Dos deleites da repetição

Outro resultado desse novo arbítrio foi a geral catadura e revisão da genealogia de gente blasonada dos sete ventos dos antanhos.

De Carnivaldo a menos controversa é também a mais extensa e mais recente, aquela que aparece nas Crônicas e falaços de Fabrizio Forro. Não se requer maior cotejadura: a versão aberta diante do leitor não só assume a genealogia de Forro como rigoroso meridiano, como a ignora por completo. Em manobra que aprovaria sem pestanejo Carnivaldo, rendemos preferência ao tradicional em detrimento do comprovado, ao pitoresco em detrimento do que é mesquinhamente acurado. Não deixou de apontar Regente Boffé Continue lendo →

De Merito Metricio

Em dias de ojejorno não há quem ignore que as genealogias nos tornam pessoa melhor na medida em que menos claramente nos antecipam a grandeza. Carnivaldo de Bezerros, tendo vivido e atuado em tempos menos ilustres e menos conexos, não teve como se beneficiar desse conhecimento, embora tenha angariado o mérito de se mostrar gente nobre e admirável sem ter chegado a saber se o sangue lhe endossava a virtude ou a puxava para baixo.

Foi Cravalo de Orvaglio, poeta da versejadura do iluminismo e partidário da água de cevada, o único autor do famoso De Merito Metricio, tratado em cinco livros em que está escrito que num mundo justo Continue lendo →

8

Atrás da casa de Niconó havia uma casa menor, antiga, em que a família tinha morado antes de construir a de agora. Nessa casa morava a esposa de Niconó, Laís, porque tinha a doença do esquecimento e não conseguia sentir-se em casa na casa nova.

– Eu estava colocando uma roupa para secar – disse o menino – e me chamou para conversar a mulher de Niconó de casa sua.

– Ah – disse o homem. – Agora como foi.

– Foi bonito. Ela lembra de pouca coisa. Dizem que mesmo depois que deixou de acumular memórias novas lembrou por tanto tempo das antigas; recorda agora menos. Ela fez aparecer biscoitos, falou sobre o tempo e sobre a forma Continue lendo →

7

Boas três horas depois do almoço Costino foi embora, e Lauco foi acompanhá-lo até a casa. Ficou decidido que, se assim quisesse, Costino iria encontrá-los em Casaredo ou em Sepori quando concluísse a obra em que estava trabalhando.

– Vossia conseguiu tirar dele se vai deixar de atormentar as meninas? – quis saber Niconó.

– Tenha paciência, Niconó. Dele não tirei nada.

– Vossia contou que sabemos como morreu Pompeu Coxé? – perguntou Ticiano.

– O que sabemos não faz bem nem a nós – disse José.

– Ele por certo lhe disse – Ticiano insistiu.

– É estúpido pensar que alguém é inocente só porque não é culpado – Continue lendo →

6

– Pronto, ele chegou – disse Lauco ao homem em pé no meio da sala. – Vamos conversar lá fora.

– Quero saber – Costino disse a José Fabro – o que vossia andou falando de mim.

– Vamos falar lá fora – insistiu Lauco.

– Não, ele veio até casa minha, venho até casa sua. Quero saber o que estava falando de mim antes de entrar por essa porta.

– Posso fazer melhor – disse José Fabro, – e lhe digo o que eu não disse a ninguém sobre vossia. O problema de dizer merda cada vez que abre a boca é que alguma hora acaba acreditando que tem de concretizar as suas ameaças para ser levado a sério. Vossia não vê? Pensa que é Continue lendo →

5

– Não sei se seu pai já lhe falou do pai dele – disse Niconó ao filho de José Fabro. – Não sei se José lhe contou que Gadaraí foi a primeira cidade para onde veio depois que se separaram.

Estavam sentados os dois na escadaria externa da sede do município, Niconó dois degraus acima do menino, debaixo do friozinho mais acolhedor da manhã. O menino demorou a responder, Niconó chegou a pensar que ele não tinha ouvido.

– Meu pai nunca chegou a não responder uma pergunta minha – disse o menino. – Algumas coisas eu não pergunto, porque sei que ele responderia mesmo se não quisesse.

Niconó refletiu que o filho de José Fabro Continue lendo →


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