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	<title>A Bacia das Almas &#187; Divino preconceito</title>
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	<description>Onde as ideias não descansam</description>
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		<title>Eva arrependida e de luto</title>
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		<pubDate>Fri, 30 Sep 2011 09:43:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Divino preconceito]]></category>
		<category><![CDATA[Homens e Mulheres]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
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		<description><![CDATA[Se houvesse sobre a terra uma fé tão grande quanto é a recompensa de fé aguardada no céu, nenhuma de vocês, amadas irmãs, desde o momento em que conheceram o Senhor e aprenderam [a verdade] sobre sua própria condição [isto é, a condição feminina], teria desejo por um estilo de vestimenta vistoso demais (para não [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Se houvesse sobre a terra uma fé tão grande quanto é a recompensa de fé aguardada no céu, nenhuma de vocês, amadas irmãs, desde o momento em que conheceram o Senhor e aprenderam [a verdade] sobre sua própria condição [isto é, a condição feminina], teria desejo por um estilo de vestimenta vistoso demais (para não dizer vaidoso demais).</p>
<p>Usariam, ao contrário, vestes humildes, de modo a transmitir uma aparência miserável, andando pelo mundo como Eva arrependida e de luto, a fim de através de toda veste de penitência expiar de modo mais completo aquilo que [cada uma de vocês] deriva de Eva:<span style="float:right; text-align:right; width:35%; color:#7c836d; margin:12px 0 12px 12px; font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps; font-size:1.4em; line-height: 1.3em">Você persuadiu aquele que o diabo não foi corajoso o bastante para atacar.</span> a vergonha, quero dizer, do primeiro pecado, e a infâmia da perdição humana.</p>
<p>&#8220;Multiplicarei grandemente a dor da tua concepção e em dor darás à luz filhos; o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará.&#8221;</p>
<p>E vocês não sabem que são, cada uma de vocês, uma Eva? A sentença de Deus sobre o sexo de vocês persiste nesta era; necessariamente, a culpa persiste também. </p>
<p>Você, mulher, é o portão de entrada do inferno; é a descerradora da árvore [proibida]; é a primeira desertora da lei divina. Você persuadiu aquele que o diabo não foi corajoso o bastante para atacar. Você destruiu, e de modo tão frívolo, a imagem de Deus, que é o homem. Como consequência da sua deserção &#8211; isto é, a morte, &#8211; até mesmo o Filho de Deus teve de morrer.</p>
<p>E você pensa ainda em adornar-se acima e além de sua túnica de pele? Ora, imagino que se no princípio do mundo os milesianos já criassem ovelhas, os serianos já fiassem árvores, os tirianos já tingissem, os frígios já bordassem com a agulha e os babilônios com o tear; se pérolas já cintilassem, se pedras de ônix já reluzissem e se o ouro já tivesse brotado do solo; se o espelho já tivesse se tornado coisa tão comum, então Eva, mesmo depois de expulsa do paraíso, mesmo depois de morta, teria também cobiçado todas essas coisas.</p>
<p>Não mais, portanto, a mulher deve agora desejar ou conhecer, se é que deseja voltar a viver, aquilo que quando viva não possuía nem conhecia. Todas essas coisas são a bagagem da mulher em seu estado de condenação e morte, instituídas como que para acentuar a pompa de seu funeral.</p>
<p align="right"><small><strong>Tertuliano</strong> (160-220 d.C.), pai da igreja,<br />
em <a href="http://www.tertullian.org/anf/anf04/anf04-06.htm">Sobre a indumentária feminina</a></small></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug015.gif"></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2004/1926-appoio-moral/">Appoio moral</a> (Tertuliano estava vivo e com saúde em 1926 &#8211; e em Pernambuco)<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/sexo-entre-pares-o-homem-romantico-e-a-era-das-relacoes-igualitarias/">Sexo entre pares</a></p>
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		<title>Wrong turn</title>
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		<pubDate>Tue, 27 Sep 2011 11:02:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Divino preconceito]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[vídeos]]></category>

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<td>
<p align="center"><iframe width="560" height="315" src="http://www.youtube-nocookie.com/embed/RS3iB47nQ6E?rel=0" frameborder="0" allowfullscreen></iframe></iframe></p>
</td>
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		<title>O mais difícil</title>
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		<pubDate>Wed, 24 Aug 2011 09:22:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Divino preconceito]]></category>
		<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>
		<category><![CDATA[tolstoi]]></category>

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		<description><![CDATA[O mais difícil dos conceitos pode ser explicado ao mais limitado dos homens se ele já não tiver uma ideia formada a respeito dele; porém a coisa mais simples não pode ser esclarecida ao mais inteligente dos homens se ele estiver persuadido de que já conhece, sem sombra de dúvida, o que está sendo colocado [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O mais difícil dos conceitos pode ser explicado ao mais limitado dos homens se ele já não tiver uma ideia formada a respeito dele; porém a coisa mais simples não pode ser esclarecida ao mais inteligente dos homens se ele estiver persuadido de que já conhece, sem sombra de dúvida, o que está sendo colocado diante dele.</p>
<p align="right"><small><strong>Leon Tolstoi</strong>, em <em>The Kingdom of God is Within You (1894)</em><br />
<a href="http://boingboing.net/2011/08/23/tolstoy-on-difficulty-1897.html">via</a>, <a href="http://memex.naughtons.org/archives/2011/08/23/14264">via</a></small></p>
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		<title>Protestantes no purgatório e católicos no inferno</title>
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		<pubDate>Sun, 24 Jul 2011 20:57:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Divino preconceito]]></category>
		<category><![CDATA[catolicismo]]></category>
		<category><![CDATA[purgatório]]></category>

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		<description><![CDATA[Comparecem como menos que coadjuvantes, no livro que estou escrevendo sobre a relação entre protestantes e a igreja católica, algumas das crenças e práticas que desde a infância tenho invejado no catolicismo. De meu posto de observação na árida e antisséptica sala de espera que é a liturgia protestante, passei a vida admirando catedrais e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Comparecem como menos que coadjuvantes, no livro que estou escrevendo sobre a relação entre protestantes e a igreja católica, algumas das crenças e práticas que desde a infância tenho invejado no catolicismo. De meu posto de observação na árida e antisséptica sala de espera que é a liturgia protestante, passei a vida admirando catedrais e cobiçando secretamente determinadas doutrinas católicas que me pareceram desde sempre igualmente terríveis, incompreensíveis e atraentes.</p>
<p>Há, por exemplo, o purgatório, a condição intermediária de purificação a que são submetidos os que foram poupados do inferno mas não se mostraram merecedores de uma transferência sem escalas para o céu. </p>
<p>Como venho aprendendo com <em>O nascimento do purgatório</em> de Jacques Le Goff, a noção de purgatório, por mais alienígena e arbitrária que pareça aos que habitam este lado da represa da Reforma, nasceu menos de uma forçação de barra teológica do que como produto e extensão da ênfase católica na ideia de comunidade &#8211; a Igreja como a inabalável, ininterrupta e indestrinçável comunhão dos santos.</p>
<p>O purgatório é em parte o resultado da arrojada crença de que nem mesmo a morte pode separar os salvos e interromper a comunhão dos santos. Como o Redentor enxertou a vida eterna no coração do mundo e anulou para sempre o poder da morte, a separação entre vivos e mortos é mera ilusão: faz todo sentido que os vivos continuem a interceder em favor dos mortos<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/protestantes-no-purgatorio-e-catolicos-no-inferno/#footnote_0_2583" id="identifier_0_2583" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="Thomas A. Nelson, na sua introdu&ccedil;&atilde;o ao Purgat&oacute;rio do padre F. X. Schouppe.">1</a></sup>:</p>
<blockquote><p>Nossos votos e ofertas pelos mortos são mais agradáveis a Deus do que nossas orações e boas obras pelos vivos, pois as pobres almas do Purgatório estão mais perto de Deus, carecem de auxílio mais premente e são incapazes de ajudar a si mesmas.</p></blockquote>
<p>Não custa lembrar que santa Anne Catherine Emmerich (1774-1824), <a href="http://www.baciadasalmas.com/2007/voce-nao-acredita-para-onde-vai/">informada por suas visões</a>, explica-nos que &#8220;as almas dos protestantes sofrem por mais tempo e com maior intensidade no purgatório, por contarem normalmente com poucos amigos e parentes para orarem por eles&#8221;<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/protestantes-no-purgatorio-e-catolicos-no-inferno/#footnote_1_2583" id="identifier_1_2583" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="Nelson, op. cit.">2</a></sup>. </p>
<p>Ao contrário do que possa parecer, há nessa visão do sofrimento dos protestantes no purgatório mais gentileza e graça do que verdadeiros desprezo e rejeição. Menos clementes e mais dogmáticos, os protestantes ao longo dos séculos têm preferido ser visitados por visões de católicos no inferno.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug033.gif"></p>
<b><small>NOTAS</small></b><ol class="footnotes"><li id="footnote_0_2583" class="footnote">Thomas A. Nelson, na sua introdução ao <em>Purgatório</em> do padre F. X. Schouppe.</li><li id="footnote_1_2583" class="footnote">Nelson, op. cit.</li></ol>]]></content:encoded>
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		<title>O homem entre as marés</title>
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		<pubDate>Tue, 24 May 2011 10:15:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Divino preconceito]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[jesus]]></category>
		<category><![CDATA[sexo]]></category>

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		<description><![CDATA[Todo discurso tem algum potencial para gerar a polarização, mas reservamos para alguns uma potência tanto particular quanto arbitrária. Assuntos que despertam opiniões ao mesmo tempo inflamadas e opostas são em geral os assuntos que convém evitar. Em nome da paz ou da covardia, é simplesmente mais fácil não falar sobre eles, sob o risco [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Todo discurso tem algum potencial para gerar a polarização, mas reservamos para alguns uma potência tanto particular quanto arbitrária. Assuntos que despertam opiniões ao mesmo tempo inflamadas e opostas são em geral os assuntos que convém evitar. Em nome da paz ou da covardia, é simplesmente mais fácil <a href="http://www.baciadasalmas.com/2005/problema-seu/">não falar sobre eles</a>, sob o risco de acender a indignação de gente que habita com muita convicção cada um dos polos que se condenam.</p>
<p>Porém também é verdade que não elegemos os discursos polarizadores ao acaso; os assuntos que elegemos como polêmicos revelam muito mais sobre nós do que gostaríamos. Se você acha de fato importante saber e discutir em que ponto de um ser humano adulto outro ser humano adulto escolhe colocar o seu órgão sexual, na intimidade de seu quarto e em seu tempo livre; se é a esse tipo de investigação criativa que você está ponderando dedicar uma parte substancial do seu tempo, esse é problema sexual seu. Como uma vez aprenderam homens respeitáveis ao redor de uma mulher adúltera, o comportamento verdadeiramente inquietante é o que faz da sexualidade do outro uma bandeira e um problema para si mesmo. É aqui que jaz a verdadeira perversão.</p>
<p>Porém o problema com os discursos polarizadores é que aparentemente não há como apaziguar a tensão que produzem. Se você deixa de se pronunciar a respeito, nada de fato muda e a tensão permanece; se você escolhe se pronunciar, tudo que consegue fazer é atiçar a fogueira, demarcando e acentuando a distância entre os grupos antagonistas.</p>
<p>Eu mesmo tenho opiniões muito severas a respeito desse e de outros assuntos, e já achei que a mera exposição de minha iluminada opinião poderia contribuir para mais do que meramente acentuar o problema. Outros já pensaram como eu. Porém, como descobriu Pedro diante de um auditório de incircuncisos, nossas convicções podem muito bem ser redimidas &#8211; isto é, revistas &#8211; pelas nossas histórias.</p>
<p>O propósito desta nota é contar o que sei a respeito de um homem, Andrew Marin, e que sei porque já o vi contando essa história muitas vezes.</p>
<p>Andrew (americano, sorridente, atarracado, popular, desportista amador) foi até seus anos de ensino médio um cristão convicto e um homófobo militante, daqueles que se rebaixam sem hesitação à intimidação física e verbal. Não deve haver dúvida, do mesmo modo, de que Marin entendia essas duas vocações (seu cristianismo ardente e seu desprezo ativo pelos homossexuais) como manifestações de uma mesma paixão pela verdade.</p>
<p>Sua vida teria sido mais simples se na época de colégio seus três melhores amigos de infância (duas garotas e um rapaz) não tivessem confiado nele o bastante para fazerem, um a um e sem saberem um do outro, a mesma confissão: <em>Andrew, posso te contar uma coisa? Por favor, não conte pra ninguém, mas eu sou gay.</em></p>
<p>Foi assim que, num intervalo de três meses, Andrew Marin encontrou-se pela primeira vez com seus três únicos amigos e, como bom cristão, cortou todo laço com eles. Perdeu-os porque eram homossexuais.</p>
<p>Marin mergulhou num estado de profunda e sinfônica perplexidade. Seu mundo havia sido miseravelmente subtraído debaixo de seus pés, e ele passou a requerer do seu Deus e da sua Bíblia uma explicação e uma solução. Ele queria de volta o mundo das suas seguranças anteriores, e exigia que Deus lhe revelasse uma razão, uma secreta justificativa para a tristeza que estava sentindo.</p>
<p>Deus não lhe deu uma resposta, mas o homem creu ouvir na escuridão:</p>
<p>&#8211; Andrew, o que você deve se perguntar é como devem ter se sentido os seus amigos, crescendo com você durante todos esses anos: os amigos que, sabendo que você se mostrava em tudo abertamente contrário ao que eles são e ao que representam, escolheram permanecer seus amigos.</p>
<p>Desta caverna emergiu um homem absolutamente notável. Marin decidiu que sua vida deveria servir de ponte entre dois discursos altamente incompatíveis, o dos conservadores evangélicos norte-americanos e o da exuberante comunidade homossexual de seu país. Ele refez o trajeto, pediu perdão a seus amigos e <em>mudou-se</em> para o bairro gay da sua cidade, Chicago, onde reside com a esposa há mais de dez anos. Ali Marin vive, permanece disponível e promove reuniões não-ortodoxas em lugares absolutamente não-ortodoxos, ao mesmo tempo em que organiza os movimentos de uma pequena mas ambiciosa fundação. </p>
<p>Tendo em vista a perene discussão a respeito de até que ponto a orientação homossexual é uma escolha ou um destino, Marin achou melhor subverter os raciocínios subjacentes e adotou como lema a frase <em>O amor é uma orientação</em>, que é também o título de seu livro. Para Andrew Marin, iluminado pelo que vê no sol dos evangelhos, o amor é que é, sem espaço para discussão e em todos os sentidos, uma inescapável orientação. Neste clima e neste momento da história isso implica que os cristãos devem amar formidavelmente e exuberantemente os homossexuais.</p>
<p>Mas na boca de Marin isto não se limita ao batido discurso de odiar o pecado e amar o pecador. Para começar, quando perguntado, Marin recusa-se a dar respostas simplistas e polarizadoras para as perguntas mais quentes que cercam a questão. Ele explica que aprendeu com Jesus a não dar respostas simples para questões complexas, e essa sua postura (precisamente como no tempo de Jesus) desperta por vezes a indignação de gente dos dois lados do muro.</p>
<p>Para muitos conservadores evangélicos, Marin é uma abominação e seu ministério é uma farsa porque, apesar de se apresentar como conservador, ele se recusa a admitir com todas as letras e enfatizar o que eles enxergam como essencial: que a conduta homossexual é incontornavelmente pecaminosa e que não há conjuntura em que ela possa ser considerada aceitável diante de Deus e dos homens. Semelhantemente, para muitos na comunidade homossexual Marin é uma falso amigo e um propagandista infiltrado, porque apesar desse papo de amor ele se recusa a admitir com todas as letras o que eles enxergam como essencial: que a conduta homossexual entre adultos é coisa legítima, íntegra e sã, que merece a celebração dos homens e as bençãos da igreja tanto quanto qualquer relação heterossexual.</p>
<p>Andrew Marin é esse homem que deixa-se queimar entre os extremos, lutando centímetro por centímetro para promover o diálogo sem contribuir para acentuar uma distância que como está já é paralisante. Marin tornou-se um gigante porque teve de fato um bom professor, e aprendeu com o Jesus dos evangelhos que um discurso polarizador não deve ser jamais alimentado. Todo discurso aplicado ao extremo (e os discursos <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/a-fissura-do-mundo-politica-polarizacao-e-paralisia">tendem aos extremos</a>) gera esterilidade, hostilidade e desumanização. A ferida dos ódios resultantes só pode ser estancada pelo remédio do amor &#8211; o amor que é uma orientação: ao mesmo tempo uma escolha e um destino.</p>
<p>E é de Marin a definição mais fulgurante de amor que jamais ouvi: <em>amor</em>, explica ele, <em>é a expressão mensurável de comportamentos não-condicionados</em>. Permita-me repetir: amar é prover expressões mensuráveis de comportamento não-condicionado. Proponho que façamos todos nós uma tatuagem muito visível e incômoda com essa frase; só depois de recitá-la solenemente para nós mesmos ganharíamos o direito de atirar a primeira pedra.</p>
<p>De que forma Andrew Marin dá evidência desse amor não-condicionado? Ele vive há uma década entre gente que não compreende e não tem ferramentas para compreender. Ele os defende diante de gente que os considera indefensáveis, e recebe a condenação dos que está defendendo porque acham que ele não está indo longe o bastante. Cada um a seu modo, os dois lados acham insuficiente a proposta de amor de Marin. Mas o maluco, o insensato, continua amando.</p>
<p>Nos Estados Unidos, cristãos que frequentam as passeatas gay costumam fazê-lo para levar cartazes que dizem coisas edificantes tipo DEUS ODEIA BICHAS ou VÃO ARDER NO INFERNO. Andrew Marin e seus amigos vão a essas passeatas com cartazes que dizem apenas I&#8217;M SORRY &#8211; e pedem a quem quiser ouvir desculpas por todo o ódio que já foi derramado sobre os homossexuais no nome daquele que nada tem a ver com o ódio.</p>
<p>Por trás dessa sua singeleza, dessa impertinência de Marin em amar o inimigo tido como o mais desprezível, espreita uma subversão ainda maior: a ousadia de sugerir que um cristão não deve ser capaz de extrair sua identidade de algo que não seja o amor. Para esse pequeno americano, não somos cristãos quando confessamos, quando escolhemos o mesmo adversário ou quando concordamos a respeito de alguma doutrina; somos cristãos enquanto afirmamos teimosamente, sempre em atos mais do que palavras, a supremacia do amor.</p>
<p>É claro que ninguém dá ouvidos ao cara, porque seu ministério é pequeno e sua proposta insensata. Se amar for de fato prover expressões mensuráveis de comportamentos não-condicionados, quem se mostrará pronto a amar? Porque, se for assim, amar não seria você <em>aprovar </em>a conduta de dois caras sentados de mãos dadas no banco da sua igreja, mas seria você respirar fundo e não condená-los por eles estarem ali. Amar não seria você <em>concordar </em>com as posturas do Ricardo Gondim a respeito de qualquer assunto, mas seria concluir que o seu compromisso mútuo com o amor basta para vocês continuarem juntos debaixo de um mesmo teto editorial. Essas seriam expressões genuínas de comportamento não-condicionado. Porque quando não estamos defendendo o amor estamos defendendo meramente a nossa convicção, ou pior, a nossa reputação &#8211; e até os pecadores fazem o mesmo. Qualquer homossexual poderia nos ensinar a amar mais e melhor.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug040.gif"></p>
<p><small><br />
Muito mais sobre <strong>Andrew Marin</strong>, sua história, seu ministério e sua sacrossanta insensatez, aqui (em inglês):<br />
<a href="http://www.loveisanorientation.com/">Love is an orientation</a></small></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2007/minha-fe-nao-e-aquilo-em-que-acredito/">Minha fé não é aquilo em que acredito</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/a-invencao-do-nao-condicionado/">A invenção do não-condicionado</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2008/o-amor-e-mais-severo-que-a-justica/">O amor é mais severo do que a justiça</a></p>
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		<item>
		<title>Por isso não provoque</title>
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		<pubDate>Thu, 14 Apr 2011 19:11:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Divino preconceito]]></category>
		<category><![CDATA[Homens e Mulheres]]></category>
		<category><![CDATA[biografia]]></category>

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		<description><![CDATA[Quando quer defender qualquer comportamento, seja universalmente aceito ou mania particular sua, meu pai costuma usar o mais arbitrário, incontornável e rasteiro dos [falsos] argumentos: &#8220;está na Bíblia&#8221;. Para usar o exemplo mais clássico, ele preferencialmente não come feijão aos domingos, porque &#8220;domingo é dia branco&#8221;. Quando perguntado sobre o fundamento espiritual ou científico dessa [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Quando quer defender qualquer comportamento, seja universalmente aceito ou mania particular sua, meu pai costuma usar o mais arbitrário, incontornável e rasteiro dos [falsos] argumentos: <em>&#8220;está na Bíblia&#8221;</em>. Para usar o exemplo mais clássico, ele preferencialmente não come feijão aos domingos, porque &#8220;domingo é dia branco&#8221;. Quando perguntado sobre o fundamento espiritual ou científico dessa noção, ele invariavelmente responde &#8220;está na Bíblia&#8221;. E ele sabe muito bem que não está.</p>
<p>Ou estará? Informando o seu cinismo está a noção (baseada em fatos reais) de que a Bíblia é tão vasta e multiforme que pode conter informação e diretrizes que o mais ilustrado dos interlocutores não será capaz de recordar num dado momento. Ou ainda, que o texto bíblico já foi sujeito a tantas, variadas e infundadas interpretações que pode ser usado para fundamentar qualquer postura. Especialmente a de quem está falando.</p>
<p align="center">***</p>
<p>Azul é cor de menino e cor-de-rosa é cor de menina. Alguma dúvida? </p>
<p>Em 1918, um artigo do <em>Ladies&#8217; Home Journal</em> explicava o que naquela época aparentemente todos sabiam: &#8220;A regra universalmente aceita é que cor-de-rosa é para os meninos e azul para as meninas. O motivo é que o cor-de-rosa, por ser uma cor mais forte, é mais própria para os meninos, enquanto o azul, que é mais delicado e mimoso, fica mais bonito para a menina.&#8221;</p>
<p>A historiadora Jeanne Maglaty, do <em>Smithsonian Institute</em>, está para publicar um livro no qual demonstra que o paradigma moderno (e portanto arbitrário) das cores que demarcam a diferença entre os sexos só ficou estabelecido a partir de 1940, e que a tendência anterior apontava precisamente na outra direção.</p>
<p>Por isso não provoque: é cor-de-rosa choque.</p>
<p><a href=" http://www.smithsonianmag.com/arts-culture/When-Did-Girls-Start-Wearing-Pink.html?c=y&#038;page=1">Quando as garotas começaram a usar cor-de-rosa?</a></p>
<p align="center">***</p>
<p>No mesmo dia em que li a nota acima fiquei sabendo da reação conservadora norte-americana a um <a href="http://gawker.com/#!5791301/conservative-idiots-freak-out-about-boy-wearing-nail-polish-in-j-crew-ad">anúncio da companhia de moda J. Crew</a> que mostrava a diretora da empresa pintando as unhas do filho de cor-de-rosa. &#8220;Sorte minha que tenho um filho cuja cor favorita é o cor-de-rosa&#8221;, dizia a chamada abaixo da foto.</p>
<p>O psicólogo neoconservador Keith Ablow reagiu num artigo em que explica o seguinte:</p>
<blockquote><p>Garotas surram garotas no Youtube. Rapazes fazem malhação e se embelezam até ficarem com abdomen de tanquinho e um penteado impecável. Embora aparentemente não haja nada de mais nisso, pode haver graves consequências quando ficar demonstrado que nenhum dos sexos permanece à vontade com a ideia de criar filhos acima de qualquer outra coisa, que nenhum dos sexos classifica manter uma família como coisa mais desejável do que fazer sexo arrebatador para sempre, e que nenhum dos sexos está motivado a proteger a nação marchando em combate contra outros homens, arriscando nisso as suas vidas.</p></blockquote>
<p>E com isso aprendo uma preciosa lição, que o único valor humano mais sublime do que procriar é sair em resoluto combate de modo a eliminar a competição do DNA alheio.</p>
<p>E que é isso que nos coloca acima dos animais.</p>
<p align="center">***</p>
<p>E que cada um coloca na sua Bíblia o que quer. Porque, embora considere o ideal da barriga de tanquinho esteticamente tão lamentável (e certamente tão arbitrário) quanto o de unhas pintadas de qualquer cor, não pude deixar de notar que Keith Ablow usa o rosto ativamente <a href="http://www.google.com.br/images?q=Keith Ablow">barbeado</a> &#8211; e não preciso lembrar o leitor que ninguém deve confiar num homem sem barba. Está na Bíblia.</p>
<p>Ou, como acrescenta algumas vezes o meu pai: &#8220;se não está, pode colocar que é bom&#8221;.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug005.gif"></p>
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		<title>A pastoral do medo</title>
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		<pubDate>Wed, 13 Oct 2010 08:56:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Divino preconceito]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[Sociedade]]></category>
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		<description><![CDATA[Há um bom motivo pelo qual o alarmismo é contagioso e irresistível, e se espalha como a peste pelas veias da internet; há um motivo pelo qual os pregadores invariavelmente demonizam seus adversários, e afirmam haver gigantes insaciáveis onde ficará demonstrado haver moinhos de vento: semear o medo torna as pessoas vulneráveis, e gente vulnerável [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Há um bom motivo pelo qual o alarmismo é contagioso e irresistível, e se espalha como a peste pelas veias da internet; há um motivo pelo qual os pregadores invariavelmente demonizam seus adversários, e afirmam haver gigantes insaciáveis onde ficará demonstrado haver moinhos de vento: semear o medo torna as pessoas vulneráveis, e gente vulnerável pode ser manipulada. </p>
<p>O medo só é capaz de dominar quem tem alguma coisa a perder; quem não tem nada a perder não tem a nada temer. Esta é uma equação delicada, especialmente num país como o Brasil, em que a distribuição de renda está entre as dez mais desiguais<span style="float:right; text-align:right; width:35%; color:#7c836d; margin:12px 0 12px 12px; font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps; font-size:1.4em; line-height: 1.3em">A igreja vive de elencar os medos que a sociedade deve ter.</span> do mundo (e é um mundo grande): há sempre o risco de que os que não tem nada a perder se levantem contra os que tem tudo a perder.</p>
<p>Em todo o mundo, mas especialmente num país com a nossa história, a classe média ocupa mais ou menos o espaço que ocupava a nobreza nos tempos medievais e coloniais. E, como sabemos o que aconteceu à nobreza em insurreições como a Revolução Francesa, a classe média adentrou a era moderna imbuída de um medo que lhe é absolutamente característico e essencial: <em>o medo da perturbação social.</em></p>
<p>A classe média sabe desejar o progresso e é capaz de assimilar a mudança, porém (exatamente como a nobreza antes dela) tem absoluto horror à desordem. Seu mundo de shopping centers, de ambientes de ar condicionado e de seguranças na porta (a fim de manter os incompatíveis à distância) deve ser resguardado a todo custo. Passeatas, quebra-quebras, invasões de sem-terra, ladrões que levam o iPad e revoluções de gente faminta devem pertencer ao domínio ilustrativo dos filmes de zumbi. Na verdade, já o constrangimento de ser abordado por uma criança de rua na esquina deve ser aplacado pelo uso preventivo de carros blindados e vidros escuros.</p>
<p>A estabilidade social, entendida como a manutenção de um estado de coisas em que uma minoria administre e se beneficie de recursos que são de todos, é o valor por excelência da classe média. Não há outra verdade eterna que ela esteja disposta a defender.</p>
<p>O medo da perturbação social, no entanto, é genérico demais e precisa encontrar ícones que os encarnem de modo satisfatório. É preciso pulverizar o nosso medo essencial atribuindo-o a culpados e demônios. </p>
<p>E, se quisesse manipular nos nossos dias uma burguesia absolutamente aterrorizada diante da possibilidade de perturbações sociais, que alvos você elegeria? Deixe-me ajudá-lo: elejamos os homossexuais, os que defendem o aborto, os sem-terra, os comunistas<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/a-pastoral-do-medo/#footnote_0_2381" id="identifier_0_2381" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="Na Europa e nos Estados Unidos seria necess&aacute;rio incluir nesta lista os mu&ccedil;ulmanos e os imigrantes.">1</a></sup>. </p>
<p>Cada uma dessas categorias representa, à sua maneira, uma formidável possibilidade de perturbação social; cada uma, à sua maneira, materializa uma ameaça à tranquilidade <span style="float:right; text-align:right; width:35%; color:#7c836d; margin:12px 0 12px 12px; font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps; font-size:1.4em; line-height: 1.3em">O que a classe média teme são perturbações sociais.</span> sanitizada do indefectível universo burguês, em que nada é sujo, nada é feio, nada é controverso e nada é constrangedor.</p>
<p>E que ameaça maior do que um mundo em que a união civil entre homossexuais denuncie diariamente o caráter relativo e historicamente determinado de soluções de convívio que a sociedade toma por normativas? O que parecerá mais perturbador do que um mundo em que gente do sexo masculino ouse definir a sua relação mútua pela afetividade e não pela agressividade e pela competição? Um mundo em que mulheres ousem prescindir do homem para encontrar a sua satisfação sexual e emocional?</p>
<p>Do mesmo modo, será preciso avaliar a ameaça de um mundo em que o aborto exista sequer como possibilidade. Porque este mundo irá postular como legítimo que a mulher exerça controle sobre seu próprio corpo e sobre seu próprio prazer, e esses domínios pertencem por tradição ao âmbito do seu homem. </p>
<p>E que dizer dos sem-terra e dos comunistas, que <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/porque-nao-sou-de-direita/">blasfemam do próprio capitalismo</a> e querem virar o mundo do avesso, ignorando os privilégios milenares da propriedade, da classe social e do lucro, e isso em favor de uma ameaça tão declarada quanto a &#8220;igualdade social&#8221;? O que pode ser mais inaceitável do que esse ataque direto à estabilidade &#8211; à própria existência &#8211; do mundo entrincheirado da burguesia<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/a-pastoral-do-medo/#footnote_1_2381" id="identifier_1_2381" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="Uma sociedade justa &eacute; uma em que, por defini&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o existe m&atilde;o de obra barata. Conversei esta semana com um empres&aacute;rio que estava estarrecido diante da sua dificuldade de encontrar gente disposta a trabalhar na base da pir&acirc;mide pelo sal&aacute;rio que ele costumava oferecer. Diante de seguran&ccedil;as de fundo como Seguro-Desemprego e Bolsa Fam&iacute;lia, os desqualificados do sistema est&atilde;o pensando duas vezes antes de se submeter a uma posi&ccedil;&atilde;o desumanizante e pouco promissora. Esse empres&aacute;rio sentia-se pressionado a ou aumentar os seus sal&aacute;rios ou diminuir a sua margem de lucro, e ambas as solu&ccedil;&otilde;es o apavoravam, porque emblemavam e estavam fundamentadas numa perturba&ccedil;&atilde;o social. Seu mundo de enriquecimento r&aacute;pido baseado na submiss&atilde;o volunt&aacute;ria dos mais fracos estava sendo amea&ccedil;ado, e seu patrim&ocirc;nio corre o risco de n&atilde;o dobrar n&oacute;s pr&oacute;ximos anos. Nada o deixava mais desconcertado e temeroso.">2</a></sup>?</p>
<p>Se é para preservar o presente mundo das perturbações sociais, será necessário negar qualquer igualdade de direitos civis aos homossexuais, chamando sua demanda de ditadura gay; será preciso abominar o aborto acenando com a bandeira pró-vida, ao mesmo tempo em que escondemos atrás dela os recursos que financiam a morte nas guerras e o horror das crianças vivas que passam fome patrocinada pelo capitalismo; será preciso rejeitar qualquer iniciativa que altere desfavoravelmente (para nós) a distância de segurança entre as castas, tachando-as de paternalismo, assistencialismo, compra de votos e introdução gradual da doutrina comunista<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/a-pastoral-do-medo/#footnote_2_2381" id="identifier_2_2381" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="Pode ser necess&aacute;rio lembrar que o anarquista que existe em mim recusa-se a reconhecer a legitimidade de solu&ccedil;&otilde;es legislativas ou pol&iacute;ticas para quaisquer dessas quest&otilde;es. Na verdade rejeito a supremacia de qualquer solu&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica. O que reconhe&ccedil;o &eacute; que o movimento colocado em movimento por Jesus e por suas testemunhas (movimento que aclamava contra o senhorio de C&eacute;sar um rei primeiro descal&ccedil;o, depois invis&iacute;vel, e maquinava a implanta&ccedil;&atilde;o nesta terra de um reino que n&atilde;o &eacute; deste mundo) pressup&otilde;e e instaura o fim de todos os governos.">3</a></sup>.</p>
<p>Pelo menos desde a Idade Média o papel da igreja foi fundamental na definição e na propagação de medos expiatórios como esses. Num sentido muito profundo, a igreja vive de elencar os medos que a sociedade deve ter. Coube tradicionalmente a ela fornecer os demônios cuja execração garanta a continuidade do estado de coisas &#8211; e resguarde, no mesmo pacote, a influência que a própria igreja exerce sobre as pessoas.</p>
<p>Aqui está Jean Delumeau, notável mapeador de medos, falando da cidade sitiada que era a sociedade medieval:</p>
<blockquote><p>Os homens da igreja levantaram os males que [Satã] é capaz de provocar e a lista de seus agentes: os turcos, os judeus, os heréticos, as mulheres (especialmente as feiticeiras). Operaram uma triagem entre os perigos e assinalaram as ameaças essenciais, isto é, aquelas que lhes pareceram tais, levados em conta sua formação religiosa e seu poder na sociedade. Uma ameaça de morte viu-se assim segmentada em medos, seguramente temíveis, mas &#8220;nomeados&#8221; e explicados, porque refletidos e aclarados pelos homens da igreja. Essa enunciação designava perigos e adversários contra os quais o combate era, se não fácil, ao menos possível, com a ajuda da graça de Deus. Desmascarar Satã e seus agentes e lutar contra o pecado era, além disso, diminuir sobre a terra a dose de infortúnios de que são a verdadeira causa. Essa denúncia se pretendia, pois, liberação, a despeito &#8211; ou melhor por causa &#8211; de todas as ameaças que fazia pesar sobre os inimigos de Deus desentocados de seus esconderijos. </p></blockquote>
<p>Basta que se troquem os rótulos &#8211; saem turcos, judeus, heréticos e feiticeiras e entram comunistas, homossexuais, feministas e <a href="http://www.baciadasalmas.com/2009/ainda-sobre-a-ameaca-muculmana/">muçulmanos</a> &#8211; para que se veja que a igreja permanece elegendo &#8220;ameaças essenciais&#8221; de modo a beneficiar-se do pavor que a sociedade tem de perder os privilégios da familiaridade.</p>
<p>A igreja formal contemporânea dispõe de uma parcela de poder infinitamente menor do que a medieval, mas isso não torna os seus esforços menos enfáticos. Ao contrário, para resguardar o pouco poder que lhe resta, os homens da igreja se entregarão com paixão inquisitorial à tarefa de elencar demônios e exercer sua faculdade autoimposta de polícia social. E, como observado por Delumeau, parte essencial dessa estratégia é manter os cristãos com uma certa dose de <em>medo de si mesmos</em> &#8211; medo de serem contados entre o inimigo, medo de não defenderem com suficiente ardor uma pureza nominal, medo da rejeição institucional e de seus preços.</p>
<p>O problema de uma comunidade dominada pelo medo é que ela pode ser manipulada a ceder a gravíssimas injustiças em nome da preservação de sua tranquilidade idealizada. Dessa forma a Alemanha abraçou de bom grado o discurso nazista, por medo das perturbações sociais encarnadas na ameaça do comunismo e numa suposta dominação judaica mundial. Dessa forma a Itália dobrou-se servilmente ao fascismo e o Brasil à ditadura militar, porque esses autoritarismos berravam ameaças de uma impensável sublevação e de uma horrendo nivelamento societário. E, como era de se esperar, esses movimentos de terror contaram com o apoio aberto &#8211; e, em alguns casos, <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/pela-alma-do-povo-omissoes-coletivas-e-bravuras-individuais/">o constrangido silêncio</a> &#8211; da igreja.</p>
<p>Em que somos menos manipuláveis do que a Alemanha nazista, se tememos as mesmas coisas? Os nazistas temiam que os judeus imprimissem no mundo seus valores, sua supremacia e sua estética, e nós tememos que os homossexuais implantem nele a sua agenda; os nazistas temiam que os comunistas aplainassem as classes ao ponto de uma completa descaracterização nacional, e nós tememos a mesma coisa. Somos nós a cidade sitiada, e o que nos conforta são os gritos do clero explicando o que devemos temer &#8211; e assim o que devemos odiar.</p>
<p>A ironia da participação da igreja na disseminação desses terrores está em que o movimento cristão nasceu e se desenvolveu num ambiente caracterizado por formidáveis perturbações sociais. Jesus ganhou fama de rei numa Palestina ocupada em que vinham periodicamente à tona levantes e guerrilhas dirigidas contra os romanos e sua opressão imperialista. O Templo dos judeus não sobreviveu ao sangrento confronto do ano 70 desta era, e poucas décadas mais tarde os próprios cristãos viram levantar-se contra o seu mundo uma longa e implacável perseguição.</p>
<p>Ainda mais paradoxal é reconhecer que, se devemos dar crédito ao Novo Testamento, a maior e mais radical fonte de perturbação social naqueles anos foi o próprio movimento cristão. Dos <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/arrepender-se-e-mudar-o-mundo/">apelos de João Batista por justiça social</a> até <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/o-que-havia-sido-usurpado/">as mesas comunitárias do livro de Atos</a>, passando pelos <a href="http://www.baciadasalmas.com/2008/o-amor-e-mais-severo-que-a-justica/">confrontos de Jesus com todas as elites do seu tempo</a>, o movimento do reino representou uma intransigente e contínua sublevação societária. </p>
<p>Em conformidade com a herança de seu mestre (e causando o mesmo tipo de constrangimento), os colonos do reino levavam <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/a-disciplina-da-inclusao">por onde passavam</a> as demandas por justiça, por fraternidade universal e pelo amor incondicional entre os homens. Quando a boa nova chegou a Tessalônica, na pessoa de Paulo e Silas, seus adversários não poderiam ter escolhido melhor as palavras para descrever a ameaça de perturbação social que representavam: &#8220;esses que estão virando o mundo de cabeça para baixo chegaram também aqui&#8221;.</p>
<p>Quando adotamos o discurso do medo, portanto, estamos tentando imprimir sobre a proposta impoluta e subversiva do reino marcas que são incompatíveis com a sua essência e com a sua herança. Porque o Novo Testamento não deixa espaço para dúvida: igreja não é quem teme a perturbação social, mas <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/o-fim-de-todos-os-governos/">quem a provoca</a>. Igreja não é quem promove o medo, mas quem o aplaca e o anula <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/a-invencao-da-gentileza/">pela inclusão e pelo amor</a>. &#8220;O amor lança fora todo o medo&#8221;, ousou proclamar a provisão imprudente do Espírito.</p>
<p>E nós, o que fazemos? Enquanto a igreja exemplar do livro de Atos aprendia, passo a passo, a incluir o diferente e <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/a-graca-dos-vasos-comunicantes/">o tido previamente como inaceitável</a> (a mulher, o aleijado, o eunuco, o gentio), nós demonizamos como inaceitável o homossexual. Enquanto a igreja exemplar do livro de Atos adotava todo o tipo de <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/as-contradicoes-da-prosperidade/">medidas distributivas</a> e postulava um reino definido pela equidade, nós condenamos como comunismo e como Satanás a mínima provisão que vise apenas desbastar os abismos da distribuição de renda.</p>
<p>E nisso, que fique muito claro, vamos escolhendo aqueles medos que nos mantenham a salvo da nossa vocação.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug000.png"></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2009/ainda-sobre-a-ameaca-muculmana/">Ainda sobre a ameaça muçulmana</a><br />
<a href="http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/maria-rita-kehl-dois-pesos.html">Não se fazem mais pés de chinelo como antigamente</a></p>
<p>&nbsp;</p>
<b><small>NOTAS</small></b><ol class="footnotes"><li id="footnote_0_2381" class="footnote">Na Europa e nos Estados Unidos seria necessário incluir nesta lista os muçulmanos e os imigrantes.</li><li id="footnote_1_2381" class="footnote">Uma sociedade justa é uma em que, por definição, não existe mão de obra barata. Conversei esta semana com um empresário que estava estarrecido diante da sua dificuldade de encontrar gente disposta a trabalhar na base da pirâmide pelo salário que ele costumava oferecer. Diante de seguranças de fundo como Seguro-Desemprego e Bolsa Família, os desqualificados do sistema estão pensando duas vezes antes de se submeter a uma posição desumanizante e pouco promissora. Esse empresário sentia-se pressionado a ou aumentar os seus salários ou diminuir a sua margem de lucro, e ambas as soluções o apavoravam, porque emblemavam e estavam fundamentadas numa perturbação social. Seu mundo de enriquecimento rápido baseado na submissão voluntária dos mais fracos estava sendo ameaçado, e seu patrimônio corre o risco de não dobrar nós próximos anos. Nada o deixava mais desconcertado e temeroso.</li><li id="footnote_2_2381" class="footnote">Pode ser necessário lembrar que o anarquista que existe em mim recusa-se a reconhecer a legitimidade de soluções legislativas ou políticas para quaisquer dessas questões. Na verdade rejeito a supremacia de <em>qualquer</em> solução política. O que reconheço é que o movimento colocado em movimento por Jesus e por suas testemunhas (movimento que aclamava contra o senhorio de César um rei primeiro descalço, depois invisível, e maquinava a implantação nesta terra de um reino que não é deste mundo) pressupõe e instaura <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/o-fim-de-todos-os-governos">o fim de todos os governos</a>.</li></ol>]]></content:encoded>
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		<title>O sacro rompimento</title>
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		<pubDate>Wed, 14 Apr 2010 10:31:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Divino preconceito]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[catolicismo]]></category>
		<category><![CDATA[reforma protestante]]></category>

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		<description><![CDATA[Outro dia eu conversava no messenger com um amigo italiano e ele mencionou que na cidade de Ravenna há importantes igrejas cristãs construídas pouco mais de 400 anos depois de Cristo &#8211; ou seja, um piscar de olhos (em termos históricos) depois da passagem de Jesus pela terra. Ele lembrou em seguida que o Santo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Outro dia eu conversava no messenger com um amigo italiano e ele mencionou que na cidade de Ravenna há importantes igrejas cristãs construídas pouco mais de 400 anos depois de Cristo &#8211; ou seja, um piscar de olhos (em termos históricos) depois da passagem de Jesus pela terra.</p>
<p>Ele lembrou em seguida que o Santo Sudário estava mais uma vez sendo exposto ao público na Catedral de São João Batista em Turim, como acontece periodicamente. E aproveitou para contar a teoria de uma historiadora dos Arquivos Secretos do Vaticano, Barbara Frale, que postula que o grande segredo dos templários era que sua ordem venerava a figura de Cristo no Sudário &#8211; sendo que seus integrantes juravam contornar as tentações do poder mantendo-se fiéis à humanidade de Jesus estampada muito literalmente no lençol de Turim.</p>
<p>Eu acompanhava interessadíssimo a história e ponderava a beleza de suas implicações, quando meu amigo [católico] interrompeu sua exposição para perguntar:</p>
<p>&#8211; E vocês, protestantes, o que pensam do Sudário?</p>
<p>Respondi sem pensar, mas fiquei imediatamente estarrecido diante do rigor da resposta:</p>
<p>&#8211; Nada que aconteceu antes de 1500 nos interessa &#8211; eu disse.</p>
<p>E completei, apenas em parte ironicamente:</p>
<p>&#8211; Nem mesmo Jesus, coitadinho.</p>
<p>E se conto a história dessa conversa é porque não consigo deixar de pensar no que disse. <em>Nada que aconteceu antes de 1500 nos interessa.</em></p>
<p>Foi necessária essa precisa articulação da ideia para eu entender que o rompimento sonhado e efetuado pelos protestantes não foi apenas com a Igreja Católica, mas com a própria História. Nosso método para corrigir mil e quinhentos anos de cristandade foi ignorá-los. Consequentemente, nossa relação com a História é ainda hoje precisamente oposta à do catolicismo, que vive (e na verdade depende de) uma contínua ligação ela. </p>
<p>No que diz respeito a nós, precisamente nada aconteceu no cristianismo (e portanto no mundo) entre a conclusão do Novo Testamento e as indignações de Lutero e as paixões dos anabatistas. Se dependesse de nós, esses 1500 anos intermediários seriam apagados das atas ou, no máximo, mantidos como embaraçosa nota de rodapé &#8211; monumento ou advertência contra o obscurantismo que a luz da Reforma tratou de expor e reparar.</p>
<p>Em termos muito reais, é esse rigoroso rompimento, essa cirúrgica remoção, que aplicamos à narrativa do movimento cristão. Nosso verdadeira filiação, queremos crer, é com a igreja vitoriosa e impoluta do livro de Atos, não com a estrutura corrupta e vendida que dominou a cristandade antes que aparecêssemos para denunciá-la. Decidimos que esse período intermediário, que ao mesmo tempo desconhecemos e abominamos, deve ser desconsiderado &#8211; porque a herança de Cristo só passou a ser eficazmente defendida quando entramos em cena para honrá-la como convém.</p>
<p>Em conformidade com isso, fazemos questão de não confessar &#8211; e fazemos isso ignorando-os &#8211; qualquer continuidade com as vidas dos mártires e dos santos, com os assombros do medievo, com as Cruzadas e peregrinações, com a subversão descalça de São Francisco, com os fogos da Inquisição e as lancetas da penitência, com a paixão medieval pelos pobres e a obsessão medieval pelos símbolos; nada sabemos e nada queremos saber sobre a adoração de relíquias, a função dos gárgulas, os diferentes ritos latinos, as estações da cruz, os cinco mistérios gloriosos, os círculos do rosário ou o segredo da construção de catedrais. Nada temos em comum e nada queremos ter com Teodorico e Teodora, com Catarina de Siena, com São João da Cruz, com Elredo de Rievaulx, com Tomás de Aquino, com Santa Luzia, com Carlos Magno, com Teresa de Ávila. Nosso Deus é o de Abraão, Isaque e Jacó, mas &#8211; pelo amor de Deus &#8211; não é o Deus de Joana d&#8217;Arc, de Giotto, de Gregorio I e de Dante Alighieri. Rejeitamos todas as imagens, todo acender de velas, todo pagamento de promessa, todos os intermediários não autorizados, todo penduricalho, todo Sagrado Coração, toda veneração transgressora.</p>
<p>Igrejas com mais de 500 anos são para nós uma contradição em termos. Não temos qualquer relação com essa história. Ela não nos pertence. Temos raiva de quem sabe. A veneração do Sudário, para falar de outro marco que desconhecemos, é demonstração de rebeldia, ignorância e credulidade. Nada tem a ver, por certo, com a verdadeira fé.</p>
<p>Nosso rompimento com o passado está tão entranhado na nossa postura que, à parte [alguns] dentro das chamadas denominações históricas, vivemos completamente à parte de qualquer relação de continuidade até mesmo com a tradição protestante ou evangélica. Nem mesmo esses 500 anos de protestantismo nos interessam. Não sabemos o que disseram ou fizeram Lutero, Calvino, Knox, Wesley ou mesmo Billy Graham; nada conhecemos sobre os primórdios dos metodistas ou da relação dos batistas norte-americanos com a Guerra da Secessão. O passado evangélico é um lugar que não existe. Tudo que queremos ouvir é o presente pregador oferecendo neste instante a prosperidade para o momento presente.</p>
<p>A primeira e mais grave consequência desse rompimento com o passado é o esvaziamento simbólico dos nossos espaços interiores e exteriores. Quando descartamos as linguagens cristãs da antiguidade e da era medieval (como se fossem mais ambíguas e questionáveis do que a nossa), exterminamos do coração da fé todo mito, toda metáfora e todo assombro. Só nos resta a superfície, a aparência da aparência de uma existência espiritual.</p>
<p>O utilitarismo que nos caracteriza é explicado por essa alienação com a alma das coisas, porque em nosso isolamento passamos a ver as coisas como ferramentas, os lugares como facilidades e as pessoas como números.</p>
<p>Essa devastação de nosso ambiente simbólico fica patente na arquitetura de praticamente qualquer templo [uso o termo com moderado sarcasmo] evangélico contemporâneo. Uma casa fala do que está cheio o coração, e nada há nas paredes de um templo evangélico que dê indício de riqueza interior ou de qualquer compromisso com a história. Tratam-se de edifícios assépticos, indistintos, utilitaristas &#8211; e essas suas qualidades falam por nós e de nós. Retirem-se apenas os bancos, e o que resta tem o apelo de um salão de churrascaria, o caráter de um piso de indústria ou almoxarifado; a sala de espera de uma repartição pública terá inevitavelmente mais alma, mais ornamento e mais conteúdo simbólico. Via de regra não há no edifício evangélico sequer uma cruz ou crucifixo, porque nosso distanciamento simbólico se estende até mesmo a Jesus. Nada queremos com o Jesus histórico que percorreu a Palestina ou os evangelhos, nem com o Filho de Deus que tocou a cruz, de onde poderia nos intimidar; só queremos saber do Cristo invisível, que não tem como nos constranger com seu olhar, e que habita o céu, de onde pode incessantemente nos favorecer. Desconhecemos a noção de que lugares possam se tornar imbuídos de significado (e portanto de valor), pelo que vendemos sem pestanejar a propriedade em que nos reuníamos para construir templo maior ou mais conveniente em outro lugar.</p>
<p>Nenhuma outra nação encarna essa dissociação com a história de modo mais formidável do que os Estados Unidos, país evangélico por excelência, e que em conformidade com essa vocação opera de modo a ignorar deliberadamente qualquer outra história (e portanto qualquer outro valor) que não seja a sua. Os aspectos bélicos e mercantilistas da missão civilizadora/evangelizadora dos Estados Unidos explicam-se por esse rompimento radical com a história de outros povos e culturas. Os norte-americanos se compadecem grandemente de países que não são os Estados Unidos &#8211; lugares pagãos como a Namíbia, a Itália, a União Soviética e o Sri-Lanka &#8211; e tomaram sobre os ombros a tarefa de salvar o mundo, estendendo a todos a sombra redentora da sua bandeira. Intuem que os povos só serão de fatos redimidos quando forem liberados por seus exércitos, ou quando encontrarem a luz do valor supremo do poder de compra. Nisso são impulsionados pela dó que têm dos povos que não compartilham de suas datas cívicas; representam o primeiro império da história impelido pela sinceridade da sua compaixão.</p>
<p>Outra consequência da dissociação evangelical com as raízes da história é que nos tornamos um povo que não tem a quem prestar contas. Não só os erros da Igreja Católica não nos dizem respeito; também não queremos ser julgado pelas imprudências de Lutero, pelas imoderações de Calvino, pelos exageros dos missionários entre os índios, pelas omissões dos cristãos na Alemanha nazista, pela desfiguração de culturas confrontadas com o capitalismo cristão, pelo usurpação de recursos ambientais que pertenciam muito claramente a todos. Na verdade nossa dissociação com o passado é tamanha que não queremos ser responsáveis pelo que <em>nós mesmos fizemos</em> em nosso próprio tempo de vida. Erigimos dessa forma, e com a assombrosa conivência de Deus, <a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/os-evangelicos-e-a-impunidade/">um reino de impunidade</a>.</p>
<p>Em retrospecto, não é de estranhar que o capitalismo industrial e o protestantismo sejam gêmeos <a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/a-teologia-do-capital/">nascidos no mesmo berço</a>. Como gentilmente diagnosticado por Marx, a consequência mais incontornável do capitalismo é a alienação &#8211; alienação que, <s>para o bem ou</s> para o mal, acabou determinando todos os aspectos do desenvolvimento cultural, social e econômico que veio depois. Não é exagero supor que a alienação capitalista só tenha se tornado possível a partir da alienação anterior, o sacro rompimento do movimento protestante com a história prévia do movimento que se levantaram para reparar.</p>
<p>***</p>
<p>Justamente por desconhecermos a história, raramente paramos para avaliar o que perdemos nessa transação de adquirir o futuro vendendo nossa parte da herança com o passado. Gostaria de mencionar uma única baixa que tomo por especialmente representativa do prejuízo como um todo: a perda da capacidade de ajoelhar-se diante das coisas.</p>
<p>Ao contrário do que católicos costumam fazer, os evangélicos absolutamente não se ajoelham diante de coisas (digamos, cruzes, imagens ou lugares sagrados). Aprendemos e confessamos que o verdadeiro crente deve dobrar-se apenas diante do Deus invisível ou do Cristo (invisível), seu sócio e representante autorizado. </p>
<p>O paradoxo está em que quando se ajoelham diante de imagens ou de relíquias ou capelas os católicos estão fazendo confissão oposta à que atribuímos a eles. Enquanto se dobram diante do que é meramente material, estão reconhecendo tacitamente que os objetos por si mesmos não se bastam e não se explicam; estão confessando que as coisas não se esgotam em sua utilidade imediata e não se constituem na definição última da realidade. Devidamente instruídos pela mentalidade medieval, eles intuem que o valor das coisas não está em sua função utilitária, mas em sua função simbólica. As coisas apontam para outra realidade; as coisas remetem. </p>
<p>Ajoelhar-se diante das coisas, incrivelmente, é colocar as coisas no seu devido lugar &#8211; porque ao fazê-lo reconhecemos simultaneamente a sua insuficiência, sua condição de emblema de uma realidade impalpável, transcendente e superior. Nós, que nunca beijamos os pés de uma Maria ou deixamos os joelhos tocar o mármore frio diante de um Crucificado, desconhecemos por completo esse assombro. Somos paupérrimos de conteúdo simbólico e virgens de transcendência; porque nos recusamos a tocar o material, somos privados da realidade intangível a que as coisas silenciosamente remetem.</p>
<p>E precisamente nós de herança protestante, que não nos ajoelhamos diante de coisas, somos os que alçaram sacrilegamente as coisas a um patamar de valor que muito claramente as coisas não têm. Somos os inventores e os contínuos promotores do capitalismo industrial que gerou os holocaustos do <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/porque-nao-sou-de-direita/">neoliberalismo</a> contemporâneo; aperfeiçoamos a ciência do lucro, engendramos <a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/o-culto-da-performance/">o culto da performance</a> e evangelizamos o mundo com a terrível nova de que ser livre é ter a capacidade de adquirir. Vivemos em torres de <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/o-que-havia-sido-usurpado/">ganância</a>, oramos por prosperidade material, decretamos o insucesso financeiro dos nossos inimigos, dedicamos a vida a angariar os bens de que não iremos precisar &#8211; e chamamos o que <em>eles fazem</em> de idolatria.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug062.gif"></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2007/so-os-catolicos-sabem-o-que-e-a-graca/">Só os católicos sabem o que é a graça</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2008/o-holocausto-da-alma/">O holocausto da alma</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2009/a-reforma-e-a-psicotizacao-da-experiencia-materialistas-gracas-a-deus/">A Reforma e a psicotização da experiência</a></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Ainda sobre a ameaça muçulmana</title>
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		<pubDate>Thu, 19 Nov 2009 23:56:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Divino preconceito]]></category>
		<category><![CDATA[cristianismo]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[islam]]></category>

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		<description><![CDATA[A versão curta: Nada há para temer. A versão longa: Há muitos sentidos em que é desnecessário e antiético semear o pânico acenando com uma iminente islamização do Ocidente, e O mundo está mudando &#8211; aparentemente o título do vídeo de propaganda anti-islâmica que mencionei há pouco e que, informaram-me por email, é versão brasileira [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A versão curta:</p>
<p>Nada há para temer.</p>
<p>A versão longa:<a href="http://www.baciadasalmas.com/images/2009/bits/gente-islam-b.jpg"> <img class="alignleft" title="Propaganda nazista versus propaganda evangélica: o mundo não está mudando" src="http://www.baciadasalmas.com/images/2009/bits/gente-islam.jpg" border="0" alt="" /> </a></p>
<p>Há muitos sentidos em que é desnecessário e antiético semear o pânico acenando com uma iminente islamização do Ocidente, e <em>O mundo está mudando</em> &#8211; aparentemente o título do <a href="http://www.baciadasalmas.com/2009/a-boa-noticia/"> vídeo de propaganda anti-islâmica que mencionei há pouco</a> e que, informaram-me por email, é versão brasileira de <a href="http://www.youtube.com/watch?v=yxn7MRkLP8I">uma produção norte-americana</a> &#8211; é exemplo acabado dessa mentalidade a ser denunciada.</p>
<p>Em primeiro lugar há o mais escancarado, o fato de que o vídeo (e sua mentalidade) empunham <a href="http://www.baciadasalmas.com/2009/a-transfiguracao-do-conflito/">a máscara da acusação</a> e promovem o caminho fácil da demonização do outro. Para os produtores do vídeo, o mundo não apenas será muçulmano, mas será um mundo certamente pior precisamente por essa razão. Está pelo menos implícito que os muçulmanos são gente <em>do mal</em>; que o Islam é uma mancha que está ameaçando com sua imundície o seio imaculado e cristão do Ocidente.</p>
<p>Esta tonalidade de discurso é especialmente mesquinha e perigosa, porque <a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/o-poder-dos-pesadelos-parte-13/">semear o medo</a> é um dos modos mais certeiros de se produzir alienação, estranhamento e intolerância &#8211; e, como bônus &#8211; controlar as massas.<a href="http://www.baciadasalmas.com/images/2009/bits/islam-alastra-01-b.jpg"> <img class="alignleft" title="Propaganda nazista versus propaganda evangélica: o mundo não está mudando" src="http://www.baciadasalmas.com/images/2009/bits/islam-alastra-01.jpg" border="0" alt="" /> </a></p>
<p>Não há como deixar de lembrar que foi essa a estratégia usada pelos nazistas para alienar os judeus. Multidões sem fim de alemães sensatos foram calados por esse discurso, e as ferramentas utilizadas para manipulá-los foram precisamente as mesmas a que recorre esse novo vídeo cristão.</p>
<p>Não havia ainda o <em>Youtube</em>, mas na Alemanha nazista os cidadãos também recorriam a artefatos culturais arbitrários a fim de orientarem suas posições. <em>Der Ewige Jude</em> (&#8220;O judeu eterno&#8221;, 1940), um dos filmes mais odiosos de todos os tempos, demonizava os judeus com praticamente os mesmos argumentos com que <em>O mundo está mudando</em> demoniza os muçulmanos (veja as imagens comparativas que ilustram este artigo).</p>
<p><em>Der Ewige Jude</em> alertava que, caso não fossem interrompidos imediatamente, os judeus dominariam o mundo; <em>O mundo está mudando</em> profetiza que, se não forem detidos por cristãos de coração puro, os muçulmanos engolirão a Terra.</p>
<p><a href="http://www.baciadasalmas.com/images/2009/bits/islam-alastra-02-b.jpg"> <img class="alignleft" title="Propaganda nazista versus propaganda evangélica: o mundo não está mudando" src="http://www.baciadasalmas.com/images/2009/bits/islam-alastra-02.jpg" border="0" alt="" /> </a>O que está implícito na iconografia comum é a solução comum. Não se engane: para os produtores de <em>O mundo está mudando</em> os muçulmanos devem ser a qualquer custo detidos, marginalizados, neutralizados e eliminados &#8211; se não pelo bem opcional da conversão, quem sabe pelo mal necessário do campo de refugiados.</p>
<p>O segundo ponto que precisa ser espetacularmente denunciado é a hipocrisia da coisa toda. A posição oficial do vídeo (bem como do discurso subjacente) é de que o que está em risco, aquilo que precisa ser em última instância defendido contra a ameaça muçulmana, é &#8220;nossa cultura&#8221;. Quem assiste pode até pensar que os produtores querem ver preservado &#8220;para nossas crianças&#8221; os valores morais e a herança artística/histórica da civilização ocidental.</p>
<p>É hipocrisia, porque trata-se de um vídeo de propaganda: o que quer promover é a religião/religiosidade cristã (em sua modalidade evangélica) contra todos os competidores. É ainda hipocrisia em dose dupla, porque o que acaba defendendo não é nem mesmo o cristianismo formal, mas o modo de vida capitalista ocidental, que se vê constantemente ameaçado por manifestações mais temperadas e menos egoístas de islamismo.<span style="margin: 12px 0pt 12px 12px; float: right; font-weight: bold; text-align: right; width: 35%; color: #000000; padding-bottom: 100px; font-family: Calibri,Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: 0.8em; line-height: 1.3em;"><a href="http://www.archive.org/details.php?identifier=Der_Ewige_Jude"><img title="Der Ewige Jude" src="http://www.baciadasalmas.com/images/2009/bits/der-ewige-jude.gif" alt="" /></a><br />
Os judeus se alastram pela Europa e pelo mundo, no paranóico e perverso <em><a href="http://www.archive.org/details.php?identifier=Der_Ewige_Jude">Der Ewige Jude</a> (1940) da propaganda nazista</em></span></p>
<p>O curioso é que, pessoalmente, a única coisa que realmente lamento no avanço muçulmano em terreno europeu é precisamente aquilo que o vídeo afirma (hipocritamente) lamentar: a eventual perda de uma imponderável parcela da herança cultural do ocidente. Se é doloroso para mim pensar em igrejas milenares que se tornarão mesquitas, é por causa do peso de &#8220;milenares&#8221;, e não por causa do peso de &#8220;igrejas&#8221;.</p>
<p>Porém como em todos os casos, os cristãos devem abraçar irrestritamente a humildade, e lembrar que muitas dessas igrejas milenares &#8211; como descobri nesta passagem pelo norte da Itália &#8211; foram elas mesmas construídas sobre (e, em alguns casos, <em><strong>em</strong></em>) templos romanos que estavam ali muito antes delas.</p>
<p>Para resumir: não vejo como uma eventual Europa &#8220;muçulmana&#8221; poderá representar ameaça maior para a herança do cristianismo do que, digamos, os Estados Unidos &#8211; país bélico e consumista (não há diferença) que se considera em grande parte o epítome de &#8220;cristão&#8221;. Se sobreviveu a essa mácula e a essa representação, sobreviverá a qualquer coisa.</p>
<p>O legítimo movimento cristão, que é livre e gratuito e que edifícios fechados não podem conter, não tem por definição como ser ameaçado de fora. A única coisa que pode maculá-lo, é claro, somos nós, que dizemos Senhor, Senhor <a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/1-viva-a-intolerancia/">mas não fazemos o que ele diz</a>.</p>
<p>Fora nossa própria hipocrisia,<a href="http://www.baciadasalmas.com/2008/a-longa-rixa-da-misericordia-com-as-ordens-da-criacao/#temor"> nada há que temer</a>.</p>
<p>Finalmente, resta lembrar que ser cristão requer a vida do cidadão que se sujeita a esse projeto. Como exemplificado por Jesus e entendido por São Paulo e todos os mártires e São Francisco e Tolstoi e Gandhi e Martin Luther King e Madre Teresa, a única coisa que um cristão pode efetivamente fazer em defesa da sua fé é precisamente não lutar por ela. Lutar pelo cristianismo é baixar a cabeça e morrer. Se essa rendição for voluntária, como aparentemente está sendo, haverá talvez maior mérito para os que ousarem entregar o espírito.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug075.gif" alt="" /></p>
<p>Veja também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2009/gli-altri-siamo-noi/">Gli altri siamo noi</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2005/a-conversao-dos-turcos/">A guerra contra os turcos</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/os-estrangeiros-que-sao-todos">Os estrangeiros que são todos</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/o-ultimo-cristao/">O último cristão</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2004/a-raca-superior/">A raça superior</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2009/a-regra-do-argueiro-da-fe/">A regra do argueiro da fé</a><br />
<em>Der Ewige Jude,</em> <a href="http://www.archive.org/details.php?identifier=Der_Ewige_Jude">versão integral para download</a></p>
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		<title>História universal do sarcasmo de Lutero</title>
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		<pubDate>Sun, 31 May 2009 17:20:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Divino preconceito]]></category>
		<category><![CDATA[livre-arbítrio]]></category>
		<category><![CDATA[lutero]]></category>

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		<description><![CDATA[Nenhum autor da Reforma abraça retórica mais mesquinha do que Martinho Lutero &#8211; e é certamente por essa razão que com nenhum outro me identifico mais. Lutero é em muitos sentidos meu freio; não fosse a repugnância que causam-me os seus, meus próprios textos rebaixariam-se a indignidade ainda maior. Thomas More, Calvino e Erasmo não [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Nenhum autor da Reforma abraça retórica mais mesquinha do que Martinho Lutero &#8211; e é certamente por essa razão que com nenhum outro me identifico mais. Lutero é em muitos sentidos meu freio; não fosse a repugnância que causam-me os seus, meus próprios textos rebaixariam-se a indignidade ainda maior.</p>
<p>Thomas More, Calvino e Erasmo não desconheciam o uso do insulto e a ironia, e nisso abraçavam o espírito e a retórica do humanismo que os gerara. Lutero, no entanto, não se contentava com menos do que o sarcasmo. Muitas vezes  <a href="http://www.baciadasalmas.com/2005/a-solucao-final-de-lutero">corrosivo</a>, muitas vezes <a href="http://www.baciadasalmas.com/2005/lutero-alerta-os-alemaes">violento</a>, ocasionalmente grosseiro e chulo, Lutero gostava (como costumo fazer) de dar a impressão de ser duro consigo mesmo, mas era invariavelmente mais duro com os outros.</p>
<p>Eu poderia começar por virtualmente qualquer página sua, mas talvez seja mais instrutivo pensar na disputa entre Lutero e <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Erasmo_de_Roterd%C3%A3o">Erasmo de Roterdã</a> sobre a questão do livre-arbítrio. Erasmo era avesso por princípio e por propensão a abordar teologia e doutrina de forma direta; porém, incomodado diante dos furores categóricos de Lutero sobre a soberania divina, publicou em setembro de 1524 a reflexão <em>Diatribe sobre o livre-arbítrio</em> (<strong>De libero arbitrio diatribe</strong>).</p>
<p>O que se seguiu não foi uma disputa de idéias, verdades ou ortodoxias, mas um conflito de mentalidades, uma peleja de retóricas.</p>
<p>Na <em>Diatribe</em> Erasmo não defende pessoalmente a idéia do livre-arbítrio. O holandês detestava a dissensão e intuía que todos os radicalismos eram arbitrários; numa palavra, era sofisticado demais para rebaixar-se à execração categórica de Lutero. O que ele faz é apresentar ambos os lados da argumentação de forma que julga suficientemente imparcial. Sua conclusão é que a Escritura e o bom senso dão evidência tanto do livre-arbítrio humano quanto de um rigoroso controle de Deus sobre as coisas &#8211; pelo que ninguém pode ser condenado por sustentar como verdade uma coisa ou outra.</p>
<p>Para Lutero, que não suportava meios-termos, a conclusão aberta de Erasmo era abominação. O que Erasmo tinha de cauteloso e conciliador, Lutero tinha de inflexível e opinioso. Apelava sem rodeios à autoridade e não tinha qualquer paciência para com quem abordava os dois lados da questão. Quem não estava com ele estava contra ele; quem não estava com Deus estava com o Diabo.</p>
<p>Em dezembro do ano seguinte, em resposta à <em>Diatribe</em>, Lutero deu ao mundo <em>O arbítrio como escravo</em> (<strong>De servo arbitrio</strong>), e o mundo não teve dúvidas sobre quem havia vencido a disputa. O livre-arbítrio encontrara o seu algoz.</p>
<p>Lutero encontrou na moderação de Erasmo o terreno perfeito para espojar-se em sua retórica de renitência. Erasmo era fraco, ele era forte; Erasmo era hesitante, ele era categórico. Para Lutero, essa diferença de tonalidade e de espírito dizia tudo sobre a verdade inenerente às convicões de ambos. Tudo que ele precisava fazer era deixar isso claro, e não era homem de meias medidas.</p>
<p>O que aprendi com os parágrafos que seguem (os primeiros da obra de Lutero), e que pode ser acrescentado às <a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/38-maneiras">38 maneiras de se vencer uma argumentação</a>?</p>
<p><strong>1. </strong>Transforme o que poderia ser encarado como uma desvantagem estratégica (neste caso, a demora de Lutero em responder as objeções de Erasmo) num argumento em favor da fraqueza do seu oponente.<br />
<strong>2. </strong>Cometa elogios que não demorem a explicar-se como insultos.<br />
<strong>3. </strong>Recorra à compaixão como máscara da superioridade.</p>
<p>Tendo em vista a natureza da controvérsia, devo reconhecer que a ressalva &#8220;seja por sorte, acidente ou destino&#8221; é toque especialmente inclemente e bem executado.</p>
<h5>* * *</h5>
<p class="cita">Como demorei tanto a responder a sua Diatribe sobre o livre-arbítrio, meu venerável Erasmo, [. . .] alguns podem talvez ter se mostrado prontos a perguntar-se se [. . .] &#8220;então esse Macabeu, esse assertor inflexível, encontrou finalmente um antagonista digno, alguém contra quem não ousa abrir a sua boca.&#8221;</p>
<p class="cita">Não tenho como culpar esses homens, porque estou pronto eu mesmo a dar-lhe a mão à palmatória, como jamais fiz com homem algum. Admito não apenas o quanto você me excede em eloquência e genialidade; admito também que foi bem-sucedido em desarmar o meu espírito e minha inclinação em respondê-lo, tendo me deixado sem qualquer ânimo para a batalha. E isso você fez de duas formas: primeiro, pela sua arte de defender a sua causa do começo ao fim com tão admiráveis controle e moderação, que tornou impossível para mim ficar furioso com você; e, em segundo lugar, por ter, seja por sorte, acidente ou destino, conseguido não dizer coisa alguma sobre esse importante assunto que já não tenha sido dito antes.</p>
<p class="cita">Na verdade, você diz tão pouco de novidade em favor do livre-arbítrio, em relação ao que os sofistas já fizeram antes de você, que pareceu-me inteiramente desnecessário responder os argumentos que eu mesmo já refutei tantas vezes e que já foram pisoteados e reduzidos a átomos pelo invencível <em>Lugares Comuns</em> de Philip Melanchton. Na minha opinião essa obra merece ser não apenas imortalizada, mas canonizada. Tão mesquinha e sem valor pareceu-me a sua, comparada àquela, que enchi-me de sincera compaixão <em>por você</em>, por ter poluído sua dicção engenhosa e elegante com argumento tão indecoroso; indignei-me sobremaneira com a imundícia do seu <em>assunto</em>, por ser apresentado numa sorte de eloquência tão ricamente ornamentada. É como se a sujeira da casa ou do estábulo fosse carregada nos ombros de homens em vasos de ouro e prata.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug029.gif"></p>
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		<item>
		<title>A longa rixa da misericórdia com as ordens da criação</title>
		<link>http://www.baciadasalmas.com/2008/a-longa-rixa-da-misericordia-com-as-ordens-da-criacao/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=a-longa-rixa-da-misericordia-com-as-ordens-da-criacao</link>
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		<pubDate>Wed, 16 Jul 2008 03:45:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Divino preconceito]]></category>
		<category><![CDATA[Homens e Mulheres]]></category>

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		<description><![CDATA[A misericórdia triunfa sobre o juízo. Tiago 2:13 No princípio era o caos, até que Deus instaurou a ordem. O primeiro capítulo de Gênesis enfatiza à exaustão o caráter organizatório da iniciativa divina primordial. Deus, o primeiro enciclopedista, fixa os astros nas suas órbitas, fatia céu e terra, divide céus e mares, coloca luz e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="right"><small>A misericórdia triunfa sobre o juízo.</small><br />
<span style="font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps">Tiago 2:13</span></p>
<p>No princípio era o caos, até que Deus instaurou a ordem. O primeiro capítulo de Gênesis enfatiza à exaustão o caráter organizatório da iniciativa divina primordial. Deus, o primeiro enciclopedista, fixa os astros nas suas órbitas, fatia céu e terra, divide céus e mares, coloca luz e escuridão em compartimentos estanques, põe dia e noite em suas respectivas prateleiras, faz brotar cada planta rasteira, cada árvore, cada ave, cada peixe, cada animal rastejante, cada animal doméstico e cada animal selvagem &#8220;segundo as suas espécies&#8221;, distribui o ser humano entre homem e mulher, reparte a semana em sete dias, fende o dia em tarde e manhã, e coloca em cada um metódicos crachás escritos por ele mesmo.</p>
<p>A organização aparece na história como característica fundamental e inseparável do universo e do próprio Deus. A ordem das coisas na terra, demonstram as burocráticas enumerações de Gênesis, reflete o planejamento da mente divina no céu. Dito de outra forma, as coisas são precisamente como deveriam ser, e o nosso é o melhor dos mundos possíveis.</p>
<p>Ao longo dos séculos, na mente da esmagadora maioria dos cristãos, esse estado inicial da criação tem representado uma espécie de intocável Idade do Ouro. Segundo esse modo de ver as coisas, Gênesis 1 e 2 estabelecem o conjunto de circunstâncias que encapsula a essência do que o cristianismo deve defender. Aqui estão, afinal de contas, a soberania divina, a singularidade da humanidade em relação às demais criaturas, a instituição da família e do casamento, o direito de domínio do ser humano sobre a natureza. O mundo como Deus o criou em Gênesis estaria dessa forma demarcado por &#8220;ordens da criação&#8221;, categorias muito precisas e muito fixas que cabe aos puros de coração defender, porque violá-las é devolver o mundo ao desfigurante e degradante caos que precedeu a iniciativa ordenatória de Deus.</p>
<p>Não mexa no meu queijo.</p>
<p><strong>Contra as mulheres, pela procriação</strong></p>
<p>É o argumento das &#8220;ordens da criação&#8221; que, ainda hoje, impede que mulheres sejam ordenadas ao sacerdócio ou ao ministério em igrejas cristãs de todas as estirpes. Em 1969, por exemplo, o sínodo da igreja luterana do Missouri legislou que &#8220;diante das declarações da Escritura que a mulher não deve ensinar ou exercer autoridade sobre o homem, entendemos que mulheres não devem assumir cargos pastorais ou qualquer outra posição que viole de alguma forma a ordem da criação&#8221;.</p>
<p>Afinal de contas, deixa claro o Apóstolo, é coisa vergonhosa que uma esposa fale na igreja; a própria Lei afirma que as mulheres devem ser submissas; Adão precedeu a mulher na ordem cronológica da criação; o homem não foi criado para a mulher, mas a mulher para o homem; o marido é a cabeça da esposa; a mulher veio do homem, e não o homem da mulher; o homem não foi enganado, mas a mulher deixou-se enganar pela serpente. A conclusão é clara: na hierarquia ideal da criação, que não cabe ao ser humano querer violar, a mulher é inerentemente subordinada ao homem. Almejar uma posição de igualdade funcional é arrogância e rebelião; é lutar contra as ordens da criação, ou seja, contra a integridade da tessitura mais essencial do universo.</p>
<p>O relatório do mesmo sínodo faz os seguintes esclarecimentos adicionais: &#8220;A ordem da redenção não deve viciar o relacionamento apropriado entre mulheres e homens estabelecido na ordem da criação&#8221;. &#8220;A unicidade do homem e da mulher em Cristo não apaga a distinção estabelecida na criação&#8221;. &#8220;A subordinação da mulher ao homem na ordem da criação é uma relação funcional dada pelo criador, que escolheu estruturar a existência em determinadas linhas&#8221;. &#8220;O casamento e o estado pertencem às ordens da criação&#8221;. &#8220;Deus é o criador de certos relacionamentos básicos que impedem a vida e a sociedade de degenerarem em anarquia&#8221;. &#8220;Paulo não queria que as mulheres transtornassem a hierarquia de funções estabelecida na criação, especialmente logo após a queda&#8221;. &#8220;A subordinação da esposa ao marido é parte da ordem da criação&#8221;. &#8220;A convicção do apóstolo é que a igreja não deve minar, mas santificar as ordens da criação&#8221;. &#8220;Paulo está decidido a defender a instituição do matrimônio como pertencente às ordens da criação, em  que a renovação não é alcançada por meio de desordem e ruptura, mas pela observância e pela santificação da prática de autoridade por parte do marido e de submissão por parte da esposa&#8221;. </p>
<p>Em outras palavras, a mulher pode não ser criatura de segunda classe, mas na ordem da criação ficou estabelecido que deve agir como se fosse. Mulheres e esposas devem abraçar esse destino de bom grado, da mesma forma que homens e maridos devem se conformarem à dura posição de primazia que a criação deixou-lhe nas mãos.</p>
<p>A questão do sacerdócio feminino é hoje relevante para uma diminuta fração da população, mas sua lógica subjacente é a mesma que manteve fechado, durante dois mil anos, o acesso da mulher a um status igualitário em termos jurídicos, financeiros, políticos e profissionais. A inferioridade da mulher é coisa que nem ao menos se discutia, por ser uma das verdades evidentes patenteadas na ordem da criação. </p>
<p>Assim, ao longo de dois mil anos de civilização cristã, as mulheres foram silenciadas e reprimidas, ao mesmo tempo em que eram acusadas (via Eva, de quem teriam herdado <a href="http://www.baciadasalmas.com/2007/a-mulher">suas fraquezas</a>) de serem culpadas por virtualmente todos os males que assolam a humanidade; foram perseguidas como bruxas, torturadas sem dó, separadas de suas famílias e queimadas publicamente; tiveram suas vidas legisladas, suas opiniões enterradas e direitos cerceados, mesmo <a href="http://www.baciadasalmas.com/2004/1926-appoio-moral">nos nossos dias</a>.</p>
<p>E contra esse estado de coisas não ocorria a ninguém dizer uma palavra, porque tacitamente todos concordavam que Deus &#8220;escolheu estruturar a existência em determinadas linhas&#8221;. A estratificação social do primeiro casal e suas relações internas de autoridade e subordinação haviam sido estabelecidas pelo Criador no princípio, e é assim que deveriam se manter. A alternativa era inimaginável.</p>
<p>&#8220;Quem está pedindo o voto para as mulheres?&#8221; quis saber Justin Fulton em 1869. &#8220;Os que amam a Deus e seguem a Cristo é que não são! A maior parte dos que reivindicam o voto para as mulheres repudiam a legislação do Céu e os prazeres domésticos, e deixam-se levar pela infidelidade e pela ruína&#8221;.</p>
<p><strong>Contra os negros, pela escravidão</strong></p>
<p>Aplacados pela lógica da &#8220;ordem da criação&#8221;, os cristãos conviveram pacificamente, ao longo de dezoito séculos, com toda forma de escravidão e preconceito de raça.</p>
<p>A supremacia dos brancos sobre todas as outras raças havia sido, afinal de contas, estabelecida diretamente por Deus. Os negros, em particular, eram tidos como descendentes de Cão, o filho amaldiçoado de Noé cujo filho Canaã fora condenado a ser &#8220;servo dos servos de seus irmãos&#8221;<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2008/a-longa-rixa-da-misericordia-com-as-ordens-da-criacao/#footnote_0_1600" id="identifier_0_1600" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="G&ecirc;nesis 9:22-25">1</a></sup>.</p>
<p>Com essa desculpa, a divisão racial fendeu por séculos países como os Estados Unidos e a África do Sul, com a devida sanção de seus líderes cristãos. &#8220;A escravidão foi estabelecida por decreto do Deus Todo-Poderoso&#8221;, explicou Jefferson Davis, presidente da Confederação. &#8220;Ela é sancionada pela Bíblia em ambos os testamentos, de Gênesis a Apocalipse. Tem existido em todas as épocas, sendo encontrada entre os povos da mais alta civilização e nas nações de maior destaque nas artes&#8221;.</p>
<p>Como ainda se crê que as distinções fundamentais entre as raças foram estabelecidas por Deus na criação, em muitas áreas dos Estados Unidos o casamento entre pessoas de raças diferentes permanece sendo visto como inaceitável &#8211; verdadeira abominação. Um juiz da Virgínia observou em 1959: &#8220;O Deus Todo-Poderoso criou as raças branca, negra, amarela, malaia e vermelha e colocou-as em continentes separados. A não ser que se queira perturbar esse arranjo de coisas, não vejo motivo para esses casamentos [mistos]&#8220;.</p>
<p><strong>Pela pátria, contra as outras nações</strong></p>
<p>Na Alemanha de Hitler, nos anos que antecederam à Segunda Guerra, o conceito cristão de ordem da criação alimentou o nacionalismo doentio que acabou gerando o nacional-socialismo &#8211; nazismo &#8211; e seus excessos.</p>
<p>Para os teólogos do popularíssimo movimento &#8220;Cristãos Germânicos&#8221; o <em>Volk</em>, a nacionalidade, era visto como uma ordem particular de Deus para a humanidade. A pátria era a vocação espiritual por excelência e o Estado o mais direto desdobramento dessa ordem divina, pelo que rebelar-se contra a liderança de Hitler era rebelar-se contra Deus.</p>
<p>&#8220;Cada desvio da ordem divina&#8221;, admitiu Walter Künneth (que nem mesmo era simpatizante de Hitler), &#8220;ocasiona decadência e caos&#8221;, enquanto Emile Hirsch explicava que a nacionalidade é &#8220;um meio de revelação de Deus&#8221;. Gerhard May argumentava que a liberdade cristã é na verdade obediência às leis e demais determinações do Estado, e em favor de sua posição citava a postura do Novo Testamento sobre a escravidão. </p>
<p>A liberdade de opinião que exigiam os membros da <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Igreja_Confessante">Igreja Confessante</a>, a liberdade de discordar da ordem divina manifesta no Estado, era &#8220;a satânica liberdade dos pecadores&#8221;, que nenhum cristão deveria querer reivindicar para si. Pois &#8220;a vontade divina expressa na lei é demonstrada pelas ordenanças claras e invioláveis que governam a vida das nações&#8221;<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2008/a-longa-rixa-da-misericordia-com-as-ordens-da-criacao/#footnote_1_1600" id="identifier_1_1600" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="De forma semelhante, Lutero sentia-se &agrave; vontade para imprecar contra os judeus e Hitler para extermin&aacute;-los, afirmando-se crist&atilde;os os dois">2</a></sup>.</p>
<p>Dito de outra forma, para ser cristão é preciso ser patriota, e para ser patriota é preciso demonstrar apoio irrestrito às ações do governo<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2008/a-longa-rixa-da-misericordia-com-as-ordens-da-criacao/#footnote_2_1600" id="identifier_2_1600" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="Os Estados Unidos, um tanto paradoxalmente, abra&ccedil;am cren&ccedil;as semelhantes atrav&eacute;s do conceito de Destino Manifesto">3</a></sup>. Pois foi assim que Deus quis quando deitou nas formas do futuro as ordens imutáveis da criação.</p>
<p><strong>Pela fraternidade, pela igualdade, pela graça</strong></p>
<p>Ao longo da história os cristãos que ousaram discordar da supremacia da &#8220;ordem da criação&#8221; tiveram de lutar contra a corrente da interpretação estática das Escrituras. Afinal de contas, o próprio Novo Testamento não oferece uma palavra de condenação à escravidão; ao contrário, em muitas passagens parece sancioná-la sem encontrar na questão qualquer dilema moral. Era muito difícil para os abolicionistas justificar biblicamente sua posição, enquanto que os escravagistas tinham (e ainda tem) dúzias de versículos para acenar em seu favor. Dispor-se a lutar pela abolição era, em grande medida, dispor-se a lutar contra Deus e contra a Bíblia.</p>
<p>Da mesma forma, os que advogavam pelos direitos das mulheres tinham de procurar uma agulha no enorme palheiro patriarcal e sexista que é o texto bíblico. Para cada momento em que <a href="http://www.baciadasalmas.com/2008/com-as-mulheres">Jesus é amigo das mulheres</a> há dez em que Paulo nos lembra de que Eva é quem foi enganada pela serpente.</p>
<p>O milagre está em que muito lentamente, um imperceptível passo de cada vez, as vozes da misericórdia e da sanidade (que são uma só) acabam sendo ouvidas, mesmo quando os ouvidos são cristãos.</p>
<p>Os anabatistas foram os primeiros a criticar escravidão, logo seguidos pelos quacres e os menonitas, mas foi John Wesley (fundador da Igreja Metodista) quem deu verdadeira forma e credibilidade pública à posição abolicionista.</p>
<p>Influenciado por Barth, Dietrich Bonhoeffer passou questionar diante dos teólogos nazistas toda a validade da sua argumentação. Para Bonhoeffer o argumento das ordens da criação é falho porque pode ser usado para justificar virtualmente qualquer estado de coisas, por mais injusto ou arbitrário que seja. Para ele, as ordens do mundo derivam seu valor não de si mesmas, mas de Cristo, que é a nova criação e portanto a nova referência para todas as coisas. &#8220;Qualquer ordem&#8221;, enfatiza ele, &#8220;pode ser dissolvida e deve ser dissolvida quando deixa de permitir a proclamação da revelação&#8221;.</p>
<p>Em todos os casos os proponentes da graça, quando dispuseram-se a combater o preconceito, o racismo, o sexismo, o totalitarismo, a escravidão e o abismo entre as classes tiveram de abraçar a Bíblia sem abraçar-lhe a letra. Não começaram, porque não é possível, negando o sexismo dos patriarcas e discípulos ou a sanção bíblica da escravidão. <a href="http://www.baciadasalmas.com/2008/a-invasao-do-mundo">Como os profetas</a> antes deles, tiveram de apontar para um sentido mais profundo e mais abrangente da mensagem bíblica, uma mensagem transversal fundamentada não na forma dos mandamentos mas no exemplo de Jesus &#8211; e na pressuposição de que não há exemplo mais cristão a ser seguido.</p>
<p>Porque em Jesus, se você acredita nele, fica tudo de repente muito claro. Em Jesus, Deus, e portanto a criação, toma partido dos desamparados e dos marginalizados.</p>
<p>No tempo de Jesus todos sabiam que, na ordem dura da criação, os doentes eram pecadores que Deus estava punindo, as mulheres eram seres impuros que não podiam candidatar-se ao discipulado e os pobres eram desamparados por Deus que não tinham recursos para cumprir as minuciosas exigências da lei. E Jesus, <em>contra mundum</em>, beija cuidadosamente cada um e acolhe-os no abraço da graça.</p>
<p>Num único e coerente gesto de vida ele transtorna a ordem estabelecida, coloca as coisas em lugares inesperados e explica que age em nome de Deus. O Filho do Homem deixa que seus amigos colham espigas no sábado, e ele mesmo efetua curas nesse dia de descanso, não apenas porque a criação não está pronta (&#8220;meu pai ainda está trabalhando&#8221;), mas porque &#8211; e eis a grande e desconcertante revelação &#8211; &#8220;a ordem da criação foi feita para o homem, e não o homem para o ordem da criação&#8221;.</p>
<p>O que há em Jesus, é essencialmente, uma crítica pungente a toda espécie de dominação, mesmo a que é feita em nome de Deus. Sua postura é, portanto, uma ameaça a todo conforto e a todo estado de coisas. Agora ele está pendurado na cruz, mas com o tempo sua mensagem alcançará e redimirá a condição de todos os pequenos deste mundo. Agora fecham-no no túmulo, mas graças a ele haverá no futuro um momento em que escravos, pobres, mulheres, crianças e gente de todas as raças não terão mais de se envergonhar da sua condição.<a name="planeta"></a></p>
<p><strong>Contra os gays, contra o planeta</strong></p>
<p>Agora que você não pode mais contar piadas que ridicularizem os negros, agora que sua chefe ganha mais do que você, os preconceitos embasados no conceito das ordens da criação escolheram novos alvos.</p>
<p>São alvos mais fragéis e inesperados, e portanto mais adequados à predação neste momento da história. Hoje em dia, quando acenam com o argumento das ordens da criação, os cristãos estarão fatalmente [1] condenando a conduta homossexual ou [2] asseverando o seu direito de explorar os recursos do planeta.</p>
<p>O alvo mais fácil são, naturalmente, os homossexuais. Quando o relato de Gênesis deixa claro que Deus criou a mulher para o homem, o que pode haver de mais contrário à disposição inicial das coisas do que a união sexual entre pessoas do mesmo sexo? Se Jesus disse do divórcio que &#8220;no princípio não era assim&#8221;, o que teria dito do casamento entre homossexuais?</p>
<p>Isso porque todos os argumentos bíblicos apontados contra a homossexualidade resolvem-se em nada quando comparados a este, que é na verdade o único: na ordem original das coisas não era assim.</p>
<p>Um documento que circula na porção cristã da internet deixa clara a argumentação subjacente: &#8220;a pressão para que a igreja aprove a união entre homossexuais representa um ataque direto aos valores do casamento e da família, pois a união entre pessoas do mesmo sexo nega as ordens da criação, a complementaridade entre homem e mulher estabelecida por Deus e o mandamento valorizador de vida que afirma &#8216;fruticai-vos e multiplicai&#8217;&#8221;. A homossexualidade, portanto, é em sua essência uma afronta aos pilares divinamente estabelecidos em Gênesis: as ordens da criação.</p>
<p>Numa instância paralela, as ordens da criação são mencionadas pelos protestantes norte-americanos como credencial para explorarem até o sumo os recursos naturais da terra. Quem irá levantar-se para denunciar os abusos do homem contra a natureza, quando Gênesis assegura que Deus lhe conferiu pleno domínio sobre a terra? Como condenar os desmatamentos, a extinção escandalosa das espécies e o aquecimento global, quando a narrativa da criação esclarece que o homem foi criado para colocar o planeta sob sujeição?</p>
<p>Pelo que lêem em Gênesis, Deus não apenas deu ao homem carta branca para violentar a terra; deu-lhe essa missão.</p>
<p><strong>Contra o medo</strong></p>
<p>Como intuiu Bonhoeffer, o argumento das ordens da criação permanece sendo usado a fim de manter o estado confortável de coisas para os que se sentem confortáveis com o modo como as coisas estão.</p>
<p>A proliferação de união homossexuais é vista como uma ameaça formidável à instituição da família &#8211; e a família é a ordem da criação por excelência, a unidade essencial que mantém no lugar os fundamentos do cosmos. Violar essa ordem primordial das coisas é tido como a forma mais abominável de rebelião; não apenas contra Deus (como se não bastasse), mas contra o próprio universo. </p>
<p>Do mesmo modo, alimentar uma consciência ecológica é, em última instância, voltar-se contra a ordem divina revelada em Gênesis 1. Nosso dever como seres humanos não é preservar o planeta, mas mostrar a ele quem manda; Deus, afinal de contas, está quase pronto para dar-nos um novo e inteiramente remodelado.</p>
<p>E o fundamento para todos esses raciocínios, é preciso enfatizar, é um só: o Criador não quer que seja de outra forma, do contrário teria feito diferente desde o começo. Os verdadeiros crentes desejarão conformar-se à vontade divina, pelo que não ousarão inverter a ordem das coisas.</p>
<p>A solução para o dilema, quero crer, está em determinar até que ponto Deus deixou de ser Criador, ou em que momento a criação foi de fato concluída. A Bíblia, é claro, oferece curiosas evidências para sugerir que a obra da criação permanece em aberto. Deus é, até a última página, aquele que &#8220;faz novas todas as coisas&#8221;. O Filho do Homem e seus seguidores são em especial descritos como &#8220;novas criaturas&#8221;, isto é, protagonistas de uma nova e totalmente inusitada criação &#8211; porque, observa Jesus, um tanto blasfemamente, &#8220;meu Pai continua trabalhando&#8221;.</p>
<p>Como propõe Edward H. Schroeder em sua <a href="http://pdfmenot.com/view/http://www.crossings.org/archive/ed/TheOrdersofCreation.pdf">análise sobre a questão da ordenação feminina</a>: se Deus permanece sendo o Deus Criador, como não concluir que as mudanças sociais ocorridas no tempo que nos separa de Paulo, mudanças que acabaram possibilitando o status igualitário da mulher, são obra do mesmo Criador? Como não concluir que foram mudanças sopradas na humanidade pelo exemplo singular e subversivo de Cristo? A obra do evangelho não estará derramando sobre o mundo seus inesperados desdobramentos?</p>
<p>&#8220;A consequência clara do evangelho,&#8221; observa Schroeder, &#8220;é que as ordens da criação são impermanentes. Com o tempo acabarão passando, juntamente com &#8216;o céu e a terra&#8217;&#8221;.  A igreja não deve temer essa impermanência, porque &#8220;a própria igreja veio à existência através de um ato de violação&#8221;. A ordem fundamental da criação, pela qual o pecador deve ser invariavelmente punido com a morte, foi espetacularmente contornada pelo esvaziamento de Deus, e dessa formidável violação nasceu uma formidável possibilidade de vida. É por isso que em seu cerne a mensagem do evangelho é um escândalo &#8211; uma violação extrema da lógica e da ordem inerentes ao universo.</p>
<p>&#8220;A preocupação da igreja&#8221;, conclui Schroeder, &#8220;deve ser evitar que o próprio evangelho seja violado; fora isso, ela deve deixar que o evangelho promova suas próprias violações, credenciado pela autoridade do próprio Cristo&#8221;.</p>
<p>Jacques Ellul, refletindo sobre essas coisas, concluiu que toda a lei e toda a justiça devem estar embasadas em Cristo. O mundo e a condição humana, propõe ele, encontram-se numa situação inteiramente nova diante da revelação e da obra redentora de Deus em Cristo. O que era considerado lei natural deve perder de agora em diante o seu caráter normativo, sendo relativizado pela desconcertante reviravolta da justificação.</p>
<p>Ou, na reflexão de James Alison, nossa visão de Deus como Criador deve deixar de ser a de alguém que fez algo no passado para a de alguém que está fazendo algo nos nossos dias por meio de Jesus &#8211; Jesus que estava com o Pai desde o princípio, fazendo todas as coisas.</p>
<p>A escandalosa verdade é que a liga que sustenta o universo não é a família ou o casamento, mas a misericórdia, soprada por Deus e manifesta pelos homens. De um modo transversal o próprio Jesus demonstrou esse princípio quando explicou que &#8220;no princípio não era assim, mas o divórcio foi instituído por causa da dureza do coração de vocês&#8221;. Em outras palavras, ele está revelando que o divórcio foi instituído, incrivelmente, por uma vitória da misericórdia contra a ordem da criação. Está longe de ser uma solução ideal e não estava prevista na ordem original das coisas, mas é uma resposta da graça diante da irreversível complexidade da condição humana.</p>
<p>Nos dois mil anos que nos separam da cruz a condição humana imergiu em muitas camadas adicionais de complexidade. Porém a misericórdia tem continuando a violar, de forma sistemática e sempre escandalosa, as ordens da criação. Quando a sua obra estará concluída? Talvez no momento em que cumprir-se por completo a profecia de Paulo, e em Cristo não houver mais judeu e grego, civilizado e bárbaro, escravo e livre, homem e mulher. </p>
<p>Ou, para citar João, no momento em que o amor lançar fora todo o medo.</p>
<p>Pois o apego irresistível às ordens da criação é, essencialmente, o apego dos seres humanos (especialmente os do sexo masculino) às formas de dominação, como alternativa ao medo e ao sentimento de inadequação. Porque é sabido que os homens, que escreveram até recentemente toda a história, sentem que devem provar continuamente o seu valor, que pensam ser a mesma coisa que sua masculinidade. Se lutavam para manter o estado de coisas por meio de sexismo, do racismo e do nacionalismo é por que temiam instintivamente a competição das mulheres, dos homens de outras raças e dos povos de outras nações. É pelo mesmo motivo que recusam-se a trocar o seu <a href="http://www.flickr.com/search/?q=hummer+truck&#038;m=tags&#038;z=t&#038;ss=2&#038;s=int">Hummer</a>, que epitomiza tão adequadamente a sua masculinidade, por uma scooter ou um carro mais econômico. E, porque não querem ver a sua própria masculinidade de alguma forma colocada em cheque, lutam por um mundo em que não precisem testemunhar o beijo apaixonado de dois barbados ou (talvez pior) de duas mulheres. As ordens da criação acenam com um mundo seguro, em que todas as coisas tem o seu lugar, e é apavorante imaginar que possa ser diferente.<a name="temor"></p>
<p>Enquanto isso o Filho do Homem, que morreu virilmente na cruz e procura nos atrair incessantemente para a mesma posição, divulga sem pausa o escândalo e a boa nova de que não há absolutamente o que temer.</p>
<b><small>NOTAS</small></b><ol class="footnotes"><li id="footnote_0_1600" class="footnote">Gênesis 9:22-25</li><li id="footnote_1_1600" class="footnote">De forma semelhante, Lutero sentia-se à vontade para <a href="http://www.baciadasalmas.com/2005/lutero-alerta-os-alemaes">imprecar contra os judeus</a> e Hitler para exterminá-los, afirmando-se cristãos os dois</li><li id="footnote_2_1600" class="footnote">Os Estados Unidos, um tanto paradoxalmente, abraçam crenças semelhantes através do conceito de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Destino_Manifesto">Destino Manifesto</a></li></ol>]]></content:encoded>
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		<title>A anulação da bondade</title>
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		<pubDate>Sun, 09 Dec 2007 08:31:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Divino preconceito]]></category>
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		<description><![CDATA[Quero examinar uma frase bem estranha da carta de Paulo aos Gálatas. Ela está em Gálatas 3:10: &#8220;Todos quantos, pois, são das obras da lei estão debaixo de maldição; porque está escrito: &#8216;Maldito todo aquele que não permanece em todas as coisas escritas no livro da lei, para praticá-las&#8217;&#8221;. Aparentemente alguns mestres judeus cristãos vinham [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Quero examinar uma frase bem estranha da carta de Paulo aos Gálatas. Ela está em Gálatas 3:10:</p>
<p>&#8220;Todos quantos, pois, são das obras da lei estão debaixo de maldição; porque está escrito: &#8216;Maldito todo aquele que não permanece em todas as coisas escritas no livro da lei, para praticá-las&#8217;&#8221;.</p>
<p>Aparentemente alguns mestres judeus cristãos vinham dizendo aos cristãos da Galácia que agora que haviam se batizado e tinham conhecido o Deus de Israel, deveriam também guardar a Lei de Moisés, visto que os que não a observam serão amaldiçoados, como está dito em Deuteronômio (a porção da Lei que esses mestres provavelmente recitavam aos seus ouvintes era Deuteronômio 27:26). Paulo, por outro lado, está argumentando contra essa insistência de que os recém-batizados gálatas sejam circuncidados, formalmente arrolados no povo de Israel e obrigados a obedecer a Lei de Moisés. Sua posição é que os que <em>são da Lei</em> (isto é, os que se amparam na Lei) é que estão debaixo de uma maldição.</p>
<h5>O verdadeiro perigo da vida moral vem dos sistemas de bondade.</h5>
<p>O curioso é que, à primeira vista, o texto citado por Paulo parece ser exatamente o oposto do que seria útil na sua argumentação, já que sua versão da passagem de Deutoronômio diz muito claramente: &#8220;Maldito todo aquele que não permanece em todas as coisas escritas no Livro da lei, para praticá-las&#8221;.</p>
<p>A implicação é que todos que <em>de fato</em> guardarem e obedecerem todas as coisas escritas nos livros da lei serão <em>abençoados</em>, e que apenas os que <em>deixarem</em> de guardar e obedecer serão amaldiçoados. Paulo já contou como ele mesmo costumava ser obsessivamente obediente à Lei, pelo que ele não deixa dúvidas de que é possível observar e obedecer tudo que está escrito nos livros da lei. Por que então ele usa um verso no qual a Lei formalmente amaldiçoa os que <em>não a obedecem</em> para embasar sua alegação de que os que são da lei é que estão sob uma maldição? Não parece ser um argumento consistente.</p>
<p>Paulo não está citando este texto, da forma que normalmente imaginamos que esteja, como corroboração, como um modo de dizer: &#8220;está vendo? Este texto concorda comigo&#8221;. Ele o cita, ao contrário, como evidência interna de uma estrutura antropológica. Ele cita esse verso para mostrar que <em>porque amaldiçoa os que não obedecem a lei</em>, o próprio texto da lei demonstra ser parte de um sistema de bondade que faz distinção entre bom e mau, e que portanto os que o sustentam, e são aparentemente abençoados por ele, estão de fato habitando na esfera da maldição. Em outras palavras, ele está citando as palavras como quem se afasta delas e diz: &#8220;observe o que essa frase revela sobre o tipo de sistema do qual ela é parte integral&#8221;.</p>
<p>Esse, ouso dizer, é um argumento sutil, porém quando começamos a apreendê-lo ele torna maravilhosamente claro o que Paulo segue dizendo a respeito de como Jesus tornou-se por nós uma maldição, e de como é através disso que o Espírito Santo flue sobre nós. Paulo está na verdade demonstrando sinais de uma assombrosa inteligência estrutural. Se a lei amaldiçoa alguém, ela cria necessariamente um mundo de bom e mau, e isso implica que o &#8220;bom&#8221; nesse sistema é fatalmente dependente do &#8220;mau&#8221;. Se eu dependo, para minha bondade, de sustentar e obedecer tudo que há no sistema, isso quer dizer que minha bondade &#8220;vai de encontro&#8221; à maldade de alguém, e assim, sendo dependente dela, é parte dela.</p>
<p>Significa, além disso, que enquanto eu estiver contemplando o sistema de bondande jamais serei capaz de obedecer ao mandamento que, todos concordam, resume integralmente a lei: &#8220;amarás ao teu próximo como a ti mesmo&#8221; (Gálatas 5:14) – porque a lei como sistema de bondade me impedirá de reconhecer o próximo que é <em>como eu mesmo</em> e precisa portanto de amor, porque irá com freqüência ocultar esse próximo sob o véu do &#8220;outro amaldiçoado&#8221;. Em outras palavras, o efeito vivenciado de um sistema de bondade é, na prática, a anulação da bondade na direção da qual aponta o mandamento.</p>
<h5>A bondade se torna questão do grau de zelo com que se perseguem os de fora.</h5>
<p>Temos então a clássica percepção paulina de que nenhum sistema de bondade, precisamente por estabelecer um mundo de bom e mau, benção e maldição, pode vir de Deus, visto que Deus é apenas benção, apenas promessa, e que o verdadeiro perigo da vida moral em qualquer sociedade não vem, em primeiro lugar, dos que são &#8220;maus&#8221;, já que esses são num certo sentido óbvios demais para serem motivo de preocupação, mas dos sistemas de bondade, que, por dependerem do &#8220;outro perverso&#8221;, são terrivelmente perigosos. São perigosos num sentido evidente para os que são seus &#8220;bandidos&#8221; necessários, já que a bondade se torna questão do grau de zelo com que se persegue essa gente, como o próprio Paulo havia feito. Porém os sistemas de bondade, num sentido menos óbvio, são especialmente perigosos para os &#8220;mocinhos&#8221;, já que é pouco provável que os &#8220;mocinhos&#8221; percebam que, longe de adorarem a Deus, de se tornarem dependentes de Deus e de buscarem sua identidade em Deus, que não &#8220;vai de encontro&#8221; a coisa alguma, estão na verdade tendo sua identidade determinada por esse violento &#8220;ir de encontro&#8221; pelo qual se constróem como indivíduos. Em outras palavras, são os mais propensos a se tornarem niilistas violentos, pensando em si mesmos como servos de Deus.</p>
<p align="right"><small>James Alison, <strong>Collapsing the closet in the house of God</strong></small></p>
<h5>* * *</h5>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/o-problema-com-a-virtude">O problema com a virtude</a></p>
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		<title>Impunemente</title>
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		<pubDate>Sat, 25 Aug 2007 04:07:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Divino preconceito]]></category>
		<category><![CDATA[cristianismo]]></category>

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		<description><![CDATA[Estou cansado de ouvir gente dizendo que não reconhece a legitimidade do Deus do Antigo Testamento por considerá-lo divindade patriarcal, irascível, xenófoba e vingativa; esse Deus sanguinário, garantem-me, não tem como ter algo em comum com o Deus de Jesus, que é bondoso, compassivo e gente boa – numa palavra, é amor. Acham fácil amar [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Estou cansado de ouvir gente dizendo que não reconhece a legitimidade do Deus do Antigo Testamento por considerá-lo divindade patriarcal, irascível, xenófoba e vingativa; esse Deus sanguinário, garantem-me, não tem como ter algo em comum com o Deus de Jesus, que é bondoso, compassivo e gente boa – numa palavra, é amor. Acham fácil amar Jesus, mas consideram difícil não escantear Iavé na sua qualidade de mesquinho deus tribal.
<p>Não direi, porque seria muito fácil, que pensar assim é ignorar o testemunho mais pertinente, já que pelo que sabemos o próprio Jesus apenas asseverou a sua relação de continuidade com a postura, os porta-vozes e as palavras do Deus do Antigo Testamento.
<p>Eu, de minha parte, estou muito mais inclinado a colocar em dúvida a inspiração daqueles que, afirmando-se seguidores do dócil Jesus e de seu amoroso Pai, fizeram apenas patrocinar ódio, preconceito, exclusão e derramamento de sangue ao longo da história do cristianismo.
<p>E como não? Ousamos questionar o caráter de Davi, que não sentiu nos ouvidos o terrível afago das bem-aventuranças, mas respeitamos como se fossem Escritura as tradições de promotores do ódio, ensinando-os em seminários que reivindicam para si a chancela do bom Jesus.
<p>Gente como Justino Mártir (100-165), que afirmava que Deus havia dado a circuncisão aos judeus como sinal eterno de exclusão, &#8220;para que vocês sejam separados de todas as nações e de nós [cristãos], sofrendo tudo o que merecidamente sofrem&#8221;; gente como Eusébio de Cesaréia (275-339) e João Crisóstomo (349-407), que justificavam a inclemente perseguição aos judeus porque criam que nela Deus estave se vingando da morte do seu filho; gente como os autores do <a href="http://es.wikipedia.org/wiki/Directorium_inquisitorum">Manual dos Inquisidores</a> (1376) e do <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Malleus_Maleficarum">Martelo das Feiticeiras</a> (1487), provedores do combustível que alimentava os fogos da Inquisição; gente como Martinho Lutero (1483-1546), que queria ver <a href="http://www.baciadasalmas.com/2005/a-solucao-final-de-lutero">queimadas todas as sinagogas</a> e bradava <a href="http://www.baciadasalmas.com/2005/lutero-alerta-os-alemaes">pelo sangue derramado de milhões de judeus</a>; gente como os batistas norte-americanos que vestiam cheios de entusiasmo o capuz da Ku Klux Klan e justificavam a escravidão com uma interpretação rasteira de Gênesis 9; gente como os perpetradores ideológicos da <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Massacre_da_noite_de_S&atilde;o_Bartolomeu">Noite de São Bartolomeu</a> e da troca de massacres entre protestantes e católicos na Irlanda; gente como os membros da Igreja Batista de Westboro, que cantam alegremente, hoje mesmo no YouTube mais próximo de você, o quanto <a href="http://www.baciadasalmas.com/2007/god-hates-the-world">Deus odeia o mundo</a>; gente como eu, que sou um canalha, um ladrão e um mentiroso, que não amo a ninguém como convém, que com a boca sirvo a Jesus, com o coração sirvo a mim mesmo e com as duas mãos e os dois pés impulsiono a locomotiva de exclusão social e devastação ambiental que é o capitalismo.
<p>Fico com Davi, Saul e o massacre dos amalequitas, mas quero alçar a coragem de desafiar a autoridade de quem, não amando, demonstra não ter qualquer relação com o Deus de amor; quem, afirmando conhecer Jesus e ser credenciado pela sua autoridade, pisoteia o seu espírito e sua reputação.
<p>Antes de apontarmos o cisco no olho de Deus, deveríamos atentar para a tábua que está no nosso. A história da Igreja, traçada impunemente em nome de Jesus, é mais sangrenta do que a de Iavé jamais foi.</p>
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		<title>Católicos não precisam se candidatar</title>
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		<pubDate>Wed, 15 Aug 2007 09:05:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Divino preconceito]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[catolicismo]]></category>
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		<description><![CDATA[&#8220;Católicos não precisam se candidatar&#8221;, diziam as placas de inúmeras agências de empregos na Nova Inglaterra e em outros lugares [dos Estados Unidos] durante o século XIX e começo do XX. Classificados de jornal anunciando vagas para trabalhadores ostentavam a mesma advertência. O preconceito por trás dessa forma de discriminação foi direcionado em primeiro lugar [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>&#8220;Católicos não precisam se candidatar&#8221;, diziam as placas de inúmeras agências de empregos na Nova Inglaterra e em outros lugares [dos Estados Unidos] durante o século XIX e começo do XX. Classificados de jornal anunciando vagas para trabalhadores ostentavam a mesma advertência.</p>
<p>O preconceito por trás dessa forma de discriminação foi direcionado em primeiro lugar contra os cinco milhões de irlandeses que entraram nos Estados Unidos entre 1820 e 1920. Os irlandeses, ao contrário dos ingleses e alemães que os precederam, haviam se tornado estrangeiros em sua própria terra depois de perderem a Batalha do Boyne, em 1690, para as forças protestantes lideradas por William III. Em 1691 o parlamento inglês passou uma decreto excluindo do parlamento irlandês todos os católicos, para que a assembléia se tornasse exclusivamente protestante. Esse novo parlamento tornou ilegais escolas e universidades católicas, e sacerdotes católicos tornaram-se sujeitos a deportação. Nenhum católico podia ter armas de fogo, ou possuir um cavalo que valesse mais do que cinco libras. Mulheres prostestantes que se casavam com católicos sofriam a perda dos seus bens; terras católicas foram consfiscadas até que não houvesse mais o que confiscar. Crimes contra católicos eram raramente punidos nos tribunais irlandeses. Os ingleses proibiram a exportação de lã, lançando a população na mais abjeta pobreza, acentuada por taxas severas de tributação. A partir de 1696 &#8220;a fome, a mendicância e a ilegalidade reinavam na ilha&#8221;.</p>
<p>Antes da revolução americana os irlandeses raramente procuravam vir para os Estados Unidos, porque a América do Norte era dominada pelos ingleses. O número de irlandeses que vieram para os Estados Unidos foi pequeno até a Fome da Batata, entre 1845 e 1850. A América protestante do século XIX, no entanto, não via favoravelmente a entrada de qualquer imigrante católico. O sentimento geral era representado em anúncios que diziam &#8220;PRECISA-SE – Cozinheiro ou Camareira. Devem ser americanos, escoceses, suíços ou africanos &#8211; não irlandeses&#8221;.</p>
<p>Como a discriminação econômica era comum, trabalhadores irlandeses no canal Erie, nas estradas de ferro ou nas fábricas recebiam salários menores do que norte-americanos nativos. Era possível explorar os imigrantes dessa maneira porque no final do século XIX e começo do XX havia uma enorme oferta de mão-de-obra imigrante, gente disposta a trabalhar por qualquer salário. Sindicatos e representações de classe eram impotentes, ou ainda não existiam.</p>
<p>Diante desse cenário os irlandeses abraçaram entusiasticamente a política local, na esperança de aliviarem a sua condição adquirindo maior controle sobre suas vidas e seu futuro. Essa atividade política, no entanto, despertou os temores da maioria protestante, de forma que entre 1830 e 1850 organizaram-se dois partidos anti-católicos e anti-irlandeses nos Estados Unidos: o partido Sabe-Nada [Know-Nothing] e o Partido Nativo Americano. Ambos fomentavam a crença de que a igreja católica ameaçava o protestantismo e as instituições democráticas dos Estados Unidos. Ambos publicavam livros e panfletos anti-católicos e faziam passeatas contra o Papa. Ambos lutavam por leis que mantivessem estrangeiros fora dos cargos públicos, estendessem o período necessário para se obter a naturalização e manter a Bíblia protestante nas escolas. </p>
<p>Violências públicas contra irlandeses aconteciam com freqüência nas ruas das grandes cidades americanas. Em Boston, em 1834, uma turba tentou impedir os irlandeses de votar, gerando tumulto em larga escala quando os irlandeses revidaram. No mesmo ano uma multidão incendiou um convento católico em Charleston, Massachussetts, na margem do rio diante da cidade de Boston. Nem a polícia nem o corpo de bombeiros fizeram qualquer coisa para conter a multidão. Os autores do crime foram mais tarde acusados na justiça, mas o júri julgou-os inocentes. A cidade não fez qualquer restituição.</p>
<p>Em 1844 levantou-se um tumulto numa convenção do Partido Nativo Americano. Militantes irlandeses tentaram dispersar uma reunião do partido, e em represália uma multidão incendiou oitenta e uma casas de irlandeses, bem como diversas igrejas católicas. Um posto de bombeiros exclusivamente irlandês e uma biblioteca irlandesa foram também incendiados. Quarenta pessoas morreram e sessenta ficaram feridas. Dois meses depois, num tumulto em Filadélfia, uma multidão atacou uma igreja católica, incendiou-a por completo e em seguida enfrentou uma milícia enviada para conter o tumulto.</p>
<p>Na década de 1840 o uso da Bíblia protestante nas escolas públicas de Filadélfia tornou-se motivo de atrito entre protestantes e católicos daquela cidade. Os protestantes ficaram indignados quando o bispo católico convenceu o conselho de educação a utilizar a Bíblia católica ao lado da protestante. Militantes nas ruas passaram a advertir contra a &#8220;mão sanguinária do Papa, estendida para nossa destruição&#8221;, incitando uma multidão a incendiar inúmeras casas, igrejas e outros estabelecimentos católicos, causando a morte de 14 pessoas.</p>
<p align=right><small><strong>Stigma &#8211; How We Treat Outsiders</strong>, Gerhard Falk</small></p>
<h5>* * *</h5>
<p>Em 1995 John Swayer, católico norte-americano, foi a uma livraria evangélica e pediu uma Bíblia católica.</p>
<p>– Isso aqui é uma livraria cristã &#8211; replicou a balconista. &#8211; Não temos Bíblias católicas aqui.</p>
<p>Dez anos depois sua indignação voltou à tona quando Sawyer descobriu um orfanato evangélico que recebia recursos do governo mas se recusava a aceitar pais católicos como candidatos à adoção, &#8220;por entrar em conflito com a declaração de fé da nossa instituição&#8221;.</p>
<p align=right><small><strong><a href="http://www.jacksonfreepress.com/comments.php?id=6675_0_7_0_C">Catholics Need Not Apply</a></strong>, John Sawyer</small></p>
<h5>* * *</h5>
<p>Leia também:</p>
<li>
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2004/janeiro-de-1937">Em Urubicy, uma caravana evangelica se viu inopinada e barbaramente aggredida</a>, janeiro de 1947</li>
<li><a href="http://www.baciadasalmas.com/2005/lutero-alerta-os-alemaes">Lutero alerta os alemães</a></li>
<li><a href="http://www.baciadasalmas.com/2005/a-melhor-piada-religiosa-de-todos-os-tempos">A melhor piada religiosa de todos os tempos</a></li>
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		<title>Simplesmente uma nova vida</title>
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		<pubDate>Tue, 08 May 2007 11:42:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
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		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[catolicismo]]></category>
		<category><![CDATA[purgatório]]></category>

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		<description><![CDATA[Se alguém afirmar que depois do recebimento da graça da justificação a culpa é de tal forma expiada e o débito da punição eterna de tal forma perdoado em favor de cada pecador arrependido que não resta qualquer débito de punição temporal para ser ressarcido, quer neste mundo&#160;quer no Purgatório, antes que sejam abertos os [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Se alguém afirmar que depois do recebimento da graça da justificação a culpa é de tal forma expiada e o débito da punição eterna de tal forma perdoado em favor de cada pecador arrependido que não resta qualquer débito de punição temporal para ser ressarcido, quer neste mundo&nbsp;quer no Purgatório, antes que sejam abertos os portões do Céu, que seja anátema.</p>
<p align="right"><small>Cânone XXX, Sessão VI<br />Concílio de Trento, 13 de janeiro de 1547</p>
<p></small>
<p>Se alguém afirmar que Deus sempre perdoa o castigo por completo em conjunto com a culpa, e que&nbsp;o ressarcimento oferecido pelos penitentes nada mais é do que a fé pelas quais eles entendem que Cristo efetua ressarcimento&nbsp;em favor deles, que seja anátema.</p>
<p>Se alguém afirmar que o ressarcimento dos pecados, no que diz respeito ao seu castigo temporal, não é de modo algum efetuado a Deus pelos méritos de Cristo pelas punições infligidas sobre ele e pacientemente suportadas, ou por aquelas impostas pelo sacerdote, ou até mesmo por aquelas assumidas voluntariamente, como através de jejuns, orações, esmolas ou outras obras de piedade, e que portanto a melhor penitência é simplesmente uma nova vida, que seja anátema.</p>
<p>Se alguém afirmar que os ressarcimentos pelos quais os penitentes oferecem reparação pelos seus pecados através de Cristo não são adoração a Deus mas tradições de homens, que obscurecem a doutrina da graça e a verdadeira adoração de Deus e a própria beneficência da morte de Cristo, que seja anátema.</p>
<p align="right"><small>Itens&nbsp;12, 13 e 14 dos Cânones referentes à penitência.<br />Sessão XIV do Concílio de Trento, 25 de novembro de 1551</small></p>
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		<title>God Hates The World</title>
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		<pubDate>Wed, 18 Apr 2007 02:00:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Divino preconceito]]></category>
		<category><![CDATA[cristianismo]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[vídeos]]></category>

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		<description><![CDATA[Deus odeia o mundo. Gentileza do coro da Igreja Batista de Westboro. [Visite a Bacia para ver o filme] Você passou dos limitesNão quer dar ouvidos a este chamado finalMundo perverso, você se uniu como um sóVeja os seus soldados morrendoVocê alega que Deus o está abençoandoEssa é a maior de todas as mentiras Vocês [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Deus odeia o mundo.</em> Gentileza do coro da <a href="http://www.godhatesfags.com">Igreja Batista de Westboro</a>.</p>
[Visite a Bacia para ver o filme]
<p></p>
<p>Você passou dos limites<br />Não quer dar ouvidos a este chamado final<br />Mundo perverso, você se uniu como um só<br />Veja os seus soldados morrendo<br />Você alega que Deus o está abençoando<br />Essa é a maior de todas as mentiras</p>
<h5>Vocês comerão os seus filhos</h5>
</p>
<p>Você não pode continuar<br />Fingindo dia a dia<br />Que o Deus do julgamento já era e morreu<br />Vocês são todos parte da família do diabo<br />E a verdade é que vão todos direto para o inferno</p>
<p>
<p style="padding-left:4em;padding-right:4em;">Deus odeia o mundo<br />E todos os seus habitantes<br />Vocês todos vão encarar um dia de fogo<br />pelo seu soberbo pecado<br />É tarde demais para fazê-Lo mudar de idéia <br />Vocês gastaram suas vidas vãs<br />Acumulando a ira de Deus para toda a eternidade</p>
<p>Ora, vocês conheciam a Lei de Deus<br />Mas desobedeceram-na por completo<br />Gastaram suas vidas<br />Perseguindo suas mentiras e concupiscências<br />Servindo todos os seus ídolos:<br />Bestas homossexuais e bandeiras sangrentas<br />Os fogos do inferno estão ali esperando por vocês!</p>
<p>
<p style="padding-left:4em;padding-right:4em;">Deus odeia o mundo (você sabe que ele te odeia)<br />E todos os seus habitantes (gente perversa!)<br />Vocês todos vão encarar um dia de fogo <br />pelo seu soberbo pecado (então só parem!)<br />É tarde demais para fazê-Lo mudar de idéia <br />Vocês gastaram suas vidas vãs<br />Acumulando a ira de Deus para toda a eternidade</p>
<p>Os profetas dEle vieram em Seu nome<br />Mas com sua postura violenta vocês amaldiçoaram-No na face<br />Vocês todos logo perceberão<br />Que a hora da sua destruição se aproxima<br />Vocês tudos unidos cairão</p>
<p>
<p style="padding-left:4em;padding-right:4em;">Deus odeia o mundo<br />E todos os seus habitantes<br />Vocês todos vão encarar um dia de fogo<br />pelo seu soberbo pecado<br />É tarde demais para fazê-Lo mudar de idéia <br />Vocês gastaram suas vidas vãs<br />Acumulando a ira de Deus para toda a eternidade</p>
<p>
<p style="padding-left:4em;padding-right:4em;">Deus odeia o mundo (ele odeia você)<br />E todos os seus habitantes (estou falando de você)<br />Vocês todos vão encarar um dia de fogo<br />pelo seu soberbo pecado (só obedeçam-No!)<br />É tarde demais para fazê-Lo mudar de idéia <br />Vocês gastaram suas vidas vãs<br />Acumulando a ira de Deus para toda a eternidade</p>
<p>
<p style="padding-left:4em;padding-right:4em;">Vocês comerão os seus filhos (sim, vocês os comerão)<br />Vocês, gente abominável (o cerco está chegando!)<br />Vocês todos vão encarar um dia de fogo<br />pelo seu soberbo pecado (pecadores orgulhosos!)<br />É tarde demais para fazê-Lo mudar de idéia <br />Vocês gastaram suas vidas vãs<br />Acumulando a ira de Deus para toda a eternidade</p>
<p>
<p style="padding-left:4em;padding-right:4em;">Deus odeia o mundo<br />E todos os seus habitantes<br />Vocês todos vão encarar um dia de fogo<br />pelo seu soberbo pecado<br />É tarde demais para fazê-Lo mudar de idéia <br />Vocês gastaram suas vidas vãs<br />Acumulando a ira de Deus para toda a eternidade!</p>
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		<title>Novos significados a costumes herdados</title>
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		<pubDate>Sun, 24 Dec 2006 09:55:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Divino preconceito]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[natal]]></category>
		<category><![CDATA[nazismo]]></category>

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		<description><![CDATA[Cristo foi o maior dos combatentes pioneiros na batalha contra o inimigo mundial, o judeu [...] A obra que Cristo começou mas não conseguiu terminar, eu &#8211; Adolf Hitler &#8211; concluirei. Adolf Hitler, Natal de 1926 Meu sentimento como cristão aponta-me para meu Senhor e Salvador na qualidade de combatente. Aponta-me para o homem solitário [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>
<p style="padding-left:4em;padding-right:4em;">Cristo foi o maior dos combatentes pioneiros na batalha contra o inimigo mundial, o judeu [...] A obra que Cristo começou mas não conseguiu terminar, eu &#8211; Adolf Hitler &#8211; concluirei.</p>
<p>
<p style="text-align:right;"><small> <strong>Adolf Hitler,</strong> Natal de 1926 </small></p>
<p>
<p style="padding-left:4em;padding-right:4em;">Meu sentimento como cristão aponta-me para meu Senhor e Salvador na qualidade de combatente. Aponta-me para o homem solitário que, cercado por poucos seguidores, reconheceu esses judeus pelo que são e convocou homens para lutar contra eles e que &#8211; verdade de Deus! &#8211; foi maior não como sofredor mas como combatente.</p>
<p>
<p style="padding-left:4em;padding-right:4em;">Em plenitude de amor como cristão e como homem leio a passagem que conta como o Senhor finalmente ergueu-se em seu poder e empunhou seu açoite a fim de expulsar do Templo a raça de víboras e serpentes. Quão formidável foi sua luta contra o veneno judeu.</p>
<p>
<p style="text-align:right;"><small> <strong>Adolf Hitler,</strong> 12 de abril de 1922 </small></p>
<p>
<p style="padding-left:4em;padding-right:4em;">Uma cerimônia de Natal baseada em eventos e referências que as pessoas hoje em dia não compreendem não produz bem, mas mal. Suscita apenas desconfiança contra os nossos objetivos, não confiança em nossa habilidade de liderar o povo espiritualmente (o que é mais do que necessário). Quando olhamos as coisas de forma correta, não temos motivo para não dar novos significados a costumes herdados, desde que vejamos neles um bom número de possibilidades políticas.</p>
<p>
<p style="text-align:right;"><small> <strong>Hannes Kremer,</strong> pensador nazista,<br />em <em>Die neue Gemeinschaft</em> (1937) </small></p>
<p>
<p style="padding-left:4em;padding-right:4em;">Quatro mil convidados aplaudiram entusiasticamente [o discurso de Natal de 1921] quando Hitler condenou o &#8220;mamonístico materialismo&#8221; que degradava o feriado, culpa dos &#8220;judeus covardes, que pregaram na cruz o liberador do mundo&#8221;.</p>
<p>
<p style="text-align:right;"><small> <strong>Joe Perry,</strong> <em>Nazifying Christmas</em> </small></p>
<p></p>
<p>
<p style="text-align:center;"><object width="400" height="300"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/ciGYcEQFDAM"></param><param name="wmode" value="transparent"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/ciGYcEQFDAM" type="application/x-shockwave-flash" wmode="transparent" width="400" height="300"></embed></object><br /><span style="color:#DDD4C2;">Alemanha, Natal de 1942 &#8211; Filme de propaganda nazista</span></p>
<p><small> <strong>Narração do filme</strong> </small></p>
<p>
<p style="padding-left:4em;padding-right:4em;">&#8220;A pátria celebra o quarto Natal da guerra, protegida por uma sólida frente de batalha. Artistas do sexo feminino e esposas de artistas preparam pacotes para serem enviados pelo correio aos combatentes. Estudantes também envolve-se com entusiasmo quando se trata de fazer felizes os soldados do fronte. Enfermeiras de um hospital militar na costa do canal preparam presentes de Natal para a frente oriental. Os pequeninos preparam uma surpresa para seu papai no campo de batalha. A noite antes do Natal num hospital militar. Véspera de Natal. Os sinos indicam o início da comemoração do Natal. Seu tinido ressoa sobre terra e mar, a fim de levar a nossos soldados de todas as frentes as saudações da pátria.&#8221; </p>
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		<title>O nome de Deus em mãos erradas</title>
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		<pubDate>Fri, 17 Mar 2006 11:02:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Divino preconceito]]></category>
		<category><![CDATA[Heresias Sensacionais]]></category>
		<category><![CDATA[cristianismo]]></category>
		<category><![CDATA[folclore]]></category>
		<category><![CDATA[lutero]]></category>

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		<description><![CDATA[Depois da breve e edificante introdução ao seu tratado contra os judeus Shem Hamphoras, Martinho Lutero se apressa em reproduzir a lenda judaica que será alvo de seus ataques no restante do livro. A lenda e o uso dela por Lutero são curiosos em muitos sentidos. Primeiro há a história em si, breve aventura em [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><small>Depois da breve e edificante <a href="http://www.baciadasalmas.com/2005/lutero-alerta-os-alemaes">introdução</a> ao seu tratado contra os judeus <em>Shem Hamphoras,</em> Martinho Lutero se apressa em reproduzir a lenda judaica que será alvo de seus ataques no restante do livro.</p>
<p>A lenda e o uso dela por Lutero são curiosos em muitos sentidos. Primeiro há a história em si, breve aventura em que o Nome Secreto de Deus (o <em>Shem Hamphoras)</em> é utilizado sem autorização por Jesus para realizar os seus milagres e atrair as multidões. Há inúmeros detalhes memoráveis, como o fato de Jesus citar incessantemente o Antigo Testamento em seu favor (hábito que aos judeus deve ter parecido especialmente irritante), o embate aéreo, a não-mencionada tecnologia que motorizava os cães mecânicos, a reversão do papel de Judas Iscariotes e o enforcamento de Jesus num pé de repolho.</p>
<h5>O Shem Hamphoras estava escrito sobre esta pedra, e qualquer um que aprendesse o nome dessas letras e as compreendesse poderia fazer qualquer coisa que quisesse.</h5>
</p>
<p>A lenda parece ter sido inventada por judeus dotados de aguçado senso de humor que dispuseram-se a difamar a história de Jesus sem levar a coisa muito a sério (leia-se o último parágrafo), talvez comentando ou aproveitando-se da proverbial credulidade dos cristãos. Não temos como saber como a história foi lida pelo público judeu original; não temos nem mesmo como saber se a história foi de fato escrita por judeus, mas está claro que sua divulgação deixou os cristãos furiosos.</p>
<p>A pitoresca narrativa foi registrada com horror na obra <em>Victoria (1315)</em> de um certo Victor Porchetto de Salvatici, padre genovês a quem Lutero chama pelo nome latino de Purchetus (o título completo do livro, <em>A Vitória sobre os ímpios Judeus, na qual a verdade da fé Católica é demonstrada a partir das Sagradas Escrituras, bem como a partir das palavras do Talmude, das obras cabalísticas e de todos os outros autores aceitos pelos Judeus,</em> proporciona uma idéia clara do seu conteúdo). Lutero, que leu-a numa reimpressão parisiense de <em>Victoria</em>, datada de 1520 (seu exemplar pessoal, com notas em alemão e em latim, jaz hoje no acervo da Biblioteca Municipal de Karlsruhe) traduziu a lenda a fim de refutá-la.</p>
<p>Não há, portanto, como recapitular adequadamente todas as camadas de meta-intolerância ligadas à criação e incessante citação deste texto. Os judeus, perseguidos implacavelmente pelos cristãos durante um milênio inteiro, podem ter inventado a história como inofensiva retaliação; por outro lado, cristãos bem-intencionados podem muito bem ter atribuído a história aos judeus, já que testemunhar falsamente o que se considera ser verdadeiro <a href="http://www.baciadasalmas.com/2005/a-ultima-tentacao">já foi considerado</a> atitude virtuosa; cristãos como Porchetto e Lutero, inflamados pela imorrível blasfêmia, trataram então de atiçar a já alta fogueira da perseguição aos judeus.</p>
<p>O prejuízo está, naturalmente, longe de terminar. Onde estão os guardiãos do Shem Hamphoras quando precisamos <del>deles</del> <ins>dele</ins>.</small></p>
<p>
<hr style="width: 30%; height: 2px;" /></p>
<p><strong>DO DÉCIMO PRIMEIRO CAPÍTULO DA PRIMEIRA PARTE DO LIVRO DE PURCHETIS, TRADUZIDO PARA O ALEMÃO PELO DR. M. LUTERO</strong></p>
<p>1. Todos veremos agora como os judeus foram sempre tamanhos inimigos das maravilhas de Cristo que atribuíram-nas a Belzebu, senhor dos diabos. Pois ele (Cristo) fez obras assombrosas como ninguém jamais havia feito, conforme ele mesmo afirma em João 15.</p>
<p>Também jamais foi alegado que qualquer outra pessoa em seu Nome tenha feito os cegos verem, os surdos ouvirem, os mancos andarem e os mudos falarem, como profetizado por Isaías nos versos de 4 a 6 do seu capítulo 35: &#8220;A vingança vem, a retribuição de Deus; ele vem e vos salvará. Então, se abrirão os olhos dos cegos, e se desimpedirão os ouvidos dos surdos; os coxos saltarão como cervos, e a língua dos mudos cantará&#8221;.</p>
<p>2. Além desses numerosos sinais maravilhosos ele fez muitos outros, despertou os mortos, limpou os leprosos e curou muitos outros enfermos e fez tantos outros sinais que ninguém, exceto Deus, poderia tê-los feito; ainda assim a perversidade dos judeus, sempre associada a ardis malignos, teve a desfaçatez de blasfemar e vituperar esses milagres com mentiras. Eles compuseram um livro contra os cristãos no qual escrevem o seguinte:</p>
<p>
<p style="padding-left:4em;padding-right:4em;">3. A<small>CONTECEU NOS DIAS DE HELENA</small>, a Rainha, a qual reinou sobre toda a terra de Israel, que Jesus, o Nazareno, veio a Jerusalém. No Templo do Senhor ele encontrou a pedra sobre a qual nos tempos antigos havia estado depositada a Arca do Senhor. O Shem Hamphoras estava escrito sobre esta pedra, e qualquer um que aprendesse o nome dessas letras e as compreendesse poderia fazer qualquer coisa que quisesse.</p>
<p><span id="more-824"></span></p>
<p>
<p style="padding-left:4em;padding-right:4em;">4. Nossos sábios preocupavam-se, no entanto, que se os Filhos de Israel viessem a aprender esse Nome, acabariam por destruir o mundo através do seu poder. Eles por essa razão construíram dois cães de bronze e fixaram-nos nos dois pilares da porta do lugar santo. Se alguém entrava e aprendia as palavras do mencionado Nome, na saída os cães de metal latiam de forma tão apavorante que, de medo, a pessoa esquecia o Nome e as letras que havia aprendido.</p>
<p>
<p style="padding-left:4em;padding-right:4em;">5. Ora, Jesus, o Nazareno, entrou e aprendeu as palavras e escreveu-as num pergaminho. Ele em seguida rasgou a carne da perna e escondeu lá dentro as anotações. E por ter pronunciado o Nome, nada o feriu, e a pele fechou-se como sempre havia estado. Quando saiu do Templo os cães de bronze latiram, de modo que ele esqueceu o Nome prontamente. Quando chegou em casa, no entanto, ele abriu a perna com uma faca, extaiu as anotações nas quais estavam escritas as letras do Shem Hamphoras e aprendeu-as novamente.</p>
<p>
<p style="padding-left:4em;padding-right:4em;">6. Depois disso ele reuniu ao redor de si 310 jovens de Israel e disse a eles: &#8220;Vejam, os sábios dizem que sou filho de uma meretriz, porque querem exercer domínio sobre Israel; mas vocês sabem o que todos os profetas profetizaram a respeito do Messias. Ele sou eu, esta é a verdade. Como Isaías profetizou a meu respeito: &#8216;Eis que uma virgem conceberá e dará à luz um filho, e seu nome será Emanuel&#8217; (Isaías 7:14). Foi assim que meu ancestral Davi profetizou e disse: &#8216;Tu és meu filho, eu hoje te gerei&#8217; (Salmo 2:7). Desta forma minha mãe deu-me à luz sem a contribuição de homem algum, pelo poder de Deus apenas. Portanto não sou eu, mas eles, que são filhos de uma meretriz, como diz Oséias: &#8216;Não terei misericórdia dos filhos deles, pois que são filhos de meretrizes&#8217; (Oséias 2:4)&#8221;.</p>
<p>
<p style="padding-left:4em;padding-right:4em;">7. Os jovens de Israel então responderam: &#8220;Se você é o Messias, dê-nos um sinal&#8221;. &#8220;Que sinal vocês querem de mim?&#8221; Eles disseram: &#8220;Faça um manco ficar em pé como estamos agora&#8221;. Ele disse: &#8220;Tragam-me um&#8221;. Logo eles lhe trouxeram um manco que nunca havia ficado em pé, e ele proferiu sobre ele o Shem Hamphoras; na mesma hora o manco firmou-se sobre seus pés e levantou-se. Então todos eles ajoelharam-se diante dele e disseram: &#8220;Ele é o Messias, sem qualquer dúvida&#8221;. Também trouxeram-lhe um leproso. Ele proferiu o Nome sobre ele e colocou sua mão sobre ele, e o leproso recuperou-se de imediato. Por causa disso um bom número de pessoas desprezíveis do nosso povo associou-se a ele.</p>
<h5>Enquanto isso, os anciãos de Israel permitiram a entrada de um sujeito chamado Judas Iscariotes no lugar mais santo do Templo.</h5>
</p>
<p>
<p style="padding-left:4em;padding-right:4em;">8. Os sábios, no entanto, quando viram que Israel começava a crer nele, capturaram-no e trouxeram-no até a rainha Halani, que possuía a terra de Israel naquela ocasião, e disseram a ela: &#8220;Graciosa Senhora, este homem faz mágicas e engana o mundo&#8221;. Jesus, o nazareno, respondeu: &#8220;Graciosa Senhora, os profetas profetizaram anos atrás a meu respeito, e um deles disse o seguinte: &#8216;Um rebento brotará do tronco da tribo de Jessé&#8217; (Isaías 11:1). Esse sou eu, de quem Davi diz: &#8216;Bem-aventurado aquele que não anda segundo o conselho dos ímpios&#8217; (Salmo 1:1)&#8221;.</p>
<p>
<p style="padding-left:4em;padding-right:4em;">9. Ela disse: &#8220;Está na lei de vocês o que esse homem está dizendo?&#8221; Eles responderam: &#8220;Sim, assim diz a nossa lei, mas não refere-se a ele. O que está escrito a respeito dele está em Deuteronômio 13:5: &#8216;Esse profeta deverá ser morto, pois pregou rebeldia contra Deus&#8217;. Mas do Messias está escrito (Jeremias 23:6): &#8216;Nos seus dias, Judá será salvo, e Israel habitará seguro&#8217;&#8221;. Diante disso aquele Ímpio respondeu e disse à rainha: &#8220;Ele sou eu, porque posso despertar os mortos&#8221;.</p>
<p>
<p style="padding-left:4em;padding-right:4em;">10. A rainha mandou então com eles seus servos mais dignos de confiança, e o Ímpio fez um morto reviver através do Shem Hamphoras. Daquele momento em diante a rainha ficou muito impressionada e disse: &#8220;Por certo este é um grande milagre&#8221;. Ela olhou para os sábios com desprezo, de modo que eles tiveram de deixá-la envergonhados, o que trouxe grande prejuízo para eles e para os de Israel. E Jesus, o nazareno, transferiu-se para a Galiléia Superior.</p>
<p>
<p style="padding-left:4em;padding-right:4em;">11. E os sábios voltaram até a rainha e lhe disseram: &#8220;Graciosa senhora, esse sujeito lida com artes mágicas e confunde todas as coisas vivas&#8221;. Ela por isso mandou seus mercenários a fim de capturá-lo; porém a gente da Galiléia não agradou-se disse, opondo-se a ela. Ele, no entanto, disse: &#8220;Vocês não devem lutar por minha causa, pois o poder do meu pai celeste e o sinal que ele me deu me defenderão&#8221;. E a gente da Galiléia fez pássaros de barro diante dele, e quando ele proferiu o Shem Hamphoras sobre eles os pássaros voaram prontamente; e eles prostaram-se de rosto no chão e oraram a ele.</p>
<p>
<p style="padding-left:4em;padding-right:4em;">12. Na mesma hora ele pediu que uma uma enorme pedra de moinho fosse trazida e atirada dentro do mar; quando isso havia sido feito, o Ímpio proferiu o Shem Hamphoras, e fez com que a pedra se erguesse até a superfície do oceano, e ele sentou-se sobre ela e disse aos mercenários: &#8220;Vão até a sua senhora e digam o que viram&#8221;. Ele em seguida levantou-se na frente deles e caminhou sobre o mar.</p>
<p>
<p style="padding-left:4em;padding-right:4em;">13. Os mercenários foram e relataram à rainha Halani tudo que haviam visto. Ela ficou tremendamente indignada e chamou os sábios e disse a eles: &#8220;Vocês alegaram que esse homem, Jesus de Nazaré, é mágico, mas saibam que seus sinais demonstram que ele é verdadeiramente o filho de Deus&#8221;. Eles porém disseriam: &#8220;Graciosa senhora, que ele venha até aqui para que possamos denunciar seus intentos perversos&#8221;. Enquanto isso, os anciãos de Israel foram e permitiram a entrada de um sujeito chamado Judas Iscariotes no lugar mais santo do Templo. Ele aprendeu as letras do Shem Hamphoras da mesma maneira que Jesus de Nazaré havia aprendido, e rasgou a carne da perna como o outro (Jesus) havia feito.</p>
<p>
<p style="padding-left:4em;padding-right:4em;">14. Então veio Jesus de Nazaré com seu séquito de seguidores e a rainha pediu aos sábios que aparecessem também. Ele deu um passo na direção da rainha e disse: &#8220;Davi profetizou a meu respeito: &#8216;Cães me cercam; uma súcia de malfeitores me rodeia&#8217; (Salmo 22:16). Mas isto também é dito a meu respeito, em Jeremias 1:8: &#8216;Não temas diante deles, porque eu sou contigo para te livrar, diz o Senhor&#8217;&#8221;. Mas os sábios questionavam isso.</p>
<p>
<p style="padding-left:4em;padding-right:4em;">15. E ele disse à rainha: &#8220;Serei exaltado ao céu, pois assim diz Davi a meu respeito: &#8216;Sê exaltado, ó Deus, acima dos céus&#8217;&#8221; (Salmo 57:11). Ele então ergueu os braços como asas, através do nome Shem Hamphoras, e voou entre o céu e a terra. Como viram isso, os sábios falaram a Judas Shariot, dizendo que ele proferisse o Shem Hamphoras e subisse atrás dele. Judas ergueu-se do chão e lutou com ele, de modo que os dois caíram de volta juntos, e o Ímpio quebrou um braço: os cristãos lamentam esse ocorrido todos os anos antes da sua Páscoa.</p>
<p>
<p style="padding-left:4em;padding-right:4em;">16. Na mesma hora os israelitas caíram sobre ele, ocultaram-no debaixo de panos e surraram-no com varas de romã. E disseram à rainha Halani: &#8220;Se esse é o Filho de Deus, que diga quem lhe bateu&#8221; &#8211; mas ele não foi capaz de dizer. A rainha disse aos sábios: &#8220;Vejam, ele está nas suas mãos. Façam-lhe o que acharem por bem&#8221;.</p>
<p>
<p style="padding-left:4em;padding-right:4em;">17. Eles então agarraram-no e conduziram-no ao cadafalso; no entanto, não importava a árvore ou tora em que o pendurassem, ela quebrava-se em dois de imediato, pois ele havia conjurado todas as árvores e madeiras, através do Shem Hamphoras, para que não fossem capazes de sustentá-lo. Eles então foram e trouxeram um caule de repolho, que não cresce de árvore alguma mas de uma planta rasteira, e enforcaram-no nela. Não há milagre aqui, porque no Santo dos Santos cresce a cada ano um caule tão poderoso que 50 quilos de sementes pendem dele. <em>Haec ille.</em> </p>
<h5>* * *</h5>
</p>
<p><small>Falk, Gerhard, <em>The Jews in Christian Theology: Martin Luther&#8217;s Anti-Jewish &#8220;Vom Shem Hamphoras&#8221;</em> (Jefferson, N. C. and London: McFarland &#38; Company, 1992)</small></p>
<div class='series_toc'><h3>Shem Hamphoras</h3><ol><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2005/lutero-alerta-os-alemaes/' title='Lutero alerta os alemães'>Lutero alerta os alemães</a></li><li>O nome de Deus em mãos erradas</li></ol></div>]]></content:encoded>
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		<title>A melhor piada religiosa de todos os tempos</title>
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		<pubDate>Sun, 18 Dec 2005 10:22:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Divino preconceito]]></category>
		<category><![CDATA[Fé e Crença]]></category>

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		<description><![CDATA[Os visitantes do sáite shipoffools.com elegeram o que consideram ser a melhor piada religiosa de todos os tempos. Uma vez eu vi um cara querendo se jogar de uma ponte e eu disse: &#8211; Não faça isso! &#8211; Ninguém me ama &#8211; ele disse. &#8211; Deus te ama. Você acredita em Deus? &#8211; Acredito &#8211; [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Os visitantes do sáite shipoffools.com elegeram o que consideram ser a melhor piada religiosa de todos os tempos.</p>
<p>Uma vez eu vi um cara querendo se jogar de uma ponte e eu disse:</p>
<p> &#8211; Não faça isso!</p>
<p>&#8211; Ninguém me ama &#8211; ele disse.</p>
<p>&#8211; Deus te ama. Você acredita em Deus?</p>
<p>&#8211; Acredito &#8211; ele disse.</p>
<p>&#8211; Você é cristão ou muçulmano?</p>
<p>&#8211; Cristão.</p>
<p>&#8211; Eu também! &#8211; eu disse. &#8211; Protestante ou católico?</p>
<p>&#8211; Protestante.</p>
<p>&#8211; Eu também! De qual denominação?</p>
<p>&#8211; Batista.</p>
<p>&#8211; Eu também! Batista da convenção batista do norte ou batista da convenção batista do sul?</p>
<p>&#8211; Da convenção batista do sul.</p>
<p>&#8211; Caramba, eu também! Batista da convenção batista regular do sul ou da convenção batista independente do sul?</p>
<p>&#8211; Da convenção batista regular do sul &#8211; ele disse.</p>
<p>&#8211; Eu também! Batista da convenção batista regular reformada do sul ou da convenção batista regular pioneira do sul?</p>
<p>&#8211; Da convenção batista regular reformada do sul.</p>
<p>&#8211; Eu também! Batista da convenção batista regular reformada pentecostal do sul ou da convenção batista regular reformada carismática do sul?</p>
<p>&#8211; Da batista regular reformada pentecostal do sul.</p>
<p>&#8211; Então morra, herege! &#8211; e empurrei o sujeito.</p>
<p>O comediante <a href="http://www.guardian.co.uk/g2/story/0,3604,1580452,00.html">Emo Philips</a>, autor da piada original, conta mais uma:</p>
<p>Quando era pequeno eu costumava orar toda a noite pedindo uma bicicleta, até que percebi que não é assim que Deus funciona.</p>
<p>Então eu fui lá, roubei uma e pedi que ele me perdoasse. E funcionou!</p>
<p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug028.gif" alt="" width="34" height="48" /></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Lutero alerta os alemães</title>
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		<pubDate>Fri, 02 Dec 2005 10:37:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Divino preconceito]]></category>
		<category><![CDATA[Documentos]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[cristianismo]]></category>
		<category><![CDATA[lutero]]></category>
		<category><![CDATA[nazismo]]></category>

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		<description><![CDATA[Dos panfletos que Martinho Lutero escreveu contra os judeus o Shem Hamphoras talvez seja o mais virulento. Estou pensando em traduzir, com fins históricos e educativos e em doses homeopáticas, pelo menos parte dele. A minha é uma tradução da tradução literal de Gerhard Falk, que por sua vez trabalhou a partir do truncado original [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><small>Dos panfletos que Martinho Lutero escreveu contra os judeus o <em>Shem Hamphoras</em> talvez seja o mais virulento. Estou pensando em traduzir, com fins históricos e educativos e em doses homeopáticas, pelo menos parte dele. A minha é uma tradução da tradução literal de Gerhard Falk, que por sua vez trabalhou a partir do truncado original alemão: <em>Von Schem Hamphoras und vom Geschlecht Christi</em> &#8211; Do Nome Oculto e das Gerações de Cristo.</p>
<p>Antes que passe pela sua cabeça que concordo com o que está sendo dito aqui, leia todas as advertências em <a href="http://www.baciadasalmas.com/2005/a-solucao-final-de-lutero">A solução final de Lutero</a>.</p>
<p>Lutero não tinha como estar pensando nos nazistas quando escreveu 400 anos antes deles, mas não há como saber: talvez os nazistas estivessem pensando em Lutero quando colocaram-no em prática 400 anos depois.</small></p>
<p>
<hr style="width: 30%; height: 2px;" /></p>
<h5>&#8220;Não é minha opinião que eu possa escrever aos judeus na esperança de convertê-los.&#8221;</h5>
</p>
<p>1. No meu último panfleto <em>(Sobre os Judeus e Suas Mentiras)</em> anunciei que irei de agora em diante ignorar aquilo que os ferozes e miseráveis judeus mentem a respeito do seu Shem Hamphoras<sup><a href="#fn1">1</a></sup>, conforme descrito por Purchetus em seu livro <em>Victoria</em>.</p>
<p>Isso tenho feito em honra da nossa fé e em oposição às mentiras diabólicas dos judeus, de modo que aqueles que querem tornar-se judeus possam ver em que espécie de dogmas &#8220;magníficos&#8221; deverão acreditar e terão de observar entre os malditos judeus.</p>
<h5>&#8220;Um coração de judeu é duro como pedra, e não pode ser movido por quaisquer meios.&#8221;</h5>
</p>
<p><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2005/bits/jew.jpg" class="left" />Pois, conforme estipulei claramente naquele panfleto, não é minha opinião que eu possa escrever aos judeus na esperança de convertê-los. Eis porque não dei àquele panfleto o nome de <em>Contra os Judeus,</em> mas <em>Contra os Judeus e Suas Mentiras,</em> para que os alemães possam conhecer através da evidência histórica o que é um judeu, de modo a poderem alertar nossos cristãos contra eles da mesma forma que os alertamos contra o próprio Diabo, a fim de fortalecermos e honrarmos nossa crença; não para converter os judeus, o que seria quase tão impossível quanto converter o Diabo.</p>
<p><span id="more-594"></span></p>
<p>2. Pois da mesma forma que devemos ensinar e escrever a respeito do Diabo, do inferno e da morte e do pecado, o que eles são e o que podem ser, assim escrevo sobre os judeus para que possamos nos guardar de todos esses. Não que possamos fazer do Diabo um anjo, do inferno um céu, da morte vida, ou, do pecado, santidade. Todas essas coisas são impossíveis.</p>
<h5>&#8220;Ainda que os judeus fossem punidos da forma mais cruenta, de modo que as ruas se enchessem do seu sangue e seus mortos não pudessem ser contados, não na ordem de milhares mas na de milhões.&#8221;</h5>
</p>
<p>Um judeu ou um coração de judeu é duro como pedra e como ferro, e não pode ser movido por quaisquer meios. Mesmo se Moisés e os profetas viessem e fizessem todas as suas maravilhosas obras diante dos seus olhos, como fizeram Cristo e os apóstolos, para que abandonassem a sua insensatez, seria ainda assim inútil.</p>
<p>Ainda que eles fossem punidos da forma mais cruenta, de modo que as ruas se enchessem do seu sangue e seus mortos não pudessem ser contados, não na ordem de milhares mas na de milhões, como aconteceu sob Vespasiano em Jerusalém e para pior sob Adriano, ainda assim afirmariam estarem certos, mesmo se depois desses 1.500 anos vivessem em miséria por outros 1.500. Ainda assim Deus é mentiroso e eles estão certos.</p>
<p>Em suma, são eles filhos do Diabo condenados ao inferno; se, no entanto, algo de humano restar ainda neles, talvez este ensaio possa lhes ser útil e gerar algum bem. Alguns, que têm essa inclinação, podem esperar o melhor de toda essa corja, da forma como desejam. Eu não vejo mais ali qualquer esperança, e não conheço qualquer escritura que fale a respeito dessa esperança. Não conseguimos nem ao menos converter a maioria dos cristãos, sendo obrigados a nos satisfazermos com um pequeno número; muito mais impossível, portanto, será converter os filhos do Diabo. Embora haja muitos que derivem, a partir do décimo-primeiro capítulo da epístola aos Romanos, a insana noção de que todos os judeus forçosamente se converterão, na verdade não é assim. São Paulo falava de algo bem diferente.</p>
<p><strong>Março de 1543, Doutor Martinho Lutero</strong><br /><small>Falk, Gerhard, <em>The Jews in Christian Theology: Martin Luthers Anti-Jewish Vom Shem Hamphoras</em> (Jefferson, N. C. and London: McFarland &#38; Company, 1992)</small></p>
<p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug022.gif" alt="" width="77" height="161" /></p>
<p>
<p id="fn1"><sup>1</sup> <em>Shem Hamphoras</em> &#8211; hebraico para &#8220;nome oculto&#8221; ou &#8220;nome impronunciável&#8221;: o nome secreto de Deus. Lutero escreveu este panfleto motivado pelo conteúdo do livro de Purchetus, que acusava os judeus de alegarem que Jesus usou o nome secreto de Deus, em conjunção com artes mágicas, para realizar os seus milagres.</p>
<p>Veja também:</p>
<p><a href="http://www.baciadasalmas.com/2005/a-solucao-final-de-lutero/">A solução final de Lutero</a></p>
<p><a href="http://chgs.umn.edu/histories/otherness/index.html">Visualizando o outro: Representações de judeus na Alemanha Nazista</a><br /><a href="http://tinyurl.com/c6j97"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2005/bits/arianoxjudeu.jpg" title="" alt="" width="175" height="126" /></a></p>
<div class='series_toc'><h3>Shem Hamphoras</h3><ol><li>Lutero alerta os alemães</li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/o-nome-de-deus-em-maos-erradas/' title='O nome de Deus em mãos erradas'>O nome de Deus em mãos erradas</a></li></ol></div>]]></content:encoded>
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		<title>Leviticenses</title>
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		<pubDate>Sun, 18 Sep 2005 09:57:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Divino preconceito]]></category>
		<category><![CDATA[cristianismo]]></category>

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		<description><![CDATA[De vez em quando as pessoas me perguntam o quê, exatamente, tenho contra o cristianismo, já que pareço criticá-lo com certa freqüência. Minha resposta geral é: não tenho nada contra o cristianismo. Eu queria que mais gente o praticasse. O famoso adesivo de pára-choque afirma &#8220;os cristãos não são perfeitos, só são perdoados&#8221;, mas eu [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>De vez em quando as pessoas me perguntam o quê, exatamente, tenho contra o cristianismo, já que pareço criticá-lo com certa freqüência. Minha resposta geral é: não tenho nada contra o cristianismo. Eu queria que mais gente o praticasse. O famoso adesivo de pára-choque afirma &#8220;os cristãos não são perfeitos, só são perdoados&#8221;, mas eu às vezes fico pensando com que freqüência eles verificam com Cristo o acerto da segunda parte. Fico olhando <a href="http://www.scalzi.com/whatever/002674.html">para a imagem</a> daquele garoto protestando em São Francisco contra o casamento de homossexuais, vestindo uma camiseta em que a palavra &#8220;bicha&#8221; está dentro de um círculo atravessada por uma faixa, e tento encontrar algo dos ensinos de Cristo naquilo. Como você pode imaginar, encontro muito pouco.</p>
<h5>Não tenho nada contra o cristianismo. Eu queria que mais gente o praticasse. </h5>
</p>
<p>[...]</p>
<p>Nos comentários ao artigo ilustrado por aquela imagem alguém se perguntou porque tantos fundamentalistas gastam tanto tempo no livro de Levítico e tão pouco tempo no Novo Testamento, e creio que essa é uma pergunta especialmente pertinente. Na verdade, é tão pertinente que eu gostaria de sugerir que existe uma classe inteira de gente que se auto-identifica como &#8220;cristãos&#8221;, mas que não são cristãos de forma alguma, no sentido de que não seguem de fato os ensinos de Cristo de qualquer forma significativa. O que essas pessoas fazem é acenar na direção de Cristo de modo superficial enquanto concentram o seu tempo nos livros mais sangrentos da Bíblia (que tendem a encontrar-se no Antigo Testamento), usando o texto seletivamente para apoiar seus próprios ódios e preconceitos, utilizando a Bíblia como cacetete ao invés de como porta. Sendo esse o caso, sugiro que paremos de chamar essa gente de cristãos, e comecemos a nomeá-los por algo apropriado à sua fé, inclinações e entusiasmos.</p>
<h5>Sugiro que paremos de chamar essa gente de cristãos, e comecemos a nomeá-los por algo apropriado à sua fé, inclinações e entusiasmos.</h5>
</p>
<p>Proponho que os chamemos de leviticenses, nome inspirado por Levítico, o terceiro livro do Antigo Testamento, famoso por suas regras e fonte das passagens mais freqüentemente citadas pelos leviticenses para justificar sua intolerância (inclusive, recentemente, contra gays e lésbicas, com base em Levítico 18:22: &#8220;Com homem não te deitarás, como se fosse mulher; é abominação&#8221;).</p>
<p>Sugerir que um cristão é na verdade um leviticense não é dizer que sua fé é falsa &#8211; ao contrário, é sugerir que sua fé encontra-se em outro lugar da Bíblia, nas partes que são fáceis de entender: as regras e regulamentos, todas as noções explícitas sobre o que você pode e não pode fazer para estar bem diante de Deus. Regras são bem mais fáceis de seguir do que a trilha verdadeira de Cristo, que requer humildade e sacrifício e a capacidade de perdoar, amar e importar-se até mesmo por aqueles a que você se opõe e que se opõem e odeiam você. Qualquer idiota pode seguir regras; de fato, há bons indícios de que idiotas <em>só conseguem seguir </em>regras. Eis porque os leviticenses amam Levítico (e outros livros do Pentateuco e do Antigo Testamento): ele é repleto de regras. E em regras você pode confiar. <em>É o motivo</em> de serem regras.</p>
<h5>Regras são bem mais fáceis de seguir do que a trilha verdadeira de Cristo, que requer humildade e sacrifício e a capacidade de perdoar, amar e importar-se.</h5>
</p>
<p>[...]</p>
<p>Sejamos claros: nem todo cristão é um leviticense; não quero sugerir isso de jeito nenhum. Nem todo <em>fundamentalista </em>cristão é leviticense. E nem toda pessoa que crê que é moralmente errado permitir o casamento de homossexuais é tampouco leviticense. (Também para ficar claro: embora o Levítico seja parte da Torá, não vejo muitos leviticenses entre os judeus, que pela minha experiência vêem a Torá como um trampolim para abraçar o mundo ao invés de como uma defesa contra ele). Gente de bem pode discordar, e veementemente, sobre o que é certo e o que é errado, sobre o que é moral e o que é imoral, e sobre o que deveria ser feito a respeito. O que faz um leviticense, na minha opinião pelo menos, é a sua capacidade de transmutar as suas crenças em ódio e intolerância, a fim de privar outros de direitos de que deveriam desfrutar. Os leviticenses sempre estiveram entre nós. Eles citavam a Bíblia para justificar a escravidão. Eles citavam a Bíblia para tentar manter as mulheres em casa. Eles citavam a Bíblia para manter as raças puras. Eles citam a Bíblia para impedir que gays e lésbicas beneficiem-se do casamento. E, cada uma das vezes, depois de citarem à Bíblia à saciedade, eles saem e usam essa desculpa para o seu ódio a fim de fazerem coisas terríveis.</p>
<h5>O que faz um leviticense é a sua capacidade de transmutar as suas crenças em ódio e intolerância.</h5>
</p>
<p>Na minha opinião a melhor coisa que os cristãos podem fazer é reconhecer esse grupo no seu meio &#8211; gente que lê o mesmo livro, alega seguir os mesmos ensinos e afirma adorar o mesmo Cristo, mas que através de seus atos demonstra ser, vez após outra, algo que não um cristão. Creio que os cristãos deveriam perguntar a essas pessoas: &#8220;Quem são vocês? Vocês seguem o exemplo amoroso de Cristo ou seguem as regras de Levítico? Vocês usam a Bíblia para iluminar o seu amor ou para justificar o seu ódio? Quando Cristo voltar, de que modo vê irá mostrar que trilhou o seu caminho? Pelo número de pessoas que amou, ou pelo número de pessoas a quem &#8216;justificadamente&#8217; se opôs? Você ama a Cristo ou ama regras? Você é cristão ou leviticense?&#8221;</p>
<p>Quanto ao restante de nós, proponho que nos esforcemos para separar os cristãos dos leviticenses em nossas mentes. Não vejo motivo para culpar aqueles que genuinamente seguem a Cristo pelas ações dos que meramente usam Cristo como escudo para seus próprios ódios e temores. E, quando um leviticense atravessar o seu caminho, educadamente aponte para ele o que ele realmente é: não um cristão, mas mero leviticense.</p>
<h5>Creio que os cristãos deveriam perguntar a essas pessoas: &#8220;Quem são vocês? &#8221;</h5>
</p>
<p>Com toda a probabilidade, o leviticense irá odiá-lo por isso. Mas isso apenas comprova a coisa toda.</p>
<p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug054.gif" alt="" width="99" height="111" /></p>
<p><a href="http://www.scalzi.com/whatever/002675.html">John Scalzi</a>, fevereiro de 2004</p>
<p>Leia também:<br /><a href="http://www.baciadasalmas.com/index.php?p=595">A Solução Final de Lutero</a></p>
<p><small><strong>FALTAM 6 DIAS PARA A EXPEDIÇÃO CORDEL</strong></small></p>
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		<title>A Solução Final de Lutero</title>
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		<pubDate>Tue, 06 Sep 2005 09:51:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Divino preconceito]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[cristianismo]]></category>
		<category><![CDATA[judaísmo]]></category>
		<category><![CDATA[lutero]]></category>
		<category><![CDATA[nazismo]]></category>

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		<description><![CDATA[&#8220;O que devem fazer os cristãos contra este povo rejeitado e condenado, os judeus?&#8221; Há alguns anos perdi instantaneamente um amigo luterano quando citei, numa conversa, trechos das fortíssimas diatribes que Lutero escreveu contra os judeus. Ao mesmo tempo em que recusou-se a acreditar que Lutero tivesse dito aquilo, meu amigo decidiu que não queria [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<h5>&#8220;O que devem fazer os cristãos contra este povo rejeitado e condenado, os judeus?&#8221;</h5>
</p>
<p>Há alguns anos perdi instantaneamente um amigo luterano quando citei, numa conversa, trechos das fortíssimas diatribes que Lutero escreveu contra os judeus. Ao mesmo tempo em que recusou-se a acreditar que Lutero tivesse dito aquilo, meu amigo decidiu que não queria ter nada com alguém como eu que recusava-se a crer que seu herói não havia sido infalível. Lembro ter achado curioso que Lutero, que lutou com todas as forças para derrubar o dogma da infabilidade papal, tivesse de alguma forma adquirido entre os seus seguidores a fama de infalível.</p>
<h5>&#8220;Em primeiro lugar, queimem-se suas sinagogas e suas escolas.&#8221; </h5>
</p>
<p>Lutero era um sujeito de extremos. Identifico-me às vezes com ele. Como eu, o reformador cometia a indiscrição de escrever demais, publicando às vezes centenas de panfletos por ano; como eu, ele caiu mais de uma vez na armadilha da própria <a href="http://www.baciadasalmas.com/index.php?p=481">retórica</a>. </p>
<h5>&#8220;Em segundo lugar, recomendo que suas casas sejam também arrasadas e destruídas.&#8221;</h5>
</p>
<p>No começo da sua carreira, quando simpatizava com os judeus, Lutero chegou a identificar-se com eles:</p>
<p>
<p style="padding-left:4em;padding-right:4em;">Os judeus são parentes de sangue do Senhor; se fosse apropriado vangloriar-se na carne e no sangue, os judeus pertencem mais a Cristo do que nós. Rogo, portanto, meu caro papista, que se te cansares de me vilipendiar como herético, que comeces a me injuriar como judeu.</p>
<p>Essa atitude logo mudou quando os judeus recusaram-se a converter-se como moscas diante da sua pregação, e &#8211; pior &#8211; quando Lutero viu alguns de seus cristãos convertendo-se às &#8220;mentiras&#8221; do judaísmo. Embora seja lembrado como um ardente defensor da <a href="http://www.baciadasalmas.com/index.php?p=564">graça</a>, Lutero, como todos, não foi capaz de viver à altura dela. Da mesma forma que incontáveis cristãos antes e depois dele, o reformador perdeu de vista o cerne escandaloso da mensagem do Reino, a espantosa notícia de que Deus <a href="http://www.baciadasalmas.com/index.php?p=533">não tem favoritos</a> e derrama sua gentileza e sua graciosidade mesmo sobre os que o rejeitam da forma mais deliberada. </p>
<h5>&#8220;Terceiro, recomendo que todos os seus livros de oração sejam tirados deles.&#8221;</h5>
</p>
<p>Hoje em dia, lendo essas passagens, é muito fácil lembrar que a Alemanha de Lutero seria mais tarde berço de Hitler e das atrocidades nazistas. Somos tentados a associar rapidamente as duas coisas e, na verdade, ninguém deveria ousar separá-las. Duas observações importantes são no entanto necessárias: primeiro, Lutero não estava escrevendo algo de que seus contemporâneos discordariam. Quando maldizia os judeus ele apenas colocava a sua pena em favor da maré cultural do seu tempo. Na Europa medieval, em que todas as pessoas que se davam a algum respeito eram cristãos, os judeus eram (e apenas em parte trocadilho) tomados para Cristo. Judeus eram culpados de todos os males, acusados de todos os crimes, responsabilizados por todas as pragas. Quando uma colheita falhava, você não tinha duvidas sobre quem havia jogado sobre ela o seu mal-olhado. Quando uma criança desaparecia, você não tinha dúvidas de na faca de quem ela havia sido sacrificada. Os judeus eram &#8220;o outro&#8221;, os estranhos, aqueles dos quais a gente de bem desvia o rosto. Eram, em tudo e para todos, o bode expiatório. </p>
<h5>&#8220;Quarto, recomendo que seus rabis sejam proibidos de ensinar, sob pena de morte ou de amputação.&#8221;</h5>
</p>
<p>Segundo, há uma diferença importante entre a posição nazista e a hostilidade medieval aos judeus, tendência que o reformador apenas seguia. Lutero era anti-judeu, Hitler era anti-semita; a primeira questão é religiosa, a segunda, racial. Lutero abraçaria um judeu que se convertesse ao cristianismo; sob Hitler, os judeus convertidos ao cristianismo foram perseguidos e mortos.</p>
<h5>&#8220;Quinto, recomendo que o salvo-conduto para o livre-trânsito nas estradas seja completamente negado para os judeus.&#8221;</h5>
</p>
<p>Nenhuma dessas coisas, naturalmente, justifica as declarações e a posição de Lutero &#8211; mas devem ser levadas em conta na análise do que ele estava dizendo e das suas implicações.</p>
<h5>&#8220;Sexto, recomendo que todo o dinheiro e peças de ouro e prata sejam tomados deles e colocados sob custódia.&#8221;</h5>
</p>
<p>Vale ainda lembrar que, embora pareça extremamente virulenta, a posição radical de Lutero não difere muito das duríssimas objeções que muitos cristãos levantam nos nossos dias contra outros grupos. O &#8220;outro&#8221; nos nossos dias é outro. Os cristãos escolheram novos alvos: dependendo da sua inclinação, os bodes expiatórios são hoje em dia os comunistas, os homossexuais, os muçulmanos, os católicos, os evangélicos, os negros, os pobres, os ricos ou uma informe combinação de todos esses.</p>
<h5>&#8220;Sétimo, recomendo que se coloque um malho, um machado, uma enxada, uma pá, um ancinho ou um fuso nas mãos dos jovens judeus e judias.&#8221;</h5>
</p>
<p>Continuamos a agir como se houvesse diferença. São sempre eles que carecem da graça. O coração duro é sempre dos outros.</p>
<p>
<hr style="width: 30%; height: 2px;" /></p>
<p>
<p style="padding-left:4em;padding-right:4em;">O que devem fazer os cristãos contra este povo rejeitado e condenado, os judeus? Já que eles vivem entre nós, não devemos ousar tolerar a sua conduta, agora que sabemos das suas mentiras e suas injúrias e suas blasfêmias. Se o fizermos, tornamo-nos participantes de suas mentiras, sua injúria e sua blasfêmia. Portanto não temos como apagar o inextinguível fogo da ira divina, da qual falam os profetas, e tampouco temos como converter os judeus. Com oração e temor de Deus devemos colocar em prática uma dura misericórdia, para ver se conseguimos salvar pelo menos alguns deles dentre as chamas crescentes. Não ousamos vingar a nós mesmos. Vingança mil vezes pior do que qualquer uma que poderíamos desejar já os toma pela garganta. Quero dar-lhes minha sincera recomendação:</p>
<p>
<p style="padding-left:4em;padding-right:4em;">Em primeiro lugar, queimem-se suas sinagogas e suas escolas, e cubra-se com terra o que recusar-se a queimar, de modo que homem algum torne a ver deles uma pedra ou cinza que seja. Isso deve ser feito em honra de nosso Senhor e da Cristandade, de modo que Deus veja que somos cristãos, e não fazemos vista grossa ou deliberadamente toleramos tais mentiras, maldições e blasfêmias públicas tendo como alvo seu Filho e seus cristãos. Pois o que quer que tenhamos tolerado inadvertidamente no passado &#8211; e eu mesmo estive ignorante dessas coisas &#8211; será perdoado por Deus. Mas se nós, agora que estamos informados, protegermos e acobertarmos essa casa de judeus, deixando-a existir debaixo do nosso nariz, na qual eles mentem, blasfemam, amaldiçoam, vilipendiam e insultam a Cristo e a nós, seria o mesmo que se estivéssemos fazendo tudo isso e muito mais nós mesmos, como bem sabemos.</p>
<p>
<p style="padding-left:4em;padding-right:4em;">Em segundo lugar, recomendo que suas casas sejam também arrasadas e destruídas. Pois nelas elem perseguem os mesmos objetivos que em suas sinagogas. Eles devem ao invés disso ser alojados debaixo de um único teto ou pavilhão, como ciganos. Isso fará com que eles aprendam que não são senhores no nosso país, da forma como se vangloriam, mas que vivem em exílio e no cativeiro, da forma como gemem e lamentam incessantemente a nosso respeito diante de Deus.</p>
<p>
<p style="padding-left:4em;padding-right:4em;">Terceiro, recomendo que todos os seus livros de oração e obras talmúdicas, nos quais são ensinados tais idolatrias, mentiras, maldições e blasfêmia, sejam tirados deles.</p>
<p>
<p style="padding-left:4em;padding-right:4em;">Quarto, recomendo que seus rabis sejam de agora em diante proibidos de ensinar, sob pena de morte ou da amputação de algum membro. Pois eles perderam da forma mais justa o direito a tal posição ao manterem os judeus cativos com a declaração de Moisés (em Deutoronômio 17:10ss) na qual ele ordena que obedeçam os seus mestres sob pena de morte, embora Moisés acrescente claramente: &#8220;o que eles ensinam segundo a lei do Senhor&#8221;. Esses desprezíveis ignoram isso. Eles arbitrariamente empregam a obediência do pobre povo de forma contrária à lei do Senhor, infundindo neles esse veneno, essa maldizer, essa blasfêmia. Do mesmo modo o papa nos manteve cativos com a declaração de Mateus 16, &#8220;Tu és Pedro,&#8221; etc, induzindo-nos a crer em todas as mentiras e falsidades que provinham de sua mente diabólica. Ele não ensinava em conformidade com a palavra de Deus, e perdeu portanto seu direito a ensinar.</p>
<h5>Quando um judeu se converter, serão dados a ele cem, duzentos ou trezentos florins.</h5>
</p>
<p>
<p style="padding-left:4em;padding-right:4em;">Quinto, recomendo que o salvo-conduto para o livre-trânsito nas estradas seja completamente negado para os judeus. Eles não tem o que fazer no campo, visto que não são proprietários de terras, oficiais do governo, mercadores ou coisa semelhante. Que fiquem em suas casas.</p>
<p>
<p style="padding-left:4em;padding-right:4em;">Sexto, recomendo que sejam proibidos de emprestar a juros, e que todo o dinheiro e peças de ouro e prata sejam tomados deles e colocados sob custódia. O motivo de tal medida é que, como foi dito, eles não possuem qualquer outro modo de ganhar a vida que não seja emprestar a juros, e através da usura furtaram e roubaram de nós tudo que possuem. Esse dinheiro deveria ser agora usado para nenhum outro fim que não o seguinte: quando acontecer de um judeu se converter, serão dados a ele cem, duzentos ou trezentos florins, da forma como sugerirem suas circunstâncias pessoais. Com isso ele poderá estabelecer-se em alguma ocupação de modo a sustentar sua pobre mulher e filhos e dar suporte aos velhos e fracos. Pois tais ganhos malignos são amaldiçoados se não colocados em uso com a benção de Deus numa causa digna e justa.</p>
<p>
<p style="padding-left:4em;padding-right:4em;">Sétimo, recomendo que se coloque um malho, um machado, uma enxada, uma pá, um ancinho ou um fuso nas mãos dos jovens judeus e judias, e deixe-se que eles ganhem o seu pão com o suor do seu rosto, como foi imposto sobre os filhos de Adão (Gênesis 3:19). Pois não é justo que eles deixem que nós, os gentios malditos, labutemos debaixo do nosso suor enquanto eles, o povo santo, gastam o seu tempo atrás do fogareiro, banqueteando-se e peidando, e acima de tudo isso vangloriando-se blasfemamente do seu senhorio sobre os cristãos através do nosso suor.</p>
<p><strong>Martinho Lutero,</strong> <em>Sobre os Judeus e Suas Mentiras,</em> 1543</p>
<p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug046.gif" alt="" width="259" height="99" /></p>
<p>Leia também:<br /><a href="http://www.baciadasalmas.com/2005/lutero-alerta-os-alemaes">Shem Hamphoras</a> (Lutero alerta os alemães)</p>
]]></content:encoded>
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		<title>1926, Appoio moral</title>
		<link>http://www.baciadasalmas.com/2004/1926-appoio-moral/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=1926-appoio-moral</link>
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		<pubDate>Tue, 02 Nov 2004 09:38:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Divino preconceito]]></category>
		<category><![CDATA[Documentos]]></category>
		<category><![CDATA[Sociedade]]></category>
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		<category><![CDATA[sexo]]></category>

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		<description><![CDATA[Assim como foi pela fraqueza da mulher que Satanaz logrou arruinar a raça, assim outra vez, no fim dos seculos, o mesmo inimigo está fazendo seu esforço derradeiro &#8211; pelas mulheres. O grande paradoxo do cristianismo é que os mesmos que professam-se seguidores daquele que disse &#8220;não julgueis para que não sejais julgados&#8221; (Mateus 7:1) [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>
<p style="text-align:center;"><a href="http://www.baciadasalmas.com/images/2004/sinaldostempos.jpg"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2004/sinaldostempos_t.jpg" title="Clique para ampliar" alt="Clique para ampliar" width="291" height="400" /></a></p>
<blockquote><p>Assim como foi pela fraqueza da mulher que Satanaz logrou arruinar a raça, assim outra vez, no fim dos seculos, o mesmo inimigo está fazendo seu esforço derradeiro &#8211; pelas mulheres.</p></blockquote>
<p>O grande paradoxo do cristianismo é que os mesmos que professam-se seguidores daquele que disse &#8220;não julgueis para que não sejais julgados&#8221; (Mateus 7:1) mostram-se (na maioria histórica das vezes) os primeiros a emitir os julgamentos mais mesquinhos, preconceituosos, precipitados e injustos &#8211; e não acham dificuldade em encontrar outros crentes que se apressem em concordar com esses seus julgamentos.</p>
<blockquote><p>Esta ultima manifestação do desequilibrio feminino &#8211; de <em>cortar os cabellos</em> &#8211; é das peiores e das mais significantes.</p></blockquote>
<p>O grande paradoxo do cristianismo é que historicamente a ninguém mais do que os cristãos aplicam-se as críticas e advertências ferozes que Jesus promulgou contra os fariseus, que davam &#8220;o dízimo da hortelã, do endro e do cominho&#8221;, mas negligenciavam &#8220;o mais importante da lei: a justiça, a misericórdia e a fé&#8221; (Mateus 23:23) &#8211; isto é, preocupavam-se com ninharias ao mesmo tempo em que davam as costas à essência da mensagem: &#8220;coavam o mosquito e engoliam o camelo&#8221; (Mateus 23:24).</p>
<blockquote><p>Não deixa de ser um revolta, uma espécie de Bolchevismo feminino.</p></blockquote>
<p>As tentações do cristão não são, aparentemente, as paixões da carne, mas as do espírito: tolerar o erro em si mesmos e condená-lo sem misericórdia nos outros; confundir os sinais da passagem do tempo com sinais dos fins dos tempos; desonrar a memória do seu Mestre recusando-se a aprender de fato com ele; manchar a obra do seu Salvador usurpando o papel que ele mesmo permanece adiando assumir, o de Condenador e Juiz.</p>
<blockquote><p>O evangelho emancipou a mulher, mas não a livrou do castigo do Éden.</p></blockquote>
<p>Leia o <a href="http://www.baciadasalmas.com/images/2004/sinaldostempos.jpg">texto completo</a> da carta de 1926 da qual extraí as passagens em destaque acima. </p>
<p>Curioso é que um cristão <em>evangelicamente correto</em> dos dias de hoje fatalmente julgará os argumentos e as conclusões do autor da carta muito rasos, obtusos e inconsistentes à luz da mensagem mais abrangente da Bíblia; ignoro se seremos capazes de avaliar tão rigorosamente e com tamanha lucidez os nossos próprios julgamentos &#8211; hoje.</p>
<p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug023.gif" alt="" width="67" height="150" /></p>
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		<title>Janeiro de 1937</title>
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		<pubDate>Thu, 20 May 2004 09:44:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Divino preconceito]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[cristianismo]]></category>

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		<description><![CDATA[UMA CARAVANA BATISTA ATACADA A&#8217; BALA. Transcrevemos do «Diario da Tarde», Curityba, de 14 de janeiro corrente a seguinte noticia: ATACADOS A TIROS, NA ESCURIDÃO DA NOITE Em Urubicy, uma caravana evangelica se viu inopinada e barbaramente aggredida. Costumam os pastores evangelicos, como os catholicos, percorrer, em missão religiosa, varias zonas do paiz. Em nosso [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>
<p style="text-align:center;"><strong>UMA CARAVANA BATISTA ATACADA A&#8217; BALA.</strong></p>
<p>Transcrevemos do «Diario da Tarde», Curityba, de 14 de janeiro corrente a seguinte noticia:</p>
<p align="center">
<p style="padding-left:3em;padding-right:3em;"><span style="font-family:Georgia;font-size:1.5em;line-height: 1.2em;;">ATACADOS A TIROS, NA ESCURIDÃO DA NOITE</span> </p>
<p>
<p style="padding-left:3em;padding-right:3em;"><span style="font-family:Georgia;font-size:1.5em;line-height: 1.2em;;">Em Urubicy, uma caravana evangelica se viu inopinada e barbaramente aggredida.</span></p>
<blockquote><p>Costumam os pastores evangelicos, como os catholicos, percorrer, em missão religiosa, varias zonas do paiz. Em nosso Estado é frequente a excursão de taes sacerdotes, que se fazem acompanhar, não raro, de familias. A confiança com que realizam o seu trabalho, lhes advêm, sem duvida, do liberalismo de nossas leis, que lhes facultam esse direito, o de locomoção e propaganda.</p>
<p>Foi fiado nessa franquia que o rev. João E. Henck, ministro evangelico, residente em Curytiba, se dispoz, acompanhado de outros fieis ao mesmo credo, senhoras, e diversas crianças, a percorrer Santa Catharina.</p>
<p>De volta, agora, do interior, o referido ministro nos visitou, narrando-nos os factos que seguem, e que destoam, evidentemente, das nossas normas de hospitalidade e respeito à crença alheia, merecendo, assim o mais energico correctivo.</p>
<p>Em Urubicy, no valle do Canoas, a caravana dirigida pelo rev. Pastor Henck realizou o seu culto na praça local, não sem que fosse alvo da ameaça de batatas e ovos, a que fechou ouvidos.</p>
<p>Preparados para a viagem, deixou a caravana a localidade viajando as senhoras e crianças num caminhão e os homens numa carroça, a 200 metros daquelle vehiculo, rumando a Bom Retiro. A&#8217; saida da localidade, porém, cerca de meio kilometro, na «Avenida Adolpho Konder», seriam, então, 22 horas, os viajantes foram inopinadamente atacados a tiros sem poderem, na escuridão da noite identificar seus estupidos aggressores.</p>
<p>O carro foi attingido por cerca de 12 projetis, que nelle ficaram encravados. Uma das balas feriu gravemente o jovem missionario Alfredo Auras e levemente Sizimundo Andermann, arranhando uma outra a fronte duma senhorinha e attingindo outra a direcção do caminhão, não alcançando o chauffer por verdadeiro milagre.</p>
<p>Esses factos foram verificados terça-feira ultima, 8 do corrente. Chegado a esta capital, o rev. Henck levou-os ao conhecimento da Policia Civil, que prometteu tomar as necessarias providencias.</p>
<p>Accrescentou-nos o illustre pastor evangelista, cujas declarações aqui reproduzimos, que viajava em sua companhia o sr. A. Ben Oliver, cidadão norte-americano.</p>
<p>Estamos que o sr. dr. Secretario da Segurança já terá agido a respeito a esse brutal attentado, de sorte a se apurarem responsabilidades, punindo-se, como é de mistér, os barbaros aggressores.</p>
<p>O rev. Henck demorou-se ainda algum tempo em nossa redacção, fazendo elogiosas referências ao «Diário da Tarde», a que somos muito gratos.»</p></blockquote>
<p align="right"><small>Matéria de <em>O Jornal Batista</em> de 28 de janeiro de 1937</small></p>
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