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	<title>A Bacia das Almas &#187; Gírias e Falares</title>
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	<description>Onde as ideias não descansam</description>
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		<title>Sem fioteza</title>
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		<pubDate>Thu, 25 Aug 2011 09:01:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Gírias e Falares]]></category>
		<category><![CDATA[amizade]]></category>
		<category><![CDATA[cordel]]></category>

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		<description><![CDATA[Ô PESTE, DEIXE DE MUNGANGO, DE MACAQUICE, QUE VOCÊ ANDA CHEIO DE NÓ PELAS COSTAS, MEIO ENGURUJADO, EMBIOCADO E SEM FIOTEZA COM ESSE NEGOCIO DE REFLEXÃO. VOLTE A PUBLICAR XILOGRAVURAS E TRECHOS DE CORDÉIS QUE TEM MUITO MAIS FUTURO. ABRAÇÃO, CABA VÉI! ARI O engenhoso fidalgo Dom Arievaldo Viana, em comentário a este documento Da [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ô PESTE,</p>
<p>DEIXE DE MUNGANGO, DE MACAQUICE, QUE VOCÊ ANDA CHEIO DE NÓ PELAS COSTAS, MEIO ENGURUJADO, EMBIOCADO E SEM FIOTEZA COM ESSE NEGOCIO DE REFLEXÃO.</p>
<p>VOLTE A PUBLICAR XILOGRAVURAS E TRECHOS DE CORDÉIS QUE TEM MUITO MAIS FUTURO.</p>
<p>ABRAÇÃO, CABA VÉI!</p>
<p>ARI</p>
<p align="right"><small>O engenhoso fidalgo <strong><a href="http://www.baciadasalmas.com/2005/a-gaiatice-de-dom-arievaldo/">Dom Arievaldo Viana</a></strong>, em comentário <a href="http://www.baciadasalmas.com/2005/o-ingrato/">a este documento</a></small><br />
<span style="color:#B0B0A0"><small>Da série: Do tempo em que a Bacia era aberta a comentários</small></span></p>
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		<title>Como escrever como o Paulo Brabo</title>
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		<pubDate>Tue, 11 Jan 2011 13:09:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Gírias e Falares]]></category>
		<category><![CDATA[The Net]]></category>
		<category><![CDATA[humor]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>

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		<description><![CDATA[Escrevendo sobre teologia e outras coisas sem grande importância, o impertinente (e mineiro, como se houvesse diferença1) Rogerio Brandão revelou sem querer cinco dos sete segredos que compõem o meu estilo. Seguindo esses cinco passos muito simples você alcançará rejeição imediata na terra, etc. Apresente-se como “principal dos pecadores” usando termos marcantes. Ex: patife, canalha, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Escrevendo sobre teologia e outras coisas sem grande importância, o impertinente (e mineiro, como se houvesse diferença<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/como-escrever-como-o-paulo-brabo/#footnote_0_2466" id="identifier_0_2466" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="Este &eacute;, naturalmente, o oitavo segredo: apresente duas coisas diferentes e depois finja acreditar que s&atilde;o uma mesma. E este &eacute; tamb&eacute;m o nono: apresente uma conclus&atilde;o arbitr&aacute;ria e emoldure-a com um &amp;#8220;naturalmente&amp;#8221;, de modo a gerar perplexidade universal.">1</a></sup>) <a href="http://teologia-livre.blogspot.com">Rogerio Brandão</a> revelou sem querer cinco dos sete segredos que compõem o meu estilo. Seguindo esses cinco passos muito simples você alcançará rejeição imediata na terra, etc.</p>
<ol>
<li>Apresente-se como “principal dos pecadores” usando termos marcantes. Ex: <em>patife, canalha, farsa, maltrapilho</em>, etc.</li>
<li>Vincule o Evangelho e escritos sacros com expressões fortes que são normalmente usadas para coisas “profanas”. Ex: <em>rebeldia do Reino, subversão de Jesus, sensualidade da mensagem, transgredir para o bem</em>.</li>
<li>Use, de igual modo, termos chocantes e metafóricos para destacar ideias principais. Ex: <em>prenhe de esperanças, parir escritos, beijar a ferida aberta pelo própria pena</em>.</li>
<li>Procure roubar termos da literatura e das ciências literárias. O pior deles ainda é: <em>O protagonista</em>.</li>
<li>Esbanje advérbios ou adjetivos (ou a união dos dois) para deixar claro o modo, a forma e a intensidade do que você quer dizer. Lembre-se sempre de uma contradição de sentidos. Ex. <em>desesperadamente correto, constrangedoramente lúcido, lucidamente constrangedor, vivendo absurdamente na linha do possível.</em> </li>
</ol>
<p align="right"><small><strong>Rogério Brandão</strong>, em <a href="http://teologia-livre.blogspot.com/2011/01/being-paulo-brabo.html">Being Paulo Brabo</a></small></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug057.gif"></p>
<b><small>NOTAS</small></b><ol class="footnotes"><li id="footnote_0_2466" class="footnote">Este é, naturalmente, o oitavo segredo: apresente duas coisas diferentes e depois finja acreditar que são uma mesma. E este é também o nono: apresente uma conclusão arbitrária e emoldure-a com um &#8220;naturalmente&#8221;, de modo a gerar perplexidade universal.</li></ol>]]></content:encoded>
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		<title>A divina claridade</title>
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		<pubDate>Fri, 24 Dec 2010 10:21:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Gírias e Falares]]></category>
		<category><![CDATA[Manuscritos]]></category>
		<category><![CDATA[jesus]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>
		<category><![CDATA[natal]]></category>
		<category><![CDATA[tolkien]]></category>

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		<description><![CDATA[Em seu encorpado The Road to Middle-Earth, Tom Shippey revisa laboriosamente e termina por demonstrar a noção de que Tolkien construiu o mundo de O Senhor dos Anéis a partir das palavras &#8211; seu peso, seu som, e em particular a sua história, &#8211; e não meramente através delas, como faria (ou pelo menos acreditaria) [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Em seu encorpado <em>The Road to Middle-Earth</em>, Tom Shippey revisa laboriosamente e termina por demonstrar a noção de que Tolkien construiu o mundo de <em>O Senhor dos Anéis</em> a partir das palavras &#8211; seu peso, seu som, e em particular a sua história, &#8211; e não meramente <em>através delas</em>, como faria (ou pelo menos acreditaria) um autor comum.</p>
<p>Se forçados a tanto, podemos chegar a admitir que as palavras foram criadas e persistem não para que objetos sejam nomeados, mas para que histórias sejam contadas. Alguns dentre nós somos capazes de crer que as narrativas são essenciais o bastante para que as palavras existam meramente a fim de mantê-las vivas.</p>
<p>Tolkien, no entanto, dava sinais de crer em algo mais ousado e, para o resto de nós, menos intuitivo. Para ele, as palavras não apenas existem para perpetuar histórias isoladas, mas as histórias <em>se perpetuam elas mesmas</em> em palavras isoladas.</p>
<p>Tolkien enxergava as palavras não como entidades estanques e mortas, mas como células vivas, portadoras de um DNA etimológico passível de análise, comparação e compreensão. Para usar uma metáfora contemporânea, ele via cada palavra como um arquivo compactado de computador, um daqueles arquivos (também pouco intuitivos) que escondem dentro de si arquivos mais numerosos e que ocupam mais espaço na memória do que eles mesmos. Para aqueles que sabem descompactá-las, cada palavra &#8211; digamos, &#8220;Tolkien&#8221;, &#8220;Shippey&#8221;, &#8220;benedetto&#8221;, &#8220;brabo&#8221; ou &#8220;sertão&#8221; &#8211; mostra ter embutida em si não apenas o seu significado (que é, por assim dizer, sua camada mais evidente), mas também a história de suas alterações, de seu emprego e de sua origem.</p>
<p><em>O Senhor dos Anéis</em> foi concebido e executado a partir dessa crença de que as palavras são tão poderosas que histórias inteiras podem caber dentro delas. Em <em>As duas torres</em>, Barbárvore professa algo parecido quando afirma: &#8220;Nomes verdadeiros contam a história das coisas a que pertencem, no meu idioma.&#8221; Como demonstrado por Shippey, Tolkien acreditava que, em certa medida, o mesmo era verdadeiro para todas as línguas.</p>
<p>Se for assim, num certo sentido todas as palavras são autoexplicativas, em qualquer que seja o idioma, e toda tradução é uma desnecessária redundância. Em conformidade com essa crença, Tolkien não se preocupou em apresentar ao seu leitor a tradução de alguns dos sonoros poemas recitados pelos elfos em seus idiomas nativos &#8211; muito embora na altura das primeiras edições da trilogia ninguém no mundo, além do próprio Tolkien, fosse capaz de interpretá-los.</p>
<p>Se digo tudo isso, e hoje, é porque acabei concluindo que a história do Natal e, portanto da encarnação, está de fato compactada nas palavras que usamos para contá-la &#8211; coisas como <em>estrela, paz</em> e <em>boa-vontade</em>, mas também <em>pastores, panos, cidade, presentes</em>.</p>
<p>E isso, muito evidentemente, em todas as línguas. No nono verso do segundo capítulo do evangelho de Lucas, na versão da Vulgata, está escrito:</p>
<blockquote><p>Et ecce angelus Domini stetit iuxta illos et claritas Dei circumfulsit illos et timuerunt timore magno.</p></blockquote>
<p>Está aqui, muito evidentemente, toda a história; tudo que veio antes e tudo que veio depois, da criação do mundo à precária luz que persista talvez neste preciso momento. Para ser honesto à visão de Tolkien, esta tudo embutido neste único <em>claritas</em>.</p>
<p>Agora que penso nisso, vejo como tremendo desafio não encontrar na <em>claritas</em> que circundou os pastores, apavorando ao mesmo tempo em que iluminava, todas as coisas. Estão aqui toda a lucidez, toda a glória, todo o desafio, todo o temor, todo o convite à coragem e cada &#8220;não tenham medo&#8221;, que antes de estarem no anjo já estavam em Jesus, e antes de serem descompactados em Jesus já corriam livres no sonho de Deus.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug018.gif"></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2009/uma-mesma-flor/">Uma mesma flor</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2008/o-dia-mais-banal/">O dia mais banal</a></p>
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		<title>O poeta e o pescador</title>
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		<pubDate>Sat, 20 Nov 2010 07:17:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Gírias e Falares]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[poesia]]></category>

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		<description><![CDATA[Meu pai, pode ser necessário lembrar, usa o termo &#8220;poeta&#8221; como insulto. Encontro em Luis da Camara Cascudo &#8211; Geografia dos mitos brasileiros, prefácio &#8211; um uso análogo: Nas praias do Rio Grande do Norte, poeta é sinônimo de bicho-de-pé. &#8220;Estou aqui vendo se tiro esse poeta&#8221;, respondeu um pescador a Henrique Castriciano que lhe [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Meu pai, pode ser necessário lembrar, <a href="http://www.baciadasalmas.com/2004/a-bacia-das-almas-2/">usa o termo &#8220;poeta&#8221; como insulto</a>. Encontro em Luis da Camara Cascudo &#8211; <em>Geografia dos mitos brasileiros</em>, prefácio &#8211; um uso análogo:</p>
<blockquote><p>Nas praias do Rio Grande do Norte, poeta é sinônimo de bicho-de-pé. &#8220;Estou aqui vendo se tiro esse poeta&#8221;, respondeu um pescador a Henrique Castriciano que lhe perguntara por que estava escavacando os dedos com uma ponta-de-faca.</p></blockquote>
<h5>* * *</h5>
<p>O livro oferta ainda generosidades como esta: &#8220;O sertão respira [atualmente] pelas mil bocas das estradas e paga o conforto da eletricidade com o esquecimento das estórias antigas e saborosas&#8221;.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug065.gif"></p>
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		<title>A nebulosa norma culta</title>
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		<pubDate>Wed, 10 Nov 2010 02:01:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Gírias e Falares]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>

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		<description><![CDATA[Num livro publicado na Inglaterra em 1998, o linguista britânico Jarnes Milroy escreveu (pp. 64-65): “Numa época em que a discriminação em termos de raça, cor, religião ou sexo não é publicamente aceitável, o último baluarte da discriminação social explícita continuará a ser o uso que uma pessoa faz da língua“. Essas palavras me voltaram [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Num livro publicado na Inglaterra em 1998, o linguista britânico Jarnes Milroy escreveu (pp. 64-65): “Numa época em que a discriminação em termos de raça, cor, religião ou sexo não é publicamente aceitável, o último baluarte da discriminação social explícita continuará a ser o uso que uma pessoa faz da língua“.</p>
<p>Essas palavras me voltaram à lembrança quando li, no Jornal do Brasil do dia 10/11/2002, o seguinte trecho da coluna Coisas de política, assinada pela jornalista Dora Kramer:</p>
<blockquote><p>Dúvida pertinente: até quando será considerado politicamente correto ignorar que o presidente eleito do Brasil comete crassos e constantes erros de português?</p>
<p>Queira Deus que, em breve, o assunto já possa ser abordado sem provocar grandes traumas, porque, daqui a pouco, será preciso rever os currículos das escolas do ensino básico, a fim de adaptar as lições sobre plural e concordância ao idioma que as crianças ouvem o presidente falar na televisão.</p></blockquote>
<p>Evidentemente, não era a primeira vez que eu lia esse tipo de afirmação preconceituosa sobre o modo de falar de Luiz Inácio Lula da Silva — todos sabemos que esse foi um dos instrumentos de difamação lançados por seus oponentes nas disputas eleitorais de 1989, 1994 e 1998. O que me chamou a atenção foi a sobrevivência desses argumentos, com a mesma intensidade, mais de uma década depois.</p>
<p>Duas semanas mais tarde, o jornalista Daniel Piza escreveu, no Caderno 2 do jornal O Estado de S. Paulo (24/11/2002):</p>
<blockquote><p>Por que não me ufano: Lula, seus companheiros de PT e grande parte da população maltratam o idioma cortando o “s” final das palavras e todas as concordâncias que a lógica sintática pede. Que não seja a morte do plural, em nenhum dos sentidos.</p></blockquote>
<p>Seria muita ilusão supor que uma vitória como foi a de Lula nas eleições de 2002 bastaria para que o preconceito linguístico desaparecesse de vez da nossa sociedade. Afinal, de todos os conjuntos de superstições infundadas que compõem a cultura brasileira, nenhum é tão resistente, parece, quanto o das ideias preconcebidas que impregnam nosso imaginário a respeito de línguas em geral e, mais especificamente, da língua que falamos.</p>
<p>Simplesmente, o preconceito linguístico não existe. O que existe, de fato, é um profundo e entranhado preconceito social. Se discriminar alguém por ser negro, índio, pobre, nordestino, mulher, deficiente físico, homossexual etc. já começa a ser considerado publicamente inaceitável (o que não significa que essas discriminações tenham deixado de existir) e politicamente incorreto, fazer essa mesma discriminação com base no modo de falar da pessoa é algo que passa com muita naturalidade, e a acusação de “falar tudo errado”, “atropelar a gramática” ou “não saber português” pode ser proferida por gente de todos os espectros ideológicos, desde o conservador mais empedernido até o revolucionário mais radical. Por que será que é assim?</p>
<p>É que a linguagem, de todos os instrumentos de controle e coerção social, talvez seja o mais complexo e sutil, sobretudo depois que, ao menos no mundo ocidental, a religião perdeu sua força de repressão e de controle oficial das atitudes sociais e da vida psicológica mais íntima dos cidadãos. E tudo isso é ainda mais pernicioso porque a língua é parte constitutiva da identidade individual e social de cada ser humano — em boa medida, nós somos a língua que falamos.</p>
<p>Infelizmente, num longo processo histórico, o que passou a ser chamado de língua é uma coisa que é vista como exterior a nós, algo que estaria acima e fora de qualquer indivíduo, externo à própria sociedade: uma espécie de entidade mística sobrenatural, que existe numa dimensão etérea secreta, imperceptível aos nossos sentidos, e à qual só uns poucos iniciados têm acesso. E por acreditar nisso que Daniel Piza pôde escrever que Lula, seus companheiros de PT e grande parte da população “maltratam o idioma”. É como se a língua não pertencesse a cada um de nós, não fizesse parte da nossa própria materialidade física, não estivesse inscrita dentro de nós — por isso ela pode ser “maltratada”, “pisoteada”, “atropelada”: a língua é vista como um Outro.</p>
<p>O dogma da infalibilidade papal virou piada, mas quase ninguém zomba dos dogmas gramaticais (mais velhos que a religião cristã). Por que os rótulos de “certo” e “errado” são abandonados, e até ridicularizados, em outras esferas da vida social, mas permanecem vivos e ativos quando o assunto é língua? Por que ninguém se dá conta de que a nebulosa norma culta é um produto humano e, portanto, imperfeito, falho e suscetível de contestação e reformulação?</p>
<p align="right"><small><strong>Marcos Bagno</strong>, em <em>A Norma Oculta: Língua e poder na sociedade brasileira</em></small></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug067.gif"></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/duzentas-gramas/">Duzentas gramas</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2005/sem-nocao/">Sem noção</a></p>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>ERRATA &#8211; A bacia das almas</title>
		<link>http://www.baciadasalmas.com/2009/errata-a-bacia-das-almas/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=errata-a-bacia-das-almas</link>
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		<pubDate>Sat, 26 Dec 2009 09:34:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Gírias e Falares]]></category>
		<category><![CDATA[os livros da bacia]]></category>

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		<description><![CDATA[Todo livro é, em alguma medida, uma monstruosidade, uma fabricação cuja coesão depende de fatores inteiramente imponderáveis, equilíbrio que o menor destempero pode transtornar. Porém alguns livros são mais monstruosos dos que os outros: estou pensando no livro da Bacia, em que costuramos arbitrariamente cinco anos de conteúdo na tentativa de emprestar uma feição apenas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Todo livro é, em alguma medida, uma monstruosidade, uma fabricação cuja coesão depende de fatores inteiramente imponderáveis, equilíbrio que o menor destempero pode transtornar. Porém alguns livros são mais monstruosos dos que os outros: estou pensando<a href="http://www.mundocristao.com.br/produtosdet.asp?cod_produto=10721&#038;cod_categoria=150"> no livro da Bacia</a>, em que <a href="http://www.baciadasalmas.com/2009/sobre-o-livro-da-bacia/">costuramos arbitrariamente cinco anos de conteúdo</a> na tentativa de emprestar uma feição apenas aceitável ao que é muito evidentemente um monstro de Frankenstein.</p>
<p>Um pequeno exército de revisores de estilo e de gramática (e incluo-me, modestamente, nesse contingente) submeteu o manuscrito final, preparado por mim, ao seu crivo. Foi um processo com várias etapas e mecanismos redundantes de segurança, mas agora que o livro já está na rua vai ficando claro que alguns deslizes sobreviveram a todo esse escrutínio<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2009/errata-a-bacia-das-almas/#footnote_0_2153" id="identifier_0_2153" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="Parte do problema est&aacute; no estilo recursivo e retorcido do Brabo, pesadelo muito evidente para qualquer revisor (&amp;#8220;o que esse cara est&aacute; afinal de contas querendo dizer?&amp;#8221;). Por&eacute;m isso n&atilde;o explica tudo, visto que eu mesmo participei ativamente do processo de revis&atilde;o">1</a></sup> &#8211; apenas não sabemos ainda quantos.</p>
<p>Revisar é lutar contra a mais potente forma de cegueira, aquela pela qual as palavras nos seduzem a crer que estão mais claras do que na realidade são. Na esperança de que haja uma segunda edição do livro ou, mais propriamente, movido pelo temor de que não haja, resolvi reunir neste documento os deslizes de gramática e estilo da primeira edição, à medida em que os encontro ou me são denunciados.</p>
<p><strong>A BACIA DAS ALMAS, ERRATA VIRTUAL</strong></p>
<p><strong>• Página 29</strong><br />
<em>> Onde está escrito:</em><br />
A revelação está <em>no quero</em> pedir que você esqueça.<br />
<em>> Deve ser:</em><br />
A revelação está no que quero pedir que você esqueça.<br />
Capturada por: <strong>Wagner Coelho</strong></p>
<p><strong>• Página 42</strong><br />
<em>> Onde está escrito:</em><br />
Divide céus e mares, coloca luz e escuridão <em>em comportamentos</em> estanques.<br />
<em>> Deve ser:</em><br />
Divide céus e mares, coloca luz e escuridão em compartimentos estanques.<br />
Capturada por: <strong>Roselena de Oliveira Landenberger</strong></p>
<p><strong>• Página 81</strong><br />
<em>> Onde está escrito:</em><br />
Ao mesmo tempo <em>e estúpida</em> e condenável.<br />
<em>> Deve ser:</em><br />
Ao mesmo tempo estúpida e condenável.<br />
Capturada por: <strong>Roselena de Oliveira Landenberger</strong></p>
<p><strong> • Página 127</strong><br />
<em>> Onde está escrito:</em><br />
Vi de imediato a futilidade e a prepotência de tentar <em>proteger-me</em> da morte (como havia feito, sem sucesso) os que estavam comigo.<br />
<em>> Deve ser:</em><br />
Vi de imediato a futilidade e a prepotência de tentar proteger da morte (como havia feito, sem sucesso) os que estavam comigo.<br />
Capturada por: <strong>Paulo Brabo</strong></p>
<p><strong> • Página 127</strong><br />
<em>> Onde está escrito:</em><br />
Deus <em>ou destino</em> exigiam que eu me dobrasse.<br />
<em>> Deve ser:</em><br />
Deus ou o destino exigiam que eu me dobrasse.<br />
Capturada por: <strong>Roselena de Oliveira Landenberger</strong></p>
<p><strong> • Página 134</strong><br />
<em>> Onde está escrito:</em><br />
Um mundo em que a flecha do tempo se desloque do futuro ao passado, embora impermeável à nossa intuição vulgar da realidade, <em>não inconcebível</em> para a física contemporânea.<br />
<em>> Deve ser:</em><br />
Um mundo em que a flecha do tempo se desloque do futuro ao passado, embora impermeável à nossa intuição vulgar da realidade, não é inconcebível para a física contemporânea.<br />
Capturada por: <strong>Paulo Brabo</strong></p>
<p><strong> • Página 193</strong><br />
<em>> Onde está escrito:</em><br />
Teologia <em>racional</em>.<br />
<em>> Deve ser:</em><br />
Teologia relacional.<br />
Capturada por: <strong>Paulo Brabo</strong></p>
<p><strong> • Página 196</strong><br />
<em>> Onde está escrito:</em><br />
E na pedrinha estará <em>gravada </em>o desenho.<br />
<em>> Deve ser:</em><br />
E na pedrinha estará gravado o desenho.<br />
Capturada por: <strong>Roselena de Oliveira Landenberger</strong></p>
<p><strong> • Página 206</strong><br />
<em>> Onde está escrito:</em><br />
As orações ao Google <em>tem</em> um potencial de resposta avassalador.<br />
<em>> Deve ser:</em><br />
As orações ao Google têm um potencial de resposta avassalador.<br />
Capturada por: <strong>Roselena de Oliveira Landenberger</strong></p>
<p><strong> • Página 213</strong><br />
<em>> Onde está escrito:</em><br />
Era novembro de 2005 e eu estava com meu amigo inglês Julian <em>em Pernambuco</em>, no calçadão da perfumada Campina Grande.<br />
<em>> Deve ser:</em><br />
Era novembro de 2005 e eu estava com meu amigo inglês Julian na Paraíba, no calçadão da perfumada Campina Grande.<br />
Capturada por: <strong>Rondinelly Gomes Medeiros (paraibano)</strong></p>
<p><strong> • Página 233</strong><br />
<em>> Onde está escrito:</em><br />
<em>O fariseu</em> voltou para casa sentindo-se justificado.<br />
<em>> Deve ser:</em><br />
O cristão voltou para casa sentindo-se justificado.<br />
Capturada por: <strong>Roselena de Oliveira Landenberger</strong></p>
<p><strong> • Página 267</strong><br />
<em>> Onde está escrito:</em><br />
Somos, <em>cada um nós</em>, uma obra coletiva.<br />
<em>> Deve ser:</em><br />
Somos, cada um de nós, uma obra coletiva.<br />
Capturada por: <strong>Roselena de Oliveira Landenberger</strong></p>
<p><strong> • Página 271</strong><br />
<em>> Onde está escrito:</em><br />
É a precisa distância entre a religião do oriente <em>e do ocidente</em>.<br />
<em>> Deve ser:</em><br />
É a precisa distância entre a religião do oriente e a do ocidente.<br />
Capturada por: <strong>Roselena de Oliveira Landenberger</strong></p>
<p><strong> • Página 281</strong><br />
<em>> Onde está escrito:</em><br />
É menos herética <em>do poderia</em> parecer.<br />
<em>> Deve ser:</em><br />
É menos herética do que poderia parecer.<br />
Capturada por: <strong>Roselena de Oliveira Landenberger</strong></p>
<p><strong> • Página 315</strong><br />
<em>> Onde está escrito:</em><br />
Era agora mais de <em>uma tarde</em>.<br />
<em>> Deve ser:</em><br />
Era agora mais de uma da tarde.<br />
Capturada por: <strong>Roselena de Oliveira Landenberger</strong></p>
<p><strong> • Página 317</strong><br />
<em>> Onde está escrito:</em><br />
Essa preocupação em não sacrificar o cenário natural no altar do progresso é <em>exemplificado</em> pelo desespero de Sam.<br />
<em>> Deve ser:</em><br />
Essa preocupação em não sacrificar o cenário natural no altar do progresso é exemplificada pelo desespero de Sam.<br />
Capturada por: <strong>Roselena de Oliveira Landenberger</strong></p>
<p><strong> • O cabeçalho de todas as páginas ímpares da última seção do livro (301-323) </strong><br />
<em>> Onde está escrito:</em><br />
<em>Confissões</em><br />
<em>> Deve ser:</em><br />
Como salvar o mundo<br />
Capturada por: <strong>Roselena de Oliveira Landenberger</strong></p>
<h5>* * *</h5>
<p>Você diagnosticou algum deslize no texto do <a href="http://www.mundocristao.com.br/produtosdet.asp?cod_produto=10721&#038;cod_categoria=150">livro da Bacia</a>? <a href="http://www.baciadasalmas.com/contato">Denuncie</a>.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug025.gif"></p>
<b><small>NOTAS</small></b><ol class="footnotes"><li id="footnote_0_2153" class="footnote">Parte do problema está no estilo recursivo e retorcido do Brabo, pesadelo muito evidente para qualquer revisor (&#8220;o que esse cara está afinal de contas querendo dizer?&#8221;). Porém isso não explica tudo, visto que eu mesmo participei ativamente do processo de revisão</li></ol>]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>Número ordinal</title>
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		<pubDate>Thu, 15 Oct 2009 11:24:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Gírias e Falares]]></category>
		<category><![CDATA[Offline]]></category>
		<category><![CDATA[cristianismo]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>

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		<description><![CDATA[Em italiano &#8220;cristianismo&#8221; é cristianesimo, o que me faz rir todas as vezes, naturalmente, porque ouvido em português parece reduzir o cristianismo a número ordinal com conotação especial para o exagero ou para o tédio: &#8211; Você é a cristianésima pessoa a me dizer a mesma coisa.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Em italiano &#8220;cristianismo&#8221; é <em>cristianesimo</em>, o que me faz rir todas as vezes, naturalmente, porque ouvido em português parece reduzir o cristianismo a número ordinal com conotação especial para o exagero ou para o tédio:</p>
<p>&#8211; Você é a <em>cristianésima</em> pessoa a me dizer a mesma coisa.</p>
<p align="center"><img src="http://web.newsguy.com/carpen/images/orna065.gif"></p>
]]></content:encoded>
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		<title>O ofício dos chavões</title>
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		<pubDate>Sat, 19 Sep 2009 22:55:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Grandes Navegações]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[humor]]></category>

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		<description><![CDATA[Foras-chavão no namoro cristão: 1. Presbiteriana: &#8220;Vamos continuar orando, se Deus quiser mesmo, acabaremos juntos&#8221;. 2. Metodista: &#8220;Não sei é a vontade de Deus, mas não é a minha&#8221;. 3. Assembleiana: &#8220;O Senhor me revelou que você não é meu escolhido&#8221;. 4. Católica: &#8220;Vou me casar com Jesus!&#8221; 5. Universal: &#8220;Ore a respeito, e se [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Foras-chavão no namoro cristão:</strong><br />
1. Presbiteriana: &#8220;Vamos continuar orando, se Deus quiser mesmo, acabaremos juntos&#8221;.<br />
2. Metodista: &#8220;Não sei é a vontade de Deus, mas não é a minha&#8221;.<br />
3. Assembleiana: &#8220;O Senhor me revelou que você não é meu escolhido&#8221;.<br />
4. Católica: &#8220;Vou me casar com Jesus!&#8221;<br />
5. Universal: &#8220;Ore a respeito, e se não ficarmos juntos, é porque você não teve fé o suficiente&#8221;.</p>
<p><strong>Reserva:</strong><br />
I. Batista: “Precisei tomar uma decisão a respeito”.<br />
II. Adventista: “Você vai ficar bem, Jesus já está voltando”.<br />
III. Internacional da Graça: “Nâo posso mais dedicar tempo pra você, porque es-tou se-guiiiin-doo / a Je-sus Criiiis-tooo…”</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug055.gif"></p>
<p><small>É um serviço sujo, mas alguém tem de fazer: que seja então o Keydom, do <a href="http://oficiodoschavoes.blogspot.com">Ofício dos Chavões</a>. Porque o meio é a mensagem.</small></p>
<h5>* * *</h5>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2007/os-truques-da-profissao">Os truques da profissão</a></p>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>Podem passar a sacolinha</title>
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		<pubDate>Sat, 25 Jul 2009 11:34:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Gírias e Falares]]></category>
		<category><![CDATA[bacia]]></category>

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		<description><![CDATA[ou, o verdadeiro significado de &#8220;Bacia das Almas&#8221;. Faz sentido. Anos depois de publicar esta explicação (obviamente inventada, mas não por mim) para a origem da expressão &#8220;bacia das almas&#8221;, encontro esta plausível (mas não menos reveladora) definição no Dicionário Aulete digital: Bacia das almas 1 Prato ou recipiente em que são depositadas as esmolas, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>ou, o verdadeiro significado de <em>&#8220;Bacia das Almas&#8221;</em>.</strong></p>
<p align="center"><a href="http://www.baciadasalmas.com/images/2009/bits/verdadeira-bacia-b.jpg"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2009/bits/verdadeira-bacia.jpg" title="Clique para ampliar" /></a></p>
<p>Faz sentido.</p>
<p>Anos depois de publicar <a href="http://www.baciadasalmas.com/2005/a-bacia-das-almas">esta explicação</a> (obviamente inventada, mas não por mim) para a origem da expressão &#8220;bacia das almas&#8221;, encontro esta plausível (mas não menos reveladora) definição no <a href="http://aulete.uol.com.br/site.php?mdl=aulete_digital&#038;op=loadVerbete&#038;palavra=bacia">Dicionário Aulete digital</a>:</p>
<p><strong>Bacia das almas</strong><br />
<strong>1</strong> Prato ou recipiente em que são depositadas as esmolas, nas igrejas.<br />
<strong>2</strong> <em>Fig.</em> Situação dramática, desesperadora, crítica.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug004.gif"></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Bluteau redefine a internet</title>
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		<pubDate>Sat, 18 Apr 2009 09:00:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>

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		<description><![CDATA[O formidável dicionário de Raphael Bluteau, escrito entre 1712 e 1728, pode ser agora consultado na íntegra pela internet. Basta visitar esta página dos Instituto de Estudos Brasileiros da USP, e na coluna da esquerda escolher o link Vocabulario Portuguez. Para ler minha recomendação original à obra de Bluteau, clique aqui. Bluteau na internet Bluteau, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O formidável <a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/bluteau-o-magnifico">dicionário de Raphael Bluteau</a>, escrito entre 1712 e 1728, pode ser agora consultado na íntegra pela internet. Basta visitar <a href="http://www.ieb.usp.br/online">esta página</a> dos <em>Instituto de Estudos Brasileiros</em> da USP, e na coluna da esquerda escolher o link <em><strong>Vocabulario Portuguez</strong></em>. Para ler minha recomendação original à obra de Bluteau, <a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/bluteau-o-magnifico">clique aqui</a>.</p>
<p align="center"><a href="http://www.ieb.usp.br/online"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2009/bits/bluteau.gif" title="Bluteau, o magnífico" /></a></p>
<p><a href="http://www.ieb.usp.br/online">Bluteau na internet</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/bluteau-o-magnifico/">Bluteau, o magnífico</a></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Calcado na subjetividade</title>
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		<pubDate>Thu, 25 Oct 2007 19:03:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Gírias e Falares]]></category>
		<category><![CDATA[Jurássicas]]></category>
		<category><![CDATA[caneta bic]]></category>

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		<description><![CDATA[Ainda meu caderno de 1989, terceiro ano do curso noturno de Administração na UFPR. Moral da noite: compre QBOA e evite discursos calcados na subjetividade. Salvo engano, não aprendi a fazer nem uma coisa nem outra. Atenção para o videocassette em cima da televisão.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="left">Ainda meu caderno de 1989, terceiro ano do curso noturno de Administração na UFPR. Moral da noite: compre QBOA e evite discursos calcados na subjetividade. Salvo engano, não aprendi a fazer nem uma coisa nem outra.</p>
<p align="left">Atenção para o videocassette em cima da televisão.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2007/calcado-na-subjetividade.png"></p>
]]></content:encoded>
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		<title>De qüem foi a ideia</title>
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		<pubDate>Wed, 19 Sep 2007 08:45:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Gírias e Falares]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[humor]]></category>

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		<description><![CDATA[enjoo •assembleia •antirreligioso •leem •ideia •contrarregra •veem •antissemita •voo •infrassom •jiboia •feiura • Mexam no meu queijo, senhoras e senhores, mas não mexam nas minhas palavras. Mudem o nome das coisas, criem novos termos, deixem que rolem versões diferentes da mesma palavra até que vença a melhor. Que o idioma corra o seu curso, mas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<table cellpadding="10" width="30%" align="right" border="0" unselectable="on">
<tbody>
<tr>
<td>
<p align="right"><strong><font face="Arial" size="2">enjoo •<br />assembleia •<br />antirreligioso •<br />leem •<br />ideia •<br />contrarregra •<br />veem •<br />antissemita •<br />voo •<br />infrassom •<br />jiboia •<br />feiura •</font></strong></p>
</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p align="left">Mexam no meu queijo, senhoras e senhores, mas não mexam nas minhas palavras. Mudem o nome das coisas, criem novos termos, deixem que rolem versões diferentes da mesma palavra até que vença a melhor. Que o idioma corra o seu curso, mas não me venham – absolutamente não me venham, em pleno século XXI – alegar autoridade para impor reformas na língua de cima para baixo.</p>
<p>As línguas que não mudam são as mortas, mas isso não quer dizer que devamos ajudar o pintinho do futuro a sair do ovo. A reforma legítima do idioma é a democrática, aquela que com o passar de séculos faz vossa mercê virar você, e faz em minutos beleza virar blz. Essa reforma democrática da língua é tão arbitrária quanto a outra, mas tem para abalizá-la uma autoridade que nenhuma assembléia de gramáticos pode requerer para si.</p>
<p>Não tenho, fique claro, afeição pelo trema, pelo hífen ou pelo acento diferencial. Que caiam em desuso. Nada tenho contra o k, o w e o y; pelo contrário, fico feliz que caiam na boca do povo. Mas que ocorra naturalmente, e não por decisão de comitê.</p>
<p>Que reine, prefiro, a anarquia. Viva o <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Internet&ecirc;s" target="_blank">internetês</a>. Viva o <a href="http://aurelio.net/web/miguxeitor.html" target="_blank">miguxês</a>. Viva o reino das palavras que duram três meses. Viva quem escreve como fala, e viva quem fala diferente. Viva quem diz <a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/duzentas-gramas" target="_blank">duzentas gramas</a>. Cada um escreva como quer, e se quiser escreva diferente a cada vez que escrever a mesma palavra. Esta vitória da anarquia – valha-me nesta hora, cega deusa internet – estou pronto a endossar e celebrar. Mas não me venham teólogos de meia tigela deitar ortodoxias, acenando com a ameaça de reprovação eterna no vestibular.</p>
<p>Para o inferno com as regras. Que o uso determine o que é correto, e não o contrário.</p>
<h5>* * *</h5>
<p>As <a href="http://www1.folha.uol.com.br/folha/educacao/ult305u321373.shtml" target="_blank">novas regras da língua portuguesa</a> devem entrar em vigor em 2008, mas a implementação está sendo adiada pela sensata hesitação de Portugal.</p>
<h5>* * *</h5>
<p>O objetivo declarado da reforma é unificar a língua falada pela meia dúzia de países lusópatas, aumentando a respeitabilidade e a aplicabilidade do português – a terceira língua mais falada do mundo e a menos digna de respeito.</p>
<p>Não sei, mas para aumentar a respeitabilidade do português no Brasil talvez bastasse diminuir os nossos níveis de analfabetismo com esse idioma mesmo que está aí, o desunido e o capenga. Outro ato de bravura e totalmente digno de respeito seria adotarmos, retroativamente, <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Presença_Holandesa_no_Brasil">finalmente</a>, o holandês.</p>
<h5>* * *</h5>
<p><small><strong>Edição das 10h55 -</strong> Goiaba remetida pelo <a href="http://atrilha.blogspot.com/">Tuco</a></small></p>
<p>&#8230;o que aconteceu, ao longo do tempo, foi uma inversão da realidade histórica. As gramáticas foram escritas precisamente para descrever e fixar como &#8220;regras&#8221; e &#8220;padrões&#8221; as manifestações lingüísticas usadas espontaneamente pelos escritores considerados dignos de admiração, modelos a ser imitados. Ou seja, a gramática normativa é decorrência da lingua, e subordinada a ela, dependente dela. Como a gramática, porém, passou a ser um instrumento de poder e de controle, surgiu essa concepção de que os falantes e escritores da língua é que precisam da gramática, como se ela fosse uma espécie de fonte mística invisível da qual emana a língua &#8220;bonita&#8221;, &#8220;correta&#8221; e &#8220;pura&#8221;. A língua passou a ser subordinada e dependente da gramática. O que não está na gramática normativa &#8220;não é português&#8221;. E os compêndios gramaticais se transformaram em livros sagrados, cujos dogmas e cânones têm de ser obedecidos à risca para não se cometer nenhuma &#8220;heresia&#8221;.</p>
<p><small><strong>Preconceito Lingüístico – o que é, como se faz</strong><br />
Marcos Bagno</small></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Agora é antes</title>
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		<pubDate>Mon, 10 Sep 2007 09:02:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
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		<category><![CDATA[biografia]]></category>
		<category><![CDATA[humor]]></category>

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		<description><![CDATA[Eu estava no carro com o Cláudio depois do casamento da Mari, pronto para deixá-lo no hotel com o restante do pessoal. Eram 23h30 e eu sabia que eles tinham chegado às 03h00 da madrugada anterior. – Vocês devem estar cansados – comentei – e amanhã temos de acordar cedo. – É – explicou o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Eu estava no carro com o Cláudio depois do casamento da Mari, pronto para deixá-lo no hotel com o restante do pessoal. Eram 23h30 e eu sabia que eles tinham chegado às 03h00 da madrugada anterior.</p>
<p>– Vocês devem estar cansados – comentei – e amanhã temos de acordar cedo.</p>
<p>– É – explicou o Cláudio, – mas agora é antes.</p>
<h5>De que modo agora podia ser antes de ontem?</h5>
<p>Entendi imediamente o que ele quis dizer, que eu eu não me preocupasse porque eles estavam indo dormir esta noite mais cedo do que na noite anterior. Porém outra parte de mim, algum alerta mas inimaginativo processador central, entrou em looping assim que ouviu aquela inocente combinação de palavras,<em> agora é antes</em>. Fiquei inteiramente desconcertado; o Cláudio entendeu e começou a rir comigo. Meu cérebro reverberava de cócegas cognitivas, ressentindo-se grandemente de ver-se obrigado a conceber &#8220;agora&#8221; como &#8220;antes&#8221; – especialmente quando o objeto de &#8220;antes&#8221; era um momento inevitável do passado.</p>
<p>De que modo agora podia ser antes de ontem? Arremessado para fora dos trilhos, vivi por um instante a convicção de que as palavras são uma formidável farsa, ou então o tempo, ou então nossa forma de medir o tempo – talvez todas essas coisas.&nbsp; Mas o instante passou, e no momento seguinte eu já estava devidamente encaixado na cronologia das coisas de sempre.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Como diz o outro</title>
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		<pubDate>Mon, 07 May 2007 09:21:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Gírias e Falares]]></category>

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		<description><![CDATA[O TEXTO QUE DEU ORIGEM À BACIA! Em 2004, com a conclusão de um projeto no qual trabalháramos dez anos juntos, deixei de conviver diariamente com meu amigo Ivan e experimentei uma severa crise. Percebi que não tinha mais em quem despejar minha dose diária de reflexões infundadas e fragmentos de leituras sacrílegas. Um dia, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="center"><strong>O TEXTO QUE DEU ORIGEM À BACIA!</strong></p>
<p><small>Em 2004, com a conclusão de um projeto no qual trabalháramos dez anos juntos, deixei de conviver diariamente com meu amigo Ivan e experimentei uma severa crise. Percebi que não tinha mais em quem despejar minha dose diária de reflexões infundadas e fragmentos de leituras sacrílegas. Um dia, sem ter com quem dividir determinada percepção que me acometera no ônibus, resolvi colocá-la por escrito junto com a experiência que a inspirara. </p>
<p>A meio caminho da composição do texto lembrei da internet. Quem sabe eu devesse reivindicar a posse de uma ilha no mar global em que pudesse me desvencilhar de todo o conteúdo que me assombrava havia décadas; quem sabe eu pudesse, no caminho,&nbsp;descobrir alguma ligação entre partes de mim que permaneciam até aquele momento desconectadas umas das outras; quem sabe eu pudesse finalmente superar minha egrégia falta de disciplina e&nbsp;escrever algo que tivesse começo, meio e fim. Ai de nós! Acreditei insensatamente nessas promessas e levantei a Bacia. </p>
<p>Por alguma razão, no entanto, o episódio que deu origem à série permaneceu offline por todos esses anos, informe,&nbsp;inconcluso, cheio de pontas soltas.&nbsp;O estilo do Brabo estará talvez todo aí, mas sem muita convicção, tadinho. Está aqui, incipiente,&nbsp;o espírito que me levaria a deitar minha <a href="http://www.baciadasalmas.com/2005/os-agentes-da-ana">série de confissões sobre a ANA</a>&nbsp;(&#8220;o paradoxo está em que somos um dos povos menos proeminentes da história&#8221;).</p>
<p>Deixo-o aqui&nbsp;então, para livrar-me dele, incompleto como o deixei, de interesse apenas para os completistas.</small></p>
<p>&nbsp;</p>
<h2>COMO DIZ O OUTRO (2004)</h2>
<p align="center"><i>Apreensões sobre o Brasil, o mundo e acervo étnico</i>
<p>Não era, que eu soubesse, representativa em sentido algum aquela conversa entreouvida no ônibus. Era até mesmo incomum, porque na civilizada cidade em que resido (embora seja no Brasil) três estranhos normalmente não conversam em voz alta dentro de um coletivo sobre seja o que for – e estava claro que os três protagonistas eram isso mesmo, desconhecidos entre si, trocando opiniões com a&nbsp;desajeitada retórica&nbsp;de quem percebe ter uma audiência cativa.
<p>– No meu tempo – dizia o veterano do trio, um baixinho grisalho que aparentava ser mais velho do que os sessenta e poucos anos que em determinado momento afirmou ter, – quando eu cheguei em 76 a essa Curitiba, a coisa não era assim. Tinha emprego pra todo mundo. Eu ganhava por semana, chegava o final de semana e eu recebia 600, 700 reais, réis na época, que a gente gastava e ainda sobrava pra semana seguinte. O sujeito saía de um emprego e já tinha outro esperando ali na esquina. A coisa era diferente, eu pude até construir alguma coisa. Mas agora, do jeito que vão as coisas, nesses últimos vinte anos não deu pra fazer nada.
<p>Olhei de relance para o velho, que numa rápida avaliação profissional não me pareceu o tipo que tivesse construído alguma coisa, mesmo vinte anos atrás.
<p>– Pois já diz o meu avô, ele lutou na Segunda Guerra – retomou depressa o segundo interlocutor, trinta e tantos anos de idade, cabelos pretos engomados, o que falava mais e mais alto dos três – que pra consertar mesmo esse país era só mesmo colocando os militares na rua. Tirar tudo que é deputado e vereador e deixar só os militares e o presidente no governo. Fechar o Palácio, deixar um vereador ou outro e fazer essa gente trabalhar o dia inteiro. Tem vereador aí ganhando oito mil reais pra não fazer nada. Acabar com essa roubalheira, e vê se o país não vai pra frente.
<p>O velhinho concordou de imediato, e o terceiro participante, um jovem prematuramente barrigudo&nbsp;que usava&nbsp;óculos e barba por fazer, evidentemente mais politizado e convicto de não nutrir opiniões tão simplistas, calou e deu um meio sorriso.
<p>– Pois com os <i>bilhões</i> que gastam esses deputados – concluiu o velho, empolgado pela sensatez da sua argumentação – imagine o que não dava pra fazer.
<p>Enquanto eu tentava assuntar o mais desapaixonadamente que podia as eventuais vantagens e riscos de uma rigorosa intervenção militar, o segundo interlocutor, o falador, voltou à carga.
<p>– Trabalha comigo um cara que veio da China. Ele disse que na China, se alguém rouba, o sujeito é algemado em praça pública e leva um tiro na cabeça, e ainda vão cobrar a bala da família.
<p>– Pois aqui deveria ser assim – concordou na mesma hora o velhinho, empolgadamente.
<p>O terceiro, o jovem, claramente incomodado pelo rumo reacionário que a conversa estava tomando, não conseguiu mais ficar quieto.
<p>– É, mas se fosse tão bom lá ele não teria vindo pra cá.
<p>O segundo entendeu e não ousou responder, mas o velhinho tentou impor a sua própria lógica.
<p>– É – disse ele. – Essa gente ouve que aqui é bom, que aqui é primeiro mundo, e vem pra ver como é. Depois vem a decepção.
<p>– Só sei que o Brasil é muito complicado – voltou o segundo. Sem interrupção, para preencher o vácuo, ele lançou a estocada seguinte. – A culpa toda é mesmo dos estrangeiros que vieram aqui colonizar. Vieram, <em>como diz o outro,</em> roubar as nossas terras.
<p>– Pera lá – retrucou o jovem, que a essa altura não estava disposto a deixar passar mais nada. – Você é descendente de europeus. Você não tem como dizer que eles vieram roubar “as nossas terras”. Você não é descendente dos índios.
<p>– Sou descendente de espanhóis – reconheceu o outro. E arrematou, como se explicasse alguma coisa: – Mas se pelo menos tivesse sido um povo só.
<p>A platéia ao redor guardava desinteressado silêncio, entre um solavanco e outro, e quem deu a última palavra foi ele mesmo, o falador.
<p>– Só sei que esse país não tem mais jeito – disse ele. – A gente vai morrer e daqui a cinqüenta anos isso aqui vai estar a mesma coisa.
<p>O jovem e o velho, sem acrescentarem nada à discussão e sem se despedirem, desceram no ponto seguinte. Ficamos só eu, que não havia dito nada, e o falador, que agora desviava os olhos de todos porque não tinha com quem conversar.
<p>Sem deixar de observar impassivelmente a paisagem urbana que passava janela afora (eu, como todos os outros, não havia dado indicação alguma de que tinha estado prestando atenção; estávamos aparentemente acima daquele tipo de coisa), fiquei tentando diagnosticar o que naquele trecho roubado de conversa havia me perturbado&nbsp;ao ponto de não conseguir tirá-lo da cabeça.
<p>Tive de concluir que, extraídos os lugares-comuns, três questões levantadas naquela conferência coletiva haviam colocado meu giroscópio interior para funcionar: a menção de passagem à Segunda Guerra, uma das minhas obsessões mais caras; a questão da diversidade dos povos na formação do país; e as implicações da expressão “como diz o outro”.
<p>Aproveito esse pretexto, então, para expor certas impressões pessoais que me são muito caras e talvez não tenha oportunidade de deixar registradas em outro lugar. Só algumas dizem respeito ao Brasil. Mesmo que eu e você não estejamos no mesmo ônibus, essas impressões&nbsp;talvez sejam de interesse coletivo; mesmo se fazendo de desentendido, você pode querer ouvir.<br />
<h5>* * *</h5>
<p>Gosto muito, para minha vergonha, do jeitão do brasileiro (digo &#8220;jeitão&#8221; no esforço de evitar abstrações ainda maiores, abominações como &#8220;povo brasileiro&#8221;). Não quero defender e não tenho como justificar o nosso desempenho econômico e político, mas não são esses, deixo logo claro, os quesitos que levo em conta na minha avaliação.
<p>Devo admitir,&nbsp;por outro lado,&nbsp;que não há como separar uma coisa da outra: é nosso jeitão como povo que determina em última instância a natureza&nbsp;– peculiar, para dizer&nbsp;pouco&nbsp;– do nosso desempenho econômico e político. Não vou dizer que para se produzir um país verdadeiramente bem-sucedido nas arenas econômica e financeira requer-se um povo tão insuportável quanto o norte-americano – mas, pensando bem, acabei de dizer. Para se gerar um país improvável como o Brasil, um imenso e sublimado Portugal, um gigante marginal, pacato, generoso, reflexivo e submisso, requer-se um povo tão absurdo e tão impagável quanto o nosso.
<p>No desenrolar do enredo étnico, nos anais da destilação dos povos, o brasileiro é&nbsp;talvez o resultado mais&nbsp;prodigioso. Por todos os testemunhos que contam (o meu), o mais inclassificável, mais&nbsp;redundante e subutilizado; ao mesmo tempo o mais e o menos presunçoso de todos.
<p>O paradoxo está em que somos um dos povos menos proeminentes da história. Deixamos, em quinhentos anos, pegada nenhuma que não seja de chuteira. Nenhuma bandeira fincada, nenhum número importante, nenhum nome de destaque, nenhuma causa exageradamente meritória, nenhuma revolução de monta, nem um conflito que mereça lugar nas crônicas do futuro. Mais ou menos como Portugal na periferia da Europa, passamos nossa história sem quaisquer ocorrências especiais, à margem do que acontece no resto mundo – porque, por definição, nada <i>acontece</i> no Brasil. Se <i>acontece, </i>foi fora daqui.
<p>Somos uma nação de <i>voyeurs, </i>um dos povos mais bem informados do mundo, mas residentes no mirante dos fatos alheios, sobrevivendo com injeções regulares de cinema e noticiários estrangeiros. Como o <i>Popular </i>da crônica de Veríssimo, somos o curioso que aparece em segundo plano quando alguém está dando uma entrevista na rua a um repórter de televisão. É sempre &#8220;o outro&#8221; que opina, não a gente:&nbsp;<em>como diz o outro</em>.&nbsp;Somos meros observadores desinteressados no meio dessa confusão.
<p>Assistimos com perplexidade ao desfile de problemas internacionais,&nbsp;na bem-intencionada tentativa de compreender o que na nossa ótica faz pouco ou nenhum sentido.&nbsp;Pois, aparentemente, nenhum dos conflitos que impulsionam as agendas internacionais nos movem ou nos dizem respeito: o partidarismo, o fanatismo religioso, a ambição territorial, a devoção a idéias, as obsessões éticas. Nenhum desse motores nos motiva ou nos faz seguir adiante. Somos literalmente <i>hours-concours, </i>fora da competição – cem milhões de personagens complexos perdidos num enredo sem conflito, reclinados com enfado e alguma volúpia na proverbial mas apropriada imagem do berço esplêndido. <i>Eternamente.</i>
<p>Sem virtude, mas também sem ambição. Talvez estejamos nos preservando para um momento em que nossos recursos especiais sejam realmente necessários. Como o personagem de Chico Buarque, passamos pela vida nos reservando para ocasião oportuna.<br />
<blockquote>
<p>Quem me vê sempre parado, distante,<br />garante que eu não sei sambar<br />Tô me guardando prá quando o carnaval chegar<br />Eu tô só vendo, sabendo, sentindo,<br />escutando, não posso falar<br />Tô me guardando prá quando o carnaval chegar<br />E quem me ofende, humilhando,<br />pisando, pensando que eu vou aturar<br />Tô me guardando prá quando o carnaval chegar<br />E quem me vê apanhando da vida<br />duvida que eu vá revidar<br />Tô me guardando prá quando o carnaval chegar.</p>
</blockquote>
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		<title>Ser e estar</title>
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		<pubDate>Thu, 21 Sep 2006 09:12:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Gírias e Falares]]></category>
		<category><![CDATA[Pense comigo]]></category>

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		<description><![CDATA[Como se sabe, em inglês usa-se um único verbo, o infame to be, para duas condições que em português e outras línguas de gente não poderiam ser mais distintas uma da outra: ser e estar. Às vezes penso que a origem da diferença entre as barbaridades perpretadas pela América contra o mundo e as barbaridades [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Como se sabe, em inglês usa-se um único verbo, o infame <em>to be,</em> para duas condições que em português e outras línguas de gente não poderiam ser mais distintas uma da outra: <em>ser</em> e <em>estar.</em></p>
<p>Às vezes penso que a origem da diferença entre as barbaridades perpretadas pela América contra o mundo e as barbaridades perpetradas pelo Brasil contra si mesmo está na diferença do idioma. É uma questão clara de ser e de estar. <em>To be or to be, <strong>that</strong> is the question.</em></p>
<p>Porque, naturalmente, não pode haver psicologia mais oposta do que entre alguém que diferencia ser de estar e alguém que não. Trata-se de uma distinção filosófica fundamental, talvez <em>A</em> distinção filosófica por excelência, aquela entre a imanência e a transcendência, entre o temporal e o eterno, entre o infinito e o além &#8211; e que em inglês não tem como ser expressa adequadamente.</p>
<h5>&#8220;Ser ou estar, eis a questão&#8221;.</h5>
</p>
<p>O cara diz &#8220;I am sad&#8221; e você não tem como dizer se ele está triste ou se é um cara triste. Shakespeare diz &#8220;that is the question&#8221; e você não tem como saber se a questão  em questão é temporária e localizada ou transcendente e diz respeito a todas as épocas. Talvez a melhor tradução seja mesmo a minha: &#8220;ser ou estar, eis a questão&#8221;.</p>
<p>Pessoalmente, não consigo imaginar como seria minha relação com um universo que não diferencie propriamente ser de estar. Se alguém pergunta se estou brabo, minha resposta pronta é &#8220;eu <em>sou</em> brabo,&#8221; distinção <del>sofisticadíssima</del> primária que em inglês é impossível fazer.</p>
<p>Dentre as dificuldades para um english-speaker que se dispõe a aprender o português,  a bifurcação do <em>to be</em> não será a menor. O sujeito vê-se obrigado a recorrer a artifícios (&#8220;ser&#8221; é sempre, &#8220;estar&#8221; é temporário&#8221;) para tentar explicar a si mesmo a diferença que para nós é natural como sanduíche. Ser não é &#8220;sempre&#8221;, nem estar é &#8220;temporário&#8221;. Isso não diz nada, my dear. <em>Ser é ser, estar é estar.</em> Se houvesse outro jeito de dizer, o português, que é uma língua riquíssima, diria.</p>
<p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug008.gif" alt="" width="85" height="72" /></p>
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		<title>Literalmente</title>
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		<pubDate>Sun, 10 Sep 2006 11:20:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[As línguas que não mudam são as mortas, mas às vezes as palavras mudam tanto que literalmente mudam de sentido. Literalmente, por exemplo, literalmente não é mais para ser entendida literalmente. Já se diz &#8220;literalmente morri de rir com o filme&#8221;, ou &#8220;o presidente da república é literalmente um asno&#8221; &#8211; frases que devem ser [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>As línguas que não mudam são as mortas, mas às vezes as palavras mudam tanto que literalmente mudam de sentido. Literalmente, por exemplo, literalmente não é mais para ser entendida literalmente. Já se diz &#8220;literalmente morri de rir com o filme&#8221;, ou &#8220;o presidente da república é literalmente um asno&#8221; &#8211; frases que devem ser entendidas não literalmente, mas respectivamente como hipérbole e ofensa aos asnos. Há literalmente blogs sobre tudo: um deles, <a href="http://literally.barelyfitz.com">literally</a>, limita-se literalmente a registrar o abuso de literalmente no idioma inglês &#8211; em inglês diz-se &#8220;literally&#8221;, literalmente, literalmente com o mesmo sentido do nosso literalmente. Se estou dizendo isso é literalmente para lembrar que hoje em dia literalmente significa por vezes literalmente o oposto de literalmente, literalmente literalmente.</p>
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		<title>Últimas parábolas</title>
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		<pubDate>Sun, 27 Aug 2006 03:40:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Gírias e Falares]]></category>

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		<description><![CDATA[Inofensivo é quem não dá motivo de ofensa. Fui inofensivo tempo demais. * * * Escapar é fugir deixando a capa para trás, como José da mulher de Potifar. * * * Fazer a barba no sentido de apará-la é resquício de um tempo sensato em que todos os homens tinham barba e iam ao [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Inofensivo</strong> é quem não dá motivo de ofensa. Fui inofensivo tempo demais.</p>
<h5>* * *</h5>
</p>
<p><strong>Escapar</strong> é fugir deixando a capa para trás, como José da mulher de Potifar.</p>
<h5>* * *</h5>
</p>
<p><strong>Fazer a barba</strong> no sentido de apará-la é resquício de um tempo sensato em que todos os homens tinham barba e iam ao barbeiro <em>fazer a barba</em> &#8211; tratar dela e apará-la, como hoje em dia as mulheres ainda <strong>fazem</strong> os pés e as mãos.</p>
<p>Pe. Manuel Bernardes: <em>El Rei D. João II de Portugal, vendo preso um homem de baixa sorte, que tinha as barbas muito crescidas, disse: Soltai-o logo, e dai-lhe quatro mil réis para fazer a barba.</em></p>
<h5>* * *</h5>
</p>
<p><strong>Palavra</strong> vem do latim (emprestado do grego) <em>parábola,</em> no sentido de &#8220;comparação&#8221;.</p>
<p>Jesus só falava em palavras.</p>
<p>Em português já escreveu-se palavla, palavoas, paravr&#8217;, palauras, paravõas, palabras e palaurra.</p>
<h5>* * *</h5>
</p>
<p><strong>Embora</strong> vem de <em>em boa hora,</em> de um tempo em que se costumava dividir o tempo em horas boas e más.</p>
<p>Gil Vicente: <em>Paga-lho seu, embora ou ma hora.</em></p>
<p>Ir <strong>embora</strong> é ir em boa hora.</p>
<p>Vou embora.</p>
<p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug013.gif" alt="" width="30" height="39" /></p>
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		<title>A importação da guerra</title>
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		<pubDate>Sat, 05 Aug 2006 08:31:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Gírias e Falares]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>

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		<description><![CDATA[Aqui no Brasil, como é notório, devemos nosso idioma e grande parte da nossa cultura ao mundo de fala latina do Império Romano. Somos filhos dos césares, dos papas e dos gladiadores, e falamos quase literalmente a sua língua. Mas as palavras são marinheiros promíscuos que deixam às vezes mais de um filho em cada [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Aqui no Brasil, como é notório, devemos nosso idioma e grande parte da nossa cultura ao mundo de fala latina do Império Romano. Somos filhos dos césares, dos papas e dos gladiadores, e falamos quase literalmente a sua língua.</p>
<p>Mas as palavras são marinheiros promíscuos que deixam às vezes mais de um filho em cada porto. Nos seus embates freqüentes com o mundo latino, os loiros germanos (que ocupavam a Europa central e provocavam constantemente as fronteiras do Império Romano) desovaram entre nossos antepassados uma palavra que alastrou-se como vírus, acabou desbancando o termo latino original e atravessou os séculos para acomodar-se impunemente nas nossas manchetes. A palavra-vírus era <em>werra</em> &#8211; que acabou gerando, por linhas tortas, tanto o nosso &#8220;guerra&#8221; quanto o inglês &#8220;war&#8221;.</p>
<p>No quinto ou sexto século depois de Cristo o sonoro <em>werra,</em> da raiz indo-européia para &#8220;confusão, mistura, discórdia, revolta&#8221;, já havia derrubado no latim vulgar o termo latino para guerra &#8211; <em>bellum,</em> cuja influência entre nós limita-se a correlatos eruditos como bélico, belicoso e belicismo.</p>
<p>Ignoramos os verdadeiros motivos que levaram os latinos a abandonarem o nativo <em>bellum</em> em favor do importado <em>werra.</em> Alguns supõem que tenha sido a competição desleal de outro termo latino de som semelhante mas significado muito diverso: <em>bellus,</em> &#8220;bonito,&#8221; que sobreviveu no nosso &#8220;belo&#8221;. Na disputa entre as marcas, <em>bellus</em> se perpetuou e <em>bellum</em> conformou-se em ressuscitar sob outro nome de fantasia &#8211; para que não caíssemos talvez na fria de imaginar que há algo de <em>belo</em> a respeito de <em>bellum/guerra. Werra</em> possuía a vantagem adicional, penso eu, de ter (ao contrário do pedante <em>bellum)</em> vocação para grito de guerra; não é difícil imaginar um exército de germanos despencando-se na direção da câmera com macetes nas mãos e a palavra nos lábios.</p>
<p>Em português arcaico dizia-se, significativamente, <em>güerra,</em> pronúncia que sobrevive no italiano <em>guerra</em>. O inglês entrou na ciranda a partir do século XII, tendo sindo contaminado pelo francês arcaico <em>werre,</em> que se materializaria em <em>war</em> para os ingleses e <em>guerre</em> para os franceses. Curiosamente, a raiz sobrevive em alemão apenas em termos como <em>wirr,</em> &#8220;turbulento, labiríntico, confuso&#8221; e <em>wurst,</em> &#8220;salsicha&#8221; &#8211; pela denotação de &#8220;mistura&#8221;.</p>
<p>O que me faz lembrar que as guerras são como salsichas. Para você engolir é melhor não saber como são feitas.</p>
<p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug018.gif" alt="" width="25" height="38" /></p>
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		<title>Bluteau, o Magnífico</title>
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		<pubDate>Thu, 01 Jun 2006 12:22:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Bluteau]]></category>
		<category><![CDATA[Gírias e Falares]]></category>

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		<description><![CDATA[Houve um tempo, talvez mais são, em que as línguas eram infinitamente mais fluidas do que são. Em português &#8220;homem&#8221; escrevia-se homem, omem, omee ou ome &#8211; intercambiavelmente e muitas vezes num mesmo parágrafo. Nos nossos dias, em comparação, um idioma é coisa mais ou menos congelada, graças em parte a autores como Camões e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Houve um tempo, talvez mais são, em que as línguas eram infinitamente mais fluidas do que são. Em português &#8220;homem&#8221; escrevia-se homem, omem, omee ou ome &#8211; intercambiavelmente e muitas vezes num mesmo parágrafo. Nos nossos dias, em comparação, um idioma é coisa mais ou menos congelada, graças em parte a autores como Camões e Shakespeare, cujos textos acabaram consagrando determinadas soluções e ajudando a <em>fixar</em> o idioma. Porém a maior culpa &#8211; ou mérito &#8211; por essa recente fixidez das línguas, tanto em grafia quanto em significado, é dos dicionários.</p>
<p>Os dicionários são coisa <a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/o-que-e-pos-moderno-e-o-que-nao-e">moderna</a> e demoraram a ser inventados. Durante milênios o que existiu basicamente foram dicionários bilingües, utilizados para traduzir e ensinar um outro idioma. Não ocorreria a ninguém empreender a tarefa insensata e redundante de compor um dicionário completo esclarecendo os termos de uma língua utilizando os termos dessa mesma língua. Por essa razão, antes dos dicionários nasceram as listas de palavras, e depois das listas de palavras vieram os dicionários de sinônimos, que não continham definições.</p>
<p>O primeiro verdadeiro dicionário da língua portuguesa é o vertiginoso <em>Vocabulario Portuguez e Latino</em> do padre Raphael Bluteau, publicado em 8 volumes (mais 2 de suplemento) entre 1712 e 1728.<a href="http://www.baciadasalmas.com/images/2006/bits/blu-00004-b.gif"> <img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2006/bits/blu-00004.gif" title="Clique para ampliar" border=0 class="left" /> </a></p>
<p>O Vocabulario, cujo título completo é <em>Vocabulario Portuguez e Latino, Aulico, Anatomico, Architectonico, Bellico, Botanico, Brasilico, Comico, Critico, Chimico, Dogmatico,  Dialectico, Dendrologico, Ecclesiastico, Etymologico, Economico, Florifero, Forense, Fructifero, Geographico, Geometrico, Gnomonico, Hydrographico, Homonymico, Hierologico, Ichtyologico, Indico, Ifagogico, Laconico, Liturgico, Lithologico, Medico, Musico, Meteorologico, Nautico, Numerico, Neoterico, Ortographico, Optico, Ornithologico, Poetico, Philologico, Phramaceutico, Quiddotativo, Qualitativo, Quantitativo, Rethorico, Rustico, Romano, Symbolico, Synonimico, Syllabico, Theologico, Terapeutico, Technologico, Uranologico, Xenophonico e Zoologico</em> (autorizado com exemplos dos melhores escritores portuguezes e latinos, e offerecido a el-rey de Portvgval D. Joaõ V pelo Padre D. Raphael Bluteau, clerigo regular, doutor na Sagrada Theologia, Prêgador da Raynha da Inglaterra, Henriqueta Maria de França e Calificador no sagrado Tribunal da Inquisição de Lisboa) é uma daquelas obras tão vastas e ambiciosas que beira a lenda. Se algo pode ser dito com justiça sobre Bluteau, é que suas idéias não descansam, mas vagueiam incessantemente pelas rubricas do seu dicionário.</p>
<p>Ao contrário do que sugeriram amigos intrigados, não foi por razões teológicas ou devocionais, mas meramente hedonistas, que estoquei há alguns dias a página do Bluteau com entrada <a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/baal">Baal</a>.</p>
<p>A leitura de Bluteau me dá prazer em inúmeros níveis; quero apenas destacar alguns. Primeiro há a sensatez de um tempo em que a língua portuguesa não tinha acentos, a não ser os estritamente necessários ou diferenciais &#8211; um tempo em que era <a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/duzentas-gramas">correto</a> escrever <em>tambem,</em> <em>opiniam,</em> e <em>demonio,</em> e &#8220;é&#8221; escrevia-se <em>he,</em> mais ou menos como na internet dos nossos dias.</p>
<p>Num outro plano, gosto das evocativas informações de segunda mão, como <em>Alexandre, cognominado Polyhistor, diz que os Chaldeos se jactavam de ter uns  comentários de quinze mil annos nos quais se fazia mençam das grandezas do seu Bel como criador do mundo</em> e ainda <em>Dizem que em Alemanha costumaõ os Judeos escrever nas portas de suas casas Bagad, ou Mazaltob</em> &#8211; precauções que falam de uma época em que os fatos eram extremamente difíceis de confirmar e a imaginação era indistinguível da informação. Que me importa a factualidade da transação? Poucas coisas me soam mais intrigantes ou prenhes de possibilidades do que um livro de quinze mil anos que descreve a criação do mundo. <a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/post-mortem">Lovecraft</a> teria adorado.</p>
<h5>O tom austero e distanciado das definições dos dicionários não havia sido inventado.</h5>
</p>
<p>Terceiro, Bluteau escreve num momento da história em que o tom austero e distanciado das definições dos dicionários não havia sido inventado. Ninguém <em>sabia</em> de fato dizer o que devia constar ou ser descartado numa entrada de dicionário (na verdade ninguém sabe dizer ainda hoje, embora o laconismo e a aridez tenham se estabelecido). Bluteau por essa razão se permite deliciosas liberdades: seu dicionário faz alternar o tom de enciclópedia, de nota jornalística, de confissão, de devocional, de blog &#8211; como quando, ao enumerar os nomes pelos quais os homens adoraram o demônio ao longo da história, ele conclui: &#8220;por infinitas<br />Sortes de Nomes vaõs, <em>que não tê conto&#8221;.</em> </p>
<p>Finalmente, há o <em>classicismo</em> puro e simples do estilo, cuja precisão me faz às vezes pensar em Borges: <em>Assentada numa dilatada campina está cercada de altos muros, fortificada com torres, &#38; ornada de Pyramides.</em></p>
<p>Raphael Bluteau (1638-1734), como convém às figuras meteóricas de sua época, era homem internacional: nasceu em Londres de pais franceses, estudou na França e doutorou-se em Roma, porém adotou Portugal e faleceu em Lisboa. </p>
<p>
<p style="padding-left:4em;padding-right:4em;">Os últimos anos da sua longa vida, pois faleceu com perto de 95 anos, passou-os descansadamente, respeitado pelos homens mais doutos e instruídos do seu tempo que o estimavam como amigo e mestre. O Padre Bluteau era mais ou menos versado em todo o género de estudos, merecendo-lhe particular predileção o das línguas mortas e vivas. Falava desembaraçadamente a inglesa, francesa, italiana, portuguesa, espanhola e grega, tendo aprofundado o conhecimento das gramáticas de todas estas línguas, compondo e escrevendo com facilidade. Na Biblioteca Nacional de Lisboa há dois retratos seus, e dizem que na Imprensa Nacional também existe um na sala da contadoria. <br /><small> <a href="http://www.arqnet.pt/dicionario/bluteau.html">Dicionário Histórico e Corográfico de Portugal</a> (1904-1915)</small></p>
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		<title>Duzentas gramas</title>
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		<pubDate>Wed, 15 Mar 2006 11:25:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Gírias e Falares]]></category>

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		<description><![CDATA[Meu amigo Hélio, que é pai do Arthur e diz sonoramente trêss e déss (ao invés de, digamos, &#8220;trêis&#8221; e &#8220;déis&#8221;) fica indignado quando peço na padaria duzentas gramas de presunto &#8211; quando a forma correta, insiste ele, é &#8220;duzentos&#8221; gramas. Sempre que acontece e estamos juntos acabamos discutindo uns dez minutos sobre modos diferentes [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Meu amigo Hélio, que é pai do Arthur e diz sonoramente <em>trêss</em> e <em>déss</em> (ao invés de, digamos, &#8220;trêis&#8221; e &#8220;déis&#8221;) fica indignado quando peço na padaria <em>duzentas</em> gramas de presunto &#8211; quando a forma correta, insiste ele, é &#8220;duzentos&#8221; gramas.</p>
<p>Sempre que acontece e estamos juntos acabamos discutindo uns dez minutos sobre modos diferentes de falar. Ele de praxe argumenta que as regras de pronúncia e ortografia, se existem, devem ser obedecidas &#8211; e que os mais cultos (como eu, um cara que <em>traduz</em> livros!) devem insistir na forma correta a fim de esclacerecer e encaminhar gente menos iluminada, como supõe-se seja a moça que me vende na padaria o presunto e o queijo.</p>
<p>Eu sempre argumento que quando ele diz que só existe uma forma <em>correta</em> de falar está usurpando um termo de outro ramo, e tentando aplicar a ética à gramática: como se falar &#8220;corretamente&#8221; implicasse em algum grau de correção <em>moral;</em> como se dizer &#8220;duzentas&#8221; gramas fosse incorrer numa falha de caráter e dizer &#8220;duzentos&#8221; fosse prova de virtude e integridade.</p>
<p>Ele vem então com aquela de que a moça da padaria talvez seja desculpável, por desconhecer a norma culta, mas eu, que a conheço, estou sim demonstrando uma falha de caráter ao ignorá-la em benefício dos outros &#8211; só para evitar o constrangimento de falar diferente. <em>Quem sabe fazer o bem e não o faz comete pecado,</em> aquela história.</p>
<p>Eu reconheço, finalmente, que falo de forma diferente dependendo de com quem estou falando, ou até mesmo do meu humor. Às vezes uso deliberadamente formas controversas/incultas como <em>tentêmo</em> ou <a href="http://www.baciadasalmas.com/2005/ir-ir/">ir ir</a> porque intuo que são soluções não isentas de charme, especialmente na linguagem falada &#8211; e se recorremos a elas com simpatia e assombro infantis e sem sarcasmo e desprezo de gente grande. Pelo mesmo motivo, todas as gírias e dialetos locais me interessam.</p>
<p><a href="http://www.nlm.nih.gov/exhibition/historicalanatomies/Images/1200_pixels/Vimont_t082.jpg"> <img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2006/bits/brain.jpg" title="Clique para ampliar" border=0 class="right" /> </a>Não que &#8211; por exemplo &#8211; a decisão de dizer &#8220;duzentas gramas&#8221; ao invés de &#8220;duzentos&#8221; seja consciente, uma premeditação de inclusão social. Só sou lembrado de que há algo de peculiar nela quando o Hélio está perto. Como descobri quando tive de <em>falar</em> inglês com meu amigo britânico Julian ao invés de <em>teclar</em> com ele no messenger, as línguas falada e a escrita são domínios inteiramente diversos, habitam universos que raramente se cruzam e utilizam recursos diferentes do cérebro. São dois pesos, duas medidas e pesam pelo menos setecentas gramas cada.</p>
<p>Tudo tomado, sou <a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/o-que-e-pos-moderno-e-o-que-nao-e">pós-moderno</a> o bastante para acreditar que a &#8220;verdade&#8221; gramatical definitiva é uma ilusão ou uma curiosidade (onde está a Norma para me acusar de relativismo quando preciso dela?) e que as línguas que não mudam são as mortas.</p>
<p>Algumas vezes, portanto, a coisa certa a se fazer é ignorar a Norma, ou pervertê-la. Enquanto isso, gente querida como o Hélio balança a cabeça em reprovação quando me assento na roda desses escarnecedores.</p>
<p>Quando peço &#8220;duzentas gramas de presunto, por favor&#8221;, a moça da padaria invariavelmente repete, como que para extorquir minha profissão de fé à norma inculta e provocar o Hélio:</p>
<p>&#8211; DUZENTAS?</p>
<p>&#8211; Duzentas &#8211; eu confirmo, já meio arrependido, mas caindo ainda assim em tentação.</p>
<p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug066.gif" alt="" width="54" height="79" /></p>
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		<title>A lambedeira lambeu o Zé</title>
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		<pubDate>Fri, 10 Mar 2006 10:39:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Gírias e Falares]]></category>

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		<description><![CDATA[DA SÉRIE MÚSICA QUE VOCÊ NÃO OUVIRIASE NÃO FOSSE AQUI Outro dia meu compadre cearense Arievaldo Viana reclamou que não falo mais sobre cultura nordestina, como se não me importasse mais com ela. O engenhoso fidalgo não sabe do que está falando. O nordeste está tão entranhado em mim que metade das músicas que ouço [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>
<p style="text-align:center;"><small>DA SÉRIE <strong>MÚSICA QUE VOCÊ NÃO OUVIRIA<br />SE NÃO FOSSE AQUI </strong></small></p>
<p>Outro dia meu compadre cearense Arievaldo Viana <a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/o-bibliotecario-de-babel/#comment-9207">reclamou</a> que não falo mais sobre cultura nordestina, como se não me importasse mais com ela.</p>
<p>O <a href="http://www.baciadasalmas.com/2005/a-gaiatice-de-dom-arievaldo">engenhoso fidalgo</a> não sabe do que está falando. O nordeste está tão entranhado em mim que metade das músicas que ouço são de veia nordestina.</p>
<p>Como prova irrefutável apresento esta estranha pérola, chupada do primeiro álbum (2001) do peculiaríssimo grupo de música nordestina <em>életrônica</em> liderado pelo paraibano Totonho e completado pelos anônimos Cabra.</p>
<p>O disco se chama, como costuma acontecer, <a href="http://tinyurl.com/qrxe5">Totonho e os Cabra</a> e a música é <em>Cabra Pentium</em> &#8211; um inusitado e <a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/o-que-e-pos-moderno-e-o-que-nao-e">pós-moderno</a> tecno-repente com toques de música experimental. Seu refrão anuncia sensatamente:</p>
<p>
<p style="text-align:center;"><em>A lambedeira lambeu o Zé. Cadê o cabra? Deu no pé.</em></p>
<p>&#8220;Cabra&#8221; é, como se sabe, nordestinês para &#8220;cara, sujeito, peão&#8221;. &#8220;Mundiça&#8221; é &#8220;gentalha, ralé, povaréu&#8221;. Já &#8220;lambedeira&#8221; é o nome que se dá na Paraíba à letal peixeira de dezoito polegadas, feita no jeito para acabar noite de forró em confusão e derramamento de sangue (&#8220;peixeira&#8221;, por sua vez, é como se diz em brasileiro &#8220;facão, faca grande&#8221;).</p>
<p>Gosto da música toda, mas especialmente de quando informam o Misael que quebraram o pote. Impossível não dançar sozinho com as mãos nas costas como faz o Arievaldo.</p>
<p>
<h1>C<small>ABRA PENTIUM</small></h1>
</p>
<p>
<p style="text-align:center;">[Visite a Bacia para ouvir o áudio]</p>
<p>Ouvi que nas bandas da Rússia, Europa, África e Japão<br />Tem cabra de todo jeito, cabra que fala alemão<br />Trava-línguas esquisitos de tudo quanto é nação</p>
<p>A lambedeira lambeu o Zé, lambeu o Zé, lambeu o Zé<br />Cadê o cabra? Deu no pé, deu no pé, deu no pé.</p>
<p>Quantos cabras tem no mundo, se toda mundiça é cabra?<br />Mestiço, mulato, negro, branco azedo endiabrado<br />Pra cada cabra de peia nasce um cabra safado</p>
<p>A lambedeira lambeu o Zé, lambeu o Zé, lambeu o Zé<br />Cadê o cabra? Deu no pé, deu no pé, deu no pé.</p>
<p>Uma denominação pra tratar teus companheiros<br />Pronome de tratamento pra santo ou cangaceiro<br />Que se cria no sertão e se exporta pro estrangeiro</p>
<p>A lambedeira lambeu o Zé, lambeu o Zé, lambeu o Zé<br />Cadê o cabra? Deu no pé, deu no pé, deu no pé.</p>
<p>Ei, Misael! Quebraro o pote! Ei, Misael! Quebraro o pote!<br />Ei, Misael! Quebraro o pote:<br />Judite não tem sorte, Judite não tem sorte!</p>
<p>A lambedeira lambeu o Zé, lambeu o Zé, lambeu o Zé<br />Cadê o cabra? Deu no pé, deu no pé, deu no pé.</p>
<p>Todo mundo aqui presente foi pego nessa tocaia<br />Armadilha, emboscada feita por Totonho e os Cabra<br />Você são nossos reféns de repente e emboladas.</p>
<h5>* * *</h5>
</p>
<p>Mais música ressonante de Totonho e os Cabra à sua disposição <a href="http://www.trama.com.br/totonho">aqui</a>.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Pensão</title>
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		<pubDate>Sun, 08 Jan 2006 08:28:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Família]]></category>
		<category><![CDATA[Gírias e Falares]]></category>
		<category><![CDATA[biografia]]></category>

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		<description><![CDATA[Garante meu pai que quando meu avô demorava a aparecer em seu carro de boi na curva da estrada, sinalizando assim que estava voltando em segurança do vilarejo de Orleans para a colônia leta do Rio Novo, minha vó (que é brasileira, e deve fazer 92 anos nesta quarta-feira) dizia que estava &#8220;com pensão&#8221; &#8211; [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Garante meu pai que quando meu avô demorava a aparecer em seu carro de boi na curva da estrada, sinalizando assim que estava voltando em segurança do vilarejo de Orleans para a colônia leta do Rio Novo, minha vó (que é brasileira, e deve fazer 92 anos nesta quarta-feira) dizia que estava &#8220;com <em>pensão</em>&#8221; &#8211; isto é, estava preocupada.</p>
<p>Não sei naquele tempo, mas meu pai acha hoje muito engraçado, e fica se perguntando de onde minha avó teria tirado a expressão. Um dia sugeri que &#8220;pensão&#8221; poderia ser corruptela de <em>apreensão</em>. Estar com <em>pensão</em> seria, por essa lógica, estar apreensiva. Essa solução pareceu nos satisfazer inteiramente.</p>
<p>Outro dia resolvi consultar, só por curiosidade, a entrada P<small>ENSÃO</small> no <em>Vocabulario Portuguez e Latino</em> de Raphael Bluteau &#8211; o primeiro verdadeiro dicionário da língua portuguesa, publicado entre 1712 e 1728. No segundo parágrafo encontrei o termo definido <em>quase</em> no sentido utilizado pela minha vó:</p>
<blockquote><p>	Parece que da difficuldade, &#38; repugnancia, com que alguns Pensionarios pagaõ as pensoens, se veyo a chamar pensaõ, qualquer cousa, que o cuydado da saude, ou outra razão semelhante nos obriga a fazer com continuaçaõ. E assim dizemos, que ter fontes<sup><a href="#fn1">1</a></sup>, he pensaõ, porque he necessario curallas todos os dias, &#38;c. Chama Horacio às pensoens da vida humana, <em>Munia vitæ</em>. Tenho mais pensoes, que outros. <em>Plus onerios habeo, quàm ahi. Cic.</em> Fazer isto todos os dias he pensaõ. <em>Id quotidie facere, grave est</em>, ou <em>onerosum est</em>. (Antes que a vigilancia, &#38; o trabalho fossem castigo da culpa, tinhaõ já sido pensoes da presidencia. Varella, Num. Vocal, pag. 175.)</p></blockquote>
<p>O sentido aqui parece ser, notadamente, o de <em>obrigação, encargo</em>, especialmente no sentido negativo de <em>incômodo<sup><a href="#fn2">2</a></sup></em> . Mas de &#8220;obrigação&#8221; para &#8220;preocupação&#8221; pode ser um pulo, especialmente considerando-se os exemplos: Tenho mais <em>pensoens</em> que os outros. Fazer isto todos os dias é <em>pensão</em>.</p>
<p>Ou, como diria a minha vó: esperar quem está demorando <em>onerosum est.</em></p>
<p>
<hr style="width: 30%; height: 2px;" /></p>
<p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2006/pensao.gif" alt="" width="400" height="921" /></p>
<p>
<hr style="width: 30%; height: 2px;" /></p>
<p>
<p id="fn1"><sup>1</sup> <em>Fontes</em> eram feridas abertas deliberadamente na pele, a fim de liberar os <em>humores malignos</em> responsáveis pelas doenças. </p>
<p>
<p id="fn2"><sup>2</sup> O Dicionário Houaiss registra &#8220;trabalho, incômodo&#8221; como sentidos figurados de <em>pensão</em>. Quem precisa de Bluteau.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Simple face</title>
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		<pubDate>Fri, 23 Sep 2005 09:52:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Gírias e Falares]]></category>
		<category><![CDATA[The Net]]></category>
		<category><![CDATA[amizade]]></category>
		<category><![CDATA[biografia]]></category>

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		<description><![CDATA[Há um ano, na primeira vez em que mencionei o Julian aqui na Bacia, escrevi que ele era um cara simples. Acontece que o Julian lê meu português impecável com a intermediação de um tradutor automático, que traduziu a expressão &#8220;cara simples&#8221; de forma muito singela e sensata &#8211; simple face. Lembro que alguns dias [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Há um ano, na primeira vez em que mencionei o Julian aqui na Bacia, <a href="http://www.baciadasalmas.com/index.php?p=155">escrevi</a> que ele era um cara simples. Acontece que o Julian lê meu português impecável com a intermediação de um tradutor automático, que traduziu a expressão &#8220;cara simples&#8221; de forma muito singela e sensata &#8211; <em>simple face</em>.</p>
<p><a href="http://www.baciadasalmas.com/images/2005/simple-face-b.jpg"> <img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2005/simple-face.jpg" title="Have you seen this man?" border=0 class="right" /> </a>Lembro que alguns dias depois, no messenger, ele mencionou o quanto havia gostado de ser chamado de <em>simple face</em>, e perguntou exatamente o que a expressão queria dizer. Respirei fundo e escrevi (em inglês) que cara simples é uma pessoa legal, um sujeito despretensioso, um indivíduo acessível. Ele logo pediu que eu parasse, dizendo que <em>simple face</em> explicava melhor o que eu estava querendo dizer.</p>
<p>Desde então o Julian adotou a expressão e volta com freqüência a ela. &#8220;Fulano&#8221;, ele diz de algum amigo seu, &#8220;is a <em>simple face.&#8221;</em> Quando falou-me sobre o artista <a href="http://www.danzanes.com">Dan Zanes</a>, com quem esteve na semana passada em Nova Iorque, Julian descreveu-o apenas como &#8220;very <em>simple faced</em>&#8221; &#8211; como se isso explicasse tudo, e talvez explique.</p>
<p>Outra coisa importante que aconteceu ao Julian na semana passada foi que ele teve a oportunidade de pegar nas mãos seus primeiros cordéis de verdade &#8211; da coleção pessoal do badaladíssimo quadrinista Art Spiegelman, que ele estava visitando. Meu amigo descreveu os livrinhos com três adjetivos muito bem escolhidos: <em>tiny, greasy, cheap paper</em> &#8211; minúsculos, ensebados, papel barato. </p>
<p>Era por causa daqueles livrinhos ensebados e seus improváveis artesãos, ele deve ter se forçado a refletir, que ele estava pronto para <a href="http://www.baciadasalmas.com/index.php?p=405">atravessar o Atlântico</a>. Ele estava em Nova Iorque, mas já experimentava de antemão que os cordéis são, eles mesmos, very <em>simple faced</em>. </p>
<p>Naturalmente, foi isso que o atraiu neles.</p>
<p>E talvez em mim, mas isso ele só vai ter certeza quando me conhecer.</p>
<p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug051.gif" alt="" width="77" height="70" /></p>
<p><small><strong>FALTA 1 DIA PARA A EXPEDIÇÃO CORDEL</strong></small></p>
]]></content:encoded>
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		</item>
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		<title>Ir ir</title>
		<link>http://www.baciadasalmas.com/2005/ir-ir/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=ir-ir</link>
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		<pubDate>Fri, 09 Sep 2005 09:11:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Gírias e Falares]]></category>

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		<description><![CDATA[São poucos brasileiros que conheço que usam o Futuro do Presente a seco, da forma como ele aparece fossilizado nos livros. Queremos parecer menos afetados (e, suspeitam alguns, mais americanos) e recorremos incessantemente ao atalho do verbo ir. Fora honrosas exceções, no diálogo informal não dizemos &#8220;transferirei a ligação&#8221;, mas &#8220;vou transferir a ligação&#8221;. Não [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>São poucos brasileiros que conheço que usam o Futuro do Presente a seco, da forma como ele aparece fossilizado nos livros. Queremos parecer menos afetados (e, suspeitam alguns, mais americanos) e recorremos incessantemente ao atalho do verbo <em>ir</em>.</p>
<p>Fora honrosas exceções, no diálogo informal não dizemos &#8220;<em>transferirei</em> a ligação&#8221;, mas &#8220;<strong>vou</strong> transferir a ligação&#8221;.</p>
<p>Não dizemos &#8220;ele <em>ficará </em>uma fera&#8221;, mas &#8220;ele <strong>vai</strong> ficar uma fera&#8221;.</p>
<p>Não dizemos &#8220;o professor <em>entregará </em>as notas&#8221;, mas &#8220;o professor <strong>irá </strong>entregar as notas&#8221;.</p>
<p>Essas liberdades que tomamos de ignorar um tempo verbal inteiro já me confundiram e muito. Certa vez, depois de travar irremediavelmente diante da mais simples das orações, recorri ao serviço do telegramática: &#8220;Qual é a forma certa&#8221;, implorei ao sujeito que me atendeu: &#8220;o homem <strong><em>vai </em></strong>viajar&#8221; ou &#8220;o homem <strong><em>irá </em></strong>viajar&#8221;?</p>
<p>Por dois ou três reais que caíram imperceptivelmente na conta telefônica, oraculou-me aquele anônimo gramático que <em>as duas formas estão corretas</em>. Aparentemente, tanto faz. O homem irá ou o homem vai &#8211; de uma forma ou de outra.</p>
<h5>Você <strong><em>vai ir</em></strong>?</h5>
</p>
<p>A nossa liberdade do cativeiro Futuro do Presente, garantida pela intermediação multitarefa do verbo auxiliar <em>ir</em>, gerou inúmeras excentricidades. Foi o Juliano (que trabalhou ao meu lado alguns inesquecíveis meses na SK, hoje é <a href="http://fotolog.net/tattoos4life">tatuador</a> e de vez em quando deixa uma esmola aqui na Bacia) que apresentou-me sem querer a que considero a mais preciosa delas: a locução verbal <em>ir ir</em>.</p>
<p>Para tocar horror, e por saber o quanto me agradavam gírias e modos de falar pitorescos e/ou inesperados, lembro que o Juliano recorria o tempo todo ao <em>ir ir</em>.</p>
<p>&#8211; Você <strong><em>vai ir,</em></strong> Purim? &#8211; ele perguntava candidamente, referindo-se a alguma festa.</p>
<p>E, antes que eu pudesse responder, ele mesmo sentenciava, já dispensando toda a idéia:</p>
<p>&#8211; Eu <strong><em>ia ir,</em> </strong>mas <strong><em>não vou ir </em></strong>mais.</p>
<p>Acrescentei imediatamente o <em>ir ir</em> ao meu rosário pessoal de gírias e falares e uso até hoje, nunca sem nostalgia pelo seu inventor. No que depender de mim, vou ir usando indefinidamente. </p>
<p>Se você se sente incomodado, vá ir ver se eu estou na esquina. Eu devia querer ir ir junto, mas não quero ir ir por enquanto.</p>
<p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug057.gif" alt="" width="150" height="124" /></p>
<p>Comenta, por e-mail, meu amigão Moisés Cantos:</p>
<p>
<p style="padding-left:4em;"><strong>Péra um minutinho que já VOU INDO!</strong></p>
<p>
<p style="padding-left:4em;">E aí, neném, belê?</p>
<p>
<p style="padding-left:4em;">Pois é, a nossa língua tem dessas mesmo. O papa da língua portuguesa, Pascoale Cipro Neto, diz que essa capacidade que a nossa &#8220;língua portuguesa brasileira&#8221; tem de se adaptar à nova realidade é que a diferencia daquela que é falada na &#8220;terrinha&#8221; do seu Manoel. É o jeitinho brasileiro atuando em uma área em que a maioria tem mais dificuldades: a língua. Por isso, não se chateie, pois as coisas vão indo desse jeito mesmo.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>A Bacia das Almas</title>
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		<pubDate>Tue, 31 May 2005 09:07:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Gírias e Falares]]></category>
		<category><![CDATA[bacia]]></category>

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		<description><![CDATA[Milênios atrás alguém perguntou num comentário a origem da expressão &#8220;Bacia das Almas&#8221;. Como se sabe, a expressão é uma goiaba que roubei do meu pai por achar evocativa, ambígua e nostálgica &#8211; não porque soubesse exatamente o significado. Esses dias achei na internet uma explicação tão boa quanto a que não pude dar naquela [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2005/basin.jpg" class="left" />Milênios atrás alguém perguntou num comentário a origem da expressão &#8220;Bacia das Almas&#8221;. Como se sabe, a expressão é uma goiaba que <a href="http://www.baciadasalmas.com/index.php?p=27">roubei do meu pai</a> por achar evocativa, ambígua e nostálgica &#8211; não porque soubesse exatamente o significado. Esses dias achei na <a href="http://listas.cev.org.br/arquivos/html/cevleis/2003-11/000924.html">internet</a> uma explicação tão boa quanto a que não pude dar naquela ocasião.</p>
<p>
<p style="padding-left:3em;"><strong>BACIA DAS ALMAS</strong> &#8211; do latim <em>baccinun animae.</em> As almas, sendo imateriais, incorpóreas e incolores, não ocupam lugar. Elas nunca estão, elas <em>são.</em> Já o <em>baccinun</em> era, naqueles tempos em que o latim era obrigatório porque os bárbaros ainda não haviam inventado o inglês, um lugar no qual eram depositados os objetos/as coisas a serem guardados. Havia um <em>baccinum</em> para cada finalidade, obedecendo a formas, tamanhos e, sempre que possível, cores diferentes, a fim de que um <em>baccinun</em> destinado ao <em>coccinare</em> não viesse a ser usado, antes, como urinol. E vice-versa (convenhamos, mais versa que vice).</p>
<p>
<p style="padding-left:3em;">Ora, dizer &#8220;leve esse objeto à bacia das almas&#8221;, como é fácil perceber, significava &#8220;vá pentear macacos&#8221; ou &#8220;vá ver se eu estou na esquina&#8221;. </p>
<p>A internet costuma ser mais interessante do que acurada, então não acredite assim com todas as letras.</p>
<p><small><strong>Atualização de 25 de julho de 2009</strong></small></p>
<p>Anos depois de publicar a explicação acima (obviamente inventada, mas não por mim), encontro esta muitas vezes mais plausível (e não menos reveladora) definição no <a href="http://aulete.uol.com.br/site.php?mdl=aulete_digital&#038;op=loadVerbete&#038;palavra=bacia">Dicionário Aulete digital</a>:</p>
<p><strong>Bacia das almas</strong><br />
<strong>1</strong> Prato ou recipiente em que são depositadas as esmolas, nas igrejas.<br />
<strong>2</strong> <em>Fig.</em> Situação dramática, desesperadora, crítica.</p>
<p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug014.gif" alt="" width="29" height="36" /></p>
<p>Se você souber uma origem mais fundamentada ou engraçada para a expressão, mande que a Bacia publica.</p>
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		<title>O fim está próximo</title>
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		<pubDate>Thu, 12 May 2005 09:07:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Gírias e Falares]]></category>
		<category><![CDATA[Pense comigo]]></category>

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		<description><![CDATA[A expressão &#8220;DE ÚLTIMA GERAÇÃO&#8221; não quererá dizer que depois desta não haverá mais geração alguma?]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A expressão &#8220;DE ÚLTIMA GERAÇÃO&#8221; não quererá dizer que depois desta não haverá mais geração alguma?</p>
<p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug025.gif" alt="" width="67" height="73" /></p>
]]></content:encoded>
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		<title>A primeira hora</title>
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		<pubDate>Fri, 29 Apr 2005 09:27:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Gírias e Falares]]></category>
		<category><![CDATA[biografia]]></category>

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		<description><![CDATA[Outro dia fiquei de entregar uma ilustração na &#8220;primeira hora&#8221; do dia seguinte e fiquei pensando nas implicações da expressão. Em geral a primeira hora é, felizmente, bastante flexível. Numa agência de propaganda, sei por experiência própria, combinar a coisa para a primeira hora equivale a dizer (a não ser quando especificado de outra forma, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2011/runaway.gif" class="left" />Outro dia fiquei de entregar uma ilustração na &#8220;primeira hora&#8221; do dia seguinte e fiquei pensando nas implicações da expressão.</p>
<p>Em geral a primeira hora é, felizmente, bastante flexível. Numa agência de propaganda, sei por experiência própria, combinar a coisa para a primeira hora equivale a dizer (a não ser quando especificado de outra forma, o que acontece raramente) &#8220;depois das nove da manhã&#8221;. Sendo antes das dez creio que é considerado ainda primeira hora.</p>
<p>Outros ambientes podem não ser tão tolerantes, mas creio que para todos apelar para a primeira hora é um jeito de evitar a indelicadeza de lembrar a outra pessoa (e especialmente nós mesmos) que teremos os dois de acordar às seis da manhã no dia seguinte para estarmos às oito onde deveríamos estar. Um eufemismo corporativo, que para os mais desavisados poderia significar &#8220;apareça aí depois que você acordar&#8221;, mas que está na verdade mais para &#8220;amanhã cedo na minha mesa&#8221; ou &#8220;o que você faz da meia-noite às seis?&#8221;</p>
<p>A primeira hora é de certa forma a pior hora de todas e, é claro, especialmente na segunda-feira. A primeira hora da segunda-feira é implacável, e apóio de coração aqueles que propõem que ela deveria ser eliminada de todo.</p>
<p>Especialmente quando você chega no trabalho e tem alguém em pé esperando por você na recepção. <em>Com uma pasta.</em></p>
<p>Como tanta coisa fica marcada para a primeira hora, creio que todos concordamos que talvez fosse pertinente que a Diretoria lançasse uma campanha interna para que encontros importantes começassem a ser marcados para a última hora. Da sexta-feira, naturalmente.</p>
<p>Você passaria a ouvir (se é que já não ouve) coisas do tipo:</p>
<p>&#8211; Não esqueça que o gerente quer conversar com você na última hora.</p>
<p>Só por precaução, não abra hoje nenhum memorando suspeito.</p>
<p>Deixe para a última hora.</p>
<p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug034.gif" alt="" width="32" height="45" /></p>
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		<title>Gueimovar</title>
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		<pubDate>Fri, 15 Apr 2005 09:05:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Gírias e Falares]]></category>
		<category><![CDATA[biografia]]></category>

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		<description><![CDATA[Que mundo. Eu estava na casa da Dona Hulda jogando videogame com as sobrinhas do Hélio: Talita, Raquel e Letizia. A principal atividade era torcer para que alguém perdesse de uma vez para que você pudesse sair da fila e assumir o único joystick sobrevivente por alguns minutos. Em algum momento, eu que já estava [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Que mundo.</p>
<p>Eu estava na casa da Dona Hulda jogando videogame com as sobrinhas do Hélio: Talita, Raquel e Letizia. A principal atividade era torcer para que alguém perdesse de uma vez para que você pudesse sair da fila e assumir o único <em>joystick</em> sobrevivente por alguns minutos.</p>
<p>Em algum momento, eu que já estava meio entediado e buscando na mochila um livro para remoer, ouvi a Talita celebrar:</p>
<p>&#8211; Pronto, minha vez. Você gueimovou.</p>
<p>Demorei um microssegundo para entender que gueimovar é perder o jogo. Gueimovar é encarar um <em>game over</em>.</p>
<p>Que mundo.</p>
<p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug038.gif" alt="" width="34" height="49" /></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Tá vendo</title>
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		<pubDate>Sun, 03 Apr 2005 09:11:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Família]]></category>
		<category><![CDATA[Gírias e Falares]]></category>

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		<description><![CDATA[Outro dia eu estava jogando de bola com o Arthur, que andou tendo umas aulas com o Dinho e já chuta melhor do que eu (o que, neste caso específico, não é tão notável assim). &#8211; Nossa, que chutão, cara! &#8211; eu disse em determinado momento, e era verdade. Segundos depois foi a vez dele [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Outro dia eu estava jogando <a href="http://www.baciadasalmas.com/index.php?p=244">de bola</a> com o <a href="http://www.baciadasalmas.com/index.php?p=244">Arthur</a>, que andou tendo umas aulas com o Dinho e já chuta melhor do que eu (o que, neste caso específico, não é tão notável assim).</p>
<p>&#8211; Nossa, que chutão, cara! &#8211; eu disse em determinado momento, e era verdade.</p>
<p>Segundos depois foi a vez dele me elogiar (não era verdade):</p>
<p>&#8211; <em>Nossa, que chutão, cara!</em> &#8211; ele disse.</p>
<p>E, dois segundos depois, como se eu não estivesse realmente prestando a devida atenção:</p>
<p>&#8211; Tá vendo como eu também falo <em>cara?</em></p>
<p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug045.gif" alt="" width="36" height="58" /></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Dicionário do Arthur (atualizado)</title>
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		<pubDate>Sun, 03 Apr 2005 08:00:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Família]]></category>
		<category><![CDATA[Gírias e Falares]]></category>
		<category><![CDATA[biografia]]></category>

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		<description><![CDATA[O Arthur, meu sobrinho via Hélião, não diz problema, diz poguêma. Ele não diz mortadela, diz umbrella. Ele não diz lavanderia, diz vandelinha. Ele não diz maternal, diz martenal. Ele não diz dedo mínimo, diz nimo, ou (só para tocar horror) tchitcho. Ele não diz jogar bola, diz jogar de bola. Ele não diz Papai [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2005/arthur.jpg" /></p>
<p>O <a href="http://www.baciadasalmas.com/index.php?p=165">Arthur</a>, meu sobrinho via Hélião, não diz <strong>problema,</strong> diz <em>poguêma</em>.<br />
Ele não diz <strong>mortadela,</strong> diz <em>umbrella.</em><br />
Ele não diz <strong>lavanderia,</strong> diz <em>vandelinha.</em><br />
Ele não diz <strong>maternal,</strong> diz <em>martenal.</em><br />
Ele não diz dedo <strong>mínimo,</strong> diz <em>nimo, </em> ou (só para tocar horror) <em>tchitcho.</em><br />
Ele não diz <strong>jogar bola,</strong> diz <em>jogar de bola.</em><br />
Ele não diz <strong>Papai Hélio</strong>, diz <em>Pélio</em>.<br />
Ele não diz <strong>vamos ver</strong>, diz <em>munver</em>.<br />
Ele não diz (depois de recolocar o carrinho na pista do autorama pra você) <strong>pronto, tente agora</strong>, diz <em>vai, <strong>try, man</strong></em>.<br />
Ele não diz <strong>massagem</strong>, diz <em>machagem</em> (ou, mais freqüentemente, <em>cosquinha</em>).<br />
Ele não diz <strong>trovão</strong>, diz <em>tovão</em> &#8211; e sempre acrescenta, logo depois, &#8220;bum, bum, bum, bum&#8221;, imitando o barulho.<br />
Ele não diz <strong>desculpe</strong>, diz <em>ops, foi mal</em>.<br />
Ele não canta (no banho) &#8220;Glória a Deus <strong>nas alturas</strong>&#8221;, canta &#8220;Glória a Deus <em>nas Astúrias</em>&#8221;.<br />
Ele não diz <strong>armário</strong>, diz <em>marário</em>.<br />
Ele não diz <strong>própria</strong>, diz <em>pópura</em>.<br />
Ele não diz <strong>atrás</strong>, diz <em>na trás</em>.<br />
Ele não diz <strong>filisteus</strong>, diz <em>filhos teus</em>.<br />
Ele não diz <strong>livro</strong>, diz <em>livrro</em> (ou, às vezes, <em>librro)</em>.<br />
Ele não diz <strong>vamos (vamos brincar?)</strong>, diz <em>mamos (mamos brincar?)</em>.<br />
Ele não diz <strong>catchup</strong>, diz <em>cachúp</em>.<br />
Ele não diz <strong>seu,</strong> diz <em>de você.</em><br />
Ele não diz <strong>macaco,</strong> diz <em>mânqui</em>.<br />
Ele não diz <strong>tio Paulão,</strong> diz <em>tio Pulão</em>.<br />
Ele não diz <strong>McDonalds,</strong> diz <em>MolequeDonald&#8217;s</em> (ou, se entendi errado ele queria dizer <strong>no McDonald&#8217;s</strong> e disse <em>no LequeDonald&#8217;s).</em><br />
Ele não diz leite <strong>condensado,</strong> diz leite <em>conlensado</em>.</p>
]]></content:encoded>
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