Manuscritos estocados sob a rubrica 'Gírias e Falares'
10 de Setembro de 2006

Literalmente

Gírias e Falares

As línguas que não mudam são as mortas, mas às vezes as palavras mudam tanto que literalmente mudam de sentido. Literalmente, por exemplo, literalmente não é mais para ser entendida literalmente. Já se diz “literalmente morri de rir com o filme”, ou “o presidente da república é literalmente um asno” – frases que devem ser entendidas não literalmente, mas respectivamente como hipérbole e ofensa aos asnos. Há literalmente blogs sobre tudo: um deles, literally, limita-se literalmente a registrar o abuso de literalmente no idioma inglês – em inglês diz-se “literally”, literalmente, literalmente com o mesmo sentido do nosso literalmente. Se estou dizendo isso é literalmente para lembrar que hoje em dia literalmente significa por vezes literalmente o oposto de literalmente, literalmente literalmente.

27 de Agosto de 2006

Últimas parábolas

Gírias e Falares

Inofensivo é quem não dá motivo de ofensa. Fui inofensivo tempo demais.

* * *

Escapar é fugir deixando a capa para trás, como José da mulher de Potifar.

* * *

Fazer a barba no sentido de apará-la é resquício de um tempo sensato em que todos os homens tinham barba e iam ao barbeiro fazer a barba – tratar dela e apará-la, como hoje em dia as mulheres ainda fazem os pés e as mãos.

Pe. Manuel Bernardes: El Rei D. João II de Portugal, vendo preso um homem de baixa sorte, que tinha as barbas muito crescidas, disse: Soltai-o logo, e dai-lhe quatro mil réis para fazer a barba.

* * *

Palavra vem do latim (emprestado do grego) parábola, no sentido de “comparação”.

Jesus só falava em palavras.

Em português já escreveu-se palavla, palavoas, paravr’, palauras, paravõas, palabras e palaurra.

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Embora vem de em boa hora, de um tempo em que se costumava dividir o tempo em horas boas e más.

Gil Vicente: Paga-lho seu, embora ou ma hora.

Ir embora é ir em boa hora.

Vou embora.

05 de Agosto de 2006

A importação da guerra

Gírias e Falares, História

Aqui no Brasil, como é notório, devemos nosso idioma e grande parte da nossa cultura ao mundo de fala latina do Império Romano. Somos filhos dos césares, dos papas e dos gladiadores, e falamos quase literalmente a sua língua.

Mas as palavras são marinheiros promíscuos que deixam às vezes mais de um filho em cada porto. Nos seus embates freqüentes com o mundo latino, os loiros germanos (que ocupavam a Europa central e provocavam constantemente as fronteiras do Império Romano) desovaram entre nossos antepassados uma palavra que alastrou-se como vírus, acabou desbancando o termo latino original e atravessou os séculos para acomodar-se impunemente nas nossas manchetes. A palavra-vírus era werra – que acabou gerando, por linhas tortas, tanto o nosso “guerra” quanto o inglês “war”.

No quinto ou sexto século depois de Cristo o sonoro werra, da raiz indo-européia para “confusão, mistura, discórdia, revolta”, já havia derrubado no latim vulgar o termo latino para guerra – bellum, cuja influência entre nós limita-se a correlatos eruditos como bélico, belicoso e belicismo.

Ignoramos os verdadeiros motivos que levaram os latinos a abandonarem o nativo bellum em favor do importado werra. Alguns supõem que tenha sido a competição desleal de outro termo latino de som semelhante mas significado muito diverso: bellus, “bonito,” que sobreviveu no nosso “belo”. Na disputa entre as marcas, bellus se perpetuou e bellum conformou-se em ressuscitar sob outro nome de fantasia – para que não caíssemos talvez na fria de imaginar que há algo de belo a respeito de bellum/guerra. Werra possuía a vantagem adicional, penso eu, de ter (ao contrário do pedante bellum) vocação para grito de guerra; não é difícil imaginar um exército de germanos despencando-se na direção da câmera com macetes nas mãos e a palavra nos lábios.

Em português arcaico dizia-se, significativamente, güerra, pronúncia que sobrevive no italiano guerra. O inglês entrou na ciranda a partir do século XII, tendo sindo contaminado pelo francês arcaico werre, que se materializaria em war para os ingleses e guerre para os franceses. Curiosamente, a raiz sobrevive em alemão apenas em termos como wirr, “turbulento, labiríntico, confuso” e wurst, “salsicha” – pela denotação de “mistura”.

O que me faz lembrar que as guerras são como salsichas. Para você engolir é melhor não saber como são feitas.

01 de Junho de 2006

Bluteau, o Magnífico

Bluteau, Gírias e Falares

Houve um tempo, talvez mais são, em que as línguas eram infinitamente mais fluidas do que são. Em português “homem” escrevia-se homem, omem, omee ou ome – intercambiavelmente e muitas vezes num mesmo parágrafo. Nos nossos dias, em comparação, um idioma é coisa mais ou menos congelada, graças em parte a autores como Camões e Shakespeare, cujos textos acabaram consagrando determinadas soluções e ajudando a fixar o idioma. Porém a maior culpa – ou mérito – por essa recente fixidez das línguas, tanto em grafia quanto em significado, é dos dicionários.

Os dicionários são coisa moderna e demoraram a ser inventados. Durante milênios o que existiu basicamente foram dicionários bilingües, utilizados para traduzir e ensinar um outro idioma. Não ocorreria a ninguém empreender a tarefa insensata e redundante de compor um dicionário completo esclarecendo os termos de uma língua utilizando os termos dessa mesma língua. Por essa razão, antes dos dicionários nasceram as listas de palavras, e depois das listas de palavras vieram os dicionários de sinônimos, que não continham definições.

O primeiro verdadeiro dicionário da língua portuguesa é o vertiginoso Vocabulario Portuguez e Latino do padre Raphael Bluteau, publicado em 8 volumes (mais 2 de suplemento) entre 1712 e 1728.

O Vocabulario, cujo título completo é Vocabulario Portuguez e Latino, Aulico, Anatomico, Architectonico, Bellico, Botanico, Brasilico, Comico, Critico, Chimico, Dogmatico, Dialectico, Dendrologico, Ecclesiastico, Etymologico, Economico, Florifero, Forense, Fructifero, Geographico, Geometrico, Gnomonico, Hydrographico, Homonymico, Hierologico, Ichtyologico, Indico, Ifagogico, Laconico, Liturgico, Lithologico, Medico, Musico, Meteorologico, Nautico, Numerico, Neoterico, Ortographico, Optico, Ornithologico, Poetico, Philologico, Phramaceutico, Quiddotativo, Qualitativo, Quantitativo, Rethorico, Rustico, Romano, Symbolico, Synonimico, Syllabico, Theologico, Terapeutico, Technologico, Uranologico, Xenophonico e Zoologico (autorizado com exemplos dos melhores escritores portuguezes e latinos, e offerecido a el-rey de Portvgval D. Joaõ V pelo Padre D. Raphael Bluteau, clerigo regular, doutor na Sagrada Theologia, Prêgador da Raynha da Inglaterra, Henriqueta Maria de França e Calificador no sagrado Tribunal da Inquisição de Lisboa) é uma daquelas obras tão vastas e ambiciosas que beira a lenda. Se algo pode ser dito com justiça sobre Bluteau, é que suas idéias não descansam, mas vagueiam incessantemente pelas rubricas do seu dicionário.

Ao contrário do que sugeriram amigos intrigados, não foi por razões teológicas ou devocionais, mas meramente hedonistas, que estoquei há alguns dias a página do Bluteau com entrada Baal.

A leitura de Bluteau me dá prazer em inúmeros níveis; quero apenas destacar alguns. Primeiro há a sensatez de um tempo em que a língua portuguesa não tinha acentos, a não ser os estritamente necessários ou diferenciais – um tempo em que era correto escrever tambem, opiniam, e demonio, e “é” escrevia-se he, mais ou menos como na internet dos nossos dias.

Num outro plano, gosto das evocativas informações de segunda mão, como Alexandre, cognominado Polyhistor, diz que os Chaldeos se jactavam de ter uns comentários de quinze mil annos nos quais se fazia mençam das grandezas do seu Bel como criador do mundo e ainda Dizem que em Alemanha costumaõ os Judeos escrever nas portas de suas casas Bagad, ou Mazaltob – precauções que falam de uma época em que os fatos eram extremamente difíceis de confirmar e a imaginação era indistinguível da informação. Que me importa a factualidade da transação? Poucas coisas me soam mais intrigantes ou prenhes de possibilidades do que um livro de quinze mil anos que descreve a criação do mundo. Lovecraft teria adorado.

O tom austero e distanciado das definições dos dicionários não havia sido inventado.

Terceiro, Bluteau escreve num momento da história em que o tom austero e distanciado das definições dos dicionários não havia sido inventado. Ninguém sabia de fato dizer o que devia constar ou ser descartado numa entrada de dicionário (na verdade ninguém sabe dizer ainda hoje, embora o laconismo e a aridez tenham se estabelecido). Bluteau por essa razão se permite deliciosas liberdades: seu dicionário faz alternar o tom de enciclópedia, de nota jornalística, de confissão, de devocional, de blog – como quando, ao enumerar os nomes pelos quais os homens adoraram o demônio ao longo da história, ele conclui: “por infinitas
Sortes de Nomes vaõs, que não tê conto”.

Finalmente, há o classicismo puro e simples do estilo, cuja precisão me faz às vezes pensar em Borges: Assentada numa dilatada campina está cercada de altos muros, fortificada com torres, & ornada de Pyramides.

Raphael Bluteau (1638-1734), como convém às figuras meteóricas de sua época, era homem internacional: nasceu em Londres de pais franceses, estudou na França e doutorou-se em Roma, porém adotou Portugal e faleceu em Lisboa.

Os últimos anos da sua longa vida, pois faleceu com perto de 95 anos, passou-os descansadamente, respeitado pelos homens mais doutos e instruídos do seu tempo que o estimavam como amigo e mestre. O Padre Bluteau era mais ou menos versado em todo o género de estudos, merecendo-lhe particular predileção o das línguas mortas e vivas. Falava desembaraçadamente a inglesa, francesa, italiana, portuguesa, espanhola e grega, tendo aprofundado o conhecimento das gramáticas de todas estas línguas, compondo e escrevendo com facilidade. Na Biblioteca Nacional de Lisboa há dois retratos seus, e dizem que na Imprensa Nacional também existe um na sala da contadoria.
Dicionário Histórico e Corográfico de Portugal (1904-1915)

15 de Março de 2006

Duzentas gramas

Gírias e Falares

Meu amigo Hélio, que é pai do Arthur e diz sonoramente trêss e déss (ao invés de, digamos, “trêis” e “déis”) fica indignado quando peço na padaria duzentas gramas de presunto – quando a forma correta, insiste ele, é “duzentos” gramas.

Sempre que acontece e estamos juntos acabamos discutindo uns dez minutos sobre modos diferentes de falar. Ele de praxe argumenta que as regras de pronúncia e ortografia, se existem, devem ser obedecidas – e que os mais cultos (como eu, um cara que traduz livros!) devem insistir na forma correta a fim de esclacerecer e encaminhar gente menos iluminada, como supõe-se seja a moça que me vende na padaria o presunto e o queijo.

Eu sempre argumento que quando ele diz que só existe uma forma correta de falar está usurpando um termo de outro ramo, e tentando aplicar a ética à gramática: como se falar “corretamente” implicasse em algum grau de correção moral; como se dizer “duzentas” gramas fosse incorrer numa falha de caráter e dizer “duzentos” fosse prova de virtude e integridade.

Ele vem então com aquela de que a moça da padaria talvez seja desculpável, por desconhecer a norma culta, mas eu, que a conheço, estou sim demonstrando uma falha de caráter ao ignorá-la em benefício dos outros – só para evitar o constrangimento de falar diferente. Quem sabe fazer o bem e não o faz comete pecado, aquela história.

Eu reconheço, finalmente, que falo de forma diferente dependendo de com quem estou falando, ou até mesmo do meu humor. Às vezes uso deliberadamente formas controversas/incultas como tentêmo ou ir ir porque intuo que são soluções não isentas de charme, especialmente na linguagem falada – e se recorremos a elas com simpatia e assombro infantis e sem sarcasmo e desprezo de gente grande. Pelo mesmo motivo, todas as gírias e dialetos locais me interessam.

Não que – por exemplo – a decisão de dizer “duzentas gramas” ao invés de “duzentos” seja consciente, uma premeditação de inclusão social. Só sou lembrado de que há algo de peculiar nela quando o Hélio está perto. Como descobri quando tive de falar inglês com meu amigo britânico Julian ao invés de teclar com ele no messenger, as línguas falada e a escrita são domínios inteiramente diversos, habitam universos que raramente se cruzam e utilizam recursos diferentes do cérebro. São dois pesos, duas medidas e pesam pelo menos setecentas gramas cada.

Tudo tomado, sou pós-moderno o bastante para acreditar que a “verdade” gramatical definitiva é uma ilusão ou uma curiosidade (onde está a Norma para me acusar de relativismo quando preciso dela?) e que as línguas que não mudam são as mortas.

Algumas vezes, portanto, a coisa certa a se fazer é ignorar a Norma, ou pervertê-la. Enquanto isso, gente querida como o Hélio balança a cabeça em reprovação quando me assento na roda desses escarnecedores.

Quando peço “duzentas gramas de presunto, por favor”, a moça da padaria invariavelmente repete, como que para extorquir minha profissão de fé à norma inculta e provocar o Hélio:

– DUZENTAS?

– Duzentas – eu confirmo, já meio arrependido, mas caindo ainda assim em tentação.