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	<title>A Bacia das Almas &#187; Fé e Crença</title>
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	<description>ONDE AS IDÉIAS NÃO DESCANSAM</description>
	<pubDate>Sat, 26 Jul 2008 09:28:43 +0000</pubDate>
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		<title>A longa rixa da misericórdia com as ordens da criação</title>
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		<pubDate>Wed, 16 Jul 2008 03:45:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Divino preconceito]]></category>

		<category><![CDATA[Homens e Mulheres]]></category>

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		<description><![CDATA[A misericórdia triunfa sobre o juízo.
Tiago 2:13
No princípio era o caos, até que Deus instaurou a ordem. O primeiro capítulo de Gênesis enfatiza à exaustão o caráter organizatório da iniciativa divina primordial. Deus, o primeiro enciclopedista, fixa os astros nas suas órbitas, fatia céu e terra, divide céus e mares, coloca luz e escuridão em [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="right"><small>A misericórdia triunfa sobre o juízo.</small><br />
<span style="font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps">Tiago 2:13</span></p>
<p>No princípio era o caos, até que Deus instaurou a ordem. O primeiro capítulo de Gênesis enfatiza à exaustão o caráter organizatório da iniciativa divina primordial. Deus, o primeiro enciclopedista, fixa os astros nas suas órbitas, fatia céu e terra, divide céus e mares, coloca luz e escuridão em comportamentos estanques, põe dia e noite em suas respectivas prateleiras, faz brotar cada planta rasteira, cada árvore, cada ave, cada peixe, cada animal rastejante, cada animal doméstico e cada animal selvagem &#8220;segundo as suas espécies&#8221;, distribui o ser humano entre homem e mulher, reparte a semana em sete dias, fende o dia em tarde e manhã, e coloca em cada um metódicos crachás escritos por ele mesmo.</p>
<p>A organização aparece na história como característica fundamental e inseparável do universo e do próprio Deus. A ordem das coisas na terra, demonstram as burocráticas enumerações de Gênesis, reflete o planejamento da mente divina no céu. Dito de outra forma, as coisas são precisamente como deveriam ser, e o nosso é o melhor dos mundos possíveis.</p>
<p>Ao longo dos séculos, na mente da esmagadora maioria dos cristãos, esse estado inicial da criação tem representado uma espécie de intocável Idade do Ouro. Segundo esse modo de ver as coisas, Gênesis 1 e 2 estabelecem o conjunto de circunstâncias que encapsula a essência do que o cristianismo deve defender. Aqui estão, afinal de contas, a soberania divina, a singularidade da humanidade em relação às demais criaturas, a instituição da família e do casamento, o direito de domínio do ser humano sobre a natureza. O mundo como Deus o criou em Gênesis estaria dessa forma demarcado por &#8220;ordens da criação&#8221;, categorias muito precisas e muito fixas que cabe aos puros de coração defender, porque violá-las é devolver o mundo ao desfigurante e degradante caos que precedeu a iniciativa ordenatória de Deus.</p>
<p>Não mexa no meu queijo.</p>
<p><strong>Contra as mulheres, pela procriação</strong></p>
<p>É o argumento das &#8220;ordens da criação&#8221; que, ainda hoje, impede que mulheres sejam ordenadas ao sacerdócio ou ao ministério em igrejas cristãs de todas as estirpes. Em 1969, por exemplo, o sínodo da igreja luterana do Missouri legislou que &#8220;diante das declarações da Escritura que a mulher não deve ensinar ou exercer autoridade sobre o homem, entendemos que mulheres não devem assumir cargos pastorais ou qualquer outra posição que viole de alguma forma a ordem da criação&#8221;.</p>
<p>Afinal de contas, deixa claro o Apóstolo, é coisa vergonhosa que uma esposa fale na igreja; a própria Lei afirma que as mulheres devem ser submissas; Adão precedeu a mulher na ordem cronológica da criação; o homem não foi criado para a mulher, mas a mulher para o homem; o marido é a cabeça da esposa; a mulher veio do homem, e não o homem da mulher; o homem não foi enganado, mas a mulher deixou-se enganar pela serpente. A conclusão é clara: na hierarquia ideal da criação, que não cabe ao ser humano querer violar, a mulher é inerentemente subordinada ao homem. Almejar uma posição de igualdade funcional é arrogância e rebelião; é lutar contra as ordens da criação, ou seja, contra a integridade da tessitura mais essencial do universo.</p>
<p>O relatório do mesmo sínodo faz os seguintes esclarecimentos adicionais: &#8220;A ordem da redenção não deve viciar o relacionamento apropriado entre mulheres e homens estabelecido na ordem da criação&#8221;. &#8220;A unicidade do homem e da mulher em Cristo não apaga a distinção estabelecida na criação&#8221;. &#8220;A subordinação da mulher ao homem na ordem da criação é uma relação funcional dada pelo criador, que escolheu estruturar a existência em determinadas linhas&#8221;. &#8220;O casamento e o estado pertencem às ordens da criação&#8221;. &#8220;Deus é o criador de certos relacionamentos básicos que impedem a vida e a sociedade de degenerarem em anarquia&#8221;. &#8220;Paulo não queria que as mulheres transtornassem a hierarquia de funções estabelecida na criação, especialmente logo após a queda&#8221;. &#8220;A subordinação da esposa ao marido é parte da ordem da criação&#8221;. &#8220;A convicção do apóstolo é que a igreja não deve minar, mas santificar as ordens da criação&#8221;. &#8220;Paulo está decidido a defender a instituição do matrimônio como pertencente às ordens da criação, em  que a renovação não é alcançada por meio de desordem e ruptura, mas pela observância e pela santificação da prática de autoridade por parte do marido e de submissão por parte da esposa&#8221;. </p>
<p>Em outras palavras, a mulher pode não ser criatura de segunda classe, mas na ordem da criação ficou estabelecido que deve agir como se fosse. Mulheres e esposas devem abraçar esse destino de bom grado, da mesma forma que homens e maridos devem se conformarem à dura posição de primazia que a criação deixou-lhe nas mãos.</p>
<p>A questão do sacerdócio feminino é hoje relevante para uma diminuta fração da população, mas sua lógica subjacente é a mesma que manteve fechado, durante dois mil anos, o acesso da mulher a um status igualitário em termos jurídicos, financeiros, políticos e profissionais. A inferioridade da mulher é coisa que nem ao menos se discutia, por ser uma das verdades evidentes patenteadas na ordem da criação. </p>
<p>Assim, ao longo de dois mil anos de civilização cristã, as mulheres foram silenciadas e reprimidas, ao mesmo tempo em que eram acusadas (via Eva, de quem teriam herdado <a href="http://www.baciadasalmas.com/2007/a-mulher">suas fraquezas</a>) de serem culpadas por virtualmente todos os males que assolam a humanidade; foram perseguidas como bruxas, torturadas sem dó, separadas de suas famílias e queimadas publicamente; tiveram suas vidas legisladas, suas opiniões enterradas e direitos cerceados, mesmo <a href="http://www.baciadasalmas.com/2004/1926-appoio-moral">nos nossos dias</a>.</p>
<p>E contra esse estado de coisas não ocorria a ninguém dizer uma palavra, porque tacitamente todos concordavam que Deus &#8220;escolheu estruturar a existência em determinadas linhas&#8221;. A estratificação social do primeiro casal e suas relações internas de autoridade e subordinação haviam sido estabelecidas pelo Criador no princípio, e é assim que deveriam se manter. A alternativa era inimaginável.</p>
<p>&#8220;Quem está pedindo o voto para as mulheres?&#8221; quis saber Justin Fulton em 1869. &#8220;Os que amam a Deus e seguem a Cristo é que não são! A maior parte dos que reivindicam o voto para as mulheres repudiam a legislação do Céu e os prazeres domésticos, e deixam-se levar pela infidelidade e pela ruína&#8221;.</p>
<p><strong>Contra os negros, pela escravidão</strong></p>
<p>Aplacados pela lógica da &#8220;ordem da criação&#8221;, os cristãos conviveram pacificamente, ao longo de dezoito séculos, com toda forma de escravidão e preconceito de raça.</p>
<p>A supremacia dos brancos sobre todas as outras raças havia sido, afinal de contas, estabelecida diretamente por Deus. Os negros, em particular, eram tidos como descendentes de Cão, o filho amaldiçoado de Noé cujo filho Canaã fora condenado a ser &#8220;servo dos servos de seus irmãos&#8221;<sup>1</sup>.</p>
<p>Com essa desculpa, a divisão racial fendeu por séculos países como os Estados Unidos e a África do Sul, com a devida sanção de seus líderes cristãos. &#8220;A escravidão foi estabelecida por decreto do Deus Todo-Poderoso&#8221;, explicou Jefferson Davis, presidente da Confederação. &#8220;Ela é sancionada pela Bíblia em ambos os testamentos, de Gênesis a Apocalipse. Tem existido em todas as épocas, sendo encontrada entre os povos da mais alta civilização e nas nações de maior destaque nas artes&#8221;.</p>
<p>Como ainda se crê que as distinções fundamentais entre as raças foram estabelecidas por Deus na criação, em muitas áreas dos Estados Unidos o casamento entre pessoas de raças diferentes permanece sendo visto como inaceitável &#8211; verdadeira abominação. Um juiz da Virgínia observou em 1959: &#8220;O Deus Todo-Poderoso criou as raças branca, negra, amarela, malaia e vermelha e colocou-as em continentes separados. A não ser que se queira perturbar esse arranjo de coisas, não vejo motivo para esses casamentos [mistos]&#8220;.</p>
<p><strong>Pela pátria, contra as outras nações</strong></p>
<p>Na Alemanha de Hitler, nos anos que antecederam à Segunda Guerra, o conceito cristão de ordem da criação alimentou o nacionalismo doentio que acabou gerando o nacional-socialismo &#8211; nazismo &#8211; e seus excessos.</p>
<p>Para os teólogos do popularíssimo movimento &#8220;Cristãos Germânicos&#8221; o <em>Volk</em>, a nacionalidade, era visto como uma ordem particular de Deus para a humanidade. A pátria era a vocação espiritual por excelência e o Estado o mais direto desdobramento dessa ordem divina, pelo que rebelar-se contra a liderança de Hitler era rebelar-se contra Deus.</p>
<p>&#8220;Cada desvio da ordem divina&#8221;, admitiu Walter Künneth (que nem mesmo era simpatizante de Hitler), &#8220;ocasiona decadência e caos&#8221;, enquanto Emile Hirsch explicava que a nacionalidade é &#8220;um meio de revelação de Deus&#8221;. Gerhard May argumentava que a liberdade cristã é na verdade obediência às leis e demais determinações do Estado, e em favor de sua posição citava a postura do Novo Testamento sobre a escravidão. </p>
<p>A liberdade de opinião que exigiam os membros da <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Igreja_Confessante">Igreja Confessante</a>, a liberdade de discordar da ordem divina manifesta no Estado, era &#8220;a satânica liberdade dos pecadores&#8221;, que nenhum cristão deveria querer reivindicar para si. Pois &#8220;a vontade divina expressa na lei é demonstrada pelas ordenanças claras e invioláveis que governam a vida das nações&#8221;<sup>2</sup>.</p>
<p>Dito de outra forma, para ser cristão é preciso ser patriota, e para ser patriota é preciso demonstrar apoio irrestrito às ações do governo<sup>3</sup>. Pois foi assim que Deus quis quando deitou nas formas do futuro as ordens imutáveis da criação.</p>
<p><strong>Pela fraternidade, pela igualdade, pela graça</strong></p>
<p>Ao longo da história os cristãos que ousaram discordar da supremacia da &#8220;ordem da criação&#8221; tiveram de lutar contra a corrente da interpretação estática das Escrituras. Afinal de contas, o próprio Novo Testamento não oferece uma palavra de condenação à escravidão; ao contrário, em muitas passagens parece sancioná-la sem encontrar na questão qualquer dilema moral. Era muito difícil para os abolicionistas justificar biblicamente sua posição, enquanto que os escravagistas tinham (e ainda tem) dúzias de versículos para acenar em seu favor. Dispor-se a lutar pela abolição era, em grande medida, dispor-se a lutar contra Deus e contra a Bíblia.</p>
<p>Da mesma forma, os que advogavam pelos direitos das mulheres tinham de procurar uma agulha no enorme palheiro patriarcal e sexista que é o texto bíblico. Para cada momento em que <a href="http://www.baciadasalmas.com/2008/com-as-mulheres">Jesus é amigo das mulheres</a> há dez em que Paulo nos lembra de que Eva é quem foi enganada pela serpente.</p>
<p>O milagre está em que muito lentamente, um imperceptível passo de cada vez, as vozes da misericórdia e da sanidade (que são uma só) acabam sendo ouvidas, mesmo quando os ouvidos são cristãos.</p>
<p>Os anabatistas foram os primeiros a criticar escravidão, logo seguidos pelos quacres e os menonitas, mas foi John Wesley (fundador da Igreja Metodista) quem deu verdadeira forma e credibilidade pública à posição abolicionista.</p>
<p>Influenciado por Barth, Dietrich Bonhoeffer passou questionar diante dos teólogos nazistas toda a validade da sua argumentação. Para Bonhoeffer o argumento das ordens da criação é falho porque pode ser usado para justificar virtualmente qualquer estado de coisas, por mais injusto ou arbitrário que seja. Para ele, as ordens do mundo derivam seu valor não de si mesmas, mas de Cristo, que é a nova criação e portanto a nova referência para todas as coisas. &#8220;Qualquer ordem&#8221;, enfatiza ele, &#8220;pode ser dissolvida e deve ser dissolvida quando deixa de permitir a proclamação da revelação&#8221;.</p>
<p>Em todos os casos os proponentes da graça, quando dispuseram-se a combater o preconceito, o racismo, o sexismo, o totalitarismo, a escravidão e o abismo entre as classes tiveram de abraçar a Bíblia sem abraçar-lhe a letra. Não começaram, porque não é possível, negando o sexismo dos patriarcas e discípulos ou a sanção bíblica da escravidão. <a href="http://www.baciadasalmas.com/2008/a-invasao-do-mundo">Como os profetas</a> antes deles, tiveram de apontar para um sentido mais profundo e mais abrangente da mensagem bíblica, uma mensagem transversal fundamentada não na forma dos mandamentos mas no exemplo de Jesus &#8211; e na pressuposição de que não há exemplo mais cristão a ser seguido.</p>
<p>Porque em Jesus, se você acredita nele, fica tudo de repente muito claro. Em Jesus, Deus, e portanto a criação, toma partido dos desamparados e dos marginalizados.</p>
<p>No tempo de Jesus todos sabiam que, na ordem dura da criação, os doentes eram pecadores que Deus estava punindo, as mulheres eram seres impuros que não podiam candidatar-se ao discipulado e os pobres eram desamparados por Deus que não tinham recursos para cumprir as minuciosas exigências da lei. E Jesus, <em>contra mundum</em>, beija cuidadosamente cada um e acolhe-os no abraço da graça.</p>
<p>Num único e coerente gesto de vida ele transtorna a ordem estabelecida, coloca as coisas em lugares inesperados e explica que age em nome de Deus. O Filho do Homem deixa que seus amigos colham espigas no sábado, e ele mesmo efetua curas nesse dia de descanso, não apenas porque a criação não está pronta (&#8221;meu pai ainda está trabalhando&#8221;), mas porque &#8211; e eis a grande e desconcertante revelação &#8211; &#8220;a ordem da criação foi feita para o homem, e não o homem para o ordem da criação&#8221;.</p>
<p>O que há em Jesus, é essencialmente, uma crítica pungente a toda espécie de dominação, mesmo a que é feita em nome de Deus. Sua postura é, portanto, uma ameaça a todo conforto e a todo estado de coisas. Agora ele está pendurado na cruz, mas com o tempo sua mensagem alcançará e redimirá a condição de todos os pequenos deste mundo. Agora fecham-no no túmulo, mas graças a ele haverá no futuro um momento em que escravos, pobres, mulheres, crianças e gente de todas as raças não terão mais de se envergonhar da sua condição.</p>
<p><strong>Contra os gays, contra o planeta</strong></p>
<p>Agora que você não pode mais contar piadas que ridicularizem os negros, agora que sua chefe ganha mais do que você, os preconceitos embasados no conceito das ordens da criação escolheram novos alvos.</p>
<p>São alvos mais fragéis e inesperados, e portanto mais adequados à predação neste momento da história. Hoje em dia, quando acenam com o argumento das ordens da criação, os cristãos estarão fatalmente [1] condenando a conduta homossexual ou [2] asseverando o seu direito de explorar os recursos do planeta.</p>
<p>O alvo mais fácil são, naturalmente, os homossexuais. Quando o relato de Gênesis deixa claro que Deus criou a mulher para o homem, o que pode haver de mais contrário à disposição inicial das coisas do que a união sexual entre pessoas do mesmo sexo? Se Jesus disse do divórcio que &#8220;no princípio não era assim&#8221;, o que teria dito do casamento entre homossexuais?</p>
<p>Isso porque todos os argumentos bíblicos apontados contra a homossexualidade resolvem-se em nada quando comparados a este, que é na verdade o único: na ordem original das coisas não era assim.</p>
<p>Um documento que circula na porção cristã da internet deixa clara a argumentação subjacente: &#8220;a pressão para que a igreja aprove a união entre homossexuais representa um ataque direto aos valores do casamento e da família, pois a união entre pessoas do mesmo sexo nega as ordens da criação, a complementaridade entre homem e mulher estabelecida por Deus e o mandamento valorizador de vida que afirma &#8216;fruticai-vos e multiplicai&#8217;&#8221;. A homossexualidade, portanto, é em sua essência uma afronta aos pilares divinamente estabelecidos em Gênesis: as ordens da criação.</p>
<p>Numa instância paralela, as ordens da criação são mencionadas pelos protestantes norte-americanos como credencial para explorarem até o sumo os recursos naturais da terra. Quem irá levantar-se para denunciar os abusos do homem contra a natureza, quando Gênesis assegura que Deus lhe conferiu pleno domínio sobre a terra? Como condenar os desmatamentos, a extinção escandalosa das espécies e o aquecimento global, quando a narrativa da criação esclarece que o homem foi criado para colocar o planeta sob sujeição?</p>
<p>Pelo que lêem em Gênesis, Deus não apenas deu ao homem carta branca para violentar a terra; deu-lhe essa missão.</p>
<p><strong>Contra o medo</strong></p>
<p>Como intuiu Bonhoeffer, o argumento das ordens da criação permanece sendo usado a fim de manter o estado confortável de coisas para os que se sentem confortáveis com o modo como as coisas estão.</p>
<p>A proliferação de união homossexuais é vista como uma ameaça formidável à instituição da família &#8211; e a família é a ordem da criação por excelência, a unidade essencial que mantém no lugar os fundamentos do cosmos. Violar essa ordem primordial das coisas é tido como a forma mais abominável de rebelião; não apenas contra Deus (como se não bastasse), mas contra o próprio universo. </p>
<p>Do mesmo modo, alimentar uma consciência ecológica é, em última instância, voltar-se contra a ordem divina revelada em Gênesis 1. Nosso dever como seres humanos não é preservar o planeta, mas mostrar a ele quem manda; Deus, afinal de contas, está quase pronto para dar-nos um novo e inteiramente remodelado.</p>
<p>E o fundamento para todos esses raciocínios, é preciso enfatizar, é um só: o Criador não quer que seja de outra forma, do contrário teria feito diferente desde o começo. Os verdadeiros crentes desejarão conformar-se à vontade divina, pelo que não ousarão inverter a ordem das coisas.</p>
<p>A solução para o dilema, quero crer, está em determinar até que ponto Deus deixou de ser Criador, ou em que momento a criação foi de fato concluída. A Bíblia, é claro, oferece curiosas evidências para sugerir que a obra da criação permanece em aberto. Deus é, até a última página, aquele que &#8220;faz novas todas as coisas&#8221;. O Filho do Homem e seus seguidores são em especial descritos como &#8220;novas criaturas&#8221;, isto é, protagonistas de uma nova e totalmente inusitada criação &#8211; porque, observa Jesus, um tanto blasfemamente, &#8220;meu Pai continua trabalhando&#8221;.</p>
<p>Como propõe Edward H. Schroeder em sua <a href="http://pdfmenot.com/view/http://www.crossings.org/archive/ed/TheOrdersofCreation.pdf">análise sobre a questão da ordenação feminina</a>: se Deus permanece sendo o Deus Criador, como não concluir que as mudanças sociais ocorridas no tempo que nos separa de Paulo, mudanças que acabaram possibilitando o status igualitário da mulher, são obra do mesmo Criador? Como não concluir que foram mudanças sopradas na humanidade pelo exemplo singular e subversivo de Cristo? A obra do evangelho não estará derramando sobre o mundo seus inesperados desdobramentos?</p>
<p>&#8220;A consequência clara do evangelho,&#8221; observa Schroeder, &#8220;é que as ordens da criação são impermanentes. Com o tempo acabarão passando, juntamente com &#8216;o céu e a terra&#8217;&#8221;.  A igreja não deve temer essa impermanência, porque &#8220;a própria igreja veio à existência através de um ato de violação&#8221;. A ordem fundamental da criação, pela qual o pecador deve ser invariavelmente punido com a morte, foi espetacularmente contornada pelo esvaziamento de Deus, e dessa formidável violação nasceu uma formidável possibilidade de vida. É por isso que em seu cerne a mensagem do evangelho é um escândalo &#8211; uma violação extrema da lógica e da ordem inerentes ao universo.</p>
<p>&#8220;A preocupação da igreja&#8221;, conclui Schroeder, &#8220;deve ser evitar que o próprio evangelho seja violado; fora isso, ela deve deixar que o evangelho promova suas próprias violações, credenciado pela autoridade do próprio Cristo&#8221;.</p>
<p>Jacques Ellul, refletindo sobre essas coisas, concluiu que toda a lei e toda a justiça devem estar embasadas em Cristo. O mundo e a condição humana, propõe ele, encontram-se numa situação inteiramente nova diante da revelação e da obra redentora de Deus em Cristo. O que era considerado lei natural deve perder de agora em diante o seu caráter normativo, sendo relativizado pela desconcertante reviravolta da justificação.</p>
<p>Ou, na reflexão de James Alison, nossa visão de Deus como Criador deve deixar de ser a de alguém que fez algo no passado para a de alguém que está fazendo algo nos nossos dias por meio de Jesus &#8211; Jesus que estava com o Pai desde o princípio, fazendo todas as coisas.</p>
<p>A escandalosa verdade é que a liga que sustenta o universo não é a família ou o casamento, mas a misericórdia, soprada por Deus e manifesta pelos homens. De um modo transversal o próprio Jesus demonstrou esse princípio quando explicou que &#8220;no princípio não era assim, mas o divórcio foi instituído por causa da dureza do coração de vocês&#8221;. Em outras palavras, ele está revelando que o divórcio foi instituído, incrivelmente, por uma vitória da misericórdia contra a ordem da criação. Está longe de ser uma solução ideal e não estava prevista na ordem original das coisas, mas é uma resposta da graça diante da irreversível complexidade da condição humana.</p>
<p>Nos dois mil anos que nos separam da cruz a condição humana imergiu em muitas camadas adicionais de complexidade. Porém a misericórdia tem continuando a violar, de forma sistemática e sempre escandalosa, as ordens da criação. Quando a sua obra estará concluída? Talvez no momento em que cumprir-se por completo a profecia de Paulo, e em Cristo não houver mais judeu e grego, civilizado e bárbaro, escravo e livre, homem e mulher. </p>
<p>Ou, para citar João, no momento em que o amor lançar fora todo o medo.</p>
<p>Pois o apego irresistível às ordens da criação é, essencialmente, o apego dos seres humanos (especialmente os do sexo masculino) às formas de dominação, como alternativa ao medo e ao sentimento de inadequação. Porque é sabido que os homens, que escreveram até recentemente toda a história, sentem que devem provar continuamente o seu valor, que pensam ser a mesma coisa que sua masculinidade. Se lutavam para manter o estado de coisas por meio de sexismo, do racismo e do nacionalismo é por que temiam instintivamente a competição das mulheres, dos homens de outras raças e dos povos de outras nações. É pelo mesmo motivo que recusam-se a trocar o seu <a href="http://www.flickr.com/search/?q=hummer+truck&#038;m=tags&#038;z=t&#038;ss=2&#038;s=int">Hummer</a>, que epitomiza tão adequadamente a sua masculinidade, por uma scooter ou um carro mais econômico. E, porque não querem ver a sua própria masculinidade de alguma forma colocada em cheque, lutam por um mundo em que não precisem testemunhar o beijo apaixonado de dois barbados ou (talvez pior) de duas mulheres. As ordens da criação acenam com um mundo seguro, em que todas as coisas tem o seu lugar, e é apavorante imaginar que possa ser diferente.</p>
<p>Enquanto isso o Filho do Homem, que morreu virilmente na cruz e procura nos atrair incessantemente para a mesma posição, divulga sem pausa o escândalo e a boa nova de que não há absolutamente o que temer.</p>
<b><small>NOTAS</small></b><ol class="footnotes"><li id="footnote_0_1600" class="footnote">Gênesis 9:22-25</li><li id="footnote_1_1600" class="footnote">De forma semelhante, Lutero sentia-se à vontade para <a href="http://www.baciadasalmas.com/2005/lutero-alerta-os-alemaes">imprecar contra os judeus</a> e Hitler para exterminá-los, afirmando-se cristãos os dois</li><li id="footnote_2_1600" class="footnote">Os Estados Unidos, um tanto paradoxalmente, abraçam crenças semelhantes através do conceito de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Destino_Manifesto">Destino Manifesto</a></li></ol>]]></content:encoded>
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		<title>A aurora do cristianismo secular</title>
		<link>http://www.baciadasalmas.com/2008/a-aurora-do-cristianismo-secular/</link>
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		<pubDate>Mon, 07 Jul 2008 09:22:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Fé e Crença]]></category>

		<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>

		<category><![CDATA[bonhoeffer]]></category>

		<category><![CDATA[cristianismo]]></category>

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		<description><![CDATA[Mais um mês se passou. O tempo passa tão rápido para você quanto passa para mim aqui? Fico muitas vezes surpreso diante disso &#8211; e quando vai chegar o mês em que você e Renate, eu e Maria, e nós dois possamos nos encontrar novamente?
Tenho a impressão nítida de que eventos momentosos estão movendo o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Mais um mês se passou. O tempo passa tão rápido para você quanto passa para mim aqui? Fico muitas vezes surpreso diante disso &#8211; e quando vai chegar o mês em que você e Renate, eu e Maria, e nós dois possamos nos encontrar novamente?</p>
<p>Tenho a impressão nítida de que eventos momentosos estão movendo o mundo a cada dia e poderiam mudar todos os nossos relacionamentos pessoais; gostaria por isso de escrever-lhe com frequência muito maior, em parte porque não sei por quanto tempo poderei fazê-lo, e ainda mais porque queremos dividir tudo um com o outro com a maior frequência e pelo maior tempo possíveis.</p>
<h5>Chegou ao fim o tempo em que se podia dizer tudo às pessoas por meio de palavras teológicas ou piedosas.</h5>
<p>Estou inteiramente convencido de que quando você chegar a receber esta carta grandes decisões já estarão colocando as coisas em movimento em todas as frentes. Durante as próximas semanas precisaremos de grande força interior, e é isso que desejo para você. Devemos todos manter as mentes lúcidas, de modo a que nada nos assuste.</p>
<p>Em vista do que está por vir estou quase pronto a citar o δει bíblico, e sinto que &#8220;anseio olhar&#8221;, como os anjos em 1 Pedro 1:12<sup>1</sup>, a fim de ver de que modo Deus irá resolver o aparentemente insolúvel. Creio que Deus está prestes a realizar alguma coisa que, quer façamos parte dela de forma aparente ou oculta, seremos capazes apenas de receber, com a maior maravilha e assombro. De algum modo ficará claro &#8211; para os que tiverem olhos para ver &#8211; que o Salmo 58:11b<sup>2</sup> e o Salmo 9:19-20<sup>3</sup> são verdadeiros; e teremos de repetir Jeremias 45:5<sup>4</sup> para nós mesmos todos os dias.</p>
<p>É mais difícil para você passar por isso separado de Renate e do seu menino do que é pra mim, pelo que penso em você especificamente, como estou fazendo agora. Parece-me que seria muito mais fácil, e para nós dois, se pudéssemos passar por isso juntos, ajudando um ao outro. Mas é provavelmente &#8220;melhor&#8221; que não seja assim, e que cada um de nós o enfrente sozinho. Acho difícil não poder ajudá-lo em coisa alguma &#8211; exceto pensando em você de manhã e à noite quando leio a Bíblia, e com frequência durante o dia também.</p>
<p>Você não precisa se preocupar comigo de forma alguma, porque estou levando incomumente bem &#8211; você ficaria surpreso se viesse me ver. As pessoas aqui vivem me dizendo (e como você vê, sinto-me muito lisonjeado com isso) que &#8220;irradio tanta paz ao meu redor&#8221; e que &#8220;sou sempre tão alegre&#8221; &#8211; de modo que os sentimentos muito distintos desses que às vezes me assombram devem, estou achando, basear-se numa ilusão (não que eu de alguma forma acredite nisso!).</p>
<h5>Se a religião era uma forma transitória e historicamente condicionada de auto-expressão humana, o que isso quer dizer para o cristianismo?</h5>
<p>Você ficaria surpreso, e talvez até preocupado, se soubesse que rumo estão tomando minhas reflexões teológicas; e é aqui que sinto mais falta de você, porque não conheço ninguém mais com quem poderia discutir essas coisas a fim de ter meu pensamento aclarado.</p>
<p>O que me tem incomodado incessantemente é a questão de o que de fato o cristianismo é, ou ainda quem de fato Cristo é, para nós hoje. Chegou ao fim o tempo em que se podia dizer tudo às pessoas por meio de palavras teológicas ou piedosas, e terminou também o tempo da introspecção e da consciência &#8211; e portanto o tempo da religião em geral. Estamos progredindo rumo a uma era completamente isenta de religião; da forma como são agora, as pessoas são simplesmente incapazes de serem religiosas. Mesmo os que se descrevem como religiosos não agem de forma alguma em conformidade com isso, e devem portanto estar se referindo a algo muito diferente com esse &#8220;religioso&#8221;.</p>
<p>Os mil e novecentos anos de pregação e teologia cristãs estão inteiramente embasados no conceito de uma religiosidade inerente à raça humana. O &#8220;cristianismo&#8221; foi sempre uma manifestação &#8211; talvez a verdadeira manifestação &#8211; de &#8220;religião&#8221;. Mas se um dia fica claro que esse &#8220;inerente&#8221; não existe de forma alguma, mas tratava-se de um forma transitória e historicamente condicionada de auto-expressão humana, e se o homem torna-se em consequência disso radicalmente irreligioso &#8211; e creio que seja mais ou menos esse o caso (do contrário como explicar, por exemplo, que esta guerra, em contraste com todas as anteriores, não está produzinho qualquer reação &#8220;religiosa&#8221;?) &#8211; o que isso quer dizer para o &#8220;cristianismo&#8221;?</p>
<p>Quer dizer que foi removida a fundação de tudo que havia sido até agora nosso &#8220;cristianismo&#8221;, e que restam uns poucos &#8220;últimos sobreviventes da era dos cavaleiros&#8221;, ou uns poucos sujeitos intelectualmente desonestos, dos quais podemos descender como &#8220;religiosos&#8221;. Serão esses os poucos escolhidos? Será contra esse dúbio grupo de pessoas que deveremos arremeter com zelo, ressentimento ou indignação, a fim de vendermos a eles os nossos bens? Devemos atacar um punhado de gente infeliz em sua hora de necessidade e exercitar sobre eles uma espécie de compulsão religiosa? Se não queremos fazer tudo isso, se nosso julgamento final deve ser que a forma ocidental do cristianismo foi, também ela, apenas um estágio preliminar para a completa ausência de religião, que tipo de situação emerge para nós, para a igreja? Existem cristãos sem religião? Se a religião é apenas uma vestimenta do cristianismo &#8211; e se mesmo essa vestimenta já teve diferentes aspectos em diferentes épocas &#8211; o que é então um cristianismo sem religião?</p>
<h5>E se a forma ocidental do cristianismo foi apenas um estágio preliminar para a completa ausência de religião?</h5>
<p>Barth, o único a começar a trilhar essa linha de raciocínio, não levou-a até o final, mas chegou ao positivismo da revelação, que em última análise é essencialmente uma restauração. Para o trabalhador comum sem religião (ou para qualquer outro homem) não há lucro algum aqui. As perguntas a serem respondidas devem ser certamente as seguintes: o que significam uma igreja, uma comunidade, um sermão, uma liturgia, uma vida cristã, num mundo sem religião? Como se fala de Deus sem religião &#8211; isto é, sem as pressuposições temporalmente condicionadas de metafísica, introspecção e assim por diante? Como se fala (ou talvez agora não possamos nem mesmo &#8220;falar&#8221; do modo como estávamos habituados a fazer) de um modo &#8220;secular&#8221; sobre &#8220;Deus&#8221;?</p>
<p>Em que sentido somos cristãos seculares e sem religião, em que sentido somos a &#8220;ek-klesia&#8221;, os que são convocados, sem olharmos para nós mesmos de um ponto de vista religioso como especialmente favorecidos, mas ao contrário pertencendo ao mundo de modo completo? Nesse caso Cristo não é mais um objeto de religião, mas algo inteiramente diferente: é realmente o Senhor do mundo. Mas o que isso quer dizer? Qual é o lugar de adoração e de oração numa conjuntura sem religião? Assumirá a disciplina secreta, ou alternativamente a diferença entre o último e o penúltimo, uma importância nova nesta situação?</p>
<h5>Como se fala de um modo &#8220;secular&#8221; sobre &#8220;Deus&#8221;?</h5>
<p>Preciso parar por hoje, para que a carta posso partir imediatamente. Devo escrever de novo dentro de dois dias. Espero que você entenda mais ou menos o que estou querendo dizer, e que não ache muito enfadonho. Adeus por enquanto. Não é sempre fácil escrever sem um eco, e você deve me perdoar se isso faz das minhas cartas algo como um monólogo.</p>
<p>Penso muito em você.</p>
<p>Seu Dietrich</p>
<p align="right"><small>Dietrich Bonhoeffer a Eberhard Bethge,<br />
do campo de concentração de Tegel<br />
30 de abril de 1944</small></p>
<b><small>NOTAS</small></b><ol class="footnotes"><li id="footnote_0_1595" class="footnote">Aos quais foi revelado que não para si mesmos, mas para vós, eles ministravam estas coisas que agora vos foram anunciadas por aqueles que, pelo Espírito Santo enviado do céu, vos pregaram o evangelho; para as quais coisas os anjos bem desejam atentar.</li><li id="footnote_1_1595" class="footnote">Deveras há uma recompensa para o justo; deveras há um Deus que julga na terra.</li><li id="footnote_2_1595" class="footnote">Levanta-te, Senhor! Não prevaleça o homem; sejam julgadas as nações na tua presença! Senhor, incute-lhes temor! Que as nações saibam que não passam de meros homens!</li><li id="footnote_3_1595" class="footnote">E procuras tu grandezas para ti mesmo? Não as busques; pois eis que estou trazendo o mal sobre toda a raça, diz o Senhor; porém te darei a tua vida por despojo, em todos os lugares para onde fores.</li></ol>]]></content:encoded>
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		<title>A invasão do mundo</title>
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		<pubDate>Wed, 02 Jul 2008 03:28:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Fé e Crença]]></category>

		<category><![CDATA[História]]></category>

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		<description><![CDATA[Os hebreus da primeira metade do Antigo Testamento são um povo isolado e definido pelo seu isolamento. Israel é uma nação singular definida por um Deus singular: uma nação entre nações regida pelo Deus acima de todos os deuses.
A crença na vocação da singularidade determinou, por mil anos, o modo pelo qual os hebreus interpretavam [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Os hebreus da primeira metade do Antigo Testamento são um povo isolado e definido pelo seu isolamento. Israel é uma nação singular definida por um Deus singular: uma nação entre nações regida pelo Deus acima de todos os deuses.</p>
<p>A crença na vocação da singularidade determinou, por mil anos, o modo pelo qual os hebreus interpretavam o mundo e a Escritura. Eram um povo apontado para um presente glorioso e um futuro certo; eram um país protegido sobrenaturalmente do destino arbitrário ou vergonhoso que definia o percurso de nações menos afortunadas. Eram a cabeça, e não a cauda.</p>
<p>Então as coisas começaram a dar errado, e os filhos de Israel viram-se obrigados a reavaliar, vez após outra, a sua invulnerabilidade. Primeiro vieram os assírios, 720 anos antes de Cristo, e numa campanha certeira literalmente apagaram do mapa dez das doze tribos que compunham a família original de Israel. O reino do Norte virou pó, e as duas tribos remanescentes aquartelaram-se em Jerusalém, buscando a proteção de seu rei e de seu templo &#8211; os quais recebiam, por sua vez, proteção direta da mão divina.</p>
<p>As tribos negligentes e pecadoras do norte haviam sido eliminadas (o que era visto como coisa ao mesmo tempo inevitável e lamentável), mas Jerusalém era uma fortaleza inabalável e o centro do mundo. Aqui nada tinha como dar errado.</p>
<p>Então, 586 anos antes de Cristo, os habitantes de Judá testemunharam o impensável: os babilônios pisaram o lugar santo, onde o próprio Deus descansava os seus pés, destruíram o inviolável templo de Jerusalém, tomaram para si as relíquias sagradas e acorrentaram o rei. E, como se não bastasse, a própria população de Judá, reduto dos últimos defensores da verdade da Torá no vasto universo, foi arrancada da Terra Prometida e condenada a viver no exílio em diferentes pontos do império babilônico.  Tiveram arrancados de si o seu coração, e foram condenados a viver longe do corpo. Perderam, diante de si mesmos e dos olhos de todo o mundo, sua terra, sua segurança, sua promessa.</p>
<p>Não é de admirar que tenham-se vistos obrigados a rever o seu triunfalismo. Israel, a nação isolada e singular, havia sido invadida pelo mundo e finalmente engolida por ele. Habitava agora suas entranhas.</p>
<p>A nova condição alterou marcadamente o modo pelo qual os judeus interpretavam o mundo e &#8211; ainda mais importante, no caso deles &#8211; sua própria Escritura. Talvez, viram-se forçados a ponderar, não tivessem entendido da primeira vez o que Deus queria realmente deles. E, se é que podiam sonhar com uma segunda chance, seria necessário vasculhar as Escrituras e reinterpretá-las à luz da nova situação. Era preciso encontrar novas revelações onde pensara-se durante tanto tempo estar cimentadas as antigas.</p>
<p>Essa mudança de paradigma fica evidente nos escritos dos profetas. Esses não apenas refletem os dilemas da nação isolada diante da impensável internacionalização, mas propõem maneiras radicalmente novas de se interpretar a vontade tradicional de Deus. Olhando para a mesma Torá e para as mesmas tradições, os profetas encontram a imagem de um Deus que não se sonhava residir ali. Que havia sido o pecado a ocasionar a derrocada da nação todos concordavam. Os profetas, no entanto, contornavam os pecados da religiosidade tradicional e apontavam transgressões mais sutis; destilavam uma moralidade mais refinada que, garantiam eles, Deus exigira desde o começo.</p>
<p>Uma nova espiritualidade nasceu, dessa forma, dos dissabores do exílio. Como não dispunham do templo, os judeus da dispersão passaram a reunir-se em sinagogas; aqui não tinham como apresentar os sacrifícios regulares previstos no código de Moisés, mas ofereciam constantes orações, súplicas e louvor. Descobriram que nessas casas de oração podiam manter acesa a sua vocação espiritual, estudando a Torá e buscando nela a relevância necessária para o momento. Vendo-se privados do seu insubstituível Lugar de adoração, intuíram com o passar do tempo a vertigem de que Deus não está preso a lugar algum e pode ser eficazmente buscado e encontrado seja onde for. Não é necessário, ousaram concluir, estar no templo certo, com o sacerdócio certo, o ritual certo ou no país certo. A nova espiritualidade era menos legalista, mais generosa e universal; o cativeiro revelara, paradoxalmente, um Deus maior.</p>
<p>Os exilados não encontraram apenas uma nova religiosidade mas ainda, e de forma inusitada, a prosperidade e a paz. Tornaram-se, em particular, comerciantes bem-sucedidos nas rotas de comércio babilônicas. O perfil do novo judeu era o de alguém fiel às suas raízes, mas ao mesmo tempo plenamente adaptado ao seu novo ambiente. Quando Ciro permitiu que os judeus dispersos pelo império retornassem à Palestina para reconstruir o templo e retomar o seu modo de vida (isso foi em 539 a.C.), muitos preferiram ficar.</p>
<p>A maioria, no entanto, escolheu o retorno à Judéia, onde os libertos e suas gerações reconstruíram o templo e os muros de Jerusalém sob a liderança de Esdras e Neemias. Um novo e improvável sol de esperança brilhara sobre Judá, e seu Deus agora era ainda mais singular por não ser limitado pelo espaço.</p>
<p>Porém não demorou e veio o indomável Alexandre, e no rastro dele os gregos. Israel saberia, agora sim, o que é ser efetivamente invadido por uma cultura. Logo o mundo judeu estaria falando em grego, e mesmo essa não seria a mudança mais radical.</p>
 <div class='series_toc'><p>&nbsp;</p><p align="center"><small>Este documento faz parte da série</small></p><h3>Palavra por palavra</h3><ol><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/de-onde-tirei-essa-ideia/' title='De onde tirei essa idéia'>De onde tirei essa idéia</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/o-mundo-dos-pre-canonicos/' title='O mundo dos pré-canônicos'>O mundo dos pré-canônicos</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/uma-questao-de-relevancia-estendida/' title='Uma questão de relevância estendida'>Uma questão de relevância estendida</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/antes-que-houvesse-o-paraiso/' title='Antes que houvesse o Paraíso'>Antes que houvesse o Paraíso</a></li><li>A invasão do mundo</li></ol></div> ]]></content:encoded>
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		<title>Antes que houvesse o Paraíso</title>
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		<pubDate>Wed, 28 May 2008 09:47:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Fé e Crença]]></category>

		<category><![CDATA[Manuscritos]]></category>

		<category><![CDATA[bíblia]]></category>

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		<description><![CDATA[Já foi amplamente observado, e a própria Bíblia oferece testemunho suficiente, de que os antigos hebreus não conheciam &#8211; e portanto não promoviam &#8211; os conceitos hoje inescapáveis de alma imortal, de recompensa futura, de vida após a morte, de céu e inferno. Dois terços da Escritura hebraica estavam concluídos e a Bíblia não havia [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Já foi amplamente observado, e a própria Bíblia oferece testemunho suficiente, de que os antigos hebreus não conheciam &#8211; e portanto não promoviam &#8211; os conceitos hoje inescapáveis de alma imortal, de recompensa futura, de vida após a morte, de céu e inferno. Dois terços da Escritura hebraica estavam concluídos e a Bíblia não havia ainda feito qualquer menção, mesmo que indireta, à ressurreição ou a um julgamento depois da morte. </p>
<p>Retroativamente, depois de dois mil anos de ouvir a religião ocidental batendo na tecla da imortalidade pessoal, pode ser difícil apreender que os primeiros escritores do Antigo Testamento (entre eles os autores do Pentateuco, de Eclesiastes, das narrativas de Reis e de inúmeros Salmos) viam a vida e a morte de modo muito diverso.</p>
<p>Enquanto hoje temos a esperança (ou a ameaça) de uma vida futura plena e consciente, os autores da maior parte do Antigo Testamento ensinavam que deveríamos apostar todas as nossas cartas <em>nesta vida</em>, porque (enfatizavam eles) não há outra &#8211; pelo menos não uma existência que se compare a esta em termos de iniciativa, satisfação e relacionamento com Deus e os homens.</p>
<p>&#8220;Eis aqui o que eu vi, uma boa e bela coisa: alguém comer e beber, e gozar cada um do bem de todo o seu trabalho, com que se afadiga debaixo do sol, todos os dias da vida que Deus lhe deu; pois esse é o seu quinhão<em>/tudo que ele vai ter</em>&#8221; (Eclesiastes 5:18).</p>
<p>A idéia dos antigos hebreus de vida depois da morte é representada por um local ou condição obscuros chamados Seol (ou Sheol), palavra que pode muito bem ser metáfora (digamos, como &#8220;túmulo&#8221;) para a morte definitiva ou o fim da existência.</p>
<p>&#8220;Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças; porque no Seol, para onde tu vais, não há obra, nem projeto, nem conhecimento, nem sabedoria alguma (9:10).&#8221;</p>
<p>O Seol difere dos conceitos posteriores de céu e do inferno em inúmeros sentidos importantes. Em primeiro lugar, trata-se de um destino democrático, local para onde vão indistintamente justos e injustos:</p>
<p>&#8220;E embora vivesse duas vezes mil anos, mas não gozasse o bem, [de que adiantaria?] &#8211; não vão todos para um mesmo lugar? (6:6).&#8221;</p>
<p>A existência (ou não-existência) no Seol não implica, por essa razão, no julgamento da conduta que a pessoa abraçou em seus dias na terra, ou numa espera por esse julgamento; não implica em recompensa ou castigo, não implica em ressurreição posterior. É lugar para a qual caminham todos, condição em que ninguém deve nada esperar e nada se pode fazer.</p>
<p>Para os autores dos primeiros dois terços do Antigo Testamento, portanto, a morte representava o dramático término da vida espiritual, o fim do relacionamento do homem com Deus. &#8220;Volta-te, Senhor, salva-me a alma<em>/vida</em>; pois na morte não há lembrança de ti; no Seol quem te louvará? (Salmo 6:4-5)&#8221;. O salmista entende aqui que a existência da sua alma corresponde à sobrevivência da sua vida. Ele não está pedindo pela salvação eterna da alma após a morte, conceito que claramente desconhece; seu pedido é que Deus prolongue a sua vida, de modo a que o seu relacionamento com Deus seja prolongado: &#8220;pois na morte não há lembrança de ti&#8221;.</p>
<p>Na melhor das hipóteses, o Seol era visto como um local de repouso final em que as pessoas estavam finalmente livres dos tormentos e arbitrariedades da condição humana (Jó 3:11-19). Porém mesmo quando visto como oportunidade de sono ou descanso, o Seol era a condição negativa que contrastava com a condição positiva de vida. Não havia promessa ou expectativa de recompensa, de consciência pessoal ou de ressurreição (&#8221;Mostrarás tu maravilhas aos mortos? ou levantam-se os mortos para te louvar? [Salmo 88:10)]&#8220;; &#8220;Não há coisa melhor do que alegrar-se o homem nas suas obras; pois quem o fará voltar para ver o que será depois dele? [Eclesiastes 3:22]&#8220;; &#8220;Tal como a nuvem se desfaz e some, aquele que desce ao Seol nunca tornará a subir [Jó 7:9]).</p>
<p>Para os antigos hebreus, a recompensa para uma conduta de obediência a Deus era vida, especialmente entendida como &#8220;prosperidade na vida&#8221; &#8211; mas esta vida. O castigo pela desobediência a Deus era a morte, especialmente entendida como morte antecipada &#8211; mas morte comum a todos. A vida podia ser eventualmente prolongada pela obediência (&#8221;para que se prolonguem os seus dias na terra que o Senhor teu Deus te dá&#8221;), mas uma vida longa e próspera na presença de Deus e uma prolongação de vida na forma de uma descendência numerosa era o máximo o que uma pessoa íntegra podia pedir e esperar. </p>
<p>Um caso como o de Enoque, que Deus decidiu &#8220;tomar para si&#8221; para viver na sua presença, era tido como exceção e como <a href="http://www.baciadasalmas.com/2008/a-ascensao-de-enoque/">extraordinária exceção</a> era celebrado. Para a esmagadora maioria, mesmo para a maioria dos justos, tudo que havia era a perspectiva de uma boa vida e uma boa morte. Depois, o nada, o túmulo: o Seol.</p>
<p>Dentro dessa visão de mundo, o homem era visto como pó da terra animado por um espírito &#8211; sendo que esse conceito de &#8220;espírito&#8221; não tinha qualquer relação com a idéia posterior de alma pessoal e imortal. Para os antigos hebreus, &#8220;espírito&#8221; era o sopro de vida inculcado temporariamente por Deus na matéria inanimada. Não trata-se de um espírito pessoal, nem tampouco de um espírito limitado ao homem. Todas as coisas vivas, mesmo os animais, eram tidas como animadas pelo mesmo espírito/sopro de vida.</p>
<p>O autor de Eclesiastes observa que &#8220;nenhum homem há que tenha domínio sobre o espírito<em>/sopro da vida</em>, para o reter (8:8)&#8221; e lamenta:: &#8220;Pois o que sucede aos filhos dos homens, isso mesmo também sucede aos animais; uma e a mesma coisa lhes sucede; como morre um, assim morre o outro; todos [homens e animais] têm o mesmo fôlego<em>/espírito</em>; e o homem não tem vantagem sobre os animais; porque tudo é vaidade. Todos vão para um lugar; todos são pó, e todos ao pó tornarão (3:19-20).&#8221; Mesmo um grande trecho Novo Testamento adentro, Tiago lembra que &#8220;o corpo sem espírito<em>/sopro de vida</em> é morto (2:26)&#8221;.</p>
<p>Quando a pessoa morria, então, não se cria que seu espírito continuasse a ter uma existência pessoal independente do corpo. O corpo voltava à terra (&#8221;do pó vieste, ao pó retornarás&#8221;) e o espírito<em>/força vital</em> voltava a Deus, que o havia concedido (Eclesiastes 12:7). </p>
<p>Os primeiros autores da Bíblia criam e escreviam sobre um mundo em que depois da morte não havia vida ou consciência, nem promessa de recompensa ou justiça futura. Era uma religião peculiar e limpa, em que o contraste essencial era mantido entre céu e terra, divindade e criação, e apenas Deus retinha e desfrutava do dom da imortalidade (Salmo 115:16-18). A meros homens cabia viver uma vida digna diante de Deus e morrer fazendo a coisa certa &#8211; porque na sepultura, repetiam constantemente a si mesmos, não teriam oportunidade de fazer uma coisa ou outra. Para os antigos hebreus, uma pessoa só podia ser espiritual enquanto vivia. </p>
<p>Essa perspectiva existencialista está perfeitamente resumida na declaração do salmista: &#8220;[Quando alguém morre] Sai-lhe o espírito, e ele volta para a terra; naquele mesmo dia perecem os seus pensamentos (Salmo 146:4)&#8221;.</p>
<p>Então, no último terço da Escritura hebraica, especialmente nos profetas tardios e na porção que os judeus chamam de Ketuvim<em>/Literatura</em>, algo aconteceu. O livro de Daniel, que foi escrito muito tempo depois dos dias que descreve (motivo pelo que os judeus não o contam entre os livros históricos), é o primeiro da Bíblia a mencionar diretamente a ressurreição:</p>
<p>&#8220;Naquele tempo se levantará Miguel, o grande príncipe, que se levanta a favor dos filhos do teu povo; e haverá um tempo de tribulação, qual nunca houve, desde que existiu nação até aquele tempo; mas naquele tempo livrar-se-á o teu povo, todo aquele que for achado escrito no livro. E muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para a vida eterna, e outros para vergonha e desprezo eterno (12:1-2)&#8221;.</p>
<p>Assim, do nada.</p>
<p>Nos séculos formativos que antecederam Jesus e viram a confecção dos últimos livros da Escritura hebraica, os judeus haviam encontrado &#8211; num lugar que não eram as antigas escrituras ou a sua tradição &#8211; a idéia de ressurreição, de julgamento e de salvação/perdição eterna.</p>
 <div class='series_toc'><p>&nbsp;</p><p align="center"><small>Este documento faz parte da série</small></p><h3>Palavra por palavra</h3><ol><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/de-onde-tirei-essa-ideia/' title='De onde tirei essa idéia'>De onde tirei essa idéia</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/o-mundo-dos-pre-canonicos/' title='O mundo dos pré-canônicos'>O mundo dos pré-canônicos</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/uma-questao-de-relevancia-estendida/' title='Uma questão de relevância estendida'>Uma questão de relevância estendida</a></li><li>Antes que houvesse o Paraíso</li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/a-invasao-do-mundo/' title='A invasão do mundo'>A invasão do mundo</a></li></ol></div> ]]></content:encoded>
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		<title>Meramente viviam</title>
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		<pubDate>Wed, 07 May 2008 09:20:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Fé e Crença]]></category>

		<category><![CDATA[Homens e Mulheres]]></category>

		<category><![CDATA[cristianismo]]></category>

		<category><![CDATA[cultura]]></category>

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		<description><![CDATA[Eu adoraria encontrar registros da existência de teólogas influentes na igreja primitiva, na era medieval e na Reforma. Porém, embora as mulheres estivessem certamente presentes e tenham sido fundamentais na vida espiritual do Cristianismo ao longo de toda a sua história, até recentemente nenhuma delas foi capaz de influenciar consideravelmente o curso e a direção [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<blockquote><p>Eu adoraria encontrar registros da existência de teólogas influentes na igreja primitiva, na era medieval e na Reforma. Porém, embora as mulheres estivessem certamente presentes e tenham sido fundamentais na vida espiritual do Cristianismo ao longo de toda a sua história, até recentemente nenhuma delas foi capaz de influenciar consideravelmente o curso e a direção da teologia da igreja.<br />
<br />
Para alguns a escassez de &#8220;mães da igreja&#8221; é evidência de preconceito por parte dos teólogos de sexo masculino, ou do caráter irremediavelmente patriarcal do próprio cristianismo. Creio que essa escassez é evidência da natureza patriarcal da cultura ocidental como um todo (da qual o cristinismo é parte integral) e da acomodação cultural por parte da igreja e de suas instituições. Deveriam ter existido mães da igreja paralelamente aos <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Anexo:Lista_de_Padres_da_Igreja">pais da igreja</a>. O fato de que não tenham existido é um escândalo para a igreja, mas não justifica as histórias revisionistas que as inventam.</p></blockquote>
<p>Este é Roger E. Olson na introdução de seu <a href="http://www.editoravida.com.br/loja/product_info.php?products_id=87">The Story of Christian Theology</a>, de resto um livro valiosíssimo, embora não pelos motivos que supõe o seu autor.</p>
<p>Neste trecho Olson está se esforçando para, sem ofender ninguém, corrigir uma falácia: a idéia revisionista de que na história do cristianismo existiram mulheres que se ocuparam de teologia, pensadoras cuja voz foi silenciada por uma ardilosa conspiração de teólogos do sexo masculino. Olson está certo em dizer que historicamente as mulheres não se ocuparam de teologia, mas para corrigir essa falácia ele reforça outra ainda maior e muitas vezes mais popular, a noção de que a teologia é o modo relevante, o modo último e ótimo de se exercer o cristianismo. Ele está efetivamente dizendo: &#8220;é uma pena que não tenham havido mulheres teólogas, porque o pensamento teológico é a esfera na qual o cristianismo verdadeiro se desenrola&#8221;.</p>
<p>Falando assim, Olson está destilando eficazmente dois mil anos de pensamento masculino: para os homens, fazer cristianismo é fazer teologia.</p>
<h5>Para os homens, fazer cristianismo é fazer teologia.</h5>
<p>Não importa o que pensem Olson ou os revisionistas que ele procura refutar: o fato é que não foi por mera falta de oportunidade que as mulheres não se ocuparam de teologia. Num sentido muito essencial, o que as manteve longe das especulações teológicas foi a consciência profunda de que tinham (como mulheres e como cristãs) coisa mais importante para fazer.</p>
<p>A teologia é um exercício intelectual, uma manobra de idéias, um jogo expansionista cujo objetivo é anular a posição do antagonista. A proposta da teologia não é apenas fixar, tabular e estabelecer limites para a imponderável verdade espiritual; seu objetivo declarado é vencer, derrubar, eliminar a oposição pela <a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/a-seducao-da-ortodoxia/">manobra rasteira do convencimento</a>. Essa sua qualidade de &#8220;jogo de quem é mais forte&#8221; (ou, no caso, &#8220;quem está mais certo&#8221;) mantem-na, irremediavelmente, no terreno dos interesses masculinos.</p>
<p>Não é caminho que as mulheres tenham prazer em trilhar. O jogo masculino, qualquer que seja, não as interessa.</p>
<p>Além disso é preciso reconhecer que escrever teologia é tradicionalmente a atividade de homens que não estão fazendo sexo (naturalmente há outros homens, além de teólogos, que não estão fazendo sexo, mas esses estão amortizando essa carência compondo poemas candentes, escrevendo romances vigorosos ou buscando uma solução ainda mais eficaz para remediar a sua situação). Historicamente, portanto &#8211; e disso dão evidência tanto as linhas quanto as entrelinhas &#8211; a teologia foi escrita por homens obcecados por sexo, e pelos motivos errados. A teologia é o esforço masculino de demonstrar que a verdadeira espiritualidade implica em afastamento do mundo real; daí a abstinência, daí a assepsia das idéias, daí o caráter infantilmente selado das discussões, das quais só podem efetivamente participar os iniciados na adequada gnose.</p>
<h5>Escrever teologia é tradicionalmente a atividade de homens que não estão fazendo sexo.</h5>
<p>Falando claramente, as mulheres não têm esse problema sexual. Não acham necessário constrastar a vida cristã com o que quer que seja, muito menos com algo tão desejável e natural quanto o sexo ou os demais embaraços e delícias da realidade física. Nesse sentido as mulheres rendem-se imediatamente aos charmes de Jesus de Nazaré, o curador e contador de histórias, que por um lado recusava-se a rebaixar-se à especulação teológica, por outro <a href="http://www.baciadasalmas.com/2007/sexto-passo-sensualize-a-sua-espiritualidade/">abraçava o mundo dos sentidos</a> com mais avidez e candura do que o mundo das idéias.</p>
<p>Intuitivamente, portanto, as mulheres sabem que a espiritualidade não é coisa a ser cultivada na cabeça, mas no coração; não é atividade que se desenrole no palco das idéias, mas nos bastidores das atitudes. Ao longo da história, enquanto os homens se ocupavam de teologia, as mulheres cristãs viviam (e, como homem, minha tentação é escrever &#8220;meramente viviam&#8221;, como se viver fosse coisa de somenos).</p>
<p>Elas apostaram consistentemente na idéia de que, se havia algo de relevante na herança de Jesus, isso se manifestava em pés empoeirados, em abraços, em unhas sujas, em panelas de comida, em manchas difíceis de sair, em cafunés, em consolos, em longas conversas na madrugada, na cabeceira dos doentes, na limpeza das secreções, em lágrimas, na confecção de presentes, na sustentação de relacionamentos, na cura de doentes, nas visitas aos esquecidos, no repartir do pão, no sorriso dividido, no dilema de consciência, na intimidade da cama, na companhia silenciosa, na ausência impensável. </p>
<p>Em primeiro de abril de 1933, aos 91 anos de idade, Julie Bonhoeffer (avó do teólogo Dietrich) atravessou desafiadoramente o cordão de isolamento que os soldados das tropas de assalto nazistas haviam estendido no centro de Berlim para promover o boicote aos estabelecimentos judeus. Caminhando além da linha divisória e dos soldados perplexos, Julie foi fazer suas compras na <em>Kaufhaus des Westens</em>, a loja de proprietários judeus que costumava freqüentar.</p>
<p>Se resta na terra evidência que honre a herança de Jesus, isso não se deve aos meandros da teologia; não se deve, em grande parte, a homens.</p>
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		<title>O predicado é o sujeito</title>
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		<pubDate>Mon, 17 Mar 2008 08:24:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Fé e Crença]]></category>

		<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>

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		<description><![CDATA[Enquanto o amor não é exaltado como substância, como essência, permanece à espreita, por trás do amor, um personagem que mesmo sem amor é algo em si mesmo, um monstro incapaz de amar, um ser diabólico, cuja personalidade, separável e na verdade separada do amor, deleita-se no sangue de hereges e descrentes: o fantasma do [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Enquanto o amor não é exaltado como substância, como essência, permanece à espreita, por trás do amor, um personagem que mesmo sem amor é algo em si mesmo, um monstro incapaz de amar, um ser diabólico, cuja personalidade, separável e na verdade separada do amor, deleita-se no sangue de hereges e descrentes: o fantasma do fanatismo religioso.</p>
<p>No entanto a idéia essencial da encarnação, embora embalada na noite da consciência religiosa, é o amor. O amor determinou que Deus renunciasse à sua divindade.</p>
<h5>O amor triunfa sobre Deus.</h5>
<p>Era neste sentido que a fé entusiástica e intransigente dos antigos celebrava a encarnação. <em>Amor triumphat de Deo</em>, diz São Bernardo. E é apenas nesse senso de verdadeira auto-renúncia, de auto-negação da Divindade, que jaz a realidade, a potência da encarnação –  muito embora essa auto-negação seja na verdade mera concepção da imaginação, porque, quando examinado à luz do dia, Deus não nega a si mesmo na encarnação, mas revela-se pelo que realmente é, um ser humano. As elocubrações que a ortodoxia racionalista contemporânea e o racionalismo pietista desenvolveram a respeito da encarnação não merecem ser sequer mencionadas, quanto mais refutadas.</p>
<p>Não foi por causa de sua divindade como tal, pela qual ele é o sujeito na proposição &#8220;Deus é amor&#8221;, mas por causa do seu amor, por causa do predicado, é que Deus renunciou à sua divindade; o amor é portanto um poder mais elevado e verdadeiro do que a divindade. O amor triunfa sobre Deus.</p>
<p>Foi ao amor que Deus sacrificou sua divina majestade. E que espécie de amor era esse? Um amor alheio ao nosso? Diverso daquele pelo qual sacrificamos a vida e a fortuna? Era o amor dele por si mesmo? Por si mesmo como Deus? Não: era amor ao homem.</p>
<p>Mas não é amor ao homem um amor humano? Sou por acaso capaz de amar o homem sem amá-lo humanamente, sem amá-lo como ele mesmo ama, se é que ama de fato? Não seria esse amor do contrário um amor diabólico? O diabo também ama o homem, mas não por causa do homem – por causa de si mesmo; ama o homem por egoísmo, para engrandecer a si mesmo, para estender o seu poder.</p>
<h5>Deus como Deus não nos salvou.</h5>
<p>Porém Deus ama o homem pelo homem em si mesmo, isto é, para poder torná-lo bom, feliz, abençoado. Não é o amor dele como o do homem íntegro que ama o seu semelhante? Amor tem plural? Não é em todo lugar idêntico a si mesmo? Qual é então o significado genuíno e verdadeiro e da encarnação se não amor absoluto, puro, sem aditivos, sem distinção entre o amor divino e o amor humano? Pois embora haja amor por interesse entre os homens, o verdadeiro amor humano, o único digno desse nome, é o que o impele a sacrificar-se por outra pessoa.</p>
<p>Quem é então nosso Salvador e Redentor? Deus ou o Amor? É o Amor, pois Deus como Deus não nos salvou; salvou-nos o Amor, que transcende a diferença entre a personalidade divina e a humana.</p>
<p>E da mesma forma que Deus renunciou a si mesmo por amor devemos nós também, por amor, renunciar a Deus; pois se não sacrificarmos Deus ao amor teremos de sacrificar o amor a Deus, e ao invés do predicado do amor, teremos o Deus – o ser maligno – do fanatismo religioso.</p>
<p style="TEXT-ALIGN: right"><small><strong>Ludwig Andreas Feuerbach,</strong> em A essência do Cristianismo (1841)</small></p>
<p style="TEXT-ALIGN: left">Leia também:<br/><a href="http://www.baciadasalmas.com/2007/a-anulacao-da-bondade">A anulação da bondade</a></p>
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		<title>O Jesus terreno e o Cristo extraterrestre</title>
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		<pubDate>Fri, 22 Feb 2008 08:01:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Fé e Crença]]></category>

		<category><![CDATA[bíblia]]></category>

		<category><![CDATA[cristianismo]]></category>

		<category><![CDATA[jesus]]></category>

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		<description><![CDATA[O primeiro capítulo do livro de Atos dos Apóstolos narra uma das separações mais dramáticas da história, a ascensão de Jesus ao céu diante dos olhos marejados e perplexos de seus discípulos. A cena inspirou artistas plásticos e poetas ao longo de dois milênios; no que me diz respeito sua encarnação mais notável é a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O primeiro capítulo do livro de Atos dos Apóstolos narra uma das separações mais dramáticas da história, a ascensão de Jesus ao céu diante dos olhos marejados e perplexos de seus discípulos. A cena inspirou artistas plásticos e poetas ao longo de dois milênios; no que me diz respeito sua encarnação mais notável é a <a href="http://youtube.com/watch?v=pOvR2WudpV8">seqüência final</a> de <em>E.T., o Extraterrestre</em> (Steven Spielberg, 1982), em que Elliott e seus familiares, embalados por uma fantástica brisa sublunar e pela trilha sonora espetacular de John Williams, observam a nave de E.T. desaparecer no céu estrelado deixando um rastro que é um arco-íris quase horizontal.</p>
<p>Steven Spielberg já deixou muito claro que E.T. não deve voltar à terra numa continuação, e esperemos que fale sério; Jesus, ao contrário, assegurou aos seus fãs que retornaria. Quando se leva em conta que Atos é uma Parte 2, uma declarada continuação do evangelho de Lucas, deve ficar claro que trata-se de uma continuação cuja dramaticidade é imediatamente prejudicada pela ausência do protagonista da Parte 1. É como se Spielberg resolvesse filmar uma continuação de E.T. em que o próprio E.T. não aparecesse na tela em momento algum. Poderia ser até um grande filme, mas muita gente sairia do cinema sentindo-se traída; a expectativa de um fã/seguidor é ver a tela cheia com o rosto familiar do protagonista – ou contar pelo menos com o consolo de saber que seu nome não está sendo usado em vão numa continuação que nada tem a ver com ele.</p>
<p>O momento mais importante da narrativa é portanto este, o da seminal cisão na experiência da humanidade com Jesus. &#8220;E, quando dizia isto, vendo-o eles, foi elevado às alturas, e uma nuvem o recebeu, ocultando-o a seus olhos.&#8221; Terminara visivelmente a era do Jesus terreno e começava uma inconcebível outra, em que o Filho do Homem angariaria uma nova fama e um novo nome. Os protagonistas do livro de Atos teriam de conviver, pela primeira vez, com a idéia e com as implicações de um Cristo extraterrestre.</p>
<p>Em termos históricos, o Jesus terreno é o indomável rabi de pés empoeirados que contava histórias cheias de ironia, bebia com agiotas e tinha os pés massageados por prostitutas. É o homem que desdobrava bem-aventuranças, dizia que os pecadores são gente mais notável do que os carolas e ensinava que para serem dignos de Deus (&#8221;filhos de Deus&#8221;, ele dizia) seus seguidores deveriam amar os seus inimigos e emprestar sem esperar receber de volta. O homem muito real que comia, chorava, abraçava, dormia, pedia água, sangrava e morreu.</p>
<p>O Cristo extraterrestre é o Jesus ressurreto e coroado de glória, ausente em pessoa porque está presente no céu, sentado no lugar de absoluta honra à direita de Deus. É o Jesus dos hinos de Paulo, o Adão que deu certo, o irmão mais velho de uma nova e afortunada geração, o admirável Senhor em quem reside, vertiginosamente, &#8220;toda a plenitude&#8221;. É o Verbo cósmico de volta ao seio da divindade; é o Messias sofredor em sua nova carreira de Rei da Glória. O Cristo extraterrestre é o Jesus de todas as teologias tradicionais: o grande Salvador, o grande Senhor, o grande e terrível Unigênito de Deus. É o interventor que intercede constantemente em favor da justiça, o Filho que merece a admiração incessante do Pai (e portanto do universo), o juiz que aguarda impaciente o momento de retribuir, o derramador de graça em nome de quem são feitas todas as orações. É um homem espiritual, e os teólogos não estão certos sobre se restam em seu corpo espiritual cicatrizes da terra.</p>
<p>A partir deste ponto, como veremos, a narrativa de Atos (e na verdade todo o restante do Novo Testamento) só terá aparentemente olhos e ouvidos para o Jesus extraterrestre, o Cristo ressurreto. Se digo &#8220;aparentemente&#8221; é porque espero que quando os testemunhos forem devidamente ouvidos não seja realmente assim. Se o Jesus terreno era o sujeito notável que penso que era, deve ser possível encontrar traços de sua radioatividade nas aventuras posteriores dos seguidores do Cristo extraterrestre.</p>
<p>Porém, neste momento da nossa própria narrativa pessoal, estabelecer a distinção entre o Jesus terreno e o Cristo extraterrestre pode ser relevante por mais de um motivo.</p>
<p>Em primeiro lugar, analisar essa distinção é importante porque, embora o Cristo extraterrestre esteja longe de ser unanimidade, o Jesus terreno conta com a admiração de praticamente todo mundo. Ateus, agnósticos, muçulmanos, hindus, judeus e ideólogos de todas as estirpes, mesmo quando demonstram repugnância diante da história da igreja ou da idéia da divindade de Cristo, estarão em grande parte dispostos a admitir a singularidade e a relevância do Jesus terreno. Mesmo quem recusa-se com convicção a ajoelhar-se diante do Deus Filho acaba dobrando-se voluntariamente diante do Filho do Homem.</p>
<p>É incrível reconhecer que o Jesus da narrativa dos evangelhos, o Jesus anterior a qualquer teologia, angariou irresistivelmente (e continua angariando) a admiração de gente que não via nada de particularmente admirável no cristianismo institucional. Agnósticos convictos como H. G. Wells, salvadores da humanidade como Gandhi, miseráveis como Tolstoi, teimosos como Nietzsche e pensadores radicais como Wilhelm Reich – todos esses críticos empedernidos do cristianismo – deixaram singelo testemunho de sua admiração pelo Jesus dos evangelhos: alguns ao ponto de se considerarem seguidores dele.</p>
<p>Vê-se portanto, que a cisão entre o Jesus da terra e o do céu deixou uma fratura histórica que ziguezagueou obedientemente até a nossa porta. A rachadura ainda divide o mundo. Grosso modo, os cristãos sentem repugnância pelo mundo e atração pelo Cristo extraterrestre; o mundo sente atração pelo Jesus terreno e repugnância pelos cristãos.</p>
<p>O que me interessa em especial é determinar por que os cristãos, historicamente falando, abraçaram com convicção o Jesus &#8220;espiritual&#8221; da teologia e relegaram a um distante segundo plano o Jesus de carne e osso e suas impensáveis exigências. Parte da resposta, obviamente, acabo de dar.</p>
<p>Essa obsessão dos cristãos com o Cristo extraterrestre é o segundo motivo pelo qual creio que a questão precisa ser resolvida ou pelo menos adequadamente equacionada. Quando e de que modo ficou determinada a &#8220;vitória&#8221; final do Cristo ressurreto sobre o Jesus de carne?</p>
<p>Que sua vitória foi esmagadora não espero que ninguém ouse negar. Quando pensam em Jesus – dizendo melhor, quando pensam num Jesus relevante para o momento presente – os cristãos pensam inevitavelmente no Cristo extraterrestre. É diante dele que despejam suas súplicas e suas reclamações; é sua companhia que almejam e seu conforto que esperam; é a ele que adoram e é no seu esplendor que entrevêem a glória do próprio Deus. É sua voz que esperam ouvir.</p>
<p>O <a href="http://www.baciadasalmas.com/2007/em-seis-passos-o-livro">Jesus de carne e osso dos evangelhos</a> (sua postura, sua companhia, suas ironias, suas lealdades) é visto secretamente como manifestação embaraçosa do insondável senso de humor divino. Ao mesmo tempo esse Jesus terreno é publicamente respeitado como honroso precursor, um segundo João Batista cuja função era preparar o terreno para a chegada do novo e aprimorado Jesus da glória. O rabi da Galiléia é visto como um ponto provisório do trajeto, não o Caminho em si.</p>
<p>Devidamente orientados pelos que interpretaram a narrativa para nós, os cristãos aprenderam a não procurar Jesus na terra. Procuramo-lo incessantemente no céu, que é o seu ambiente.</p>
<p>Como fulcro desse escândalo todo, o testemunho do livro de Atos deve ser considerado importante, talvez vital. Aqui estão as vozes e as vidas da única geração para a qual esses dois adversários, o Jesus terreno e o Cristo extraterrestre, eram uma mesma e espantosa pessoa. Esses seus seguidores, que tinham ouvido do Jesus terreno que não se pode servir a dois senhores, teriam que determinar em pouco tempo sobre quem deitariam as suas lealdades.</p>
<p>E a primeira voz divina que ouviram, enquanto ainda olhavam assombrados para a nuvem que ocultara deles o seu Jesus, explicou-lhes que Jesus não deveria ser procurado no céu.</p>
 <div class='series_toc'><p>&nbsp;</p><p align="center"><small>Este documento faz parte da série</small></p><h3>Rastros dos apóstolos</h3><ol><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/como-perder-jesus-de-vista-no-livro-de-atos/' title='Como perder Jesus de vista no livro de Atos'>Como perder Jesus de vista no livro de Atos</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/ascensao-sem-tregua-das-testemunhas/' title='Ascensão sem trégua das testemunhas'>Ascensão sem trégua das testemunhas</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/a-escassez-seletiva-selecionar-e-interpretar/' title='A escassez seletiva: selecionar é interpretar'>A escassez seletiva: selecionar é interpretar</a></li><li>O Jesus terreno e o Cristo extraterrestre</li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/com-as-mulheres/' title='Com as mulheres'>Com as mulheres</a></li></ol></div> ]]></content:encoded>
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		<title>Formas de uma lenda</title>
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		<pubDate>Mon, 18 Feb 2008 07:36:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Heresias Sensacionais]]></category>

		<category><![CDATA[Traduzindo Borges]]></category>

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		<description><![CDATA[Às pessoas causa repugnância ver um ancião, um enfermo ou um morto, porém estão sujeitas à morte, às enfermidades e à velhice; o Buda declarou que esta reflexão o induziu a abandonar sua casa e seus pais e vestir a roupa amarela dos ascetas. O testemunho consta em um dos livros do cânone; outro registra [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Às pessoas causa repugnância ver um ancião, um enfermo ou um morto, porém estão sujeitas à morte, às enfermidades e à velhice; o Buda declarou que esta reflexão o induziu a abandonar sua casa e seus pais e vestir a roupa amarela dos ascetas. O testemunho consta em um dos livros do cânone; outro registra a parábola dos cinco mensageiros secretos enviados pelos deuses; são um louco, um ancião recurvado, um inválido, um criminoso em tormentos e um morto, e avisam que nosso destino é nascer, caducar, enfermar, sofrer justo castigo e morrer. O Juiz das Sombras (na mitologia do Hindustão Yama desempenha esse cargo, porque foi o primeiro homem que morreu) pergunta ao pecador se não viu os mensageiros; este admite que sim, porém não foi capaz de decifrar o aviso; os carrascos o encerram numa casa que está cheia de fogo. Quiçá o Buda não tenha inventado essa ameaçadora parábola; baste-nos saber que a proferiu (<em>Majihima nikaya</em>, 130) e que jamais a vinculou, talvez, à sua própria vida.</p>
<p>A realidade pode ser demasiado complexa para a transmissão oral; a lenda a recria de uma maneira que apenas acidentalmente é falsa e que a permite andar pelo mundo, de boca em boca. Na parábola e na declaração figuram um homem velho, um homem enfermo e um homem morto; o tempo fez dos dois textos um e forjou, confundindo-os, uma outra história.</p>
<p>Siddharta, o Bodhisattva, o pré-Buda, é filho de um grande rei, Suddhodana, da estirpe do sol. Na noite de sua concepção a mãe sonha que em seu lado direito entra um elefante, da cor da neve e com seis dentes de marfim<sup>1</sup>. Os adivinhos interpretam que seu filho reinará sobre o mundo ou fará girar a roda da doutrina<sup>2</sup> e ensinará aos homens como livrarem-se da vida e da morte. O rei prefere que Siddartha conquiste grandeza temporal e não eterna, e encerra-o num palácio do qual foram removidas todas as coisas que podem revelar-lhe que é corruptível. Vinte e nove anos de ilusória tranqüilidade transcorrem dessa forma, dedicados à satisfação dos sentidos, porém Siddharta, certa manhã, sai em seu coche e vê com espanto um homem recurvado, &#8220;cujo cabelo não é como o dos outros, cujo corpo não é como o dos outros&#8221;, que se apóia num bastão para caminhar e cuja carne treme. Pergunta que homem é esse; o cocheiro explica que é um ancião e que todos os homens da terra serão como ele. Siddharta, inquieto, dá ordem que retornem imediatamente, porém em outra saída vê um homem a quem devora a febre, cheio de lepra e de úlceras; o cocheiro explica que é um enfermo e que ninguém está a salvo desse perigo. Em outra saída vê um homem que levam num féretro, esse homem imóvel é um morto, explicam, e morrer é a lei de todo que nasce. Em outra saída, a última, vê um monge das ordens mendicantes que não deseja viver nem morrer. A paz está em seu rosto; Siddharta encontrou o caminho.</p>
<h5>A lenda determinou que o Buda fosse canonizado por Roma.</h5>
<p>Hardy (<em>Der Buddhismus nach älteren Pili-Werken</em>) aplaudiu o colorido desta lenda; um ideólogo contemporâneo, A. Foucher, cujo tom de gracejo nem sempre é inteligente ou urbano, escreve que, admitida a ignorância prévida do Bodhisattva, a história não carece de gradação dramática nem de valor filosófico. No princípio do século V da nossa era o monge Fa-Hien peregrinou aos reinos do Hindustão em busca dos livros sagrados e viu as ruínas da cidade de Kapilavastu e quatro imagens erigidas por Asoka, ao norte, ao sul, ao este e ao leste das muralhas, para celebrar os encontros. No princípio do século VII um monge cristão redigiu a novela que se entitula <em>Barlaam y Josafat</em>; Josafat (Josafat, Bodhisattva) é filho de um rei da Índia; os astrólogos predizem que um dia reinará sobre um reino maior, que é o da Glória: o rei encerra-o num palácio, porém Josafat descobre a desafortunada condição dos homens através das espécies de um cego, de um leproso e de um moribundo e é convertido finalmente à fé pelo ermitão Barlaam. Esta versão cristã da lenda foi traduzida para diversos idiomas, inclusive o holandês e o latim; a pedido de Hákon Hákonarson produziu-se na Islândia, em meados do século XIII, uma <em>Barlaams saga</em>. O cardeal César Baronio incluiu Josafat em sua revisão (1585-1590) do Martirológio Romano; em 1615 Diego de Couto denunciou, em sua continuação das Décadas, as analogias da fingida fábula indiana com a verdadeira e piedosa história de São Josafat. Tudo isso e muito mais achará o leitor no primeiro volume de <em>Origenes de la novela</em> de Menéndez y Pelayo.</p>
<p>A lenda que em terras ocidentais determinou que o Buda fosse canonizado por Roma tinha, no entanto, um defeito: os encontros que postula são eficazes mas são também incríveis. Quatro saídas de Siddharta e quatro figuras didáticas não condizem com os hábitos do azar. Menos atentos ao estético do que à conversão das massas, os doutores quiseram justificar essa anomalia; Koeppen (<em>Die Religion des Buddha</em>, I, 82) anota que na última versão da lenda o leproso, o morto e o monge são simulacros que as divindades produzem para instruir Siddhartha. Assim, no terceiro livro da epopéia sânscrita <em>Buddhacarita</em> está dito que os deuses criaram um morto e que nenhum homem o viu enquanto era levado, a não ser o cocheiro e o príncipe. Numa biografia legendária do século XVI as quatro aparições são metamorfoses de um deus (Wieger: <em>Vies chinoises du Bouddha</em>, 37-41).</p>
<p>Mais longe havia ido o <em>Lalitavistara</em>. Dessa compilação de prosa e verso, escrita num sânscrito impuro, é costume falar com algum sarcasmo; em suas páginas a história do Redentor infla-se até a opressão e até a vertigem. O Buda, a quem rodeiam doze mil monges e trinta e dois mil Bodhisattvas, revela o texto da obra dos deuses; do quarto céu fixou o período, o continente, o reino e a casta em que renasceria para morrer pela última vez; oitenta mil tambores acompanham as palavras do seu discurso e há no corpo de sua mãe a força de dez mil elefantes. O Buda, neste estranho poema, dirige cada etapa de seu destino; faz com que as divindades projetem as quatro figuras simbólicas e, quando interroga o cocheiro, já sabe quem são e o que significam. Foucher vê neste rasgo um mero servilismo dos autores, que não podem tolerar que o Buda não saiba o que sabe um servente; o enigma merece, em meu entender, outra solução. O Buda cria as imagens e logo em seguida pergunta a um terceiro o sentido que encerram. Teologicamente caberia talvez contestar: o livro é da escola de Mahayana, que ensina que o Buda temporal é emanação ou reflexo de um Buda eterno; o do céu ordena as coisa, o da terra as padece e executa (nosso século, com outra mitologia ou vocabulário, fala do inconsciente). A humanidade do Filho, segunda pessoa de Deus, pôde gritar da cruz: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste: O Buda, analogamente, pôde espantar-se das formas que havia criado sua própria divindade&#8230; Para desatar o problema, não são indispensáveis, ademais, tais sutilezas dogmáticas, basta recordar que todas as religiões do Hindustão, e em particular o budismo, ensinam que o mundo é ilusório. Minuciosa relação do jogo (de um Buda) representa o <em>Lalitavistara</em>, segundo Winternitz; um jogo ou um sonho é, para o Mahayana, a vida do Buda sobre a terra, que é outro sonho. Siddhartha elege sua nação e seus pais. Siddhartha lavra quatro formas que o encherão de espanto; Siddhartha ordena que outra forma declare o sentido das primeiras; tudo isso é razoável se o consideramos um sonho de Siddhartha. Melhor ainda se o considerarmos um sonho em que figura Siddhartha (da mesma forma que figuram o leproso e o monge) e que ninguém sonha, porque aos olhos do budismo do norte<sup>3</sup> o mundo e os prosélitos e o Nirvana e a roda das transmigrações e o Buda são igualmente irreais. Ninguém se apaga no Nirvana, lemos num tratado famoso, porque a extinção de inumeráveis seres no Nirvana é como o desaparecimento de uma fantasmagoria que um feiticeiro numa encruzilhada cria por artes mágicas, e em outro lugar está escrito que tudo é mera vacuidade, mero nome, e também o livro que o declara e o homem que o lê. Paradoxalmente, os excessos numéricos do poema subtraem, não acrescentam, realidade; doze mil monges e trinta e dois mil Bodhisattvas são menos concretos que um monge e que um Bodhisattva. As vastas formas e os vastos algarismos (o capítulo XII inclui uma série de vinte e três palavras que indicam a unidade seguida de um número crescente de zeros, de 9 a 49, 51 e 53) são vastas e monstruosas bolhas de sabão, ênfases do Nada. O irreal foi assim fraturando a história; primeiro tornou fantásticas as figuras, depois o príncipe e, com o príncipe, todas as gerações e o universo.</p>
<p>No final do século XIX Oscar Wilde propôs uma variante; o príncipe feliz morre na reclusão do palácio sem ter descoberto a dor, porém sua efígie póstuma a contempla do alto do pedestal.</p>
<p>A cronologia do Hindustão é incerta; minha erudição muito mais; Koeppen e Hermann Beckh serão talvez tão falíveis quanto o compilador que arrisca esta nota; não me surpreenderia se minha história da lenda fosse ela mesma legendária, feita de verdade substancial e erros acidentais.</p>
<p><small><strong>Jorge Luis Borges</strong>, Otras Inquisiciones (1952)</small></p>
<b><small>NOTAS</small></b><ol class="footnotes"><li id="footnote_0_1477" class="footnote">Este sonho é, para nós, uma mera fealdade. Não é assim para os hindus: o elefante, animal doméstico, é símbolo de mansidão; a multiplicação de dentes de marfim não tem como incomodar os espectadores de uma arte que, para sugerir que Deus é o todo, lavra figuras de múltiplos braços e rostos; o seis é número habitual (seis vias de transmigração; seis Budas anteriores ao Buda; seis pontos cardeais, contando o zênite e o nadir: seis divindades que o Yajurveda chama de as seis portas de Brahma).</li><li id="footnote_1_1477" class="footnote">Esta metáfora pode ter sugerido aos tibetanos a invenção das máquinas de rezar, rodas ou cilindros que giram ao redor de um eixo, cheias de tiras de papel enroladas nas quais se repetem palavras mágicas. Algumas são manuais; outras são como grandes moinhos, e move-as a água e o vento.</li><li id="footnote_2_1477" class="footnote">Rhys Davids condena essa locução cunhada por Burnouf, porém seu emprego nesta frase é menos incômodo que o de Grande Travessia ou Grande Veículo, que teriam detido o leitor.</li></ol>]]></content:encoded>
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		<title>O mundo dos pré-canônicos</title>
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		<pubDate>Wed, 13 Feb 2008 08:00:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Fé e Crença]]></category>

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		<description><![CDATA[No princípio era o Verbo, mas não havia sido colocado por escrito.
O que Adão, Noé, Matusalém, Abraão, Isaque, Jacó, José e seus onze irmãos e todos os hebreus que saíram do Egito têm em comum é que nenhum desses jamais leu uma única palavra da Escritura. Se, como sustentam tradições antigas e novas opiniões, os [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>No princípio era o Verbo, mas não havia sido colocado por escrito.</p>
<p>O que Adão, Noé, Matusalém, Abraão, Isaque, Jacó, José e seus onze irmãos e todos os hebreus que saíram do Egito têm em comum é que nenhum desses jamais leu uma única palavra da Escritura. Se, como sustentam tradições antigas e novas opiniões, os cinco livros atribuídos a Moisés não foram escritos por ele, as únicas palavras da Bíblia que o próprio Moisés leu foram os dez mandamentos gravados na terrível caligrafia de Deus.</p>
<p>O óbvio precisa às vezes ser expresso claramente: todos os autores da Bíblia viveram com o Deus da Bíblia e sem a Bíblia. Dito de outra forma, todos os livros que compõem o cânone foram escritos muito antes que o conceito de cânone passasse pela cabeça de alguém.</p>
<p>No sentido em que falamos aqui um cânone é uma coletânea de documentos religiosos que recebem em determinado momento a chancela irrevogável de autorizados e inspirados. Por definição, quando um cânone é fechado nada mais pode abri-lo. A coleção de documentos é vista como um todo indivisível, completo e finalizado – um bloco de verdade monolítica que cabe ao homem contemplar, mas não desbastar ou ampliar. É como nasceu a Bíblia.</p>
<p>A mentalidade que gerou o <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/C%C3%A2non_b%C3%ADblico">cânone</a> precisa ser analisada mais tarde. Bastará por enquanto sabermos que judeus e cristãos viveram por séculos sem um coletânea fechada de textos sagrados; os cristãos desenvolveram o seu entre o segundo e o quarto século, os judeus a partir da <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Revolta_de_Bar_Kokhba">revolta de Bar Kochba</a>.</p>
<p>Não foi um processo isento de controvérsia. Parte do problema, como veremos, está em que os proponentes do cânone sonharam estabelecer unidade onde parece haver apenas diversidade. Uma coisa é sustentar que determinado número de textos tenha sido escrito sob inspiração divina; outra coisa, muito distinta, é afirmar que o <em>agrupamento</em> desses textos independentes compõe uma <em>unidade</em> lógica e compreensível e de autoridade peculiar.</p>
<p>A evidência interna e externa sugere que a visão de mundo de judeus e cristãos pré-canônicos (incluindo os autores da Bíblia) era muito diferente. Os autores bíblicos não só não tinham como saber como não demonstram qualquer evidência sobrenatural de que soubessem quais livros seriam encerrados eventualmente no cânone. O conceito de uma revelação fechada entre duas capas se mostraria totalmente incompreensível para eles (e não apenas porque o livro ainda não havia desbancado comercialmente o rolo de pergaminho).</p>
<p>No mundo pré-canônico as tradições religiosas eram recebidas e tratadas de forma muito mais aberta e fluente. Era um mundo pelo menos tão oral quanto escrito, e o caráter da palavra falada permeava tanto a propagação quanto a interpretação dos oráculos divinos. As mesmas histórias e tradições eram transmitidas com ênfase muito diversa (compare-se por exemplo os livros de Reis aos livros de Crônicas, ou um evangelho ao outro), sem que isso parecesse implicar em imprecisão ou parcialidade. Não havia um vocabulário verdadeiramente comum e não havia definição prévia de termos.</p>
<p>Alan J. Hauser e Duane F. Watson, na sua introdução a <a href="http://www.amazon.com/History-Biblical-Interpretation-Ancient-Period/dp/0802842739">A History Of Biblical Interpretation</a>, apontam com propriedade que &#8220;não há indicação de que os autores bíblicos tenham sequer chegado a compreender o conceito de Escritura, certamente não no sentido definido pelas comunidades cristãs nas eras antiga, medieval e moderna. Eles fazem alusão e citam outros documentos e tradições como tendo alguma autoridade, autoridade que pode às vezes ser forte, mas o apelo à autoridade está ligado ao desejo de corroborar o argumento em questão, não de propor a unidade abrangente de toda a Escritura&#8221;.</p>
<p>Evidência constrangedora da diferença entre esse mundo e o nosso são os momentos em que os autores bíblicos citam como Escritura inspirada e abalizada documentos e tradições que acabaram sendo barrados na versão final do cânone. Como desconheciam o conceito de um corpo fechado de documentos autorizados, os autores bíblicos sustentam uma visão de &#8220;Escritura&#8221; que é certamente mais provisória e abrangente do que a nossa. E é sempre a partir dessa visão aberta da autoridade de textos presentes e futuros que eles colocam por escrito, cada um deles, a sua contribuição.</p>
<blockquote><p>No período pré-canônico não há evidência, na literatura que chegou até nós, do conceito de uma autoridade canônica abrangente e universal que se estendesse até o futuro. Ao contrário, a autoridade que existe parece aplicar-se apenas ao contexto da ocasião imediata e da comunidade em questão, construída sobre uma nova compreensão das tradições consagradas do passado. Mesmo quando se faz referência a uma figura de autoridade como Moisés, a &#8220;Lei de Moisés&#8221; era a lei como percebida naquele momento particular por aquela comunidade particular.<br/>&nbsp;</br><br />
Quando Paulo escrevia a suas congregações (por exemplo, em 1 Coríntios) sua preocupação predominante era confrontar e resolver os problemas da congregação específica à qual se dirigia, razão pela qual muitos detalhes da discussão escapam-nos à compreensão. É na verdade de se perguntar se Paulo não teria escolhido melhor as suas palavras se tivesse sabido que ao longo de dois milênios suas epístolas receberiam escrutínio microscópico de tantas gerações de intérpretes cristãos.</p></blockquote>
<p>&#8220;Uma autoridade cânonica que se estendesse até o futuro&#8221; e &#8220;escolher melhor as suas palavras&#8221; – aqui, de forma quase casual, Hauser e Watson tocam duas questões que se mostrarão fundamentais no caminho que teremos de percorrer. Em que momento ficou estabelecido como coisa natural que a autoridade dos textos da Bíblia se estenderia indefinidamente no futuro? Quando ficou determinado que as palavras da Bíblia foram escolhidas especificamente por Deus e não pelos seus autores?</p>
<p>A resposta não está na Bíblia.</p>
 <div class='series_toc'><p>&nbsp;</p><p align="center"><small>Este documento faz parte da série</small></p><h3>Palavra por palavra</h3><ol><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/de-onde-tirei-essa-ideia/' title='De onde tirei essa idéia'>De onde tirei essa idéia</a></li><li>O mundo dos pré-canônicos</li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/uma-questao-de-relevancia-estendida/' title='Uma questão de relevância estendida'>Uma questão de relevância estendida</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/antes-que-houvesse-o-paraiso/' title='Antes que houvesse o Paraíso'>Antes que houvesse o Paraíso</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/a-invasao-do-mundo/' title='A invasão do mundo'>A invasão do mundo</a></li></ol></div> ]]></content:encoded>
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		<title>De onde tirei essa idéia</title>
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		<pubDate>Wed, 23 Jan 2008 08:36:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Fé e Crença]]></category>

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		<category><![CDATA[cultura]]></category>

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		<description><![CDATA[A primeira coisa ao mesmo tempo evidente e terrível a se reconhecer é que o texto não é idêntico à sua interpretação. Texto algum bastará para fazê-lo abraçar essa convicção, mas se você chegar até aqui, se for capaz de ultrapassar esse ponto, poderá palmilhar sozinho o restante do caminho. Não precisará mais de mim, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A primeira coisa ao mesmo tempo evidente e terrível a se reconhecer é que o texto não é idêntico à sua interpretação. Texto algum bastará para fazê-lo abraçar essa convicção, mas se você chegar até aqui, se for capaz de ultrapassar esse ponto, poderá palmilhar sozinho o restante do caminho. Não precisará mais de mim, dos parágrafos seguintes ou de texto algum.</p>
<p>As sociedades construídas ao redor da palavra escrita vivem debaixo de uma maldição e de uma contradição. A maldição está em que as palavras não existem no mundo real, são sinais mágicos, aproximações e convenções que tatuamos no papel e que só têm vida e realidade na mente de quem acontece de estar pensando nelas. A contradição está em que, embora nos afirmemos leais às palavras e ao sentido das palavras, somos na verdade leais à vida artificial que imprimos (ou deixamos que outros imprimam) às palavras na nossa própria mente. Afirmamos fidelidade e reverência ao texto, mas na realidade somos fiéis à interpretação que elaboramos para o texto na nossa cabeça.</p>
<p>Essas limitações (esses recursos) da palavra escrita produzem efeitos muito reais em todos os níveis, quer estejamos falando em recados escritos em notinhas adesivas ou na publicação de ciclos de palestras sobre Shakespeare. Porém em nenhuma área de atividade humana esse temperamento particular da palavra escrita, sua disposição de prestar-se a todo tipo de contorção enquanto retém a aparência de austera imutabilidade, traz conseqüencias mais amplas, curiosas e duradouras do que na esfera religiosa. Isso é especialmente verdadeiro no ocidente, que construiu o seu edifício inteiro de religiosidade ao redor do conceito de palavras sagradas (isto é, vivas) presas entre as páginas mortas de um livro.</p>
<p>Ao longo da geografia e da história são poucas as manifestações religiosas da humanidade que desconhecem o conceito de palavra sagrada. A palavra falada é tradicionalmente o canal do espírito, o fulcro mágico entre o visível e o invisível, a realidade criadora formada a partir do sopro do vento. Em praticamente todas as culturas a palavra falada é o nada que tudo revela, o fôlego que a tudo dá um sentido (a todas as coisas dá um nome). A própria tradição judaico-cristã assinalou o poder e a primazia da palavra falada muito antes que os livros da Bíblia fossem colocados por escrito e por um longo período antes que a mensagem escrita (a &#8220;Escritura&#8221;) chegasse a ser venerada como definitiva e suficiente. A própria Bíblia, naturalmente, fornece amplo testemunho disso.</p>
<p>Com o passar do tempo, no entanto, a noção da autoridade última de letras sagradas confinadas à página e a busca heróica pela sua interpretação definitiva obscureceu todo o resto, até mesmo – e aqui reside o supremo paradoxo – o conteúdo do texto. Mais de três mil anos depois que ocorreu a Deus registrar uma lista de ordens simples em tábuas de pedra, e dois mil anos depois que Jesus foi apontado como Verbo encarnado, ainda associamos tanto religiosidade quanto vida espiritual à veneração nominal de textos sagrados – ao mesmo tempo em que damos o nome de &#8220;evangelização&#8221; ao tráfico bem-sucedido de uma interpretação particular.</p>
<p>As armadilhas da palavra, evidentemente, não perderam a força ao longo desses séculos. Ao contrário, nosso suposto respeito por elas emprestou-lhes apenas um poder de ofuscamento cada vez maior. Despistados pela pirotecnia da interpretação, deixamos que meras palavras ofusquem o sentido do texto.</p>
<p>Por isso não se iluda, porque não pretendo me iludir. O que você chama (o que eu chamo) de lealdade ao texto é de fato – invariavelmente, em todos casos – lealdade a determinada interpretação.</p>
<p>Quando alguém chama de &#8220;igreja&#8221; um edifício na esquina e opina que &#8220;não matarás&#8221; não se aplica a casos extremos como a guerra; quando alguém assegura que relação sexual entre gente do mesmo sexo é pecado e comer carne de porco não; quando alguém argumenta que &#8220;venda tudo que tem e dê aos pobres&#8221; não deve ser interpretado literalmente, mas &#8220;trazei os dízimos à casa do tesouro&#8221; sim; quando alguém dá a entender que as dissertações de Paulo explicam mais sobre a natureza de Deus e da boa nova do que as palavras e as atitudes de Jesus; quando alguém diz &#8220;Rubem Alves é um apóstata&#8221; ou discorda da sua opinião dizendo &#8220;se você não aceita a Bíblia como autoridade para o seu cristianismo sua fé é algo subjetivista demais para se atrelar ao cristianismo&#8221; – quando afirmam isso ou o contrário disso, apesar de suas boas intenções e do entusiasmo do seu testemunho, essas pessoas não estão demonstrando fidelidade imediata ao texto a que se referem: estão demonstrando lealdade à sua própria interpretação desses textos.</p>
<p>Alguém irá fatalmente argumentar que basta ler um texto para interpretá-lo, e que portanto todos podem ser acusados (inclusive você, Brabo) de favorecer a interpretação que lhes sugere a sua própria leitura. No caso em questão, no entanto, essa observação precisa ser qualificada.</p>
<p>Em primeiro lugar, nos nossos dias é virtualmente impossível aproximar-se do texto bíblico de forma isenta. Devido ao efeito onipresente de milênios de infestação cultural, não há quem seja capaz de abrir esse livro com o propósito singelo, intermediado por ninguém, de ouvir o que ele tem a dizer. Aproximamo-nos invariavelmente da Bíblia pela via formadora <a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/a-carta-roubada">de alguma igreja</a> que já fez a sua leitura antes de nós – ou seja, aproximamo-nos de uma interpretação antes de nos aproximarmos do texto. Essa contingência poderá parecer boa e proveitosa na opinião de alguns, mas não se pode negar que o que acabamos encontrando nas páginas da Escritura é, essencialmente, <a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/morte-aos-comentaristas">o que fomos ensinados a encontrar nela</a>.</p>
<p>Em segundo lugar, embora haja potencialmente tantas interpretações quanto leituras, o que acaba acontecendo é que uma corrente particular de interpretação acaba reivindicando primazia moral e intelectual sobre as outras. Isso acontecia no tempo de Jesus e acontece no nosso. Essa será, em todos os casos, a interpretação ostensivamente mais conservadora, mais rigorosa e ortodoxa. Essa interpretação se mostrará continuamente pronta a demonstrar a sua supremacia, a apontar os desvios dos menos esclarecidos, a condenar os erros dos torpes, a celebrar sua fidelidade à mensagem original que se dispõe a preservar. Como no tempo de Jesus, essa corrente autorizada de interpretação permanecerá necessariamente cega às suas próprias contradições; em especial, não verá problema em reivindicar para si a fama de literal quando é, na verdade, tremendamente seletiva.</p>
<p>É evidente que quando digo tudo isso falo do alto (ou do fundo, dependendo de onde você está) da minha própria interpretação, e o que posso dizer em favor da minha interpretação é que ela é minha.</p>
<p>Como sei que serei julgado por ela (embora <a href="http://www.baciadasalmas.com/2007/minha-fe-nao-e-aquilo-em-que-acredito">minha fé não seja aquilo em que acredito</a>) devo antes de prosseguir esboçar os limites, necessariamente muito tênues, da minha provisória ortodoxia. Minha interpretação é que nenhuma interpretação basta e nenhuma é, no fim das contas, necessária. Minha interpretação é que parte essencial daquilo de que a boa nova veio nos salvar é a tendência muito humana a nos agarrarmos a oráculos de orientação, escrituras de referência e listas de mandamentos colocados sensatamente por escrito. Minha interpretação é que o precário lugar dos mandamentos é na superfície do coração, onde só você pode lê-los e só você pode interpretá-los, e que o assombroso milagre será que sendo fiel a Deus você será fiel ao seu próprio coração, e vice-versa. Minha interpretação é que Jesus, a Palavra encarnada, veio convidar-nos a viver <a href="http://www.baciadasalmas.com/2007/a-luta-de-jesus-pela-independencia-a-sua">além da submissão</a> debilitante e contraproducente à letra, chamando-nos a respirar o Espírito num domínio de terrível liberdade e responsabilidade que preferiríamos não ter de percorrer.</p>
<p>Minha interpretação é que, tomada como um todo, a aspiração nada secreta da Bíblia é provar-se finalmente desnecessária.</p>
<p>Mas quero mostrar de onde tirei essa idéia.</p>
<p style="TEXT-ALIGN: center"><img width="54" height="77" src="http://web.newsguy.com/carpen/images/orna069.gif"/></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/a-seducao-da-ortodoxia">A sedução da ortodoxia</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2007/a-anulacao-da-bondade">A anulação da bondade</a></p>
 <div class='series_toc'><p>&nbsp;</p><p align="center"><small>Este documento faz parte da série</small></p><h3>Palavra por palavra</h3><ol><li>De onde tirei essa idéia</li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/o-mundo-dos-pre-canonicos/' title='O mundo dos pré-canônicos'>O mundo dos pré-canônicos</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/uma-questao-de-relevancia-estendida/' title='Uma questão de relevância estendida'>Uma questão de relevância estendida</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/antes-que-houvesse-o-paraiso/' title='Antes que houvesse o Paraíso'>Antes que houvesse o Paraíso</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/a-invasao-do-mundo/' title='A invasão do mundo'>A invasão do mundo</a></li></ol></div> ]]></content:encoded>
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		<title>Confissões</title>
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		<pubDate>Mon, 14 Jan 2008 08:39:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Fé e Crença]]></category>

		<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>

		<category><![CDATA[bonhoeffer]]></category>

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		<description><![CDATA[Estou angustiado. Não sei o que fazer. Vejo o que teria feito em outro tempo, teria dito expressamente e peremptoriamente: &#8220;Eis-me aqui, eu e minha Bíblia. Não irei, não ousarei diferir deste livro, quer seja em coisas grandes ou pequenas. Não tenho poder para abrir mão de um til ou de uma vírgula contida nele. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Estou angustiado. Não sei o que fazer. Vejo o que teria feito em outro tempo, teria dito expressamente e peremptoriamente: &#8220;Eis-me aqui, eu e minha Bíblia. Não irei, não ousarei diferir deste livro, quer seja em coisas grandes ou pequenas. Não tenho poder para abrir mão de um til ou de uma vírgula contida nele. Estou determinado a ser um cristão bíblico, não em parte, mas por inteiro. Quem quer juntar-se a mim? Una-se a mim nisto, ou então não una-se a mim de forma alguma.&#8221; Mas, ai de mim; esse tempo é passado. O que posso fazer agora, não sei dizer.</p>
<p style="TEXT-ALIGN: right"><small><a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/John_Wesley">John Wesley</a> (1703-1791)<br/>Sermão 119, <em>Causas da ineficácia do cristianismo</em>, 12<br/>Dublin, 2 de julho de 1789</small></p>
<h5>* * *</h5>
<p>Qualquer um que simplesmente faz acusações sem também acusar a si mesmo falhou em compreender o significado desta luta (a força da igreja consiste em sua capacidade de abraçar o arrependimento).</p>
<p>Mais uma vez o contraste de Romanos 14 entre os fortes na fé e os fracos na fé tornou-se aparente. Um forte na fé não expulsa outras pessoas; é o fraco na fé quem barra as pessoas da comunidade. A força dos outros consistiria agora em serem abertos à causa dos fracos. Mas devem ficar alertas, porque precisamente os fracos eram os ativos, eram os reformadores.</p>
<p style="TEXT-ALIGN: right"><small><strong>Dietrich Bonhoeffer</strong><br/>Universidade de Berlim, 22 de junho de 1933<br/><em>Dietrich Bonhoeffer Werke</em>, 12:85</small></p>
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		<title>A escassez seletiva: selecionar é interpretar</title>
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		<pubDate>Wed, 09 Jan 2008 08:15:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Fé e Crença]]></category>

		<category><![CDATA[bíblia]]></category>

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		<description><![CDATA[É mais fácil estabelecer onde termina a interpretação de um texto da Bíblia do que determinar quando ela começa. Isto ocorre porque a interpretação termina perto de nós, na nossa própria mente, e começa muito longe de nós, na mente de um autor que já morreu há mil anos ou antes mesmo do nascimento dele.
Alguns [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>É mais fácil estabelecer onde termina a interpretação de um texto <s>da Bíblia</s> do que determinar quando ela começa. Isto ocorre porque a interpretação termina perto de nós, na nossa própria mente, e começa muito longe de nós, na mente de um autor que já morreu há mil anos ou antes mesmo do nascimento dele.</p>
<p>Alguns asseveram que o registro de como os cristãos interpretaram a Bíblia ao longo da história – isto é, a tradição –  pode trazer luz definitiva ao significado da Escritura. Outros afirmam que apenas a evidência interna, isto é, aquilo que o texto diz sobre si mesmo dentro do seu próprio contexto, pode guiar uma interpretação apropriada e isenta. O apego à tradição marca a diposição geral dos católicos e a valorização da evidência interna a postura dos protestantes, mas nem uns nem outros hesitam em avançar em campo alheio quando se trata de reforçar a sua opinião.</p>
<p>Recentemente muitos protestantes, numa manobra em grande parte silenciosa, passaram a reconhecer na prática a validade de um outro indicador na busca pela interpretação mais autorizada da Bíblia. É o que se poderia chamar de contexto expandido, e diz respeito ao que ciências como a história e a arqueologia têm a dizer sobre a sociedade e a cultura em que determinado  texto foi produzido. Apesar desta novidade mais ou menos retórica, a posição protestante tradicional permanece sendo de que a evidência interna deve ser privilegiada, podendo ser por vezes iluminada pela evidência externa. Converse com um protestante e ele demonstrará o argumento dele (ou confrontará o seu) &#8220;a partir da Bíblia&#8221;. Oficialmente ele não reconhecerá outra autoridade ou, pelo menos, autoridade maior.</p>
<p>Essa obsessão protestante com ater-se &#8220;ao que diz a Bíblia&#8221;, estabelecendo como limites da interpretação a forma e o conteúdo de cada texto, pode ser meritória tanto quanto indolente; pode ser tanto elucidadora quanto enganosa. Entre outras coisas, esse método faz com que percamos de vista o quanto um texto nos revela pelo que não diz.</p>
<p>O que quero ter em mente é que a interpretação de um texto não começa quando um autor deita a pena sobre o papel para redigir. A interpretação começa antes, quando a partir de uma faixa de conteúdo disponível –  o leque composto por tudo que poderia ser dito sobre determinado assunto ou ser relatado sobre determinado evento – o autor <b>seleciona</b> quais elementos em particular virão a compor o seu texto. Da mesma forma que o pontinho preto no centro da folha de papel é definido pelo espaço negativo que o rodeia, a interpretação de um texto é guiada (quer percebamos isso ou não) pelo espaço &#8220;em branco&#8221; deixado no registro: tudo que o autor poderia ter acrescentado à página e escolheu não fazer.</p>
<p>A seleção do material, empreendida pelo autor antes de começar a escrever, é inseparável da interpretação que ele quer imprimir à obra. Ou, dito de outra forma, toda seleção é tendenciosa.</p>
<p>Para usar o exemplo mais próximo, a Bacia das Almas – repositório final de idéias condenadas à reformulação eterna – é composta por uma seleção de textos escritos por mim e por outros autores. Deve estar claro que não deposito aqui tudo que escrevi nem (muito menos!) tudo que outros autores escreveram. A partir de uma vertiginosa gama de material disponível, armazenado nestas páginas está apenas o que selecionei para armazenar aqui, e esta seleção particular imprime (<em>impõe </em>talvez seja palavra melhor) a sua própria interpretação – mesmo quando cito determinado trecho ou determinado autor apenas para que o leitor discorde do que ele está dizendo.</p>
<p>A seleção do que será registrado favorece invariavelmente o programa ideológico de quem está escrevendo. A verdade de cada um, em meio à abundância de todos, é determinada pela escassez seletiva de quem está com a palavra.</p>
<p>Todo escritor é um selecionador, e os autores bíblicos trabalharam debaixo das mesmas limitações. A partir de uma faixa de conteúdo disponível cuja verdadeira extensão jamais chegaremos a conhecer, eles triaram de forma mais ou menos inconsciente o material que achavam poderia favorecer ou melhor expor a sua visão de mundo – e registraram apenas isso, em detrimento de todo o resto. Nenhuma passagem deixa esse método e seu propósito tão claro quanto os versos finais do evangelho de João. Sabe-se que João, a partir do que pode ter sido o mesmo leque de tradições disponíveis, optou por registrar conteúdo inteiramente distinto daquele selecionado pelos outros evangelistas – pelo que <s>seu livro</s> <u>sua seleção</u> imprime uma interpretação peculiar ao que deve ter consistido essencialmente a mesma história.</p>
<p>João reconhece abertamente, na sua conclusão, que seu livro consiste de uma seleção efetuada sobre material mais amplo. &#8220;Há, porém, ainda muitas outras coisas que Jesus fez&#8221;, explica ele. &#8220;Se todas elas fossem relatadas uma por uma, creio eu que nem no mundo inteiro caberiam os livros que seriam escritos.&#8221;</p>
<p>A seleção efetuada por João favorece, naturalmente, o seu programa ideológico. &#8220;Jesus operou em presença de seus discípulos muitos outros sinais, que não estão escritos neste livro&#8221;, admite ele parágrafos antes; &#8220;estes, porém, foram escritos para que&#8230;&#8221; – e segue descrevendo o seu programa.</p>
<p>Desconsiderando-se a hipérbole de João (&#8221;nem no mundo inteiro caberiam os livros que contassem as coisas que Jesus fez&#8221;), talvez nenhum outro escritor do Novo Testamento tenha tido de lidar com mais conteúdo disponível do que o autor do livro de Atos dos Apóstolos. Uma enorme quantidade de testemunhos, anedotas e tradições sobre os primeiros passos da igreja deve ter circulado nas comunidades cristãs ao longo de suas primeiras décadas. Desse vasto leque de material o autor de Atos registrou uma seleção que (1) deveria guiar a interpretação que ele procurava despertar e (2) favorecia inevitavelmente o seu programa ideológico.</p>
<p>Para o autor de Atos, todos esses fatores (seleção, interpretação e programa) giravam ao redor de um único elemento dessas histórias: o Cristo ressurreto.</p>
<p align="center"><img src="http://web.newsguy.com/carpen/images/orna071.gif"></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2007/sobre-o-costume-de-agrupar-livros">Sobre o costume de agrupar livros</a></p>
 <div class='series_toc'><p>&nbsp;</p><p align="center"><small>Este documento faz parte da série</small></p><h3>Rastros dos apóstolos</h3><ol><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/como-perder-jesus-de-vista-no-livro-de-atos/' title='Como perder Jesus de vista no livro de Atos'>Como perder Jesus de vista no livro de Atos</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/ascensao-sem-tregua-das-testemunhas/' title='Ascensão sem trégua das testemunhas'>Ascensão sem trégua das testemunhas</a></li><li>A escassez seletiva: selecionar é interpretar</li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/o-jesus-terreno-e-o-cristo-extraterrestre/' title='O Jesus terreno e o Cristo extraterrestre'>O Jesus terreno e o Cristo extraterrestre</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/com-as-mulheres/' title='Com as mulheres'>Com as mulheres</a></li></ol></div> ]]></content:encoded>
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		<title>Os filhos da Terra</title>
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		<pubDate>Tue, 01 Jan 2008 08:53:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Fé e Crença]]></category>

		<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>

		<category><![CDATA[bonhoeffer]]></category>

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		<description><![CDATA[A comunidade da fé compõe-se dos filhos da Terra, que recusam a separar-se do mundo e não têm qualquer proposta específica para o melhoramento dele. As pessoas dessa comunidade também não se consideram superiores ao mundo, mas perseveram juntas em meio ao mundo, em suas profundezas, em suas trivialidades e cativeiros.
A igreja não deve anunciar [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A comunidade da fé compõe-se dos filhos da Terra, que recusam a separar-se do mundo e não têm qualquer proposta específica para o melhoramento dele. As pessoas dessa comunidade também não se consideram superiores ao mundo, mas perseveram juntas em meio ao mundo, em suas profundezas, em suas trivialidades e cativeiros.</p>
<h5>A igreja não deve anunciar nenhum princípio eternamente válido.</h5>
<p>A Igreja deve ser capaz de proferir a Palavra de Deus, a palavra de autoridade, aqui e agora, do modo mais concreto possível, a partir do conhecimento de causa da situação, caso contrário irá proferir outra coisa, algo diferente e muito humano, a palavra da impotência. Dessa forma a igreja não deve anunciar nenhum princípio eternamente válido, mas apenas mandamentos que sejam verdadeiros hoje – pois o que é verdadeiro &#8220;sempre&#8221; não é verdadeiro &#8220;hoje&#8221;. Para nós Deus é &#8220;sempre&#8221; Deus &#8220;hoje&#8221;.</p>
<p align="right"><small><strong>Dietrich Bonhoeffer</strong>, 1932</small></p>
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		<title>Adulterada</title>
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		<pubDate>Sat, 22 Dec 2007 11:00:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Fé e Crença]]></category>

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		<description><![CDATA[Este documento contém clipes de vídeo que só podem ser visualizados na página da Bacia na internet.
&#8220;Deus me levou a fazer isso. Não teve para onde eu correr.&#8221;
[Veja o artigo original para assistir o vídeo]
Se o vídeo acima não estiver disponível quando você clicar no triângulo, tente aqui.

Via Nelson Costa

]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="center"><span style="color:#B0B0A0"><small>Este documento contém clipes de vídeo que só podem ser visualizados na <a href="http://www.baciadasalmas.com">página da Bacia</a> na internet.</small></span></p>
<p>&#8220;Deus me levou a fazer isso. Não teve para onde eu correr.&#8221;</p>
[Veja o artigo original para assistir o vídeo]
<p>Se o vídeo acima não estiver disponível quando você clicar no triângulo, tente <a href="http://baciadasalmas.vodpod.com/video/664807-adulterada">aqui</a>.</p>
<p><small>
<p align="center">Via <a href="http://igrejaemergente.blogspot.com/">Nelson Costa</a></p>
<p></small></p>
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		<title>Darwin ama você</title>
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		<pubDate>Wed, 19 Dec 2007 08:51:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Fé e Crença]]></category>

		<category><![CDATA[ateísmo]]></category>

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		<description><![CDATA[Fé é não querer saber a verdade. — Friedrich Nietzsche
Afirmo que nós dois somos ateus; eu apenas creio em menos deuses do que você. Quando você entender porque não leva a sério todos os outros deuses, vai entender porque não levo a sério o seu. — Stephen Roberts
Com ou sem religião ainda haveria gente boa [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Fé é não querer saber a verdade. — Friedrich Nietzsche</p>
<p>Afirmo que nós dois somos ateus; eu apenas creio em menos deuses do que você. Quando você entender porque não leva a sério todos os outros deuses, vai entender porque não levo a sério o seu. — Stephen Roberts</p>
<p>Com ou sem religião ainda haveria gente boa fazendo coisas boas e gente má fazendo coisas más. Para gente boa fazer coisas más é preciso religião. — Steven Weinberg</p>
<p>Não acredito em Deus. Meu deus é o patriotismo. Ensine cada homem a ser um bom cidadão e está resolvido o problema da vida. — Andrew Carnegie</p>
<p>Todo homem pensante é ateu. — Ernest Hemingway</p>
<p>A religião cria o tipo mais útil de escravos: os que pensam que são livres. — Paul Hampson</p>
<p>Não é que eu não goste de Deus; é o fã-clube dele que eu não suporto. — K. Lindberg</p>
<p>O fato de um crente ser mais feliz do que um ateu não prova mais do que um bêbado ser mais feliz do que um homem sóbrio. — George Bernard Shaw</p>
<p>Diga o que quiser sobre o doce milagre da fé que nada questiona, considero a capacidade para ela aterrorizadora e absolutamente vil. — Kurt Vonnegut</p>
<p>O homem não será livre até que o último rei seja estrangulado nas tripas do último padre. — Denis Diderot</p>
<p>Basta falar em termos de alocação de recursos, a religião não é muito eficiente. Há muita outra coisa que eu poderia fazer num domingo de manhã. — Bill Gates</p>
<p>A coisa toda é tão patentemente infantil, tão alheia à realidade, que qualquer amigo da humanidade sofre em pensar que a grande maioria dos mortais jamais será capaz de alçar-se além dessa visão de vida. — Sigmund Freud</p>
<p>A religião é tida pelo povo comum como verdadeira, pelos sábios como falsa e pelos governantes como útil. — Edward Gibbon</p>
<p>A igreja diz que a terra é plana, mas sei que ela é redonda porque já vi a sombra da lua, e tenho mais fé numa sombra do que na igreja. — Ferdinand Magellan</p>
<p>Não só Deus não existe, mas tente encontrar um encanador num final de semana. — Woody Allen</p>
<p>A Bíblia é provavelmente o livro mais genocida do cânone literário. — Noam Chomsky</p>
<p>Quando você pensa bem esse é um tremendo golpe, acreditar em alguma coisa agora em troca de algo depois da morte. Nem as corporações, com seus sistemas de recompensa, ousam deixar a coisa póstuma. — Gloria Steinem</p>
<p>E se houvesse um Deus, acho pouco provável que ele fosse vaidoso ao ponto de se ofender com quem duvidasse da sua existência. — Bertrand Russell</p>
<p>Não ore na minha escola e prometo que não vou pensar na sua igreja. — Autor desconhecido</p>
<p>Não é possível convencer um crente do que quer que seja, pois sua fé não é baseada em evidência, mas numa profundamente enraizada necessidade de acreditar. — Carl Sagan</p>
<p>Os homens raramente (se é que chegaram a fazê-lo) conseguiram conceber um Deus superior a eles mesmos. A maior parte dos deuses têm a postura e a moralidade de uma criança mimada. — Robert A. Heinlein</p>
<p>A confiança natural com que sei que a religião dos outros é tolice me ensina a suspeitar também da minha. — Mark Twain</p>
<p>Pessoas que não querem que riam das suas crenças não deveriam ter crenças tão engraçadas. — Autor desconhecido</p>
<p>Desconfio dessa gente que sabe tão bem o que Deus quer que eles façam, porque percebo sempre que coincide com seus próprios desejos. — Susan B. Anthony</p>
<p>A fé não lhe dá respostas, ela apenas faz você parar de fazer as perguntas. — Frater Ravus</p>
<p>A presença dos que buscam a verdade é preferível à dos que pensam que a encontraram. — Terry Pratchett</p>
<p>Deus é um comediante apresentando-se para um público apavorado demais para rir. — Voltaire</p>
<p>A inspiração da Bíblia depende da ignorância da pessoa que está lendo. — Robert G. Ingersoll</p>
<p>A essência do cristianismo está na história do Jardim do Éden: o fruto proibido estava na árvore do conhecimento. Ou seja, todo o sofrimento que você está experimentando é porque quis saber o que está acontecendo. — Frank Zappa</p>
<p>O cristianismo não veio com novas de grande alegria, mas com uma mensagem de eterna dor. Veio com a ameaça de tortura nos lábios; representou guerra na terra e perdição depois dela. — Robert G. Ingersoll</p>
<p>Se você acabou vivendo uma vida miserável e tediosa porque ouviu sua mãe, seu pai, seu professor, seu padre ou algum cara na televisão gritando como você deveria viver, então putz – você merece. — Frank Zappa</p>
<p>As convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras. — Frierich Nietzsche</p>
<p>Se todas as religiões exclusivas estão certas e todo o resto do mundo está errado, não é que todo mundo está errado? — Kozy</p>
<p>Na natureza não há recompensas nem punições, há conseqüências. — Robert G. Ingersoll</p>
<p>Somos todos ateus com relação à maior parte dos deuses nos quais as sociedades já creram. Alguns de nós só vão um deus mais longe. — Richard Dawkins</p>
<p>Fé é acreditar naquilo que você sabe que não é assim. — Mark Twain</p>
<p>É difícil libertar tolos das cadeias que reverenciam. — Voltaire</p>
<p>Puritanismo é o temor recorrente de que alguém, em algum lugar, seja feliz. — H. L. Mencken</p>
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