Manuscritos estocados sob a rubrica 'Goiabas Roubadas'
17 de Março de 2010

Em partido dos pobres

Goiabas Roubadas

Neste ponto é importante falar sobre partidarismo. Já foi reafirmado que o liberalismo econômico é parcial, no sentido que defende o interesse de poucos em detrimento do de muitos. Essa conclusão contradiz diretamente as alegações de que o liberalismo econômico favorece a todos e não dá preferência a ninguém. A verdade, no entanto, é que a visão do liberalismo econômico coincide precisamente com os interesses das grandes multinacionais – transformando os abastados em super-ricos e a classe trabalhadora em pobres descartáveis.

O que se descobre aqui é uma ordem econômica baseada no saque – cheia de vencedores e perdedores, vitoriosos e vítimas. A isso os liberalistas respondem com alguma variação do argumento “o que é bom para alguns acabará se mostrando bom para todos”, porém isso é na verdade dar aos pobres (isto é, os “perdedores”) a opção de trocarem uma forma de miséria por outra1. Consequentemente, não é difícil concluir que a parcialidade do liberalismo econômico resulta na “liberdade dos poderosos para roubarem, e na liberdade dos despossuídos para viverem na miséria”.

É essencial perceber, no entanto, que o cristianismo também é parcial – porém na direção oposta. O liberalismo econômico favorece os ricos ao mesmo tempo em que saqueia os pobres, enquanto o cristianismo advoga “a opção de Deus pelos pobres”. Consequentemente, liberalistas econômicos e cristãos encontram-se em campos opostos.

Neste ponto, finalmente, é necessário entender que parcialidade e objetividade não são antagonistas mas aliados, conforme observa Terry Eagleton: “verdadeiro discernimento quer dizer tomar partido”. Os cristãos tomam partido dos pobres contra os que os oprimem, precisamente porque os pobres sofrem injustamente. Por essa razão os cristãos devem abandonar o mito de que a fim de manter a perspectiva das coisas não devemos tomar qualquer partido. Manter a perspectiva significa tomar partido.

Essa perspectiva, portanto, tem implicações para a metodologia empregada pelos cristãos que buscam escrever sobre o liberalismo econômico nos nossos dias. Em primeiro lugar é importante recordar e dialogar com os testemunhos de cristãos que têm se agregado e escrito a partir de posições partidárias2.

Em segundo lugar, quer dizer que os cristãos devem também dar ouvidos a outras vozes subversivas: os revolucionários, os [pós-]marxistas e outros que se encontram “no mesmo lado das barricadas”3. Pois, como observa Eagleton: “Os marxistas têm teimosamente sobrevivido à prática política marxista [...] Não nos sentimos autorizados a descartar a crítica feminista apenas porque o patriarcado não foi ainda adequadamente desalojado. Ao contrário, é razão para endossá-la ainda mais”.

Em terceiro lugar, quer dizer que os cristãos devem escrever a partir de uma posição de partidarismo materializado. Uma teologia cristã que se levante em resposta ao liberalismo econômico deve fluir a partir da ação. Deve ser “um reflexo crítico da práxis cristã”.

Portanto, como os cristãos abraçam lealdades que contradizem as lealdades dos liberalistas econômicos, deve-se esperar que os cristãos ofereçam um modo alternativo de estruturar a vida em comunidade, um modo que se oponha às estruturas fascistas-imperialistas impostas pelo neoclassocismo econômico.

Daniel Oudshoorn
Poser or Prophet

Leia também:
As variedades da experiência capitalista
Das tais
Na mesma moeda

NOTAS
  1. Por exemplo, as empresas multinacionais têm argumentado que as sweatshops do terceiro mundo – fábricas com péssimas condições de trabalho e baixo salário, onde são manufaturados grande parte dos bens consumidos no ocidente – oferecem a mulheres e crianças a oportunidade de escapar da prostituição. É evidente que trabalhar longas horas dentro de uma fábrica insalubre, devastando o próprio corpo por menos que um salário digno, dificilmente pode ser considerado uma verdadeira alternativa; é simplesmente outra forma de miséria e de prostituição. É importante notar que esse argumento surgiu com o próprio capitalismo, quando Adam Smith argumentou que deveria ser visto como um “gesto filantrópico” permitir que as crianças pobres trabalhassem nas fábricas. []
  2. Por exemplo, a Igreja Confessante durante a Segunda Guerra e os teólogos da libertação. []
  3. Importante é atentar, com respeito a essa questão, aos comentários de Jurgen Moltmann sobre Ernst Bloch, um ateu marxista: “Os defensores de Deus não se encontram necessariamente mais perto de Deus do que os acusadores de Deus. Os justificados não são os amigos teológicos de Jó, mas o próprio Jó. Nos Salmos protesto e júbilo coexistem e ressoam com a mesma voz. Sempre na história que essa combinação cessa de existir os teólogos passam a ter tanto a aprender sobre Deus com os ateus do que os ateus poderiam talvez aprender com os teólogos”. []
08 de Março de 2010

A Coca-Cola e o oposto do amor

Goiabas Roubadas

Numa perspectiva psicoanalítica, é crucial o elo entre a dinâmica capitalista da mais-valia e a dinâmica libidinal do mais-gozar. Podemos desenvolver esse ponto a partir da Coca-Cola, mercadoria capitalista por excelência e, como tal, “excedente de gozo” personificado.

Não é surpresa que a Coca-Cola tenha sido apresentada inicialmente como remédio; seu gosto estranho não parece prover qualquer satisfação particular. A Coca não é diretamente agradável ou atrativa; porém é precisamente nessa qualidade, no que transcende qualquer valor utilitário (ao contrário da água, da cerveja e do vinho, que de forma muito definida saciam a sede ou produzem o efeito desejado de tranquilidade satisfeita), que a Coca-Cola funciona como encarnação perfeita do “it”: o puro excedente de gozo em relação às satisfações usuais, o misterioso e esquivo X que todos buscamos em nosso consumo compulsivo de mercadorias.

O resultado inesperado dessa característica não é que, já que a Coca não satisfaz nenhuma necessidade concreta, nós a bebamos apenas como complemento, depois que alguma outra bebida tenha satisfeito nossa necessidade substancial – ao contrário, é precisamente esse caráter supérfluo que torna nossa sede pela Coca-Cola ainda mais insaciável: como observado de modo tão conciso por Jacques-Alain Miller, a Coca tem a propriedade paradoxal de que quanto mais você a bebe com mais sede você fica. Com aquele sabor estranho, agridoce, a sede nunca é efetivamente saciada. Portanto, tendo em vista que há alguns anos o slogan da Coca era “Coca-Cola é o que é” ['Coke is it', em inglês], é necessário observar sua completa ambiguidade. É precisamente esse caráter supérfluo que torna nossa sede pela Coca-Cola insaciável.A Coca “é o que é” precisamente na medida em que nunca realmente é, precisamente na medida em que cada satisfação abre uma brecha para um “quero mais!

O paradoxo, portanto, reside em que a Coca não é uma mercadoria comum, cujo valor de uso é transubstanciado na expressão de uma aura de puro Valor (de troca); trata-se de uma mercadoria cujo peculiar valor de uso já é ele mesmo a incorporação direta da aura suprasensível de inefável excedente espiritual: uma mercadoria cujas propriedades materiais correspondem por si mesmas àquelas de uma mercadoria.

Esse processo chega à sua conclusão no caso da Coca-Cola Diet sem cafeína. Por quê? Bebemos Coca-Cola – ou qualquer bebida – por duas razões: pelo seu valor nutricional ou poder de matar a sede, e pelo seu sabor. No caso da Coca Diet sem cafeína, o valor nutricional é anulado e a cafeína, ingrediente-chave do seu sabor, é também levada embora. Tudo que resta é um completo simulacro, a promessa artificial de uma substância que nunca se materializa.

Aquilo a que estou me referindo implicitamente é, naturalmente, a clássica distinção de Nietzsche entre “querer nada” (no sentido de ausência de desejo) e a instância niilista de ativamente querer o Nada para si; seguindo a trilha de Nietzsche, Lacan enfatizou que na anorexia o paciente não quer simplesmente “comer nada” – ao contrário, ele ou ela querem ativamente comer o Nada (o Vazio) que representa ele mesmo o objeto-causa último do desejo. Semelhantemente, no caso da Coca Diet sem cocaína nós bebemos o próprio Nada, o puro simulacro de uma propriedade que é na realidade mera embalagem de um vazio.

Esse exemplo esclarece a ligação entre três noções: a da mais-valia marxista, a noção lacaniana do objet petit a1 em sua qualidade de “excedente de prazer” (mais-gozar, o conceito que Lacan elaborou com referência direta à mais-valia de Marx) e o paradoxo do superego, percebido há tanto tempo por Freud: quanto mais Coca você bebe, com mais sede você fica; quanto mais lucro você tem, mais lucro você quer; quanto mais você obedece o imperativo do superego, mais culpado você se sente. Nos três casos, a lógica da troca equilibrada é interrompida em favor de uma lógica excessiva em que “quanto mais você dá (quanto mais você paga suas dívidas), mais você fica devendo” (ou “quanto mais você tem aquilo que deseja, maior a sua carência”; ou – a versão consumista – “quanto mais você compra, mais tem para gastar”); ou seja, o paradoxo que é o oposto exato do paradoxo do amor, pelo qual Julieta exprimiu em palavras imortais a Romeu: “quanto mais dou, mais tenho”.

Slavok Žižek, em The Fragile Absolute (2000)

NOTAS
  1. O objeto inalcançável de desejo da teoria lacaniana. []
05 de Março de 2010

Tudo que os seus professores fizeram para matar a sua criatividade

Goiabas Roubadas, Sociedade

FOI COM A MELHOR DAS INTENÇÕES.

Parte 1: “Se você não estiver preparado para estar errado, nunca vai ter uma idéia original”

Parte 2: “De repente, um diploma não vale mais nada”

03 de Março de 2010

O capitalismo como fascismo

Goiabas Roubadas

Onde, capitalismo?

Em 1776 Adam Smith deu a luz à moderna ciência da economia ao predizer que a liberação do mercado de todas as formas de controle estatal nos conduziria ao melhor dos mundos possíveis. Em 1848 Karl Marx desafiou Smith e predisse que o capitalismo seria destronado pela ascensão inexorável do socialismo. Desde então têm surgido infindas profecias competindo entre si para determinar em que direção o capitalismo está conduzindo a nossa vida. No entanto, da perspectiva privilegiada do início do século XXI, podemos ver que o que tem surgido é a predominância global da economia neoclássica ou liberalismo econômico. De que forma devemos, portanto, interpretar as diversas predições feitas a respeito do capitalismo?

Para começar deve ficar claro que o capitalismo não gerou a utopia predita por Smith. Ao invés disso, vivemos numa época em que a desigualdade, a fome e a opressão econômica afetam mais gente ao redor do globo do que em qualquer outro período. Consequentemente é necessário enfatizar que a visão de Smith era, de fato, É um erro tentar redimir ou corrigir o capitalismo.utópica (no pior sentido da palavra). A visão de Smith prometia aquilo que não podia ser atingido pelos meios que oferecia.

Em segundo lugar, o triunfo do liberalismo econômico deixou claro que o capitalismo não conduz ao socialismo, como fora previsto pelos marxistas tradicionais e por outros. Na verdade, o que vimos ocorrendo foi o exato oposto disso: a maior parte das nações socialistas se converteu ao capitalismo, e mesmo países nominalmente comunistas, como a China, adotam aquilo que é, no fundo, uma forma neoclássica de economia. Porque as coisas aconteceram dessa forma? Há inúmeras razões para o fracasso do socialismo (e a menor delas não será o maior poderio militar das nações capitalistas, que foram capazes de destruir muitos governos socialistas em seus primeiros estágios), mas a principal é que o socialismo estava associado em demasia ao próprio capitalismo. Slavoj Žižek argumenta da seguinte forma:

O comunismo marxista, a noção de uma sociedade de produtividade pura à parte da estrutura do capital, era uma fantasia inerente ao próprio capitalismo. O socialismo fracassou porque era em última instância uma subespécie do capitalismo, uma tentativa ideológica de assobiar e chupar cana ao mesmo tempo, de escapar do cerco do capitalismo retendo ao mesmo tempo seus ingredientes chave.

O socialismo representa um utopismo fracassado precisamente porque dá simplesmente prosseguimento ao utopismo do capitalismo (isto é, em vez de argumentar que o capitalismo conduz diretamente à utopia, argumenta que o capitalismo conduz indiretamente, através do capitalismo, à utopia).

Em terceiro lugar, outros que preveram que o capitalismo levaria à anarquia mostraram-se também enganados. Sem dúvida o capitalismo ocasionou a ruptura e fragmentação da maior parte dos corpos sociais, mas o resultado não foi o caos. Ao contrário, o que vemos no liberalismo econômico é o nascimento de enormes oligarquias que detém poder cada vez maior sobre um público fragmentado.

Quem então predisse corretamente a destinação do capitalismo em sua forma liberal? Surpreendemente, foram os marxistas que rejeitaram o elemento fatalista do marxismo aqueles a prever onde nos levaria o capitalismo. Foi gente como Bukharin, Lenin e Trotsky que previu com acerto que o capitalismo, deixado aos seus próprios recursos, se transformaria numa forma fascista de imperialismo. Falando claramente: a conquista global consumada pelo liberalismo econômico, com sua ênfase na privatização, na desregulamentação e em cortes nos gastos sociais, representa o triunfo global do capitalismo-como-fascismo.

É importante definir o que quero dizer aqui com “fascismo”. Tradicionalmente o fascismo é entendido como a subordinação de indivíduos, bem como de todas as entidades corporativas, ao Estado. O que ocorreu dentro do liberalismo econômico, no entanto, foi a subordinação de indivíduos e de todas as entidades corporativas, incluindo o Estado, aos poderes econômicos reinantes – as oligarquias, as multinacionais e aqueles que as servem (como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional). Com essa distinção em mente, os demais elementos característicos do fascismo tradicional mantém-se inalterados na experiência contemporânea do capitalismo-como-fascismo: [1] ele ataca todas as formas de coletividade e todos os corpos públicos; [2] define-se, portanto, pela sua compulsão pela conquista; [3] favorece os interesses de uns poucos em detrimento dos interesses de muitos; e [4] leva os muitos a enxergarem favoravelmente a sua própria repressão. A demonstração definitiva deste mecanismo está nos exemplos específicos dos diversos países em que o liberalismo econômico tem sido introduzido e aplicado.

Além disso é importante entender que o liberalismo econômico não existe como uma perversão do “verdadeiro capitalismo”; a economia neoclássica se desenvolve naturalmente da própria raiz do pensamento capitalista. Consequentemente a pergunta não é “o que deu errado com o capitalismo?”, porque ele está errado desde o princípio. Como diz George Weissman: “o germe do fascismo é endêmico ao capitalismo”.

É um erro, portanto, tentar redimir ou corrigir o capitalismo. A tentativa de voltar-se à forma de capitalismo anterior ao liberalismo econômico pode ser comparada ao esforço de escapar da Alemanha de 1945 para a Alemanha de 1934: uma contém a raiz da outra, o que torna o trajeto, além de impossível, inútil.

Aqui cabem muito bem as palavras de Simone de Beauvoir: “Protestar contra ‘excessos’ ou ‘abusos’ em nome da moralidade é um erro que denuncia uma cumplicidade ativa. Não há aqui ‘excessos’ ou ‘abusos’, só um sistema que tudo permeia”. Consequentemente, o desafio para o cristão não é abraçar um “capitalismo mais humano” ou um “capitalismo responsável”. O desafio é trocar o capitalismo por um sistema totalmente diferente.

O insano e lúcido Dan (Daniel Oudshoorn)
Poser or Prophet

25 de Fevereiro de 2010

Missão

Goiabas Roubadas

Vivo me forçando a me contradizer, para evitar me conformar ao meu próprio gosto.

Marcel Duchamp, citado por Harriet & Sidney Janis em “Marchel Duchamp: Anti-Artist”
– revista View (21/3/45)

Leia também:
Depende de nós
Meu testamento literário