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	<title>A Bacia das Almas &#187; Fé e Crença</title>
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	<description>Onde as ideias não descansam</description>
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		<title>Deus, unplugged</title>
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		<pubDate>Fri, 21 Oct 2011 09:39:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fé e Crença]]></category>
		<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>
		<category><![CDATA[bonhoeffer]]></category>

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		<description><![CDATA[Perto do final da vida o teólogo e ativista Dietrich Bonhoeffer começou a preocupar-se com o fato de que a compreensão cristã de Deus havia sido em grande parte reduzida ao status de uma muleta psicológica. Ele descreveu essa compreensão como um &#8220;Deus ex machina&#8221;. A expressão, que significa &#8220;deus proveniente de uma máquina&#8221;, refere-se [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Perto do final da vida o teólogo e ativista Dietrich Bonhoeffer começou a preocupar-se com o fato de que a compreensão cristã de Deus havia sido em grande parte reduzida ao status de uma muleta psicológica. Ele descreveu essa compreensão como um &#8220;Deus ex machina&#8221;.</p>
<p>A expressão, que significa &#8220;deus proveniente de uma máquina&#8221;, refere-se originalmente a uma técnica usada na Grécia antiga, pela qual uma pessoa era descida ao palco através de um mecanismo, a fim de representar a entrada em cena de um ser sobrenatural. O processo, no entanto, ganhou uma má reputação quando muitos dramaturgos de segunda categoria começaram a usar esse artifício de modo indolente e arbitrário. Quando queriam matar um personagem, criar um novo desafio para o protagonista ou resolver um conflito do enredo, essas caras simplesmente arriavam um deus história adentro. Desse modo, o ser sobrenatural não era parte orgânica da história, mas uma presença intrusiva empregada unicamente para fazer o enredo avançar ou resolver alguma questão.</p>
<p>A expressão <em>deus ex machina</em> passou a significar a introdução de um elemento que não faz parte da lógica interna do desdobramento de uma história, mas que é na verdade um artifício deselegante despejado na narrativa só para desempenhar um papel específico.</p>
<p>Para Bonhoeffer, a igreja encara Deus como um <em>deus ex machina</em>. Deus é só uma ideia toscamente despejada no nosso mundo a fim de cumprir uma tarefa. Ele é inserido no mundo em nossos próprios termos a fim de resolver um problema, em vez de expressar uma realidade vivida. O resultado disso é um Deus que simplesmente justifica nossas crenças e nos ajuda a dormir tranquilos. Deus é trazido em cena apenas quando enfrentamos um problema que não se presta a ser resolvido por outros meios. Na visão de Bonhoeffer, esse Deus desempenha o mesmo papel medíocre dos seres sobrenaturais nas peças gregas de terceira categoria.</p>
<p>O resultado é uma fé que só existe nas margens da nossa vida, uma fé que só tem algo a oferecer quando nos sentimos deprimidos, assustados ou diante da morte. Mas e aquela pessoa que gosta de viver e abraça a vida? O Deus que é uma muleta psicológica não parece ter-lhe algo a oferecer. A única opção que resta ao apologista que é confrontado com alguém que de fato aprecia a vida é tentar demonstrar que essa pessoa se recusa a enfrentar a realidade e está na verdade clamando por Deus pela via de sua negação. Se não conseguir convencer essa pessoa feliz de que ela é na realidade infeliz, fica sem outra opção não rejeitá-la como alguém aferrado à rebelião, ao engano e à desobediência.</p>
<p>Embora Bonhoeffer acreditasse que o Deus da religião já havia chegado ao fim de sua carreira no nosso mundo, a realidade parece discordar. Algumas das maiores organizações do mundo são religiosas, e parece não haver um fim para a fila de gente disposta e encher os pratos de coleta daqueles que afirmam ter a solução. Há todo um exército de indivíduos que apoia entusiasticamente os seus ministérios, compra os seus livros e senta-se nos seus bancos. Levar as pessoas a crer em alguma forma de <em>deus ex machina</em> é fácil como levar crianças a acreditar em Papai Noel.</p>
<p>Em contraste, convidar gente a abrir-se para experimentar a dúvida e o desconhecido é muito mais complicado: o Deus da religião nos provê com tamanha estabilidade que a experiência de perdê-lo envolve nada menos do que a aterrorizante experiência de ser abandonado. Tal jornada escuridão adentro pode ser tão pouco natural e tão assustadora que evitamos a todo custo esse caminho estreito, usando até mesmo de violência contra quem nos encoraja a fazê-lo.</p>
<p>Aquele que se compromete com a tarefa de ajudar gente a realmente adentrar o domínio da dúvida, do desconhecido e da ambiguidade precisa ser dez, vinte ou cem vezes melhor do que os que vendem certeza. Se quer convidar pessoas a entrar nesse mundo sombrio e incerto, tem de estar preparado para caminhar ele mesmo por um caminho difícil e por vezes perigoso, pois no processo acaba trazendo à superfície toda uma multidão de ansiedades que gastamos muito tempo e muitos recursos reprimindo. </p>
<p>É compreensível que determinados pastores encham estádios com gente que anseia por solidificar desejos já estabelecidos, reconvertendo gente à aquilo a que já se converteram tantas vezes antes. Levar as pessoas a acreditar é fácil precisamente porque é tão natural em nós. Qualquer pessoa persuasiva pode fazê-lo, e ainda ganhar algum dinheiro no processo. Mas para de fato puxar da tomada o Deus da religião, com toda a ansiedade e angústia que o processo envolve, requer-se coragem.</p>
<p>Pode-se na verdade dizer que requer-se Deus.</p>
<p align="right"><small><strong>Peter Rollins</strong>, em sua <em>Insurreição</em></small></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug013.gif"></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2005/fe-e-crenca/">Fé e crença</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2007/em-nome-de-jesus/">Em nome de Jesus</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/uma-beleza-que-revolta/">Uma beleza que revolta</a></p>
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		<title>Eva arrependida e de luto</title>
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		<pubDate>Fri, 30 Sep 2011 09:43:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Divino preconceito]]></category>
		<category><![CDATA[Homens e Mulheres]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[sexo]]></category>

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		<description><![CDATA[Se houvesse sobre a terra uma fé tão grande quanto é a recompensa de fé aguardada no céu, nenhuma de vocês, amadas irmãs, desde o momento em que conheceram o Senhor e aprenderam [a verdade] sobre sua própria condição [isto é, a condição feminina], teria desejo por um estilo de vestimenta vistoso demais (para não [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Se houvesse sobre a terra uma fé tão grande quanto é a recompensa de fé aguardada no céu, nenhuma de vocês, amadas irmãs, desde o momento em que conheceram o Senhor e aprenderam [a verdade] sobre sua própria condição [isto é, a condição feminina], teria desejo por um estilo de vestimenta vistoso demais (para não dizer vaidoso demais).</p>
<p>Usariam, ao contrário, vestes humildes, de modo a transmitir uma aparência miserável, andando pelo mundo como Eva arrependida e de luto, a fim de através de toda veste de penitência expiar de modo mais completo aquilo que [cada uma de vocês] deriva de Eva:<span style="float:right; text-align:right; width:35%; color:#7c836d; margin:12px 0 12px 12px; font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps; font-size:1.4em; line-height: 1.3em">Você persuadiu aquele que o diabo não foi corajoso o bastante para atacar.</span> a vergonha, quero dizer, do primeiro pecado, e a infâmia da perdição humana.</p>
<p>&#8220;Multiplicarei grandemente a dor da tua concepção e em dor darás à luz filhos; o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará.&#8221;</p>
<p>E vocês não sabem que são, cada uma de vocês, uma Eva? A sentença de Deus sobre o sexo de vocês persiste nesta era; necessariamente, a culpa persiste também. </p>
<p>Você, mulher, é o portão de entrada do inferno; é a descerradora da árvore [proibida]; é a primeira desertora da lei divina. Você persuadiu aquele que o diabo não foi corajoso o bastante para atacar. Você destruiu, e de modo tão frívolo, a imagem de Deus, que é o homem. Como consequência da sua deserção &#8211; isto é, a morte, &#8211; até mesmo o Filho de Deus teve de morrer.</p>
<p>E você pensa ainda em adornar-se acima e além de sua túnica de pele? Ora, imagino que se no princípio do mundo os milesianos já criassem ovelhas, os serianos já fiassem árvores, os tirianos já tingissem, os frígios já bordassem com a agulha e os babilônios com o tear; se pérolas já cintilassem, se pedras de ônix já reluzissem e se o ouro já tivesse brotado do solo; se o espelho já tivesse se tornado coisa tão comum, então Eva, mesmo depois de expulsa do paraíso, mesmo depois de morta, teria também cobiçado todas essas coisas.</p>
<p>Não mais, portanto, a mulher deve agora desejar ou conhecer, se é que deseja voltar a viver, aquilo que quando viva não possuía nem conhecia. Todas essas coisas são a bagagem da mulher em seu estado de condenação e morte, instituídas como que para acentuar a pompa de seu funeral.</p>
<p align="right"><small><strong>Tertuliano</strong> (160-220 d.C.), pai da igreja,<br />
em <a href="http://www.tertullian.org/anf/anf04/anf04-06.htm">Sobre a indumentária feminina</a></small></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug015.gif"></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2004/1926-appoio-moral/">Appoio moral</a> (Tertuliano estava vivo e com saúde em 1926 &#8211; e em Pernambuco)<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/sexo-entre-pares-o-homem-romantico-e-a-era-das-relacoes-igualitarias/">Sexo entre pares</a></p>
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		<title>Wrong turn</title>
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		<pubDate>Tue, 27 Sep 2011 11:02:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Divino preconceito]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[vídeos]]></category>

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<p align="center"><iframe width="560" height="315" src="http://www.youtube-nocookie.com/embed/RS3iB47nQ6E?rel=0" frameborder="0" allowfullscreen></iframe></iframe></p>
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		<title>O mais difícil</title>
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		<pubDate>Wed, 24 Aug 2011 09:22:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Divino preconceito]]></category>
		<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>
		<category><![CDATA[tolstoi]]></category>

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		<description><![CDATA[O mais difícil dos conceitos pode ser explicado ao mais limitado dos homens se ele já não tiver uma ideia formada a respeito dele; porém a coisa mais simples não pode ser esclarecida ao mais inteligente dos homens se ele estiver persuadido de que já conhece, sem sombra de dúvida, o que está sendo colocado [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O mais difícil dos conceitos pode ser explicado ao mais limitado dos homens se ele já não tiver uma ideia formada a respeito dele; porém a coisa mais simples não pode ser esclarecida ao mais inteligente dos homens se ele estiver persuadido de que já conhece, sem sombra de dúvida, o que está sendo colocado diante dele.</p>
<p align="right"><small><strong>Leon Tolstoi</strong>, em <em>The Kingdom of God is Within You (1894)</em><br />
<a href="http://boingboing.net/2011/08/23/tolstoy-on-difficulty-1897.html">via</a>, <a href="http://memex.naughtons.org/archives/2011/08/23/14264">via</a></small></p>
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		<title>Protestantes no purgatório e católicos no inferno</title>
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		<pubDate>Sun, 24 Jul 2011 20:57:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Divino preconceito]]></category>
		<category><![CDATA[catolicismo]]></category>
		<category><![CDATA[purgatório]]></category>

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		<description><![CDATA[Comparecem como menos que coadjuvantes, no livro que estou escrevendo sobre a relação entre protestantes e a igreja católica, algumas das crenças e práticas que desde a infância tenho invejado no catolicismo. De meu posto de observação na árida e antisséptica sala de espera que é a liturgia protestante, passei a vida admirando catedrais e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Comparecem como menos que coadjuvantes, no livro que estou escrevendo sobre a relação entre protestantes e a igreja católica, algumas das crenças e práticas que desde a infância tenho invejado no catolicismo. De meu posto de observação na árida e antisséptica sala de espera que é a liturgia protestante, passei a vida admirando catedrais e cobiçando secretamente determinadas doutrinas católicas que me pareceram desde sempre igualmente terríveis, incompreensíveis e atraentes.</p>
<p>Há, por exemplo, o purgatório, a condição intermediária de purificação a que são submetidos os que foram poupados do inferno mas não se mostraram merecedores de uma transferência sem escalas para o céu. </p>
<p>Como venho aprendendo com <em>O nascimento do purgatório</em> de Jacques Le Goff, a noção de purgatório, por mais alienígena e arbitrária que pareça aos que habitam este lado da represa da Reforma, nasceu menos de uma forçação de barra teológica do que como produto e extensão da ênfase católica na ideia de comunidade &#8211; a Igreja como a inabalável, ininterrupta e indestrinçável comunhão dos santos.</p>
<p>O purgatório é em parte o resultado da arrojada crença de que nem mesmo a morte pode separar os salvos e interromper a comunhão dos santos. Como o Redentor enxertou a vida eterna no coração do mundo e anulou para sempre o poder da morte, a separação entre vivos e mortos é mera ilusão: faz todo sentido que os vivos continuem a interceder em favor dos mortos<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/protestantes-no-purgatorio-e-catolicos-no-inferno/#footnote_0_2583" id="identifier_0_2583" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="Thomas A. Nelson, na sua introdu&ccedil;&atilde;o ao Purgat&oacute;rio do padre F. X. Schouppe.">1</a></sup>:</p>
<blockquote><p>Nossos votos e ofertas pelos mortos são mais agradáveis a Deus do que nossas orações e boas obras pelos vivos, pois as pobres almas do Purgatório estão mais perto de Deus, carecem de auxílio mais premente e são incapazes de ajudar a si mesmas.</p></blockquote>
<p>Não custa lembrar que santa Anne Catherine Emmerich (1774-1824), <a href="http://www.baciadasalmas.com/2007/voce-nao-acredita-para-onde-vai/">informada por suas visões</a>, explica-nos que &#8220;as almas dos protestantes sofrem por mais tempo e com maior intensidade no purgatório, por contarem normalmente com poucos amigos e parentes para orarem por eles&#8221;<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/protestantes-no-purgatorio-e-catolicos-no-inferno/#footnote_1_2583" id="identifier_1_2583" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="Nelson, op. cit.">2</a></sup>. </p>
<p>Ao contrário do que possa parecer, há nessa visão do sofrimento dos protestantes no purgatório mais gentileza e graça do que verdadeiros desprezo e rejeição. Menos clementes e mais dogmáticos, os protestantes ao longo dos séculos têm preferido ser visitados por visões de católicos no inferno.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug033.gif"></p>
<b><small>NOTAS</small></b><ol class="footnotes"><li id="footnote_0_2583" class="footnote">Thomas A. Nelson, na sua introdução ao <em>Purgatório</em> do padre F. X. Schouppe.</li><li id="footnote_1_2583" class="footnote">Nelson, op. cit.</li></ol>]]></content:encoded>
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		<title>O homem entre as marés</title>
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		<pubDate>Tue, 24 May 2011 10:15:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Divino preconceito]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[jesus]]></category>
		<category><![CDATA[sexo]]></category>

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		<description><![CDATA[Todo discurso tem algum potencial para gerar a polarização, mas reservamos para alguns uma potência tanto particular quanto arbitrária. Assuntos que despertam opiniões ao mesmo tempo inflamadas e opostas são em geral os assuntos que convém evitar. Em nome da paz ou da covardia, é simplesmente mais fácil não falar sobre eles, sob o risco [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Todo discurso tem algum potencial para gerar a polarização, mas reservamos para alguns uma potência tanto particular quanto arbitrária. Assuntos que despertam opiniões ao mesmo tempo inflamadas e opostas são em geral os assuntos que convém evitar. Em nome da paz ou da covardia, é simplesmente mais fácil <a href="http://www.baciadasalmas.com/2005/problema-seu/">não falar sobre eles</a>, sob o risco de acender a indignação de gente que habita com muita convicção cada um dos polos que se condenam.</p>
<p>Porém também é verdade que não elegemos os discursos polarizadores ao acaso; os assuntos que elegemos como polêmicos revelam muito mais sobre nós do que gostaríamos. Se você acha de fato importante saber e discutir em que ponto de um ser humano adulto outro ser humano adulto escolhe colocar o seu órgão sexual, na intimidade de seu quarto e em seu tempo livre; se é a esse tipo de investigação criativa que você está ponderando dedicar uma parte substancial do seu tempo, esse é problema sexual seu. Como uma vez aprenderam homens respeitáveis ao redor de uma mulher adúltera, o comportamento verdadeiramente inquietante é o que faz da sexualidade do outro uma bandeira e um problema para si mesmo. É aqui que jaz a verdadeira perversão.</p>
<p>Porém o problema com os discursos polarizadores é que aparentemente não há como apaziguar a tensão que produzem. Se você deixa de se pronunciar a respeito, nada de fato muda e a tensão permanece; se você escolhe se pronunciar, tudo que consegue fazer é atiçar a fogueira, demarcando e acentuando a distância entre os grupos antagonistas.</p>
<p>Eu mesmo tenho opiniões muito severas a respeito desse e de outros assuntos, e já achei que a mera exposição de minha iluminada opinião poderia contribuir para mais do que meramente acentuar o problema. Outros já pensaram como eu. Porém, como descobriu Pedro diante de um auditório de incircuncisos, nossas convicções podem muito bem ser redimidas &#8211; isto é, revistas &#8211; pelas nossas histórias.</p>
<p>O propósito desta nota é contar o que sei a respeito de um homem, Andrew Marin, e que sei porque já o vi contando essa história muitas vezes.</p>
<p>Andrew (americano, sorridente, atarracado, popular, desportista amador) foi até seus anos de ensino médio um cristão convicto e um homófobo militante, daqueles que se rebaixam sem hesitação à intimidação física e verbal. Não deve haver dúvida, do mesmo modo, de que Marin entendia essas duas vocações (seu cristianismo ardente e seu desprezo ativo pelos homossexuais) como manifestações de uma mesma paixão pela verdade.</p>
<p>Sua vida teria sido mais simples se na época de colégio seus três melhores amigos de infância (duas garotas e um rapaz) não tivessem confiado nele o bastante para fazerem, um a um e sem saberem um do outro, a mesma confissão: <em>Andrew, posso te contar uma coisa? Por favor, não conte pra ninguém, mas eu sou gay.</em></p>
<p>Foi assim que, num intervalo de três meses, Andrew Marin encontrou-se pela primeira vez com seus três únicos amigos e, como bom cristão, cortou todo laço com eles. Perdeu-os porque eram homossexuais.</p>
<p>Marin mergulhou num estado de profunda e sinfônica perplexidade. Seu mundo havia sido miseravelmente subtraído debaixo de seus pés, e ele passou a requerer do seu Deus e da sua Bíblia uma explicação e uma solução. Ele queria de volta o mundo das suas seguranças anteriores, e exigia que Deus lhe revelasse uma razão, uma secreta justificativa para a tristeza que estava sentindo.</p>
<p>Deus não lhe deu uma resposta, mas o homem creu ouvir na escuridão:</p>
<p>&#8211; Andrew, o que você deve se perguntar é como devem ter se sentido os seus amigos, crescendo com você durante todos esses anos: os amigos que, sabendo que você se mostrava em tudo abertamente contrário ao que eles são e ao que representam, escolheram permanecer seus amigos.</p>
<p>Desta caverna emergiu um homem absolutamente notável. Marin decidiu que sua vida deveria servir de ponte entre dois discursos altamente incompatíveis, o dos conservadores evangélicos norte-americanos e o da exuberante comunidade homossexual de seu país. Ele refez o trajeto, pediu perdão a seus amigos e <em>mudou-se</em> para o bairro gay da sua cidade, Chicago, onde reside com a esposa há mais de dez anos. Ali Marin vive, permanece disponível e promove reuniões não-ortodoxas em lugares absolutamente não-ortodoxos, ao mesmo tempo em que organiza os movimentos de uma pequena mas ambiciosa fundação. </p>
<p>Tendo em vista a perene discussão a respeito de até que ponto a orientação homossexual é uma escolha ou um destino, Marin achou melhor subverter os raciocínios subjacentes e adotou como lema a frase <em>O amor é uma orientação</em>, que é também o título de seu livro. Para Andrew Marin, iluminado pelo que vê no sol dos evangelhos, o amor é que é, sem espaço para discussão e em todos os sentidos, uma inescapável orientação. Neste clima e neste momento da história isso implica que os cristãos devem amar formidavelmente e exuberantemente os homossexuais.</p>
<p>Mas na boca de Marin isto não se limita ao batido discurso de odiar o pecado e amar o pecador. Para começar, quando perguntado, Marin recusa-se a dar respostas simplistas e polarizadoras para as perguntas mais quentes que cercam a questão. Ele explica que aprendeu com Jesus a não dar respostas simples para questões complexas, e essa sua postura (precisamente como no tempo de Jesus) desperta por vezes a indignação de gente dos dois lados do muro.</p>
<p>Para muitos conservadores evangélicos, Marin é uma abominação e seu ministério é uma farsa porque, apesar de se apresentar como conservador, ele se recusa a admitir com todas as letras e enfatizar o que eles enxergam como essencial: que a conduta homossexual é incontornavelmente pecaminosa e que não há conjuntura em que ela possa ser considerada aceitável diante de Deus e dos homens. Semelhantemente, para muitos na comunidade homossexual Marin é uma falso amigo e um propagandista infiltrado, porque apesar desse papo de amor ele se recusa a admitir com todas as letras o que eles enxergam como essencial: que a conduta homossexual entre adultos é coisa legítima, íntegra e sã, que merece a celebração dos homens e as bençãos da igreja tanto quanto qualquer relação heterossexual.</p>
<p>Andrew Marin é esse homem que deixa-se queimar entre os extremos, lutando centímetro por centímetro para promover o diálogo sem contribuir para acentuar uma distância que como está já é paralisante. Marin tornou-se um gigante porque teve de fato um bom professor, e aprendeu com o Jesus dos evangelhos que um discurso polarizador não deve ser jamais alimentado. Todo discurso aplicado ao extremo (e os discursos <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/a-fissura-do-mundo-politica-polarizacao-e-paralisia">tendem aos extremos</a>) gera esterilidade, hostilidade e desumanização. A ferida dos ódios resultantes só pode ser estancada pelo remédio do amor &#8211; o amor que é uma orientação: ao mesmo tempo uma escolha e um destino.</p>
<p>E é de Marin a definição mais fulgurante de amor que jamais ouvi: <em>amor</em>, explica ele, <em>é a expressão mensurável de comportamentos não-condicionados</em>. Permita-me repetir: amar é prover expressões mensuráveis de comportamento não-condicionado. Proponho que façamos todos nós uma tatuagem muito visível e incômoda com essa frase; só depois de recitá-la solenemente para nós mesmos ganharíamos o direito de atirar a primeira pedra.</p>
<p>De que forma Andrew Marin dá evidência desse amor não-condicionado? Ele vive há uma década entre gente que não compreende e não tem ferramentas para compreender. Ele os defende diante de gente que os considera indefensáveis, e recebe a condenação dos que está defendendo porque acham que ele não está indo longe o bastante. Cada um a seu modo, os dois lados acham insuficiente a proposta de amor de Marin. Mas o maluco, o insensato, continua amando.</p>
<p>Nos Estados Unidos, cristãos que frequentam as passeatas gay costumam fazê-lo para levar cartazes que dizem coisas edificantes tipo DEUS ODEIA BICHAS ou VÃO ARDER NO INFERNO. Andrew Marin e seus amigos vão a essas passeatas com cartazes que dizem apenas I&#8217;M SORRY &#8211; e pedem a quem quiser ouvir desculpas por todo o ódio que já foi derramado sobre os homossexuais no nome daquele que nada tem a ver com o ódio.</p>
<p>Por trás dessa sua singeleza, dessa impertinência de Marin em amar o inimigo tido como o mais desprezível, espreita uma subversão ainda maior: a ousadia de sugerir que um cristão não deve ser capaz de extrair sua identidade de algo que não seja o amor. Para esse pequeno americano, não somos cristãos quando confessamos, quando escolhemos o mesmo adversário ou quando concordamos a respeito de alguma doutrina; somos cristãos enquanto afirmamos teimosamente, sempre em atos mais do que palavras, a supremacia do amor.</p>
<p>É claro que ninguém dá ouvidos ao cara, porque seu ministério é pequeno e sua proposta insensata. Se amar for de fato prover expressões mensuráveis de comportamentos não-condicionados, quem se mostrará pronto a amar? Porque, se for assim, amar não seria você <em>aprovar </em>a conduta de dois caras sentados de mãos dadas no banco da sua igreja, mas seria você respirar fundo e não condená-los por eles estarem ali. Amar não seria você <em>concordar </em>com as posturas do Ricardo Gondim a respeito de qualquer assunto, mas seria concluir que o seu compromisso mútuo com o amor basta para vocês continuarem juntos debaixo de um mesmo teto editorial. Essas seriam expressões genuínas de comportamento não-condicionado. Porque quando não estamos defendendo o amor estamos defendendo meramente a nossa convicção, ou pior, a nossa reputação &#8211; e até os pecadores fazem o mesmo. Qualquer homossexual poderia nos ensinar a amar mais e melhor.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug040.gif"></p>
<p><small><br />
Muito mais sobre <strong>Andrew Marin</strong>, sua história, seu ministério e sua sacrossanta insensatez, aqui (em inglês):<br />
<a href="http://www.loveisanorientation.com/">Love is an orientation</a></small></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2007/minha-fe-nao-e-aquilo-em-que-acredito/">Minha fé não é aquilo em que acredito</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/a-invencao-do-nao-condicionado/">A invenção do não-condicionado</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2008/o-amor-e-mais-severo-que-a-justica/">O amor é mais severo do que a justiça</a></p>
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		<title>O ateísmo lúcido de Lovecraft</title>
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		<pubDate>Tue, 03 May 2011 01:59:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fé e Crença]]></category>
		<category><![CDATA[ateísmo]]></category>
		<category><![CDATA[lovecraft]]></category>

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		<description><![CDATA[Meu professor de redação H. P. Lovecraft, de quem herdei o vício de abusar de adjetivos, era um ateu convicto, ocasionalmente militante. A mesma convicção materialista que o fez eliminar dos seus contos de terror qualquer traço do sobrenatural levou-o a duvidar de todas as manifestações tradicionais de religião. Sua histórias não são povoadas por [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Meu professor de redação H. P. Lovecraft, de quem herdei o vício de abusar de adjetivos, era um ateu convicto, ocasionalmente militante. A mesma convicção materialista que o fez eliminar dos <a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/post-mortem/">seus contos de terror</a> qualquer traço do sobrenatural levou-o a duvidar de todas as manifestações tradicionais de religião. Sua histórias não são povoadas por vampiros, fantasmas ou assombrações, e pelo mesmo motivo no seu universo não há espaço para Deus ou para intervenções sobrenaturais<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/o-ateismo-lucido-de-lovecraft/#footnote_0_2547" id="identifier_0_2547" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="&amp;#8220;O que posso dizer &eacute; que acho tremendamente improv&aacute;vel que exista qualquer coisa como uma vontade c&oacute;smica centralizada, um mundo espiritual ou a sobreviv&ecirc;ncia eterna da personalidade.&amp;#8221; Carta de 16 de agosto de 1932 a Robert. E. Howard.">1</a></sup>. Tudo no cosmos é gerado pelo acaso, e este domado apenas pelas leis cegas da física. No grande contexto do universo, a vida orgânica na terra não passa de &#8220;um acidente minúsculo e temporário&#8221;, sendo a própria humanidade &#8220;um acidente ainda menor e mais temporário&#8221;.</p>
<p>Essas convicções, mais ou menos populares hoje em dia, estavam longe de serem comuns na década de 1930, a última do autor. Acho particularmente notável, no entanto, que a grande reserva que Lovecraft encontrou para apresentar contra o cristianismo <em>não foi</em> o fato de a fé cristã pressupor um universo sobrenatural que contrariava sua visão de mundo materialista. Sua indignação era ao mesmo tempo mais profunda e mais lúcida<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/o-ateismo-lucido-de-lovecraft/#footnote_1_2547" id="identifier_1_2547" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="Carta de 14 de dezembro de 1932 a Elizabeth Toldridge.">2</a></sup>:</p>
<blockquote><p>
O cristianismo não tem como ser levado a sério. É ingênuo e anticientífico culpar o mundo por não se conformar a ele &#8211; visto que se trata de uma ilusão quimérica e poética totalmente alienígena à natureza humana. [O cristianismo] é absurdo, porque nenhuma raça ou nação poderia (ou deveria) jamais chegar a conformar-se a ele. </p></blockquote>
<p>E basta este trecho para Lovecraft se mostrar mais agudo e inclemente do que Richard Dawkins ou qualquer outro ateu militante da nova geração. Em particular, Lovecraft enxerga que o cristianismo é uma ameaça para o conceito de raças e nações justamente por propor <em><a href="http://www.baciadasalmas.com/2009/uma-ousada-e-intransigente-demanda/">um ideal elevado demais</a>,</em> um sonho de fraternidade <a href="http://www.baciadasalmas.com/2009/nenhum-motivo-e-nenhuma-recompensa/">aparentemente impraticável</a> e &#8220;totalmente alienígena à natureza humana&#8221;.</p>
<p>Ao contrário dos ateus militantes contemporâneos, ele sabe avaliar o verdadeiro peso do seu adversário. Para Dawkins, o cristianismo é uma ameaça à civilização por ser uma religião como as outras; para Lovecraft, é uma ameaça justamente <em>por não ser uma religião</em>, já que as religiões tendem a apoiar e legitimar o estado de coisas. Para Dawkins o cristianismo é um risco perene porque recusa-se a reconhecer a natureza última da realidade; para Lovecraft, ele é um risco porque sonha teimosamente poder alterá-la. Para Dawkins, o cristianismo é uma ameaça por patrocinar a injustiça; para Lovecraft, é uma ameaça por sonhar <em>uma justiça excessiva</em>: por ser uma intransigente ingenuidade e uma <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/os-recursos-necessarios/">declarada insensatez</a>, uma poesia que pode transtornar o mundo se raças e nações não resistirem ao apelo evangélico de conformarem-se a ela.  Para Dawkins o escândalo está em, diante de todas as evidências, o cristianismo recusar-se a reconhecer que não há céu; para Lovecraft está em, diante de todas as improbabilidades, o cristianismo insistir em implantá-lo na terra.</p>
<p>Dos dois, só Lovecraft sabe do que está falando.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug001.png"></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2009/uma-ousada-e-intransigente-demanda/">Wells encontra Jesus</a></p>
<b><small>NOTAS</small></b><ol class="footnotes"><li id="footnote_0_2547" class="footnote">&#8220;O que posso dizer é que acho <em>tremendamente improvável</em> que exista qualquer coisa como uma vontade cósmica centralizada, um mundo espiritual ou a sobrevivência eterna da personalidade.&#8221; Carta de 16 de agosto de 1932 a Robert. E. Howard.</li><li id="footnote_1_2547" class="footnote">Carta de 14 de dezembro de 1932 a Elizabeth Toldridge.</li></ol>]]></content:encoded>
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		<title>Por isso não provoque</title>
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		<pubDate>Thu, 14 Apr 2011 19:11:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Divino preconceito]]></category>
		<category><![CDATA[Homens e Mulheres]]></category>
		<category><![CDATA[biografia]]></category>

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		<description><![CDATA[Quando quer defender qualquer comportamento, seja universalmente aceito ou mania particular sua, meu pai costuma usar o mais arbitrário, incontornável e rasteiro dos [falsos] argumentos: &#8220;está na Bíblia&#8221;. Para usar o exemplo mais clássico, ele preferencialmente não come feijão aos domingos, porque &#8220;domingo é dia branco&#8221;. Quando perguntado sobre o fundamento espiritual ou científico dessa [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Quando quer defender qualquer comportamento, seja universalmente aceito ou mania particular sua, meu pai costuma usar o mais arbitrário, incontornável e rasteiro dos [falsos] argumentos: <em>&#8220;está na Bíblia&#8221;</em>. Para usar o exemplo mais clássico, ele preferencialmente não come feijão aos domingos, porque &#8220;domingo é dia branco&#8221;. Quando perguntado sobre o fundamento espiritual ou científico dessa noção, ele invariavelmente responde &#8220;está na Bíblia&#8221;. E ele sabe muito bem que não está.</p>
<p>Ou estará? Informando o seu cinismo está a noção (baseada em fatos reais) de que a Bíblia é tão vasta e multiforme que pode conter informação e diretrizes que o mais ilustrado dos interlocutores não será capaz de recordar num dado momento. Ou ainda, que o texto bíblico já foi sujeito a tantas, variadas e infundadas interpretações que pode ser usado para fundamentar qualquer postura. Especialmente a de quem está falando.</p>
<p align="center">***</p>
<p>Azul é cor de menino e cor-de-rosa é cor de menina. Alguma dúvida? </p>
<p>Em 1918, um artigo do <em>Ladies&#8217; Home Journal</em> explicava o que naquela época aparentemente todos sabiam: &#8220;A regra universalmente aceita é que cor-de-rosa é para os meninos e azul para as meninas. O motivo é que o cor-de-rosa, por ser uma cor mais forte, é mais própria para os meninos, enquanto o azul, que é mais delicado e mimoso, fica mais bonito para a menina.&#8221;</p>
<p>A historiadora Jeanne Maglaty, do <em>Smithsonian Institute</em>, está para publicar um livro no qual demonstra que o paradigma moderno (e portanto arbitrário) das cores que demarcam a diferença entre os sexos só ficou estabelecido a partir de 1940, e que a tendência anterior apontava precisamente na outra direção.</p>
<p>Por isso não provoque: é cor-de-rosa choque.</p>
<p><a href=" http://www.smithsonianmag.com/arts-culture/When-Did-Girls-Start-Wearing-Pink.html?c=y&#038;page=1">Quando as garotas começaram a usar cor-de-rosa?</a></p>
<p align="center">***</p>
<p>No mesmo dia em que li a nota acima fiquei sabendo da reação conservadora norte-americana a um <a href="http://gawker.com/#!5791301/conservative-idiots-freak-out-about-boy-wearing-nail-polish-in-j-crew-ad">anúncio da companhia de moda J. Crew</a> que mostrava a diretora da empresa pintando as unhas do filho de cor-de-rosa. &#8220;Sorte minha que tenho um filho cuja cor favorita é o cor-de-rosa&#8221;, dizia a chamada abaixo da foto.</p>
<p>O psicólogo neoconservador Keith Ablow reagiu num artigo em que explica o seguinte:</p>
<blockquote><p>Garotas surram garotas no Youtube. Rapazes fazem malhação e se embelezam até ficarem com abdomen de tanquinho e um penteado impecável. Embora aparentemente não haja nada de mais nisso, pode haver graves consequências quando ficar demonstrado que nenhum dos sexos permanece à vontade com a ideia de criar filhos acima de qualquer outra coisa, que nenhum dos sexos classifica manter uma família como coisa mais desejável do que fazer sexo arrebatador para sempre, e que nenhum dos sexos está motivado a proteger a nação marchando em combate contra outros homens, arriscando nisso as suas vidas.</p></blockquote>
<p>E com isso aprendo uma preciosa lição, que o único valor humano mais sublime do que procriar é sair em resoluto combate de modo a eliminar a competição do DNA alheio.</p>
<p>E que é isso que nos coloca acima dos animais.</p>
<p align="center">***</p>
<p>E que cada um coloca na sua Bíblia o que quer. Porque, embora considere o ideal da barriga de tanquinho esteticamente tão lamentável (e certamente tão arbitrário) quanto o de unhas pintadas de qualquer cor, não pude deixar de notar que Keith Ablow usa o rosto ativamente <a href="http://www.google.com.br/images?q=Keith Ablow">barbeado</a> &#8211; e não preciso lembrar o leitor que ninguém deve confiar num homem sem barba. Está na Bíblia.</p>
<p>Ou, como acrescenta algumas vezes o meu pai: &#8220;se não está, pode colocar que é bom&#8221;.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug005.gif"></p>
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		<title>Digno de crédito</title>
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		<pubDate>Sun, 27 Feb 2011 12:46:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fé e Crença]]></category>
		<category><![CDATA[cristianismo]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>

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		<description><![CDATA[Vamos resumir aquilo em que você acredita. Trata-se da crença de que um zumbi judeu cósmico é capaz de fazê-lo viver para sempre se você comer simbolicamente a carne dele e dizer-lhe telepaticamente que você o aceita como mestre para que ele possa remover da sua alma uma força maligna que está presente na humanidade [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Vamos resumir aquilo em que você acredita. Trata-se da crença de que um zumbi judeu cósmico é capaz de fazê-lo viver para sempre se você comer simbolicamente a carne dele e dizer-lhe telepaticamente que você o aceita como mestre para que ele possa remover da sua alma uma força maligna que está presente na humanidade porque uma mulher feita a partir de uma costela foi convencida a comer a fruta de uma árvore mágica por uma cobra falante. Sem dúvida, soa totalmente digno de crédito.</p>
<p align="right"><small>Comentário deixado por <a href="http://www.youtube.com/user/TheVidNerd">TheVidNerd </a> <a href="http://www.youtube.com/watch?v=B_hyT7_Bx9o">neste vídeo</a> do Youtube</small></p>
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		<title>A pastoral do medo</title>
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		<pubDate>Wed, 13 Oct 2010 08:56:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Divino preconceito]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[Sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[comunismo]]></category>
		<category><![CDATA[cristianismo]]></category>
		<category><![CDATA[pacifismo]]></category>
		<category><![CDATA[reino de deus]]></category>
		<category><![CDATA[sexo]]></category>

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		<description><![CDATA[Há um bom motivo pelo qual o alarmismo é contagioso e irresistível, e se espalha como a peste pelas veias da internet; há um motivo pelo qual os pregadores invariavelmente demonizam seus adversários, e afirmam haver gigantes insaciáveis onde ficará demonstrado haver moinhos de vento: semear o medo torna as pessoas vulneráveis, e gente vulnerável [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Há um bom motivo pelo qual o alarmismo é contagioso e irresistível, e se espalha como a peste pelas veias da internet; há um motivo pelo qual os pregadores invariavelmente demonizam seus adversários, e afirmam haver gigantes insaciáveis onde ficará demonstrado haver moinhos de vento: semear o medo torna as pessoas vulneráveis, e gente vulnerável pode ser manipulada. </p>
<p>O medo só é capaz de dominar quem tem alguma coisa a perder; quem não tem nada a perder não tem a nada temer. Esta é uma equação delicada, especialmente num país como o Brasil, em que a distribuição de renda está entre as dez mais desiguais<span style="float:right; text-align:right; width:35%; color:#7c836d; margin:12px 0 12px 12px; font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps; font-size:1.4em; line-height: 1.3em">A igreja vive de elencar os medos que a sociedade deve ter.</span> do mundo (e é um mundo grande): há sempre o risco de que os que não tem nada a perder se levantem contra os que tem tudo a perder.</p>
<p>Em todo o mundo, mas especialmente num país com a nossa história, a classe média ocupa mais ou menos o espaço que ocupava a nobreza nos tempos medievais e coloniais. E, como sabemos o que aconteceu à nobreza em insurreições como a Revolução Francesa, a classe média adentrou a era moderna imbuída de um medo que lhe é absolutamente característico e essencial: <em>o medo da perturbação social.</em></p>
<p>A classe média sabe desejar o progresso e é capaz de assimilar a mudança, porém (exatamente como a nobreza antes dela) tem absoluto horror à desordem. Seu mundo de shopping centers, de ambientes de ar condicionado e de seguranças na porta (a fim de manter os incompatíveis à distância) deve ser resguardado a todo custo. Passeatas, quebra-quebras, invasões de sem-terra, ladrões que levam o iPad e revoluções de gente faminta devem pertencer ao domínio ilustrativo dos filmes de zumbi. Na verdade, já o constrangimento de ser abordado por uma criança de rua na esquina deve ser aplacado pelo uso preventivo de carros blindados e vidros escuros.</p>
<p>A estabilidade social, entendida como a manutenção de um estado de coisas em que uma minoria administre e se beneficie de recursos que são de todos, é o valor por excelência da classe média. Não há outra verdade eterna que ela esteja disposta a defender.</p>
<p>O medo da perturbação social, no entanto, é genérico demais e precisa encontrar ícones que os encarnem de modo satisfatório. É preciso pulverizar o nosso medo essencial atribuindo-o a culpados e demônios. </p>
<p>E, se quisesse manipular nos nossos dias uma burguesia absolutamente aterrorizada diante da possibilidade de perturbações sociais, que alvos você elegeria? Deixe-me ajudá-lo: elejamos os homossexuais, os que defendem o aborto, os sem-terra, os comunistas<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/a-pastoral-do-medo/#footnote_0_2381" id="identifier_0_2381" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="Na Europa e nos Estados Unidos seria necess&aacute;rio incluir nesta lista os mu&ccedil;ulmanos e os imigrantes.">1</a></sup>. </p>
<p>Cada uma dessas categorias representa, à sua maneira, uma formidável possibilidade de perturbação social; cada uma, à sua maneira, materializa uma ameaça à tranquilidade <span style="float:right; text-align:right; width:35%; color:#7c836d; margin:12px 0 12px 12px; font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps; font-size:1.4em; line-height: 1.3em">O que a classe média teme são perturbações sociais.</span> sanitizada do indefectível universo burguês, em que nada é sujo, nada é feio, nada é controverso e nada é constrangedor.</p>
<p>E que ameaça maior do que um mundo em que a união civil entre homossexuais denuncie diariamente o caráter relativo e historicamente determinado de soluções de convívio que a sociedade toma por normativas? O que parecerá mais perturbador do que um mundo em que gente do sexo masculino ouse definir a sua relação mútua pela afetividade e não pela agressividade e pela competição? Um mundo em que mulheres ousem prescindir do homem para encontrar a sua satisfação sexual e emocional?</p>
<p>Do mesmo modo, será preciso avaliar a ameaça de um mundo em que o aborto exista sequer como possibilidade. Porque este mundo irá postular como legítimo que a mulher exerça controle sobre seu próprio corpo e sobre seu próprio prazer, e esses domínios pertencem por tradição ao âmbito do seu homem. </p>
<p>E que dizer dos sem-terra e dos comunistas, que <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/porque-nao-sou-de-direita/">blasfemam do próprio capitalismo</a> e querem virar o mundo do avesso, ignorando os privilégios milenares da propriedade, da classe social e do lucro, e isso em favor de uma ameaça tão declarada quanto a &#8220;igualdade social&#8221;? O que pode ser mais inaceitável do que esse ataque direto à estabilidade &#8211; à própria existência &#8211; do mundo entrincheirado da burguesia<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/a-pastoral-do-medo/#footnote_1_2381" id="identifier_1_2381" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="Uma sociedade justa &eacute; uma em que, por defini&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o existe m&atilde;o de obra barata. Conversei esta semana com um empres&aacute;rio que estava estarrecido diante da sua dificuldade de encontrar gente disposta a trabalhar na base da pir&acirc;mide pelo sal&aacute;rio que ele costumava oferecer. Diante de seguran&ccedil;as de fundo como Seguro-Desemprego e Bolsa Fam&iacute;lia, os desqualificados do sistema est&atilde;o pensando duas vezes antes de se submeter a uma posi&ccedil;&atilde;o desumanizante e pouco promissora. Esse empres&aacute;rio sentia-se pressionado a ou aumentar os seus sal&aacute;rios ou diminuir a sua margem de lucro, e ambas as solu&ccedil;&otilde;es o apavoravam, porque emblemavam e estavam fundamentadas numa perturba&ccedil;&atilde;o social. Seu mundo de enriquecimento r&aacute;pido baseado na submiss&atilde;o volunt&aacute;ria dos mais fracos estava sendo amea&ccedil;ado, e seu patrim&ocirc;nio corre o risco de n&atilde;o dobrar n&oacute;s pr&oacute;ximos anos. Nada o deixava mais desconcertado e temeroso.">2</a></sup>?</p>
<p>Se é para preservar o presente mundo das perturbações sociais, será necessário negar qualquer igualdade de direitos civis aos homossexuais, chamando sua demanda de ditadura gay; será preciso abominar o aborto acenando com a bandeira pró-vida, ao mesmo tempo em que escondemos atrás dela os recursos que financiam a morte nas guerras e o horror das crianças vivas que passam fome patrocinada pelo capitalismo; será preciso rejeitar qualquer iniciativa que altere desfavoravelmente (para nós) a distância de segurança entre as castas, tachando-as de paternalismo, assistencialismo, compra de votos e introdução gradual da doutrina comunista<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/a-pastoral-do-medo/#footnote_2_2381" id="identifier_2_2381" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="Pode ser necess&aacute;rio lembrar que o anarquista que existe em mim recusa-se a reconhecer a legitimidade de solu&ccedil;&otilde;es legislativas ou pol&iacute;ticas para quaisquer dessas quest&otilde;es. Na verdade rejeito a supremacia de qualquer solu&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica. O que reconhe&ccedil;o &eacute; que o movimento colocado em movimento por Jesus e por suas testemunhas (movimento que aclamava contra o senhorio de C&eacute;sar um rei primeiro descal&ccedil;o, depois invis&iacute;vel, e maquinava a implanta&ccedil;&atilde;o nesta terra de um reino que n&atilde;o &eacute; deste mundo) pressup&otilde;e e instaura o fim de todos os governos.">3</a></sup>.</p>
<p>Pelo menos desde a Idade Média o papel da igreja foi fundamental na definição e na propagação de medos expiatórios como esses. Num sentido muito profundo, a igreja vive de elencar os medos que a sociedade deve ter. Coube tradicionalmente a ela fornecer os demônios cuja execração garanta a continuidade do estado de coisas &#8211; e resguarde, no mesmo pacote, a influência que a própria igreja exerce sobre as pessoas.</p>
<p>Aqui está Jean Delumeau, notável mapeador de medos, falando da cidade sitiada que era a sociedade medieval:</p>
<blockquote><p>Os homens da igreja levantaram os males que [Satã] é capaz de provocar e a lista de seus agentes: os turcos, os judeus, os heréticos, as mulheres (especialmente as feiticeiras). Operaram uma triagem entre os perigos e assinalaram as ameaças essenciais, isto é, aquelas que lhes pareceram tais, levados em conta sua formação religiosa e seu poder na sociedade. Uma ameaça de morte viu-se assim segmentada em medos, seguramente temíveis, mas &#8220;nomeados&#8221; e explicados, porque refletidos e aclarados pelos homens da igreja. Essa enunciação designava perigos e adversários contra os quais o combate era, se não fácil, ao menos possível, com a ajuda da graça de Deus. Desmascarar Satã e seus agentes e lutar contra o pecado era, além disso, diminuir sobre a terra a dose de infortúnios de que são a verdadeira causa. Essa denúncia se pretendia, pois, liberação, a despeito &#8211; ou melhor por causa &#8211; de todas as ameaças que fazia pesar sobre os inimigos de Deus desentocados de seus esconderijos. </p></blockquote>
<p>Basta que se troquem os rótulos &#8211; saem turcos, judeus, heréticos e feiticeiras e entram comunistas, homossexuais, feministas e <a href="http://www.baciadasalmas.com/2009/ainda-sobre-a-ameaca-muculmana/">muçulmanos</a> &#8211; para que se veja que a igreja permanece elegendo &#8220;ameaças essenciais&#8221; de modo a beneficiar-se do pavor que a sociedade tem de perder os privilégios da familiaridade.</p>
<p>A igreja formal contemporânea dispõe de uma parcela de poder infinitamente menor do que a medieval, mas isso não torna os seus esforços menos enfáticos. Ao contrário, para resguardar o pouco poder que lhe resta, os homens da igreja se entregarão com paixão inquisitorial à tarefa de elencar demônios e exercer sua faculdade autoimposta de polícia social. E, como observado por Delumeau, parte essencial dessa estratégia é manter os cristãos com uma certa dose de <em>medo de si mesmos</em> &#8211; medo de serem contados entre o inimigo, medo de não defenderem com suficiente ardor uma pureza nominal, medo da rejeição institucional e de seus preços.</p>
<p>O problema de uma comunidade dominada pelo medo é que ela pode ser manipulada a ceder a gravíssimas injustiças em nome da preservação de sua tranquilidade idealizada. Dessa forma a Alemanha abraçou de bom grado o discurso nazista, por medo das perturbações sociais encarnadas na ameaça do comunismo e numa suposta dominação judaica mundial. Dessa forma a Itália dobrou-se servilmente ao fascismo e o Brasil à ditadura militar, porque esses autoritarismos berravam ameaças de uma impensável sublevação e de uma horrendo nivelamento societário. E, como era de se esperar, esses movimentos de terror contaram com o apoio aberto &#8211; e, em alguns casos, <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/pela-alma-do-povo-omissoes-coletivas-e-bravuras-individuais/">o constrangido silêncio</a> &#8211; da igreja.</p>
<p>Em que somos menos manipuláveis do que a Alemanha nazista, se tememos as mesmas coisas? Os nazistas temiam que os judeus imprimissem no mundo seus valores, sua supremacia e sua estética, e nós tememos que os homossexuais implantem nele a sua agenda; os nazistas temiam que os comunistas aplainassem as classes ao ponto de uma completa descaracterização nacional, e nós tememos a mesma coisa. Somos nós a cidade sitiada, e o que nos conforta são os gritos do clero explicando o que devemos temer &#8211; e assim o que devemos odiar.</p>
<p>A ironia da participação da igreja na disseminação desses terrores está em que o movimento cristão nasceu e se desenvolveu num ambiente caracterizado por formidáveis perturbações sociais. Jesus ganhou fama de rei numa Palestina ocupada em que vinham periodicamente à tona levantes e guerrilhas dirigidas contra os romanos e sua opressão imperialista. O Templo dos judeus não sobreviveu ao sangrento confronto do ano 70 desta era, e poucas décadas mais tarde os próprios cristãos viram levantar-se contra o seu mundo uma longa e implacável perseguição.</p>
<p>Ainda mais paradoxal é reconhecer que, se devemos dar crédito ao Novo Testamento, a maior e mais radical fonte de perturbação social naqueles anos foi o próprio movimento cristão. Dos <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/arrepender-se-e-mudar-o-mundo/">apelos de João Batista por justiça social</a> até <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/o-que-havia-sido-usurpado/">as mesas comunitárias do livro de Atos</a>, passando pelos <a href="http://www.baciadasalmas.com/2008/o-amor-e-mais-severo-que-a-justica/">confrontos de Jesus com todas as elites do seu tempo</a>, o movimento do reino representou uma intransigente e contínua sublevação societária. </p>
<p>Em conformidade com a herança de seu mestre (e causando o mesmo tipo de constrangimento), os colonos do reino levavam <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/a-disciplina-da-inclusao">por onde passavam</a> as demandas por justiça, por fraternidade universal e pelo amor incondicional entre os homens. Quando a boa nova chegou a Tessalônica, na pessoa de Paulo e Silas, seus adversários não poderiam ter escolhido melhor as palavras para descrever a ameaça de perturbação social que representavam: &#8220;esses que estão virando o mundo de cabeça para baixo chegaram também aqui&#8221;.</p>
<p>Quando adotamos o discurso do medo, portanto, estamos tentando imprimir sobre a proposta impoluta e subversiva do reino marcas que são incompatíveis com a sua essência e com a sua herança. Porque o Novo Testamento não deixa espaço para dúvida: igreja não é quem teme a perturbação social, mas <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/o-fim-de-todos-os-governos/">quem a provoca</a>. Igreja não é quem promove o medo, mas quem o aplaca e o anula <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/a-invencao-da-gentileza/">pela inclusão e pelo amor</a>. &#8220;O amor lança fora todo o medo&#8221;, ousou proclamar a provisão imprudente do Espírito.</p>
<p>E nós, o que fazemos? Enquanto a igreja exemplar do livro de Atos aprendia, passo a passo, a incluir o diferente e <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/a-graca-dos-vasos-comunicantes/">o tido previamente como inaceitável</a> (a mulher, o aleijado, o eunuco, o gentio), nós demonizamos como inaceitável o homossexual. Enquanto a igreja exemplar do livro de Atos adotava todo o tipo de <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/as-contradicoes-da-prosperidade/">medidas distributivas</a> e postulava um reino definido pela equidade, nós condenamos como comunismo e como Satanás a mínima provisão que vise apenas desbastar os abismos da distribuição de renda.</p>
<p>E nisso, que fique muito claro, vamos escolhendo aqueles medos que nos mantenham a salvo da nossa vocação.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug000.png"></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2009/ainda-sobre-a-ameaca-muculmana/">Ainda sobre a ameaça muçulmana</a><br />
<a href="http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/maria-rita-kehl-dois-pesos.html">Não se fazem mais pés de chinelo como antigamente</a></p>
<p>&nbsp;</p>
<b><small>NOTAS</small></b><ol class="footnotes"><li id="footnote_0_2381" class="footnote">Na Europa e nos Estados Unidos seria necessário incluir nesta lista os muçulmanos e os imigrantes.</li><li id="footnote_1_2381" class="footnote">Uma sociedade justa é uma em que, por definição, não existe mão de obra barata. Conversei esta semana com um empresário que estava estarrecido diante da sua dificuldade de encontrar gente disposta a trabalhar na base da pirâmide pelo salário que ele costumava oferecer. Diante de seguranças de fundo como Seguro-Desemprego e Bolsa Família, os desqualificados do sistema estão pensando duas vezes antes de se submeter a uma posição desumanizante e pouco promissora. Esse empresário sentia-se pressionado a ou aumentar os seus salários ou diminuir a sua margem de lucro, e ambas as soluções o apavoravam, porque emblemavam e estavam fundamentadas numa perturbação social. Seu mundo de enriquecimento rápido baseado na submissão voluntária dos mais fracos estava sendo ameaçado, e seu patrimônio corre o risco de não dobrar nós próximos anos. Nada o deixava mais desconcertado e temeroso.</li><li id="footnote_2_2381" class="footnote">Pode ser necessário lembrar que o anarquista que existe em mim recusa-se a reconhecer a legitimidade de soluções legislativas ou políticas para quaisquer dessas questões. Na verdade rejeito a supremacia de <em>qualquer</em> solução política. O que reconheço é que o movimento colocado em movimento por Jesus e por suas testemunhas (movimento que aclamava contra o senhorio de César um rei primeiro descalço, depois invisível, e maquinava a implantação nesta terra de um reino que não é deste mundo) pressupõe e instaura <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/o-fim-de-todos-os-governos">o fim de todos os governos</a>.</li></ol>]]></content:encoded>
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		<title>As contradições da prosperidade</title>
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		<pubDate>Wed, 23 Jun 2010 10:01:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fé e Crença]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[cristianismo]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[reino de deus]]></category>

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		<description><![CDATA[Escrever sobre a teologia da prosperidade me deixou desconfortável e inquieto; não por achar o assunto irrelevante ou meu próprio tratamento dele impertinente, mas pela intuição de alguma contradição oculta que demorei quatro ou cinco dias para saber precisar. A primeira coisa que me inquietou, e disso eu tinha consciência mesmo enquanto escrevia contra ela, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Escrever sobre a <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/os-discursos-ausentes-prosperidade/">teologia da prosperidade</a> me deixou desconfortável e inquieto; não por achar o assunto irrelevante ou meu próprio tratamento dele impertinente, mas pela intuição de alguma contradição oculta que demorei quatro ou cinco dias para saber precisar.</p>
<p>A primeira coisa que me inquietou, e disso eu tinha consciência mesmo enquanto escrevia contra ela, foi ver o quanto a teologia da prosperidade é <em>fácil de refutar</em>. O testemunho da Bíblia como um todo e do Novo Testamento em particular pesam irresistivelmente contra todos os pressupostos dessa doutrina e contra todas as suas conclusões, com uma ênfase que espero ter sido capaz de pelo menos sugerir.</p>
<p>Mais difícil, e tenho pensado nisso nesses últimos dias, é explicar <em>de que modo</em> uma doutrina tão desconcertantemente contrária ao espírito cristão (e uso a expressão no sentido de &#8220;espírito de Jesus&#8221;) alcançou a popularidade que alcançou dentro de tantas facções da igreja formal. Nada é mais avesso à postura do Filho do Homem, como apresentado nos evangelhos, do que a ganância proposta por homens, justificada em nome de Deus e usada como ferramenta de manipulação.</p>
<p>Já foi observado que a teologia da prosperidade é manifestação de um cristianismo estelionatário populista; tudo nela foi projetado para atingir, manipular e defraudar as camadas mais pobres da população com a promessa de riqueza. Todos querem ficar ricos, mas em geral são os pobres ingênuos o bastante para comprar a promessa da riqueza incondicional &#8211; e parecem tornar-se especialmente vulneráveis à aquisição se a promessa vem embalada e adoçada com o discurso da devoção.</p>
<p>O que em geral deixamos de enxergar é que a teologia da prosperidade é apenas a versão menos sofisticada &#8211; e portanto mais honesta &#8211; de uma ideologia tão entranhada na postura da igreja ocidental que tornou-se em muitos sentidos indistinguível dela. Porque, numa igreja absolutamente rendida aos ideais do <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/porque-nao-sou-de-direita/">liberalismo econômico</a>, todos querem ser ricos e não veem nada de errado nisso. Se de um lado as vítimas pobres da teologia da prosperidade perseguem a riqueza crendo que ela virá sem escalas da mão divina, os ricos e burgueses perseguem precisamente a mesma riqueza &#8211; apenas recusam-se a rebaixar-se à ilusão ou à fé de que ela virá de Deus e não de sua própria <a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/o-culto-da-performance/">performance</a>.</p>
<p>Nós que condenamos a imaturidade do mecanismo toma-lá-dá-cá da teologia da prosperidade buscamos sem cessar o mesmo resultado por outros meios. A maioria de nós nem perde o seu tempo associando a riqueza a Deus; estamos ocupados demais perseguindo uma e ignorando o outro. Da expressão &#8220;teologia da prosperidade&#8221; os mais articulados dentre nós sentem-se preparados para invalidar a parte da <em>teologia</em>, mas nosso modo de vida endossa sem equívoco a parte da <em>prosperidade</em>.</p>
<p>Dito de outra forma, a teologia da prosperidade só alcançou penetração entre os pobres porque a ideia subjacente &#8211; de que para um cristão ser rico é coisa honrosa, desejável e reverte em glória a Deus &#8211; estava há muito (digamos, desde a Reforma) presente na postura e nos discursos dos cristãos ricos e de classe média. Com nosso modo de vida fornecemos o fim; a teologia da prosperidade limita-se a vender os meios.</p>
<p>Porque não há como esconder: grosso modo, há duas posturas na relação do ser humano com a riqueza. A primeira é <em>acumulativa</em>, e pressupõe isolamento e escassez; a segunda é <em>distributiva</em>, e pressupõe comunhão e abundância. Se enxergamos com clareza a mesquinharia dos que seguem e propõem a teologia da prosperidade, não temos como negar que nossa postura é pelo menos tão <em>acumulativa </em>quanto a deles. Os cristãos mais ricos fornecem o modelo elitista e dinheirista que a teologia da prosperidade vem oferecer aos mais pobres.</p>
<p>Em conformidade com isso, há duas maneiras de se ler o Novo Testamento; a primeira finge encontrar nele justificativa para o modo <em>acumulativo </em>de viver e de lidar com a riqueza. Sua modalidade mais comum enfatiza a sabedoria e a soberania de Deus. Quem é rico, sustenta essa visão de mundo, não deve absolutamente sentir-se culpado por não participar da miséria do mundo; ao contrário, quem acontece de estar rico foi agraciado pelo favor insondável de Deus e incorre em grave erro se sentir-se inclinado a repartir o que tem. A tentação de abrir mão dos privilégios da riqueza equivale à tentação de resistir à vontade de Deus. </p>
<p>Segundo essa linha de pensamento, nenhum privilégio é injusto, porque são todos patrocinados pela soberania divina. Em vista disso, não cabe aos ricos assumir uma postura distributiva em relação à riqueza<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/as-contradicoes-da-prosperidade/#footnote_0_2293" id="identifier_0_2293" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="Naturalmente, a postura distributiva &eacute; sempre descartada e condenada como &amp;#8220;esquerdista&amp;#8221; pelos proponentes dessa linha.">1</a></sup>, porque isso denotaria falta de fé na divina capacidade de transformar o mal em bem. Não sabemos os motivos da miséria do mundo, mas não devemos duvidar da bondade divina. É portanto <a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/a-teologia-do-capital/">por razões de devoção e fé</a>, sustentam esses proponentes da prosperidade calvinista, que é necessário abrir mão de qualquer tentativa de corrigir o mundo. Mudar o mundo é, na verdade, rebeldia contra a divindade. Talvez pareça injusto que você seja rico e o seu próximo pobre, mas quem é você para julgar? Quem é você para questionar a soberania divina, que estabeleceu a distinção em primeiro lugar?</p>
<p>Em absoluto contraste com esse pensamento, o modo genuíno de se ler o Novo Testamento é encontrando nele um apelo constante e incontornável para que abracemos um modo <em>distributivo </em>de lidar com a riqueza. Assim falaram os profetas antes dele (&#8220;reparta o seu pão com o faminto, e cubra ao nu com vestido&#8221;), assim falou João Batista (&#8220;quem tiver duas túnicas reparta com quem não tem nenhuma&#8221;), assim falou Jesus (&#8220;tive fome e não me destes de comer&#8221;), assim fizeram os pioneiros do reino no livro de Atos (&#8220;tinham tudo em comum; e vendiam suas propriedades e bens e os repartiam por todos, segundo a necessidade de cada um&#8221;). Em cada caso e em todos os casos, a posição neo-testamentária com relação à riqueza é distributiva; que no Novo Testamento essa distribuição seja voluntária apenas contribui para confirmar a sua centralidade.</p>
<p>Semelhantemente, no Novo Testamento o impulso de reformar a sociedade não é jamais visto como rebeldia contra a vontade de Deus. Ao contrário; <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/arrepender-se-e-mudar-o-mundo/">como vimos há pouco</a>, o sentido mais essencial de &#8220;arrependimento&#8221; em Lucas/Atos é o de abraçar a vocação de mudar o mundo, no sentido de <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/pecar-e-omitir-se/">corrigir suas injustiças</a> e anular os seus mecanismos de exclusão e de manipulação. A vocação do reino está em que somos enviados para corrigir a miséria do mundo com a mesma paixão que Jesus mostrou-se disposto a corrigir a nossa: esvaziando-se, repartindo-se, distribuindo-se &#8211; de modo a estar sempre conosco na mesa universal. Nossa conformidade com o espírito de Jesus corresponde rigorosamente à nossa disposição em seguir o trajeto dele em direção à generosidade e à pobreza. O Apóstolo disse-o da seguinte forma:</p>
<blockquote><p>Vocês, que destacam-se em tudo, vejam que passem também a destacar-se na generosidade. Pois vocês conhecem a graça de nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, por amor de vocês se fez pobre, para que pela sua pobreza fossem enriquecidos.</p></blockquote>
<p>O que encontramos nesse &#8220;enriquecidos&#8221; diz absolutamente tudo sobre nós.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug033.gif"></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/o-que-havia-sido-usurpado/">O que havia sido usurpado</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/os-recursos-necessarios/">Os recursos necessários</a></p>
<b><small>NOTAS</small></b><ol class="footnotes"><li id="footnote_0_2293" class="footnote">Naturalmente, a postura distributiva é sempre descartada e condenada como &#8220;esquerdista&#8221; pelos proponentes dessa linha.</li></ol>]]></content:encoded>
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		<title>Os discursos ausentes: Jesus morreu em seu lugar [1]</title>
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		<pubDate>Wed, 02 Jun 2010 11:26:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fé e Crença]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[cristianismo]]></category>
		<category><![CDATA[lutero]]></category>
		<category><![CDATA[reforma protestante]]></category>

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		<description><![CDATA[Para começar por aquilo que incessantemente ignoramos ou esquecemos: a doutrina da morte substitutiva de Jesus (a noção de que Jesus morreu a fim de satisfazer em nosso lugar algum requerimento ligado à coerência interna da divindade) foi articulada pela primeira vez mil anos depois de Cristo, por Anselmo (1033-1109). Talvez seja necessário reler este [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Para começar por aquilo que incessantemente ignoramos ou esquecemos: a doutrina da morte substitutiva de Jesus (a noção de que Jesus morreu a fim de satisfazer em nosso lugar algum requerimento ligado à coerência interna da divindade) foi articulada pela primeira vez mil anos depois de Cristo, por Anselmo (1033-1109).  Talvez seja necessário reler este parágrafo.</p>
<p>A tradição cristã defendeu desde sempre, a partir de indicações do Novo Testamento, a dupla noção de que a morte de Jesus foi de alguma forma necessária, e de que a passagem de Jesus pela terra &#8211; incluindo sua vida, morte e ressurreição &#8211; ocasionou de um modo misterioso mas inequívoco a Singularidade, a plenitude dos tempos, a redenção dos homens. Porém Anselmo foi o primeiro a tomar sobre a si a tarefa de montar um sistema teológico que explicasse exatamente <em>porque</em> a cruz havia se mostrado necessária, e <em>de que modo</em> a obra de Jesus havia ocasionado a redenção.</p>
<p>E para ele tudo tinha sido uma questão de honra.</p>
<p>Segundo Anselmo, a obrigação primeira de todos os homens é devolver a Deus a honra que lhe pertence por direito. Pecar é essencialmente sonegar a honra devida a Deus: é ao mesmo tempo roubá-lo de sua dignidade e desonrá-lo. O problema está em que, como a honra é a característica mais inegociável da natureza divina, Deus não é livre para perdoar o pecado por um simples ato de vontade: &#8220;nada é menos tolerável na ordem das coisas do que uma criatura tomar do Criador a honra que lhe é devida sem repor aquilo que tomou&#8221;. O pecado gera um débito, diante do qual a reparação da dignidade divina só pode ser obtida de duas formas: [1] pela punição implacável dos devedores ou [2] pelo satisfação da dívida, o que só ocorre quando se devolve a Deus mais do que foi tirado dele.</p>
<p>A redenção, então, se resumiria nisso: o homem deve devolver a honra que roubou de Deus; como só um homem <em>deve </em>satisfazer esse débito e como só um Deus <em>é capaz</em> de efetuá-lo, foi necessário que o homem-Deus fosse obediente até a morte para reparar essa injustiça e restaurar o prestígio divino.</p>
<p>A teologia de Anselmo (que acabou sendo conhecida como doutrina &#8220;satisfacional&#8221; ou, de modo ainda mais revelador, doutrina &#8220;comercial&#8221; da redenção) é, como todas, reflexo rigoroso da época em que foi concebida. A ideia de satisfação era fundamental na justificação do sistema corrente de penitências; a ênfase no ressarcimento era característica da obsessão romana/latina com o Direito Penal; e, finalmente, os conceitos de honra ferida e de compensação da honra através da obediência eram parte essencial da estrutura ideológica do feudalismo em que Anselmo vivia<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/os-discursos-ausentes-jesus-morreu-em-seu-lugar-1/#footnote_0_2275" id="identifier_0_2275" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="&amp;#8220;O pecado&amp;#8221;, explica Anselmo, desligando o conceito do campo da &eacute;tica e deslocando-o para o da pol&iacute;tica, &amp;#8220;&eacute; uma afronta &agrave; sua infinita majestade&amp;#8221;.">1</a></sup>. </p>
<p>A primeira e maior falha na doutrina de Anselmo é também aquela que geraria mais graves consequências no futuro. Ao limitar a redenção à satisfação de um débito e ao limitar essa satisfação à obediência da cruz, Anselmo isolou a morte de Jesus do restante de sua obra de vida. A obsessão com os méritos da morte acabaria tornando a vida de Jesus irrelevante &#8211; como se sua vida não tivesse feito parte parte do seu esforço redentor. Nas palavras de Harnack: &#8220;Esse Deus-homem não precisava ter pregado e fundado um reino; nenhum discípulo precisava ter sido reunido: dele só era requerido que morresse.&#8221; </p>
<p>Em segundo lugar, se a redenção é essencialmente uma estratégia de Deus para recuperar o seu próprio prestígio, seu motivo não está fundamentado &#8211; a despeito da insistência das Escrituras neste ponto &#8211; no seu amor aos homens, mas no amor ao prestígio. Anselmo inaugurou um universo em que Deus mandou seu filho ao mundo <em>por sua causa</em>, não nossa. Ao contrário do que parecem insistir os autores bíblicos, a ênfase da reparação não está na reconciliação entre as partes, mas na restauração da mesma sorte de prestígio que um vassalo deve reconhecer ininterruptamente no suserano.</p>
<p>Finalmente, se a satisfação do débito é tão absolutamente incontornável e central na economia da redenção, em que a morte de Jesus tem a significância de uma transferência bancária, Deus é em última instância incapaz de perdoar, ao contrário do que sugerem a Bíblia e a tradição. Se o único modo de apagar a dívida é o inevitável ressarcimento, a fim de aprendermos a perdoar, desligar e esquecer devemos recorrer a um exemplo que não seja Deus. Orar pedindo &#8220;perdoa as nossas dívidas&#8221; passa a ser uma incorreção teológica e uma temeridade.</p>
<p>A doutrina de Anselmo ganhou poucos aderentes e causou quase nenhum impacto por 400 anos. Seu duvidoso mérito foi ter servido de base para a teologia da Reforma, que ecoa, será inevitável lembrar, com os mesmos temas: pagamento de débito, substituição, a redenção jurídica de uma condenação inalienável.</p>
<p>Lutero começou onde Anselmo havia começado, com a noção de que Deus não é livre para perdoar os pecados por um ato de livre vontade, porque o perdão do pecado não punido seria essencialmente injusto. Porém, ao contrário de Anselmo, que postulava que a redenção visava preservar a dignidade de Deus, Lutero sustentou que o que estava sendo protegido era a ordem moral do universo, que absolutamente requer alguém em quem se descarregar os débitos morais gerados pelo pecado.</p>
<p>Em Lutero a característica incontornável de Deus não é a sua honra, mas a sua justiça. Ao contrário do que havia sugerido Anselmo, a satisfação do pecado não pode ser obtida através da obediência, mas através da punição. </p>
<p>Se Anselmo havia drenado todo mérito da vida de Jesus e concentrado o mérito em sua morte, Lutero deu o passo seguinte nesse projeto de alienação. Para Anselmo, somos resgatados porque Jesus <em>obedeceu </em>quando nós é que deveríamos ter <em>obedecido</em>; para Lutero, somos resgatados porque Jesus foi <em>punido </em>quando nós é que deveríamos ter sido <em>punidos</em>. O mérito da morte de Jesus não foi ativo, como Anselmo havia pensado (obediência), mas meramente passivo (punição). Nas palavras de Jonathan Edwards, o moço:</p>
<blockquote><p>Ouso dizer ainda que, não apenas a redenção de Cristo não consistiu essencialmente em sua ativa obediência, como sua ativa obediência não teve qualquer papel na redenção. </p></blockquote>
<p>Se Anselmo havia conferido ao mundo um Deus obcecado com sua própria dignidade, Lutero deu ao mundo um Deus que não apenas imolou o seu Filho Amado, mas derramou sobre ele toda a ira e toda a maldição, porque sua justiça absolutamente requeria que ele descarregasse essas penas sobre alguém. Está dito na Confessão Saxã (1551) de Melâncton: &#8220;tamanha é a severidade da sua justiça que não pode haver reconciliação a não ser que a penalidade seja paga. Tamanha é a intensidade da ira de Deus que o Pai eterno <em>não pode ser aplacado</em> a não ser pela morte de seu Filho&#8221;.</p>
<p>Em conformidade com isso, Lutero deixou <a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/o-destino-eterno-de-deus/">abundantemente claro</a> que o seu Deus era limitado e definido pela justiça e não pelo amor. Seu Deus não tinha obrigação alguma de ser misericordioso, mas absolutamente não tinha como deixar de ser justo.</p>
<p>A Reforma ganhava assim um discurso &#8211; em vocabulário contemporâneo, um &#8220;diferencial&#8221;. Em Lutero a redenção encontrava uma explicação que ganharia tremenda popularidade porque refletia, num momento de absoluta transição, todo o espírito da nascente era Moderna. Ao mesmo tempo em que os homens descobriam e começavam a brincar com as Luzes que conduziriam aos movimentos nacionais e à Revolução Industrial, a Reforma oferecia uma doutrina em que a morte de Jesus não tinha apenas um significado (o que muito evidentemente não lhe bastava), mas uma lógica e um mecanismo: uma utilidade.</p>
<p>De tão imbuídos que estávamos no espírito dos tempos, tornamo-nos incapazes de enxergar que uma doutrina que nega qualquer significado ao trajeto terreno da encarnação, que não vê mérito na obediência do Filho do Homem, que postula um Deus incapaz de perdoar sem o recurso da satisfação, um Deus que é Justiça em tamanho grau que não pode dar-se ao luxo de ser Amor &#8211; não tem direito a requerer para si qualquer relação com o Deus de Jesus.</p>
<p>Porque, se em última instância o pecado não pode ser perdoado sem o gosto da satisfação, Lutero revelou um mundo em que a graça não é efetivamente graça e efetivamente não pode ser. Este é um universo em que tudo requer pagamento, em que nada pode ser livremente perdoado e em que toda condenação é inalienável (embora algumas sejam felizmente transferíveis). Na doutrina de Lutero Deus não vence a Lei, mas é vencido por ela mesmo no seu mais glorioso instante. A misericórdia não triunfa sobre o juízo, porque o juízo é de pedra e nem mesmo Deus pode conferir a ele um coração de carne.</p>
<p>O curioso está em que o Novo Testamento não nega que o pecado gera um débito; tanto em Jesus quanto em seus cronistas, a ideia de dívida é uma das figuras mais comumente associadas à noção de transgressão. Porém, ao contrário do que sugerem Anselmo e Lutero, a posição da boa nova não é de que o débito requer inescapavelmente o pagamento por parte do devedor ou de um seu substituto. Ao contrário; os evangelhos insistem que a solução da Magnanimidade para o débito não é a satisfação, mas a clemência, o indulto, o perdão: assim no batismo, assim nas parábolas, assim no &#8220;setenta vezes sete&#8221;, assim na oração do Pai Nosso, assim na absolvição dos executores diante da cruz. &#8220;A miseriórdia triunfa sobre o juízo&#8221; quer dizer isso mesmo: o amor triunfa sobre a satisfação.</p>
<p>Cada um a seu modo, Anselmo e Lutero abraçaram a Empresa Teológica, que é o esforço muito humano e contraditório de tentar defender a qualquer custo aquilo que em cada momento da história é tido como a coerência interna da divindade. A teologia nasce do amor à ordem, não do amor a Deus. Anselmo afirma claramente que sua doutrina parte do pressuposto de que o universo não deve permanecer desordenado (<em>inordinatum</em>). Não é de admirar que tanto ele quanto Lutero tenham defendido com unhas e dentes a teoria da satisfação, porque é uma doutrina que impõe alguma lógica sobre o que parece não ter razão alguma. No fim das contas o perdão puro e simples representa a maior e mais espetacular das desordens, e esse escândalo os homens moverão terra e céu para deslocar de seu campo de visão.</p>
<p>O Deus da Bíblia, ao contrário do que sugerem essas distrações, é inteiramente incapaz de encontrar <em>satisfação </em>na agonia, na punição e no castigo, que representam mais adequadamente as preferências de Moloque. Muito claramente, e disso dão testemunho todas as parábolas (que são a expressão mais precisa da realidade da redenção), o que pode satisfazer a divindade é somente a integridade voluntária, somente o retorno filial, somente o abraço incondicionado da demanda pela bondade, pela aceitação e pelo amor. É quase criminoso que tenhamos demorado tanto tempo para condenar a noção de que Deus possa se satisfazer com menos.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug041.gif"></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2008/o-amor-e-mais-severo-que-a-justica/">O amor é mais severo do que a justiça</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/o-clamor-que-provoca/">O clamor que provoca</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/a-seducao-da-ortodoxia/">A sedução da ortodoxia</a></p>
<b><small>NOTAS</small></b><ol class="footnotes"><li id="footnote_0_2275" class="footnote">&#8220;O pecado&#8221;, explica Anselmo, desligando o conceito do campo da ética e deslocando-o para o da política, &#8220;é uma afronta à sua infinita majestade&#8221;.</li></ol><div class='series_toc'><h3>Rastros dos apóstolos</h3><ol><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/como-perder-jesus-de-vista-no-livro-de-atos/' title='Como perder Jesus de vista no livro de Atos'>Como perder Jesus de vista no livro de Atos</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/ascensao-sem-tregua-das-testemunhas/' title='Ascensão sem trégua das testemunhas'>Ascensão sem trégua das testemunhas</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/a-escassez-seletiva-selecionar-e-interpretar/' title='A escassez seletiva: selecionar é interpretar'>A escassez seletiva: selecionar é interpretar</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/o-jesus-terreno-e-o-cristo-extraterrestre/' title='O Jesus terreno e o Cristo extraterrestre'>O Jesus terreno e o Cristo extraterrestre</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/com-as-mulheres/' title='Com as mulheres'>Com as mulheres</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/como-reconhecer-entre-dois-discipulos-um-apostolo/' title='Como reconhecer, entre dois discípulos, um apóstolo'>Como reconhecer, entre dois discípulos, um apóstolo</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/a-plenitude-dos-tempos/' title='A plenitude dos tempos'>A plenitude dos tempos</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/a-verdadeira-mensagem/' title='A verdadeira mensagem'>A verdadeira mensagem</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-lucidez-profetica/' title='A lucidez profética'>A lucidez profética</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-vexacao-de-satanas/' title='A vexação de Satanás'>A vexação de Satanás</a></li><li><a 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do não-condicionado</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/o-fim-do-mundo/' title='O fim do mundo'>O fim do mundo</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/os-recursos-necessarios/' title='Os recursos necessários'>Os recursos necessários</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/o-que-havia-sido-usurpado/' title='O que havia sido usurpado'>O que havia sido usurpado</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/o-fim-de-todos-os-governos/' title='O fim de todos os governos'>O fim de todos os governos</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/a-mesa-universal-e-as-redentoras-transgressoes/' title='A mesa universal e as redentoras transgressões'>A mesa universal e as redentoras transgressões</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/os-discursos-ausentes-ceu-e-inferno/' title='Os discursos ausentes: céu e inferno'>Os discursos ausentes: céu e inferno</a></li><li>Os discursos ausentes: Jesus morreu em seu lugar [1]</li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/os-discursos-ausentes-jesus-morreu-em-seu-lugar-2/' title='Os discursos ausentes: Jesus morreu em seu lugar [2]'>Os discursos ausentes: Jesus morreu em seu lugar [2]</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/os-discursos-ausentes-jesus-vai-voltar/' title='Os discursos ausentes: Jesus vai voltar'>Os discursos ausentes: Jesus vai voltar</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/os-discursos-ausentes-prosperidade/' title='Os discursos ausentes: prosperidade'>Os discursos ausentes: prosperidade</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/os-discursos-ausentes-jesus-te-ama/' title='Os discursos ausentes: Jesus te ama'>Os discursos ausentes: Jesus te ama</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/a-palavra-presente/' title='A Palavra presente'>A Palavra presente</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/a-disciplina-da-inclusao/' title='A disciplina da inclusão'>A disciplina da inclusão</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/o-acaso-e-o-heroi/' title='O acaso e o herói'>O acaso e o herói</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/a-divina-soltura/' title='A divina soltura'>A divina soltura</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/a-graca-dos-vasos-comunicantes/' title='A graça dos vasos comunicantes'>A graça dos vasos comunicantes</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/a-invencao-da-gentileza/' title='A invenção da gentileza'>A invenção da gentileza</a></li></ol></div>]]></content:encoded>
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		<title>O sacro rompimento</title>
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		<pubDate>Wed, 14 Apr 2010 10:31:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Divino preconceito]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[catolicismo]]></category>
		<category><![CDATA[reforma protestante]]></category>

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		<description><![CDATA[Outro dia eu conversava no messenger com um amigo italiano e ele mencionou que na cidade de Ravenna há importantes igrejas cristãs construídas pouco mais de 400 anos depois de Cristo &#8211; ou seja, um piscar de olhos (em termos históricos) depois da passagem de Jesus pela terra. Ele lembrou em seguida que o Santo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Outro dia eu conversava no messenger com um amigo italiano e ele mencionou que na cidade de Ravenna há importantes igrejas cristãs construídas pouco mais de 400 anos depois de Cristo &#8211; ou seja, um piscar de olhos (em termos históricos) depois da passagem de Jesus pela terra.</p>
<p>Ele lembrou em seguida que o Santo Sudário estava mais uma vez sendo exposto ao público na Catedral de São João Batista em Turim, como acontece periodicamente. E aproveitou para contar a teoria de uma historiadora dos Arquivos Secretos do Vaticano, Barbara Frale, que postula que o grande segredo dos templários era que sua ordem venerava a figura de Cristo no Sudário &#8211; sendo que seus integrantes juravam contornar as tentações do poder mantendo-se fiéis à humanidade de Jesus estampada muito literalmente no lençol de Turim.</p>
<p>Eu acompanhava interessadíssimo a história e ponderava a beleza de suas implicações, quando meu amigo [católico] interrompeu sua exposição para perguntar:</p>
<p>&#8211; E vocês, protestantes, o que pensam do Sudário?</p>
<p>Respondi sem pensar, mas fiquei imediatamente estarrecido diante do rigor da resposta:</p>
<p>&#8211; Nada que aconteceu antes de 1500 nos interessa &#8211; eu disse.</p>
<p>E completei, apenas em parte ironicamente:</p>
<p>&#8211; Nem mesmo Jesus, coitadinho.</p>
<p>E se conto a história dessa conversa é porque não consigo deixar de pensar no que disse. <em>Nada que aconteceu antes de 1500 nos interessa.</em></p>
<p>Foi necessária essa precisa articulação da ideia para eu entender que o rompimento sonhado e efetuado pelos protestantes não foi apenas com a Igreja Católica, mas com a própria História. Nosso método para corrigir mil e quinhentos anos de cristandade foi ignorá-los. Consequentemente, nossa relação com a História é ainda hoje precisamente oposta à do catolicismo, que vive (e na verdade depende de) uma contínua ligação ela. </p>
<p>No que diz respeito a nós, precisamente nada aconteceu no cristianismo (e portanto no mundo) entre a conclusão do Novo Testamento e as indignações de Lutero e as paixões dos anabatistas. Se dependesse de nós, esses 1500 anos intermediários seriam apagados das atas ou, no máximo, mantidos como embaraçosa nota de rodapé &#8211; monumento ou advertência contra o obscurantismo que a luz da Reforma tratou de expor e reparar.</p>
<p>Em termos muito reais, é esse rigoroso rompimento, essa cirúrgica remoção, que aplicamos à narrativa do movimento cristão. Nosso verdadeira filiação, queremos crer, é com a igreja vitoriosa e impoluta do livro de Atos, não com a estrutura corrupta e vendida que dominou a cristandade antes que aparecêssemos para denunciá-la. Decidimos que esse período intermediário, que ao mesmo tempo desconhecemos e abominamos, deve ser desconsiderado &#8211; porque a herança de Cristo só passou a ser eficazmente defendida quando entramos em cena para honrá-la como convém.</p>
<p>Em conformidade com isso, fazemos questão de não confessar &#8211; e fazemos isso ignorando-os &#8211; qualquer continuidade com as vidas dos mártires e dos santos, com os assombros do medievo, com as Cruzadas e peregrinações, com a subversão descalça de São Francisco, com os fogos da Inquisição e as lancetas da penitência, com a paixão medieval pelos pobres e a obsessão medieval pelos símbolos; nada sabemos e nada queremos saber sobre a adoração de relíquias, a função dos gárgulas, os diferentes ritos latinos, as estações da cruz, os cinco mistérios gloriosos, os círculos do rosário ou o segredo da construção de catedrais. Nada temos em comum e nada queremos ter com Teodorico e Teodora, com Catarina de Siena, com São João da Cruz, com Elredo de Rievaulx, com Tomás de Aquino, com Santa Luzia, com Carlos Magno, com Teresa de Ávila. Nosso Deus é o de Abraão, Isaque e Jacó, mas &#8211; pelo amor de Deus &#8211; não é o Deus de Joana d&#8217;Arc, de Giotto, de Gregorio I e de Dante Alighieri. Rejeitamos todas as imagens, todo acender de velas, todo pagamento de promessa, todos os intermediários não autorizados, todo penduricalho, todo Sagrado Coração, toda veneração transgressora.</p>
<p>Igrejas com mais de 500 anos são para nós uma contradição em termos. Não temos qualquer relação com essa história. Ela não nos pertence. Temos raiva de quem sabe. A veneração do Sudário, para falar de outro marco que desconhecemos, é demonstração de rebeldia, ignorância e credulidade. Nada tem a ver, por certo, com a verdadeira fé.</p>
<p>Nosso rompimento com o passado está tão entranhado na nossa postura que, à parte [alguns] dentro das chamadas denominações históricas, vivemos completamente à parte de qualquer relação de continuidade até mesmo com a tradição protestante ou evangélica. Nem mesmo esses 500 anos de protestantismo nos interessam. Não sabemos o que disseram ou fizeram Lutero, Calvino, Knox, Wesley ou mesmo Billy Graham; nada conhecemos sobre os primórdios dos metodistas ou da relação dos batistas norte-americanos com a Guerra da Secessão. O passado evangélico é um lugar que não existe. Tudo que queremos ouvir é o presente pregador oferecendo neste instante a prosperidade para o momento presente.</p>
<p>A primeira e mais grave consequência desse rompimento com o passado é o esvaziamento simbólico dos nossos espaços interiores e exteriores. Quando descartamos as linguagens cristãs da antiguidade e da era medieval (como se fossem mais ambíguas e questionáveis do que a nossa), exterminamos do coração da fé todo mito, toda metáfora e todo assombro. Só nos resta a superfície, a aparência da aparência de uma existência espiritual.</p>
<p>O utilitarismo que nos caracteriza é explicado por essa alienação com a alma das coisas, porque em nosso isolamento passamos a ver as coisas como ferramentas, os lugares como facilidades e as pessoas como números.</p>
<p>Essa devastação de nosso ambiente simbólico fica patente na arquitetura de praticamente qualquer templo [uso o termo com moderado sarcasmo] evangélico contemporâneo. Uma casa fala do que está cheio o coração, e nada há nas paredes de um templo evangélico que dê indício de riqueza interior ou de qualquer compromisso com a história. Tratam-se de edifícios assépticos, indistintos, utilitaristas &#8211; e essas suas qualidades falam por nós e de nós. Retirem-se apenas os bancos, e o que resta tem o apelo de um salão de churrascaria, o caráter de um piso de indústria ou almoxarifado; a sala de espera de uma repartição pública terá inevitavelmente mais alma, mais ornamento e mais conteúdo simbólico. Via de regra não há no edifício evangélico sequer uma cruz ou crucifixo, porque nosso distanciamento simbólico se estende até mesmo a Jesus. Nada queremos com o Jesus histórico que percorreu a Palestina ou os evangelhos, nem com o Filho de Deus que tocou a cruz, de onde poderia nos intimidar; só queremos saber do Cristo invisível, que não tem como nos constranger com seu olhar, e que habita o céu, de onde pode incessantemente nos favorecer. Desconhecemos a noção de que lugares possam se tornar imbuídos de significado (e portanto de valor), pelo que vendemos sem pestanejar a propriedade em que nos reuníamos para construir templo maior ou mais conveniente em outro lugar.</p>
<p>Nenhuma outra nação encarna essa dissociação com a história de modo mais formidável do que os Estados Unidos, país evangélico por excelência, e que em conformidade com essa vocação opera de modo a ignorar deliberadamente qualquer outra história (e portanto qualquer outro valor) que não seja a sua. Os aspectos bélicos e mercantilistas da missão civilizadora/evangelizadora dos Estados Unidos explicam-se por esse rompimento radical com a história de outros povos e culturas. Os norte-americanos se compadecem grandemente de países que não são os Estados Unidos &#8211; lugares pagãos como a Namíbia, a Itália, a União Soviética e o Sri-Lanka &#8211; e tomaram sobre os ombros a tarefa de salvar o mundo, estendendo a todos a sombra redentora da sua bandeira. Intuem que os povos só serão de fatos redimidos quando forem liberados por seus exércitos, ou quando encontrarem a luz do valor supremo do poder de compra. Nisso são impulsionados pela dó que têm dos povos que não compartilham de suas datas cívicas; representam o primeiro império da história impelido pela sinceridade da sua compaixão.</p>
<p>Outra consequência da dissociação evangelical com as raízes da história é que nos tornamos um povo que não tem a quem prestar contas. Não só os erros da Igreja Católica não nos dizem respeito; também não queremos ser julgado pelas imprudências de Lutero, pelas imoderações de Calvino, pelos exageros dos missionários entre os índios, pelas omissões dos cristãos na Alemanha nazista, pela desfiguração de culturas confrontadas com o capitalismo cristão, pelo usurpação de recursos ambientais que pertenciam muito claramente a todos. Na verdade nossa dissociação com o passado é tamanha que não queremos ser responsáveis pelo que <em>nós mesmos fizemos</em> em nosso próprio tempo de vida. Erigimos dessa forma, e com a assombrosa conivência de Deus, <a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/os-evangelicos-e-a-impunidade/">um reino de impunidade</a>.</p>
<p>Em retrospecto, não é de estranhar que o capitalismo industrial e o protestantismo sejam gêmeos <a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/a-teologia-do-capital/">nascidos no mesmo berço</a>. Como gentilmente diagnosticado por Marx, a consequência mais incontornável do capitalismo é a alienação &#8211; alienação que, <s>para o bem ou</s> para o mal, acabou determinando todos os aspectos do desenvolvimento cultural, social e econômico que veio depois. Não é exagero supor que a alienação capitalista só tenha se tornado possível a partir da alienação anterior, o sacro rompimento do movimento protestante com a história prévia do movimento que se levantaram para reparar.</p>
<p>***</p>
<p>Justamente por desconhecermos a história, raramente paramos para avaliar o que perdemos nessa transação de adquirir o futuro vendendo nossa parte da herança com o passado. Gostaria de mencionar uma única baixa que tomo por especialmente representativa do prejuízo como um todo: a perda da capacidade de ajoelhar-se diante das coisas.</p>
<p>Ao contrário do que católicos costumam fazer, os evangélicos absolutamente não se ajoelham diante de coisas (digamos, cruzes, imagens ou lugares sagrados). Aprendemos e confessamos que o verdadeiro crente deve dobrar-se apenas diante do Deus invisível ou do Cristo (invisível), seu sócio e representante autorizado. </p>
<p>O paradoxo está em que quando se ajoelham diante de imagens ou de relíquias ou capelas os católicos estão fazendo confissão oposta à que atribuímos a eles. Enquanto se dobram diante do que é meramente material, estão reconhecendo tacitamente que os objetos por si mesmos não se bastam e não se explicam; estão confessando que as coisas não se esgotam em sua utilidade imediata e não se constituem na definição última da realidade. Devidamente instruídos pela mentalidade medieval, eles intuem que o valor das coisas não está em sua função utilitária, mas em sua função simbólica. As coisas apontam para outra realidade; as coisas remetem. </p>
<p>Ajoelhar-se diante das coisas, incrivelmente, é colocar as coisas no seu devido lugar &#8211; porque ao fazê-lo reconhecemos simultaneamente a sua insuficiência, sua condição de emblema de uma realidade impalpável, transcendente e superior. Nós, que nunca beijamos os pés de uma Maria ou deixamos os joelhos tocar o mármore frio diante de um Crucificado, desconhecemos por completo esse assombro. Somos paupérrimos de conteúdo simbólico e virgens de transcendência; porque nos recusamos a tocar o material, somos privados da realidade intangível a que as coisas silenciosamente remetem.</p>
<p>E precisamente nós de herança protestante, que não nos ajoelhamos diante de coisas, somos os que alçaram sacrilegamente as coisas a um patamar de valor que muito claramente as coisas não têm. Somos os inventores e os contínuos promotores do capitalismo industrial que gerou os holocaustos do <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/porque-nao-sou-de-direita/">neoliberalismo</a> contemporâneo; aperfeiçoamos a ciência do lucro, engendramos <a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/o-culto-da-performance/">o culto da performance</a> e evangelizamos o mundo com a terrível nova de que ser livre é ter a capacidade de adquirir. Vivemos em torres de <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/o-que-havia-sido-usurpado/">ganância</a>, oramos por prosperidade material, decretamos o insucesso financeiro dos nossos inimigos, dedicamos a vida a angariar os bens de que não iremos precisar &#8211; e chamamos o que <em>eles fazem</em> de idolatria.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug062.gif"></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2007/so-os-catolicos-sabem-o-que-e-a-graca/">Só os católicos sabem o que é a graça</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2008/o-holocausto-da-alma/">O holocausto da alma</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2009/a-reforma-e-a-psicotizacao-da-experiencia-materialistas-gracas-a-deus/">A Reforma e a psicotização da experiência</a></p>
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		<title>Cristo è risorto veramente</title>
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		<pubDate>Sun, 04 Apr 2010 10:46:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fé e Crença]]></category>
		<category><![CDATA[canções]]></category>

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		<description><![CDATA[Este documento contém clipes de áudio que só podem ser ouvidos na página da Bacia na internet. [Visite a Bacia para ouvir o áudio] Cristo è risorto veramente, alleluia! Gesù, il vivente, qui con noi resterà. Cristo Gesù, Cristo Gesù, è il Signore della vita. Morte, dov&#8217;è la tua vittoria? Paura non mi puoi far [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="center"><span style="color:#B0B0A0"><small>Este documento contém clipes de áudio que só podem ser ouvidos na <a href="http://www.baciadasalmas.com">página da Bacia</a> na internet.</small></span></p>
<p><center>[Visite a Bacia para ouvir o áudio]</center><br />
<em><br />
Cristo è risorto veramente, alleluia!<br />
Gesù, il vivente, qui con noi resterà.<br />
Cristo Gesù, Cristo Gesù, è il Signore della vita.</em></p>
<p>Morte, dov&#8217;è la tua vittoria? Paura non mi puoi far più.<br />
Se sulla croce io morirò insieme a Lui, poi insieme a Lui risorgerò.</p>
<p><em>Cristo è risorto veramente, alleluia!<br />
Gesù, il vivente, qui con noi resterà.<br />
Cristo Gesù, Cristo Gesù, è il Signore della vita.<br />
</em><br />
Tu, Signore, amante della vita, mi hai creato per l&#8217;eternità.<br />
La vita mia tu dal sepolcro strapperai, con questo mio corpo ti vedrò.</p>
<p><em>Cristo è risorto veramente, alleluia!<br />
Gesù, il vivente, qui con noi resterà.<br />
Cristo Gesù, Cristo Gesù, è il Signore della vita.</em></p>
<p>Tu mi hai donato la Tua vita, io voglio donar la mia a Te.<br />
Fa&#8217; che possa dire &#8220;Cristo vive anche in me&#8221; e quel giorno io risorgerò.<br />
<em><br />
Cristo è risorto veramente, alleluia!<br />
Gesù, il vivente, qui con noi resterà.<br />
Cristo Gesù, Cristo Gesù, è il Signore della vita.</em></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Mais nada</title>
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		<pubDate>Sun, 28 Mar 2010 08:35:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fé e Crença]]></category>
		<category><![CDATA[cristianismo]]></category>

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		<description><![CDATA[RS. Me diga, qual você acha é o futuro do cristianismo? BG. Bem, quanto ao cristianismo e quanto a ser um verdadeiro crente&#8230; sabe, acho que o que existe é o corpo de Cristo. Isso vem de todos os grupos cristãos ao redor do mundo, e de fora dos grupos cristãos. Acho que qualquer um [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>RS. </strong>Me diga, qual você acha é o futuro do cristianismo?</p>
<p><strong>BG. </strong>Bem, quanto ao cristianismo e quanto a ser um verdadeiro crente&#8230; sabe, acho que o que existe é o corpo de Cristo. Isso vem de todos os grupos cristãos ao redor do mundo, e de fora dos grupos cristãos. Acho que qualquer um que ama a Cristo, ou conhece a Cristo, é membro do corpo de Cristo quer isso seja consciente ou não. E não acho que veremos um grande avivamento que irá levar o mundo inteiro aos pés de Cristo. Penso que Tiago, o apóstolo Tiago no primeiro concílio em Jerusalém, tenha dado a resposta quando disse que o propósito de Deus para esta era é chamar um povo para levar o seu nome. É isso que Deus está fazendo hoje: chamando do mundo pessoas para levarem o seu nome, quer essas pessoas venham do mundo muçulmano, do mundo budista, do mundo cristão ou do mundo agnóstico; são membros do corpo de Cristo porque foram chamados por Deus. Pode ser gente que nem mesmo conhece o nome de Jesus, mas sabe em seu coração que carece de algo que não tem, e segue a única luz que tem. Penso que esses sejam salvos, e estarão conosco no céu.</p>
<p><strong>RS. </strong>O quê? Estou ouvindo você dizer que é possível que Jesus Cristo entre no coração e na alma e na vida de um ser humano, mesmo quem nasceu nas trevas e nunca foi exposto à Bíblia? Essa é a interpretação correta do que você está dizendo?</p>
<p><strong>BG. </strong>É sim, porque é nisso que acredito. Conheci gente em diversas partes do mundo que vive em situações tribais, sem nunca ter visto a Bíblia ou ouvido a respeito da Bíblia, sem nunca ter ouvido de Jesus, mas que cria em seu coração que há um Deus e procurou viver uma vida distinta da comunidade que o cercava e em que vivia.</p>
<p><strong>RS. </strong>Estou profundamente emocionado de ouvir você dizendo isso. Há uma largueza na graça de Deus.</p>
<p><strong>BG. </strong>Sem dúvida. Definitivamente há.</p>
<p align="right"><small><strong>Billy Graham</strong><br />
em entrevista com Robert Schuller, 31 de maio de 1997 </small></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Viajar ao redor do mundo e conhecer o clero de todas as denominações ajudou a moldar-me num ser ecumênico. Estamos separados pela teologia e, em alguns casos, pela cultura e pela raça, mas essas coisas não significam mais nada para mim.</p>
<p align="right"><small><strong>Billy Graham</strong><br />
<em> U.S. News &#038; World Report</em>, 19 de dezembro de 1988</small></p>
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		<title>A impenitente fornicação cristã</title>
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		<pubDate>Mon, 15 Mar 2010 10:01:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fé e Crença]]></category>
		<category><![CDATA[cristianismo]]></category>
		<category><![CDATA[jesus]]></category>

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		<description><![CDATA[Tenho um amigo que é um santo secular, absolutamente sem religião, que concilia as façanhas de ser homem de família, artista irretocável e portador das boas novas aos pobres (sendo que eu, naturalmente, não sou nenhuma dessas coisas). «E você, Paulo, tem heróis?»Certa vez esse sujeito estava falando comigo sobre outro cara, amigo dele, que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Tenho um amigo que é um santo secular, absolutamente sem religião, que concilia as façanhas de ser homem de família, artista irretocável e portador das boas novas aos pobres (sendo que eu, naturalmente, não sou nenhuma dessas coisas). <span style="float:right; text-align:right; width:35%; color:#7c836d; margin:12px 0 12px 12px; font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps; font-size:1.4em; line-height: 1.3em">«E você, Paulo, tem heróis?»</span>Certa vez esse sujeito estava falando comigo sobre outro cara, amigo dele, que ele considera ser ao mesmo tempo artista mais notável e muito mais engajado nas questões sociais do que ele mesmo, um cara que meu amigo tem por seu <em>herói pessoal</em>.</p>
<p>Nesse momento ele parou o seu relato para perguntar:</p>
<p>&#8211; E você, Paulo, tem heróis?</p>
<p>Apanhado de surpresa, ocorreu-me responder de modo ao mesmo tempo provocativo e sincero. Ergui uma sobrancelha e arrisquei, como se estivesse em grande dúvida:</p>
<p>&#8211; Jesus?</p>
<p>&#8211; Jesus não vale &#8211; exigiu meu amigo. &#8211; <em>Jesus é o herói de todo mundo.</em></p>
<p>Achei aquilo fascinante, tanto a noção de que Jesus pudesse ser o herói secreto daqueles que não usurpam o seu nome quanto a ideia subjacente, de que mesmo quem admira Jesus carece sensualizá-lo, encontrar-se efetivamente com ele numa pessoa de carne e osso que adequadamente encarne os seus valores e desafios. Eu conhecia uma pessoa assim, o Néviton Marci, mas antes que pudesse mencionar o nome dele meu amigo avançou seu argumento. Sabendo que minha menção a Jesus tinha sido em grande parte uma provocação sobre sua postura arreligiosa, ele prosseguiu:</p>
<p>&#8211; E você sabe muito bem que eu tenho um relacionamento de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Amor_plat%C3%B4nico">amor platônico</a> com o cristianismo &#8211; e, para explorar todas as possibilidades da metáfora, arrematou: &#8211; Eu não <em>fodo</em> com o cristianismo como vocês fazem.</p>
<p>Eu, que nunca tinha visto meu amigo recorrer a um palavrão, tive de render-me imediatamente a sua lógica, sua lucidez e sua indignação. Porque quanto mais nós cristãos tentamos <em>foder</em> com o cristianismo, no sentido de <em>conhecê-lo</em> (biblicamente falando) e de nos <em>relacionarmos intimamente</em> com ele, mais acabamos <em>fodendo</em> com ele, no sentido de <em>arruiná-lo</em> juntamente com a sua reputação. Deveria nos parecer evidente que ler, escrever, estudar e tagarelar incessantemente sobre Deus e sobre a Bíblia, seja em livros ou blogs, no rádio ou na tv, na igreja ou no local de trabalho, não tem <em>absolutamente qualquer</em> relação de fidelidade com a herança de Jesus ou com os desafios deixados pela sua mensagem. Gente sem religião como meu amigo e seu herói, que não usurpa publicamente o nome do Filho do Homem, é capaz de levar adiante a sua boa nova e honrar a sua herança de forma muito mais aperfeiçoada do que o mais inatacável e articulado dos cristãos. Porque, muito evidentemente, o reino de Deus não consiste em palavra, mas em poder.</p>
<p>Aplica-se aqui, de forma irretocável e como sempre, a parábola do fariseu e do cobrador de impostos. Por um lado, os cristãos somos os fariseus que agradecem em voz alta, na luz de um palco que construímos para nós mesmos, a dádiva de não sermos pecadores como os irreligiosos; por outro, os irreligiosos que fazem avançar secretamente o reino são como o cobrador de impostos, que não ousam assumir a ribalta e não se consideram dignos de levantar a cabeça nem mesmo para proferir o nome do herói cuja herança poluímos. Fique muito claro, porque esse mesmo Jesus deixou-o muito claro, que não seremos nós a merecer o abraço de confidência do mestre.</p>
<p>O que fode com o cristianismo somos nós.</p>
<h5>* * *</h5>
<p>&nbsp;</p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/temor-e-fe/">Temor e fé</a><br />
<small>&#8220;Restam a Deus, em nossos dias, para fazer a sua vontade, os ateus. Deixem-nos fazer o bem sem esperar nada em troca. Deus faz o mesmo&#8221;.</small><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/o-ultimo-cristao/">O último cristão</a><br />
<small> &#8220;O último cristão pode muito bem ser o primeiro&#8221;.</small></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug075.gif"></p>
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		</item>
		<item>
		<title>Carta a um homem que pede que eu o ensine como orar</title>
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		<pubDate>Sat, 06 Feb 2010 09:56:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fé e Crença]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[cristianismo]]></category>
		<category><![CDATA[pessimismo]]></category>

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		<description><![CDATA[Caro Z., Obrigado pela sua mensagem, pelo carinho e pelos comentários sobre o livro. Nem de perto imagino as dificuldades da sua presente situação, mas o fato é que não tenho respostas definitivas a oferecer aos seus questionamentos &#8211; e, mais importante, você não deveria acreditar em mim se eu afirmasse que tivesse. Você pergunta [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro Z.,</p>
<p>Obrigado pela sua mensagem, pelo carinho e pelos comentários sobre o livro.</p>
<p>Nem de perto imagino as dificuldades da sua presente situação, mas o fato é que não tenho respostas definitivas a oferecer aos seus questionamentos &#8211; e, mais importante, você não deveria acreditar em mim se eu afirmasse que tivesse.</p>
<p>Você pergunta como e por que uma pessoa sem religião &#8211; &#8220;sem um ato espiritual, que pisou uma igreja somente em seu batismo e não tem o hábito de orar&#8221; &#8211; pode prosperar. O que posso dizer é que variações deste questionamento aparecem constantemente ao longo do Antigo Testamento (por exemplo, no salmo 73).</p>
<p>O que o Novo Testamento faz, como em todos os assuntos, é reverter a pergunta: porque uma pessoa sem Deus não deveria prosperar? Deus derrama o seu sol e faz chover sobre justos e injustos. Melhor ainda: porque uma pessoa com Deus deveria prosperar? Na verdade, há inequívocas indicações no Novo Testamento de que seguir Jesus é seguir o seu caminho de renúncia, sofrimento, anulação e desintegração. A teologia da prosperidade não encontra qualquer brecha nesta boa nova.<span style="float:right; text-align:right; width:35%; color:#7c836d; margin:12px 0 12px 12px; font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps; font-size:1.4em; line-height: 1.3em">Cabe aos homens, e não a Deus, corrigir as injustiças deste mundo.</span> O que está dito aqui é &#8220;quem quiser me seguir negue-se a si mesmo tome a sua cruz&#8221; e &#8220;basta a cada dia o seu mal&#8221;. Ou ainda, minha expressão favorita, encontrada em Atos 14:22: &#8220;por muitas tribulações nos é necessário entrar no reino de Deus&#8221;.</p>
<p>Será então verdade que o cristianismo é um movimento essencialmente pessimista? Sim e não. O que os seus primeiros proponentes deixam claro é que quem quiser seguir Jesus (e ele mesmo deixou claro que ninguém é obrigado!) deve estar disposto a deixar tudo para trás a fim de assumir um novo caminho. A estranhíssima vocação de um seguidor de Jesus é encontrar a paz mitigando o sofrimento dos outros, e não o seu próprio.</p>
<p>Para Jesus e os demais autores do NT, o problema do mundo dos homens é que ele é totalmente implacável; precisamente como animais, as pessoas só buscam solução para os seus próprios apetites, deixando pouco ou nenhum espaço para misericórdia, para a inclusividade e para o respeito interpessoal. É justamente porque o mundo é implacável que você foi demitido e ainda não encontrou espaço para voltar ao mercado. Na grelha do capitalismo, cair para o fogo aos 56 anos de idade é considerado trajeto sem volta.</p>
<p>A boa nova, como apresentada por Jesus, é que <a href="http://www.baciadasalmas.com/2009/uma-ousada-e-intransigente-demanda/">o reino de Deus</a> foi inaugurado, e nesta nova realidade todos devem trabalhar de forma voluntária e consistente para que o mundo se torne menos implacável. Neste reino todos devem dar um passo além da carne (ou seja, dar um passo além das limitações da natureza humana), e aprender a <a href="http://www.baciadasalmas.com/2009/nenhum-motivo-e-nenhuma-recompensa/">imitar a Deus</a> em sua inclusividade e generosidade. <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/arrepender-se-e-mudar-o-mundo">Arrepender-se é mudar o mundo</a>.</p>
<p>Basta olhar ao redor para ver que este é um processo que está longe de estar sendo implantado satisfatoriamente. Mais do que isso, Jesus deixou suficientemente claro que a boa nova é de tal natureza que não devemos esperar ser nós mesmos beneficiados por ela; o que cada um pode esperar é meramente fazer sua parte para que o mundo se mostre menos implacável e injusto <em>para os outros</em>. O mundo dos afetados pelas nossas omissões é o único que podemos mudar.</p>
<p>Desde o tempo de Jó uma importante linha de pensamento dentro da Bíblia defende a idéia de que as coisas não acontecem neste mundo a partir de uma lógica de retribuição. Neste mundo não é que os bonzinhos e esforçados são premiados e os malvados punidos e confundidos. Como deixa claro o próprio livro de Jó, o mistério é mais profundo e não há respostas fáceis para o problema do sofrimento.</p>
<p>O escândalo do Novo Testamento está em sugerir que não apenas a religião não é necessária para sermos beneficiados <a href="http://www.baciadasalmas.com/2009/mapeando-o-deus-que-nao-faz-barganhas/">pela graça divina</a>, mas que cabe aos homens, e não a Deus, corrigir as injustiças deste mundo. Isso se faz quando nos arrependemos &#8211; isto é, quando passamos a imitar Deus em sua disponibilidade assombrosa de dar e dar-se.</p>
<p>Na lógica exigente da boa nova é por minha culpa que você está desempregado, e amenizar as durezas da sua condição é de minha única responsabilidade. Não posso pedir que Deus faça isso, e não posso esperar que outra pessoa o faça.</p>
<p>Numa palavra, não posso ensinar você a orar, mas posso oferecer um abraço, um beijo e um lugar à mesa. Mande seu telefone que quero ligar pra gente conversar.</p>
<p>Abração</p>
<p>PB </p>
]]></content:encoded>
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		<title>Brabo em castelhano</title>
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		<pubDate>Sat, 30 Jan 2010 11:19:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fé e Crença]]></category>
		<category><![CDATA[The Net]]></category>
		<category><![CDATA[os livros da bacia]]></category>

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		<description><![CDATA[La intolerancia religiosa ha de ser tan antigua propia­mente como la idea de religión. Pero el dudoso mérito de los cristianos (a partir de ahora uso el término “cristianos” en su peor acepción, que es también la única acepción) es la de haber refinado el concepto de intolerancia religiosa asociándolo alternativa­mente a la esclavitud, a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<blockquote><p>La intolerancia religiosa ha de ser tan antigua propia­mente como la idea de religión. Pero el dudoso mérito de los cristianos (a partir de ahora uso el término “cristianos” en su peor acepción, que es también la única acepción) es la de haber refinado el concepto de intolerancia religiosa asociándolo alternativa­mente a la esclavitud, a la tortura y a la muerte en gran escala.</p></blockquote>
<p><a href="http://monjaguerrillera.com/tag/paulo-brabo/"> <img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2010/bits/santo-paulo-copia.jpg" title="Lo que Ha­ría Jesús en Seis Pasos" border=0 class="alignright" /></a></p>
<p>A impenitentíssima e incansável <a href="http://monjaguerrillera.com">Monja Guerrillera</a>, que tem dado meritório e abundante testemunho de sua fidelidade ao <a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/1-viva-a-intolerancia/">Primeiro Passo</a>, está (com minha conivência e de seu posto monacal no <em>Monte dos Eucaliptos</em><sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/brabo-em-castelhano/#footnote_0_2176" id="identifier_0_2176" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="Uma por&ccedil;&atilde;o a&eacute;rea, alada e imagin&aacute;ria da grande Buenos Aires.">1</a></sup>), traduzindo meu panfleto <a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/1-viva-a-intolerancia/">Em seis passos o que faria Jesus</a> para o idioma de Borges e de Cervantes.</p>
<p>A quem interessar possa cabe, portanto, recomendar e embarcar na leitura (a tradução está em andamento) de <a href="http://monjaguerrillera.com/tag/paulo-brabo/"><strong>Lo que Ha­ría Jesús en Seis Pasos</strong></a>.</p>
<p>Quanto a você, Gaby, este é o tipo de disciplina monástica que traz embutida em si sua própria punição; é o tipo de glória que traz em si sua própria vergonha. Apenas não nos cabe imaginar que nosso trabalho se verá concluído, ou que nossos sucessos devam ser capazes de nos prover qualquer conforto. Esta é a natureza da guerrilha, e seu único método.</p>
<p>A luta continua.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug015.gif"></p>
<b><small>NOTAS</small></b><ol class="footnotes"><li id="footnote_0_2176" class="footnote">Uma porção aérea, alada e imaginária da grande Buenos Aires.</li></ol>]]></content:encoded>
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		<title>Por que ir à igreja é o menor dos seus problemas</title>
		<link>http://www.baciadasalmas.com/2010/por-que-ir-a-igreja-e-o-menor-dos-seus-problemas/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=por-que-ir-a-igreja-e-o-menor-dos-seus-problemas</link>
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		<pubDate>Mon, 11 Jan 2010 20:26:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fé e Crença]]></category>
		<category><![CDATA[cristianismo]]></category>
		<category><![CDATA[jesus]]></category>
		<category><![CDATA[reino de deus]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.baciadasalmas.com/?p=2162</guid>
		<description><![CDATA[Estou inteiramente convicto (e já devo ter deixado suficientemente clara essa posição) de que a fidelidade de uma pessoa ao ensino, à herança e às expectativas de Jesus não tem nenhuma relação com a assiduidade da participação dessa pessoa nas atividades de uma agremiação religiosa de sua escolha. Sou ao mesmo tempo obrigado a apontar [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Estou inteiramente convicto (e já devo ter deixado suficientemente clara essa posição) de que a fidelidade de uma pessoa ao ensino, à herança e às expectativas de Jesus não tem nenhuma relação com a assiduidade da participação dessa pessoa nas atividades de uma agremiação religiosa de sua escolha. Sou ao mesmo tempo obrigado a apontar constantemente, através de citações e circunlóquios, que nada há de novo ou de original nessa idéia aparentemente revolucionária. Seria especialmente inexato chamá-la de revelação recente, visto que essa mesma noção tende a voltar periodicamente à tona ao longo dos séculos, e já esteve presente, por exemplo, na boca coletiva de Erasmo, de Tolstói, de Dostoiévski, de H. G. Wells, de Harnack, de Feuerbach, de Kierkegaard, de Simone Weil, de Bonhoeffer e &#8211; ainda mais tremendo e prenhe de consequências &#8211; do próprio Jesus, <a href="http://www.baciadasalmas.com/2007/como-perder-jesus-de-vista-no-livro-de-atos/">de seus primeiros seguidores</a> e de seus primeiros biógrafos.</p>
<p>Por outro lado, é inteiramente natural que a idéia soe inédita e subversiva a cada vez que é articulada. Porque, se for verdade (como vejo que é), e se for cada vez mais aceita como verdade (como penso que está sendo, e por inúmeros motivos), haverá portentosas consequências para todo mundo.</p>
<p>Haverá, por exemplo, graves consequências para as próprias agremiações de que estamos falando. Outro dia alguém me escreveu, em tom de jocosa provocação, perguntando o que deveriam fazer os pastores evangélicos se todas as suas ovelhas seguissem os passos do Paulo Brabo e deixassem sumariamente de frequentar suas próprias igrejas. A resposta, que mandei imediatamente, não poderia ter sido mais enfática: &#8220;deveriam, <em>evidentemente</em>, tomar por concluída a sua tarefa!&#8221;</p>
<p>Se essa noção for sendo aceita como verdadeira, haverá ainda toda uma gama de consequências para os próprios frequentadores e ex-frequentadores de igreja, bem como para os candidatos a uma coisa e outra. Em especial, o que persiste no ar neste momento (em que um número cada vez maior de cristãos parece estar inteiramente pronto a debandar sensatamente do jugo da formalidade eclesiástica e abraçar a vertiginosa vocação do cristianismo secular) é a tentação de pensar que o ato escrupuloso e heróico de deixar de ir à igreja representa o atingimento de uma nova e notável estirpe de maturidade espiritual, um nirvana ao qual a massa dos igrejeiros, em sua cegueira e obtusidade, parece estar tão distante de alcançar.</p>
<p>É hora, evidentemente, de tratar deste assunto, e esta é a justificativa destas reflexões. Porque pode ser que você sinta-se finalmente pronto para dar o definitivo e corajoso passo na direção de Deus e para longe da religião; talvez você sinta-se enfaticamente chamado a participar da esclarecida elite dos que entenderam a mensagem secreta de Jesus e estão prontos a abraçar as consequências rigorosíssimas desta gnose; talvez você sinta-se inequivocamente desafiado a abandonar os confortos da igreja institucional em favor do cristianismo puro e simples daquele que não tinha, não tem e não terá onde reclinar a cabeça.</p>
<p>Pois se você se encaixa neste perfil, jovem candidato, o que você precisa ouvir é que a motivação legítima para abandonar a instituição deve ser a custosa consciência de não ser melhor do que ninguém, e não a gostosa conclusão de ter alcançado maior compreensão do que alguns; deve ser a insana disposição de abraçar a comunhão com todos, não a elite com uns poucos; deve nascer de uma nova capacidade de encontrar sensatez em todas as tradições religiosas, e não de uma velha habilidade de apontar adequadamente os defeitos da sua. Deve estar relacionada à vontade de abrir todas as portas, e não ao alívio de ver fechada uma. Antes de decidir deixar de fazê-lo, é preciso sacar que frequentar uma igreja é provavelmente o menor dos seus problemas.</p>
<p>A verdade, incrivelmente, é que Jesus não veio libertar você ou quem quer que seja daquilo que costumo chamar de igreja formal ou institucional.</p>
<p>Ele deixou claro, e disso não deve haver dúvida, que cada seguidor seu deve ser capaz de  abraçar simultaneamente o peso da liberdade e a graça da responsabilidade. Ele chegou a dizer que este seria um caminho estreito, adotado por poucos ou com muito custo, mas não chegou a dizer onde o caminho levaria ou o que exigiria &#8211; provavelmente porque cada um teria de encontrar sua própria resposta, e no final haveria uma resposta para cada pessoa. Ele sem qualquer dúvida denunciou espetacularmente as armadilhas e tentações da religiosidade formal e mostrou-se invariavelmente pronto a criticar os religiosos profissionais em sua missão autoimposta e diabólica de semear a culpa e endossar a opressão. Por outro lado, e deve ser a hora de enfatizarmos isso, Jesus não chegou a convidar uma única pessoa, fosse um judeu trêmulo ou um carola romano pagão, a abandonar ou rejeitar sua própria tradição religiosa.</p>
<p>A tremenda singularidade dos evangelhos não está na revelação de que Deus não exige os sacrifícios da religiosidade e não encontra prazer neles; isso os profetas haviam deixado suficientemente claro quatrocentas páginas antes. A reviravolta trazida pelo exemplo, pela palavra e pela pessoa de Jesus é, como em tudo que diz respeito a ele, ao mesmo tempo mais exigente e mais sutil; é ao mesmo tempo mais pessoal e mais universal. Jesus não veio libertar o homem religioso das instituições religiosas, veio libertar a humanidade inteira de um paradigma ainda mais debilitante e infantilizante, de uma visão de mundo que chamarei, em regime temporário e na falta de melhor termo, de espiritualidade devocional.</p>
<p>Em tudo que faz e diz Jesus ao longo dos evangelhos promove a demolição dessa estirpe devocional de espiritualidade, propondo em seu lugar uma nova e revolucionária alternativa &#8211; uma espiritualidade, por assim dizer, existencial. Ao longo desta série de artigos quero deixar claro esta distinção e este método.</p>
<p>O fato é que a espiritualidade devocional é de tal modo insidiosa que você pode abandonar a igreja formal e ainda permanecer inteiramente aleijado pela espiritualidade devocional; em contraste, há os que permanecem voluntariamente debaixo das disciplinas (sempre arbitrárias) da instituição mas já foram inteiramente salvos das cadeias e escamas da espiritualidade devocional, e estes de nada mais precisam ser libertos. É por isso que é preciso ficar claro que deixar de ir à igreja não resolve nenhum problema e não envolve mérito algum. Frequentar a igreja é nada, e deixar de fazê-lo nada é; pelo contrário, sete demônios novos podem estar prontos para assumir o lugar daquele que você pensa que expulsou.</p>
<p>Aquilo de que precisamos ser salvos é da espiritualidade devocional &#8211; em favor de uma espiritualidade essencial e existencial, e isso pela exposição ao espírito subversivo de Jesus. É verdade que, em termos estritos, nenhuma manifestação exclusivista e proselitista de religião formal sobreviverá (e estou agora esperando que tudo dê certo) à vitória final da espiritualidade existencial. O que teremos na conclusão será uma forma inegociavelmente <a href="http://www.baciadasalmas.com/2007/pedir-demais/">generosa e inclusiva de ortodoxia</a>, mas esta é outra história. A missão de Jesus não é acabar com a religião. Embora a capitulação da religiosidade seja o resultado inevitável da assimilação universal da sua mensagem, seu cerne pulsante reside em outro lugar: no convite, no anúncio e na iminência do reino de Deus.</p>
<p>O que posso adiantar é que a espiritualidade devocional, que Jesus veio abolir, procura se expressar e se manter inteligível e relevante através de palavras e conceitos, e a espiritualidade existencial só sabe fazê-lo através de pessoas. A espiritualidade devocional procura encontrar Deus em todo lugar; a espiritualidade existencial procurar fornecer Deus a todos. A espiritualidade devocional tem sonhos e escrúpulos, a existencial não tem ilusões; a espiritualidade devocional pede confortos para si, a existencial provê conforto para os outros; a espiritualidade devocional submete-se à ilusão da vontade do grupo, a existencial exige o preço do autoconhecimento; a espiritualidade devocional busca sinais de que Deus esteja ouvindo, a existencial busca fornecê-los. A espiritualidade devocional almeja a intervenção de Deus e o controle do homem, a espiritualidade existencial quer a intervenção do homem e o reino de Deus.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug020.gif"></p>
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		<title>Resumindo</title>
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		<pubDate>Mon, 14 Dec 2009 09:48:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fé e Crença]]></category>
		<category><![CDATA[cristianismo]]></category>
		<category><![CDATA[jesus]]></category>
		<category><![CDATA[os livros da bacia]]></category>

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		<description><![CDATA[No curso de seu ministério Jesus disse mais vezes &#8220;vá para casa&#8221; do que &#8220;venha me seguir&#8221;. A igreja deve ser capaz de adquirir essa maturidade. Leia também: A luta de Jesus pela independência: a sua Crônica de uma morte anunciada]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>No curso de seu ministério Jesus disse mais vezes &#8220;vá para casa&#8221; do que &#8220;venha me seguir&#8221;. A igreja deve ser capaz de adquirir essa maturidade.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug030.gif"></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2007/a-luta-de-jesus-pela-independencia-a-sua/">A luta de Jesus pela independência: a sua</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2007/cronica-de-uma-morte-anunciada/">Crônica de uma morte anunciada</a></p>
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		<title>Bíblia Conservadora: Jesus não perdoa</title>
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		<pubDate>Fri, 04 Dec 2009 14:06:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fé e Crença]]></category>
		<category><![CDATA[bíblia]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>

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		<description><![CDATA[A Bíblia Conservadora é um projeto que tem por objetivo apresentar a palavra de Deus em inglês contemporâneo, removendo ao mesmo tempo as distorções liberais. The Conservative Bible Project &#160; Em agosto deste ano Andy Schlafly lançou o Projeto da Bíblia Conservadora em seu conservapedia.com,«O erro dessas passagens está em ensinar às pessoas que podem [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>A Bíblia Conservadora é um projeto que tem por objetivo apresentar a palavra de Deus em inglês contemporâneo, removendo ao mesmo tempo as distorções liberais.</em></p>
<p align="right"><small><a href="http://www.conservapedia.com/Conservative_Bible_Project"><strong>The Conservative Bible Project</strong></a></small></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Em agosto deste ano Andy Schlafly lançou o <em>Projeto da Bíblia Conservadora</em> em seu conservapedia.com,<span style="margin: 12px 0pt 12px 12px; float: right; text-align: right; width: 35%; color: #7c836d; font-family: georgia,times new roman,serif; font-variant: small-caps; font-size: 1.6em; line-height: 1.3em;">«O erro dessas passagens está em ensinar às pessoas que podem fazer o que quiserem e serão perdoadas.»</span> sáite fundado em 2006 para corrigir o suposto viés liberal da <a href="http://pt.wikipedia.org">wikipédia</a>.</p>
<p>Até agora o <em>Projeto da Bíblia Conservadora</em>, fundado por Schlafly de seu próprio bolso, completou um terço do Novo Testamento e de Gênesis. As mudanças mais controversas são a eliminação do Novo Testamento das histórias em que Jesus perdoa a mulher adúltera e perdoa seus perseguidores na cruz.</p>
<p>&#8220;O erro fundamental dessas passagens está em ensinar às pessoas que podem fazer o quiserem e serão perdoadas, mesmo se não se arrependerem&#8221;, afirmou Schlafly.</p>
<p>Schlafly observa &#8211; corretamente &#8211; que ambas as cenas não constam dos manuscritos mais antigos. Para ele, isso comprova que nunca aconteceram.</p>
<p>&#8220;Os liberais amam a cena do apedrejamento porque podem usá-la contra a pena de morte&#8221;, disse Schlafly. &#8220;Mas naquela época eles não apedrejavam mulheres: eles as estrangulavam&#8221;.</p>
<p>Ele também culpa os acadêmicos liberais por terem feito com que as traduções bíblicas do século XX, como a <em>Nova Versão Internacional</em>, promovessem o socialismo, o antiamericanismo e o feminismo, minimizando o julgamento de Deus e os horrores do inferno.</p>
<p>Seria fácil desprezar Schlafly como um excêntrico sem credibilidade, não fosse o fato de que sua <a href="http://www.conservapedia.com">conservapedia.com</a> acumula dezenas de milhões de visitas e está presente na lista dos 50 maiores sáites conservadores dos Estados Unidos, segundo o RightWingNews.com</p>
<p align="right"><small>Mark Barna, <a href="http://www.gazette.com/articles/bible-89400-hits-one.html"><strong>Conservative bible hits cyberspace</strong></a></small></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A Bíblia Conservadora obedece as seguintes diretivas:</p>
<ul>
<li><strong>Sistema de referência contra o viés liberal</strong>;</li>
<li><strong>Não emasculada</strong>, evitando linguagem <em>unisex </em>e outras distorções feministas;</li>
<li><strong>Utiliza potentes termos conservadores</strong>, atualizando palavras como &#8220;palavra&#8221;, &#8220;paz&#8221; e &#8220;milagre&#8221;;</li>
<li><strong>Aceita a lógica do inferno</strong>, jamais negando ou minimizando a existência do inferno ou do diabo;</li>
<li><strong>Expressa as parábolas do livre mercado</strong>, esclarecendo as numerosas parábolas econômicas em seu completo sentido de livre mercado;</li>
<li><strong>Exclui passagens não-autênticas inseridas posteriormente</strong>: remove passagens interpoladas sobre as quais os liberais baseiam seus argumentos, como a história da mulher adúltera.</li>
</ul>
<p align="right"><small><a href="http://www.conservapedia.com/Conservative_Bible_Project"><strong>The Conservative Bible Project</strong></a></small></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug033.gif"></p>
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		<title>Plano mestre</title>
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		<pubDate>Tue, 01 Dec 2009 11:19:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fé e Crença]]></category>
		<category><![CDATA[cristianismo]]></category>
		<category><![CDATA[reforma protestante]]></category>

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		<description><![CDATA[Sola scriptura quer dizer que só as palavras devem ser defendidas; o resto do mundo e das pessoas pode ser eliminado com segurança. Sola fide quer dizer que tudo que devo fazer é acreditar; qualquer tentação de agir com integridade pode ser combatida com segurança. Sola gratia quer dizer que fui aceito somente pela graciosidade [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Sola scriptura</em> quer dizer que só as palavras devem ser defendidas; o resto do mundo e das pessoas pode ser eliminado com segurança.</p>
<p><em>Sola fide</em> quer dizer que tudo que devo fazer é acreditar; qualquer tentação de agir com integridade pode ser combatida com segurança.</p>
<p><em>Sola gratia</em> quer dizer que fui aceito somente pela graciosidade de Deus; enquanto não reconhecerem a mesma coisa, as demais pessoas podem ser condenadas com segurança.</p>
<p><em>Solus Christus</em> quer dizer que só o Cristo de Paulo deve ser levado em conta; o Jesus dos evangelhos pode ser ignorado com segurança.</p>
<p><em>Soli Deo gloria</em> quer dizer que tudo que Deus exige e merece é louvor; de todo o resto posso apropriar-me com segurança.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug035.gif"></p>
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		<title>A Reforma e a psicotização da experiência: materialistas, graças a Deus</title>
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		<pubDate>Mon, 30 Nov 2009 09:17:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fé e Crença]]></category>
		<category><![CDATA[Sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[catolicismo]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[reforma protestante]]></category>

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		<description><![CDATA[Foi meu amigo psicologando Ivan quem primeiro expôs-me a noção de que uma das marcas que definem a condição de psicose é a incapacidade de compreender o mundo em termos simbólicos. No mundo do psicótico não existe metáfora, parábola, representação, poesia, associação ou alusão. Não há jogo de significações. Seu pensamento, que equivale à sua [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Foi meu amigo psicologando Ivan quem primeiro expôs-me a noção de que uma das marcas que definem a condição de <em>psicose </em>é a incapacidade de compreender o mundo em termos simbólicos. No mundo do psicótico não existe metáfora, parábola, representação, poesia, associação ou alusão. Não há jogo de significações. Seu pensamento, que equivale à sua experiência, é rigorosamente concreto e literalista. Um neurótico &#8211; isto é, uma pessoa normal &#8211; enxerga uma palavra cercada por uma aura sempre cambiante de sentidos, interpretações, alusões, metáforas e ambivalências. Para o psicótico, não existe dúvida nem ambivalência: significante e significado são uma mesma e implacável coisa. Para o psicótico, um domínio da experiência não é refletido ou mapeado por outro. Nada remete:<span style="float:right; text-align:right; width:37%; color:#7c836d; margin:12px 0 12px 12px; font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps; font-size:1.4em; line-height: 1.3em">É graças à Reforma que somos todos materialistas.</span> a representação é ela mesma a coisa, e tudo que existe é o literal.</p>
<p>As peculiaridades dessa condição tornam o psicótico em grande parte impermeável à psicanálise &#8211; que requer, por definição, a resignificação de elementos simbólicos e a reelaboração de mitos e metáforas. Como para o psicótico não existem mitos nem metáforas, tudo tudo é duramente pé-da-letra, seu espírito está condenado a vagar em regime perene pela concretude, sem ser jamais capaz de enxergar a luz e adentrá-la.</p>
<p>Neurótico como sou, não pude deixar de encontrar espreitando nessa noção sua própria e necessária metáfora. Bastará voltar, como devemos sempre fazer, àquele que talvez seja o documento mais importante jamais armazenado nesta Bacia: <a href="http://www.baciadasalmas.com/2008/o-holocausto-da-alma/">O holocausto da alma</a>, que consiste essenciamente na tradução que fiz de um artigo de Peter Harrisson.</p>
<p>Ali está escrito que a Reforma Protestante, com sua ênfase no sentido literal da Escritura (&#8220;literalismo implica em que apenas palavras referem; coisas da natureza não&#8221;), não apenas trabalhou no sentido de expurgar da experiência cristã qualquer manifestação simbólica, de poesia, metáfora ou transversalidade (coisas que ainda permeiam, por exemplo, a vivência do catolicismo); esse modo &#8220;concreto&#8221; e &#8220;literalista&#8221; de enxergar a existência acabou contaminando ainda toda a cosmovisão ocidental, mesmo para os que vivem fora do alcance dos telhados eclesiásticos.</p>
<p>Os reformadores apostaram todas as suas cartas na suficiência do literal; isso implicava em atestar a supremacia de uma leitura científica &#8220;realista&#8221; em detrimento de abordagens mais simbólicas, alegóricas e literárias do texto. A Bíblia era para ser entendida como testemunho literal de uma realidade &#8220;concreta&#8221;, e nisso deveria confirmar os crivos empíricos da ciência e ser confirmada por eles. Com o arrastar dos séculos, no entanto, a ênfase no literal acabou voltando-se contra  a própria Bíblia: a ciência finamente desvalidou a própria literalidade da Bíblia &#8211; via Darwin, por exemplo.</p>
<p>A ciência vencera e hoje reina suprema. Os elementos da natureza foram esvaziados de seu valor simbólico e a Bíblia de sua essência metafórica e mítica. Depois de insistirem por séculos que o cerne vital da Bíblia jazia na sua literalidade, os herdeiros do protestantismo ficaram sem graça de mudar o seu discurso e apontar que sua verdadeira e transformadora relevância é metafórica. Ridicularizamos por tanto tempo as parábolas que perdemos a capacidade de levá-las a sério &#8211; isto é, de lê-las como parábolas. E, quando, começamos, já era tarde demais: é graças à Reforma que somos todos materialistas.</p>
<p>Somos hoje em dia todos psicóticos funcionais, sem verdadeiro acesso à poesia e à metáfora. E os cristãos sequer se contentaram em limitar sua obra a seus próprios arraiais. Psicotizamos a própria experiência.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug036.gif"></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2008/o-holocausto-da-alma/">O holocausto da alma</a><br />
<a href="http://elienaijr.wordpress.com/2009/07/30/por-que-os-evangelicos-sao-tao-crentes-mas-tao-feios">Porque os evangélicos são tão crentes mas tão feios</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2005/a-segunda-encarnacao-do-verbo/">A segunda encarnação do Verbo</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2009/pequenas-narrativas-parciais/">Pequenas narrativas parciais</a></p>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>Ainda sobre a ameaça muçulmana</title>
		<link>http://www.baciadasalmas.com/2009/ainda-sobre-a-ameaca-muculmana/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=ainda-sobre-a-ameaca-muculmana</link>
		<comments>http://www.baciadasalmas.com/2009/ainda-sobre-a-ameaca-muculmana/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 19 Nov 2009 23:56:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Divino preconceito]]></category>
		<category><![CDATA[cristianismo]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[islam]]></category>

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		<description><![CDATA[A versão curta: Nada há para temer. A versão longa: Há muitos sentidos em que é desnecessário e antiético semear o pânico acenando com uma iminente islamização do Ocidente, e O mundo está mudando &#8211; aparentemente o título do vídeo de propaganda anti-islâmica que mencionei há pouco e que, informaram-me por email, é versão brasileira [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A versão curta:</p>
<p>Nada há para temer.</p>
<p>A versão longa:<a href="http://www.baciadasalmas.com/images/2009/bits/gente-islam-b.jpg"> <img class="alignleft" title="Propaganda nazista versus propaganda evangélica: o mundo não está mudando" src="http://www.baciadasalmas.com/images/2009/bits/gente-islam.jpg" border="0" alt="" /> </a></p>
<p>Há muitos sentidos em que é desnecessário e antiético semear o pânico acenando com uma iminente islamização do Ocidente, e <em>O mundo está mudando</em> &#8211; aparentemente o título do <a href="http://www.baciadasalmas.com/2009/a-boa-noticia/"> vídeo de propaganda anti-islâmica que mencionei há pouco</a> e que, informaram-me por email, é versão brasileira de <a href="http://www.youtube.com/watch?v=yxn7MRkLP8I">uma produção norte-americana</a> &#8211; é exemplo acabado dessa mentalidade a ser denunciada.</p>
<p>Em primeiro lugar há o mais escancarado, o fato de que o vídeo (e sua mentalidade) empunham <a href="http://www.baciadasalmas.com/2009/a-transfiguracao-do-conflito/">a máscara da acusação</a> e promovem o caminho fácil da demonização do outro. Para os produtores do vídeo, o mundo não apenas será muçulmano, mas será um mundo certamente pior precisamente por essa razão. Está pelo menos implícito que os muçulmanos são gente <em>do mal</em>; que o Islam é uma mancha que está ameaçando com sua imundície o seio imaculado e cristão do Ocidente.</p>
<p>Esta tonalidade de discurso é especialmente mesquinha e perigosa, porque <a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/o-poder-dos-pesadelos-parte-13/">semear o medo</a> é um dos modos mais certeiros de se produzir alienação, estranhamento e intolerância &#8211; e, como bônus &#8211; controlar as massas.<a href="http://www.baciadasalmas.com/images/2009/bits/islam-alastra-01-b.jpg"> <img class="alignleft" title="Propaganda nazista versus propaganda evangélica: o mundo não está mudando" src="http://www.baciadasalmas.com/images/2009/bits/islam-alastra-01.jpg" border="0" alt="" /> </a></p>
<p>Não há como deixar de lembrar que foi essa a estratégia usada pelos nazistas para alienar os judeus. Multidões sem fim de alemães sensatos foram calados por esse discurso, e as ferramentas utilizadas para manipulá-los foram precisamente as mesmas a que recorre esse novo vídeo cristão.</p>
<p>Não havia ainda o <em>Youtube</em>, mas na Alemanha nazista os cidadãos também recorriam a artefatos culturais arbitrários a fim de orientarem suas posições. <em>Der Ewige Jude</em> (&#8220;O judeu eterno&#8221;, 1940), um dos filmes mais odiosos de todos os tempos, demonizava os judeus com praticamente os mesmos argumentos com que <em>O mundo está mudando</em> demoniza os muçulmanos (veja as imagens comparativas que ilustram este artigo).</p>
<p><em>Der Ewige Jude</em> alertava que, caso não fossem interrompidos imediatamente, os judeus dominariam o mundo; <em>O mundo está mudando</em> profetiza que, se não forem detidos por cristãos de coração puro, os muçulmanos engolirão a Terra.</p>
<p><a href="http://www.baciadasalmas.com/images/2009/bits/islam-alastra-02-b.jpg"> <img class="alignleft" title="Propaganda nazista versus propaganda evangélica: o mundo não está mudando" src="http://www.baciadasalmas.com/images/2009/bits/islam-alastra-02.jpg" border="0" alt="" /> </a>O que está implícito na iconografia comum é a solução comum. Não se engane: para os produtores de <em>O mundo está mudando</em> os muçulmanos devem ser a qualquer custo detidos, marginalizados, neutralizados e eliminados &#8211; se não pelo bem opcional da conversão, quem sabe pelo mal necessário do campo de refugiados.</p>
<p>O segundo ponto que precisa ser espetacularmente denunciado é a hipocrisia da coisa toda. A posição oficial do vídeo (bem como do discurso subjacente) é de que o que está em risco, aquilo que precisa ser em última instância defendido contra a ameaça muçulmana, é &#8220;nossa cultura&#8221;. Quem assiste pode até pensar que os produtores querem ver preservado &#8220;para nossas crianças&#8221; os valores morais e a herança artística/histórica da civilização ocidental.</p>
<p>É hipocrisia, porque trata-se de um vídeo de propaganda: o que quer promover é a religião/religiosidade cristã (em sua modalidade evangélica) contra todos os competidores. É ainda hipocrisia em dose dupla, porque o que acaba defendendo não é nem mesmo o cristianismo formal, mas o modo de vida capitalista ocidental, que se vê constantemente ameaçado por manifestações mais temperadas e menos egoístas de islamismo.<span style="margin: 12px 0pt 12px 12px; float: right; font-weight: bold; text-align: right; width: 35%; color: #000000; padding-bottom: 100px; font-family: Calibri,Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: 0.8em; line-height: 1.3em;"><a href="http://www.archive.org/details.php?identifier=Der_Ewige_Jude"><img title="Der Ewige Jude" src="http://www.baciadasalmas.com/images/2009/bits/der-ewige-jude.gif" alt="" /></a><br />
Os judeus se alastram pela Europa e pelo mundo, no paranóico e perverso <em><a href="http://www.archive.org/details.php?identifier=Der_Ewige_Jude">Der Ewige Jude</a> (1940) da propaganda nazista</em></span></p>
<p>O curioso é que, pessoalmente, a única coisa que realmente lamento no avanço muçulmano em terreno europeu é precisamente aquilo que o vídeo afirma (hipocritamente) lamentar: a eventual perda de uma imponderável parcela da herança cultural do ocidente. Se é doloroso para mim pensar em igrejas milenares que se tornarão mesquitas, é por causa do peso de &#8220;milenares&#8221;, e não por causa do peso de &#8220;igrejas&#8221;.</p>
<p>Porém como em todos os casos, os cristãos devem abraçar irrestritamente a humildade, e lembrar que muitas dessas igrejas milenares &#8211; como descobri nesta passagem pelo norte da Itália &#8211; foram elas mesmas construídas sobre (e, em alguns casos, <em><strong>em</strong></em>) templos romanos que estavam ali muito antes delas.</p>
<p>Para resumir: não vejo como uma eventual Europa &#8220;muçulmana&#8221; poderá representar ameaça maior para a herança do cristianismo do que, digamos, os Estados Unidos &#8211; país bélico e consumista (não há diferença) que se considera em grande parte o epítome de &#8220;cristão&#8221;. Se sobreviveu a essa mácula e a essa representação, sobreviverá a qualquer coisa.</p>
<p>O legítimo movimento cristão, que é livre e gratuito e que edifícios fechados não podem conter, não tem por definição como ser ameaçado de fora. A única coisa que pode maculá-lo, é claro, somos nós, que dizemos Senhor, Senhor <a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/1-viva-a-intolerancia/">mas não fazemos o que ele diz</a>.</p>
<p>Fora nossa própria hipocrisia,<a href="http://www.baciadasalmas.com/2008/a-longa-rixa-da-misericordia-com-as-ordens-da-criacao/#temor"> nada há que temer</a>.</p>
<p>Finalmente, resta lembrar que ser cristão requer a vida do cidadão que se sujeita a esse projeto. Como exemplificado por Jesus e entendido por São Paulo e todos os mártires e São Francisco e Tolstoi e Gandhi e Martin Luther King e Madre Teresa, a única coisa que um cristão pode efetivamente fazer em defesa da sua fé é precisamente não lutar por ela. Lutar pelo cristianismo é baixar a cabeça e morrer. Se essa rendição for voluntária, como aparentemente está sendo, haverá talvez maior mérito para os que ousarem entregar o espírito.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug075.gif" alt="" /></p>
<p>Veja também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2009/gli-altri-siamo-noi/">Gli altri siamo noi</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2005/a-conversao-dos-turcos/">A guerra contra os turcos</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/os-estrangeiros-que-sao-todos">Os estrangeiros que são todos</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/o-ultimo-cristao/">O último cristão</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2004/a-raca-superior/">A raça superior</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2009/a-regra-do-argueiro-da-fe/">A regra do argueiro da fé</a><br />
<em>Der Ewige Jude,</em> <a href="http://www.archive.org/details.php?identifier=Der_Ewige_Jude">versão integral para download</a></p>
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		<title>Uma confissão necessária</title>
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		<pubDate>Sat, 20 Jun 2009 11:59:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fé e Crença]]></category>
		<category><![CDATA[biografia]]></category>
		<category><![CDATA[cristianismo]]></category>

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		<description><![CDATA[Outro dia um cristão, enfezado com a precariedade da minha profissão de fé, puxou-me de lado e pediu que eu admitisse de uma vez por todas se acredito em céu e inferno, na ressurreição e na dupla natureza, no paraíso e no lago de fogo, na divindade de Cristo e no nascimento virginal, na trindade [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Outro dia um cristão, enfezado com a precariedade da minha profissão de fé, puxou-me de lado e pediu que eu admitisse <em>de uma vez por todas</em> se acredito em céu e inferno, na ressurreição e na dupla natureza, no paraíso e no lago de fogo, na divindade de Cristo e no nascimento virginal, na trindade e na criação em sete dias, na volta de Cristo sobre as nuvens e no armagedom, no anticristo e nos quatro cavaleiros, nos milagres de Jesus e nas pragas do Egito, no julgamento e na vida eterna.</p>
<p>A resposta eu já tinha pronta e não fique enfezado você quando me vir usando-a novamente:</p>
<p>&#8211; Conheço gente muito melhor do que eu &#8211; eu disse &#8211; que acredita em coisa muito pior.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug021.gif"></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2007/minha-fe-nao-e-aquilo-em-que-acredito">Minha fé não é aquilo em que acredito</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2009/em-que-o-brabo-realmente-acredita">Em que o Brabo realmente acredita</a></p>
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		<title>História universal do sarcasmo de Lutero</title>
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		<pubDate>Sun, 31 May 2009 17:20:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Divino preconceito]]></category>
		<category><![CDATA[livre-arbítrio]]></category>
		<category><![CDATA[lutero]]></category>

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		<description><![CDATA[Nenhum autor da Reforma abraça retórica mais mesquinha do que Martinho Lutero &#8211; e é certamente por essa razão que com nenhum outro me identifico mais. Lutero é em muitos sentidos meu freio; não fosse a repugnância que causam-me os seus, meus próprios textos rebaixariam-se a indignidade ainda maior. Thomas More, Calvino e Erasmo não [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Nenhum autor da Reforma abraça retórica mais mesquinha do que Martinho Lutero &#8211; e é certamente por essa razão que com nenhum outro me identifico mais. Lutero é em muitos sentidos meu freio; não fosse a repugnância que causam-me os seus, meus próprios textos rebaixariam-se a indignidade ainda maior.</p>
<p>Thomas More, Calvino e Erasmo não desconheciam o uso do insulto e a ironia, e nisso abraçavam o espírito e a retórica do humanismo que os gerara. Lutero, no entanto, não se contentava com menos do que o sarcasmo. Muitas vezes  <a href="http://www.baciadasalmas.com/2005/a-solucao-final-de-lutero">corrosivo</a>, muitas vezes <a href="http://www.baciadasalmas.com/2005/lutero-alerta-os-alemaes">violento</a>, ocasionalmente grosseiro e chulo, Lutero gostava (como costumo fazer) de dar a impressão de ser duro consigo mesmo, mas era invariavelmente mais duro com os outros.</p>
<p>Eu poderia começar por virtualmente qualquer página sua, mas talvez seja mais instrutivo pensar na disputa entre Lutero e <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Erasmo_de_Roterd%C3%A3o">Erasmo de Roterdã</a> sobre a questão do livre-arbítrio. Erasmo era avesso por princípio e por propensão a abordar teologia e doutrina de forma direta; porém, incomodado diante dos furores categóricos de Lutero sobre a soberania divina, publicou em setembro de 1524 a reflexão <em>Diatribe sobre o livre-arbítrio</em> (<strong>De libero arbitrio diatribe</strong>).</p>
<p>O que se seguiu não foi uma disputa de idéias, verdades ou ortodoxias, mas um conflito de mentalidades, uma peleja de retóricas.</p>
<p>Na <em>Diatribe</em> Erasmo não defende pessoalmente a idéia do livre-arbítrio. O holandês detestava a dissensão e intuía que todos os radicalismos eram arbitrários; numa palavra, era sofisticado demais para rebaixar-se à execração categórica de Lutero. O que ele faz é apresentar ambos os lados da argumentação de forma que julga suficientemente imparcial. Sua conclusão é que a Escritura e o bom senso dão evidência tanto do livre-arbítrio humano quanto de um rigoroso controle de Deus sobre as coisas &#8211; pelo que ninguém pode ser condenado por sustentar como verdade uma coisa ou outra.</p>
<p>Para Lutero, que não suportava meios-termos, a conclusão aberta de Erasmo era abominação. O que Erasmo tinha de cauteloso e conciliador, Lutero tinha de inflexível e opinioso. Apelava sem rodeios à autoridade e não tinha qualquer paciência para com quem abordava os dois lados da questão. Quem não estava com ele estava contra ele; quem não estava com Deus estava com o Diabo.</p>
<p>Em dezembro do ano seguinte, em resposta à <em>Diatribe</em>, Lutero deu ao mundo <em>O arbítrio como escravo</em> (<strong>De servo arbitrio</strong>), e o mundo não teve dúvidas sobre quem havia vencido a disputa. O livre-arbítrio encontrara o seu algoz.</p>
<p>Lutero encontrou na moderação de Erasmo o terreno perfeito para espojar-se em sua retórica de renitência. Erasmo era fraco, ele era forte; Erasmo era hesitante, ele era categórico. Para Lutero, essa diferença de tonalidade e de espírito dizia tudo sobre a verdade inenerente às convicões de ambos. Tudo que ele precisava fazer era deixar isso claro, e não era homem de meias medidas.</p>
<p>O que aprendi com os parágrafos que seguem (os primeiros da obra de Lutero), e que pode ser acrescentado às <a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/38-maneiras">38 maneiras de se vencer uma argumentação</a>?</p>
<p><strong>1. </strong>Transforme o que poderia ser encarado como uma desvantagem estratégica (neste caso, a demora de Lutero em responder as objeções de Erasmo) num argumento em favor da fraqueza do seu oponente.<br />
<strong>2. </strong>Cometa elogios que não demorem a explicar-se como insultos.<br />
<strong>3. </strong>Recorra à compaixão como máscara da superioridade.</p>
<p>Tendo em vista a natureza da controvérsia, devo reconhecer que a ressalva &#8220;seja por sorte, acidente ou destino&#8221; é toque especialmente inclemente e bem executado.</p>
<h5>* * *</h5>
<p class="cita">Como demorei tanto a responder a sua Diatribe sobre o livre-arbítrio, meu venerável Erasmo, [. . .] alguns podem talvez ter se mostrado prontos a perguntar-se se [. . .] &#8220;então esse Macabeu, esse assertor inflexível, encontrou finalmente um antagonista digno, alguém contra quem não ousa abrir a sua boca.&#8221;</p>
<p class="cita">Não tenho como culpar esses homens, porque estou pronto eu mesmo a dar-lhe a mão à palmatória, como jamais fiz com homem algum. Admito não apenas o quanto você me excede em eloquência e genialidade; admito também que foi bem-sucedido em desarmar o meu espírito e minha inclinação em respondê-lo, tendo me deixado sem qualquer ânimo para a batalha. E isso você fez de duas formas: primeiro, pela sua arte de defender a sua causa do começo ao fim com tão admiráveis controle e moderação, que tornou impossível para mim ficar furioso com você; e, em segundo lugar, por ter, seja por sorte, acidente ou destino, conseguido não dizer coisa alguma sobre esse importante assunto que já não tenha sido dito antes.</p>
<p class="cita">Na verdade, você diz tão pouco de novidade em favor do livre-arbítrio, em relação ao que os sofistas já fizeram antes de você, que pareceu-me inteiramente desnecessário responder os argumentos que eu mesmo já refutei tantas vezes e que já foram pisoteados e reduzidos a átomos pelo invencível <em>Lugares Comuns</em> de Philip Melanchton. Na minha opinião essa obra merece ser não apenas imortalizada, mas canonizada. Tão mesquinha e sem valor pareceu-me a sua, comparada àquela, que enchi-me de sincera compaixão <em>por você</em>, por ter poluído sua dicção engenhosa e elegante com argumento tão indecoroso; indignei-me sobremaneira com a imundícia do seu <em>assunto</em>, por ser apresentado numa sorte de eloquência tão ricamente ornamentada. É como se a sujeira da casa ou do estábulo fosse carregada nos ombros de homens em vasos de ouro e prata.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug029.gif"></p>
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		<title>Eu mesmo sepultarei Jesus</title>
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		<pubDate>Sat, 11 Apr 2009 03:01:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Heresias Sensacionais]]></category>
		<category><![CDATA[jesus]]></category>
		<category><![CDATA[vídeos]]></category>

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		<description><![CDATA[Este documento contém clipes de vídeo que só podem ser visualizados na página da Bacia na internet. Faça-se puro, meu coração Eu mesmo sepultarei Jesus. Pois daqui em diante ele em mim Mais e mais Repousará docemente. Mundo: fora! Deixe Jesus entrar. Karl Richter, Walter Berry, Bach, e neles toda a humanidade.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="center"><span style="color:#B0B0A0"><small>Este documento contém clipes de vídeo que só podem ser visualizados na <a href="http://www.baciadasalmas.com">página da Bacia</a> na internet.</small></span></p>
<p>Faça-se puro, meu coração<br />
Eu mesmo sepultarei Jesus.<br />
Pois daqui em diante ele em mim<br />
Mais e mais<br />
Repousará docemente.<br />
Mundo: fora! Deixe Jesus entrar.</p>
<table border="0" height="640" width="570" align="center" bordercolorlight="White" bordercolordark="White" bgcolor="Black" bordercolor="Black" >
<tr>
<td>
<p align="center"><object width="560" height="368"><param name="movie" value="http://www.youtube-nocookie.com/v/SguNpDynB2k&#038;hl=en_US&#038;fs=1&#038;rel=0&#038;color1=0x3a3a3a&#038;color2=0x999999"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube-nocookie.com/v/SguNpDynB2k&#038;hl=en_US&#038;fs=1&#038;rel=0&#038;color1=0x3a3a3a&#038;color2=0x999999" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="560" height="368"></embed></object></p>
<p><center><span style="color: #565641; font-family: Arial;"><small>Karl Richter, Walter Berry, Bach, e neles toda a humanidade.</span</small></center></p>
</td>
</tr>
</table>
<p>Mache dich, mein Herze, rein,<br />
ich will Jesum selbst begraben.<br />
Denn er soll nunmehr in mir für und für<br />
seine süße Ruhe haben.<br />
Welt, geh aus, laß Jesum ein!</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Se pedir dinheiro</title>
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		<pubDate>Mon, 26 Jan 2009 09:33:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fé e Crença]]></category>
		<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>
		<category><![CDATA[bíblia]]></category>
		<category><![CDATA[cristianismo]]></category>

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		<description><![CDATA[11.4 Qualquer apóstolo que vier até vocês não deve permanecer mais do que um dia, até dois se for necessário; se permanecer três dias, é falso profeta. 11.5 Ao partir, não leve o apóstolo mais do que comida, até encontrar abrigo novamente. Se pedir dinheiro, é falso profeta. 11.7 Nem todo aquele que fala no [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>11.4</strong> Qualquer apóstolo que vier até vocês não deve permanecer mais do que um dia, até dois se for necessário; se permanecer três dias, é falso profeta.<br />
<strong>11.5</strong> Ao partir, não leve o apóstolo mais do que comida, até encontrar abrigo novamente. Se pedir dinheiro, é falso profeta.<br />
<strong>11.7</strong> Nem todo aquele que fala no Espírito é profeta, mas apenas aquele que tem a conduta do Senhor.<br />
<strong>11.10</strong> Se o profeta que ensina a verdade não age de acordo com o seu ensino, é falso profeta.<br />
<strong>11.12</strong> E qualquer um que afirmar no Espírito &#8220;dê-me dinheiro&#8221;, ou qualquer outra coisa, não lhe deem ouvidos. </p>
<p><em>Versos avulsos do <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Didaqu%C3%AA">Didaquê</a>, um dos documentos mais antigos do movimento cristão. Estima-se que o Didaquê tenha sido escrito antes das cartas de João e do livro de Apocalipse, e talvez ainda antes de outros livros do Novo Testamento.</em></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug053.gif"></p>
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		<title>Os estrangeiros que são todos</title>
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		<pubDate>Tue, 06 Jan 2009 10:42:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fé e Crença]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[judaísmo]]></category>

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		<description><![CDATA[Certo de estar a ponto de ferir a sensibilidade de alguns, quero deixar clara minha posição sobre determinado assunto: o Estado de Israel não representa qualquer continuidade, mesmo que honorária, com a tradição religiosa judaico-cristã registrada nas duas metades desiguais da Bíblia. Historicamente e espiritualmente falando o Estado de Israel não representa a religião que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Certo de estar a ponto de ferir a sensibilidade de alguns, quero deixar clara minha posição sobre determinado assunto: o Estado de Israel não representa qualquer continuidade, mesmo que honorária, com a tradição religiosa judaico-cristã registrada nas duas metades desiguais da Bíblia. Historicamente e espiritualmente falando o Estado de Israel não representa a religião que se convencionou chamar de judaísmo, e creio que pelo menos lá todos sabem disso. Há muitos judeus devotos ao redor do mundo, muitos desses em Israel, mas não cabe identificar israelitas com israelenses ou o associar o Estado de Israel à Terra Prometida (e muito menos ao reino de Davi); qualquer tentativa em contrário é engano ou esforço de marketing e de relações públicas, sendo esses últimos patrocinados em grande parte pelos Estados Unidos, com o consentimento embaraçado de Israel.</p>
<p>Tenho amigos em Israel e estou muito longe de ser anti-semita; tenho também queridos amigos muçulmanos, e não sou ingênuo o bastante para crer que a tensão entre Israel e o mundo árabe seja simples de recapitular, de equacionar, de assimilar ou de solucionar. Também não tenho qualquer antipatia pelos israelenses que não são judeus, e tampouco creio haver qualquer diferença de mérito entre as categorias igualmente arbitrárias que acabo de mencionar. </p>
<h5>Amai, pois, o estrangeiro, porque fostes estrangeiros na terra do Egito.</h5>
</p>
<p>Tenho ainda a dizer que apenas as guerras me enfurecem mais do que Estados e nações; apenas as guerras soam-me mais atrozes e arbitrárias do que rótulos.</p>
<p>Mas a guerra é um demônio que não pára: seu emblema é o símbolo alquímico das duas salamandras devorando incessantemente uma a cauda da outra. O terrorista de um lado é o herói da resistência do outro. Cada ataque confirma as piores suspeitas que um adversário tem do seu antagonista; cada ofensiva é redimida com novos recrutamentos, que garantem a perpetuação do conflito. Os Estados Unidos permanecem liberando indiscriminadamente o Iraque, fomentando indignação igualmente justificada entre muçulmanos letrados e chãos. Israel, sentindo-se ameaçado como nunca pelo Hezbollah (que é por sua vez patrocinado por implacáveis rancores iranianos e sírios), está atacando de formas sujas e limpas palestinos e libaneses &#8211; que estão longe de ser inocentes, mas que morrem com a facilidade atroz de qualquer um &#8211; enquanto na América cristãos <a href="http://www.talk2action.org/story/2006/7/21/03721/0674/Front_Page/Making_Jesus_Real_Burning_the_Koran_and_Honoring_a_Touring_Fetus">queimam cópias do Corão</a> em austera homenagem ao Príncipe da Paz. Morrem quase quatrocentos libaneses num único dia da semana passada, ao mesmo tempo em que os israelenses abandonam em massa o norte do país temendo velhos ataques e novas retaliações.</p>
<h5>* * *</h5>
</p>
<p>É comum associar o cristianismo e a mensagem de Jesus a uma compreensão nova, inclusiva e compassiva sobre a natureza do &#8220;outro&#8221;. Isso é em grande parte muito acertado, mas é bom lembrar por exemplo que &#8220;amai o próximo como a ti mesmo&#8221; é injunção da Bíblia hebraica &#8211; curiosa exigência que precede a Jesus e da qual o judaísmo não prescinde. </p>
<h5>Se Deus não faz acepção de pessoas, todos os genocídios são o mesmo.</h5>
</p>
<p>Na verdade, são inúmeros os mandamentos da Lei de Moisés explicitamente desenhados para proteger o desavisado outro &#8211; o estrangeiro &#8211; que se encontrasse em terras de Israel. E o motor dessa tolerância, o declarado motivo para essa misericórdia, deveria ser segundo o texto a recorrente lembrança do passado de Israel como povo estrangeiro e oprimido no Egito, antes do Êxodo e da independência e da Lei: &#8220;amá-lo-eis como a vós mesmos, pois estrangeiros fostes na terra do Egito&#8221;. </p>
<p>O israelita é dessa forma desafiado constantemente pela sua Lei a recordar a abjeção da sua condição anterior, bem como a dispensar ao estrangeiro a misericórdia que no passado não obteve:</p>
<p><small></p>
<p>
<ul>
<li>Não rebuscarás a tua vinha, nem colherás os bagos caídos da tua vinha; deixá-los-ás ao pobre e ao estrangeiro. Eu sou o SENHOR, vosso Deus.</li>
<p>
<li>Quando segardes a messe da vossa terra, não rebuscareis os cantos do vosso campo, nem colhereis as espigas caídas da vossa sega; para o pobre e para o estrangeiro as deixareis. Eu sou o SENHOR, vosso Deus.</li>
<p>
<li>Se o estrangeiro peregrinar na vossa terra, não o oprimireis.</li>
<p>
<li>Como o natural, será entre vós o estrangeiro que peregrina convosco; amá-lo-eis como a vós mesmos, pois estrangeiros fostes na terra do Egito. Eu sou o SENHOR, vosso Deus.<br />(Levítico 19:10, 23:22, 19:33-34) </small></ul>
</p>
<p>Outras passagens sustentam que o verdadeiro patrocinador desse amor tolerante pelo estrangeiro/outro é o caráter singular de Deus, que não aceita suborno e não faz distinção entre as pessoas:</p>
<p><small></p>
<p>
<ul>
<li>Pois o SENHOR, vosso Deus, é o Deus dos deuses e o Senhor dos senhores, o Deus grande, poderoso e temível, que não faz acepção de pessoas, nem aceita suborno;</li>
<p>
<li>que faz justiça ao órfão e à viúva e ama o estrangeiro, dando-lhe pão e vestes.</li>
<p>
<li>Amai, pois, o estrangeiro, porque fostes estrangeiros na terra do Egito.</li>
<p>
<li>Não aborrecerás o edomita, pois é teu irmão; nem aborrecerás o egípcio, pois estrangeiro foste na sua terra.</li>
<p>
<li>Não perverterás o direito do estrangeiro e do órfão; nem tomarás em penhor a roupa da viúva.</li>
<p>
<li>Quando acabares de separar todos os dízimos da tua messe no ano terceiro, que é o dos dízimos, então, os darás ao levita, ao estrangeiro, ao órfão e à viúva, para que comam dentro das tuas cidades e se fartem.<br />(Deuteronômio 10:17-19, 23:7, 24:17, 26:12) </small></ul>
</p>
<p>Porém o mundo dá voltas, e os palestinos são hoje hóspedes impossivelmente incômodos dos israelenses, da mesma forma que Israel é refém do mundo árabe, embora conte com a proteção dos americanos, graças aos quais os iraquianos são também estrangeiros em sua própria terra. Só me resta pedir que Deus proteja os estrangeiros que são todos, porque não posso esperar que judeus e cristãos e muçulmanos honrem suas Escrituras ou neguem sua história.</p>
<h5>* * *</h5>
</p>
<p>Ninguém me venha, finalmente, acusar de anti-semitismo: se Deus não faz acepção de pessoas, todos os genocídios são o mesmo. Quanto a judeus e cristãos e muçulmanos que derramam sangue ao mesmo tempo em que alegam possuir alguma intimidade com a Misericórdia, façam-me um favor: vão para o inferno.</p>
<h5>Maldito aquele que perverter o direito do estrangeiro, do órfão e da viúva. E todo o povo dirá: Amém!<br /><small> (Deuteronômio 27:19) </small></h5>
</p>
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<p align="right"><small><strong>Publicado originalmente em 25 de julho de 2006</strong></small></p>
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		<title>Jesus é um amigo meu</title>
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		<pubDate>Sat, 20 Dec 2008 09:17:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fé e Crença]]></category>
		<category><![CDATA[1970s]]></category>
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		<description><![CDATA[Este documento contém clipes de vídeo que só podem ser visualizados na página da Bacia na internet. Quando vi este vídeo pela primeira vez tive certeza de que era uma paródia contemporânea, tendo em vista certas particularidades da letra. Minha fé na capacidade do cristianismo em se parodiar inadvertidamente deveria ter sido maior: o vídeo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="center"><span style="color:#B0B0A0"><small>Este documento contém clipes de vídeo que só podem ser visualizados na <a href="http://www.baciadasalmas.com">página da Bacia</a> na internet.</small></span></p>
<p>Quando vi este vídeo pela primeira vez tive certeza de que era uma paródia contemporânea, tendo em vista certas particularidades da letra. Minha fé na capacidade do cristianismo em se parodiar inadvertidamente deveria ter sido maior: o vídeo é legítimo, da década de 70, do grupo <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Sonseed">Sonseed</a><em>/Semente do Filho</em>, da <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Basilica_of_Our_Lady_of_Perpetual_Help_(Brooklyn,_New_York)">Igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro</a> no Brooklyn, Nova Iorque.</p>
<p>Estampado em toda a internet, mas aqui com subtítulos em português, para deleite e horror (haverá alguma diferença?) do impenitente leitor da Bacia.</p>
<table border="0" height="580" width="450" align="center" bordercolorlight="White" bordercolordark="White" bgcolor="Black" bordercolor="Black" >
<tr>
<td>
<center></p>
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<div id="mediaspace2">Visite a Bacia para ver o vídeo</div>
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