Manuscritos estocados sob a rubrica 'Gírias e Falares'
26 de Dezembro de 2009

ERRATA – A bacia das almas

Gírias e Falares

Todo livro é, em alguma medida, uma monstruosidade, uma fabricação cuja coesão depende de fatores inteiramente imponderáveis, equilíbrio que o menor destempero pode transtornar. Porém alguns livros são mais monstruosos dos que os outros: estou pensando no livro da Bacia, em que costuramos arbitrariamente cinco anos de conteúdo na tentativa de emprestar uma feição apenas aceitável ao que é muito evidentemente um monstro de Frankenstein.

Um pequeno exército de revisores de estilo e de gramática (e incluo-me, modestamente, nesse contingente) submeteu o manuscrito final, preparado por mim, ao seu crivo. Foi um processo com várias etapas e mecanismos redundantes de segurança, mas agora que o livro já está na rua vai ficando claro que alguns deslizes sobreviveram a todo esse escrutínio1 – apenas não sabemos ainda quantos.

Revisar é lutar contra a mais potente forma de cegueira, aquela pela qual as palavras nos seduzem a crer que estão mais claras do que na realidade são. Na esperança de que haja uma segunda edição do livro ou, mais propriamente, movido pelo temor de que não haja, resolvi reunir neste documento os deslizes de gramática e estilo da primeira edição, à medida em que os encontro ou me são denunciados.

A BACIA DAS ALMAS, ERRATA VIRTUAL

• Página 29
> Onde está escrito:
A revelação está no quero pedir que você esqueça.
> Deve ser:
A revelação está no que quero pedir que você esqueça.
Capturada por: Wagner Coelho

• Página 42
> Onde está escrito:
Divide céus e mares, coloca luz e escuridão em comportamentos estanques.
> Deve ser:
Divide céus e mares, coloca luz e escuridão em compartimentos estanques.
Capturada por: Roselena de Oliveira Landenberger

• Página 81
> Onde está escrito:
Ao mesmo tempo e estúpida e condenável.
> Deve ser:
Ao mesmo tempo estúpida e condenável.
Capturada por: Roselena de Oliveira Landenberger

• Página 127
> Onde está escrito:
Vi de imediato a futilidade e a prepotência de tentar proteger-me da morte (como havia feito, sem sucesso) os que estavam comigo.
> Deve ser:
Vi de imediato a futilidade e a prepotência de tentar proteger da morte (como havia feito, sem sucesso) os que estavam comigo.
Capturada por: Paulo Brabo

• Página 127
> Onde está escrito:
Deus ou destino exigiam que eu me dobrasse.
> Deve ser:
Deus ou o destino exigiam que eu me dobrasse.
Capturada por: Roselena de Oliveira Landenberger

• Página 134
> Onde está escrito:
Um mundo em que a flecha do tempo se desloque do futuro ao passado, embora impermeável à nossa intuição vulgar da realidade, não inconcebível para a física contemporânea.
> Deve ser:
Um mundo em que a flecha do tempo se desloque do futuro ao passado, embora impermeável à nossa intuição vulgar da realidade, não é inconcebível para a física contemporânea.
Capturada por: Paulo Brabo

• Página 196
> Onde está escrito:
E na pedrinha estará gravada o desenho.
> Deve ser:
E na pedrinha estará gravado o desenho.
Capturada por: Roselena de Oliveira Landenberger

• Página 206
> Onde está escrito:
As orações ao Google tem um potencial de resposta avassalador.
> Deve ser:
As orações ao Google têm um potencial de resposta avassalador.
Capturada por: Roselena de Oliveira Landenberger

• Página 213
> Onde está escrito:
Era novembro de 2005 e eu estava com meu amigo inglês Julian em Pernambuco, no calçadão da perfumada Campina Grande.
> Deve ser:
Era novembro de 2005 e eu estava com meu amigo inglês Julian na Paraíba, no calçadão da perfumada Campina Grande.
Capturada por: Rondinelly Gomes Medeiros (paraibano)

• Página 233
> Onde está escrito:
O fariseu voltou para casa sentindo-se justificado.
> Deve ser:
O cristão voltou para casa sentindo-se justificado.
Capturada por: Roselena de Oliveira Landenberger

• Página 267
> Onde está escrito:
Somos, cada um nós, uma obra coletiva.
> Deve ser:
Somos, cada um de nós, uma obra coletiva.
Capturada por: Roselena de Oliveira Landenberger

• Página 271
> Onde está escrito:
É a precisa distância entre a religião do oriente e do ocidente.
> Deve ser:
É a precisa distância entre a religião do oriente e a do ocidente.
Capturada por: Roselena de Oliveira Landenberger

• Página 281
> Onde está escrito:
É menos herética do poderia parecer.
> Deve ser:
É menos herética do que poderia parecer.
Capturada por: Roselena de Oliveira Landenberger

• Página 315
> Onde está escrito:
Era agora mais de uma tarde.
> Deve ser:
Era agora mais de uma da tarde.
Capturada por: Roselena de Oliveira Landenberger

• Página 317
> Onde está escrito:
Essa preocupação em não sacrificar o cenário natural no altar do progresso é exemplificado pelo desespero de Sam.
> Deve ser:
Essa preocupação em não sacrificar o cenário natural no altar do progresso é exemplificada pelo desespero de Sam.
Capturada por: Roselena de Oliveira Landenberger

• O cabeçalho de todas as páginas ímpares da última seção do livro (301-323)
> Onde está escrito:
Confissões
> Deve ser:
Como salvar o mundo
Capturada por: Roselena de Oliveira Landenberger

* * *

Você diagnosticou algum deslize no texto do livro da Bacia? Denuncie.

NOTAS
  1. Parte do problema está no estilo recursivo e retorcido do Brabo, pesadelo muito evidente para qualquer revisor (“o que esse cara está afinal de contas querendo dizer?”). Porém isso não explica tudo, visto que eu mesmo participei ativamente do processo de revisão []
15 de Outubro de 2009

Número ordinal

Gírias e Falares, Offline

Em italiano “cristianismo” é cristianesimo, o que me faz rir todas as vezes, naturalmente, porque ouvido em português parece reduzir o cristianismo a número ordinal com conotação especial para o exagero ou para o tédio:

– Você é a cristianésima pessoa a me dizer a mesma coisa.

19 de Setembro de 2009

O ofício dos chavões

Grandes Navegações, Gírias e Falares

Foras-chavão no namoro cristão:
1. Presbiteriana: “Vamos continuar orando, se Deus quiser mesmo, acabaremos juntos”.
2. Metodista: “Não sei é a vontade de Deus, mas não é a minha”.
3. Assembleiana: “O Senhor me revelou que você não é meu escolhido”.
4. Católica: “Vou me casar com Jesus!”
5. Universal: “Ore a respeito, e se não ficarmos juntos, é porque você não teve fé o suficiente”.

Reserva:
I. Batista: “Precisei tomar uma decisão a respeito”.
II. Adventista: “Você vai ficar bem, Jesus já está voltando”.
III. Internacional da Graça: “Nâo posso mais dedicar tempo pra você, porque es-tou se-guiiiin-doo / a Je-sus Criiiis-tooo…”

É um serviço sujo, mas alguém tem de fazer: que seja então o Keydom, do Ofício dos Chavões. Porque o meio é a mensagem.

* * *

Leia também:
Os truques da profissão

25 de Julho de 2009

Podem passar a sacolinha

Gírias e Falares

ou, o verdadeiro significado de “Bacia das Almas”.

Faz sentido.

Anos depois de publicar esta explicação (obviamente inventada, mas não por mim) para a origem da expressão “bacia das almas”, encontro esta plausível (mas não menos reveladora) definição no Dicionário Aulete digital:

Bacia das almas
1 Prato ou recipiente em que são depositadas as esmolas, nas igrejas.
2 Fig. Situação dramática, desesperadora, crítica.

18 de Abril de 2009

Bluteau redefine a internet

Grandes Navegações, Gírias e Falares, Livros

O formidável dicionário de Raphael Bluteau, escrito entre 1712 e 1728, pode ser agora consultado na íntegra pela internet. Basta visitar esta página dos Instituto de Estudos Brasileiros da USP, e na coluna da esquerda escolher o link Vocabulario Portuguez. Para ler minha recomendação original à obra de Bluteau, clique aqui.

Bluteau na internet
Bluteau, o magnífico