Manuscritos estocados sob a rubrica 'Gírias e Falares'
25 de Agosto de 2011

Sem fioteza

Gírias e Falares

Ô PESTE,

DEIXE DE MUNGANGO, DE MACAQUICE, QUE VOCÊ ANDA CHEIO DE NÓ PELAS COSTAS, MEIO ENGURUJADO, EMBIOCADO E SEM FIOTEZA COM ESSE NEGOCIO DE REFLEXÃO.

VOLTE A PUBLICAR XILOGRAVURAS E TRECHOS DE CORDÉIS QUE TEM MUITO MAIS FUTURO.

ABRAÇÃO, CABA VÉI!

ARI

O engenhoso fidalgo Dom Arievaldo Viana, em comentário a este documento
Da série: Do tempo em que a Bacia era aberta a comentários

11 de Janeiro de 2011

Como escrever como o Paulo Brabo

Gírias e Falares, The Net

Escrevendo sobre teologia e outras coisas sem grande importância, o impertinente (e mineiro, como se houvesse diferença1) Rogerio Brandão revelou sem querer cinco dos sete segredos que compõem o meu estilo. Seguindo esses cinco passos muito simples você alcançará rejeição imediata na terra, etc.

  1. Apresente-se como “principal dos pecadores” usando termos marcantes. Ex: patife, canalha, farsa, maltrapilho, etc.
  2. Vincule o Evangelho e escritos sacros com expressões fortes que são normalmente usadas para coisas “profanas”. Ex: rebeldia do Reino, subversão de Jesus, sensualidade da mensagem, transgredir para o bem.
  3. Use, de igual modo, termos chocantes e metafóricos para destacar ideias principais. Ex: prenhe de esperanças, parir escritos, beijar a ferida aberta pelo própria pena.
  4. Procure roubar termos da literatura e das ciências literárias. O pior deles ainda é: O protagonista.
  5. Esbanje advérbios ou adjetivos (ou a união dos dois) para deixar claro o modo, a forma e a intensidade do que você quer dizer. Lembre-se sempre de uma contradição de sentidos. Ex. desesperadamente correto, constrangedoramente lúcido, lucidamente constrangedor, vivendo absurdamente na linha do possível.

Rogério Brandão, em Being Paulo Brabo

NOTAS
  1. Este é, naturalmente, o oitavo segredo: apresente duas coisas diferentes e depois finja acreditar que são uma mesma. E este é também o nono: apresente uma conclusão arbitrária e emoldure-a com um “naturalmente”, de modo a gerar perplexidade universal. []
24 de Dezembro de 2010

A divina claridade

Gírias e Falares, Manuscritos

Em seu encorpado The Road to Middle-Earth, Tom Shippey revisa laboriosamente e termina por demonstrar a noção de que Tolkien construiu o mundo de O Senhor dos Anéis a partir das palavras – seu peso, seu som, e em particular a sua história, – e não meramente através delas, como faria (ou pelo menos acreditaria) um autor comum.

Se forçados a tanto, podemos chegar a admitir que as palavras foram criadas e persistem não para que objetos sejam nomeados, mas para que histórias sejam contadas. Alguns dentre nós somos capazes de crer que as narrativas são essenciais o bastante para que as palavras existam meramente a fim de mantê-las vivas.

Tolkien, no entanto, dava sinais de crer em algo mais ousado e, para o resto de nós, menos intuitivo. Para ele, as palavras não apenas existem para perpetuar histórias isoladas, mas as histórias se perpetuam elas mesmas em palavras isoladas.

Tolkien enxergava as palavras não como entidades estanques e mortas, mas como células vivas, portadoras de um DNA etimológico passível de análise, comparação e compreensão. Para usar uma metáfora contemporânea, ele via cada palavra como um arquivo compactado de computador, um daqueles arquivos (também pouco intuitivos) que escondem dentro de si arquivos mais numerosos e que ocupam mais espaço na memória do que eles mesmos. Para aqueles que sabem descompactá-las, cada palavra – digamos, “Tolkien”, “Shippey”, “benedetto”, “brabo” ou “sertão” – mostra ter embutida em si não apenas o seu significado (que é, por assim dizer, sua camada mais evidente), mas também a história de suas alterações, de seu emprego e de sua origem.

O Senhor dos Anéis foi concebido e executado a partir dessa crença de que as palavras são tão poderosas que histórias inteiras podem caber dentro delas. Em As duas torres, Barbárvore professa algo parecido quando afirma: “Nomes verdadeiros contam a história das coisas a que pertencem, no meu idioma.” Como demonstrado por Shippey, Tolkien acreditava que, em certa medida, o mesmo era verdadeiro para todas as línguas.

Se for assim, num certo sentido todas as palavras são autoexplicativas, em qualquer que seja o idioma, e toda tradução é uma desnecessária redundância. Em conformidade com essa crença, Tolkien não se preocupou em apresentar ao seu leitor a tradução de alguns dos sonoros poemas recitados pelos elfos em seus idiomas nativos – muito embora na altura das primeiras edições da trilogia ninguém no mundo, além do próprio Tolkien, fosse capaz de interpretá-los.

Se digo tudo isso, e hoje, é porque acabei concluindo que a história do Natal e, portanto da encarnação, está de fato compactada nas palavras que usamos para contá-la – coisas como estrela, paz e boa-vontade, mas também pastores, panos, cidade, presentes.

E isso, muito evidentemente, em todas as línguas. No nono verso do segundo capítulo do evangelho de Lucas, na versão da Vulgata, está escrito:

Et ecce angelus Domini stetit iuxta illos et claritas Dei circumfulsit illos et timuerunt timore magno.

Está aqui, muito evidentemente, toda a história; tudo que veio antes e tudo que veio depois, da criação do mundo à precária luz que persista talvez neste preciso momento. Para ser honesto à visão de Tolkien, esta tudo embutido neste único claritas.

Agora que penso nisso, vejo como tremendo desafio não encontrar na claritas que circundou os pastores, apavorando ao mesmo tempo em que iluminava, todas as coisas. Estão aqui toda a lucidez, toda a glória, todo o desafio, todo o temor, todo o convite à coragem e cada “não tenham medo”, que antes de estarem no anjo já estavam em Jesus, e antes de serem descompactados em Jesus já corriam livres no sonho de Deus.

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O dia mais banal

20 de Novembro de 2010

O poeta e o pescador

Gírias e Falares, Livros

Meu pai, pode ser necessário lembrar, usa o termo “poeta” como insulto. Encontro em Luis da Camara Cascudo – Geografia dos mitos brasileiros, prefácio – um uso análogo:

Nas praias do Rio Grande do Norte, poeta é sinônimo de bicho-de-pé. “Estou aqui vendo se tiro esse poeta”, respondeu um pescador a Henrique Castriciano que lhe perguntara por que estava escavacando os dedos com uma ponta-de-faca.

* * *

O livro oferta ainda generosidades como esta: “O sertão respira [atualmente] pelas mil bocas das estradas e paga o conforto da eletricidade com o esquecimento das estórias antigas e saborosas”.

10 de Novembro de 2010

A nebulosa norma culta

Gírias e Falares

Num livro publicado na Inglaterra em 1998, o linguista britânico Jarnes Milroy escreveu (pp. 64-65): “Numa época em que a discriminação em termos de raça, cor, religião ou sexo não é publicamente aceitável, o último baluarte da discriminação social explícita continuará a ser o uso que uma pessoa faz da língua“.

Essas palavras me voltaram à lembrança quando li, no Jornal do Brasil do dia 10/11/2002, o seguinte trecho da coluna Coisas de política, assinada pela jornalista Dora Kramer:

Dúvida pertinente: até quando será considerado politicamente correto ignorar que o presidente eleito do Brasil comete crassos e constantes erros de português?

Queira Deus que, em breve, o assunto já possa ser abordado sem provocar grandes traumas, porque, daqui a pouco, será preciso rever os currículos das escolas do ensino básico, a fim de adaptar as lições sobre plural e concordância ao idioma que as crianças ouvem o presidente falar na televisão.

Evidentemente, não era a primeira vez que eu lia esse tipo de afirmação preconceituosa sobre o modo de falar de Luiz Inácio Lula da Silva — todos sabemos que esse foi um dos instrumentos de difamação lançados por seus oponentes nas disputas eleitorais de 1989, 1994 e 1998. O que me chamou a atenção foi a sobrevivência desses argumentos, com a mesma intensidade, mais de uma década depois.

Duas semanas mais tarde, o jornalista Daniel Piza escreveu, no Caderno 2 do jornal O Estado de S. Paulo (24/11/2002):

Por que não me ufano: Lula, seus companheiros de PT e grande parte da população maltratam o idioma cortando o “s” final das palavras e todas as concordâncias que a lógica sintática pede. Que não seja a morte do plural, em nenhum dos sentidos.

Seria muita ilusão supor que uma vitória como foi a de Lula nas eleições de 2002 bastaria para que o preconceito linguístico desaparecesse de vez da nossa sociedade. Afinal, de todos os conjuntos de superstições infundadas que compõem a cultura brasileira, nenhum é tão resistente, parece, quanto o das ideias preconcebidas que impregnam nosso imaginário a respeito de línguas em geral e, mais especificamente, da língua que falamos.

Simplesmente, o preconceito linguístico não existe. O que existe, de fato, é um profundo e entranhado preconceito social. Se discriminar alguém por ser negro, índio, pobre, nordestino, mulher, deficiente físico, homossexual etc. já começa a ser considerado publicamente inaceitável (o que não significa que essas discriminações tenham deixado de existir) e politicamente incorreto, fazer essa mesma discriminação com base no modo de falar da pessoa é algo que passa com muita naturalidade, e a acusação de “falar tudo errado”, “atropelar a gramática” ou “não saber português” pode ser proferida por gente de todos os espectros ideológicos, desde o conservador mais empedernido até o revolucionário mais radical. Por que será que é assim?

É que a linguagem, de todos os instrumentos de controle e coerção social, talvez seja o mais complexo e sutil, sobretudo depois que, ao menos no mundo ocidental, a religião perdeu sua força de repressão e de controle oficial das atitudes sociais e da vida psicológica mais íntima dos cidadãos. E tudo isso é ainda mais pernicioso porque a língua é parte constitutiva da identidade individual e social de cada ser humano — em boa medida, nós somos a língua que falamos.

Infelizmente, num longo processo histórico, o que passou a ser chamado de língua é uma coisa que é vista como exterior a nós, algo que estaria acima e fora de qualquer indivíduo, externo à própria sociedade: uma espécie de entidade mística sobrenatural, que existe numa dimensão etérea secreta, imperceptível aos nossos sentidos, e à qual só uns poucos iniciados têm acesso. E por acreditar nisso que Daniel Piza pôde escrever que Lula, seus companheiros de PT e grande parte da população “maltratam o idioma”. É como se a língua não pertencesse a cada um de nós, não fizesse parte da nossa própria materialidade física, não estivesse inscrita dentro de nós — por isso ela pode ser “maltratada”, “pisoteada”, “atropelada”: a língua é vista como um Outro.

O dogma da infalibilidade papal virou piada, mas quase ninguém zomba dos dogmas gramaticais (mais velhos que a religião cristã). Por que os rótulos de “certo” e “errado” são abandonados, e até ridicularizados, em outras esferas da vida social, mas permanecem vivos e ativos quando o assunto é língua? Por que ninguém se dá conta de que a nebulosa norma culta é um produto humano e, portanto, imperfeito, falho e suscetível de contestação e reformulação?

Marcos Bagno, em A Norma Oculta: Língua e poder na sociedade brasileira

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