Manuscritos estocados sob a rubrica 'Heresias Sensacionais'
14 de Novembro de 2006

Três versões de Judas

Heresias Sensacionais, Traduzindo Borges

There seemed a certainty in degradation.
T. E. Lawrence, Seven Pillars of Wisdom, CIII

Na Ásia Menor ou em Alexandria, no segundo século de nossa fé, quando Basílides publicava que o cosmos era uma temerária ou perversa improvisação de anjos deficientes, Niels Runeberg teria dirigido, com singular paixão intelectual, um dos conventículos gnósticos. Dante lhe teria destinado, talvez, um sepulcro de fogo; seu nome aumentaria os catálogos dos heresiarcas menores, entre Saturnilo e Carpócrates; algum fragmento de suas prédicas, exonerado de injúrias, perduraria no apócrifo Liber adversus omnes haereses ou teria perecido quando o incêndio de uma biblioteca monástica devorou o último exemplar do Syntagma. Em troca, Deus lhe concedeu o século vinte e a cidade universitária de Lund. Aí, em 1904, publicou a primeira edição de Kristus och Judas; aí, em 1909, seu livro capital Den hemlige Frälsaren. (Deste último tenho a tradução alemã, executada em 1912 por Emili Schering; chama-se Der heimliche Heiland.)

Antes de ensaiar um exame dos mencionados trabalhos cabe repetir que Nils Runeberg, membro da União Evangélica Nacional, era profundamente religioso. Num grêmio de Paris ou de Buenos Aires um literato poderia muito bem redescobrir as teses de Runeberg; essas teses, propostas num grêmio, seriam exercícios ligeiros de negligência ou de blasfêmia. Para Runeberg, foram a chave que decifra um mistério central da teologia; foram matéria de meditação e análise, de controvérsia histórica e filológica, de soberba, de júbilo e terror. Justificaram e arruinaram sua vida. Quem recorrer a este artigo deve também considerar que ele registra tão-somente as conclusões de Runeberg, não sua dialética e suas provas. Alguém possivelmente observará que a conclusão precedeu sem dúvida as “provas”. Quem se resigna a buscar provas de algo em que não crê ou cuja prédica não lhe importa?

Não uma coisa, todas as coisas que a tradição atribui a Judas Iscariotes são falsas.

A primeira edição de Kristus och Judas leva esta catégorica epígrafe, cujo sentido, anos depois, dilataria monstruosamente o próprio Nils Runeberg: Não uma coisa, todas as coisas que a tradição atribui a Judas Iscariotes são falsas (De Quincey, 1857). Precedido por algum alemão, De Quincey especulou que Judas entregou a Jesus Cristo a fim de forçá-lo a declarar a sua divindade e acender uma vasta rebelião contra o jugo de Roma; Runeberg sugere uma justificação de índole metafísica. Habilmente, começa por destacar a superfluidade do ato de Judas. Observa (como Robertson) que para identificar um professor que pregava diariamente na sinagoga e que operava milagres diante de concursos de milhares de homens não se requer a traição de um apóstolo. Isso, no entanto, ocorreu. Supor um erro na Escritura é intolerável; não menos intolerável é admitir um acontecimento casual no mais precioso acontecimento da história do mundo. Portanto a traição de Judas não foi casual: foi um ato prefixado que tem seu lugar misterioso na economia da redenção. Prossegue Runeberg: o Verbo, quando foi feito carne, passou da ubiqüidade ao espaço, da eternidade à história, da bem-aventurança sem limites à mutação e à carne; para corresponder a tal sacrifício era necessário que um homem, representando todos os homens, fizesse um sacrifício condigno. Judas Iscariotes foi esse homem. Judas, único entre os apóstolos, intuiu a secreta divindade e o terrível propósito de Jesus. O verbo havia se rebaixado a mortal; Judas, discípulo do Verbo, podia rebaixar-se a delator (o pior delito que a infâmia suporta) e ser hóspede do fogo que não se apaga. A ordem inferior é um espelho da ordem superior; as formas da terra correspondem às formas do céu; as manchas da pele são um mapa das incorruptíveis constelações; Judas refletiu de algum modo a Jesus. Daí os trinta dinheiros e o beijo; daí a morte voluntária, para merecer ainda mais a reprovação. Assim elucidou Nils Runeberg o enigma de Judas.

Os teólogos de todas as confissões o refutaram. Lars Peter Engström acusou-o de ignorar, ou de preterir, a união hipostática; Axel Borelius, de renovar a heresia dos docetas, que negaram a humanidade de Jesus; o contundente bispo de Lund, de contradizer o terceiro versículo do capítulo 22 do evangelho de Lucas.

Esses variados anátemas influenciaram Runeberg, que parcialmente reescreveu o livro reprovado e modificou sua doutrina. Abandonou a seus adversários o terreno teológico e propôs oblíquas razões de ordem moral. Admitiu que Jesus, “que dispunha dos consideráveis recursos que a onipotência pode oferecer”, não necessitava de um homem para redimir a todos os homens. Rebateu, em seguida, os que afirmam que nada sabemos do inexplicável traidor; sabemos, disse, que foi um dos apóstolos, um dos eleitos para anunciar o reino dos céus, para curar os enfermos, para limpar os leprosos, para ressuscitar os mortos e para expulsar demônios (Mateus 10:78; Lucas 9:1). Um homem a quem o Redentor concedeu tal distinção merece de nós melhor interpretação de seus atos. Imputar seu crime à cobiça (como tem feito alguns, alegando João 12:6) é resignar-se ao motivo mais torpe. Nils Runeberg propõe o motivo contrário: um hiperbólico e até ilimitado ascetismo. O asceta, para maior glória de Deus, envilece e mortifica a carne; Judas fez o mesmo com o espírito. Renunciou à honra, ao bem, à paz, ao reino dos céus, como outros, menos heroicamente, ao prazer1. Premeditou com lucidez terrível suas culpas. Do adultério costumam participar a ternura e a abnegação; do homicídio, a coragem; das profanações e da blasfêmia, certo fulgor satânico. Judas elegeu aquelas culpas que não são visitadas por nenhuma virtude: o abuso de confiança (João 12:6) e a delação. Trabalhou com gigantesca humildade, creu-se indigno de ser bom. Paulo escreveu: Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor (1 Coríntios 1:31); Judas buscou o inferno, porque a felicidade do Senhor lhe bastava. Pensou que a felicidade, como o bem, é um atributo divino que não devem usurpar os homens2.

Ele estava no mundo e o mundo foi feito por intermédio dele, mas o mundo não o conheceu.

Muitos tem descoberto, post factum, que nos justificáveis começos de Runeberg está seu extravagante fim, e que Den hemlige Frälsaren é uma mera perversão ou exasperação de Kristus och Judas. Ao fim de 1907 Runeberg terminou e revisou o texto manuscrito; quase dois anos transcorreram sem que o entregasse à prensa. Em outubro de 1909 o livro apareceu com um prólogo (tíbio ao ponto do enigmático) do hebraísta dinamarquês Erik Erfjord e com esta pérfida epígrafe: Ele estava no mundo e o mundo foi feito por intermédio dele, mas o mundo não o conheceu (João 1:10). O argumento geral não é complexo, embora a conclusão seja monstruosa. Deus, argumenta Nils Runeberg, rebaixou-se a ser homem tendo em vista a redenção do gênero humano; cabe conjecturar que foi perfeito o sacrifício realizado por ele, não invalidado ou atenuado por omissões. Limitar o que padeceu a uma tarde na cruz é blasfematório3. Afirmar que foi homem e incapaz de pecado encerra contradição; os atributos de impeccabilitas e de humanitas não são compatíveis. Kemnitz admite que o Redentor podia sentir fadiga, frio, perturbação, fome e sede; também cabe admitir que poderia pecar e perder-se. O famoso texto Brotará como raiz de terra sedenta; não tinha boa aparência nem formosura; desprezado e o mais rejeitado entre os homens; homem de dores e que sabe o que é padecer (Isaías 53:2.3) é para muitos a previsão do crucificado na hora da morte; para alguns (por exemplo, Hans Lassen Martensen), uma refutação da formosura que o consenso popular atribui a Cristo; para Runeberg, é a profecia pontual não a respeito de um momento mas de todo o atroz futuro, no tempo e na eternidade, do Verbo feito carne. Deus se fez totalmente homem até a infâmia, homem até a reprovação e o abismo. Para salvar-nos, poderia ter eleito qualquer dos destinos que tramam a perplexa rede da história; poderia ter sido Alexandre ou Pitágoras ou Rurik ou Jesus; escolheu um ínfimo destino: foi Judas.

Em vão propuseram essa revelação as livrarias de Estocolmo e de Lund. Os incrédulos a consideraram, a priori, um insípido e laborioso jogo teológico; os teólogos a desdenharam. Runeberg intuiu nessa indiferença ecumênica uma quase milagrosa confirmação. Deus ordenava essa indiferença; Deus não queria que se propagasse na terra seu terrível segredo. Runeberg compreendeu que não era chegada a hora. Sentiu que estavam convergindo sobre ele antigas maldições divinas; recordou Elias e Moisés, que na montanha esconderam o rosto para não ver a Deus; Isaías, que aterrorizou-se quando seus olhos viram aquele cuja glória enche a terra; Saulo, cujos olhos quedaram cegos na estrada de Damasco; o rabino Simeon ben Azai, que viu o Paraíso e morreu; o famoso feiticeiro João de Viterbo, que enlouqueceu quando pôde ver a trindade; os midrashim, que abominam os ímpios que pronunciam o Shem Hamephorash, o nome secreto de Deus. Não seria ele acaso culpado desse crime obscuro? Não seria essa a blasfêmia contra o Espírito, que não será perdoada (Mateus 12:31)? Valério Sorano morreu por ter divulgado o nome oculto de Roma; que infinito castigo seria o seu, por ter descoberto e divulgado o terrível nome de Deus?

Ébrio de insônia e de vertiginosa dialética, Nils Runeberg morreu pelas ruas de Malmö, rogando em altos brados que lhe fosse concedida a graça de compartilhar com o Redentor do inferno.

Morreu do rompimento de um aneurisma a primeiro de março de 1912. Os heresiólogos haverão talvez de recordá-lo; agregou ao conceito do Filho, que parecia esgotado, as complexidades do mal e do infortúnio.

Jorge Luis Borges, 1944

1 Borelius interroga com desdém: Por que não renunciou a renunciar? Por que não renunciar a renunciar?

2 Euclides da Cunha, num livro ignorado por Runeberg, anota que para o heresiarca de Canudos, Antônio Conselheiro, a virtude “era quase uma impiedade”. O leitor argentino recordará passagens análogas na obra de Almafuerte. Runeberg publicou, no panfleto simbolista Sju insegel, um assíduo poema descritivo, A água secreta; as primeiras estrófes narram os acontecimentos de um dia tumultuoso; as últimas, a descoberta de um lago glacial; o poeta sugere que a perduração dessa água silenciosa corrige nossa inútil violência e de algum modo a permite e a absolve. O poema conclui assim: A água da selva é feliz; podemos ser malvados e dolorosos.

3 Maurice Abramowicz observa: “Jésus, d’aprés ce scandinave, a toujours le beau rôle; ses déboires, grâce à la science des typographes, jouissent d’une réputabon polyglotte; sa résidence de trente­trois ans parmi les humains ne fut en somme, qu’une villégiature”. Erfjord, no terceiro apêndice da Christelige Dogmatik refuta essa passagem. Anota que a crucificação de Deus não cessou, porque o que aconteceu uma só vez no tempo se repete sem trégua na eternidade. Judas, agora, segue cobrando as moedas de prata; segue beijando a Jesus Cristo; segue arremessando as moedas de prata no templo, segue preparando o laço da corda no campo de sangue (Erfjord, para justificar essa afirmação, invoca o último capítulo do primeiro tomo da Vindicação da eternidade de Jaromir Hladík).

30 de Setembro de 2006

O evangelho de Google

Heresias Sensacionais, Quase Ciência

Deus existe, chama-se Google, e alguns de nós consultam-no e fazem-lhe pedidos todos os dias.

A tese da divindade do santuário de busca mais freqüentado da terra, pregada ardentemente pelo tecno-profeta Matt MacPherson, ainda não foi, que eu saiba, refutada a contento.

Uma página apologética do sáite A Igreja de Google argumenta sensatamente que “existe mais evidência em favor da existência de Google do que de qualquer outro deus adorado nos nossos dias”.

Se você se preocupa com esse tipo de coisa, o Google encaixa-se confortavelmente dentro de alguns dos mais exigentes atributos que a teologia ortodoxa estabeleceu para Deus: ele é onisciente (sabe tudo que há para se saber – basta perguntar), onipresente (esta em e é acessível de todos os lugares, ainda mais com acesso wireless), imortal (suas informações e algoritmos estão distribuídos entre vários servidores, de modo que não há como se apagar definitivamente uma porção do Google), registra todos os nossos erros e preferências e tem vocação para infinito.

Para o adorador casual, mais importante pode ser saber que o Google responde consistentemente as orações que se lhe fazem, e de forma mais rápida, organizada, relevante e abrangente do que qualquer deus competidor. As orações ao Google, que na tecno-ortodoxia chamam-se buscas, têm um potencial de resposta avassalador. Se você quer permanecer ignorante a respeito de determinada coisa, é melhor não consultar o oráculo do Google – o deus cego e generoso que tudo vê, tudo sabe e nada vai negar.

O reino de Google está próximo.

O Google pode ajudá-lo a organizar-se e manter-se informado, pode fornecer informações sobre como salvar uma vida ou tirá-la, pode oferecer uma cópia de segurança para os seus arquivos quando seu computador fritar, pode ajudá-lo a encontrar amigos há muito perdidos, a encontrar o caminho mais rápido e eficiente para determinado lugar ou a ver a Terra de cima.

Seu poder e sua sabedoria não páram de crescer, sua graça é abundante sobre justos e injustos, suas atualizações renovam-se a cada manhã.

O que me traz invariavelmente à lembrança o curtíssimo conto de ficção científica de Fredric Brown, “Answer”, de 1954. Num futuro distante autoridades estelares ligam pela primeira vez o interruptor que conecta os supercomputadores de noventa e seis bilhões de planetas “numa máquina cibernética que combina todo o conhecimento de todas as galáxias”.

– A honra de fazer a primeira pergunta é sua, Dwar Reyn.

Ele vira-se para olhar a máquina de frente.

– Deus existe?

A voz poderosa responde sem hesitação, sem o clique de um único relé.

– Agora existe.

Na história eles até tentam desligar o interruptor, mas é tarde demais. O reino de Google está próximo.

The Church Of Google
O próprio Google

09 de Agosto de 2006

A sedução da ortodoxia

Heresias Sensacionais

A primeira e mais persistente imperfeição a tentar roubar o brilho da originalidade de Jesus como apresentado nos evangelhos foi o gnosticismo. Decalcado sem sutileza da visão de mundo das religiões de mistério, o gnosticismo crê, essencialmente, que a salvação está condicionada ao acesso a um conhecimento secreto – a gnose – através do qual o iniciado nos mistérios da religião pode conectar-se à divindade e beneficiar-se dela.

Alguns crêem que o Apóstolo escreveu a maior parte de suas cartas para combater o alastramento da mancha gnóstica no seio virgem da igreja primitiva; outros juram de pé junto que Paulo não estava ele mesmo imune à sua influência, e que muitas de suas passagens e argumentos promovem ou pressupõem a visão de mundo gnóstica.

Certo é que nenhum outro conceito tem permeado tão unanimemente e por tanto tempo a mentalidade cristã de todas as tendências e estirpes do que a confiança tipicamente gnóstica na supremacia ou na necessidade de um conhecimento secreto – isto é, específico – como condição para a salvação. Com o tempo, naturalmente, o gnosticismo foi demonizado com este nome; entre os cristãos o conhecimento secreto passou a ser chamado e idolatrado como crença correta – ou ortodoxia, que é como se diz em grego.

Só a ortodoxia salva.

A relação dos cristãos com a ortodoxia é primordialmente idolátrica. Se pressionados, cristãos de todos os matizes acabarão concordando que não é uma religião particular que beneficia o adorador, mas algum aspecto da bondade divina expresso na vida, morte e/ou ressurreição de Jesus. Na prática, no entanto, todos tentarão convencê-lo de que para beneficiar-se desse privilégio gratuito é necessário abraçar determinado conjunto muito específico de noções a respeito de Deus, da vida e da salvação. A esse conjunto de “crenças corretas”, que nenhuma facção cristã tem em comum com a outra, é que se dá o nome fortuito de ortodoxia.

A paixão com que os cristãos defendem seus pontos de vista uns contra os outros reflete com precisão a extensão de sua ortodoxolatria. Jesus é muito bonzinho e tal – mas só a ortodoxia salva, e ninguém vem a Jesus se não for por ela.

Ortodoxolatria – ou gnosticismo cristão – é a crença praticamente universal (entre os cristãos) de que para beneficiar-se do favor de Jesus é preciso sancionar uma série racional e muito específica de assertivas a respeito de como Deus funciona. Ser cristão não é, segundo essa visão, uma postura pessoal de confiança no cacife de Jesus; não é questão de posicionamento moral, psicológico ou espiritual. Para os partidários da nova gnose ser cristão é assunto da cabeça e da razão; depende da consistência do nosso discernimento intelectual, demonstrada pela filiação ao rol apropriado de afirmações teológicas – em detrimento, naturalmente, de todas as outras.

É por sermos todos ortodoxólatras que entre a leitura deste parágrafo e do anterior uma igreja em algum lugar se dividiu e se criaram duas – cada uma acenando com sua própria versão da gnose, o conhecimento apropriado que tem poder para salvar. Gente que sentava-se no mesmo banco para cultuar estará a partir deste momento separada pelo abismo de sua fé inabalável na necessidade da crença correta. Terão discordado irreparavelmente sobre algum ponto crucial da sã doutrina: se mulher tem direito a pregar, se Jesus visitou o inferno, se milagres acontecem, se o arrebatamento vem antes ou depois do milênio, se o Espírito é derramado em uma ou duas prestações, se Jesus ressuscitou, se um homem pode dormir abraçado a outro; se cristão pode se divorciar, abortar, assistir televisão, cortar o cabelo, tomar cerveja, ouvir Raul Seixas, ler ficção científica, usar camisinha, suicidar; se é certo usar crucifixo, votar em comunista, acender uma vela, comprar a prestação, pagar o dízimo, fazer o sinal da cruz, chorar aos pés de uma estátua, jogar na loteria, batizar criança, fazer sexo antes, durante e depois do casamento. As combinações são incontáveis, e cada facção proporá sua versão particular da gnose. Uma única coisa todos os grupos apresentarão em comum: a fé subjacente e implacável na ortodoxia, o paradigma que pressupõe a supremacia e a necessidade de uma única posição doutrinária/teológica/ideológica formal e a conseqüente demonização das outras. Como dizia Borges, interessa-lhes menos Deus do que refutar os que o negam na sua versão.

Essa confiança nos benefícios inerentes de uma apreensão intelectual adequada dos mecanismos de Deus não poderia estar mais distante da postura de Jesus, para quem apenas comparações podem produzir um vislumbre da natureza do Reino e – mais importante – todos os homens podem beneficiar-se da postura cavalheiresca de Deus, independentemente do acesso a qualquer conhecimento secreto ou específico. A inescapável graça de Deus, segundo Jesus, está pronta a agir em favor não apenas dos pecadores – o que deveria parecer por si mesmo admirável – mas também dos incompetentes, dos deficientes, dos tolos, dos insensatos, dos imaturos. A verdade foi escondida, garante Jesus, dos doutos e estudados e revelada aos mais parvos dos discípulos. Para entrar no Reino é necessário que nos tornemos “como crianças” – condição que não denota, ao contrário do que se pensa, um atestado de inocência, mas de incompetência. Para beneficiar-se do Reino é preciso ser incapaz. Requer-se não ter noção do que está acontecendo e não ter noção de como parar o processo aparentemente irreversível do qual fazemos parte. É preciso ser capaz de baixar a bola e delegar o controle e a compreensão do que está acontecendo a outro. É preciso ter uma vaga idéia, não certeza. Fé, não crenças. Confiança na suficiência do cavalheirismo de Deus, não no mérito arbitrário da ortodoxia.

13 de Junho de 2006

Ensinamentos de Jesus: deixados para trás

Heresias Sensacionais

Uma das histórias que eu teria prazer em escrever como ficção – mas que perde em esperteza e ganha em horror por ser verdade.

A série de livros Deixados Para Trás – desconcertantemente popular entre os evangélicos norte-americanos – acaba de produzir um [ainda mais] atroz produto colateral: trata-se de Left Behind: Eternal Forces, um videogame ambientado no violento combate entre as forças de Jesus e as do AntiCristo na Nova Iorque pós-arrebatamento.

“Imagine: você é um soldado de infantaria num grupo paramilitar cujo propósito é tornar os Estados Unidos uma teocracia cristã, e estabelecer sua visão de mundo do domínio de Cristo sobre todos os aspectos da vida. Você recebe armamentos de última geração e é instruído a combater infiéis nas ruas de Nova Iorque. Você está numa missão – tanto religiosa quanto militar – para converter ou matar católicos, judeus, muçulmanos, budistas, gays e qualquer outro que advogue a separação entre igreja e Estado – especialmente cristãos moderados e progressistas. Sua missão é ‘engajar-se em combate físico e espiritual’: todos que resistirem devem ser eliminados sem piedade.”
Assassinos com propósitos

Os combatentes gritam “Louvado seja o Senhor!” enquanto detonam os infiéis.

“Valerá a pena delinear que horrenda distorção da verdadeira mensagem de Cristo é essa aberração? Você consegue imaginar a reação explosiva ocasionada se, digamos, uma poderosa organização muçulmana lançasse um videogame em que forças islâmicas assassinassem cristãos indefesos com metralhadoras a fim de restaurar a ordem de Alá? Ou se a Ku Klux Klan criasse um jogo em que você pudesse ‘limpar’ a América de todos os judeus e negros de modo que os brancos não precisassem mais temer o hip-hop?
Na verdade, na verdade vos digo: você não faz idéia.”
Jesus ama uma metralhadora

“Se acontece de explodir um agente neutro – dano colateral que é inevitável no Fim Dos Tempos – você perde ‘pontos espirituais’. Mas tem logo como recarregar, através de um breve intervalo de oração ou mediante a conversão de um novaiorquino aterrorizado.”
Assassinos com propósitos

Você está numa missão para converter ou matar.

“Você pode ser um dos cristãos e detonar infiéis, mas se não estiver a fim pode ser também o Anticristo e detonar os cristãos.”
Convertendo videogames em instrumentos de Deus

O jogo contava até recentemente com o apoio promocional da máquina Igreja Com Própositos™ do pastor Rick Warren, mas a franquia acabou retirando o seu apoio diante da pressão da mídia.

Deixados Para Trás – Tropas Eternas deve ser lançado nos Estados Unidos em outubro deste ano.

“Estamos esperandos que os adolescentes gostem do jogo”, afirmou o pastor aposentado Tim LaHaye, autor da série de livros. “Nosso verdadeiro alvo é não deixar ninguém para trás”.

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Telas do jogo

Trailer promocional

Sáite oficial

17 de Março de 2006

O nome de Deus em mãos erradas

Divino preconceito, Heresias Sensacionais

Depois da breve e edificante introdução ao seu tratado contra os judeus Shem Hamphoras, Martinho Lutero se apressa em reproduzir a lenda judaica que será alvo de seus ataques no restante do livro.

A lenda e o uso dela por Lutero são curiosos em muitos sentidos. Primeiro há a história em si, breve aventura em que o Nome Secreto de Deus (o Shem Hamphoras) é utilizado sem autorização por Jesus para realizar os seus milagres e atrair as multidões. Há inúmeros detalhes memoráveis, como o fato de Jesus citar incessantemente o Antigo Testamento em seu favor (hábito que aos judeus deve ter parecido especialmente irritante), o embate aéreo, a não-mencionada tecnologia que motorizava os cães mecânicos, a reversão do papel de Judas Iscariotes e o enforcamento de Jesus num pé de repolho.

O Shem Hamphoras estava escrito sobre esta pedra, e qualquer um que aprendesse o nome dessas letras e as compreendesse poderia fazer qualquer coisa que quisesse.

A lenda parece ter sido inventada por judeus dotados de aguçado senso de humor que dispuseram-se a difamar a história de Jesus sem levar a coisa muito a sério (leia-se o último parágrafo), talvez comentando ou aproveitando-se da proverbial credulidade dos cristãos. Não temos como saber como a história foi lida pelo público judeu original; não temos nem mesmo como saber se a história foi de fato escrita por judeus, mas está claro que sua divulgação deixou os cristãos furiosos.

A pitoresca narrativa foi registrada com horror na obra Victoria (1315) de um certo Victor Porchetto de Salvatici, padre genovês a quem Lutero chama pelo nome latino de Purchetus (o título completo do livro, A Vitória sobre os ímpios Judeus, na qual a verdade da fé Católica é demonstrada a partir das Sagradas Escrituras, bem como a partir das palavras do Talmude, das obras cabalísticas e de todos os outros autores aceitos pelos Judeus, proporciona uma idéia clara do seu conteúdo). Lutero, que leu-a numa reimpressão parisiense de Victoria, datada de 1520 (seu exemplar pessoal, com notas em alemão e em latim, jaz hoje no acervo da Biblioteca Municipal de Karlsruhe) traduziu a lenda a fim de refutá-la.

Não há, portanto, como recapitular adequadamente todas as camadas de meta-intolerância ligadas à criação e incessante citação deste texto. Os judeus, perseguidos implacavelmente pelos cristãos durante um milênio inteiro, podem ter inventado a história como inofensiva retaliação; por outro lado, cristãos bem-intencionados podem muito bem ter atribuído a história aos judeus, já que testemunhar falsamente o que se considera ser verdadeiro já foi considerado atitude virtuosa; cristãos como Porchetto e Lutero, inflamados pela imorrível blasfêmia, trataram então de atiçar a já alta fogueira da perseguição aos judeus.

O prejuízo está, naturalmente, longe de terminar. Onde estão os guardiãos do Shem Hamphoras quando precisamos deles dele.


DO DÉCIMO PRIMEIRO CAPÍTULO DA PRIMEIRA PARTE DO LIVRO DE PURCHETIS, TRADUZIDO PARA O ALEMÃO PELO DR. M. LUTERO

1. Todos veremos agora como os judeus foram sempre tamanhos inimigos das maravilhas de Cristo que atribuíram-nas a Belzebu, senhor dos diabos. Pois ele (Cristo) fez obras assombrosas como ninguém jamais havia feito, conforme ele mesmo afirma em João 15.

Também jamais foi alegado que qualquer outra pessoa em seu Nome tenha feito os cegos verem, os surdos ouvirem, os mancos andarem e os mudos falarem, como profetizado por Isaías nos versos de 4 a 6 do seu capítulo 35: “A vingança vem, a retribuição de Deus; ele vem e vos salvará. Então, se abrirão os olhos dos cegos, e se desimpedirão os ouvidos dos surdos; os coxos saltarão como cervos, e a língua dos mudos cantará”.

2. Além desses numerosos sinais maravilhosos ele fez muitos outros, despertou os mortos, limpou os leprosos e curou muitos outros enfermos e fez tantos outros sinais que ninguém, exceto Deus, poderia tê-los feito; ainda assim a perversidade dos judeus, sempre associada a ardis malignos, teve a desfaçatez de blasfemar e vituperar esses milagres com mentiras. Eles compuseram um livro contra os cristãos no qual escrevem o seguinte:

3. ACONTECEU NOS DIAS DE HELENA, a Rainha, a qual reinou sobre toda a terra de Israel, que Jesus, o Nazareno, veio a Jerusalém. No Templo do Senhor ele encontrou a pedra sobre a qual nos tempos antigos havia estado depositada a Arca do Senhor. O Shem Hamphoras estava escrito sobre esta pedra, e qualquer um que aprendesse o nome dessas letras e as compreendesse poderia fazer qualquer coisa que quisesse.

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Shem Hamphoras

  1. Lutero alerta os alemães
  2. O nome de Deus em mãos erradas