, faça seu juízo funcionar, e encontre-me uma razão sólida para deixar partir em liberdade um blasfemador sedicioso.</p>
<p>JESUS. Não peço que me liberte; também não aceitaria minha vida ao preço da morte de Barrabás, mesmo se acreditasse que você tem poder para revogar o suplício ao qual estou predestinado. Mas para satisfazer seu anseio pela verdade, direi que a resposta às suas questões está em seu próprio argumento de que nem você nem o prisioneiro que você está julgando são capazes de provar que têm razão; sendo assim você não deve me julgar, para não ser julgado. Sem sedição e blasfêmia o mundo permaneceria imóvel, e o reino de Deus nunca chegaria a estar um estágio mais próximo. O império romano começou com uma loba dando de mamar a duas crianças. Se essas crianças não tivessem sido mais sábias do que sua madrasta, seu império seria uma matilha de lobos. É por crianças que são mais sábias que os pais, por súditos que são mais sábios que seus imperadores e por mendigos e vagabundos que são mais sábios que seus sacerdotes que os homens alçam-se de serem animais predadores a crerem em mim e serem salvos.</p>
<p>PILATOS. O que você quer dizer com &#8220;crer em você&#8221;?</p>
<p>JESUS. Ver o mundo como eu vejo. O que mais poderia significar?</p>
<p>PILATOS. E você é Cristo, o Messias, certo?</p>
<p>JESUS. Se eu fosse Satanás meu argumento permaneceria válido.</p>
<p>PILATOS. Devo então poupar e encorajar todo herege, todo rebelde, todo transgressor e todo velhaco, porque ele pode acabar se mostrando mais sábio do que todas as gerações que fizeram o Direito Romano e construíram sobre ele o Império Romano? </p>
<p>JESUS. Pelos frutos você os reconhece. Cuidado quando você mata um pensamento que é novo pra você; esse pensamento pode ser o fundamento do reino de Deus na terra.</p>
<p>PILATOS. Pode ser também a ruína de todos os reinos, de toda lei, de toda sociedade humana. Pode ser o pensamento do animal predador lutando para voltar.</p>
<p>JESUS. Não é o animal predador que está lutando para voltar; é o reino de Deus que está lutando para vir. O império que olha para trás com terror dará lugar ao reino que olha para a frente com esperança. O terror enlouquece os homens; a esperança e a fé dão-lhes sabedoria divina. Os homens que você enche de temor não se intimidarão diante de nenhum mal e perecerão em seu pecado; os homens que encho de fé herdarão a terra. A você eu digo: expulse o medo. Pare de me dizer coisas vãs sobre a grandeza de Roma. Aquilo que você chama de grandeza de Roma não passa de medo: medo do passado e do futuro, medo dos pobres, medo dos ricos, medo dos sumos sacerdotes, medo dos judeus e gregos que são cultos, medo dos gauleses e dos godos e dos hunos que são bárbaros, medo da Cartago que vocês destruíram para salvá-los do medo que tinham dela e que agora temem mais do que nunca, medo do César imperial, o ídolo criado por vocês mesmos, e medo de mim, o vagabundo sem um tostão, espancado e ridicularizado, medo de tudo exceto o domínio de Deus: fé em coisa alguma que não seja sangue e ferro e ouro. Você, representando Roma, é o covarde universal; eu, representando o reino de Deus, enfrentei tudo, perdi tudo, e ganhei uma coroa eterna.</p>
<p>PILATOS. Você ganhou foi uma coroa de espinhos, e vai usá-la na cruz. Você é um sujeito mais perigoso do que eu imaginava. Com sua blasfêmia contra o deus dos sumos sacerdotes pouco me importo: no que me diz respeito você pode espezinhar a religião deles até o inferno. Mas você blasfemou contra César e contra o Império; e falou sério, e tem poder para dobrar o coração dos homens contra ele, como dobrou o meu. Devo portanto por um fim em você, enquanto resta alguma lei neste mundo. </p>
<p>JESUS. A lei é cega sem conselho. O conselho com que concordam os homens é vão: não passa do eco de suas próprias vozes. Um milhão de ecos não irão ajudá-lo a governar com justiça, mas quem não tem medo de você e mostra o outro lado é uma pérola do maior valor. Mate-me e você ficará cego, para sua própria condenação. O maior dos nomes de Deus é Conselheiro; quando o seu império for pó e o seu nome uma lembrança, entre as nações os templos do Deus vivo ecoarão ainda o louvor a ele como Maravilhoso! Conselheiro! O Pai da Eternidade, o Príncipe da Paz.</p>
<p align="right"><small><strong>Bernard Shaw</strong>, no prefácio de <em>On the rocks</em> (1933)</p>
<p></small></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug078.png"></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2009/nenhum-motivo-e-nenhuma-recompensa/">Nenhum motivo e nenhuma recompensa</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2012/se-ele-era-inocente/">Se ele era inocente</a></p>
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		<title>Se ele era inocente</title>
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		<pubDate>Mon, 16 Jan 2012 08:18:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>
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		<description><![CDATA[Jesus era do ponto de vista do Sumo Sacerdote um herege e um impostor, do ponto de vista dos comerciantes um agitador e um comunista. Do ponto de vista imperialista dos romanos era um traidor, do ponto de vista do senso comum um louco perigoso. Do ponto de vista do esnobe, que exerce sempre grande [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Jesus era do ponto de vista do Sumo Sacerdote um herege e um impostor, do ponto de vista dos comerciantes um agitador e um comunista. Do ponto de vista imperialista dos romanos era um traidor, do ponto de vista do senso comum um louco perigoso. Do ponto de vista do esnobe, que exerce sempre grande influência, era um vagabundo sem um tostão.</p>
<p>Do ponto de vista da polícia ele era obstruidor das vias públicas, pedinte, aliado de prostitutas, apologista de pecadores e depreciador de juízes; seus companheiros eram vadios que tinham sido seduzidos de seus ofícios regulares para uma vida de vagabundagem. Do ponto de vista dos devotos Jesus era um violador do sábado, negador da eficácia da circuncisão, advogado do rito estranho do batismo, glutão e bebedor de vinho. Era odiado pela classe médica por praticar a medicina sem qualificação, curando as pessoas por curandeirismo e sem cobrar pelo tratamento.</p>
<p>Ele era contra os sacerdotes, contra o judiciário, contra os militares, contra a cidade (tendo declarado que era inconcebível que um rico entrasse no reino do céu), contra todos os interesses, classes, principados e potestades, convidando a todos que abandonassem essas categorias e o seguissem.</p>
<p>Por todos os argumentos legais, políticos, religiosos, do costume e da polidez, Jesus foi o maior inimigo da sociedade do seu tempo já colocado atrás das grades. Era culpado de cada acusação feita contra ele, e de muitas outras que não ocorreu a seus acusadores levantar. Se ele era inocente, o mundo inteiro era culpado. Inocentá-lo seria atirar pela janela a civilização e todas as suas instituições. A história confirma o litígio contra ele, pois nenhum Estado jamais constitui-se sobre os seus princípios ou tornou possível viver de acordo com os seus mandamentos; os Estados que assumiram o nome dele foi para usá-lo como credencial que os habilitasse a perseguir os seus seguidores de modo mais plausível.</p>
<p align="right"><small><strong>Bernard Shaw</strong>, no prefácio de <em>On the rocks</em> (1933)</small></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug080.png"></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2009/nenhum-motivo-e-nenhuma-recompensa/">Nenhum motivo e nenhuma recompensa</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/o-ateismo-lucido-de-lovecraft/">O ateísmo lúcido de Lovecraft</a></p>
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		<title>A violência do global</title>
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		<pubDate>Thu, 12 Jan 2012 10:38:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
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		<category><![CDATA[anarquismo]]></category>
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		<description><![CDATA[O terrorismo dos nossos dias não é produto de uma tradição histórica de anarquismo, niilismo ou fanatismo. Ao contrário, ele é o parceiro contemporâneo da globalização. A fim de identificar as suas principais características é necessário desenhar uma breve genealogia da globalização, particularmente da sua relação com o singular e com o universal. A analogia [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O terrorismo dos nossos dias não é produto de uma tradição histórica de anarquismo, niilismo ou fanatismo. Ao contrário, ele é o parceiro contemporâneo da globalização. A fim de identificar as suas principais características é necessário desenhar uma breve genealogia da globalização, particularmente da sua relação com o singular e com o universal. </p>
<p>A analogia entre os termos &#8220;global&#8221; e &#8220;universal&#8221; é enganosa. Universalização tem a ver com direitos humanos, liberdade, cultura e democracia. Globalização, ao contrário, tem a ver com tecnologia, com mercado, turismo e informação. A globalização é aparentemente irreversível, enquanto a universalização está provavelmente com os dias contados. Ela parece, no mínimo, estar perdendo terreno como sistema de valores desenvolvido no contexto da modernidade ocidental e sem paralelo em qualquer outra cultura. Toda cultura que se torna universal perde a sua singularidade e morre. Foi o que aconteceu com todas as culturas que destruímos no processo de assimilá-las. Porém isso é também verdade para a nossa própria cultura, a despeito de sua alegação de ser universalmente válida. A única diferença é que as outras culturas morreram por causa da sua singularidade, o que é uma morte bonita. A nossa está morrendo porque estamos perdendo nossa singularidade e exterminando nossos valores &#8211; e essa é uma morte muito feia.  </p>
<p>Cremos que o propósito ideal de qualquer valor é tornar-se universal, mas não avaliamos de fato o risco mortal que tal objetivo representa. Longe de ser uma empreitada edificante, trata-se na verdade de uma trajetória descendente na direção de um nível zero para tudo que tem valor. No Iluminismo a universalização era vista como crescimento ilimitado e propulsão ao progresso . Hoje, em contraste, a universalização existe por padrão é expressa como uma pisada sem rumo no acelerador, em que se busca apenas alcançar o mais ínfimo valor comum. É precisamente esse o destino dos direitos humanos, da democracia e da liberdade nos nossos dias. Sua expansão é na verdade sua expressão mais fraca.</p>
<p>A universalização está desaparecendo por causa da globalização. A globalização do comércio coloca um fim na universalização dos valores, e isso marca o triunfo de um pensamento uniforme sobre um pensamento universal. O que é globalizado é acima de tudo o mercado, a profusão de transações e de toda a sorte de produtos, o fluir perpétuo do dinheiro. Culturalmente, a globalização dá lugar a uma promiscuidade de símbolos e de valores, de modo a formar o que é na verdade uma pornografia. De fato, o alastramento global de tudo e de nada através de redes é pornográfico. A obscenidade sexual deixou de ser necessária; tudo que se tem agora é uma cópula global interativa. E, como resultado disso, não existe mais qualquer diferença entre o global e o universal. O universal tornou-se globalizado, e os direitos humanos circulam exatamente da mesma forma que qualquer outro produto global (por exemplo, petróleo ou capital).</p>
<p>A passagem do universal para o global ocasionou não apenas a uma constante homogeneização, mas também a uma infinita fragmentação. Deslocamento, não localização, tomou o lugar da centralização. Excentrismo, não descentralização, substituiu a concentração. Similarmente, discriminação e exclusão não são meras consequências acidentais da globalização, são os resultados lógicos da própria globalização. De fato, a presença da globalização pode nos levar a refletir se a universalização já não foi destruída por sua própria massa crítica. Pode também levar-nos a refletir se universalidade e modernidade existiram de fato fora de alguns discursos oficiais e de certos sentimentos morais populares. Para nós, hoje, o espelho da universalização está partido. Isso, no entanto, pode mostrar-se uma oportunidade: nos fragmentos desse espelho partido todas as sortes de singularidade reaparecem: as singularidades que julgávamos estar em risco sobrevivem, e as que julgávamos perdidas são revividas.</p>
<p>À medida em que os valores universais perdem sua autoridade e legitimidade, as coisas se tornam mais radicais. Quando crenças universais foram introduzidas como os únicos valores possíveis de mediação cultural, era muito fácil para essas crenças incorporar singularidades como modos de diferenciação numa cultura universal que alegava encorajar a diferença. Mas isso elas não são mais capazes de fazer, porque a globalização erradicou todas as formas de diferenciação e todos os valores universais que costumavam advogar a diferença. Ao fazê-lo, a globalização deu origem a cultura que é perfeitamente indiferente. No momento em que o universal desapareceu, uma tecnoestrutura global onipotente ficou sozinha para dominar. Mas essa tecnoestrutura está tendo agora de confrontar novas singularidades que, sem a presença da universalização para incubá-las, conseguem expandir-se de modo livre e devastador.</p>
<p>A universalização teve sua chance dada pela história. Porém hoje em dia, confrontada com uma ordem global por um lado sem qualquer alternativa e por outro avançando à deriva com singularidades de insurreição, os conceitos de liberdade, democracia e direitos humanos estão com um aspecto deplorável. Permanecem como os fantasmas da universalização passada. </p>
<p>A universalização costumava promover uma cultura caracterizada pelos conceitos de transcendência, subjetividade, conceitualização, realidade e representação. Em contraste, a cultura virtual global contemporânea substituiu conceitos universais por telas, redes, imanência, números e um contínuo espaço-tempo sem qualquer profundidade. No universal havia ainda espaço para uma referência natural ao mundo, ao corpo, ao passado. Havia uma espécie de tensão dialética ou movimento crítico que encontrava sua materialidade na violência histórica e revolucionária. Porém a expulsão dessa negatividade crítica abriu as portas para outra forma de violência, a violência do global. Essa nova violência é caracterizada pela supremacia da eficiência e da positividade técnicas, da organização total, da circulação integral e da equivalência de todos os intercâmbios. Além disso, a violência do global coloca um fim não só no papel social do intelectual (ideal ligado ao Iluminismo e à universalização), mas também ao papel do ativista, cuja sorte costumava estar ligada às ideias de oposição crítica e violência histórica.</p>
<p>Será fatal a globalização? Algumas vezes outras culturas, que não a nossa, foram capazes de escapar da fatalidade do intercâmbio indiferente. Porém hoje em dia, onde está o ponto crítico entre o universal e o global? Teremos atingido um ponto sem volta? Que vertigem impele o mundo a apagar a Ideia? E que outra vertigem é essa que, ao mesmo tempo, parece forçar as pessoas a quererem incondicionalmente concretizar a Ideia?</p>
<p>O universal era uma Ideia; porém, quando tornou-se concretizada no global ela desapareceu como Ideia, cometeu suicídio e desapareceu como fim em si mesma. Como a humanidade é agora sua própria imanência, tendo assumido o lugar deixado por um Deus morto, o humano tornou-se o único modo de referência e é soberano. Porém essa humanidade não mais tem qualquer finalidade. Livre dos seus antigos inimigos, a humanidade tem agora de criar inimigos de dentro, o que de fato produz uma ampla variedade de metástases inumanas.</p>
<p>É precisamente daqui que vem a violência do global. Ela é produto de um sistema que sai à caça de qualquer forma de negatividade e de singularidade, incluindo, é claro, a morte, em sua qualidade de forma última de singularidade. Trata-se da violência de uma sociedade em que o conflito é proibido, em que morrer não é permitido. Trata-se de uma violência que, num certo sentido, põe fim à própria violência, e luta para estabelecer um mundo em que qualquer coisa relacionada ao natural deve desaparecer (quer diga respeito ao corpo, ao sexo, ao nascimento ou à morte). Talvez, melhor do que chamá-la de violência global, fosse chamá-la de virulência global. Essa forma de violência é de fato viral. Ela se move por contágio, avança por reação em cadeia, e pouco a pouco destrói nosso sistema imunitário e nossa capacidade de resistir.</p>
<p>Porém o jogo ainda não terminou. A globalização não venceu por completo. Contra essa força dissolvente e homogeneizante, forças heterogêneas &#8211; não apenas diferentes, mas claramente antagônicas &#8211; estão se levantando em todo lugar. Por trás das crescentes fortes reações contra a globalização e das formas sociais e políticas de resistência ao global, encontram-se mais do que simplesmente expressões nostálgicas de negação. Encontra-se, ao contrário, um esmagador revisionismo em relação à modernidade e ao progresso, uma rejeição não apenas da tecnoestrutura global, mas também do sistema mental da globalização, que pressupõe um princípio de equivalência entre todas as culturas. Esse tipo de reação pode às vezes assumir aspectos violentos, anormais e irracionais, ou podem pelo menos ser percebidos como violentos, anormais e irracionais da perspectiva de nosso modo de pensar tradicionalmente iluminista. Essa reação pode assumir formas coletivas étnicas, religiosas e linguísticas, mas pode também assumir a forma de explosões emocionais individuais ou mesmo neuroses. Em qualquer caso, seria um erro condenar essas reações como simplesmente populistas, arcaicas ou mesmo terroristas. Tudo nos nossos dias que tem qualidade de evento está engajado contra a universalidade abstrata do global, e isso inclui a própria oposição islâmica aos valores ocidentais (é justamente por ser a contestação mais vigorosa desses valores que o Islam é considerado hoje o inimigo número um do ocidente).</p>
<p>Quem pode derrotar o sistema global? Certamente não o movimento antiglobalização, cujo único objetivo é retardar a retirada global do controle governamental. O impacto político desse movimento pode ser importante, mas seu impacto simbólico é inútil. Sua oposição nada mais é do que uma questão interna que o sistema dominante pode facilmente manter sob controle. Alternativas positivas não são capazes de derrotar o sistema dominante, mas singularidades que não são bem positivas nem negativas podem. Singularidades não são alternativas: elas representam uma ordem simbólica diferente. Elas não seguem julgamentos de valor ou realidades políticas. Singularidades podem representar o melhor ou o pior, não podendo ser &#8220;regularizadas&#8221; por meios de ação histórica coletiva. Elas derrotam qualquer pensamento que seja exclusivamente dominante, porém não se apresentam na forma de um contrapensamento exclusivo. Falando simplesmente, elas criam seu próprio jogo e impõem suas próprias regras. Nem todas as singularidades são violentas: algumas singularidades linguísticas, artísticas, corpóreas e culturais são bem sutis. Porém outras, como o terrorismo, podem ser violentas. A singularidade do terrorismo vinga as singularidades das culturas que pagaram com a sua extinção o preço da imposição de um poder global único.</p>
<p>Não estamos aqui falando de um &#8220;confronto entre civilizações&#8221;, mas de um conflito quase antropológico entre uma cultura universal indiferenciada e todo o restante que, em qualquer domínio, retenha uma qualidade irredutível de alteridade. Da perspectiva do poder global (que é tão fundamentalista em suas crenças quanto qualquer ortodoxia religiosa), qualquer modalidade de diferença ou de singularidade é heresia. Forças singulares tem como escolha juntar-se ao sistema global (por livre vontade ou pela força) ou perecer. A missão do Ocidente (ou, antes, do que era antes o Ocidente, visto que esse perdeu seus próprios valores há muito tempo) é utilizar todos os meios disponíveis para subjugar toda cultura ao princípio brutal da equivalência cultural. Uma vez que perde seus valores, o que resta a uma cultura é buscar vingança atacando os valores das demais. Para além dos objetivos econômicos e políticos, guerras como a do Afeganistão buscam ajustar a selvageria e alinhar todos os territórios. O alvo é livrar-se de qualquer zona reativa: colonizar e domesticar geograficamente e mentalmente qualquer território extravagante ou resistente.</p>
<p>O estabelecimento de um sistema global é o resultado de um ciúme profundo. É o ciúme que uma cultura indiferente e de baixa definição tem de culturas de alta definição; o ciúme que um sistema desiludido e deintensificado tem de ambientes de alta intensidade cultural; o ciúme que uma sociedade dessacralizada tem de formas sacrificiais. De acordo com o sistema dominante, qualquer forma de reação é virtualmente terrorista (de acordo com essa lógica, pode-se dizer que até mesmo as catástrofes naturais são formas de terrorismo. Grandes acidentes tecnológicos, como Chernobyl, são ao mesmo tempo ato terrorista e desastre natural. Outro acidente tecnológico, o vazamento de gás tóxico em Bhopal, na Índia, poderia também ter sido um ataque terrorista. Qualquer queda de avião pode também ter a responsabilidade assumida por um grupo terrorista. A característica dominante de eventos irracionais é que eles podem ser imputados a qualquer um e a qualquer dada motivação. Até certo ponto, qualquer coisa em que pensarmos pode ser criminosa, mesmo uma frente fria ou um terremoto. Isso não é novidade. No terremoto de Tóquio de 1923 milhares de coreanos foram mortos porque acreditou-se que eram responsáveis pelo desastre. Num sistema intensamente integrado como o nosso, tudo pode ter um efeito de desestabilização semelhante. Tudo caminha para o fracasso de um sistema que alega ser infalível. Do nosso ponto de vista, apanhados dentro dos controles racionais e programáticos do sistema, não somos sequer capazes de perceber que a pior catástrofe é na verdade a infalibilidade do próprio sistema). </p>
<p>Veja o Afeganistão. O fato de que apenas dentro desse país todas as formas de liberdades e expressões &#8220;democráticas&#8221; &#8211; de música e televisão à possibilidade de se ver o rosto de uma mulher &#8211; são proibidas, bem como a possibilidade de que esse país pudesse assumir um caminho totalmente avesso ao que chamamos de civilização (não importando quais os princípios religiosos invocados), provaram-se não aceitáveis para o mundo &#8220;livre&#8221;. A dimensão universal da modernidade não pode ser recusada. Da perspectiva do Ocidente, de seu modelo consensual e de seu modo único de pensar, é um crime não perceber a modernidade como a fonte óbvia do Bem ou como o ideal natural da humanidade. É crime também quando a universalidade de nossos valores e práticas são consideradas suspeitas por indivíduos que, no momento em que revelas as suas dúvidas, são imediatamente tachados de fanáticos.</p>
<p>Só uma análise que enfatize a lógica da obrigação simbólica pode decifrar esse confronto entre o global e o singular. Para se entender o ódio do resto do mundo contra o Ocidente, as perspectivas devem ser invertidas. O ódio dos povos não-ocidentais não está baseado no fato de que o Ocidente roubou tudo deles e nunca devolveu coisa alguma em troca. Ao contrário: está baseado no fato de que eles receberam tudo, mas nunca tiveram permissão para devolver coisa alguma. Esse não é o ódio causado pela exploração ou pela espoliação, mas pela humilhação. É precisamente este tipo de rancor que explica os ataques terroristas de 11 de setembro: foram ataques de humilhação em resposta a outra humilhação.</p>
<p>O pior que pode acontecer a um poder global não é ser atacado ou destruído, mas sofrer uma humilhação. O poder global foi humilhado no 11 de setembro porque os terroristas infligiram algo que o sistema global não tem como devolver. Represálias militares limitaram-se a uma reação física. Porém, no 11 de setembro, o poder global foi simbolicamente derrotado. A guerra é uma resposta à agressão, não a um desafio simbólico. Um desafio simbólico é aceito e removido quando o adversário é humilhado em retribuição (mas isso não tem como funcionar quando o adversário é triturado por bombas ou trancafiado em Guantanamo). A regra fundamental da obrigação simbólica estipula que a base de qualquer forma de dominação é a total ausência de qualquer contrapartida, de qualquer retorno. A dádiva unilateral é um ato de poder. E o Império do Bem, a violência do Bem, é precisamente ser capaz de dar sem qualquer possibilidade de retorno. É isso o que significa estar na posição de Deus, ou na posição do senhor que permite que o escravo viva em troca de seu trabalho (porém o trabalho não é uma contrapartida simbólica, e a única resposta que o escravo pode eventualmente dar é rebelar-se ou morrer). </p>
<p>Deus costumava abrir algum espaço para sacrifício. Na ordem tradicional, era sempre possível devolver-se alguma coisa a Deus, ou à natureza, ou a qualquer entidade superior através do sacrifício. Era isso que assegurava o equilíbrio simbólico entre seres e coisas. Hoje, no entanto, não temos ninguém a quem retribuir, a quem devolver o débito simbólico. Este é o curso da nossa cultura. Não é que a dádiva seja impossível, a contradádiva é que é. Todas as formas sacrificiais foram neutralizadas ou removidas (o que resta é uma paródia do sacrifício, visível em todas as instâncias contemporâneas de vitimização).</p>
<p>Estamos portanto na irremediável situação de ter que receber, sempre receber, não mais de Deus ou da natureza, mas por via de um mecanismo tecnológico de tráfico generalizado e gratificação comum. Tudo nos é virtualmente dado, e, quer se goste ou não, ganhamos direito sobre todas as coisas. Nossa situação é similar à do escravo cuja vida foi poupada mas permanece preso a um débito impossível de se pagar. Essa situação pode durar ainda algum tempo, sendo de fato a base da troca nesta ordem econômica. Porém chega sempre a hora em que a regra fundamental volta à superfície e um retorno negativo segue inevitavelmente como resposta a uma transferência positiva, quando vem à tona uma explosão emocional diante dessa vida de cativeiro, dessa existência protegida e dessa saturação. Essa reversão pode tomar a forma de um ato aberto de violência (como o terrorismo), mas também de entrega impotente (que é mais característica da nossa modernidade), de autodepreciação e de remorso &#8211; em outras palavras, todas aquelas paixões negativas que são formas degradadas da impossível contradádiva. </p>
<p>Aquilo que odiamos em nós mesmos &#8211; o obscuro objeto de nosso ressentimento &#8211; é o nosso excesso de realidade, de poder, de conforto, nossa disponibilidade universal, nossa completa realização, aquele tipo de destino que o Grande Inquisidor de Dostoiévski tinha reservado para as massas domesticadas. É precisamente essa porção da nossa cultura que os terroristas consideram repulsiva (o que também explica o apoio que recebem e a pressão que exercem). O apoio ao terrorismo não está baseado apenas no desespero dos que foram humilhados e ofendidos; está também fundamentado no desespero invisível daqueles a quem a globalização privilegiou, em nossa própria submissão a uma tecnologia onipotente, a uma esmagadora realidade virtual, a um império de redes e de programas que estão provavelmente em processo de redesenhar os contornos regressivos da espécie humana como um todo, de uma humanidade que tornou-se &#8220;global&#8221; (afinal de contas, não é a supremacia da espécie humana sobre o restante da vida na terra o reflexo da dominação do ocidente sobre o resto do mundo?). Esse desespero invisível, nosso desespero invisível, é irremediável, porque é resultado da realização de todos os nossos desejos.</p>
<p>Dessa forma, se o terrorismo deriva do excesso de realidade e do impossível sistema de trocas dessa realidade, se é produto de uma profusão sem qualquer contrapartida possível, e se emerge de uma resolução forçada de conflitos, a ilusão de que livrar-se dele é livrar-se de um mal objetivo está completa. Pois, em todo esse absurdo e contrassenso, o terrorismo é julgamento e penalidade da própria sociedade.</p>
<p align="right"><small><strong>Jean Baudrillard</strong></small></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug081.png"></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2012/o-aniquilamento-da-nao-violencia/">O aniquilamento da não-violência</a></p>
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		<title>A sacanagem messiânica</title>
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		<pubDate>Thu, 05 Jan 2012 10:20:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>
		<category><![CDATA[reino de deus]]></category>

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		<description><![CDATA[Consiste em que se um dia alguém, para ajudar um faminto, sedento, doente, preso, estrangeiro ou nu, se aproximou dele de cima para baixo, achando-se ele mesmo o messias, esse não O achará. Por outro lado, aqueles que, para ajudar, se aproximaram de um faminto, sedento, doente, preso, estrangeiro ou nu, despretensiosamente, de baixo para [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Consiste em que se um dia alguém, para ajudar um faminto, sedento, doente, preso, estrangeiro ou nu, se aproximou dele de cima para baixo, achando-se ele mesmo o messias, esse não O achará.</p>
<p>Por outro lado, aqueles que, para ajudar, se aproximaram de um faminto, sedento, doente, preso, estrangeiro ou nu, despretensiosamente, de baixo para cima, O acharão, sem nem saber ou procurar.</p>
<p>Curiosamente o Messias estará na pele do necessitado e não na do caridoso, na do fraco e não na do forte, na do salvado e não na do salvador (Mt 25:35).</p>
<p align="right"><small>Sacado por <strong>Roger Brand</strong> no espaço da <a href="http://teologia-livre.blogspot.com/"><em>Teologia Livre</em></a></small></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug001.png"></p>
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		<title>Os mitos não descansam</title>
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		<pubDate>Tue, 03 Jan 2012 07:48:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>
		<category><![CDATA[mito]]></category>

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		<description><![CDATA[Porém o mito nunca se contenta em simbolizar um processo uma única vez. Quer os mitos que temos sejam ou não combinações de incontáveis mitos locais, o efeito final é de que os aspectos cruciais da vida são simbolizados vez após outra, de diversas maneiras correlatas, como se, nas palavras de Levi-Strauss, duas pesssoas estivessem [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Porém o mito nunca se contenta em simbolizar um processo uma única vez. Quer os mitos que temos sejam ou não combinações de incontáveis mitos locais, o efeito final é de que os aspectos cruciais da vida são simbolizados vez após outra, de diversas maneiras correlatas, como se, nas palavras de Levi-Strauss, duas pesssoas estivessem tentando se comunicar separadas por uma ruidosa catarata. A mensagem é repetida muitas vezes de diferentes modos e com diversos símbolos diferentes porque, na avaliação de Levi-Strauss, o nível de interferência na comunicação cultural é muito alto.</p>
<p align="right"><small><strong>Alan F. Segal</strong>, em <em>Life after Death (2004)</em></small></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug083.png"></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2007/as-sementes-douradas-nao-perecem/">As sementes douradas não perecem</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/qual-mito/">Qual mito</a></p>
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		<title>O futuro e os sonhos</title>
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		<pubDate>Sun, 01 Jan 2012 02:01:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Traduzindo Borges]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>

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		<description><![CDATA[Que razões ele apresenta para postular que existe já o futuro? Dunne fornece duas: uma, os sonhos premonitórios; outra, a relativa simplicidade que outorga essa hipótese aos inextrincáveis diagramas que são típicos de seu estilo. Quer também evitar os problemas de uma criação contínua&#8230; Os teólogos definem a eternidade como a simultânea e lúcida possessão [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Que razões ele apresenta para postular que existe já o futuro? Dunne fornece duas: uma, os sonhos premonitórios; outra, a relativa simplicidade que outorga essa hipótese aos inextrincáveis diagramas que são típicos de seu estilo. Quer também evitar os problemas de uma criação contínua&#8230; Os teólogos definem a eternidade como a simultânea e lúcida possessão de todos os instantes do tempo e declaram-na um dos atributos divinos. Dunne, assombrosamente, supõe que já é nossa a eternidade e que os sonhos de cada noite o corroboram. Neles, segundo ele, confluem o passado imediato e o imediato porvir. Na vigília recorremos em velocidade uniforme ao tempo sucessivo, no sonho abarcamos uma zona que pode ser vastíssima. Sonhar é coordenar os vislumbres dessa contemplação e urdir com eles uma história, ou uma série de histórias. Vemos a imagem de uma esfinge e a de uma farmácia e inventamos que uma farmácia se converte em esfinge. No homem que conheceremos amanhã colocamos a boca de um rosto que nos fitou antes de ontem à noite&#8230; (Já Schopenhauer escreveu que a vida e os sonhos são folhas de um mesmo livro, e que lê-las em ordem é viver; folheá-las, sonhar).</p>
<p>Dunne assegura que na morte aprenderemos o manejo feliz da eternidade. Recobraremos todos os instantes da nossa vida e os combinaremos como melhor nos parecer. Deus e nossos amigos e Shakespeare colaborarão conosco.</p>
<p>Diante de uma tese tão esplêndida, qualquer falácia cometida pelo autor mostra-se trivial.</p>
<p align="right"><small><strong>Jorge Luis Borges</strong>, em <em>El tiempo y J. W. Dunne</em> (<em>Outras Inquisiciones</em>, 1952)</small></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug079.png"></p>
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		<title>A flor de Coleridge</title>
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		<pubDate>Fri, 30 Dec 2011 09:05:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Traduzindo Borges]]></category>
		<category><![CDATA[biografia]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>

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		<description><![CDATA[Em 1938, Paul Valéry escreveu: &#8220;a história da literatura não deveria ser a história dos autores e dos acidentes da sua carreira ou da carreira de suas obras, mas a história do Espírito como produtor ou consumidor de literatura&#8221;. Não era a primeira vez que o Espírito formulava essa observação; em 1844, na aldeia de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Em 1938, Paul Valéry escreveu: &#8220;a história da literatura não deveria ser a história dos autores e dos acidentes da sua carreira ou da carreira de suas obras, mas a história do Espírito como produtor ou consumidor de literatura&#8221;. Não era a primeira vez que o Espírito formulava essa observação; em 1844, na aldeia de Concord, outro de seus amanuenses havia anotado: &#8220;Dir-se-ia que uma única pessoa redigiu todos os livros que há no mundo; tamanha unidade central há entre eles que é inegável que sejam obra de um só cavalheiro onisciente&#8221; (Emerson: <em>Essays</em>, 2, VIII). Vinte anos antes, Shelley sentenciou que todos os poemas do passado, do presente e do porvir, são episódios ou fragmentos de um único poema infinito, erigido por todos os poetas do orbe (<em>A Defence of Poetry</em>, 1821).</p>
<p>Essas considerações (implícitas, naturalmente, no panteísmo) permitiriam um inacabável debate; eu, agora, as invoco para executar um modesto propósito: a história da evolução de uma ideia, através dos textos heterogêneos de três autores. O primeiro texto é uma nota de Coleridge; ignoro se este a escreveu ao final do século XVIII ou a princípios de XIX. Diz, literalmente:</p>
<p>&#8220;Se um homem atravessasse o Paraíso num sonho, e lhe dessem uma flor como prova de que havia estado ali, e se ao despertar ele encontrasse essa flor na sua mão&#8230; e então?&#8221;</p>
<p>Não sei o que pensará o leitor desta imaginação; eu a julgo perfeita. Usá-la como base para outras invenções felizes parece de antemão impossível; ela tem a integridade e a unidade de um <em>terminus ad quem</em>, de uma meta alcançada. Está claro que é assim; na ordem da literatura, como nas outras, não há ato que não seja coroação de uma infinita série de causas e manancial de uma infinita série de efeitos. Por trás da invenção de Coleridge está a geral e antiga invenção das gerações de amantes que pedem como prenda uma flor.</p>
<p>O segundo texto que apresentarei é uma novela que Wells esboçou em 1887 e reescreveu sete anos depois, no verão de 1894. A primeira versão intitulou-se <em>The Chronic Argonauts</em> (neste título abolido, <em>chronic</em> tem o valor etimológico de <em>temporal</em>); a definitiva, <em>The Time Machine</em>. Wells, nessa novela, dá continuidade e reforma uma antiquíssima tradição literária: a previsão de fatos futuros. Isaías <em>vê </em>a desolação da Babilônia e a restauração de Israel; Enéias, o destino militar de sua posteridade, os romanos; a profetisa da <em>Edda Saemundi</em>, a volta dos deuses que, depois da cíclica batalha em que nossa terra perecerá, descobrirão, jogadas no pasto de uma nova pradaria, as peças de xadrez com que anteriormente haviam jogado. O protagonista de Wells, à diferença desses espectadores proféticos, viaja fisicamente ao porvir. Volta cansado, empoeirado e machucado; volta de uma remota humanidade que se bifurcou em espécies que se odeiam (os ociosos <em>eloi</em>, que habitam em palácios dilapidados e em ruinosos jardins. os subterrâneos e nictalopes <em>morlocks</em>, que se alimentam dos primeiros); volta com as têmporas grisalhas e traz do porvir uma flor murcha. Esta é a segunda versão da imagem de Coleridge. Mais incrível do que uma flor celestial ou que a flor de um sonho é a flor futura, a contraditória flor cujos átomos agora outros lugares e ainda não se combinaram.</p>
<p>A terceira versão que comentarei, a mais trabalhada, é invenção de um escritor fartamente mais complexo do que Wells, embora menos dotado dessas agradáveis virtudes que é costume chamar de clássicas. Refiro-me ao autor de <em>A humilhação dos Northmore</em>, o triste e labiríntico Henry James. Este, ao morrer, deixou inconclusa uma novela de caráter fantástico, <em>The Sense of the Past</em>, que é uma variação ou elaboração de <em>The Time Machine</em><sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/a-flor-de-coleridge/#footnote_0_2757" id="identifier_0_2757" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="N&atilde;o li The Sense of the Past, mas conhe&ccedil;o a suficiente an&aacute;lise de Stephen Spender, em sua obra The Destructive Element (p&aacute;ginas 105-110). James foi amigo de Wells; para sua rela&ccedil;&atilde;o se pode consultar o vasto Experiment in Autobiography deste.">1</a></sup>. O protagonista de Wells viaja ao porvir num inconcebível veículo que avança ou retrocede no tempo como os outros veículos no espaço; o de James regressa ao passado, ao século XVIII, à força de compenetrar-se nesta época (os dois procedimentos são impossíveis, porém o menos arbitrário é o de James). Em <em>The Sense of the Past</em>, o nexo entre o real e o imaginativo (entre a atualidade e o passado) não é uma flor, como nas ficções anteriores; é um retrato que data do século XVIII e que misteriosamente representa o protagonista. Este, fascinado por essa tela, consegue trasladar-se à data em que a executaram. Entre as pessoas que encontra figura, necessariamente, o pintor; este o pinta com temor e com aversão, pois intui algo incomum e anômalo nessas feições futuras&#8230; James cria, assim, um incomparável <em>regressus in infinitum</em>, já que seu herói, Ralph Pendrel, se traslada ao século XVIII. A causa é posterior ao efeito, o motivo da viagem é uma das consequências da viagem.</p>
<p>Wells, verossimilmente, desconhecia o texto de Coleridge; Henry James conhecia e admirava o texto de Wells. Claro está que se é válida a doutrina de que todos os autores são um autor<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/a-flor-de-coleridge/#footnote_1_2757" id="identifier_1_2757" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="Em meados do s&eacute;culo XVII o epigramista do pante&iacute;smo Angelus Silesius disse que todos os bem-aventurados s&atilde;o um (Cherubinischer Wandersmann, V. 7), e que todo crist&atilde;o deve ser Cristo (op. cit., V, 9).">2</a></sup>, tais fatos são insignificantes. Rigorosamente falando, não é indispensável ir tão longe; o panteísta que declara que a pluralidade dos autores é ilusória encontra inesperado apoio no classicista, segundo o qual essa pluralidade importa muito pouco. Para as mentes clássicas, a literatura é o essencial, não os indivíduos. George Moore e James Joyce incorporaram em suas obras páginas e sentenças alheias; Oscar Wilde costumava presentear enredos para que outros executassem; ambas as condutas, embora superficialmente contrárias, podem evidenciar um mesmo sentido da arte. Um sentido ecumênico, impessoal&#8230; Outro testemunho da unidade profunda do Verbo, outro negador dos limites do sujeito, foi o insigne Ben Jonson, que empenhado na tarefa de formular seu testamento literário e os ditames propícios ou adversos que mereciam seus contemporâneos, limitou-se a combinar fragmentos de Sêneca, de Quintiliano, de Justo Lipsio, de Vives, de Erasmo, de Maquiavel, de Bacon e dos escalígeros.</p>
<p>Uma observação, última. Aqueles que minuciosamente copiam um escritor o fazem impessoalmente, o fazem porque confundem esse escritor com a literatura, o fazem porque suspeitam que apartar-se dele num ponto é apartar-se da razão e da ortodoxia. Durante muitos anos, cri que a quase infinita literatura estava num único homem. Esse homem foi Carlyle, foi Johannes Becher, foi Whitman, foi Rafael Cansinos-Asséns, foi De Quincey<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/a-flor-de-coleridge/#footnote_2_2757" id="identifier_2_2757" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="Esse homem, naturalmente, nunca vai deixar de ser Borges. (Nota do tradutor)">3</a></sup>.</p>
<p align="right"><small><strong>Jorge Luis Borges</strong>, <em>Otras Inquisiciones</em> (1957)</small></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug002.gif"></p>
<b><small>NOTAS</small></b><ol class="footnotes"><li id="footnote_0_2757" class="footnote">Não li <em>The Sense of the Past</em>, mas conheço a suficiente análise de Stephen Spender, em sua obra <em>The Destructive Element</em> (páginas 105-110). James foi amigo de Wells; para sua relação se pode consultar o vasto <em>Experiment in Autobiography</em> deste.</li><li id="footnote_1_2757" class="footnote">Em meados do século XVII o epigramista do panteísmo Angelus Silesius disse que todos os bem-aventurados são um (<em>Cherubinischer Wandersmann</em>, V. 7), e que todo cristão deve ser Cristo (op. cit., V, 9).</li><li id="footnote_2_2757" class="footnote">Esse homem, naturalmente, nunca vai deixar de ser Borges. <strong>(Nota do tradutor)</strong></li></ol>]]></content:encoded>
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		<title>A inconcebível figura</title>
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		<pubDate>Wed, 07 Dec 2011 15:00:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[&#8220;O que é uma inteligência infinita?&#8221;, indagará talvez o leitor. Não há teólogo que não a defina; eu prefiro um exemplo. Os passos que dá um homem, desde o dia de seu nascimento até o da sua morte, desenham no tempo uma inconcebível figura. A Inteligência Divina intui essa figura imediatamente, como a dos homens [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>&#8220;O que é uma inteligência infinita?&#8221;, indagará talvez o leitor. Não há teólogo que não a defina; eu prefiro um exemplo. Os passos que dá um homem, desde o dia de seu nascimento até o da sua morte, desenham no tempo uma inconcebível figura. A Inteligência Divina intui essa figura imediatamente, como a dos homens um triângulo. Esse desenho tem (quem sabe) sua determinada função na economia do universo.</p>
<p align="right"><small><strong>Jorge Luis Borges</strong>, numa nota de rodapé</em></small></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug006.gif"></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2007/o-desenho-e-seu-nome/">O desenho e seu nome</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/a-peca-ininterrupta/">A peça ininterrupta</a></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Deus não escreve não-ficção; por que alguém deveria?</title>
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		<pubDate>Thu, 01 Dec 2011 07:34:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
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		<category><![CDATA[borges]]></category>
		<category><![CDATA[jesus]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>
		<category><![CDATA[teologia narrativa]]></category>
		<category><![CDATA[wells]]></category>

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		<description><![CDATA[Enquanto um autor se limita a narrar acontecimentos ou a traçar os tênues desvios de uma consciência, podemos supô-lo onisciente, podemos confundi-lo com o universo ou com Deus; quando se rebaixa a raciocinar, sabemo-lo falível. A realidade procede dos fatos, não dos raciocínios; a Deus toleramos que se afirme &#8220;eu sou o que sou&#8221; (Êxodo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Enquanto um autor se limita a narrar acontecimentos ou a traçar os tênues desvios de uma consciência, podemos supô-lo onisciente, podemos confundi-lo com o universo ou com Deus; quando se rebaixa a raciocinar, sabemo-lo falível. A realidade procede dos fatos, não dos raciocínios; a Deus toleramos que se afirme &#8220;eu sou o que sou&#8221; (Êxodo 3:14), não que declare ou analise, como Hegel ou Anselmo, o <em>argumentum ontologicum</em>. Deus não deve teologizar; o escritor não deve invalidar com razões humanas a momentânea fé que exige de nós a arte. Há outro motivo: o autor que mostra aversão por um personagem parece não terminar de entendê-lo, parece confessar que este não é inevitável para ele. Desconfiamos de sua inteligência, do mesmo modo que desconfiaríamos da inteligência de um Deus que mantivesse céus e infernos. Deus, escreveu Spinoza (Ética 5:17), não odeia ninguém e não deseja ninguém.</p>
<p align="right"><small><strong>Jorge Luis Borges</strong>, explicando porque os primeiros livros de H. G. Wells, que limitam-se a contar histórias e não se rebaixam a defender teses, são superiores aos demais. No processo, acaba esclarecendo porque Jesus só contou histórias. Ainda <em>Otras Inquisiciones</em> (1952).</small></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug008.gif"></p>
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		<title>Los más arduos pasajes</title>
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		<pubDate>Tue, 29 Nov 2011 07:51:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Traduzindo Borges]]></category>
		<category><![CDATA[biografia]]></category>
		<category><![CDATA[borges]]></category>
		<category><![CDATA[islam]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>

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		<description><![CDATA[É ateu, mas sabe interpretar de um modo ortodoxo as mais árduas passagens do Alcorão, porque todo homem culto é um teólogo, e para sê-lo não é indispensável a fé. Jorge Luis Borges, pausando sobre Omar Khayyām em suas Otras Inqusiciones (1952)]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>É ateu, mas sabe interpretar de um modo ortodoxo as mais árduas passagens do Alcorão, porque todo homem culto é um teólogo, e para sê-lo não é indispensável a fé.</p>
<p align="right"><small><strong>Jorge Luis Borges</strong>, pausando sobre Omar Khayyām<br />
em suas <em>Otras Inqusiciones</em> (1952)</small></p>
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		<title>A guerra dos reis</title>
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		<pubDate>Fri, 25 Nov 2011 08:22:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>
		<category><![CDATA[lendas dos judeus]]></category>

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		<description><![CDATA[ABRAÃO: A guerra dos reis Em seu retorno do Egito as relações de Abraão com sua própria família foram perturbadas por circunstâncias importunas. Conflitos surgiram entre os pastores do seu gado e os pastores de Ló. Abraão colocou focinheiras no seu gado, mas Ló não se importou em fazê-lo. Quando os pastores que cuidavam do [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="center"><a href="http://www.23hq.com/paulobrabo/photo/7468930"><br />
   <img src="http://www.23hq.com/23666/7468930_2f92c29a2de009b08fa06b0ad3a6a2a1_standard.jpg" height="306" width="460" /><br />
</a></p>
<p>
<p style="text-align:right;"><small><strong>ABRAÃO: </strong>A guerra dos reis</small></p>
<p>Em seu retorno do Egito as relações de Abraão com sua própria família foram perturbadas por circunstâncias importunas. Conflitos surgiram entre os pastores do seu gado e os pastores de Ló. Abraão colocou focinheiras no seu gado, mas Ló não se importou em fazê-lo. Quando os pastores que cuidavam do gado de Abraão confrontaram os pastores de Ló a respeito dessa omissão, eles responderam:</p>
<p>&#8211; É sabido que Deus disse a Abraão: &#8220;à sua descendência darei esta terra&#8221;. Mas Abraão é estéril como uma mula: nunca vai ter filhos. No dia em que ele morrer, Ló será seu herdeiro. Os rebanhos de Ló só estão consumindo o que é por direito deles e do mestre deles.</p>
<p>Mas Deus disse:</p>
<p>&#8211; É verdade, eu disse a Abraão que daria a terra à sua descendência, mas só depois que as sete nações fossem eliminadas da terra. Hoje em dia habitam ali os cananitas e os perizitas. Eles têm ainda o direito de habitação. </p>
<p>Porém, quando a disputa estendeu-se dos servos para os senhores, e Abraão inutilmente chamou Ló à responsabilidade pelo comportamento impróprio deles, Abraão decidiu que seria obrigado a separar-se de seu familiar, ainda que tivesse de obrigar Ló a fazê-lo à força. Desse modo Ló separou-se não apenas de Abraão, mas também do Deus de Abraão, e dirigiu-se a uma região na qual a imoralidade e o pecado reinavam sem rédeas, pelo que lhe sobreveio punição, pois mais tarde sua própria carne seduziu-o ao pecado.</p>
<p>Deus ficou desgostoso com Abraão por não viver em paz e harmonia com sua parentela do modo como vivia com o restante do mundo. Por outro lado, Deus também ressentiu-se de que Abraão estivesse aceitando tacitamente Ló como seu  herdeiro, muito embora tivesse prometido a ela em palavras claras e inequívocas:  &#8220;À tua descendência darei a terra&#8221;. </p>
<p>Depois de separar-se de Ló Abraão recebeu a confirmação de que um dia a terra pertenceria à sua descendência, a qual Deus multiplicaria como a areia da praia. Do mesmo modo que a areia enche a terra, os descendentes de Abraão se espalhariam por toda a terra, de um extremo a outro; do mesmo modo que a terra só é abençoada quando é umedecida com água, seus descendentes seriam abençoados através da Torá, que é comparável à água; do mesmo modo que a terra perdura mais do que o metal, sua descendência perduraria para sempre, enquanto os gentios desapareceriam; e do mesmo modo que a terra é pisoteada, sua descendência seria pisoteada pelos quatro reinos.</p>
<p>A partida de Ló teve sérias consequências, pois a guerra travada por Abraão contra os quatro reis esteve intimamente relacionada a ela. Ló desejava estabelecer-se no círculo bem irrigado do Jordão, mas a única cidade da planície disposta a recebê-lo foi Sodoma, cujo rei admitiu o sobrinho de Abraão por consideração ao tio.</p>
<p>Os cinco reis ímpios planejaram fazer primeiro guerra contra Sodoma, por causa de Ló, e em seguida avançar contra Abraão &#8211; pois um dos cinco, Amrafel, não era outro que não Ninrode, antigo inimigo de Abraão.</p>
<p>O motivo imediato da guerra foi o seguinte: Quedorlaomer, um dos generais de Ninrode, rebelou-se contra ele depois que os construtores da torre foram dispersados, declarando-se rei de Elam. Ele em seguida subjugou as tribos canitas que viviam nas cinco cidades da planície do Jordão, tornando-as suas tributárias. Por doze anos essas cidades foram fiéis ao seu soberano governante Quedorlaomer, mas depois disso recusaram-se a pagar o tributo, persistindo em sua insubordinação por treze anos. </p>
<p>Aproveitando-se do embaraço de Quedorlaomer, Ninrode conduziu um exército de sete mil guerreiros contra seu antigo general. Na batalha travada entre Elam e Shinar, Ninrode sofreu uma desastrosa derrota, perdendo seis mil soldados, e entre os abatidos estava o filho do rei, Mardon. </p>
<p>Humilhado e abatido, Ninrode voltou para seu país e foi obrigado a reconhecer o suseranato de Quedorlaomer, que por sua vez formou em seguida uma aliança com Arioque, rei de Elasar, e Tidal, rei de diversas nações, com o propósito de esmagar as cidades do círculo do Jordão. </p>
<p>A força conjunta desses reis, totalizando oitocentos mil homens, marchou contra as cinco cidades, subjugando o que quer que encontrassem no caminho e exterminando os descendentes dos gigantes. Fortalezas, cidades muradas e terrenos em campo aberto caíram todos nas suas mãos.  </p>
<p>Eles avançaram deserto adentro até a nascente que brotava da rocha de Kadesh, o lugar apontado por Deus como lugar onde se proferiria julgamento contra Moisés e Arão por causa das águas da discórdia. </p>
<p>Dali voltaram-se para a porção central da Palestina, a região das tâmaras, onde foram ao encontro dos cinco reis sem deus: Bera, o vil, rei de Sodoma; Birsha, o pecador, rei de Gomorra; Shinabe, o odiador do pai, rei de Admá; Shemeber, o voluptuoso, rei de Zeboim; e o rei de Bela, a cidade que devora seus habitantes. Os cinco foram empurrados para o fértil vale de Siddim,  cujos canais formam o Mar Morto. Os soldados que restaram fugiram para as montanhas, mas os reis caíram nos poços de lodo e ficaram presos ali. Só o rei de Sodoma foi resgatado, miraculosamente, para que pudesse converter à fé em Deus os pagãos que não haviam crido, no maravilhoso livramento de Abraão da fornalha ardente.</p>
<p>Os vitoriosos despojaram Sodoma de seus bens e provisões, e tomaram também Ló, vangloriando-se: &#8220;Tomamos cativo o filho do irmão de Abraão!&#8221; &#8211; revelando nisso que o verdadeiro objeto de sua empreitada era o mais profundo desejo de atingir Abraão.  </p>
<p>Era a primeira noite da Páscoa, e Abraão estava comendo do pão sem fermento, quando o arcanjo Miguel trouxe a ele a notícia do cativeiro de Ló. Essa anjo tem também outro nome, Palit &#8211; o sobrevivente, &#8211; porque quando Deus lançou Samael e seu exército de seu lugar santo no céu, o líder rebelde agarrou Miguel e tentou arrastá-lo consigo para baixo, e Miguel só escapou de cair do céu através da ajuda divina. </p>
<p>Quando chegou-lhe a notícia da condição de seu sobrinho perverso, Abraão colocou imediatamente de lado todas as suas desavenças com Ló, e sua única preocupação passou ser encontrar modos e meios de libertá-lo. Ele convocou seus discípulos, aos quais havia ensinado a verdadeira fé e que chamavam-se todos pelo nome de Abraão, deu-lhes ouro e prata e disse:</p>
<p>&#8211; Saibam que estamos partindo para a guerra com o propósito de salvar vidas humanas. Peço, portanto, que não cobicem o dinheiro dos outros; eis aqui ouro e prata diante de vocês.</p>
<p>E advertiu-os também com as seguintes palavras:</p>
<p>&#8211; Estamos nos preparando para guerrear. Que não se aliste qualquer um que tenha cometido uma transgressão e que teme que a punição divina pode recair sobre ele.</p>
<p>Alarmados por essa advertência, ninguém quis alistar-se no seu exército, temerosos por causa dos seus pecados. Somente Eliezer permaneceu com ele, pelo que Deus disse:</p>
<p>&#8211; Todos o abandonaram, menos Eliezer. Pois saiba que darei a ele a força dos trezentos e dezoito homens cujo auxílio você buscou em vão. </p>
<p>A batalha travada contra os poderosos exércitos dos reis, e da qual Abraão saiu vitorioso, aconteceu no décimo quinto dia do mês de Nisã, a noite designada para feitos miraculosos. As flechas e pedras lançadas contra ele não produziram efeito algum, mas a poeira, a palha e o restolho que Abraão atirasse contra o inimigo era transformada em dardos e espadas mortais. Abraão, com a altura de setenta homens, e requerendo a comida e a bebida de setenta homens, marchou avante com passos de gigante &#8211; cada passo medindo quatro milhas, &#8211; até alcançar os reis e aniquilar as suas tropas. Mais adiante ele não teve como ir, pois havia chegado a Dã, onde mais tarde Jeroboão ergueria os bezerros de ouro, e nesse local fatídico a força de Abraão diminuiu.</p>
<p>Sua vitória só foi possível porque os poderes celestiais tomaram o lado dele. O planeta Júpiter fez com que a noite ficasse iluminada, e um anjo chamado Laila lutou por ele. Num sentido muito verdadeiro, foi uma vitória de Deus. Todas as nações reconheceram a sua como uma realização mais do que divina; fizeram um trono para Abraão e o colocaram no campo de batalha. Quando tentaram fazer com que se assentasse nele, entre exclamações de &#8220;És nosso rei! És nosso príncipe! És nosso deus!&#8221;, Abraão os repeliu, e disse:</p>
<p>&#8211; O universo tem o seu Rei, e tem o seu Deus!</p>
<p>Ele recusou todas as honras e devolveu a cada homem a sua propriedade. Só as criancinhas ele reteve para si; criou-as no conhecimento de Deus, e elas mais tarde expiaram a desgraça de seus pais. </p>
<p>De modo um tanto arrogante, o rei de Sodoma resolveu encontrar-se com Abraão. Ele estava orgulhoso de que um grande milagre, seu resgate de um poço de lodo, tivesse sido feito também em favor dele, e propôs que Abraão ficasse com os despojos que havia tomado. Mas Abraão se recusou:</p>
<p>&#8211; Elevei minha mão em juramento ao Senhor, o Altíssimo, que criou o mundo por causa dos piedosos, de que não ficaria com um barbante, um cadarço ou coisa alguma que lhe pertence. Não tenho direito sobre quaisquer bens tomados como despojo, com exceção daquilo que comeram os jovens e a porção dos homens que se demoraram nas vizinhanças, embora não tenham se envolvido na batalha em si.</p>
<p>O exemplo de Abraão, de dar uma porção dos despojos até mesmo aos homens que não haviam se envolvido diretamente na batalha, foi seguido mais tarde por Davi, que não deu ouvidos ao protesto dos perversos e indignos que estavam com ele, de que os sentinelas não tinham direito de se beneficiar da mesma forma que os guerreiros que haviam se envolvido na batalha.</p>
<p>Apesar de sua grande vitória, Abraão estava ainda preocupado com a questão da guerra. Ele temia por ter sido transgredida a proibição de se derramar o sangue de seres humanos, e temia também o ressentimento de Sem, cujos descendentes haviam perecido no embate. Porém Deus o tranquilizou:</p>
<p>&#8211; Não tenha medo. Você só extirpou os chifres. Quanto a Sem, ele vai abençoá-lo, não maldizê-lo. </p>
<p>E assim foi. Quando Abraão voltou da guerra, Sem &#8211; ou, como é às vezes chamado, Melquisedeque, rei da justiça, sacerdote do Altíssimo e rei de Jerusalém, &#8211; veio ao encontro dele com pão e vinho. Esse sumo sacerdote instruiu Abraão sobre as leis do sacerdócio e sobre a Torá, e a fim de demonstrar sua amizade Melquisedeque o abençoou e chamou-o de parceiro de Deus na possessão do mundo, visto que através dele o nome de Deus seria primeiro tornado conhecido entre os homens. Melquisedeque, no entanto, arranjou as palavras de sua benção de um modo inconveniente: ele disse primeiro o nome de Abraão, depois o de Deus. Como punição, foi deposto por Deus de sua dignidade sacerdotal, que foi transferida desse modo para Abraão, com cujos descendentes permaneceu para sempre.</p>
<p>Como recompensa pela santificação do Santo Nome, o que Abraão promoveu quando recusou-se a reter qualquer um dos bens que havia angariado em batalha, seus descendentes receberam dois mandamentos: a regra das franjas na borda de suas túnicas e a regra do uso de cadarços como sinais nas suas mãos e por frontais entre os olhos. Desse modo eles celebram o fato de que seu ancestral recusou-se a apropriar-se de sequer um barbante ou um cadarço. E porque ele recusou-se a tocar um cadarço que fosse dos despojos, seus descendentes jogaram seu sapato sobre Edom.</p>
<h5>* * *</h5>
<p><small><em>Lendas dos Judeus</em> é uma compilação de lendas judaicas recolhidas das fontes originais do <em>midrash</em> (particularmente o <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Talmud">Talmude</a>) pelo talmudista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). <em>Lendas</em> foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.</small></p>
<div class='series_toc'><h3>Lendas dos judeus</h3><ol><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2005/as-primeiras-coisas-criadas/' title='As primeiras coisas criadas'>As primeiras coisas criadas</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/o-alfabeto/' title='O alfabeto'>O alfabeto</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/o-primeiro-dia/' title='O primeiro dia'>O primeiro dia</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/o-segundo-dia/' title='O segundo dia'>O segundo dia</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/o-terceiro-dia/' title='O terceiro dia'>O terceiro dia</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/o-quarto-dia/' title='O quarto dia'>O quarto dia</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/o-quinto-dia/' title='O quinto dia'>O quinto dia</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/o-sexto-dia/' title='O sexto dia'>O sexto dia</a></li><li><a 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embriaguez</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/os-descendentes-de-noe-espalham-se-pelo-mundo/' title='Os descendentes de Noé espalham-se pelo mundo'>Os descendentes de Noé espalham-se pelo mundo</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-depravacao-da-humanidade/' title='A depravação da humanidade'>A depravação da humanidade</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/ninrode/' title='Ninrode'>Ninrode</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-torre-de-babel/' title='A torre de Babel'>A torre de Babel</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/as-geracoes-perversas/' title='As gerações perversas'>As gerações perversas</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/o-nascimento-de-abraao/' title='O nascimento de Abraão'>O nascimento de Abraão</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/o-bebe-proclama-deus/' title='O bebê proclama Deus'>O bebê proclama Deus</a></li><li><a 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href='http://www.baciadasalmas.com/2010/abraao-em-canaa/' title='Abraão em Canaã'>Abraão em Canaã</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2011/sua-estadia-no-egito/' title='Sua estadia no Egito'>Sua estadia no Egito</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2011/o-primeiro-farao/' title='O primeiro faraó'>O primeiro faraó</a></li><li>A guerra dos reis</li></ol></div>]]></content:encoded>
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		<title>Instrução</title>
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		<pubDate>Sat, 19 Nov 2011 08:03:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>
		<category><![CDATA[reino de deus]]></category>

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		<description><![CDATA[E temos instrução para não procurar a divindade afastada de nós, pois a temos muito perto; na verdade, de dentro &#8211; mais dentro de nós do que nós mesmos estamos dentro de nós. Giordano Bruno (1548-1600), em Cene delle ceneri]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>E temos instrução para não procurar a divindade afastada de nós, pois a temos muito perto; na verdade, de dentro &#8211; mais dentro de nós do que nós mesmos estamos dentro de nós.</p>
<p align="right"><small><strong>Giordano Bruno</strong> (1548-1600), em <em>Cene delle ceneri</em></small></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug080.png"></p>
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		<item>
		<title>A distância entre caridade e justiça</title>
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		<pubDate>Wed, 16 Nov 2011 07:31:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Nos textos que seguem procuro empregar o Novo Testamento e alguns elementos das tradições cristãs  a fim de complicar a correspondência que costumamos crer existir entre caridade e justiça social. Embora um bom número dos cristãos que trabalham em organizações de caridade tenha sido atraído para esse trabalho inspirado por um compromisso com a visão bíblica de justiça, acontece que com frequência  essas organizações de caridade &#8211; quer sejam ou não cristãs &#8211; estão na verdade envolvidas na perpetuação e na consolidação da injustiça, da exploração e da opressão. Consequentemente, aqueles que estão pessoalmente comprometidos com a justiça acabam tornando-se inadvertidamente instrumentos de injustiça; ou, para usar uma linguagem um pouco diversa: os que desejam conceder vida acabam se tornando traficantes de morte.</p>
<p>Dizendo de modo mais sucinto, pretendo levar aqueles que trabalham numa organização de caridade a ponderar qual é a relação dessa sua obra com [a] conferir vida aos outros e [b] seguir Jesus. Com esse fim, procurarei contrastar algumas características da caridade, como praticada hoje, com algumas características do ministério de Jesus.</p>
<p>Antes de fazer isso, no entanto, quero fazer uma única observação sobre a linguagem que estou empregando. Prefiro em geral evitar o termo “justiça” em conversações como esta. Estou incluindo o termo aqui logo de início porque creio que seja um tema importante neste curso de discussão. Porém prefiro não usar essa terminologia, porque a considero popular entre gente que gosta de falar muito e acaba confundido falação com atitude concreta. Muita gente parece achar que se torna mais “justa” <span style="float:right; text-align:right; width:35%; color:#7c836d; margin:12px 0 12px 12px; font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps; font-size:1.4em; line-height: 1.3em">A caridade é hierárquica; Jesus operava numa comunidade não hierárquica de gente pobre que buscava a mudança de baixo para cima.</span>porque fala ou pensa a respeito de “justiça”, por isso é às vezes necessário mudar os termos da discussão.</p>
<p>Semelhantemente, muita gente tem ideias estranhas sobre o que constitui “justiça”. Alguns cristãos conservadores, por exemplo, acham que o trabalho das <em>sweat shops</em> do terceiro mundo – fábricas com péssimas condições de trabalho e baixo salário, onde são manufaturados grande parte dos bens consumidos no ocidente – é um modo “justo” de se desenvolver outras economias e uma alternativa “justa” para quem poderia estar se prostituindo ou algo semelhante. Outros acham ainda que estamos lutando uma guerra “justa” contra o terror no Afeganistão ou, aliás, contra o povo do Haiti, da Palestina e da Líbia.</p>
<p>Por essa razão, em vez de usar esses termos, prefiro falar em termos de vida e morte. Na qualidade de seguidores de Jesus e de adoradores do Deus que chamava Jesus de seu Amado, creio que somos chamados a dar testemunho e participar da (nova) criação de um mundo em que uma vida abundante esteja ao alcance de todos, e não seja simplesmente apoderada por uns poucos às custas de muitos. Esse chamado requer duas posturas correlatas: devemos produzir e participar daquilo que confere vida e devemos resistir, subverter e destruir aquilo que propicia a morte. É isso o que requer não apenas a visão bíblica de “justiça”, mas a mais fundamental visão bíblica do que significa ser filho Deus e, num nível ainda mais básico, do que significa ser humano.</p>
<p>Isso, creio, é especialmente verdadeiro no que se refere às maneiras como entendemos “caridade” hoje em dia, por isso quero destacar alguns dos modos em que a caridade resvala no terreno daquilo que propicia a morte, em contraste com as posturas doadoras de vida da comunidade reunida ao redor de Jesus. Isso se faz através da análise de sete contrastes.</p>
<p><em>Primeiro contraste:</em></p>
<p><strong>A caridade é hierárquica, fluindo de cima para baixo, e essa estrutura e disposição asseguram a sua impotência.</p>
<p>Jesus operava numa comunidade não-hierárquica de gente pobre que buscava a mudança de baixo para cima, e essa estrutura e disposição asseguravam a possibilidade a criação de mudança que confere vida.</strong></p>
<p>À primeira vista esse contraste pode não parecer tão importante quanto é, em termos de participar daquilo que confere vida ou contribuir para aquilo que propicia a morte. Diversos contrastes importantes, no entanto, são desdobramento deste. É necessário observar e questionar, portanto, a diferença entre as posições sócio-econômicas e suas correspondentes trajetórias de mudança &#8211; de baixo para cima e de cima para baixo.</p>
<p>Começando com a caridade &#8211; e uso o termo para referir-me àquele tipo de coisa que fazem agências como <em>The Gateway</em> e a <em>Yonge Street Mission</em>, &#8211; há uma hierarquia muito clara em vigor, uma hierarquia que ao mesmo tempo imita e sobrepõe-se à hierarquia estrutural da sociedade.</p>
<p>O modo mais evidente de se observar isso é levantando-se perguntas relacionadas a dinheiro, acesso a informação e o poder de efetuar mudanças dentro da organização. Quem ganha quanto? Quem sabe o quê? Quem pode fazer o quê? As respostas a essas perguntas revelam de que modo o poder está distribuído e onde está concentrado, a despeito da retórica que os serviços sociais amam empregar, de que todos os envolvidos são estimados igualmente. Se fosse verdade, todos receberiam o mesmo, teriam igual acesso à informação e teriam a mesma autoridade pare efetuar mudança dentro da organização. O mesmo, naturalmente, é válido para qualquer cristão que fala sobre “liderança de serviço”, “valores do reino” ou o quer que seja. Qual foi a última vez que você viu um “líder servo” recebendo salário menor do que os membros da sua equipe? Qual foi a última vez em que você conheceu um “líder servo” que limpava os banheiros do dormitório ou do escritório?</p>
<p>Portanto, quando analisamos a questão do dinheiro, do acesso à informação e do poder de efetuar mudanças, encontramos na caridade o mesmo tipo de hierarquia que prevalece em empresas, governos e outras instituições. Com respeito a isso, é sempre instrutivo comparar-se, por exemplo, os quatro níveis de pessoas dentro de uma organização dessa natureza. Quanto ganham os assistidos? Quando ganham os zeladores? Quanto ganham os envolvidos na linha de frente? Quanto ganha o diretor executivo?</p>
<p>Você provavelmente não sabe a resposta a essas perguntas, porque não se espera que as pessoas na base da pirâmide saibam o quanto ganham os demais &#8211; o que demonstra o meu segundo ponto. Quanta informação a respeito do funcionamento interno da instituição de caridade podem acessar os assistidos, os zeladores, os funcionários da equipe de atendimento e o diretor executivo?</p>
<p>Em terceiro lugar, quanto poder têm os assistidos, os zeladores, a equipe de atendimento e o diretor executivo para mudar as coisas dentro da instituição?</p>
<p>Essas três áreas demonstram uma hierarquia muito claramente demarcada operando dentro de instituições de caridade cristãs, replicando os modelos hierárquicos estabelecidos da sociedade.</p>
<p>Outro exemplo dessa imitação está em que aqueles que ocupam as posições mais altas tendem a ter de um perfil socioeconômico mais elevado do que aqueles que ocupam posições inferiores, e tendem também a ter um nível mais alto de escolaridade. A profissionalização das obras de caridade tem se difundido rapidamente nas últimas décadas. Por um lado, isso praticamente assegura que os funcionários de linha de frente provenham quase todos de uma classe social diferente da dos assistidos que servem &#8211; alienando deste modo ainda mais a caridade da efetiva comunidade que alega servir, e garantindo também que a equipe assistencial esteja provavelmente mais entranhada dos valores dominantes da sociedade. Por outro lado, isso assegura que aqueles em cargos de gestão tenham recebido a maior parte da sua instrução na área de administração de negócios &#8211; garantindo desse modo que os valores e a cultura de classe dos encarregados da direção sejam ainda mais distantes daqueles dos assistidos do que os da equipe de atendimento.</p>
<p>Essencialmente, a direção de uma instituição de caridade tende a ser composta por gente bem intencionada que vive tão distante das realidades da vida nas ruas e do que poderia de fato representar incremento de vida às pessoas marginalizadas que acabam fazendo mais mal do que bem (para mais sobre esse assunto recomendo enfaticamente a coletânea <em>The Revolution Will Not Be Funded: Beyond the Non-Profit Industrial Complex</em>).</p>
<p>É interessante observar que essa estrutura hierárquica esteja tão fortemente entranhada nas caridades cristãs. Mover-se dentro desse tipo de ambiente é ser simplesmente ensinado a partir do pressuposto de que o funcionamento natural das coisas requer que algumas pessoas tenham um salário bem maior que as demais, que algumas pessoas saibam bem mais do que as demais e que algumas pessoas tenham mais poder para efetuar mudança do que as outras.</p>
<p>Embora um grande número de instituições da caridade cristãs alegue ter como propósito assistir os necessitados e eliminar certas linhas divisórias, elas ainda assim reproduzem e aceitam como coisa natural muitas das linhas demarcatórias mais centrais da nossa sociedade &#8211; como, por exemplo, aquela entre uns poucos ricos e poderosos e uma maioria pobre e sem voz ativa.</p>
<p>Que isso é um fato consumado fica bem ilustrado no livro de Greg Paul, <em>The Twenty Piece Shuffle: Why the Poor and Rich Need Each Other.</em> Greg, como se sabe, escreveu esse livro na qualidade de diretor da <a href="http://sanctuarytoronto.ca/">Sanctuary</a>, e creio que a obra funciona um pouco como uma apologética da classe média; parece ter sido o modo pelo qual Greg procurou conciliar o seu modo de vida confortável com o fato de viver cercado de gente pobre. Assim, Greg explica que somos todos gente falha, e fala do modo como os pobres são capazes de impactar positivamente as falhas dos ricos e vice-versa. Desse modo, escreve ele, os pobres e os ricos precisam uns dos outros. O pressuposto não-declarado é que é na verdade <em>necessário </em>que exista gente rica e gente pobre. Faria mais sentido se Greg tivesse escrito um livro que se perguntasse por que existe gente pobre e gente rica em primeiro lugar, e por que não podemos fazer alguma coisa para criar um espaço neste mundo em que não haja nem pobreza nem riqueza, mas o suficiente para todos. Isso, na minha opinião, estaria mais alinhado com a visão bíblica de como devemos estruturar nossa vida comunitária.</p>
<p>Dito isso, apesar da profissionalização da obra social, apesar das boas intenções de todos os envolvidos, apesar do estabelecimento de hierarquias projetadas para dar autonomia aos indivíduos certos e apesar da abundância de instituições de caridade existentes hoje em dia, aparentemente não estamos fazendo muita diferença. A elite dos poucos continua a se tornar cada vez mais rica. A maioria pobre continua a crescer e a ficar mais pobre. A cada ano o número de sem-teto é maior. Cava vez mais gente recorre à cesta básica. Cada vez mais gente vive à distância de um cheque de perder sua casa.</p>
<p>A caridade tem se mostrado positivamente incapaz de realizar algo de significativo &#8211; além de, naturalmente, dar a gente como eu e você um crescente mercado de trabalho e um pouco mais de segurança financeira. Alguns diriam que a resposta ao problema da impotência da caridade está em articular mais conexões com a elite, em angariar mais dinheiro e trabalhar por um maior nível de profissionalização. Porém eu gostaria de sugerir que a impotência das iniciativas de caridade é, em parte, <em>gerada </em>pelas conexões com a elite, pelo dinheiro angariado e pelos profissionais envolvidos.</p>
<p>Com isso em mente, devemos examinar a posição e a estrutura do movimento que aglutinou-se ao redor de Jesus.</p>
<p>Para começar, pode ser necessário mencionar que no tempo de Jesus havia estruturas de caridade hierárquicas similares às que temos hoje. Os sistema de clientelismo e de beneficência &#8211; pelos quais os abastados ajudavam a cuidar dos menos afortunados ou faziam doações públicas a cidades inteiras &#8211; estavam bem estabelecidas ao longo de todo o mundo mediterrâneo. Em retribuição, os ricos e poderosos podiam esperar lealdade e serviço de seus vassalos, bem como reverência e honra em questões tanto públicas quanto privadas. Desse modo, aqueles que com frequência saqueavam cidades inteiras eram publicamente honrados como moralmente superiores aos outros. Os ricos e poderosos apropriavam-se não apenas de bens, mas ainda do próprio bem. Deve ser também dito que, à parte as obras públicas como aquedutos e fontes, essa forma de caridade era exercida quase exclusivamente em favor dos pobres “que mereciam”, sendo negada aos que eram considerados “não merecedores”.</p>
<p>É interessante notar como o movimento de Jesus recusa-se por completo a participar desse sistema de patronagem, a fim de criar um modo alternativo de estruturar a vida comunitária. Assim, por exemplo, Jesus encoraja as pessoas a dar sem esperar retribuição (Lucas 6:34-36) &#8211; uma forma de partilha que contradiz por completo a lógica da patronagem, passada ou presente. Jesus, além disso, apela para uma ética e uma economia fundamentada na noção de jubileu; em especial o perdão de débitos monetários (Lucas 4:18-19; 11-14) vai de encontro a  qualquer forma de caridade praticada naquela época. Isso não é caridade, é redistribuição econômica em favor dos necessitados (ver o comentário de Joel Green sobre o evangelho de Lucas; também o livro de Bruce W. Longenecker, <em>Remember the Poor: Paul, Poverty and the Greco-Roman World</em>).</p>
<p>Ou seja, ao contrário de participar das consagradas práticas hierárquicas de assistência que existiam em sua sociedade, Jesus escolheu participar da criação de uma comunidade igualitária que compartilhava uma solidariedade vivida com os pobres.</p>
<p>A fim de focalizar essa solidariedade vivida devemos, em primeiro lugar, observar que Jesus não interagia com os pobres e marginalizados à distância. Assim, em Lucas 9:58 ele declara: “As raposas tem suas tocas e as aves do céu tem seus ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça”. Jesus não trabalhava com os outros; ele era, ele mesmo, o outro com o qual trabalhamos. O mesmo é válido para a comunidade ao redor dele. Em sua companhia vemos prostitutas lavando seus pés com lágrimas e enxugando com o cabelo. Vemos terroristas como Simão, o zelote, lado a lado com pelegos e reacionários como Mateus, lado a lado com gente proletária como Pedro e João. Vemos os intocáveis e os enfermos sendo acolhidos como tocáveis e saudáveis. Vemos os pecadores e os malditos acolhidos como perdoados e salvos. Tudo considerado, um observador de fora provavelmente descreveria essa como uma comunidade de fodidos, desajustados, criminosos e idiotas &#8211; não exatamente o tipo de companhia que encontramos no quadro de funcionários de uma instituição de caridade. Ainda assim esses eram os amigos, a família, os companheiros e os amantes de Jesus. Não eram seus assistidos.</p>
<p>Em segundo lugar, essa era uma comunidade não-hierárquica. Embora alguns deles competissem constantemente para serem vistos como mais prestigiosos do que os outros &#8211; como quando Tiago e João pediram para sentar-se à sua direita e à sua esquerda (Mateus 20:20-28) &#8211; Jesus era inflexível em sua postura de que todos os membros da comunidade deveriam esforçar-se para ser escravos dos outros, honrando os outros mais do que a si mesmos, mesmo que isso significasse tarefas humilhantes e vergonhosas como lavar os pés de outra pessoa (conforme João 13:1-17).</p>
<p>Com a vida comunitária estruturada dessa forma, os que haviam sido marginalizados na sociedade recebiam posições de proeminência ao lado de todos os demais. Por exemplo, vemos que as mulheres desempenhavam um papel de destaque no movimento de Jesus. Não apenas exerciam liderança, mas eram tidas como dignas de maior honra do que homens. Na cruz apenas as mulheres ficaram perto de Jesus. Não é de se surpreender, portanto, que quando Jesus ressurge dos mortos são as mulheres a ter o privilégio de receber a mensagem da notícia. São elas as primeiras a agirem na qualidade de apóstolos, pregando as boas novas aos onze e ao restante dos integrantes do movimento. É por isso que Jesus disse que é necessário que sejamos eunucos pelo reino de Deus (Mateus 19:12): ele não quis dizer que os homens devem abrir mão de suas bolas; ele quis dizer que os homens precisavam <a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/novo-testamento-a-supremacia-e-o-carater-subversivo-do-amor/">abrir mão da autoridade que sua cultura lhes concedia</a>, e passar a relacionar-se com as mulheres <a href="http://www.baciadasalmas.com/2008/com-as-mulheres/">como iguais</a>.</p>
<p>É claro que falar de líderes &#8211; sejam mulheres ou não &#8211; parece contradizer a ideia de uma comunidade não hierárquica, então é importante enfatizar que a modalidade de liderança praticada nos primórdios do movimento de Jesus não era institucionalizada e não era restrita a determinadas pessoas e determinadas classes de pessoas. Emprestando o termo de Max Weber, tratava-se do que os sociólogos chamam de “liderança carismática”. Essas são pessoas que operam em papéis de liderança porque algo nelas diz algo ou ressoa de modo poderoso diante do restante da comunidade. Desse modo, sua liderança depende estritamente da aprovação comunal de suas palavras e suas ações. É por isso que Paulo, em suas cartas e apesar de todas as alegações que faz sobre ele mesmo e seu papel, está constantemente pedindo para ser ouvido. Ele só tem autoridade porque a comunidade escolhe dar a ele autoridade, e essas autoridade pode ser revogada a qualquer momento.</p>
<p>Se os líderes representavam a comunidade, eram aceitos; se deixavam de representar a comunidade, perdiam toda a autoridade. Não é de se admirar, portanto, que os que tendiam a ser aprovados como líderes nas assembleias locais dos seguidores de Jesus eram aqueles que mais e melhor serviam essas assembleias. Se fossemos compor uma lista contemporânea de “líderes” como os mencionados nas cartas de Paulo, faria mais sentido se elencássemos nossos zeladores, não nossos diretores ou membros do conselho.</p>
<p>Além disso, os ricos e poderosos, os compassos morais da sociedade, os que receberam uma boa instrução e aqueles que orquestravam as formas mais institucionais de caridade &#8211; os profissionais &#8211; estão notavelmente ausentes dos primórdios do movimento de Jesus. Isso não quer dizer que Jesus não recebia assistência ocasional de doadores ricos, como as mulheres mencionadas em Lucas 8:2-3, e outras casas que o hospedavam. O que quer dizer é que os que apoiavam o movimento desse modo não deviam esperar receber coisa alguma em troca (conforme Marcos 3:32; Lucas 9:4; 10:38). Sendo assim, dado que nenhum patrono da antiguidade prestava assistência aos verdadeiramente miseráveis, mas fazia o que eram meramente “investimentos racionais”, prover o movimento de Jesus com riqueza e bens traria na verdade vergonha e desonra sobre qualquer doador, além de causar a perda de uma parte da sua riqueza. Essa atitude seria vista como uma tentativa de envergonhar aqueles em posição mais elevada na hierarquia do poder, que esperavam que a riqueza e os bens se fluíssem sempre na sua direção.</p>
<p>Essencialmente, fazer doações a Jesus e a seu grupo seria visto como dar uma banana aos poderosos, e isso invariavelmente traria repercussões negativas para qualquer um que desse apoio a Jesus. Essa postura os arrastaria para um processo de declínio sócio-econômico.</p>
<p>Desse modo, qualquer doação externa era realizada a fundo perdido &#8211; um investimento desperdiçado que envergonhava os doadores, levava-os a perder tanto dinheiro quanto status e prejudicava as suas próprias relações com outros ricos e poderosos. Perceba quão radicalmente diferente é isso do que acontece com os que apoiam hoje em dia as nossas instituições de caridade. Veremos num momento qual é a causa disso.</p>
<p>Por enquanto, o que vemos em Jesus é um movimento não hierárquico que existe em solidariedade vivida com gente pobre e sem instrução. Marcadamente ausentes estão aqueles que prestam assistência profissionalmente &#8211; e os que apoiam o movimento financeiramente sofrem um bocado por fazê-lo. No entanto, talvez seja em parte essa a razão pela qual o movimento de Jesus foi bem sucedido de tantas maneiras em que os nossos próprios esforços têm falhado. Isso veremos.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p align="right"><small><strong>Daniel Oudshoorn</strong>, <a href="http://poserorprophet.wordpress.com/2011/11/09/contemporary-charitable-institutions-and-the-early-assemblies-of-jesus-followers/">numa palestra</a> apresentada<br />
a assistentes sociais que trabalham na <a href="http://www.ysm.ca/">Yonge Street Mission</a> em Toronto,<br />
uma das mais respeitadas e antigas instituições de caridade<br />
engajadas na assistência a moradores de rua daquela cidade.</small></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug079.png"></p>
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		<title>Vírgula</title>
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		<pubDate>Thu, 10 Nov 2011 06:46:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
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		<category><![CDATA[cristianismo]]></category>
		<category><![CDATA[reino de deus]]></category>

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		<description><![CDATA[A igreja é a soma de iniciativas individuais, não o amontoado de propósitos coletivos. Meu amigo Ivan Volcov, numa anotação sua que encontrei numa gaveta Leia também: Pela alma do povo: omissões coletivas e bravuras individuais]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<blockquote><p>A igreja é a soma de iniciativas individuais, não o amontoado de propósitos coletivos.</p></blockquote>
<p align="right"><small>Meu amigo <strong><a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/temor-e-fe/">Ivan Volcov</a></strong>,<br />
numa anotação sua que encontrei numa gaveta</small></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug000.png"></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/pela-alma-do-povo-omissoes-coletivas-e-bravuras-individuais/">Pela alma do povo: omissões coletivas e bravuras individuais</a></p>
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		<title>A mão invisível e a graça irresistível do mercado</title>
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		<pubDate>Fri, 04 Nov 2011 07:49:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>
		<category><![CDATA[anarquismo]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>

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		<description><![CDATA[Se entendermos dois aspectos da economia de mercado, concordaremos que há sempre uma teia religiosa para conectar as práticas. Um aspecto é o da “mão invisível” do mercado, pretensa reguladora da justiça, um conceito idêntico ao da soberania do nosso cristianismo determinista: renda-se ao mercado, ele garante que no final tudo se encaixa. É o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Se entendermos dois aspectos da economia de mercado, concordaremos que há sempre uma teia religiosa para conectar as práticas. Um aspecto é o da “mão invisível” do mercado, pretensa <a href="http://www.baciadasalmas.com/2004/as-variedades-da-experiencia-capitalista/">reguladora da justiça</a>, um conceito idêntico ao da soberania do nosso cristianismo determinista: renda-se ao mercado, ele garante que no final tudo se encaixa. É o tapeceiro, só vemos o avesso, o mercado-tapeceiro tece do lado certo. O outro aspecto é o da “graça irresistível” do mercado. Ou você se abre para a economia de mercado ou está destinado ao “inferno” decadente e isolado do mundo – é a <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/a-conquista-do-publico-e-a-punicao-dos-indisciplinados/">inexorabilidade do mercado</a>. Você vem para o “Senhor” nem que seja pela dor.</p>
<p>Não seria o evangelho de Jesus o “niilismo mais radical” que desmascara os encantamentos religiosos: que quebra os odres velhos?</p>
<p>O que pode ser menos religioso que o evangelho de Jesus?</p>
<p>O que pode a transformar “crentes no capital” em “ateus anárquicos” mais que o evangelho do Cristo de Deus?</p>
<p align="right"><small><strong>Elienai Cabral Júnior</strong>, em comentário a <a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/de-me-um-monoteismo-e-moverei-o-mundo/">este documento</a></small><br />
<span style="color:#B0B0A0"><small>Da série: Do tempo em que a Bacia era aberta a comentários</small></span></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/o-profeta-e-a-revolucao/">O profeta e a revolução</a></p>
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		<title>A onipotente irrelevância dos fatos</title>
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		<pubDate>Wed, 02 Nov 2011 08:56:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[pós-modernidade]]></category>

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		<description><![CDATA[Deixamos de viver numa época em que os fatos valham alguma coisa por si mesmos. Muito pouca gente se deixa convencer por dados e estatísticas, porque alguém sempre acaba trazendo à luz (ou produzindo sob encomenda) dados e estatísticas que provem o argumento contrário. Chegamos a um ponto em que os candidatos do partido republicano [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Deixamos de viver numa época em que os fatos valham alguma coisa por si mesmos. Muito pouca gente se deixa convencer por dados e estatísticas, porque alguém sempre acaba trazendo à luz (ou produzindo sob encomenda) dados e estatísticas que provem o argumento contrário. Chegamos a um ponto em que os candidatos do partido republicano à presidência mentem de forma consistente nos debates &#8211; não meramente faltam com a verdade, não meramente tergiversam, mas descaradamente mentem &#8211; sobre os fatos que cercam a sua posição e a realidade dos problemas norte-americanos. E as instituições &#8211; a política, a mídia, a democracia e em especial a imprensa, acorrentada à falsa objetividade de &#8220;ele disse, ela disse&#8221; &#8211; permanecem fundamentalmente incapazes de lidar com a questão. </p>
<p>A mim parece que as teorias de conspiração, a mentira e a desinformação sejam todas terrivelmente difíceis de combater. Veja-se a questão dos que negam o aquecimento global ou dos que defendem o criacionismo. E não estou certo de que levar-se os argumentos do outro lado a sério o bastante para refutá-los &#8211; ao contrário de simplesmente ignorá-los &#8211; seja a melhor postura a se tomar.</p>
<p align="right"><small><strong>Isaac Butler</strong>, refletindo sobre <a href="http://parabasis.typepad.com/blog/2011/10/dealing-with-lies.html">como refutar os que insistem<br />
que não foi Shakespeare quem escreveu as peças que levam o seu nome</a></small></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug010.gif"></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2005/falsos-detetores-de-mentiras-e-a-cidade-dos-mentirosos/">Falsos detetores de mentiras e a Cidade dos Mentirosos</a></p>
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		<title>Quatro vozes</title>
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		<pubDate>Sat, 22 Oct 2011 08:47:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>
		<category><![CDATA[canções]]></category>
		<category><![CDATA[vídeos]]></category>

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		<description><![CDATA[Este documento contém clipes de áudio que só podem ser ouvidos na página da Bacia na internet. Uma antiga tradição mística insiste que Deus criou o mundo através da música. Não é de admirar que a metáfora da música como criadora nos pareça tão convincente, visto que novos mundos são criados a cada harmonia que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="center"><span style="color:#B0B0A0"><small>Este documento contém clipes de áudio que só podem ser ouvidos na <a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/quatro-vozes">página da Bacia</a> na internet.</small></span></p>
<p>Uma antiga tradição mística insiste que Deus criou o mundo através da música. Não é de admirar que a metáfora da música como criadora nos pareça tão convincente, visto que novos mundos são criados a cada harmonia que ouvimos.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span id="more-2685"></span></p>
<blockquote><p>From harmony, from heavenly harmony,<br />
This universal frame began.<br />
Through all the compass of the notes it ran,<br />
The diapason closing full in man</p>
<p>[A partir da harmonia, da celestial harmonia,<br />
Teve início a estrutura deste universo.<br />
Percorrendo todas as notas do diapasão,<br />
Encontrou no homem sua plena expressão]</p></blockquote>
<p align="right"><small><strong>John Dryden</strong> (1631-1700), <a href="http://www.youtube.com/watch?v=jV4rmjpCUBo#t=5m23s">musicado por Handel</a></small></p>
<p align="center">* * *</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote><p>O efeito da música é muitas vezes mais poderoso e penetrante do que o das outras artes, pois aquelas falam da sombra, mas a música da essência.</p>
<p>Na música o que reconhecemos não é a cópia, a repetição de uma ideia da natureza interna do mundo. A música é compreendida de modo tão completo e profundo pelo homem interior que chega a representar uma linguagem inteiramente universal; seu caráter distintivo ultrapassa até mesmo o do mundo da percepção.</p></blockquote>
<p align="right"><small><strong>Arthur Schopenhauer</strong> (1788-1860), em <em>O mundo como vontade e representação</em></small></p>
<p align="center">* * *</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote><p>
Depois de tocar Chopin me senti como se tivesse chorado pecados que nunca cometi e lamentado tragédias que não são minhas. A música sempre produz em mim esse efeito. Ela cria um passado do qual somos ignorantes, e enche-nos com o senso de uma tristeza que tem permanecido oculta de nossas lágrimas. Posso com facilidade imaginar um homem que tenha vivido uma vida perfeitamente ordinária, ouvindo por acaso alguma curiosa peça de música e descobrindo de repente que sua alma, sem ter consciência disso, havia experimentado terríveis experiências e conhecido formidáveis júbilos, fantásticos amores ou enormes renúncias.</p></blockquote>
<p align="right"><small><strong>Oscar Wilde</strong> (1854-1900), em <em>O crítico como artista</em></small></p>
<p align="center">* * *</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote><p>A música, os estados da felicidade, a mitologia, os rostos trabalhados pelo tempo, certos crepúsculos e certos lugares querem nos dizer algo, ou algo disseram que não deveríamos ter perdido&#8230; essa iminência de uma revelação que não se produz será, talvez, o fenômeno estético.</p></blockquote>
<p align="right"><small><strong>Jorge Luis Borges</strong> (1899-1986), em <em>Otras Inquisiciones</em></small></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><center><iframe width="560" height="315" src="http://www.youtube-nocookie.com/embed/u7mGjSZpdpk?rel=0&#038;start=38&#038;autoplay=1" frameborder="0" allowfullscreen></iframe></center></p>
<p align="right"><small><strong>Crossroads Quartet</strong>, <em>That Lucky Old Sun</em> </small></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Deus, unplugged</title>
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		<pubDate>Fri, 21 Oct 2011 09:39:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fé e Crença]]></category>
		<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>
		<category><![CDATA[bonhoeffer]]></category>

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		<description><![CDATA[Perto do final da vida o teólogo e ativista Dietrich Bonhoeffer começou a preocupar-se com o fato de que a compreensão cristã de Deus havia sido em grande parte reduzida ao status de uma muleta psicológica. Ele descreveu essa compreensão como um &#8220;Deus ex machina&#8221;. A expressão, que significa &#8220;deus proveniente de uma máquina&#8221;, refere-se [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Perto do final da vida o teólogo e ativista Dietrich Bonhoeffer começou a preocupar-se com o fato de que a compreensão cristã de Deus havia sido em grande parte reduzida ao status de uma muleta psicológica. Ele descreveu essa compreensão como um &#8220;Deus ex machina&#8221;.</p>
<p>A expressão, que significa &#8220;deus proveniente de uma máquina&#8221;, refere-se originalmente a uma técnica usada na Grécia antiga, pela qual uma pessoa era descida ao palco através de um mecanismo, a fim de representar a entrada em cena de um ser sobrenatural. O processo, no entanto, ganhou uma má reputação quando muitos dramaturgos de segunda categoria começaram a usar esse artifício de modo indolente e arbitrário. Quando queriam matar um personagem, criar um novo desafio para o protagonista ou resolver um conflito do enredo, essas caras simplesmente arriavam um deus história adentro. Desse modo, o ser sobrenatural não era parte orgânica da história, mas uma presença intrusiva empregada unicamente para fazer o enredo avançar ou resolver alguma questão.</p>
<p>A expressão <em>deus ex machina</em> passou a significar a introdução de um elemento que não faz parte da lógica interna do desdobramento de uma história, mas que é na verdade um artifício deselegante despejado na narrativa só para desempenhar um papel específico.</p>
<p>Para Bonhoeffer, a igreja encara Deus como um <em>deus ex machina</em>. Deus é só uma ideia toscamente despejada no nosso mundo a fim de cumprir uma tarefa. Ele é inserido no mundo em nossos próprios termos a fim de resolver um problema, em vez de expressar uma realidade vivida. O resultado disso é um Deus que simplesmente justifica nossas crenças e nos ajuda a dormir tranquilos. Deus é trazido em cena apenas quando enfrentamos um problema que não se presta a ser resolvido por outros meios. Na visão de Bonhoeffer, esse Deus desempenha o mesmo papel medíocre dos seres sobrenaturais nas peças gregas de terceira categoria.</p>
<p>O resultado é uma fé que só existe nas margens da nossa vida, uma fé que só tem algo a oferecer quando nos sentimos deprimidos, assustados ou diante da morte. Mas e aquela pessoa que gosta de viver e abraça a vida? O Deus que é uma muleta psicológica não parece ter-lhe algo a oferecer. A única opção que resta ao apologista que é confrontado com alguém que de fato aprecia a vida é tentar demonstrar que essa pessoa se recusa a enfrentar a realidade e está na verdade clamando por Deus pela via de sua negação. Se não conseguir convencer essa pessoa feliz de que ela é na realidade infeliz, fica sem outra opção não rejeitá-la como alguém aferrado à rebelião, ao engano e à desobediência.</p>
<p>Embora Bonhoeffer acreditasse que o Deus da religião já havia chegado ao fim de sua carreira no nosso mundo, a realidade parece discordar. Algumas das maiores organizações do mundo são religiosas, e parece não haver um fim para a fila de gente disposta e encher os pratos de coleta daqueles que afirmam ter a solução. Há todo um exército de indivíduos que apoia entusiasticamente os seus ministérios, compra os seus livros e senta-se nos seus bancos. Levar as pessoas a crer em alguma forma de <em>deus ex machina</em> é fácil como levar crianças a acreditar em Papai Noel.</p>
<p>Em contraste, convidar gente a abrir-se para experimentar a dúvida e o desconhecido é muito mais complicado: o Deus da religião nos provê com tamanha estabilidade que a experiência de perdê-lo envolve nada menos do que a aterrorizante experiência de ser abandonado. Tal jornada escuridão adentro pode ser tão pouco natural e tão assustadora que evitamos a todo custo esse caminho estreito, usando até mesmo de violência contra quem nos encoraja a fazê-lo.</p>
<p>Aquele que se compromete com a tarefa de ajudar gente a realmente adentrar o domínio da dúvida, do desconhecido e da ambiguidade precisa ser dez, vinte ou cem vezes melhor do que os que vendem certeza. Se quer convidar pessoas a entrar nesse mundo sombrio e incerto, tem de estar preparado para caminhar ele mesmo por um caminho difícil e por vezes perigoso, pois no processo acaba trazendo à superfície toda uma multidão de ansiedades que gastamos muito tempo e muitos recursos reprimindo. </p>
<p>É compreensível que determinados pastores encham estádios com gente que anseia por solidificar desejos já estabelecidos, reconvertendo gente à aquilo a que já se converteram tantas vezes antes. Levar as pessoas a acreditar é fácil precisamente porque é tão natural em nós. Qualquer pessoa persuasiva pode fazê-lo, e ainda ganhar algum dinheiro no processo. Mas para de fato puxar da tomada o Deus da religião, com toda a ansiedade e angústia que o processo envolve, requer-se coragem.</p>
<p>Pode-se na verdade dizer que requer-se Deus.</p>
<p align="right"><small><strong>Peter Rollins</strong>, em sua <em>Insurreição</em></small></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug013.gif"></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2005/fe-e-crenca/">Fé e crença</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2007/em-nome-de-jesus/">Em nome de Jesus</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/uma-beleza-que-revolta/">Uma beleza que revolta</a></p>
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		<title>O capitalismo é a crise</title>
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		<pubDate>Wed, 21 Sep 2011 09:24:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>
		<category><![CDATA[anarquismo]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[consumo]]></category>
		<category><![CDATA[progresso]]></category>

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		<description><![CDATA[Os cientistas estão dando à nossa era o nome de Antropoceno, para denotar o impacto sem precedentes que os seres humanos estão exercendo sobre o planeta, impacto que está causando a sexta extinção em massa da história do planeta. Há mais escravos hoje em dia do que em qualquer outro período da história humana. Pela [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<blockquote><p>Os cientistas estão dando à nossa era o nome de Antropoceno, para denotar o impacto sem precedentes que os seres humanos estão exercendo sobre o planeta, impacto que está causando a sexta extinção em massa da história do planeta.</p>
<p>Há mais escravos hoje em dia do que em qualquer outro período da história humana.</p>
<p>Pela primeira vez na história dos Estados Unidos, o total de débito assumido por estudantes (que não entraram ainda no mercado de trabalho) é maior do que o total do débito assumido pelo público consumidor em geral.</p>
<p>Os gastos militares globais alcançaram uma cifra recorde em 2011.</p>
<p>O mundo está morrendo, e os capitalistas estão quebrando recordes de lucro enquanto ele morre.</p>
<p><small><strong>Michael Truscello</strong>, em <a href="http://dissidentvoice.org/2011/08/austerity-is-euphemism-for-class-war-waged-by-rich/">Capitalism is the Crisis</a></small></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote><p>Não é a economia que está em crise; a economia é a crise. Não é que não há trabalho, o que há é trabalho demais. Tudo somado, não é a crise, é o crescimento a causa da nossa depressão.</p>
<p><small><a href="http://en.wikipedia.org/wiki/The_Coming_Insurrection">The Coming Insurrection</a></small></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote><p>O modo de se fazer dinheiro é comprar quando há sangue correndo pelas ruas.</p>
<p><small><strong>John D. Rockefeller</strong>, magnata do petróleo</small> </p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote><p>O Estado é uma condição, uma certa relação entre seres humanos, uma modalidade de comportamento. Para destruí-lo é necessário estabelecer-se outras relações, e isso se faz quando passamos a agir de modo diferente uns para com os outros.</p>
<p><small><strong>Gustav Landauer</strong>, pacifista e anarquista alemão</small></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p align="center"><iframe width="560" height="315" src="http://www.youtube-nocookie.com/embed/fYFw3O--2R0?rel=0" frameborder="0" allowfullscreen></iframe></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug017.gif"></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://amarelofosco.com/?p=1091">Você não produz o suficiente</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/o-fim-de-todos-os-governos/">O fim de todos os governos</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/o-profeta-e-a-revolucao/">O profeta e a revolução</a></p>
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		<title>Uma perversa simetria</title>
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		<pubDate>Sun, 11 Sep 2011 10:00:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[consumo]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[fama]]></category>
		<category><![CDATA[guerra]]></category>

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		<description><![CDATA[Não é possível separar o sofrimento do 11 de setembro da cobertura de mídia que o cercou, porque a mídia foi o motivo pelo qual a atrocidade foi perpetrada. Essas mortes foram projetadas e desenhadas para a câmera, aprovisionando-a de todos os modos. Por essa razão a cultura das imagens tem um relacionamento diverso com [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Não é possível separar o sofrimento do 11 de setembro da cobertura de mídia que o cercou, porque a mídia foi o motivo pelo qual a atrocidade foi perpetrada. Essas mortes foram projetadas e desenhadas para a câmera, aprovisionando-a de todos os modos.</p>
<p>Por essa razão a cultura das imagens tem um relacionamento diverso com os ataques, que serviu como confirmação em pesadelo de sua má consciência. Houve uma perversa simetria no fato dos terroristas terem servido a destruição das torres a uma sociedade cujo entretenimento favorito consiste em assistir ao maior número possível de explosões gigantescas. O espetáculo foi ao mesmo tempo a visão mais terrível do mundo e exatamente o tipo de imagem que toda organização de notícias cobiça e todo espectador sintoniza para consumir.</p>
<p align="right"><small><strong>Laura Miller</strong>, <a href="http://www.salon.com/news/911/index.html?story=/books/feature/2011/09/10/9_11_and_the_novel">escrevendo sobre porque</a> não<br />
é possível escrever boa ficção sobre 11 de setembro de 2001</small></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2007/camera-lenta/">Em câmera lenta</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/11-de-setembro/">11 de setembro</a></p>
]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>O blog de Deus</title>
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		<pubDate>Fri, 09 Sep 2011 15:42:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>
		<category><![CDATA[humor]]></category>

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		<description><![CDATA[ATUALIZAÇÃO: Bastante satisfeito com o que consegui fazer em só seis dias. Amanhã tiro o dia de folga. Sinta-se à vontade para dar uma olhada no que fiz até agora; sugestões e críticas (construtivas, por favor!) serão mais que bem-vindas. Fui. &#160; COMENTÁRIOS (23) Não fica claro pra que serve. A mim parece uma solução [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<blockquote><p>ATUALIZAÇÃO: Bastante satisfeito com o que consegui fazer em só seis dias. Amanhã tiro o dia de folga. Sinta-se à vontade para dar uma olhada no que fiz até agora; sugestões e críticas (construtivas, por favor!) serão mais que bem-vindas. Fui.
</p></blockquote>
<p align="right"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2011/bits/like-button.png" alt="" /></p>
<p>&nbsp;</p>
<p align="center"><strong><small>COMENTÁRIOS (23)</strong></small></p>
<p>Não fica claro pra que serve. A mim parece uma solução para um problema que não existe. Gostava mais quando a terra era sem forma e vazia, e as trevas estavam sobre a face do abismo.<br />
<img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2011/bits/like-button.png" alt="" /></p>
<p>Escolher a base de carbono para as formas de vida me parece um tanto óbvio, não?<br />
<img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2011/bits/like-button.png" alt="" /></p>
<p>Os seres viventes que se arrastam sobre a terra são totalmente nojentos.<br />
<img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2011/bits/like-button.png" alt="" /></p>
<p>Falta ação. Precisa de mais conflito. Talvez colocar um monte de gente e limitar os recursos para ver se as lutas começam. Dê diferentes cores de pele pra que possam distinguir-se uns dos outros.<br />
<img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2011/bits/like-button.png" alt="" /></p>
<p>Discordo dos trolls por aí que acham errado o homem ter domínio sobre os peixes do mar, as aves do céu, os animais da terra, etc. Mas acho que valeria considerar a possibilidade de dar às aves do céu domínio sobre os animais da terra, porque seria muito legal ver, tipo, um javali ou sei lá o que obecendo ordens de um patinho.<br />
<img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2011/bits/like-button.png" alt="" /></p>
<p>Por que as criaturas são mais ou menos simétricas no eixo vertical mas completamente assimétricas no eixo horizontal? Fica parecendo que Tiveste uma grande ideia mas não Tiveste os colhões de ir até o fim.<br />
<img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2011/bits/like-button.png" alt="" /></p>
<p>O dodó deveria vir com um sinal dizendo: &#8220;Mate-me, por favor&#8221;. Ridículo.<br />
<img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2011/bits/like-button.png" alt="" /></p>
<p>As amebas são tão pequenas que não dá pra ver. Deveriam ser pelo menos do tamanho de uma ameixa.<br />
<img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2011/bits/like-button.png" alt="" /></p>
<p>A versão beta era superior. Acho que a dinâmica Adão-Evandro tinha mais possibilidades dramáticas do que a solução Adão-Eva que você acabou escolhendo.<br />
<img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2011/bits/like-button.png" alt="" /></p>
<p>Eu gostava mais do formato antigo dos comentários, quando recebia alertas automáticos quando alguém respondia um comentário meu. Do jeito que está agora tenho de clicar três ou quatro páginas para ver os novos comentários, que não estão sequer organizados em linhas de discussão. Até que isso mude não tenho vontade de continuar checando a Sua criação.<br />
<img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2011/bits/like-button.png" alt="" /></p>
<p>***SPOILER***<br />
Um deles come o fruto daquela árvore que Disseste pra não comerem.<br />
<img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2011/bits/like-button.png" alt="" /></p>
<p>Adão foi muito claramente criado em outro lugar e só colado ali. Até ver alguma documentação provando em contrário, questiono a legitimidade do seu domínio sobre tudo isso.<br />
<img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2011/bits/like-button.png" alt="" /></p>
<p>Porque eles tem de fazer cocô? A mim parece que deveria haver uma solução mais elegante/família para o problema da eliminação dos resíduos alimentares.<br />
<img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2011/bits/like-button.png" alt="" /></p>
<p>O limoeiro: lindo. A flor do limão: perfumadíssima. Mas o limão em si? Impossível de comer. Isso é pra ser uma falha ou um recurso?<br />
<img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2011/bits/like-button.png" alt="" /></p>
<p>Falta foco. Na melhor das hipóteses, uma confusão. Tem criaturas que falam mas não são inteligentes (papagaios). Tem criaturas que são inteligentes mas não falam (golfinhos, cachorros, moscas domésticas). Por fim tem o homem, que é inteligente, mas não voa, não respira debaixo da água nem desloca a mandíbula de modo a engolir grandes presas num bocado só. Se a ideia era criar o caos, missão cumprida, mas a mim me fica parecendo mais preguiça e mau planejamento.<br />
<img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2011/bits/like-button.png" alt="" /></p>
<p>Se não for tarde demais para fazer alterações, na versão 2.0 a água poderia ser reflexiva, para que as criaturas tivessem um modo de ver a si mesmas.<br />
<img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2011/bits/like-button.png" alt="" /></p>
<p>*S*A*P*A*T*O*S!!! Manolo Jimmy Choo Vuitton Prada +++ Grandes ofertas Frete grátis @@@ [www.cazapeh.com]<br />
<img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2011/bits/like-button.png" alt="" /></p>
<p>Os penguins são retardados. As asas não funcionam e as pernas são muito curtas. Estou supondo que a ideia era ser algo engraçadinho na linha &#8220;gozta di cumeh peishe&#8221;, mas é obviamente uma concessão ao mais baixo denominador comum.<br />
<img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2011/bits/like-button.png" alt="" /></p>
<p>Há imitação, há homenagem e há plágio descarado, que é claramente o caso aqui. Quem quiser conferir o original deve visitar www.Vishnu&#038;Brahma.com<br />
<img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2011/bits/like-button.png" alt="" /></p>
<p>Colocar seios na mulher é sexista.<br />
<img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2011/bits/like-button.png" alt="" /></p>
<p>Nossa. Minha nossa. Não sei nem por onde começar. Então o homem e seu cônjuge costelinha têm domínio sobre todas as coisas. Em pouquíssimo tempo eles vão se tornar totalmente insuportáveis. O que Deves fazer é levá-los a pensar que houve criaturas maiores e mais assustadoras dominando a terra muito tempo antes deles. Estou sugerindo dinossauros. Não será necessário criar dinossauros na real &#8211; basta criar alguns ossos e esqueletos irados de dinossauro e enterrá-los em locais aleatórios. O homem vai acabar encontrando e vai pensar, meu c*****!<br />
<img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2011/bits/like-button.png" alt="" /></p>
<p>Epic fail.<br />
<img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2011/bits/like-button.png" alt="" /></p>
<p>Meh.<br />
<img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2011/bits/like-button.png" alt="" /></p>
<p align="right"><small><strong>Paul Simms</strong>, na <a href="http://www.newyorker.com/humor/2011/08/08/110808sh_shouts_simms">New Yorker</a></small></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug019.gif"></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2007/design-inteligente/">Design inteligente</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/o-nao-banquete-a-internet-e-a-aparencia-do-dialogo/">O não-banquete: a internet e a aparência do diálogo</a></p>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>Um leito belíssimo</title>
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		<pubDate>Thu, 01 Sep 2011 03:01:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>
		<category><![CDATA[francesco]]></category>

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		<description><![CDATA[Não há santo mais inesperado e humano (e portanto mais santo) do que Francesco. A maior parte das histórias que se agregaram ao redor da sua pessoa confirma esse seu compromisso com uma santidade sensual da qual não se tinha notícia desde os tempos de Jesus. Uma: No caminho para a Babilônia, São Francisco entrou [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Não há santo mais inesperado e humano (e portanto mais santo) do que Francesco. A maior parte das histórias que se agregaram ao redor da sua pessoa confirma esse seu compromisso com uma <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/a-paixao-de-francesco/">santidade sensual</a> da qual não se tinha notícia <a href="http://www.baciadasalmas.com/2007/sexto-passo-sensualize-a-sua-espiritualidade/">desde os tempos de Jesus</a>.</p>
<p>Uma:</p>
<blockquote><p>No caminho para a Babilônia, São Francisco entrou numa pousada para repousar. Ali havia uma mulher belíssima de corpo mas impura de alma, que aproximou-se dele e convidou-o a pecar.</p>
<p>&#8211; Eu aceito &#8211; disse Francisco, &#8211; vamos para a cama.</p>
<p>A mulher o foi levando para o quarto, mas ele disse:</p>
<p>&#8211; Venha comigo, vou levá-la a um leito belíssimo.</p>
<p>Francisco levou-a então até um grande fogo que havia naquela casa, e em fervor de espírito despiu-se por completo e deitou-se ao lado daquele fogo no lugar mais quente, e convidou-a a despir-se e deitar-se com ele naquele leito belo e confortável. Francisco permaneceu naquela posição por um longo intervalo, com o rosto alegre, sem arder nem se queimar; diante disso aquela mulher, assustada pelo milagre e compungida de coração, não apenas arrependeu-se do pecado e da sua má intenção, mas também converteu-se perfeitamente à fé de Cristo, tornando-se santa a tal modo que através dela muitas almas salvaram-se naquelas regiões.</p></blockquote>
<p align="right"><small>Citada nos anônimos &#8220;Fioretti&#8221; do século XIV, <a href="http://it.wikisource.org/wiki/Fioretti_di_San_Francesco/Capitolo_ventiquattresimo">capítulo vinte e quatro</a></small></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Ignore a improbabilidade do milagre <a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/a-fe-que-voce-nao-precisa-ter/">se achar necessário</a>; a história permanece magnífica ilustração da santidade como ela deveria ser. Pois Francesco não nega a força da paixão nem a sua legitimidade; ele não condena em atos ou palavras a pecadora que o seduz, e não sonega dela sequer a sua nudez. Como faria um verdadeiro santo, ele diz imediatamente sim à tentação, mas o faz de um modo que transtorna todas as expectativas e promove uma improvável conciliação. Fica revelado nele o que estava revelado em Jesus: que expor sem disfarces a humanidade e alinhar-se a ela é coisa capaz de seduzir os pecadores mais do que a mais estrita das santidades seria capaz de fazer<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/um-leito-belissimo/#footnote_0_2631" id="identifier_0_2631" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="Talvez ainda melhor: o relato &eacute; amb&iacute;guo o bastante para deixar no ar a possibilidade de que, tivesse tido a mulher f&eacute; ou amor (ou santidade) suficiente, poderia ter se juntado a Francesco no seu leito de fogo para o mais ardente dos encontros.">1</a></sup>.</p>
<p>A história reaparece, com singeleza talvez maior (&#8220;con te io peccherò&#8221;) na segunda estrofe<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/um-leito-belissimo/#footnote_1_2631" id="identifier_1_2631" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="Irm&atilde;o Francisco parou para repousar
E uma mulher resolve aproximar-se,
bela sua figura mas venenoso o cora&ccedil;&atilde;o,
com seu corpo o convidava a pecar.
Disse irm&atilde;o Francesco:
&amp;#8220;Com voc&ecirc; eu pecarei&amp;#8221;
No fogo se deitou
E os bra&ccedil;os a ela estendeu
Ela se arrependeu, se converteu&amp;#8230;
assim Francisco partiu para pregar na Babil&ocirc;nia">2</a></sup> de <em>Il Sultano Di Babilonia E La Prostituta</em> (2000), do menestrel contemporâneo Angelo Branduardi:</p>
<p align="center"><iframe width="420" height="35" src="http://www.youtube-nocookie.com/embed/B0Waczk7F6k?rel=0&#038;start=125" frameborder="0" allowfullscreen></iframe></p>
<blockquote><p>Frate Francesco si fermò per riposare<br />
Ed una donna gli si volle avvicinare,<br />
bello il suo volto ma velenoso il suo cuore,<br />
con il suo corpo lo invitava a peccare<br />
Frate Francesco parlò:<br />
&#8220;Con te io peccherò&#8221;<br />
Nel fuoco si distese,<br />
le braccia a lei protese<br />
Lei si pentì, si convertì&#8230;<br />
così Francesco partì per Babilonia a predicare</p></blockquote>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug025.gif"></p>
<b><small>NOTAS</small></b><ol class="footnotes"><li id="footnote_0_2631" class="footnote">Talvez ainda melhor: o relato é ambíguo o bastante para deixar no ar a possibilidade de que, tivesse tido a mulher fé ou amor (ou santidade) suficiente, poderia ter se juntado a Francesco no seu leito de fogo para o mais ardente dos encontros.</li><li id="footnote_1_2631" class="footnote"><em>Irmão Francisco parou para repousar</em><br />
<em>E uma mulher resolve aproximar-se,</em><br />
<em>bela sua figura mas venenoso o coração,</em><br />
<em>com seu corpo o convidava a pecar.</em><br />
<em>Disse irmão Francesco:</em><br />
<em>&#8220;Com você eu pecarei&#8221;</em><br />
<em>No fogo se deitou</em><br />
<em>E os braços a ela estendeu</em><br />
<em>Ela se arrependeu, se converteu&#8230;</em><br />
<em>assim Francisco partiu para pregar na Babilônia</em></li></ol>]]></content:encoded>
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		<title>O mais difícil</title>
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		<pubDate>Wed, 24 Aug 2011 09:22:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Divino preconceito]]></category>
		<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>
		<category><![CDATA[tolstoi]]></category>

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		<description><![CDATA[O mais difícil dos conceitos pode ser explicado ao mais limitado dos homens se ele já não tiver uma ideia formada a respeito dele; porém a coisa mais simples não pode ser esclarecida ao mais inteligente dos homens se ele estiver persuadido de que já conhece, sem sombra de dúvida, o que está sendo colocado [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O mais difícil dos conceitos pode ser explicado ao mais limitado dos homens se ele já não tiver uma ideia formada a respeito dele; porém a coisa mais simples não pode ser esclarecida ao mais inteligente dos homens se ele estiver persuadido de que já conhece, sem sombra de dúvida, o que está sendo colocado diante dele.</p>
<p align="right"><small><strong>Leon Tolstoi</strong>, em <em>The Kingdom of God is Within You (1894)</em><br />
<a href="http://boingboing.net/2011/08/23/tolstoy-on-difficulty-1897.html">via</a>, <a href="http://memex.naughtons.org/archives/2011/08/23/14264">via</a></small></p>
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		<title>O deleite da fragmentação</title>
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		<pubDate>Wed, 10 Aug 2011 00:21:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>
		<category><![CDATA[zizek]]></category>

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		<description><![CDATA[Um começo apropriado seria fazermos a pergunta schellinguiana: o que o &#8220;tornar-se homem&#8221; por parte de Deus na figura de Cristo, sua descida da eternidade ao domínio temporal da nossa realidade, representou para o próprio Deus? Aquilo que para nós, finitos mortais, parece ter sido a descida de Deus até nós, não pode ter sido, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Um começo apropriado seria fazermos a pergunta schellinguiana: o que o &#8220;tornar-se homem&#8221; por parte de Deus na figura de Cristo, sua descida da eternidade ao domínio temporal da nossa realidade, representou para o próprio Deus? Aquilo que para nós, finitos mortais, parece ter sido a descida de Deus até nós, não pode ter sido, do ponto de vista de Deus, uma ascensão? E se, como Schelling deu a entender, a eternidade for inferior à temporalidade? E se a eternidade for um domínio estéril, impotente e sem vida de potencialidades puras, que, a fim de efetivar-se, deve passar pela existência temporal? E se a descida de Deus até o homem, longe de ser um ato de graça em favor da humanidade, tiver sido a única maneira de Deus ganhar plena atualidade, <span style="float:right; text-align:right; width:35%; color:#7c836d; margin:12px 0 12px 12px; font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps; font-size:1.4em; line-height: 1.3em">O verdadeiro amor é o trajeto precisamente oposto.</span>libertando-se das sufocantes restrições da eternidade? E se Deus só for capaz de se atualizar através do reconhecimento humano?</p>
<p>Devemos nos livrar do velho motivo platônico do amor como Eros que gradualmente se eleva do amor por um indivíduo em particular ao amor pela beleza do corpo humano em geral, e daí ao amor pelo belo como tal, até chegar ao amor pelo Bem supremo além de todas as formas. O verdadeiro amor é o trajeto precisamente oposto: o de deixar para trás a promessa da eternidade por um indivíduo imperfeito (essa sedução da eternidade pode assumir várias formas, de uma fama pós-mortal ao cumprimento de determinado papel social). Não será o gesto de escolher a existência temporal, de por amor abrir mão da existência eterna &#8211; segundo o exemplo de Cristo e o de Siegmund, no segundo ato de As Valquírias de Wagner, que prefere permanecer mortal se sua amada Sieglinde não pode segui-lo ao Valhala, a morada eterna dos heróis mortos &#8211; o ato ético mais elevado de todos? </p>
<p>Costumamos dizer que o tempo é a mais consumada das prisões, e que o propósito de toda filosofia e de toda religião é libertar-nos dos grilhões do tempo para adentrarmos a eternidade. Porém e se, como Schelling dá a entender, for a eternidade a mais consumada das prisões, uma sufocante clausura? E se for apenas o resvalar tempo adentro a introduzir uma Abertura na experiência humana? Não será &#8220;tempo&#8221; o nome para essa ontológica abertura?</p>
<p>O evento da encarnação não é tanto a ocasião em que a realidade temporal da experiência é tocada pela eternidade, mas mais o momento em que a eternidade consegue alcançar o tempo. Esse mesmo argumento foi sustentado muito claramente por conservadores inteligentes como G. K. Chesterton, que a respeito da popular noção de uma &#8220;alegada identidade espiritual entre o budismo e o cristianismo&#8221; escreveu:</p>
<blockquote><p>O amor deseja a personalidade, pelo que o amor deseja a divisão. O cristianismo deleita-se instintivamente em que Deus tenha quebrado o universo em pedacinhos. É esse o abismo intelectual entre budismo e cristianismo: para o budista ou para o teosofista a personalidade é a queda do homem, enquanto para o cristão ela é o próprio propósito de Deus, o sentido mais essencial de sua ideia cósmica. O mundo anímico dos teosofistas pede que o homem o ame para que posso lançar-se dentro dele. O centro divino do cristianismo efetivamente lançou o homem para fora dele, para que o homem se tornasse capaz de amá-lo. Todas as filosofias modernas são cadeias que conectam e algemam; o cristianismo é uma espada que separa e liberta. Nenhuma outra filosofia faz com que Deus verdadeiramente se deleite com a fragmentação do universo em almas viventes.</p></blockquote>
<p align="right"><small><strong>Slavok Žižek</strong>, em The Puppet and the Dwarf<br />
via <a href="http://sdcaustica.blogspot.com/">Rondinelly</a></small></p>
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		<title>O primeiro faraó</title>
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		<pubDate>Fri, 05 Aug 2011 09:48:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>
		<category><![CDATA[lendas dos judeus]]></category>

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		<description><![CDATA[ABRAÃO: O primeiro faraó O governante egípcio cujo encontro com Abraão mostrou ser ocasião tão infeliz foi o primeiro a levar o nome de Faraó. Os reis que o sucederam foram nomeados a partir dele. A origem do nome está ligada à vida e às aventuras de Rakyon, o Despossuído, um homem bonito, sábio e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="center"><a href="http://www.23hq.com/23666/7024415_9c63a8954c31c60c5a4bb95bd0f99597_large.jpg"><img src="http://www.23hq.com/23666/7024415_9c63a8954c31c60c5a4bb95bd0f99597_standard.jpg" alt="" /></a></p>
<p>
<p style="text-align:right;"><small><strong>ABRAÃO: </strong>O primeiro faraó</small></p>
<p>O governante egípcio cujo encontro com Abraão <a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/sua-estadia-no-egito/">mostrou ser ocasião tão infeliz</a> foi o primeiro a levar o nome de Faraó. Os reis que o sucederam foram nomeados a partir dele.</p>
<p>A origem do nome está ligada à vida e às aventuras de Rakyon, o Despossuído, um homem bonito, sábio e pobre que vivia na terra de Shinar. Encontrando-se incapaz de se sustentar em Shinar, Rakyon resolveu partir para o Egito, onde esperava exibir sua sabedoria diante do rei, Ashwerosh, filho de Anam. Quem sabe Rakyon encontrasse graça aos olhos do rei, e ele lhe desse a oportunidade de se sustentar e de tornar-se um grande homem. Quando chegou ao Egito ele descobriu que era costume do país que o rei vivesse retirado em se palácio, distante da vista do povo. Num único dia do ano ele aparecia em público, e recebia a todos que tinham alguma petição a submeter a ele.</p>
<p>Profundamente desapontado, Rakyon ficou sem saber o que fazer para ganhar a vida naquele país estranho. Foi obrigado a passar a noite numa ruína, faminto como estava. No dia seguinte decidiu tentar ganhar alguma coisa vendendo verduras, mas como não conhecia os costumes do país seu empreendimento não foi bem sucedido. Malfeitores o assaltaram, tomaram sua mercadoria e fizeram dele alvo de zombaria. Na segunda noite, que ele foi forçado a passar novamente na ruína, um plano astucioso foi amadurecendo em sua mente. Ele levantou-se, reuniu uma turma de trinta homens vigorosos e levou-os ao cemitério, onde ordenou-os, em nome do rei, a cobrar duzentas peças de prata por cada corpo que enterrassem; sem o pagamento nenhum enterro deveria ser realizado. Desse modo ele conseguiu acumular uma grande fortuna em oito meses; não apenas acumulou prata, ouro e pedras preciosas, mas anexou uma tropa considerável, armada e montada, à sua pessoa.</p>
<p>No dia em que o rei apareceu entre o povo, as pessoas começaram a reclamar dessa taxa sobre os mortos:</p>
<p>&#8211; O que é isso que o senhor está infligindo sobre seus servos: não permitir que ninguém seja enterrado sem que lhe seja pago prata e ouro? Eis algo que jamais aconteceu desde os dias de Adão: que os mortos não sejam enterrados a não ser mediante pagamento! Sabemos que é privilégio do rei tomar uma taxa anual dos vivos, mas o senhor toma tributo também dos mortos, e o faz dia após dia. Ah rei, isso não podemos mais suportar, pois por essa razão toda a cidade está arruinada. </p>
<p>O rei, que nada suspeitava dos feitos de Rakyon, foi tomado de grande fúria quando o povo lhe informou a respeito deles. Mandou que ele e sua tropa armada comparecessem diante dele.</p>
<p>Rakyon não veio de mãos vazias. Foi precedido por um milhar de rapazes e moças, montados em corcéis e trajando indumentárias riquíssimas; esses foram dados como presente ao rei. Quando ele mesmo apareceu diante do rei, Rakyon veio trazendo ouro, prata e diamantes em abundância, bem como um magnífico cavalho de batalha. Esses presentes e a exibição de pompa não deixaram de impressionar o rei, e quando Rakyon, em palavras bem estudadas e com toda persuasão, descreveu-lhe o empreendimento, conquistou não apenas o rei para o seu lado, mas com ele toda a corte. O rei lhe disse:</p>
<p>&#8211; De agora em diante você não será mais chamado Rakyon<em>/Despossuído</em>, mas Faraó<em>/Mestre dos pagamentos</em>, pois chegou a coletar taxas dos mortos.</p>
<p>Tão profunda foi a impressão produzida por Rakyon que o rei, os grandes e o povo decidiram de comum acordo colocar o governo do reino nas mãos de Faraó. Sob a suserania de Ashwerosh ele passou a administrar a lei e a justiça ao longo do ano; só no dia em que aparecia diante do povo o rei proferia julgamento e decidia casos. Por via do poder que lhe foi conferido e de estratagemas astuciosos, Faraó conseguiu usurpar a autoridade real, coletando impostos de todos os habitantes do Egito. Apesar disso era amado pelo povo, e foi decretado que todo governante do Egito traria dali em diante o nome de Faraó.</p>
<h5>* * *</h5>
<p><small><em>Lendas dos Judeus</em> é uma compilação de lendas judaicas recolhidas das fontes originais do <em>midrash</em> (particularmente o <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Talmud">Talmude</a>) pelo talmudista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). <em>Lendas</em> foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.</small></p>
<div class='series_toc'><h3>Lendas dos judeus</h3><ol><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2005/as-primeiras-coisas-criadas/' title='As primeiras coisas criadas'>As primeiras coisas criadas</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/o-alfabeto/' title='O alfabeto'>O alfabeto</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/o-primeiro-dia/' title='O primeiro dia'>O primeiro dia</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/o-segundo-dia/' title='O segundo dia'>O segundo dia</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/o-terceiro-dia/' title='O terceiro dia'>O terceiro dia</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/o-quarto-dia/' title='O quarto dia'>O quarto dia</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/o-quinto-dia/' title='O quinto dia'>O quinto dia</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/o-sexto-dia/' title='O sexto dia'>O sexto dia</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/o-sexto-dia-continuacao/' title='O sexto dia, continuação'>O sexto dia, continuação</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/todas-as-coisas-louvam-ao-senhor/' title='Todas as coisas louvam ao Senhor'>Todas as coisas louvam ao Senhor</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/o-homem-e-o-mundo/' title='O homem e o mundo'>O homem e o mundo</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/os-anjos-e-a-criacao-do-homem/' title='Os anjos e a criação do homem'>Os anjos e a criação do homem</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/a-criacao-de-adao/' title='A criação de Adão'>A criação de Adão</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/a-alma-do-homem/' title='A alma do homem'>A alma do homem</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/o-homem-ideal/' title='O homem ideal'>O homem ideal</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/a-queda-de-satanas/' title='A queda de Satanás'>A queda de Satanás</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/a-mulher/' title='A mulher'>A mulher</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/adao-e-eva-no-paraiso/' title='Adão e Eva no Paraíso'>Adão e Eva no Paraíso</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/a-queda-do-homem/' title='A queda do homem'>A queda do homem</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/a-punicao/' title='A punição'>A punição</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/o-sabado-no-ceu/' title='O sábado no céu'>O sábado no céu</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/o-arrependimento-de-adao/' title='O arrependimento de Adão'>O arrependimento de Adão</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/o-livro-de-raziel/' title='O livro de Raziel'>O livro de Raziel</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/a-doenca-de-adao/' title='A doença de Adão'>A doença de Adão</a></li><li><a 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Caim</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/os-descendentes-de-adao-e-lilith/' title='Os descendentes de Adão e Lilith'>Os descendentes de Adão e Lilith</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/sete-e-seus-descendentes/' title='Sete e seus descendentes'>Sete e seus descendentes</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/enos/' title='Enos'>Enos</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/a-queda-dos-anjos/' title='A queda dos anjos'>A queda dos anjos</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/enoque-governante-e-mestre/' title='Enoque, governante e mestre'>Enoque, governante e mestre</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/a-ascensao-de-enoque/' title='A ascensão de Enoque'>A ascensão de Enoque</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/o-traslado-de-enoque/' title='O traslado de Enoque'>O traslado de Enoque</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/matusalem/' 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href='http://www.baciadasalmas.com/2010/abraao-em-canaa/' title='Abraão em Canaã'>Abraão em Canaã</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2011/sua-estadia-no-egito/' title='Sua estadia no Egito'>Sua estadia no Egito</a></li><li>O primeiro faraó</li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2011/a-guerra-dos-reis/' title='A guerra dos reis'>A guerra dos reis</a></li></ol></div>]]></content:encoded>
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		<title>Menéndez y Pelayo denuncia todos os artifícios de Paulo Brabo</title>
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		<pubDate>Wed, 03 Aug 2011 15:02:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>
		<category><![CDATA[humor]]></category>
		<category><![CDATA[os livros da bacia]]></category>

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		<description><![CDATA[&#8220;A popularidade desse escritor insignificante se fundamenta: Na universalidade de assuntos de que trata e na flexibilidade de seu gênio, que, sem chegar à perfeição em nada, alcança em tudo uma média mais do que tolerável; Em ter unido o amor às antiguidades pagã e cristã, «Aquele contínuo falar de si mesmo com soberba modéstia.»contribuindo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>&#8220;A popularidade desse escritor insignificante se fundamenta:</p>
<ol>
<li>Na universalidade de assuntos de que trata e na flexibilidade de seu gênio, que, sem chegar à perfeição em nada, alcança em tudo uma média mais do que tolerável;</li>
<li>Em ter unido o amor às antiguidades pagã e cristã, <span style="float:right; text-align:right; width:35%; color:#7c836d; margin:12px 0 12px 12px; font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps; font-size:1.4em; line-height: 1.3em">«Aquele contínuo falar de si mesmo com soberba modéstia.»</span>contribuindo para a restauração de uma e outra;</li>
<li>No caráter moderno, digamos assim, de seu talento e do estilo de seus opúsculos, que é brincalhão, incisivo e mordaz. Isto não quer dizer que sua sátira seja um modelo seguro; seus gracejos grosseiros são talvez mais numerosos do que os sofisticados. Ele nunca é sobrio, e repete <em>usque ad satietatem</em> os mesmos conceitos;</li>
<li>Em sua destreza e habilidade polêmica;</li>
<li>No excessivo amor próprio e naquele contínuo falar de si mesmo com soberba modéstia;</li>
<li>E, acima de tudo, em ter atacado com todo arsenal de armas satíricas e envenenadas o que ele chama de abusos, vícios e relaxamentos da igreja, e juntamente com ela muitas instituições, cerimônias e ritos respeitados, maltratando a disciplina sem chegar a respeitar o dogma; e de ter feito essa perniciosa propaganda em livros breves, de formas amenas, salpicados de gracejos e historinhas contra padres e freiras, papas e cardeais.&#8221;</li>
</ol>
<p>&nbsp;</p>
<p align="right"><small><strong>Marcelino Menéndez y Pelayo</strong> (1856-1912),<br />
escrevendo sobre Erasmo de Roterdã (1466-1536)<br />
na <em>Historia de los heterodoxos españoles</em></small></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug031.gif"></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/como-escrever-como-o-paulo-brabo/">Como escrever como o Paulo Brabo</a></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Jorge Bertolaso Stella: o humanismo de um pastor protestante</title>
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		<pubDate>Mon, 25 Jul 2011 13:09:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[comunismo]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>

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		<description><![CDATA[Alguns líderes eclesiásticos cristãos, principalmente aqueles com maior influência na mídia, pautam sua atuação de acordo com valores claramente fundamentalistas. Além da constante luta contra causas humanistas, como o virulento embate direcionado aos direitos elementares da comunidade LGBT tão bem exemplifica, baseiam suas pregações religiosas na exclusividade. São mestres na arte de demonizar o diferente. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Alguns líderes eclesiásticos cristãos, principalmente aqueles com maior influência na mídia, pautam sua atuação de acordo com valores claramente fundamentalistas. Além da constante luta contra causas humanistas, como o virulento embate direcionado aos direitos elementares da comunidade LGBT tão bem exemplifica, baseiam suas pregações religiosas na exclusividade.</p>
<p>São mestres na arte de demonizar o diferente. Fundamentalistas supostamente mais refinados, através de uma rigorosa análise teológica, qualificam irmãos da mesma tradição religiosa com rótulos absolutamente ultrapassados. Tal estratégia visa apenas aniquilar os supostos heterodoxos, alijando-os da instituição que tanto amam.</p>
<p>O outro grupo de fundamentalistas, mais popular e com forte penetração nas massas religiosas, não possui um discurso teológico tão “sofisticado” quanto o primeiro, mas através de uma forte presença midiática, <span style="float:right; text-align:right; width:35%; color:#7c836d; margin:12px 0 12px 12px; font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps; font-size:1.4em; line-height: 1.3em"><br />
Apaixonado pela cultura hindu, foi responsável pela primeira tradução acadêmica do <em>Bhagavad Gita.</em></span>aliada às inegáveis qualidades retóricas, arrebanha para si a opinião do vasto público religioso.</p>
<p>Tal realidade se faz presente em todos os grupos cristãos, do catolicismo-romano até a mais recente igreja neopentecostal.</p>
<p>Assim, nos dizeres do padre e sociólogo católico Pedro Ivo Oro, reproduzem o conhecido discurso de que “o outro seja o demônio”. O outro, no caso, é todo aquele que não se enquadra na suposta ortodoxia dominante, a saber: o seguidor de uma crença não cristã, o ateu, o agnóstico, o ecumênico, o simpatizante da teologia da libertação, o liberal, o neo-ortodoxo e etc.</p>
<p>Sabemos que a divergência no mundo das ideias não é apenas aceitável, mas é ferramenta fundamental para o desenvolvimento humano. Como bem dizia Nelson Rodrigues, “toda unanimidade é burra”. No entanto, os fundamentalistas não encerram suas divergências no âmbito do pensamento, mas levam essas diferenças naturais ao ponto mais extremo, acabando, literalmente, com a vida de seus oponentes.</p>
<p>Diante deste triste quadro, é interessante trazer à memória a biografia de modernos líderes cristãos que trilharam um caminho visceralmente oposto ao citado acima. Este é o caso do saudoso Jorge Bertolaso Stella.</p>
<p>Italiano de Abadia, cidade localizada na província de Parma, nasceu em 1888, chegando ao Brasil com apenas três anos de idade. Junto com seus familiares, estabeleceu-se no interior de São Paulo. De origem católico-romana, abraçou o protestantismo de orientação reformada, <span style="float:right; text-align:right; width:35%; color:#7c836d; margin:12px 0 12px 12px; font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps; font-size:1.4em; line-height: 1.3em">«Eu defendo a ordenação da mulher.»</span>tornando-se pastor evangélico em 1919. Destacou-se como pastor por quase trinta anos na Primeira Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo, comunidade mãe de todo o presbiterianismo paulista.</p>
<p>Sua formação intelectual é digna de nota. Teólogo formado, adquiriu real interesse pela filologia, sendo fluente no grego e hebraico.  Tornou-se especialista em línguas absolutamente complexas, como o basco e o etrusco. Não obstante seu apurado conhecimento nessas línguas, sua principal contribuição à cultura brasileira reside no fato de ser o primeiro intelectual brasileiro a dominar o sânscrito, milenar língua indiana.</p>
<p>Apaixonado pela cultura hindu, foi responsável pela primeira tradução acadêmica do <em>Bhagavad Gita</em>, principal livro sagrado do hinduísmo. O trabalho de Stella foi além da tradução, contendo comentários históricos, lingüísticos e teológicos a respeito do clássico indiano. Seguindo esta linha, publicou vários estudos a respeito da cultura e religião do povo indiano. Detinha, ainda, um amplo conhecimento sobre budismo e jainismo. Defensor de um verdadeiro diálogo interreligioso, Stella distinguia-se do evangélico padrão brasileiro. <span style="float:right; text-align:right; width:35%; color:#7c836d; margin:12px 0 12px 12px; font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps; font-size:1.4em; line-height: 1.3em">«Buda, Zoroastro, Moisés, Maomé e Cristo são intérpretes de Deus.»</span>Sua visão das crenças não cristãs não era marcada pela tradicional apologética. Além de considerá-las como manifestações naturais da religiosidade humana, analisava as mesmas com o rigor acadêmico de um verdadeiro historiador da religião.</p>
<p>Mesmo não concordando com o ateísmo, respeitava-o como forma de pensamento, ressaltando que o caráter de uma pessoa independia de suas convicções religiosas.</p>
<p>Foi professor emérito da cadeira de História das Religiões do antigo Seminário Teológico da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil, localizado em São Paulo, e membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.</p>
<p>Também participou de inúmeras comissões tradutoras da Sociedade Bíblica do Brasil. Como especialista em assuntos bíblicos, sua opinião a respeito da formação do cânon demonstra seu espírito científico e progressista. Para Stella, a Bíblia, mesmo sendo Palavra de Deus, foi composta através de um longo processo cuja influência de textos provenientes de outras culturas foi determinante. Desta forma, leis contidas no Pentateuco, por exemplo, foram inspiradas no conhecido Código de Hammurabi. Em suma, houve um intercâmbio entre a antiga cultura hebréia e a de seus vizinhos orientais. <span style="float:right; text-align:right; width:45%; color:#7c836d; margin:12px 0 12px 12px; font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps; font-size:1.4em; line-height: 1.3em">«Como fruto nutritivo do cristianismo apareceu, na igreja primitiva, o comunismo. A natureza é comunista e altruísta. Deus é comunista.»</span>Esta constatação é inaceitável para grupos fundamentalistas, pois destrói a ideia de uma revelação pura e restrita ao antigo povo de Israel.</p>
<p>Além de importantes obras de teor teológico, filológico e historiográfico, Bertolaso Stella tinha como máxima divulgar seus pensamentos em breves opúsculos, quase todos publicados pela saudosa Imprensa Metodista. O importante não era manter-se restrito ao seleto círculo de teólogos, acadêmicos ou intelectuais, mas divulgar seu conhecimento para o verdadeiro público alvo de um ministro religioso, a igreja.  Abordaremos, brevemente, alguns temas debatidos por Jorge Bertolaso Stella.</p>
<p><strong>1 – Direitos da Mulher</strong></p>
<p>A Igreja Presbiteriana Independente do Brasil, denominação a qual Bertolaso Stella esteve ligado até o final de sua vida, apenas admitiu mulheres ao oficialato pleno, isto é, presbiterato e pastorado, em 1999. No entanto, desde o início de sua vida pastoral, sua defesa em prol do ministério feminino foi uma marca distintiva. Sobre este assunto escreveu no livreto “A Primeira Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo e a Renovação”, datado de 1974, os seguintes dizeres:</p>
<blockquote><p>Eu defendo a ordenação da mulher para o santo ministério, sim, mulheres pastoras. Deus chama as mulheres para o ministério ou pastorado. Esse Ser Eterno escolhe a quem quer e quando quer para sua obra santa. É um erro pensar que Deus somente escolhe homens para o pastorado. Nós nunca demos à mulher o lugar que ela realmente merece. Preconceitos, estreiteza de mente e ignorância, muitas vezes têm impedido que ela exerça a tarefa de que é digna e capaz. A mulher em coisa alguma é inferior ao homem. A mulher é a natureza para significar que ela é tudo. No código indiano das <em>Leis de Manu</em>, encontramos esta expressão: a mulher é imagem da terra. Aquela gente, bastante antiga, já conhecia o valor da mulher.</p></blockquote>
<p><strong>2 – Transitoriedade de doutrinas e dogmas</strong></p>
<p>Ao contrário da postura fundamentalista, Jorge Bertolasso Stella defendia que determinadas doutrinas são passiveis de revisão, devendo evoluir de acordo com o ser humano. Deus não seria estático:</p>
<blockquote><p>Existem doutrinas, princípios e praxes que precisam de uma revisão, são obsoletos e tiveram razão de ser somente em determinada época. O volume não é pequeno e constitui uma carga pesada para a Igreja, que ameaça ir ao fundo como o navio, descrito no livro de Atos.</p></blockquote>
<p><strong>3 – Humanismo</strong></p>
<p>Claras ideias humanistas são expostas no livreto <em>Um Só Mundo</em>, publicado em 1957:</p>
<blockquote><p>A humanidade é uma só. Os mares, lagos, rios, montanhas, vales e outra qualquer coisa, não podem dividir o mundo em partes separadas. Essa separação existe somente na superfície. No fundo, tudo é igual. As conquistas são imorais. Tudo deve ser para todos. Há terra, ar, luz que constituem o ambiente e pertencem a qualquer criatura enquanto viver. Não é humano uma nação, uma família ou um indivíduo apossar-se de uma parte do mundo, de uma região ou de uma parte da terra e abandonar os outros seres, deixando-os na penúria, sem trabalho, sem terra para cultivar, semear e viver. Em regra, o que motiva a guerra, que é câncer da humanidade, é justamente a noção de pátria, nação e povo.</p></blockquote>
<p>Encontramos no trecho acima uma clara crítica ao espírito nacionalista e xenófobo.</p>
<blockquote><p>Os seres humanos constituem uma irmandade na face da terra. Não importa a cor da pele, costumes diversos pelo ambiente e mesmo tendências diferentes. Todos os homens são irmãos e por isso devem se amar, banindo o egoísmo e cancelando a guerra, que significa a destruição da grande família humana.</p></blockquote>
<p><strong>4 – Defesa dos animais</strong></p>
<p>Em uma época em que este tema sequer era ventilado, encontramos em <em>Mensagens Evangélicas</em>:</p>
<blockquote><p>Ama os animais, com os quais tens muita afinidade. Tu também és um animal. Eles compreendem a tua linguagem e tu entendes a deles. Possuem um corpo: sede da dor e do prazer. Eles amam e odeiam, choram e riem como tu, pedem e oferecem, nascem e morrem. Belo é o provérbio que reza : – O justo olha pela vida dos seus animais (Provérbios 12.10).</p></blockquote>
<p>Fiel às descobertas científicas, o pastor ítalo-brasileiro afirma a existência de sentidos nos animais.</p>
<p><strong>5 – Posicionamento socialista e democrático</strong></p>
<blockquote><p>Como fruto nutritivo e apreciável dessa árvore frondosa, que se chama cristianismo, apareceu, na igreja primitiva, o comunismo. A Natureza é a mestra do homem e os seus ensinos são diretrizes da vida. Não podemos despregar os olhos dela. A natureza é comunista e altruísta. Deus é comunista. Ele criou tudo para todos. Segundo Gênesis 1:29-30, a terra, a água, o ar e a luz pertencem a todos. A criança nasce comunista. Ela se apodera de tudo quanto à cerca, não conhece restrições. A primeira família humana, da qual todos descendem, era comunista. Religiões e grupos há, que praticam o comunismo, por ser expressão do amor e da união. O comunismo cristão que estou tratando aqui, nasceu de persuasão, não da imposição. O seu princípio basilar era expresso com esta frase : “o que é meu é teu”. Não estava em voga a outra frase que o apresenta assim, por alguns: “o que é teu é meu”.</p></blockquote>
<p>Interessantes essas colocações de Bertolaso Stella. Publicadas em <em>Conceitos Religiosos</em>, de 1976, portanto em pleno regime militar, assumem uma postura claramente esquerdista. No entanto, como bom humanista, ele diverge do tipo de comunismo “à lá soviético”, onde tais ideais eram impostas por uma estrutura autoritária.</p>
<p><strong>6 – Crítica ao cristianismo institucionalizado</strong></p>
<p>Suas críticas ao cristianismo de sua época são mordazes e contundentes:</p>
<blockquote><p>O cristianismo atual fracassou. É um cristianismo capitalista e egoísta, repleto de viúvas e velhos pobres, famintos e miseráveis.”<br />
<small><em>Conceitos Religiosos</em>, 1976</small></p></blockquote>
<blockquote><p>O Cristianismo de Cristo não carece de reforma, nem de ser substituído. O cristianismo dos homens, que é cheio de especulações filosóficas, teológicas e doutrinárias, esse, sim, precisa ser reformado, digo mais, substituído.”<br />
<small><em>Um Só Mundo</em>, 1957</small></p></blockquote>
<blockquote><p>Pouca gente conhece a história dos Concílios. Alguns deles agiram sem muita caridade cristã. O célebre Credo de Nicéia, por exemplo, aprovado no ano de 325, que muita gente o repete quase de joelhos, se fosse apertado nas mãos revelaria gotas de sangue, porque foi elaborado no ambiente de discórdia, inveja e ódio.”<br />
<small><em>A Primeira Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo e a Renovação</em>, 1974</small></p></blockquote>
<p><strong>7 – Visão científica e crítica a respeito da própria Bíblia</strong></p>
<p>Como experiente exegeta, produziu comentários claramente vinculados ao método histórico-crítico de estudos bíblicos:</p>
<blockquote><p>Eu sou pela volta ao passado, pelas origens primeiras do cristianismo e isto, porventura, daria um Novo Testamento mais resumido. Os Evangelhos foram elaborados, lapidados, modificados. Outros aforismos de Jesus estão nos chamados apócrifos.”<br />
<small><em>Conceitos Religiosos</em>, 1976</small></p></blockquote>
<p><strong>8 – Respeito e compreensão para com outras expressões religiosas</strong></p>
<p>O espírito aberto e tolerante, aliado ao fato de ser um profundo conhecedor das religiões, principalmente orientais, levou o pastor presbiteriano independente de São Paulo a considerar toda a expressão religiosa humana como nobre. Nenhuma seria detentora exclusiva da verdade:</p>
<blockquote><p>Há uma só religião. O que há é desenvolvimento da religião, evolução, transformação do sentimento religioso. Resta olhar com tolerância e simpatia para com as outras religiões que procuram interpretar a Deus e a consciência humana. O <em>Bhagavada Gita</em> traz esses aforismos de tolerância. Cap.VII: 20-23.”<br />
<small><em>Um Só Mundo</em>, 1957</small></p></blockquote>
<blockquote><p>Nós falamos em religião imperfeita. É imperfeita a linguagem dos selvagens? Não. É imperfeita ao nosso ponto de vista, considerada pela cultura, mas ela serve ao supostamente primitivo para expressar sua ideia, o seu pensamento. A história da religião é um campo de cultura universal e permite ao estudioso apreciar a ideia de Deus no tempo e no espaço. Vêm-se religiões que tiveram a sua época, sua influência em determinados países e também sua decadência, ou melhor, a sua transformação e manifestação em outras ideias espirituais.<br />
<small><em>Um Só Mundo,</em> 1957</small></p></blockquote>
<blockquote><p>
Todas as religiões gozam de uma inspiração verdadeira. Cada uma de suas Bíblias ocupa seu lugar em um grau determinante na escala das revelações divinas.<br />
<small><em>Um Só Mundo</em>, 1957</small></p></blockquote>
<blockquote><p>
Os chamados fundadores de religiões, como, entre outros, Buda, Zoroastro, Moisés, Maomé e Cristo, são intérpretes de Deus, revelando através da experiência e dependendo do grau de consciência divina de cada um. Mas, Jesus Cristo, para mim, todo consciência de Deus, é diferente dos outros.<br />
<small><em>Antologia de Estudos Religiosos</em>, 1979</small></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p>Este é um pequeno resumo do pensamento de Jorge Bertolasso Stella. Pretendo, quem sabe, trabalhar de forma mais apurada esta singular figura do cristianismo protestante brasileiro.</p>
<p>Em tempos de fundamentalismo, seria bom que sua voz fosse ouvida e compreendida.</p>
<p align="right"><small><strong>André Tadeu de Oliveira</strong>, no <a href="http://bulevoador.haaan.com/2011/07/24908/">Bule Voador</a><br />
via <a href="http://teologia-livre.blogspot.com/">Roger</a>, via <a href="http://amarelofosco.com/">Alysson</a></small></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug032.gif"></p>
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		<title>Você vai ter</title>
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		<pubDate>Fri, 08 Jul 2011 00:08:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>
		<category><![CDATA[canções]]></category>
		<category><![CDATA[pop e brega]]></category>

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		<description><![CDATA[Este documento contém clipes de áudio que só podem ser ouvidos na página da Bacia na internet. Você vai ter sorrisos sobre o rosto como em janeiro grilos e estrelas, [Visite a Bacia para ouvir o áudio] &#160; histórias fotografadas dentro de um álbum encadernado em couro, o estrondo de aviões supersônicos que fazem erguer [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="center"><span style="color:#B0B0A0"><small>Este documento contém clipes de áudio que só podem ser ouvidos na <a href="http://www.baciadasalmas.com">página da Bacia</a> na internet.</small></span></p>
<p>Você vai ter sorrisos sobre o rosto<br />
como em janeiro grilos e estrelas,</p>
<p><span id="more-2572"></span></p>
<p><center>[Visite a Bacia para ouvir o áudio]</center></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>histórias fotografadas dentro de um álbum<br />
encadernado em couro,<br />
o estrondo de aviões supersônicos que fazem<br />
erguer a cabeça,<br />
e a penumbra do alvorecer que se faz de prata<br />
na janela</p>
<p>Vai ter um telefone perto, que já quer dizer esperar;<br />
espuma de vagalhões insanos<br />
que se perseguem no mar,<br />
e calças compridas brancas para tirar para fora<br />
que o verão já chegou,<br />
e um trem sem paradas América adentro</p>
<p>Vai ter duas lágrimas mais doces pra secar,<br />
um sol que se mata e pescadores de mariscos,<br />
e neve de montanhas e chuva de colinas,<br />
vai ter um palito de chicabon pra chupar</p>
<p>Vai ter uma mulher irritada e uma jovem dor,<br />
alamedas de folhas em chamas<br />
a incendiar-lhe o coração,<br />
vai ter uma cadeira para repousar<br />
e horas vazias como ovo de chocolate,<br />
e um amigo que lhe terá iludido, traído, enganado</p>
<p>Vai ter, vai ter, vai ter<br />
seu tempo para andar distante,<br />
caminhará esquecendo<br />
e vai parar sonhando<br />
Vai ter, vai ter, vai ter<br />
a minha mesma triste esperança,<br />
e sentirá não ter amado jamais o bastante<br />
se tiver, se tiver amor</p>
<p>Vai ter palavras novas pra procurar<br />
quando chegar a noite<br />
e cem pontes para passar fazendo retinir os gradis,<br />
o primeiro cigarro a lhe fumar na boca<br />
um pouco de tosse,<br />
Natal de azevinho e velinhas vermelhas</p>
<p>Vai ter um trabalho pra suar,<br />
manhãs encharcadas de calafrios e orvalho,<br />
jogos eletrônicos e pedras pela estrada,<br />
vai ter lembranças,<br />
guarda-chuvas<br />
e chaves pra esquecer</p>
<p>Vai ter carinhos pra falar com os cães,<br />
e será sempre domingo amanhã,<br />
vai ter discursos fechados dentro de si e mãos<br />
que reviram os bolsos da vida<br />
e um rádio para ouvir que a guerra terminou</p>
<p>Vai ter, vai ter, vai ter<br />
seu tempo para andar distante,<br />
caminhará esquecendo<br />
e vai parar sonhando<br />
Vai ter, vai ter, vai ter<br />
a minha mesma triste esperança,<br />
e sentirá não ter amado jamais o bastante<br />
se tiver, se tiver amor</p>
<p>***</p>
<p>Avrai sorrisi sul tuo viso come ad agosto grilli e stelle<br />
storie fotografate dentro un album rilegato in pelle<br />
tuoni di aerei supersonici che fanno alzar la testa<br />
e il buio all&#8217;alba che si fa d&#8217;argento alla finestra</p>
<p>Avrai un telefono vicino che vuol dire già aspettare<br />
schiuma di cavalloni pazzi che s&#8217;inseguono nel mare<br />
e pantaloni bianchi da tirare fuori che è già estate<br />
un treno per l&#8217;America senza fermate</p>
<p>Avrai due lacrime più dolci da seccare<br />
un sole che si uccide e pescatori di telline<br />
e neve di montagne e pioggia di colline<br />
avrai un legnetto di cremino da succhiare</p>
<p>Avrai una donna acerba e un giovane dolore<br />
viali di foglie in fiamme ad incendiarti il cuore<br />
avrai una sedia per posarti e ore<br />
vuote come uova di cioccolato<br />
ed un amico che ti avrà deluso tradito ingannato</p>
<p>Avrai avrai avrai<br />
il tuo tempo per andar lontano<br />
camminerai dimenticando<br />
ti fermerai sognando<br />
Avrai avrai avrai<br />
la stessa mia triste speranza<br />
e sentirai di non avere amato mai abbastanza<br />
se amore amore avrai</p>
<p>Avrai parole nuove da cercare quando viene sera<br />
e cento ponti da passare e far suonare la ringhiera<br />
la prima sigaretta che ti fuma in bocca un po&#8217; di tosse<br />
Natale di agrifoglio e candeline rosse</p>
<p>Avrai un lavoro da sudare<br />
mattini fradici di brividi e rugiada<br />
giochi elettronici e sassi per la strada<br />
avrai ricordi ombrelli e chiavi da scordare</p>
<p>Avrai carezze per parlare con i cani<br />
e sarГ  sempre di domenica domani<br />
e avrai discorsi chiusi dentro e mani<br />
che frugano le tasche della vita<br />
ed una radio per sentire che la guerra è finita</p>
<p>Avrai avrai avrai<br />
il tuo tempo per andar lontano<br />
camminerai dimenticando ti fermerai sognando<br />
Avrai avrai avrai<br />
la stessa mia triste speranza<br />
e sentirai di non avere amato mai abbastanza<br />
se amore amore amore avrai</p>
<p align="right"><small><strong>Gianni Morandi</strong> e a <a href="http://www.youtube.com/watch?v=kcFhG08yxwY">benção que Claudio Baglioni proferiu</a><br />
sobre o nascimento de seu filho, Giovanni Baglioni</small></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Sua estadia no Egito</title>
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		<pubDate>Thu, 07 Jul 2011 03:53:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>
		<category><![CDATA[lendas dos judeus]]></category>

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		<description><![CDATA[ABRAÃO: Sua estadia no Egito Mal Abraão havia se estabelecido em Canaã, irrompeu uma devastadora fome &#8211; uma das dez fomes que Deus designou para castigo dos homens. A primeira ocorreu no tempo de Adão, quando Deus amaldiçoou o solo por causa dele; a segunda foi no tempo de Abraão; a terceira forçou Isaque a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="center"><a href="http://www.23hq.com/paulobrabo/photo/6354424"><br />
   <img src="http://www.23hq.com/23666/6354424_5936f8fc8bc7593fc20c995edda78581_standard.jpg" height="306" width="460" /><br />
</a></p>
<p>
<p style="text-align:right;"><small><strong>ABRAÃO: </strong>Sua estadia no Egito</small></p>
<p>Mal Abraão havia se estabelecido em Canaã, irrompeu uma devastadora fome &#8211; uma das dez fomes que Deus designou para castigo dos homens. A primeira ocorreu no tempo de Adão, quando Deus amaldiçoou o solo por causa dele; a segunda foi no tempo de Abraão; a terceira forçou Isaque a abrigar-se entre os filisteus; as devastações da quarta levou os filhos de Jacó ao Egito para comprar trigo por alimento; a quinta veio no tempo dos juízes, quando Elimeleque e sua família tiveram de buscar refúgio na terra de Moabe; a sexta ocorreu durante o reinado de Davi e durou três anos; a sétima aconteceu nos dias de Elias, que havia jurado que nem orvalho nem chuva cairiam sobre a terra; a oitava foi aquela do tempo de Eliseu, quando uma cabeça de asno foi vendida por oitenta peças de prata; a nona é a fome que sobrevêm aos homens gradativamente, de tempos em tempos; a décima flagelará os homens antes do advento do Messias, e essa será &#8220;não fome de pão, nem sede de água, mas de ouvir as palavras do Senhor&#8221;<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/sua-estadia-no-egito/#footnote_0_2569" id="identifier_0_2569" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="Am&oacute;s 8:11">1</a></sup>.</p>
<p>A fome no tempo de Abraão só prevaleceu em Canaã, e havia sido infligida sobre a terra a fim de testar a fé dele. Abraão não murmurou e não demonstrou qualquer sinal de impaciência com relação a Deus, que havia lhe dito pouco tempo antes para abandonar sua terra nativa por uma terra de privação. A fome forçou-o a deixar Canaã por algum tempo, e ele dirigiu-se ao Egito, para conhecer a sabedoria dos sacerdotes e, se necessário, dar-lhes instrução sobre a verdade.</p>
<p>Na viagem de Canaã para o Egito Abraão observou pela primeira vez a beleza de Sara. Casto como era, ele não havia jamais olhado para ela, porém agora, quando cruzavam um riacho, ele viu o reflexo da sua beleza na água como se fosse o esplendor do sol. Pelo que disse a ela:</p>
<p>&#8211; Os egípcios são gente muito sensual; vou colocá-la num baú para que nenhum mal me sobrevenha por sua causa.</p>
<p>Na fronteira do Egito, os coletores de impostos perguntaram o conteúdo do baú, e Abraão disse que estava trazendo cevada nele.</p>
<p>&#8211; Não &#8211; disseram eles, &#8211; está cheio de trigo.</p>
<p>&#8211; Muito bem &#8211; respondeu Abraão, &#8211; estou pronto a pagar a taxa pelo trigo.</p>
<p>Os oficiais então arriscaram outro palpite:</p>
<p>&#8211; Está cheio de pimenta!</p>
<p>Abraão concordou em pagar a taxa pela pimenta e não recusou a pagar a taxa por ouro, e finalmente pedras preciosas. Vendo que ele não se opunha a taxa alguma, por mais alta que fosse, os coletores de impostos encheram-se de suspeita e insistiram que ele abrisse o baú e deixasse-os examinar o conteúdo.</p>
<p>Quando abriram à força o baú, o Egito inteiro resplandeceu com a beleza da Sara. Comparada a ela, as outras belezas eram como homens comparados a macacos. Sara superava a própria Eva. Cada servo do faraó ofereceu um um preço mais alto para comprá-la, embora opinassem também que beleza tão radiante não deveria permanecer propriedade de um só indivíduo. Foram relatar a questão ao rei, e o faraó mandou uma poderosa tropa armada para trazer Sara ao palácio; tão encantado ele ficou com os charmes dela que os que haviam trazido a notícia de sua chegada ao Egito receberam abundantes dádivas.</p>
<p>Em lágrimas, Abraão elevou uma oração a Deus com as seguintes palavras: &#8220;É essa minha recompensa por confiar no senhor? Por sua graça e sua longanimidade, não permita que minha esperança seja envergonhada&#8221;.</p>
<p>Sara também implorou a Deus: &#8220;Ó Deus, o senhor ordenou o meu mestre Abraão a deixar a sua casa, a terra de seus ancestrais, e viajar a Canaã, e prometeu recompensá-lo se ele cumprisse os seus mandamentos. Agora fizemos como o senhor nos ordenou: deixamos nosso país e nossas famílias, e viajamos para uma terra estranha, a um povo que nos era até então desconhecido. Viemos para cá salvar nossa gente da fome, e agora esse terrível infortúnio nos sobrevêm. Ah, Senhor, ajude-me e salve-me da mão desse inimigo, e pela sua graça mostre-me o seu benefício&#8221;.</p>
<p>Um anjo apareceu a Sara enquanto ela estava na presença do rei, a quem o anjo não tornou-se visível, e disse que ela tivesse coragem:</p>
<p>&#8211; Não tenha medo, Sara: Deus ouviu a sua oração.</p>
<p>O rei perguntou a Sara sobre o homem na companhia de quem viera ao Egito, e Sara chamou Abraão de seu irmão. O faraó prometeu fazer de Abraão um homem grande e poderoso, e fazer em favor dele qualquer coisa que ela desejasse. Fez com que Abraão recebesse muito ouro e prata, e diamantes e pérolas, ovelhas e bois, escravos e escravas, e designou-lhe uma residência nos átrios do palácio real. Pelo amor que nutria por Sara, o faraó redigiu um contrato de casamento pelo qual lhe transferia tudo que possuía na forma de  	ouro e prata e escravos e escravas, e ainda a província de Gosém, a região ocupada posteriormente pelos descendentes de Sara, por ser de direito sua propriedade. Ainda mais notável, deu-lhe como escrava sua própria filha Hagar, pois preferia ver sua filha como serva de Sara do que reinando como concubina em outro harém.</p>
<p>Toda essa sua generosidade de nada adiantou. Durante a noite, quando o faraó aproximava-se de Sara, um anjo aparecia armado com um bastão. Se o faraó apenas tocava o calçado de Sara para removê-lo do pé, o anjo plantava-lhe um golpe na mão; se pegava-lhe no vestido, seguia-se um segundo golpe. Antes de cada golpe o anjo perguntava a Sara se tinha permissão de desferi-lo; se ela ordenava que ele desse ao faraó um momento para se recuperar, o anjo obedecia e fazia como ela lhe ordenara. </p>
<p>E outro grande milagre aconteceu. O faraó, seus nobres e seus servos, e até mesmo as paredes de sua casa e sua cama foram afligidos com lepra, de modo que ele não tinha como entregar-se a seus desejos carnais. A noite em que o faraó e sua corte receberam essa merecida punição foi a décima quinta noite de Nisã, a mesma noite na qual Deus posteriormente visitou os egípcios a fim de redimir Israel, os descendentes de Sara.</p>
<p>Horrorizado pela praga enviada sobre ele, o faraó inquiriu de que modo podia livrar-se dela. Ele consultou os sacerdotes, através dos quais descobriu a verdadeira causa de sua aflição, que também foi corroborada por Sara. Ele então chamou Abraão e devolveu-lhe a esposa, pura e intocada, e pediu desculpas pelo ocorrido, explicando que sua intenção tinha sido ligar-se por laços de família a Abraão, que ele pensava ser irmão de Sara, através do casamento com ela. Ele ofertou ao marido e à esposa ricos presentes, e assim partiram para Canaã, depois de uma estadia de três meses no Egito. </p>
<p>Chegando em Canaã, procuraram as mesmas pousadas em que haviam dormido anteriormente, a fim de pagar suas contas, e também a fim de ensinar, pelo seu exemplo, que não vale à pena buscar um novo lugar para se viver, a não ser quando se é forçado a tanto. </p>
<p>A estadia de Abraão no Egito foi de grande utilidade para os habitantes daquele país, porque ele demonstrou aos sábios da terra quão vazias e vãs eram suas concepções da realidade, tendo também ensinado a eles astronomia e astrologia, desconhecidas no Egito antes da chegada dele.</p>
<h5>* * *</h5>
<p><small><em>Lendas dos Judeus</em> é uma compilação de lendas judaicas recolhidas das fontes originais do <em>midrash</em> (particularmente o <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Talmud">Talmude</a>) pelo talmudista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). <em>Lendas</em> foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.</small></p>
<b><small>NOTAS</small></b><ol class="footnotes"><li id="footnote_0_2569" class="footnote">Amós 8:11</li></ol><div class='series_toc'><h3>Lendas dos judeus</h3><ol><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2005/as-primeiras-coisas-criadas/' title='As primeiras coisas criadas'>As primeiras coisas criadas</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/o-alfabeto/' title='O alfabeto'>O alfabeto</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/o-primeiro-dia/' title='O primeiro dia'>O primeiro dia</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/o-segundo-dia/' title='O segundo dia'>O segundo dia</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/o-terceiro-dia/' title='O terceiro dia'>O terceiro dia</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/o-quarto-dia/' title='O quarto dia'>O quarto dia</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/o-quinto-dia/' title='O quinto dia'>O quinto dia</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/o-sexto-dia/' title='O sexto dia'>O sexto dia</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/o-sexto-dia-continuacao/' title='O sexto dia, continuação'>O sexto dia, continuação</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/todas-as-coisas-louvam-ao-senhor/' title='Todas as coisas louvam ao Senhor'>Todas as coisas louvam ao Senhor</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/o-homem-e-o-mundo/' title='O homem e o mundo'>O homem e o mundo</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/os-anjos-e-a-criacao-do-homem/' title='Os anjos e a criação do homem'>Os anjos e a criação do homem</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/a-criacao-de-adao/' title='A criação de Adão'>A criação de Adão</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/a-alma-do-homem/' title='A alma do homem'>A alma do homem</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/o-homem-ideal/' title='O homem ideal'>O homem ideal</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/a-queda-de-satanas/' title='A queda de Satanás'>A queda de Satanás</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/a-mulher/' title='A mulher'>A mulher</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/adao-e-eva-no-paraiso/' title='Adão e Eva no Paraíso'>Adão e Eva no Paraíso</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/a-queda-do-homem/' title='A queda do homem'>A queda do homem</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/a-punicao/' title='A punição'>A punição</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/o-sabado-no-ceu/' title='O sábado no céu'>O sábado no céu</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/o-arrependimento-de-adao/' title='O arrependimento de Adão'>O arrependimento de Adão</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/o-livro-de-raziel/' title='O livro de Raziel'>O livro de Raziel</a></li><li><a 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href='http://www.baciadasalmas.com/2010/o-iconoclasta/' title='O iconoclasta'>O iconoclasta</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/abraao-em-canaa/' title='Abraão em Canaã'>Abraão em Canaã</a></li><li>Sua estadia no Egito</li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2011/o-primeiro-farao/' title='O primeiro faraó'>O primeiro faraó</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2011/a-guerra-dos-reis/' title='A guerra dos reis'>A guerra dos reis</a></li></ol></div>]]></content:encoded>
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		<title>O valor da pérola e o preço da graça</title>
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		<pubDate>Fri, 01 Jul 2011 16:36:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>
		<category><![CDATA[jesus]]></category>
		<category><![CDATA[poser or prophet]]></category>

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		<description><![CDATA[Em Mateus 13:44-46 está registrado que Jesus assim descreveu o reino do céu: O Reino dos céus é como um tesouro escondido num campo. Certo homem, tendo-o encontrado, escondeu-o de novo e, então, cheio de alegria, foi, vendeu tudo o que tinha e comprou aquele campo. O Reino dos céus também é como um negociante [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Em Mateus 13:44-46 está registrado que Jesus assim descreveu o reino do céu: </p>
<blockquote><p>O Reino dos céus é como um tesouro escondido num campo. Certo homem, tendo-o encontrado, escondeu-o de novo e, então, cheio de alegria, foi, vendeu tudo o que tinha e comprou aquele campo. O Reino dos céus também é como um negociante que procura pérolas preciosas. Encontrando uma pérola de grande valor, foi, vendeu tudo o que tinha e a comprou.</p></blockquote>
<p>[...] Quando leio essas parábolas penso com frequência num jovem que tive o privilégio de conhecer. Sua &#8220;pérola de grande valor&#8221; era uma mistura de cocaína e heroína. Por isso ele sacrificou todo o resto &#8211; sua saúde, sua família, um teto e um lugar para dormir, todas as suas possessões mundanas, &#8211; até não ter nada além da roupa do corpo e um violão. Ele amava aquele violão: viva dizendo que era a sua alma. Mas um dia penhorou o violão: &#8220;penhorei a alma&#8221;.</p>
<p>Tendo só a roupa do corpo e o dinheiro que recebeu pelo violão, tudo que ele conseguiu comprar foi uma &#8220;vírgula&#8221; de heroína (um décimo de grama, apenas o suficiente para deixá-lo alto uma única vez). Tendo vendido finalmente sua &#8220;alma&#8221;, essa era sua pérola de grande valor.</p>
<p>É aqui que a parábola termina, mas na continuação da história do meu amigo algo inacreditável acontece. Tendo descolado a sua heroína ele entra num beco para transar a droga, e ali depara-se com outro amigo que também é usuário de heroína mas não tem dinheiro, nem drogas, nem nada valioso para vender. O que faz meu amigo com sua pérola? Ele a compartilha. <em>Ele a divide</em> &#8211; o tesouro pelo qual sacrificou todo o resto &#8211; e dá metade a seu amigo, sem qualquer esperança de retribuição. Ali, num beco da zona leste do centro de Vancouver, meu amigo engajou-se num ato de generosidade e de sacrifício pessoal superior em escala a qualquer outro ato de generosidade ou sacrifício pessoal que eu jamais tenha visto praticado &#8211; quer por parte de cristãos ou de quaisquer outros. Pense o que quiser sobre o uso de drogas: o valor da pérola para meu amigo e a extensão de seu sacrifício suplantam em muito qualquer outro ato de bondade jamais praticado por mim.</p>
<p>E a verdade é que a atitude de meu amigo não é exceção. Em comunidades de usuários de drogas e outras comunidades de gente pobre não é incomum uma estirpe de economia fundamentada na graça, em que se dá sem se esperar receber de volta.</p>
<p align="right"><small><strong>Daniel Oudshoorn</strong><br />
 <a href="http://poserorprophet.wordpress.com">Poser or Prophet</a></small></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug037.gif"></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/em-louvor-dos-pecadores/">Em louvor dos pecadores</a></p>
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