Manuscritos estocados sob a rubrica 'Heresias Sensacionais'
09 de Agosto de 2006

A sedução da ortodoxia

Heresias Sensacionais

A primeira e mais persistente imperfeição a tentar roubar o brilho da originalidade de Jesus como apresentado nos evangelhos foi o gnosticismo. Decalcado sem sutileza da visão de mundo das religiões de mistério, o gnosticismo crê, essencialmente, que a salvação está condicionada ao acesso a um conhecimento secreto – a gnose – através do qual o iniciado nos mistérios da religião pode conectar-se à divindade e beneficiar-se dela.

Alguns crêem que o Apóstolo escreveu a maior parte de suas cartas para combater o alastramento da mancha gnóstica no seio virgem da igreja primitiva; outros juram de pé junto que Paulo não estava ele mesmo imune à sua influência, e que muitas de suas passagens e argumentos promovem ou pressupõem a visão de mundo gnóstica.

Certo é que nenhum outro conceito tem permeado tão unanimemente e por tanto tempo a mentalidade cristã de todas as tendências e estirpes do que a confiança tipicamente gnóstica na supremacia ou na necessidade de um conhecimento secreto – isto é, específico – como condição para a salvação. Com o tempo, naturalmente, o gnosticismo foi demonizado com este nome; entre os cristãos o conhecimento secreto passou a ser chamado e idolatrado como crença correta – ou ortodoxia, que é como se diz em grego.

Só a ortodoxia salva.

A relação dos cristãos com a ortodoxia é primordialmente idolátrica. Se pressionados, cristãos de todos os matizes acabarão concordando que não é uma religião particular que beneficia o adorador, mas algum aspecto da bondade divina expresso na vida, morte e/ou ressurreição de Jesus. Na prática, no entanto, todos tentarão convencê-lo de que para beneficiar-se desse privilégio gratuito é necessário abraçar determinado conjunto muito específico de noções a respeito de Deus, da vida e da salvação. A esse conjunto de “crenças corretas”, que nenhuma facção cristã tem em comum com a outra, é que se dá o nome fortuito de ortodoxia.

A paixão com que os cristãos defendem seus pontos de vista uns contra os outros reflete com precisão a extensão de sua ortodoxolatria. Jesus é muito bonzinho e tal – mas só a ortodoxia salva, e ninguém vem a Jesus se não for por ela.

Ortodoxolatria – ou gnosticismo cristão – é a crença praticamente universal (entre os cristãos) de que para beneficiar-se do favor de Jesus é preciso sancionar uma série racional e muito específica de assertivas a respeito de como Deus funciona. Ser cristão não é, segundo essa visão, uma postura pessoal de confiança no cacife de Jesus; não é questão de posicionamento moral, psicológico ou espiritual. Para os partidários da nova gnose ser cristão é assunto da cabeça e da razão; depende da consistência do nosso discernimento intelectual, demonstrada pela filiação ao rol apropriado de afirmações teológicas – em detrimento, naturalmente, de todas as outras.

É por sermos todos ortodoxólatras que entre a leitura deste parágrafo e do anterior uma igreja em algum lugar se dividiu e se criaram duas – cada uma acenando com sua própria versão da gnose, o conhecimento apropriado que tem poder para salvar. Gente que sentava-se no mesmo banco para cultuar estará a partir deste momento separada pelo abismo de sua fé inabalável na necessidade da crença correta. Terão discordado irreparavelmente sobre algum ponto crucial da sã doutrina: se mulher tem direito a pregar, se Jesus visitou o inferno, se milagres acontecem, se o arrebatamento vem antes ou depois do milênio, se o Espírito é derramado em uma ou duas prestações, se Jesus ressuscitou, se um homem pode dormir abraçado a outro; se cristão pode se divorciar, abortar, assistir televisão, cortar o cabelo, tomar cerveja, ouvir Raul Seixas, ler ficção científica, usar camisinha, suicidar; se é certo usar crucifixo, votar em comunista, acender uma vela, comprar a prestação, pagar o dízimo, fazer o sinal da cruz, chorar aos pés de uma estátua, jogar na loteria, batizar criança, fazer sexo antes, durante e depois do casamento. As combinações são incontáveis, e cada facção proporá sua versão particular da gnose. Uma única coisa todos os grupos apresentarão em comum: a fé subjacente e implacável na ortodoxia, o paradigma que pressupõe a supremacia e a necessidade de uma única posição doutrinária/teológica/ideológica formal e a conseqüente demonização das outras. Como dizia Borges, interessa-lhes menos Deus do que refutar os que o negam na sua versão.

Essa confiança nos benefícios inerentes de uma apreensão intelectual adequada dos mecanismos de Deus não poderia estar mais distante da postura de Jesus, para quem apenas comparações podem produzir um vislumbre da natureza do Reino e – mais importante – todos os homens podem beneficiar-se da postura cavalheiresca de Deus, independentemente do acesso a qualquer conhecimento secreto ou específico. A inescapável graça de Deus, segundo Jesus, está pronta a agir em favor não apenas dos pecadores – o que deveria parecer por si mesmo admirável – mas também dos incompetentes, dos deficientes, dos tolos, dos insensatos, dos imaturos. A verdade foi escondida, garante Jesus, dos doutos e estudados e revelada aos mais parvos dos discípulos. Para entrar no Reino é necessário que nos tornemos “como crianças” – condição que não denota, ao contrário do que se pensa, um atestado de inocência, mas de incompetência. Para beneficiar-se do Reino é preciso ser incapaz. Requer-se não ter noção do que está acontecendo e não ter noção de como parar o processo aparentemente irreversível do qual fazemos parte. É preciso ser capaz de baixar a bola e delegar o controle e a compreensão do que está acontecendo a outro. É preciso ter uma vaga idéia, não certeza. Fé, não crenças. Confiança na suficiência do cavalheirismo de Deus, não no mérito arbitrário da ortodoxia.

13 de Junho de 2006

Ensinamentos de Jesus: deixados para trás

Heresias Sensacionais

Uma das histórias que eu teria prazer em escrever como ficção – mas que perde em esperteza e ganha em horror por ser verdade.

A série de livros Deixados Para Trás – desconcertantemente popular entre os evangélicos norte-americanos – acaba de produzir um [ainda mais] atroz produto colateral: trata-se de Left Behind: Eternal Forces, um videogame ambientado no violento combate entre as forças de Jesus e as do AntiCristo na Nova Iorque pós-arrebatamento.

“Imagine: você é um soldado de infantaria num grupo paramilitar cujo propósito é tornar os Estados Unidos uma teocracia cristã, e estabelecer sua visão de mundo do domínio de Cristo sobre todos os aspectos da vida. Você recebe armamentos de última geração e é instruído a combater infiéis nas ruas de Nova Iorque. Você está numa missão – tanto religiosa quanto militar – para converter ou matar católicos, judeus, muçulmanos, budistas, gays e qualquer outro que advogue a separação entre igreja e Estado – especialmente cristãos moderados e progressistas. Sua missão é ‘engajar-se em combate físico e espiritual’: todos que resistirem devem ser eliminados sem piedade.”
Assassinos com propósitos

Os combatentes gritam “Louvado seja o Senhor!” enquanto detonam os infiéis.

“Valerá a pena delinear que horrenda distorção da verdadeira mensagem de Cristo é essa aberração? Você consegue imaginar a reação explosiva ocasionada se, digamos, uma poderosa organização muçulmana lançasse um videogame em que forças islâmicas assassinassem cristãos indefesos com metralhadoras a fim de restaurar a ordem de Alá? Ou se a Ku Klux Klan criasse um jogo em que você pudesse ‘limpar’ a América de todos os judeus e negros de modo que os brancos não precisassem mais temer o hip-hop?
Na verdade, na verdade vos digo: você não faz idéia.”
Jesus ama uma metralhadora

“Se acontece de explodir um agente neutro – dano colateral que é inevitável no Fim Dos Tempos – você perde ‘pontos espirituais’. Mas tem logo como recarregar, através de um breve intervalo de oração ou mediante a conversão de um novaiorquino aterrorizado.”
Assassinos com propósitos

Você está numa missão para converter ou matar.

“Você pode ser um dos cristãos e detonar infiéis, mas se não estiver a fim pode ser também o Anticristo e detonar os cristãos.”
Convertendo videogames em instrumentos de Deus

O jogo contava até recentemente com o apoio promocional da máquina Igreja Com Própositos™ do pastor Rick Warren, mas a franquia acabou retirando o seu apoio diante da pressão da mídia.

Deixados Para Trás – Tropas Eternas deve ser lançado nos Estados Unidos em outubro deste ano.

“Estamos esperandos que os adolescentes gostem do jogo”, afirmou o pastor aposentado Tim LaHaye, autor da série de livros. “Nosso verdadeiro alvo é não deixar ninguém para trás”.

* * *

Telas do jogo

Trailer promocional

Sáite oficial

17 de Março de 2006

O nome de Deus em mãos erradas

Divino preconceito, Heresias Sensacionais

Depois da breve e edificante introdução ao seu tratado contra os judeus Shem Hamphoras, Martinho Lutero se apressa em reproduzir a lenda judaica que será alvo de seus ataques no restante do livro.

A lenda e o uso dela por Lutero são curiosos em muitos sentidos. Primeiro há a história em si, breve aventura em que o Nome Secreto de Deus™ (o Shem Hamphoras) é utilizado sem autorização por Jesus para realizar os seus milagres e atrair as multidões. Há inúmeros detalhes memoráveis, como o fato de Jesus citar incessantemente o Antigo Testamento em seu favor (hábito que aos judeus deve ter parecido especialmente irritante), o embate aéreo, a não-mencionada tecnologia que motorizava os cães mecânicos, a reversão do papel de Judas Iscariotes e o enforcamento de Jesus num pé de repolho.

O Shem Hamphoras estava escrito sobre esta pedra, e qualquer um que aprendesse o nome dessas letras e as compreendesse poderia fazer qualquer coisa que quisesse.

A lenda parece ter sido inventada por judeus dotados de aguçado senso de humor que dispuseram-se a difamar a história de Jesus sem levar a coisa muito a sério (leia-se o último parágrafo), talvez comentando ou aproveitando-se da proverbial credulidade dos cristãos. Não temos como saber como a história foi lida pelo público judeu original; não temos nem mesmo como saber se a história foi de fato escrita por judeus, mas está claro que sua divulgação deixou os cristãos furiosos.

A pitoresca narrativa foi registrada com horror na obra Victoria (1315) de um certo Victor Porchetto de Salvatici, padre genovês a quem Lutero chama pelo nome latino de Purchetus (o título completo do livro, A Vitória sobre os ímpios Judeus, na qual a verdade da fé Católica é demonstrada a partir das Sagradas Escrituras, bem como a partir das palavras do Talmude, das obras cabalísticas e de todos os outros autores aceitos pelos Judeus, proporciona uma idéia clara do seu conteúdo). Lutero, que leu-a numa reimpressão parisiense de Victoria, datada de 1520 (seu exemplar pessoal, com notas em alemão e em latim, jaz hoje no acervo da Biblioteca Municipal de Karlsruhe) traduziu a lenda a fim de refutá-la.

Não há, portanto, como recapitular adequadamente todas as camadas de meta-intolerância ligadas à criação e incessante citação deste texto. Os judeus, perseguidos implacavelmente pelos cristãos durante um milênio inteiro, podem ter inventado a história como inofensiva retaliação; por outro lado, cristãos bem-intencionados podem muito bem ter atribuído a história aos judeus, já que testemunhar falsamente o que se considera ser verdadeiro já foi considerado atitude virtuosa; cristãos como Porchetto e Lutero, inflamados pela imorrível blasfêmia, trataram então de atiçar a já alta fogueira da perseguição aos judeus.

O prejuízo está, naturalmente, longe de terminar. Onde estão os guardiãos do Shem Hamphoras quando precisamos deles dele.


DO DÉCIMO PRIMEIRO CAPÍTULO DA PRIMEIRA PARTE DO LIVRO DE PURCHETIS, TRADUZIDO PARA O ALEMÃO PELO DR. M. LUTERO

1. Todos veremos agora como os judeus foram sempre tamanhos inimigos das maravilhas de Cristo que atribuíram-nas a Belzebu, senhor dos diabos. Pois ele (Cristo) fez obras assombrosas como ninguém jamais havia feito, conforme ele mesmo afirma em João 15.

Também jamais foi alegado que qualquer outra pessoa em seu Nome tenha feito os cegos verem, os surdos ouvirem, os mancos andarem e os mudos falarem, como profetizado por Isaías nos versos de 4 a 6 do seu capítulo 35: “A vingança vem, a retribuição de Deus; ele vem e vos salvará. Então, se abrirão os olhos dos cegos, e se desimpedirão os ouvidos dos surdos; os coxos saltarão como cervos, e a língua dos mudos cantará”.

2. Além desses numerosos sinais maravilhosos ele fez muitos outros, despertou os mortos, limpou os leprosos e curou muitos outros enfermos e fez tantos outros sinais que ninguém, exceto Deus, poderia tê-los feito; ainda assim a perversidade dos judeus, sempre associada a ardis malignos, teve a desfaçatez de blasfemar e vituperar esses milagres com mentiras. Eles compuseram um livro contra os cristãos no qual escrevem o seguinte:

3. ACONTECEU NOS DIAS DE HELENA, a Rainha, a qual reinou sobre toda a terra de Israel, que Jesus, o Nazareno, veio a Jerusalém. No Templo do Senhor ele encontrou a pedra sobre a qual nos tempos antigos havia estado depositada a Arca do Senhor. O Shem Hamphoras estava escrito sobre esta pedra, e qualquer um que aprendesse o nome dessas letras e as compreendesse poderia fazer qualquer coisa que quisesse.

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Este documento faz parte da série

Shem Hamphoras

  1. Lutero alerta os alemães
  2. O nome de Deus em mãos erradas
08 de Fevereiro de 2006

A fé como falha moral

Heresias Sensacionais

É sabido que certo personagem de Dostoiévski argumentou que “sem Deus não existe moralidade” – isto é, um ateu convicto não teria qualquer motivo real para sustentar uma postura de correção moral. Segundo essa linha de pensamento o homem sem fé em Deus, desprovido de cadeias adequadas para refrear as suas inclinações, tenderia irremediavelmente a chafurdar na imoralidade. O ateu sentir-se-ia imediatamente livre para adulterar, roubar, mentir, matar, canibalizar, prostituir-se e prostituir – e faria tudo isso e muito mais sem qualquer freio ou constrangimento.

Da crença em Deus dependeria então (quase como defendeu Plínio Salgado) toda a defesa da virtude, da castidade, do heroísmo, da delicadeza de sentimentos, da integridade individual e do pudor coletivo.

Como confirma a postura de muitos ateus declarados, em tudo tão ou mais íntegros e gente boa quanto muitos religiosos, parece seguro afirmar que o autor russo estava errado. Pessoas sem Deus parecem de fato sustentar vidas íntegras – a não ser que, como não é inconcebível, os ateus estejam na verdade muito menos “sem Deus” do que os crentes gostariam de pensar.

De qualquer forma, nunca simpatizei com esse argumento “sem Deus não haveria moralidade”. Além de me parecer racionalista demais, a defesa deixa a impressão de que a moralidade é por si mesma coisa mais admirável do que Deus – como se a existência de Deus precisasse da moralidade para ser justificada.

Finalmente, no entanto, o inevitável aconteceu: um ateu mobilizou o argumento inverso para atacar a fé. Segundo George M. Felis, professor de filosofia no Georgia Perimeter College, a moralidade não é inconcebível sem Deus; pelo contrário, ela é inconcebível com ele.

Sejamos brutalmente honestos. Descrever a fé como “a falência da razão” é, na melhor das hipóteses, meia-verdade.

Há alguns que afirmam que suas convicções religiosas estão fundamentadas apenas na razão e em evidências palpáveis, mas nunca encontrei eu mesmo criatura tão rara. A mais sagaz argumentação jesuítica que busque justificar a religião racionalmente não deixará o componente “fé” inteiramente de lado [...]. Por “fé”, neste contexto, quero dizer (e crentes honestos também) acreditar em alguma coisa porque se escolhe acreditar nela, sem levar-se em conta a ausência de evidência/razões para se acreditar.

Se as crenças de alguém não podem ser justificadas, e se as ações de uma pessoa são moldadas e justificadas pelas suas crenças, então algumas ações não podem ser justificadas.

A fé não é apenas a falência da razão: a fé é a deliberada abdicação da razão. A fé não é um erro na mesma linha de um erro de lógica. Não é simplesmente um lapso que não leva em conta uma evidência que deveria ser levada em consideração. A fé é a declaração de que a razão é muito boa em determinadas áreas, mas que sua eficácia termina aqui onde o crente afirma que ela termina. E nenhum argumento pode ser concebivelmente dado para que não se apliquem os critérios da razão em um dado assunto, porque o argumento em si deve aderir aos critérios racionais [...].

Já ouvi gente dizer coisas assim:

– Não é algo racional. Você tem de sentir.

– Crer não é questão de raciocínio ou de argumentação. Você não tem como argumentar sobre Deus porque Deus está além de qualquer argumentação [...].

O motivo pelo qual isso é tão importante não é simplesmente porque gente que abraça a fé acabará tendo crenças mal-formadas. A razão não é apenas normativa no sentido mínimo de que há estruturas dentro das quais ela deve operar ou não será mais razão. Há também um componente ético na razão, porque as crenças de uma pessoa estão intimamente ligadas às suas ações [...].

Se a pessoa abre mão da razão na formação das suas crenças, ela abre mão do único acesso à verdade que temos. Os seres humanos não tem qualquer capacidade perceptual para discernir a verdade – do modo como somos, por exemplo, imediatamente capazes de discernir cor e forma. O mais perto que podemos chegar da verdade é justificando nossas crenças. A fé não é justificação, é a suspensão de todos os critérios de justificação. A fé declara que determinadas crenças – essas fundamentais, bem no centro da minha visão de mundo e que moldam o modo como eu vejo as coisas – não precisam ser de forma alguma justificadas.

Se as crenças de alguém não podem ser justificadas, e se as ações de uma pessoa são moldadas e justificadas pelas suas crenças, então algumas ações não podem ser justificadas.

Há um componente ético na razão.

Aqueles que vivem pela fé não são intelectualmente inferiores. Pode-se até dizer que requer-se um certo brilhantismo, ou pelo menos extraordinária flexibilidade mental, para entregar-se à ginástica mental que exige aplicar-se a razão à maior parte das áreas da vida e suspendê-la por completo em outras áreas. Não se trata portanto de questão de intelecto. E dizer que a fé é a falência da razão ou a abdicação da razão é apenas dar um nome a ela, não explicar o que há de errado com ela. Creio que algo mais forte pode ser dito.

A fé é uma falha moral. A abdicação da razão é a abdicação da justificação. Quando as pessoas deixam de tentar justificar as suas ações no mundo de forma racional – quando decidem agir, ao invés disso, pela fé – elas podem muito bem fazer qualquer coisa e chamar isso de correto e bom.

Leia também:
Temor e fé

21 de Janeiro de 2006

O salvador de Jesus

Heresias Sensacionais

Os primeiros cristãos eram judeus; meros dois séculos depois os títulos de cristão e judeu eram vistos, por ambos os lados, como opostos e inteiramente incompatíveis.

Entre as diferenças de opinião, reforçadas ao longo dos milênios, estava o fato de que os judeus não conseguiram engolir que Jesus de Nazaré fosse de fato o messias prometido pelas Escrituras Hebraicas. A Bíblia hebraica parece prometer um messias vitorioso e político, que arrebanharia os judeus espalhados pelo globo e os lideraria a um triunfante retorno à Terra Prometida.

Como criam que Jesus não se encaixava nesse perfil, os judeus continuaram esperando pelo seu messias muitos séculos depois que os cristãos já estavam satisfeitos com o deles. Diversos candidatos a messias surgiram ao longo da história do judaísmo, mas nenhum outro recebeu aceitação tão unânime e produziu impacto tão profundo quanto Sabbatai Sevi (1626-1676).

Nenhum causou tão grande decepção, porque no auge da sua popularidade como messias dos judeus – quando havia angariado milhões de adeptos entre os judeus da Europa e do Oriente, levando levas inteiras de fiéis a abandonar suas cidades, suas profissões, seus pertences e suas casas para experimentar a apoteose do messias em Jerusalém – Sabbatai converteu-se ao islamismo.

Ninguém esteve tão perto quanto Sabbatai Sevi de se tornar o salvador de Jesus.

Sabbatai Sevi me interessa por inúmeros motivos. Entre eles, está a sua ousadia em passar diretamente do judaísmo para o islamismo sem parar na religião intermediária – para não dizer central – o cristianismo. Quem ele pensa que é?

Há também o seu curioso misticismo, calcaldo numa interpretação muito peculiar da cabala, que o levava a dizer barbaridades interessantíssimas, como a benção mais antiga de todas.

E, naturalmente, há o fato de ninguém ter estado tão perto quanto Sabbatai Sevi de se tornar o salvador pessoal de Jesus.

Isso porque, segundo o Talmude, Jesus havia sido o mais espetacular dos pecadores, condenado por suas transgressões a todas as macabras punições do inferno. Para os judeus do tempo de Sevi, Jesus havia cometido os pecados mais torpes que alguém pode cometer: desviara milhões de judeus da verdadeira fé, ocasionara a formulação de uma nova Escritura (seus seguidores ousavam chamar o Testamento de Moisés de Velho!) e, sobre essas impiedades, havia acumulado a mais grave: Jesus se autoproclamara Deus.

Jesus Cristo, na qualidade de falso messias, estava condenado à perdição eterna.

Até que surgiu em cena Sabbatai Sevi – que, segundo a teologia do seu grande profeta e amigo, Nathan de Gaza, estava destinado a resgatar Jesus dessa dura condenação.

Segundo Nathan, havia na verdade uma estranha relação de identidade entre Sabbatai Sevi e Jesus. O paradoxo do messias estava em que o bem absoluto (Sevi) acabaria brotando do mal absoluto (Jesus). “E finalmente”, garantia Nathan, “ele (Sevi) irá restaurar [a santidade] do qelippah (poder maligno) que corresponde [ao seu poder de santidade]: Jesus Cristo”.

“É preciso perceber como soaria a doutrina de uma restauração final de Jesus para as mentes judaicas do século XVII”, diz Gershom Scholem, biógrafo de Sabbatai, “a fim de assimilar por completo a ousadia de Nathan”.

Afinal de contas, Jesus era imperdoável. Se ele podia se salvar qualquer um podia, e essa possibilidade causou por si só tanta indignação entre os judeus quanto a suposta salvação de Jesus.

“Essa idéia de Nathan era”, prossegue Scholem, “apenas parte de uma noção ainda mais radical: a de que nada nem ninguém está irremediavelmente perdido, e de que tudo irá no final ser salvo e reinstaurado à santidade. A ‘redenção de Jesus’ foi, talvez, apenas a primeira expressão simbólica de uma doutrina que não havia sido ainda articulada, mas que Nathan desenvolveria e formularia com mais clareza nos anos seguintes. Se Jesus era passível de salvação, então havia esperança até mesmo para os rabis incrédulos que rejeitavam o verdadeiro messias, Sabbatai Sevi”.