Manuscritos estocados sob a rubrica 'Goiabas Roubadas'
19 de Agosto de 2010

A arte de ser simples

Goiabas Roubadas

As coisas simples são sempre as mais difíceis.

A arte de ser simples é a mais elevada, e do mesmo modo aceitar-se a si mesmo é a essência do problema moral e o cerne de toda uma visão de mundo. Que eu alimente um mendigo, que perdoe uma ofensa, que ame um inimigo em nome de Cristo, são todas sem dúvida grandes virtudes. Aquilo que faço ao menor de meus irmãos estou fazendo a Cristo.

Mas e se eu acabar descobrindo que o menor de todos, o mais pobre dos mendigos, o mais acusado de todos os ofensores e o próprio grande adversário residem dentro de mim, e que eu mesmo careço de minha própria bondade? Que sou eu mesmo o inimigo que deve ser amado? E então?

Portanto, regra geral, toda a verdade do cristianismo é revertida, e não se aplica qualquer discurso de amor e longanimidade. Dizemos ao irmão dentro de nós: “Raca!” e infligimos condenação e fúria sobre nós mesmos. Escondemos do mundo o irmão interior, negamos ter jamais conhecido esse menor dos menores dentro de nós, e se o próprio Deus se aproximasse de nós nessa forma desprezível – a nossa forma – teríamo-lo negado mil vezes antes que cantasse um único galo.

Carl Jung
em Psicoterapeutas ou o clero

09 de Agosto de 2010

Só a dúvida brilhará

Goiabas Roubadas

Príncipes, poderosos, espíritos imortais, sede bem-vindos!

Eis os motivos da festa que hoje pretendo realizar convosco: Fausto, um atrevido mortal, que como nós contesta o Eterno e, pela força de seu espírito, quer tornar-se digno de morar conosco no inferno, descobriu a arte de multiplicar com facilidade milhares e milhares de vezes os livros, esse perigoso entretenimento dos homens, propagadores da demência, dos enganos, das mentiras e do terror, fonte do orgulho e mãe da trágica dúvida.

Até aqui, devido a seu elevado preço, eles haviam sido privilégio dos ricos, enchendo-os de vaidade e afastando-os da simplicidade e humildade exigidas pelo Eterno, que colocara esses sentimentos em seu coração para sua felicidade. Triunfo! Em breve, o perigoso veneno da sabedoria e da ciência contaminará a todos! Loucura, dúvida e intranquilidade e novas necessidades alastrar-se-ão, e eu duvido que meu terrível reino possa abarcar todos aqueles Sua fantasia inflamar-se-á para criar milhares de novas necessidades.que serão contaminados por esse veneno sedutor.

Essa seria, por enquanto, apenas uma pequena vitória em comparação com o que prevejo para um futuro remoto, que para nós representa apenas uma volta dos ponteiros.

Aproxima-se o tempo em que os pensamentos e opiniões de ousados renovadores e críticos do antigo sejam contagiados pela descoberta de Fausto como a peste. Surgirão pretensos reformadores do céu e da terra, cujos ensinamentos, pela facilidade de comunicação, atingirão até a choça do mendigo. Eles pensarão estar prestando serviço à humanidade e evitando que sua mensagem de salvação e esperança seja mal interpretada; mas quando e por quanto tempo é o homem capaz de praticar o bem? O homem é tentado mais facilmente a praticar abusos e más ações em nome de suas mais puras aspirações do que pelo pecado propriamente dito.

O povo escolhido, que o Todo-Poderoso quis salvar para sempre do inferno, através de um terrível milagre, se baterá em guerras sangrentas por ideias que ninguém entende e dilacerar-se-á como os animais selvagens. Horrores que superam qualquer loucura que os homens tenham cometido devastarão a Europa. Acolheremos criminosos carregados de culpas que nem sequer se enquadram nos castigamos que aplicamos até agora.

Os pilares da religião, tão temida por nós, se desmoronam, e, se o Eterno não socorrer a estrutura decadente através de novos milagres, ela desaparecerá da face da Terra, e nós seremos novamente idolatrados nos templos como deuses. Até que ponto chegará o espírito do homem, quando ele começar a refletir sobre o que até agora tivera por sagrado? Ele dançará sobre o túmulo do tirano diante do qual tremera ainda ontem; arrasará o altar no qual fizera sacrifícios no momento em que procurar, à sua maneira, o caminho da felicidade.

Quem poderá algemar o seu espírito irrequieto por milhares de anos? Poderá o Criador impedir que um único homem se aproxime muito mais do nosso reino do que do seu, só porque o criou? O homem abusa de tudo, da força de seu espírito e de seu corpo; de tudo que ele vê, ouve, prova, sente ou pensa, daquilo com que se diverte ou daquilo com que se ocupa seriamente. Não satisfeito em destruir e desfigurar aquilo que está a seu alcance, deixa-se levar pelas asas da fantasia a mundos desconhecidos, desfigurando-os em sua imaginação. O homem é capaz de trocar até mesmo a liberdade, seu mais precioso bem, que lhe custou rios de sangue, por ouro, prazeres e ilusões, quando mal chegou a conhecê-la.

Fatigado de crimes e guerras sangrentas, descansará por um momento, e seu ódio se manifestará apenas secretamente. Alguns valer-se-ão desse ódio para, em nome da verdade, se vingarem daqueles que discordem da sua fé, queimando-os em fogueiras. Outros procurarão desvendar os mistérios e enigmas indecifráveis, e os filhos das trevas lutarão ousadamente pela busca da luz.

Sua fantasia inflamar-se-á para criar milhares de novas necessidades. Para escrever um livro que lhes traga fama e ouro, não hesitarão em pisotear a verdade, a simplicidade e a religião. Escrever livros tornar-se-á um ofício vulgar, através do qual gênios e charlatões procurarão glória e riqueza, sem preocupar-se com a confusão que irão causar na mente de seus irmãos e o germe de ódio que irão incutir nos inocentes.

O céu, a terra e Aquele que tememos, as forças ocultas da natureza, os motivos obscuros de seus fenômenos, o poder que determina o rumo dos astros e dos cometas, o tempo incomensurável, tudo o que é visível e invisível os homens pretenderão provar, medir e compreender, inventar palavras e números para as coisas inexplicáveis, acumular sistema sobre sistema, até que tenham conseguido atrair as trevas para a Terra, onde só a dúvida brilhará, como o fogo-fátuo que atrai o peregrino para o pântano. Só então pensarão estar vendo a luz, e nesse momento estarei à sua espera! Quando se tiverem descartado da religião, como se fosse lixo, e forem obrigados a criar dos restos uma nova e monstruosa mistura de sabedoria e superstição, então estarei à sua espera! Podereis então abrir as portas do inferno para receber o gênero humano! Durante séculos derramarão sangue sobre a face da Terra em nome Daquele que tememos, e assim o inferno derrotará Aquele que nos jogou aqui, valendo-se de seus próprios favoritos.

Era isso, poderosos, o que eu tinha a dizer-vos. Festejai comigo esse maravilhoso dia e desfrutai antecipadamente a vitória que posso prometer-vos, porque conheço os homens. Viva Fausto!

Friedrich Maximilian Klinger
O discurso de Satã em A Vida de Fausto (1791)

06 de Agosto de 2010

Uma beleza que revolta

Goiabas Roubadas

Um belo dia abracei a religião cristã.

Para falar a verdade, eu não era bom naquilo. Religião não é pra mim, e por algum tempo fiquei me sentindo um completo fracasso. Alguns religiosos me condenaram (e ainda condenam) ao fogo eterno, mas com o tempo passei a ver meu fracasso religioso como uma tremenda benção.

Porque, quando perdi minha religião, encontrei uma linda revolução.

Isso talvez ofenda ou surpreenda você, mas Jesus não é o fundador da religião cristã. É verdade, séculos depois dele levantou-se uma religião chamada “cristã” – mas, como você vai descobrir neste livro, em muitos sentidos essa religião representava o oposto de tudo que Jesus representava. Na verdade, como você vai também descobrir neste livro, o próprio conceito de uma “religião cristã” tem muito de mito quando entendido à luz do que Jesus representava.

Porque a mensagem essencial de Jesus não tem nada a ver com ser religioso. Basta ler os evangelhos: ele festava com os maiores pecadores e ultrajava os religiosos, e por isso foi crucificado.

O que Jesus representava era o início de uma revolução, revolução à qual ele deu o nome de “reino de Deus”.

O centro dessa revolução não é fazer com que as pessoas acreditem em determinadas crenças religiosas e adotem determinados comportamentos religiosos, embora essas coisas possam ser importantes, genuínas e úteis. Essa revolução também não está centrada na tentativa de consertar o mundo pela defesa das causas políticas “certas” e pela promoção das políticas nacionais “certas”, embora essas coisas possam ser nobres, bem-intencionadas e eficazes.

Não: o reino de Deus estabelecido por Jesus está centrado em uma coisa e apenas nessa coisa: manifestar a beleza do caráter de Deus e, em conformidade com isso, revoltar-se contra tudo que é inconsistente com essa beleza. O reino está centrado na manifestação de uma beleza que revolta.

O reino é, em resumo, uma linda revolução.

Tudo em Jesus manifestava esse reino belo e “revoltante”; podemos vê-lo de forma mais profunda quando que Jesus deixou-se crucificar. No Calvário Jesus exibe a beleza da decisão de Deus de sofrer pelos seus inimigos – em vez de usar seu poder onipotente para derrotá-los de forma violenta. No Calvário vemos também a revolta divina contra nossa escravidão à violência e tudo que nos mantém alienados de Deus e uns dos outros. O próprio diabo é confrontado e vencido pela cruz de Jesus Cristo.

A morte de Jesus resume o tema de sua vida inteira. Cada aspecto de sua vida, seu ensino e ministério colocava em exibição a beleza do reino de Deus e revoltava-se contra algum aspecto da cultura que contradizia esse reino.

O chamado essencial de todos que entregam sua vida a Cristo é unir-se a essa linda revolução e, portanto, viver e amar dessa forma. “Quem diz viver nele”, afirma João, “deve viver como ele viveu” (1 João 2:6). Devemos manifestar a beleza de Deus amando sacrificialmente nossos inimigos, servindo os pobres, alimentando os famintos, libertando os oprimidos, acolhendo os excluídos, abraçando os maiores pecadores e curando os doentes, como Jesus fez. E não existe como fazer isso sem ao mesmo tempo nos revoltarmos contra tudo em nossa vida que nos mantém autocentrados, gananciosos e apáticos diante das necessidades dos outros. Também não há como fazer isso sem revoltar-se contra tudo na sociedade – e, como veremos, no âmbito espiritual – que mantém as pessoas oprimidas fisicamente, socialmente e espiritualmente.

Você então vê que o reino não tem nada a ver com religião – quer seja “cristã” ou não. Tem a ver com seguir o exemplo de Jesus, manifestando a beleza do reinado de Deus ao mesmo tempo em que nos revoltamos contra tudo que é feio.

É uma linda revolução a que somos todos convidados a aderir. Mas para fazer isso será preciso abrir mão da religião.

Gregory A. Boyd
em The Myth of Christian Religion
(O mito da religião cristã)

02 de Agosto de 2010

Proclamando a trindade: comunidade e sofrimento

Goiabas Roubadas

A doutrina da trindade é um dos elementos particulares da fé cristã histórica que é rapidamente abandonada em favor de uma proclamação mais palatável de Deus. Ao invés de se proclamar um Deus triúno, a unicidade de Deus é frequentemente enfatizada, a fim de se tornar Deus mais compreensível e, portanto, mais aceitável para uma sociedade secular. A doutrina da trindade, no entanto, é exclusiva do cristianismo, e merece atenção especial. Como afirma Moltmann:

A redescoberta da doutrina da trindade começa quando a unilateralidade de um pensamento pragmático é superada, e quando a prática é libertada do ativismo, a fim de poder tornar-se uma prática livre do evangelho.

Quando o pragmatismo equivocado (e essencialmente ineficaz) dos que tentam traduzir a natureza de Deus para a linguagem de Babel é superado, dois elementos essenciais do cristianismo vêm para o primeiro plano.

O primeiro é o elemento da comunidade. O deus triúno existe como comunidade. O Pai, o Filho e o Espírito Santo vivem num relacionamento de igualdade, coabitação mútua e amor altruísta. Quando Deus é entendido como três-em-um, a igreja deve também ser definida como uma comunidade de igualdade e amor desinteressado. Enquanto o monoteísmo mantem o poder de Deus absoluto, a teologia torna o amor de Deus absoluto. Portanto a igreja que proclama a trindade será uma igreja que critica as estruturas de poder fundamentadas na unicidade de Deus. A trindade confronta o monoteísmo político (um Deus, e portanto um imperador) e o monoteísmo clerical (um Deus, e portando um papa, um bispo ou pastor). A mensagem da trindade se tornará compreensível à sociedade quando a igreja existir como uma comunidade de iguais que amam uns aos outros altruisticamente.

O segundo elemento revelado pela trindade é o do sofrimento. É a doutrina da trindade que nos ajuda a começar a entender o que aconteceu na cruz. O reconhecimento da divindade de Jesus levou os primeiros cristãos não apenas a reexaminarem a natureza de Deus, mas a reavaliarem também a relação entre Deus e o sofrimento. Pois, como afirma Moltmann: “Entender Deus no Jesus crucificado, abandonado por Deus, exige uma ‘revolução no conceito de Deus’”. A doutrina da trindade revela um Deus que sofre com a sua criação e pela sua criação. Deus é revelado como um Deus de pathos/paixão, e não de apatheia/apatia.

Portanto a igreja que está em Cristo participa da trindade. Isso quer dizer que a igreja proclama a trindade movendo-se em direção a um sofrimento ativo e experimentando o sofrimento de um amor apaixonado. É por isso que a cruz torna-se o teste de tudo que merece receber o nome de cristão. A igreja revela o Deus do amor sofredor posicionando-se em solidariedade com aqueles que são crucificados pela sociedade contemporânea. O mundo só chega a entender a natureza do Deus cristão quando o povo de Deus abraça a dor, penetra a morte e conhece a dor dos marginalizados. O mundo só chega a reconhecer o Deus crucificado através de uma igreja que fala (e geme) de sua posição nas margens.

Daniel Oudshoorn
Poser or Prophet

Leia também:
O beijo do todo-poderoso
A monarquia de Deus

30 de Julho de 2010

Diante dos seus olhos

Goiabas Roubadas

E, se você tiver feito isso, desejo saber da seguinte forma se você ama ao Senhor e a mim, servo dele e seu: que não exista no mundo irmão que tenha pecado – por mais que tenha pecado – que, depois de ter olhado nos seus olhos, possa partir sem a sua misericórdia, se estiver buscando misericórdia. Que, se não estiver buscando misericórdia, seja você a perguntar se ele quer misericórdia; se ele pecar mil vezes diante dos seus olhos, que você o ame mais do que a mim de modo a atrai-lo para o Senhor; e que você estenda sempre misericórdia a irmãos como esse.

São Francisco de Assis, , Carta ao irmão N. (1222)