Manuscritos estocados sob a rubrica 'Heresias Sensacionais'
11 de Abril de 2009

Eu mesmo sepultarei Jesus

Heresias Sensacionais

Este documento contém clipes de vídeo que só podem ser visualizados na página da Bacia na internet.

Faça-se puro, meu coração
Eu mesmo sepultarei Jesus.
Pois daqui em diante ele em mim
Mais e mais
Repousará docemente.
Mundo: fora! Deixe Jesus entrar.

Karl Richter, Walter Berry, Bach, e neles toda a humanidade.

Mache dich, mein Herze, rein,
ich will Jesum selbst begraben.
Denn er soll nunmehr in mir für und für
seine süße Ruhe haben.
Welt, geh aus, laß Jesum ein!

18 de Fevereiro de 2008

Formas de uma lenda

Heresias Sensacionais, Traduzindo Borges

Às pessoas causa repugnância ver um ancião, um enfermo ou um morto, porém estão sujeitas à morte, às enfermidades e à velhice; o Buda declarou que esta reflexão o induziu a abandonar sua casa e seus pais e vestir a roupa amarela dos ascetas. O testemunho consta em um dos livros do cânone; outro registra a parábola dos cinco mensageiros secretos enviados pelos deuses; são um louco, um ancião recurvado, um inválido, um criminoso em tormentos e um morto, e avisam que nosso destino é nascer, caducar, enfermar, sofrer justo castigo e morrer. O Juiz das Sombras (na mitologia do Hindustão Yama desempenha esse cargo, porque foi o primeiro homem que morreu) pergunta ao pecador se não viu os mensageiros; este admite que sim, porém não foi capaz de decifrar o aviso; os carrascos o encerram numa casa que está cheia de fogo. Quiçá o Buda não tenha inventado essa ameaçadora parábola; baste-nos saber que a proferiu (Majihima nikaya, 130) e que jamais a vinculou, talvez, à sua própria vida.

A realidade pode ser demasiado complexa para a transmissão oral; a lenda a recria de uma maneira que apenas acidentalmente é falsa e que a permite andar pelo mundo, de boca em boca. Na parábola e na declaração figuram um homem velho, um homem enfermo e um homem morto; o tempo fez dos dois textos um e forjou, confundindo-os, uma outra história.

Siddharta, o Bodhisattva, o pré-Buda, é filho de um grande rei, Suddhodana, da estirpe do sol. Na noite de sua concepção a mãe sonha que em seu lado direito entra um elefante, da cor da neve e com seis dentes de marfim1. Os adivinhos interpretam que seu filho reinará sobre o mundo ou fará girar a roda da doutrina2 e ensinará aos homens como livrarem-se da vida e da morte. O rei prefere que Siddartha conquiste grandeza temporal e não eterna, e encerra-o num palácio do qual foram removidas todas as coisas que podem revelar-lhe que é corruptível. Vinte e nove anos de ilusória tranqüilidade transcorrem dessa forma, dedicados à satisfação dos sentidos, porém Siddharta, certa manhã, sai em seu coche e vê com espanto um homem recurvado, “cujo cabelo não é como o dos outros, cujo corpo não é como o dos outros”, que se apóia num bastão para caminhar e cuja carne treme. Pergunta que homem é esse; o cocheiro explica que é um ancião e que todos os homens da terra serão como ele. Siddharta, inquieto, dá ordem que retornem imediatamente, porém em outra saída vê um homem a quem devora a febre, cheio de lepra e de úlceras; o cocheiro explica que é um enfermo e que ninguém está a salvo desse perigo. Em outra saída vê um homem que levam num féretro, esse homem imóvel é um morto, explicam, e morrer é a lei de todo que nasce. Em outra saída, a última, vê um monge das ordens mendicantes que não deseja viver nem morrer. A paz está em seu rosto; Siddharta encontrou o caminho.

A lenda determinou que o Buda fosse canonizado por Roma.

Hardy (Der Buddhismus nach älteren Pili-Werken) aplaudiu o colorido desta lenda; um ideólogo contemporâneo, A. Foucher, cujo tom de gracejo nem sempre é inteligente ou urbano, escreve que, admitida a ignorância prévida do Bodhisattva, a história não carece de gradação dramática nem de valor filosófico. No princípio do século V da nossa era o monge Fa-Hien peregrinou aos reinos do Hindustão em busca dos livros sagrados e viu as ruínas da cidade de Kapilavastu e quatro imagens erigidas por Asoka, ao norte, ao sul, ao este e ao leste das muralhas, para celebrar os encontros. No princípio do século VII um monge cristão redigiu a novela que se entitula Barlaam y Josafat; Josafat (Josafat, Bodhisattva) é filho de um rei da Índia; os astrólogos predizem que um dia reinará sobre um reino maior, que é o da Glória: o rei encerra-o num palácio, porém Josafat descobre a desafortunada condição dos homens através das espécies de um cego, de um leproso e de um moribundo e é convertido finalmente à fé pelo ermitão Barlaam. Esta versão cristã da lenda foi traduzida para diversos idiomas, inclusive o holandês e o latim; a pedido de Hákon Hákonarson produziu-se na Islândia, em meados do século XIII, uma Barlaams saga. O cardeal César Baronio incluiu Josafat em sua revisão (1585-1590) do Martirológio Romano; em 1615 Diego de Couto denunciou, em sua continuação das Décadas, as analogias da fingida fábula indiana com a verdadeira e piedosa história de São Josafat. Tudo isso e muito mais achará o leitor no primeiro volume de Origenes de la novela de Menéndez y Pelayo.

A lenda que em terras ocidentais determinou que o Buda fosse canonizado por Roma tinha, no entanto, um defeito: os encontros que postula são eficazes mas são também incríveis. Quatro saídas de Siddharta e quatro figuras didáticas não condizem com os hábitos do azar. Menos atentos ao estético do que à conversão das massas, os doutores quiseram justificar essa anomalia; Koeppen (Die Religion des Buddha, I, 82) anota que na última versão da lenda o leproso, o morto e o monge são simulacros que as divindades produzem para instruir Siddhartha. Assim, no terceiro livro da epopéia sânscrita Buddhacarita está dito que os deuses criaram um morto e que nenhum homem o viu enquanto era levado, a não ser o cocheiro e o príncipe. Numa biografia legendária do século XVI as quatro aparições são metamorfoses de um deus (Wieger: Vies chinoises du Bouddha, 37-41).

Mais longe havia ido o Lalitavistara. Dessa compilação de prosa e verso, escrita num sânscrito impuro, é costume falar com algum sarcasmo; em suas páginas a história do Redentor infla-se até a opressão e até a vertigem. O Buda, a quem rodeiam doze mil monges e trinta e dois mil Bodhisattvas, revela o texto da obra dos deuses; do quarto céu fixou o período, o continente, o reino e a casta em que renasceria para morrer pela última vez; oitenta mil tambores acompanham as palavras do seu discurso e há no corpo de sua mãe a força de dez mil elefantes. O Buda, neste estranho poema, dirige cada etapa de seu destino; faz com que as divindades projetem as quatro figuras simbólicas e, quando interroga o cocheiro, já sabe quem são e o que significam. Foucher vê neste rasgo um mero servilismo dos autores, que não podem tolerar que o Buda não saiba o que sabe um servente; o enigma merece, em meu entender, outra solução. O Buda cria as imagens e logo em seguida pergunta a um terceiro o sentido que encerram. Teologicamente caberia talvez contestar: o livro é da escola de Mahayana, que ensina que o Buda temporal é emanação ou reflexo de um Buda eterno; o do céu ordena as coisa, o da terra as padece e executa (nosso século, com outra mitologia ou vocabulário, fala do inconsciente). A humanidade do Filho, segunda pessoa de Deus, pôde gritar da cruz: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste: O Buda, analogamente, pôde espantar-se das formas que havia criado sua própria divindade… Para desatar o problema, não são indispensáveis, ademais, tais sutilezas dogmáticas, basta recordar que todas as religiões do Hindustão, e em particular o budismo, ensinam que o mundo é ilusório. Minuciosa relação do jogo (de um Buda) representa o Lalitavistara, segundo Winternitz; um jogo ou um sonho é, para o Mahayana, a vida do Buda sobre a terra, que é outro sonho. Siddhartha elege sua nação e seus pais. Siddhartha lavra quatro formas que o encherão de espanto; Siddhartha ordena que outra forma declare o sentido das primeiras; tudo isso é razoável se o consideramos um sonho de Siddhartha. Melhor ainda se o considerarmos um sonho em que figura Siddhartha (da mesma forma que figuram o leproso e o monge) e que ninguém sonha, porque aos olhos do budismo do norte3 o mundo e os prosélitos e o Nirvana e a roda das transmigrações e o Buda são igualmente irreais. Ninguém se apaga no Nirvana, lemos num tratado famoso, porque a extinção de inumeráveis seres no Nirvana é como o desaparecimento de uma fantasmagoria que um feiticeiro numa encruzilhada cria por artes mágicas, e em outro lugar está escrito que tudo é mera vacuidade, mero nome, e também o livro que o declara e o homem que o lê. Paradoxalmente, os excessos numéricos do poema subtraem, não acrescentam, realidade; doze mil monges e trinta e dois mil Bodhisattvas são menos concretos que um monge e que um Bodhisattva. As vastas formas e os vastos algarismos (o capítulo XII inclui uma série de vinte e três palavras que indicam a unidade seguida de um número crescente de zeros, de 9 a 49, 51 e 53) são vastas e monstruosas bolhas de sabão, ênfases do Nada. O irreal foi assim fraturando a história; primeiro tornou fantásticas as figuras, depois o príncipe e, com o príncipe, todas as gerações e o universo.

No final do século XIX Oscar Wilde propôs uma variante; o príncipe feliz morre na reclusão do palácio sem ter descoberto a dor, porém sua efígie póstuma a contempla do alto do pedestal.

A cronologia do Hindustão é incerta; minha erudição muito mais; Koeppen e Hermann Beckh serão talvez tão falíveis quanto o compilador que arrisca esta nota; não me surpreenderia se minha história da lenda fosse ela mesma legendária, feita de verdade substancial e erros acidentais.

Jorge Luis Borges, Otras Inquisiciones (1952)

NOTAS
  1. Este sonho é, para nós, uma mera fealdade. Não é assim para os hindus: o elefante, animal doméstico, é símbolo de mansidão; a multiplicação de dentes de marfim não tem como incomodar os espectadores de uma arte que, para sugerir que Deus é o todo, lavra figuras de múltiplos braços e rostos; o seis é número habitual (seis vias de transmigração; seis Budas anteriores ao Buda; seis pontos cardeais, contando o zênite e o nadir: seis divindades que o Yajurveda chama de as seis portas de Brahma). []
  2. Esta metáfora pode ter sugerido aos tibetanos a invenção das máquinas de rezar, rodas ou cilindros que giram ao redor de um eixo, cheias de tiras de papel enroladas nas quais se repetem palavras mágicas. Algumas são manuais; outras são como grandes moinhos, e move-as a água e o vento. []
  3. Rhys Davids condena essa locução cunhada por Burnouf, porém seu emprego nesta frase é menos incômodo que o de Grande Travessia ou Grande Veículo, que teriam detido o leitor. []
17 de Setembro de 2007

Você não acredita para onde vai

Heresias Sensacionais

É no entanto coisa inteiramente natural para os seres humanos crerem no purgatório, pois é conceito completamente lógico e justo – mesmo sem levar-se em conta que trata-se de doutrina católica transmitida a nós pelos apóstolos e que aparece também nas sagradas escrituras. Hoje em dia pode soar como revelação para muitos católicos que para ser católico é preciso acreditar-se na existência do purgatório, pois a existência do purgatório é dogma da Igreja, e para ser católico é preciso endossar todas as doutrinas que a Igreja estabelece como dogmáticas.

A verdade é a verdade, não importa o que alguém pensa ou acredita sobre o assunto. Que muitos não falem hoje em dia a respeito do purgatório não esvazia a sua realidade. O purgatório existe, porque a Igreja ensina que existe, e foi Cristo que o ensinou à Igreja.

As almas dos protestantes sofrem por mais tempo e com maior intensidade no purgatório.

Sabemos que os “reformadores” protestantes do século XVI rejeitaram a doutrina católica do purgatório, embora, como admite Calvino, tenha sido sempre uma crença comum. A venerável Anne Catherine Emmerich discorre com freqüência sobre o purgatório, e dentre as suas revelações uma das mais tristes é que as almas dos protestantes sofrem por mais tempo e com maior intensidade no purgatório, por contarem normalmente com poucos amigos e parentes para orarem por eles. Os “protestantes” que salvam suas almas mas não merecem o céu diretamente acabarão no purgatório como todo mundo. O fato de não crerem no purgatório não os absolve da necessidade de irem para lá. A verdade de Deus permanece a verdade, não importa o que nós como indivíduos possamos crer a respeito.

Thomas A. Nelson, na sua introdução ao Purgatório do padre F. X. Schouppe

Leia também:
Simplesmente uma nova vida

09 de Julho de 2007

A catástrofe do Fim do Mundo

Heresias Sensacionais

Então, se alguém vos disser:
“Eis que o Cristo está aqui”, ou “ali”, não lhe deis crédito.
Mateus 24:23

Quando não está falando e dando evidência da formidável proximidade do Reino de Deus, o Jesus dos evangelhos está apregoando o Fim do Mundo, inescapável catástrofe universal através da qual o Reino será finalmente instaurado e a glória finalmente alcançada - ou, para usar a expressão do próprio em Lucas 17:30, evento através da qual o Filho do Homem será revelado.

O Filho do Homem será revelado.

Porque se levantará nação contra nação, e reino, contra reino. Haverá terremotos em vários lugares e também fomes.
Um irmão entregará à morte outro irmão, e o pai, ao filho; filhos haverá que se levantarão contra os progenitores e os matarão. Sereis odiados de todos por causa do meu nome; aquele, porém, que perseverar até ao fim, esse será salvo.
Ai das que estiverem grávidas e das que amamentarem naqueles dias! Porque aqueles dias serão de tamanha tribulação como nunca houve desde o princípio do mundo que Deus criou, até agora e nunca jamais haverá.
Mas, naqueles dias, após a referida tribulação, o sol escurecerá, a lua não dará a sua claridade,
as estrelas cairão do firmamento, e os poderes dos céus serão abalados.
Então verão o Filho do Homem vir nas nuvens, com grande poder e glória.
Marcos 13:8, 12-13, 17, 19, 24-26

Essa escolha de palavras, retomada em seguida pelos apóstolos, parece sugerir que tanto o Reino quanto a glória do Filho do Homem já estão de alguma forma oculta entre nós (afinal de contas, “o Reino de Deus está próximo” refere-se no grego original mais ao espaço do que ao tempo). O Fim do Mundo seria a última reviravolta no roteiro do filme, o estertor inevitável que tornaria patente a esquiva verdade essencial que uns poucos intuem e apenas parte do tempo.

De longe a forma mais comum de se interpretar a imagem do Fim do Mundo é como um evento literal no mundo físico – série ordenada de cataclismas universais mais ou menos sincronizada com a volta prometida de Jesus num futuro iminente.

Trata-se, como se sabe, de um futuro que tem permanecido iminente por pelo menos 2000 anos. A história compila uma espetacularmente longa relação de predições furadas sobre a data do apocalipse – muitas das quais apenas o futuro será capaz de demonstrar que são falhas.

A maior parte dos cristãos contemporâneos ignora, obviamente, os detalhes embaraçosos dessa lista. Desconhecendo que a mesma obsessão e as mesmas certezas infectaram cristãos de todos os séculos, muitos escrevem, e um número ainda maior lê, obras que procuram localizar nas figuras e eventos contemporâneos os sinais dos tempos que marcam a proximidade inexorável do momento final. Desta vez - é a impressão da nossa geração, exatamente como a das que nos procederam, - desta vez não passa.

Há os que acreditam, no entanto, que para ser compreendida corretamente a doutrina do Fim do Mundo deva ser interpretada à luz da mensagem integral de Jesus sobre os mistérios do novo nascimento e da proximidade do Reino de Deus – e não como desajeitada interrupção dela.

Da forma como é entendido normalmente, o Fim do Mundo é evento espetacular mas essencialmente burocrático, que mantém intactas todas as garantias que amealhamos nesta vida. É um fim do mundo inofensivo, por assim dizer, pois apenas confirma os rótulos com que estamos familiarizados: não nos ameaça de fato e nada nos custa.

Não sendo capaz de enxergá-lo, vivemos no mundo como se o mundo não fosse o Reino.

Resta, porém, a atordoante possibilidade de que Jesus estivesse usando a linguagem das expectativas apocalípticas judaicas para referir-se de forma figurada a um evento de natureza muito mais pessoal do que universal, muito mais espiritual do que tangível. Sabemos ao certo, por exemplo, que o Reino de Deus anunciado incessantemente por Jesus não é para ser entendido literalmente, como reinado terreno ( “o meu Reino”, garantiu Jesus a Pilatos, “não é deste mundo”). E se o Fim do Mundo vaticinado por ele não fosse para ser entendido literalmente? E se o o Fim do Mundo a que Jesus se refere não for, no fim das contas, “deste mundo”? E se, para que possamos “ver o Filho do Homem vindo nas nuvens com grande poder e glória”, for necessário que nossa vida seja formidavelmente transtornada por uma impensável transmutação pessoal? E se tiver de ser o nosso sol interior a escurecer, e as estrelas do nosso céu a cair? E se o requerimento para vermos a glória do Reino for o reviramento e a aniquilação do nosso mundo?

Três citações para adoçar a possibilidade.

* * *

Um dos grandes temas do judaísmo e do cristianismo é o Fim do Mundo. Qual é o significado do Fim do Mundo? O sentido literal é que haverá uma terrível calamidade cósmica e o mundo físico terá fim. Esse, sabemos, é o sentido literal. Qual é o sentido figurado do Fim do Mundo? No capítulo 13 do evangelho de Marcos, Jesus descreve o Fim do Mundo como uma ocasião terrível, em que fogo e enxofre consomem a terra. “Melhor não estar vivo nessa ocasião”, ele diz, e diz também: “Essa geração não passará sem que essas coisas aconteçam”.

[. . .] Ora, no evangelho gnóstico de Tomé, Jesus diz: “O Reino do Pai está espalhado sobre a terra, e as pessoas não o enxergam”. Não sendo capaz de enxergá-lo, vivemos no mundo como se o mundo não fosse o Reino. Enxergar o Reino é o Fim do Mundo.

Joseph Campbell, Thou Art That

* * *

O ego está destinado a dissolver-se, e com ele todas as estruturas fossilizadas; quer sejam instituições religiosas, corporações ou governos, desintegrar-se-ão a partir de dentro, não importa o quão entrinecheiradas aparentem estar.

Ego não é nada mais do que isso: identificação com a forma. Se o mal tem alguma realidade, essa é a sua definição: completa identificação com a forma – formas físicas, formas de pensamento, formas emocionais. O resultado é uma total ignorância da minha conexão com o todo, da minha intrínseca unidade com cada “outro” bem com com a Fonte. Esse esquecimento é pecado original, sofrimento e engano. Quando essa ilusão de completa separação domina tudo que penso, digo e falo, o que acontece? Para saber a resposta observe como os seres humanos relacionam-se uns com os outros, leia um livro de História, assista o noticiário da noite.

Se as estruturas da mente humana permanecerem inalteradas, acabaremos sempre recriando fundamentalmente o mesmo mundo, os mesmos males, os mesmos defeitos.

Uma profecia da Bíblia [. . .] fala da aniquilação da presente ordem do mundo e do surgimento de “um novo céu e uma nova terra”. Devemos entender que o céu não é um local no espaço, mas refere-se ao domínio interior da consciência. A terra, por outro lado, é a manifestação externa da forma, que é sempre reflexo do que está no interior.

Portanto o novo céu, a consciência despertada, não é um estado futuro a ser alcançado. Um novo céu e uma nova terrra estão surgindo dentro de você agora mesmo. O que Jesus disse aos seus discípulos? “O céu está aqui mesmo entre vocês” (Lucas 17:21).

Eckhart Tolle, The New Earth

* * *

O Fim do Mundo não é um evento cataclísmico de cujo terror punitivo e final nos aproximamos cada vez mais. O Fim do Mundo acontece diariamente para aqueles cuja percepção espiritual permite que enxerguem o mundo como ele é, transparente para a transcendência: um sacramento de mistério, ou, como escreveu o poeta William Blake, “infinito”. O Fim do Mundo é, portanto, metáfora do nosso começo espiritual ao invés de imagem do nosso final implacável e ardente.

Eugene Kennedy, escrevendo sobre Joseph Campbell

14 de Novembro de 2006

Três versões de Judas

Heresias Sensacionais, Traduzindo Borges

There seemed a certainty in degradation.
T. E. Lawrence, Seven Pillars of Wisdom, CIII

Na Ásia Menor ou em Alexandria, no segundo século de nossa fé, quando Basílides publicava que o cosmos era uma temerária ou perversa improvisação de anjos deficientes, Niels Runeberg teria dirigido, com singular paixão intelectual, um dos conventículos gnósticos. Dante lhe teria destinado, talvez, um sepulcro de fogo; seu nome aumentaria os catálogos dos heresiarcas menores, entre Saturnilo e Carpócrates; algum fragmento de suas prédicas, exonerado de injúrias, perduraria no apócrifo Liber adversus omnes haereses ou teria perecido quando o incêndio de uma biblioteca monástica devorou o último exemplar do Syntagma. Em troca, Deus lhe concedeu o século vinte e a cidade universitária de Lund. Aí, em 1904, publicou a primeira edição de Kristus och Judas; aí, em 1909, seu livro capital Den hemlige Frälsaren. (Deste último tenho a tradução alemã, executada em 1912 por Emili Schering; chama-se Der heimliche Heiland.)

Antes de ensaiar um exame dos mencionados trabalhos cabe repetir que Nils Runeberg, membro da União Evangélica Nacional, era profundamente religioso. Num grêmio de Paris ou de Buenos Aires um literato poderia muito bem redescobrir as teses de Runeberg; essas teses, propostas num grêmio, seriam exercícios ligeiros de negligência ou de blasfêmia. Para Runeberg, foram a chave que decifra um mistério central da teologia; foram matéria de meditação e análise, de controvérsia histórica e filológica, de soberba, de júbilo e terror. Justificaram e arruinaram sua vida. Quem recorrer a este artigo deve também considerar que ele registra tão-somente as conclusões de Runeberg, não sua dialética e suas provas. Alguém possivelmente observará que a conclusão precedeu sem dúvida as “provas”. Quem se resigna a buscar provas de algo em que não crê ou cuja prédica não lhe importa?

Não uma coisa, todas as coisas que a tradição atribui a Judas Iscariotes são falsas.

A primeira edição de Kristus och Judas leva esta catégorica epígrafe, cujo sentido, anos depois, dilataria monstruosamente o próprio Nils Runeberg: Não uma coisa, todas as coisas que a tradição atribui a Judas Iscariotes são falsas (De Quincey, 1857). Precedido por algum alemão, De Quincey especulou que Judas entregou a Jesus Cristo a fim de forçá-lo a declarar a sua divindade e acender uma vasta rebelião contra o jugo de Roma; Runeberg sugere uma justificação de índole metafísica. Habilmente, começa por destacar a superfluidade do ato de Judas. Observa (como Robertson) que para identificar um professor que pregava diariamente na sinagoga e que operava milagres diante de concursos de milhares de homens não se requer a traição de um apóstolo. Isso, no entanto, ocorreu. Supor um erro na Escritura é intolerável; não menos intolerável é admitir um acontecimento casual no mais precioso acontecimento da história do mundo. Portanto a traição de Judas não foi casual: foi um ato prefixado que tem seu lugar misterioso na economia da redenção. Prossegue Runeberg: o Verbo, quando foi feito carne, passou da ubiqüidade ao espaço, da eternidade à história, da bem-aventurança sem limites à mutação e à carne; para corresponder a tal sacrifício era necessário que um homem, representando todos os homens, fizesse um sacrifício condigno. Judas Iscariotes foi esse homem. Judas, único entre os apóstolos, intuiu a secreta divindade e o terrível propósito de Jesus. O verbo havia se rebaixado a mortal; Judas, discípulo do Verbo, podia rebaixar-se a delator (o pior delito que a infâmia suporta) e ser hóspede do fogo que não se apaga. A ordem inferior é um espelho da ordem superior; as formas da terra correspondem às formas do céu; as manchas da pele são um mapa das incorruptíveis constelações; Judas refletiu de algum modo a Jesus. Daí os trinta dinheiros e o beijo; daí a morte voluntária, para merecer ainda mais a reprovação. Assim elucidou Nils Runeberg o enigma de Judas.

Os teólogos de todas as confissões o refutaram. Lars Peter Engström acusou-o de ignorar, ou de preterir, a união hipostática; Axel Borelius, de renovar a heresia dos docetas, que negaram a humanidade de Jesus; o contundente bispo de Lund, de contradizer o terceiro versículo do capítulo 22 do evangelho de Lucas.

Esses variados anátemas influenciaram Runeberg, que parcialmente reescreveu o livro reprovado e modificou sua doutrina. Abandonou a seus adversários o terreno teológico e propôs oblíquas razões de ordem moral. Admitiu que Jesus, “que dispunha dos consideráveis recursos que a onipotência pode oferecer”, não necessitava de um homem para redimir a todos os homens. Rebateu, em seguida, os que afirmam que nada sabemos do inexplicável traidor; sabemos, disse, que foi um dos apóstolos, um dos eleitos para anunciar o reino dos céus, para curar os enfermos, para limpar os leprosos, para ressuscitar os mortos e para expulsar demônios (Mateus 10:78; Lucas 9:1). Um homem a quem o Redentor concedeu tal distinção merece de nós melhor interpretação de seus atos. Imputar seu crime à cobiça (como tem feito alguns, alegando João 12:6) é resignar-se ao motivo mais torpe. Nils Runeberg propõe o motivo contrário: um hiperbólico e até ilimitado ascetismo. O asceta, para maior glória de Deus, envilece e mortifica a carne; Judas fez o mesmo com o espírito. Renunciou à honra, ao bem, à paz, ao reino dos céus, como outros, menos heroicamente, ao prazer1. Premeditou com lucidez terrível suas culpas. Do adultério costumam participar a ternura e a abnegação; do homicídio, a coragem; das profanações e da blasfêmia, certo fulgor satânico. Judas elegeu aquelas culpas que não são visitadas por nenhuma virtude: o abuso de confiança (João 12:6) e a delação. Trabalhou com gigantesca humildade, creu-se indigno de ser bom. Paulo escreveu: Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor (1 Coríntios 1:31); Judas buscou o inferno, porque a felicidade do Senhor lhe bastava. Pensou que a felicidade, como o bem, é um atributo divino que não devem usurpar os homens2.

Ele estava no mundo e o mundo foi feito por intermédio dele, mas o mundo não o conheceu.

Muitos tem descoberto, post factum, que nos justificáveis começos de Runeberg está seu extravagante fim, e que Den hemlige Frälsaren é uma mera perversão ou exasperação de Kristus och Judas. Ao fim de 1907 Runeberg terminou e revisou o texto manuscrito; quase dois anos transcorreram sem que o entregasse à prensa. Em outubro de 1909 o livro apareceu com um prólogo (tíbio ao ponto do enigmático) do hebraísta dinamarquês Erik Erfjord e com esta pérfida epígrafe: Ele estava no mundo e o mundo foi feito por intermédio dele, mas o mundo não o conheceu (João 1:10). O argumento geral não é complexo, embora a conclusão seja monstruosa. Deus, argumenta Nils Runeberg, rebaixou-se a ser homem tendo em vista a redenção do gênero humano; cabe conjecturar que foi perfeito o sacrifício realizado por ele, não invalidado ou atenuado por omissões. Limitar o que padeceu a uma tarde na cruz é blasfematório3. Afirmar que foi homem e incapaz de pecado encerra contradição; os atributos de impeccabilitas e de humanitas não são compatíveis. Kemnitz admite que o Redentor podia sentir fadiga, frio, perturbação, fome e sede; também cabe admitir que poderia pecar e perder-se. O famoso texto Brotará como raiz de terra sedenta; não tinha boa aparência nem formosura; desprezado e o mais rejeitado entre os homens; homem de dores e que sabe o que é padecer (Isaías 53:2.3) é para muitos a previsão do crucificado na hora da morte; para alguns (por exemplo, Hans Lassen Martensen), uma refutação da formosura que o consenso popular atribui a Cristo; para Runeberg, é a profecia pontual não a respeito de um momento mas de todo o atroz futuro, no tempo e na eternidade, do Verbo feito carne. Deus se fez totalmente homem até a infâmia, homem até a reprovação e o abismo. Para salvar-nos, poderia ter eleito qualquer dos destinos que tramam a perplexa rede da história; poderia ter sido Alexandre ou Pitágoras ou Rurik ou Jesus; escolheu um ínfimo destino: foi Judas.

Em vão propuseram essa revelação as livrarias de Estocolmo e de Lund. Os incrédulos a consideraram, a priori, um insípido e laborioso jogo teológico; os teólogos a desdenharam. Runeberg intuiu nessa indiferença ecumênica uma quase milagrosa confirmação. Deus ordenava essa indiferença; Deus não queria que se propagasse na terra seu terrível segredo. Runeberg compreendeu que não era chegada a hora. Sentiu que estavam convergindo sobre ele antigas maldições divinas; recordou Elias e Moisés, que na montanha esconderam o rosto para não ver a Deus; Isaías, que aterrorizou-se quando seus olhos viram aquele cuja glória enche a terra; Saulo, cujos olhos quedaram cegos na estrada de Damasco; o rabino Simeon ben Azai, que viu o Paraíso e morreu; o famoso feiticeiro João de Viterbo, que enlouqueceu quando pôde ver a trindade; os midrashim, que abominam os ímpios que pronunciam o Shem Hamephorash, o nome secreto de Deus. Não seria ele acaso culpado desse crime obscuro? Não seria essa a blasfêmia contra o Espírito, que não será perdoada (Mateus 12:31)? Valério Sorano morreu por ter divulgado o nome oculto de Roma; que infinito castigo seria o seu, por ter descoberto e divulgado o terrível nome de Deus?

Ébrio de insônia e de vertiginosa dialética, Nils Runeberg morreu pelas ruas de Malmö, rogando em altos brados que lhe fosse concedida a graça de compartilhar com o Redentor do inferno.

Morreu do rompimento de um aneurisma a primeiro de março de 1912. Os heresiólogos haverão talvez de recordá-lo; agregou ao conceito do Filho, que parecia esgotado, as complexidades do mal e do infortúnio.

Jorge Luis Borges, 1944

1 Borelius interroga com desdém: Por que não renunciou a renunciar? Por que não renunciar a renunciar?

2 Euclides da Cunha, num livro ignorado por Runeberg, anota que para o heresiarca de Canudos, Antônio Conselheiro, a virtude “era quase uma impiedade”. O leitor argentino recordará passagens análogas na obra de Almafuerte. Runeberg publicou, no panfleto simbolista Sju insegel, um assíduo poema descritivo, A água secreta; as primeiras estrófes narram os acontecimentos de um dia tumultuoso; as últimas, a descoberta de um lago glacial; o poeta sugere que a perduração dessa água silenciosa corrige nossa inútil violência e de algum modo a permite e a absolve. O poema conclui assim: A água da selva é feliz; podemos ser malvados e dolorosos.

3 Maurice Abramowicz observa: “Jésus, d’aprés ce scandinave, a toujours le beau rôle; ses déboires, grâce à la science des typographes, jouissent d’une réputabon polyglotte; sa résidence de trente­trois ans parmi les humains ne fut en somme, qu’une villégiature”. Erfjord, no terceiro apêndice da Christelige Dogmatik refuta essa passagem. Anota que a crucificação de Deus não cessou, porque o que aconteceu uma só vez no tempo se repete sem trégua na eternidade. Judas, agora, segue cobrando as moedas de prata; segue beijando a Jesus Cristo; segue arremessando as moedas de prata no templo, segue preparando o laço da corda no campo de sangue (Erfjord, para justificar essa afirmação, invoca o último capítulo do primeiro tomo da Vindicação da eternidade de Jaromir Hladík).