Manuscritos estocados sob a rubrica 'Divino preconceito'
16 de Julho de 2008

A longa rixa da misericórdia com as ordens da criação

Divino preconceito, Homens e Mulheres

A misericórdia triunfa sobre o juízo.
Tiago 2:13

No princípio era o caos, até que Deus instaurou a ordem. O primeiro capítulo de Gênesis enfatiza à exaustão o caráter organizatório da iniciativa divina primordial. Deus, o primeiro enciclopedista, fixa os astros nas suas órbitas, fatia céu e terra, divide céus e mares, coloca luz e escuridão em comportamentos estanques, põe dia e noite em suas respectivas prateleiras, faz brotar cada planta rasteira, cada árvore, cada ave, cada peixe, cada animal rastejante, cada animal doméstico e cada animal selvagem “segundo as suas espécies”, distribui o ser humano entre homem e mulher, reparte a semana em sete dias, fende o dia em tarde e manhã, e coloca em cada um metódicos crachás escritos por ele mesmo.

A organização aparece na história como característica fundamental e inseparável do universo e do próprio Deus. A ordem das coisas na terra, demonstram as burocráticas enumerações de Gênesis, reflete o planejamento da mente divina no céu. Dito de outra forma, as coisas são precisamente como deveriam ser, e o nosso é o melhor dos mundos possíveis.

Ao longo dos séculos, na mente da esmagadora maioria dos cristãos, esse estado inicial da criação tem representado uma espécie de intocável Idade do Ouro. Segundo esse modo de ver as coisas, Gênesis 1 e 2 estabelecem o conjunto de circunstâncias que encapsula a essência do que o cristianismo deve defender. Aqui estão, afinal de contas, a soberania divina, a singularidade da humanidade em relação às demais criaturas, a instituição da família e do casamento, o direito de domínio do ser humano sobre a natureza. O mundo como Deus o criou em Gênesis estaria dessa forma demarcado por “ordens da criação”, categorias muito precisas e muito fixas que cabe aos puros de coração defender, porque violá-las é devolver o mundo ao desfigurante e degradante caos que precedeu a iniciativa ordenatória de Deus.

Não mexa no meu queijo.

Contra as mulheres, pela procriação

É o argumento das “ordens da criação” que, ainda hoje, impede que mulheres sejam ordenadas ao sacerdócio ou ao ministério em igrejas cristãs de todas as estirpes. Em 1969, por exemplo, o sínodo da igreja luterana do Missouri legislou que “diante das declarações da Escritura que a mulher não deve ensinar ou exercer autoridade sobre o homem, entendemos que mulheres não devem assumir cargos pastorais ou qualquer outra posição que viole de alguma forma a ordem da criação”.

Afinal de contas, deixa claro o Apóstolo, é coisa vergonhosa que uma esposa fale na igreja; a própria Lei afirma que as mulheres devem ser submissas; Adão precedeu a mulher na ordem cronológica da criação; o homem não foi criado para a mulher, mas a mulher para o homem; o marido é a cabeça da esposa; a mulher veio do homem, e não o homem da mulher; o homem não foi enganado, mas a mulher deixou-se enganar pela serpente. A conclusão é clara: na hierarquia ideal da criação, que não cabe ao ser humano querer violar, a mulher é inerentemente subordinada ao homem. Almejar uma posição de igualdade funcional é arrogância e rebelião; é lutar contra as ordens da criação, ou seja, contra a integridade da tessitura mais essencial do universo.

O relatório do mesmo sínodo faz os seguintes esclarecimentos adicionais: “A ordem da redenção não deve viciar o relacionamento apropriado entre mulheres e homens estabelecido na ordem da criação”. “A unicidade do homem e da mulher em Cristo não apaga a distinção estabelecida na criação”. “A subordinação da mulher ao homem na ordem da criação é uma relação funcional dada pelo criador, que escolheu estruturar a existência em determinadas linhas”. “O casamento e o estado pertencem às ordens da criação”. “Deus é o criador de certos relacionamentos básicos que impedem a vida e a sociedade de degenerarem em anarquia”. “Paulo não queria que as mulheres transtornassem a hierarquia de funções estabelecida na criação, especialmente logo após a queda”. “A subordinação da esposa ao marido é parte da ordem da criação”. “A convicção do apóstolo é que a igreja não deve minar, mas santificar as ordens da criação”. “Paulo está decidido a defender a instituição do matrimônio como pertencente às ordens da criação, em que a renovação não é alcançada por meio de desordem e ruptura, mas pela observância e pela santificação da prática de autoridade por parte do marido e de submissão por parte da esposa”.

Em outras palavras, a mulher pode não ser criatura de segunda classe, mas na ordem da criação ficou estabelecido que deve agir como se fosse. Mulheres e esposas devem abraçar esse destino de bom grado, da mesma forma que homens e maridos devem se conformarem à dura posição de primazia que a criação deixou-lhe nas mãos.

A questão do sacerdócio feminino é hoje relevante para uma diminuta fração da população, mas sua lógica subjacente é a mesma que manteve fechado, durante dois mil anos, o acesso da mulher a um status igualitário em termos jurídicos, financeiros, políticos e profissionais. A inferioridade da mulher é coisa que nem ao menos se discutia, por ser uma das verdades evidentes patenteadas na ordem da criação.

Assim, ao longo de dois mil anos de civilização cristã, as mulheres foram silenciadas e reprimidas, ao mesmo tempo em que eram acusadas (via Eva, de quem teriam herdado suas fraquezas) de serem culpadas por virtualmente todos os males que assolam a humanidade; foram perseguidas como bruxas, torturadas sem dó, separadas de suas famílias e queimadas publicamente; tiveram suas vidas legisladas, suas opiniões enterradas e direitos cerceados, mesmo nos nossos dias.

E contra esse estado de coisas não ocorria a ninguém dizer uma palavra, porque tacitamente todos concordavam que Deus “escolheu estruturar a existência em determinadas linhas”. A estratificação social do primeiro casal e suas relações internas de autoridade e subordinação haviam sido estabelecidas pelo Criador no princípio, e é assim que deveriam se manter. A alternativa era inimaginável.

“Quem está pedindo o voto para as mulheres?” quis saber Justin Fulton em 1869. “Os que amam a Deus e seguem a Cristo é que não são! A maior parte dos que reivindicam o voto para as mulheres repudiam a legislação do Céu e os prazeres domésticos, e deixam-se levar pela infidelidade e pela ruína”.

Contra os negros, pela escravidão

Aplacados pela lógica da “ordem da criação”, os cristãos conviveram pacificamente, ao longo de dezoito séculos, com toda forma de escravidão e preconceito de raça.

A supremacia dos brancos sobre todas as outras raças havia sido, afinal de contas, estabelecida diretamente por Deus. Os negros, em particular, eram tidos como descendentes de Cão, o filho amaldiçoado de Noé cujo filho Canaã fora condenado a ser “servo dos servos de seus irmãos”1.

Com essa desculpa, a divisão racial fendeu por séculos países como os Estados Unidos e a África do Sul, com a devida sanção de seus líderes cristãos. “A escravidão foi estabelecida por decreto do Deus Todo-Poderoso”, explicou Jefferson Davis, presidente da Confederação. “Ela é sancionada pela Bíblia em ambos os testamentos, de Gênesis a Apocalipse. Tem existido em todas as épocas, sendo encontrada entre os povos da mais alta civilização e nas nações de maior destaque nas artes”.

Como ainda se crê que as distinções fundamentais entre as raças foram estabelecidas por Deus na criação, em muitas áreas dos Estados Unidos o casamento entre pessoas de raças diferentes permanece sendo visto como inaceitável – verdadeira abominação. Um juiz da Virgínia observou em 1959: “O Deus Todo-Poderoso criou as raças branca, negra, amarela, malaia e vermelha e colocou-as em continentes separados. A não ser que se queira perturbar esse arranjo de coisas, não vejo motivo para esses casamentos [mistos]“.

Pela pátria, contra as outras nações

Na Alemanha de Hitler, nos anos que antecederam à Segunda Guerra, o conceito cristão de ordem da criação alimentou o nacionalismo doentio que acabou gerando o nacional-socialismo – nazismo – e seus excessos.

Para os teólogos do popularíssimo movimento “Cristãos Germânicos” o Volk, a nacionalidade, era visto como uma ordem particular de Deus para a humanidade. A pátria era a vocação espiritual por excelência e o Estado o mais direto desdobramento dessa ordem divina, pelo que rebelar-se contra a liderança de Hitler era rebelar-se contra Deus.

“Cada desvio da ordem divina”, admitiu Walter Künneth (que nem mesmo era simpatizante de Hitler), “ocasiona decadência e caos”, enquanto Emile Hirsch explicava que a nacionalidade é “um meio de revelação de Deus”. Gerhard May argumentava que a liberdade cristã é na verdade obediência às leis e demais determinações do Estado, e em favor de sua posição citava a postura do Novo Testamento sobre a escravidão.

A liberdade de opinião que exigiam os membros da Igreja Confessante, a liberdade de discordar da ordem divina manifesta no Estado, era “a satânica liberdade dos pecadores”, que nenhum cristão deveria querer reivindicar para si. Pois “a vontade divina expressa na lei é demonstrada pelas ordenanças claras e invioláveis que governam a vida das nações”2.

Dito de outra forma, para ser cristão é preciso ser patriota, e para ser patriota é preciso demonstrar apoio irrestrito às ações do governo3. Pois foi assim que Deus quis quando deitou nas formas do futuro as ordens imutáveis da criação.

Pela fraternidade, pela igualdade, pela graça

Ao longo da história os cristãos que ousaram discordar da supremacia da “ordem da criação” tiveram de lutar contra a corrente da interpretação estática das Escrituras. Afinal de contas, o próprio Novo Testamento não oferece uma palavra de condenação à escravidão; ao contrário, em muitas passagens parece sancioná-la sem encontrar na questão qualquer dilema moral. Era muito difícil para os abolicionistas justificar biblicamente sua posição, enquanto que os escravagistas tinham (e ainda tem) dúzias de versículos para acenar em seu favor. Dispor-se a lutar pela abolição era, em grande medida, dispor-se a lutar contra Deus e contra a Bíblia.

Da mesma forma, os que advogavam pelos direitos das mulheres tinham de procurar uma agulha no enorme palheiro patriarcal e sexista que é o texto bíblico. Para cada momento em que Jesus é amigo das mulheres há dez em que Paulo nos lembra de que Eva é quem foi enganada pela serpente.

O milagre está em que muito lentamente, um imperceptível passo de cada vez, as vozes da misericórdia e da sanidade (que são uma só) acabam sendo ouvidas, mesmo quando os ouvidos são cristãos.

Os anabatistas foram os primeiros a criticar escravidão, logo seguidos pelos quacres e os menonitas, mas foi John Wesley (fundador da Igreja Metodista) quem deu verdadeira forma e credibilidade pública à posição abolicionista.

Influenciado por Barth, Dietrich Bonhoeffer passou questionar diante dos teólogos nazistas toda a validade da sua argumentação. Para Bonhoeffer o argumento das ordens da criação é falho porque pode ser usado para justificar virtualmente qualquer estado de coisas, por mais injusto ou arbitrário que seja. Para ele, as ordens do mundo derivam seu valor não de si mesmas, mas de Cristo, que é a nova criação e portanto a nova referência para todas as coisas. “Qualquer ordem”, enfatiza ele, “pode ser dissolvida e deve ser dissolvida quando deixa de permitir a proclamação da revelação”.

Em todos os casos os proponentes da graça, quando dispuseram-se a combater o preconceito, o racismo, o sexismo, o totalitarismo, a escravidão e o abismo entre as classes tiveram de abraçar a Bíblia sem abraçar-lhe a letra. Não começaram, porque não é possível, negando o sexismo dos patriarcas e discípulos ou a sanção bíblica da escravidão. Como os profetas antes deles, tiveram de apontar para um sentido mais profundo e mais abrangente da mensagem bíblica, uma mensagem transversal fundamentada não na forma dos mandamentos mas no exemplo de Jesus – e na pressuposição de que não há exemplo mais cristão a ser seguido.

Porque em Jesus, se você acredita nele, fica tudo de repente muito claro. Em Jesus, Deus, e portanto a criação, toma partido dos desamparados e dos marginalizados.

No tempo de Jesus todos sabiam que, na ordem dura da criação, os doentes eram pecadores que Deus estava punindo, as mulheres eram seres impuros que não podiam candidatar-se ao discipulado e os pobres eram desamparados por Deus que não tinham recursos para cumprir as minuciosas exigências da lei. E Jesus, contra mundum, beija cuidadosamente cada um e acolhe-os no abraço da graça.

Num único e coerente gesto de vida ele transtorna a ordem estabelecida, coloca as coisas em lugares inesperados e explica que age em nome de Deus. O Filho do Homem deixa que seus amigos colham espigas no sábado, e ele mesmo efetua curas nesse dia de descanso, não apenas porque a criação não está pronta (”meu pai ainda está trabalhando”), mas porque – e eis a grande e desconcertante revelação – “a ordem da criação foi feita para o homem, e não o homem para o ordem da criação”.

O que há em Jesus, é essencialmente, uma crítica pungente a toda espécie de dominação, mesmo a que é feita em nome de Deus. Sua postura é, portanto, uma ameaça a todo conforto e a todo estado de coisas. Agora ele está pendurado na cruz, mas com o tempo sua mensagem alcançará e redimirá a condição de todos os pequenos deste mundo. Agora fecham-no no túmulo, mas graças a ele haverá no futuro um momento em que escravos, pobres, mulheres, crianças e gente de todas as raças não terão mais de se envergonhar da sua condição.

Contra os gays, contra o planeta

Agora que você não pode mais contar piadas que ridicularizem os negros, agora que sua chefe ganha mais do que você, os preconceitos embasados no conceito das ordens da criação escolheram novos alvos.

São alvos mais fragéis e inesperados, e portanto mais adequados à predação neste momento da história. Hoje em dia, quando acenam com o argumento das ordens da criação, os cristãos estarão fatalmente [1] condenando a conduta homossexual ou [2] asseverando o seu direito de explorar os recursos do planeta.

O alvo mais fácil são, naturalmente, os homossexuais. Quando o relato de Gênesis deixa claro que Deus criou a mulher para o homem, o que pode haver de mais contrário à disposição inicial das coisas do que a união sexual entre pessoas do mesmo sexo? Se Jesus disse do divórcio que “no princípio não era assim”, o que teria dito do casamento entre homossexuais?

Isso porque todos os argumentos bíblicos apontados contra a homossexualidade resolvem-se em nada quando comparados a este, que é na verdade o único: na ordem original das coisas não era assim.

Um documento que circula na porção cristã da internet deixa clara a argumentação subjacente: “a pressão para que a igreja aprove a união entre homossexuais representa um ataque direto aos valores do casamento e da família, pois a união entre pessoas do mesmo sexo nega as ordens da criação, a complementaridade entre homem e mulher estabelecida por Deus e o mandamento valorizador de vida que afirma ‘fruticai-vos e multiplicai’”. A homossexualidade, portanto, é em sua essência uma afronta aos pilares divinamente estabelecidos em Gênesis: as ordens da criação.

Numa instância paralela, as ordens da criação são mencionadas pelos protestantes norte-americanos como credencial para explorarem até o sumo os recursos naturais da terra. Quem irá levantar-se para denunciar os abusos do homem contra a natureza, quando Gênesis assegura que Deus lhe conferiu pleno domínio sobre a terra? Como condenar os desmatamentos, a extinção escandalosa das espécies e o aquecimento global, quando a narrativa da criação esclarece que o homem foi criado para colocar o planeta sob sujeição?

Pelo que lêem em Gênesis, Deus não apenas deu ao homem carta branca para violentar a terra; deu-lhe essa missão.

Contra o medo

Como intuiu Bonhoeffer, o argumento das ordens da criação permanece sendo usado a fim de manter o estado confortável de coisas para os que se sentem confortáveis com o modo como as coisas estão.

A proliferação de união homossexuais é vista como uma ameaça formidável à instituição da família – e a família é a ordem da criação por excelência, a unidade essencial que mantém no lugar os fundamentos do cosmos. Violar essa ordem primordial das coisas é tido como a forma mais abominável de rebelião; não apenas contra Deus (como se não bastasse), mas contra o próprio universo.

Do mesmo modo, alimentar uma consciência ecológica é, em última instância, voltar-se contra a ordem divina revelada em Gênesis 1. Nosso dever como seres humanos não é preservar o planeta, mas mostrar a ele quem manda; Deus, afinal de contas, está quase pronto para dar-nos um novo e inteiramente remodelado.

E o fundamento para todos esses raciocínios, é preciso enfatizar, é um só: o Criador não quer que seja de outra forma, do contrário teria feito diferente desde o começo. Os verdadeiros crentes desejarão conformar-se à vontade divina, pelo que não ousarão inverter a ordem das coisas.

A solução para o dilema, quero crer, está em determinar até que ponto Deus deixou de ser Criador, ou em que momento a criação foi de fato concluída. A Bíblia, é claro, oferece curiosas evidências para sugerir que a obra da criação permanece em aberto. Deus é, até a última página, aquele que “faz novas todas as coisas”. O Filho do Homem e seus seguidores são em especial descritos como “novas criaturas”, isto é, protagonistas de uma nova e totalmente inusitada criação – porque, observa Jesus, um tanto blasfemamente, “meu Pai continua trabalhando”.

Como propõe Edward H. Schroeder em sua análise sobre a questão da ordenação feminina: se Deus permanece sendo o Deus Criador, como não concluir que as mudanças sociais ocorridas no tempo que nos separa de Paulo, mudanças que acabaram possibilitando o status igualitário da mulher, são obra do mesmo Criador? Como não concluir que foram mudanças sopradas na humanidade pelo exemplo singular e subversivo de Cristo? A obra do evangelho não estará derramando sobre o mundo seus inesperados desdobramentos?

“A consequência clara do evangelho,” observa Schroeder, “é que as ordens da criação são impermanentes. Com o tempo acabarão passando, juntamente com ‘o céu e a terra’”. A igreja não deve temer essa impermanência, porque “a própria igreja veio à existência através de um ato de violação”. A ordem fundamental da criação, pela qual o pecador deve ser invariavelmente punido com a morte, foi espetacularmente contornada pelo esvaziamento de Deus, e dessa formidável violação nasceu uma formidável possibilidade de vida. É por isso que em seu cerne a mensagem do evangelho é um escândalo – uma violação extrema da lógica e da ordem inerentes ao universo.

“A preocupação da igreja”, conclui Schroeder, “deve ser evitar que o próprio evangelho seja violado; fora isso, ela deve deixar que o evangelho promova suas próprias violações, credenciado pela autoridade do próprio Cristo”.

Jacques Ellul, refletindo sobre essas coisas, concluiu que toda a lei e toda a justiça devem estar embasadas em Cristo. O mundo e a condição humana, propõe ele, encontram-se numa situação inteiramente nova diante da revelação e da obra redentora de Deus em Cristo. O que era considerado lei natural deve perder de agora em diante o seu caráter normativo, sendo relativizado pela desconcertante reviravolta da justificação.

Ou, na reflexão de James Alison, nossa visão de Deus como Criador deve deixar de ser a de alguém que fez algo no passado para a de alguém que está fazendo algo nos nossos dias por meio de Jesus – Jesus que estava com o Pai desde o princípio, fazendo todas as coisas.

A escandalosa verdade é que a liga que sustenta o universo não é a família ou o casamento, mas a misericórdia, soprada por Deus e manifesta pelos homens. De um modo transversal o próprio Jesus demonstrou esse princípio quando explicou que “no princípio não era assim, mas o divórcio foi instituído por causa da dureza do coração de vocês”. Em outras palavras, ele está revelando que o divórcio foi instituído, incrivelmente, por uma vitória da misericórdia contra a ordem da criação. Está longe de ser uma solução ideal e não estava prevista na ordem original das coisas, mas é uma resposta da graça diante da irreversível complexidade da condição humana.

Nos dois mil anos que nos separam da cruz a condição humana imergiu em muitas camadas adicionais de complexidade. Porém a misericórdia tem continuando a violar, de forma sistemática e sempre escandalosa, as ordens da criação. Quando a sua obra estará concluída? Talvez no momento em que cumprir-se por completo a profecia de Paulo, e em Cristo não houver mais judeu e grego, civilizado e bárbaro, escravo e livre, homem e mulher.

Ou, para citar João, no momento em que o amor lançar fora todo o medo.

Pois o apego irresistível às ordens da criação é, essencialmente, o apego dos seres humanos (especialmente os do sexo masculino) às formas de dominação, como alternativa ao medo e ao sentimento de inadequação. Porque é sabido que os homens, que escreveram até recentemente toda a história, sentem que devem provar continuamente o seu valor, que pensam ser a mesma coisa que sua masculinidade. Se lutavam para manter o estado de coisas por meio de sexismo, do racismo e do nacionalismo é por que temiam instintivamente a competição das mulheres, dos homens de outras raças e dos povos de outras nações. É pelo mesmo motivo que recusam-se a trocar o seu Hummer, que epitomiza tão adequadamente a sua masculinidade, por uma scooter ou um carro mais econômico. E, porque não querem ver a sua própria masculinidade de alguma forma colocada em cheque, lutam por um mundo em que não precisem testemunhar o beijo apaixonado de dois barbados ou (talvez pior) de duas mulheres. As ordens da criação acenam com um mundo seguro, em que todas as coisas tem o seu lugar, e é apavorante imaginar que possa ser diferente.

Enquanto isso o Filho do Homem, que morreu virilmente na cruz e procura nos atrair incessantemente para a mesma posição, divulga sem pausa o escândalo e a boa nova de que não há absolutamente o que temer.

NOTAS
  1. Gênesis 9:22-25 []
  2. De forma semelhante, Lutero sentia-se à vontade para imprecar contra os judeus e Hitler para exterminá-los, afirmando-se cristãos os dois []
  3. Os Estados Unidos, um tanto paradoxalmente, abraçam crenças semelhantes através do conceito de Destino Manifesto []
09 de Dezembro de 2007

A anulação da bondade

Divino preconceito, Goiabas Roubadas

Quero examinar uma frase bem estranha da carta de Paulo aos Gálatas. Ela está em Gálatas 3:10:

“Todos quantos, pois, são das obras da lei estão debaixo de maldição; porque está escrito: ‘Maldito todo aquele que não permanece em todas as coisas escritas no livro da lei, para praticá-las’”.

Aparentemente alguns mestres judeus cristãos vinham dizendo aos cristãos da Galácia que agora que haviam se batizado e tinham conhecido o Deus de Israel, deveriam também guardar a Lei de Moisés, visto que os que não a observam serão amaldiçoados, como está dito em Deuteronômio (a porção da Lei que esses mestres provavelmente recitavam aos seus ouvintes era Deuteronômio 27:26). Paulo, por outro lado, está argumentando contra essa insistência de que os recém-batizados gálatas sejam circuncidados, formalmente arrolados no povo de Israel e obrigados a obedecer a Lei de Moisés. Sua posição é que os que são da Lei (isto é, os que se amparam na Lei) é que estão debaixo de uma maldição.

O verdadeiro perigo da vida moral vem dos sistemas de bondade.

O curioso é que, à primeira vista, o texto citado por Paulo parece ser exatamente o oposto do que seria útil na sua argumentação, já que sua versão da passagem de Deutoronômio diz muito claramente: “Maldito todo aquele que não permanece em todas as coisas escritas no Livro da lei, para praticá-las”.

A implicação é que todos que de fato guardarem e obedecerem todas as coisas escritas nos livros da lei serão abençoados, e que apenas os que deixarem de guardar e obedecer serão amaldiçoados. Paulo já contou como ele mesmo costumava ser obsessivamente obediente à Lei, pelo que ele não deixa dúvidas de que é possível observar e obedecer tudo que está escrito nos livros da lei. Por que então ele usa um verso no qual a Lei formalmente amaldiçoa os que não a obedecem para embasar sua alegação de que os que são da lei é que estão sob uma maldição? Não parece ser um argumento consistente.

Paulo não está citando este texto, da forma que normalmente imaginamos que esteja, como corroboração, como um modo de dizer: “está vendo? Este texto concorda comigo”. Ele o cita, ao contrário, como evidência interna de uma estrutura antropológica. Ele cita esse verso para mostrar que porque amaldiçoa os que não obedecem a lei, o próprio texto da lei demonstra ser parte de um sistema de bondade que faz distinção entre bom e mau, e que portanto os que o sustentam, e são aparentemente abençoados por ele, estão de fato habitando na esfera da maldição. Em outras palavras, ele está citando as palavras como quem se afasta delas e diz: “observe o que essa frase revela sobre o tipo de sistema do qual ela é parte integral”.

Esse, ouso dizer, é um argumento sutil, porém quando começamos a apreendê-lo ele torna maravilhosamente claro o que Paulo segue dizendo a respeito de como Jesus tornou-se por nós uma maldição, e de como é através disso que o Espírito Santo flue sobre nós. Paulo está na verdade demonstrando sinais de uma assombrosa inteligência estrutural. Se a lei amaldiçoa alguém, ela cria necessariamente um mundo de bom e mau, e isso implica que o “bom” nesse sistema é fatalmente dependente do “mau”. Se eu dependo, para minha bondade, de sustentar e obedecer tudo que há no sistema, isso quer dizer que minha bondade “vai de encontro” à maldade de alguém, e assim, sendo dependente dela, é parte dela.

Significa, além disso, que enquanto eu estiver contemplando o sistema de bondande jamais serei capaz de obedecer ao mandamento que, todos concordam, resume integralmente a lei: “amarás ao teu próximo como a ti mesmo” (Gálatas 5:14) – porque a lei como sistema de bondade me impedirá de reconhecer o próximo que é como eu mesmo e precisa portanto de amor, porque irá com freqüência ocultar esse próximo sob o véu do “outro amaldiçoado”. Em outras palavras, o efeito vivenciado de um sistema de bondade é, na prática, a anulação da bondade na direção da qual aponta o mandamento.

A bondade se torna questão do grau de zelo com que se perseguem os de fora.

Temos então a clássica percepção paulina de que nenhum sistema de bondade, precisamente por estabelecer um mundo de bom e mau, benção e maldição, pode vir de Deus, visto que Deus é apenas benção, apenas promessa, e que o verdadeiro perigo da vida moral em qualquer sociedade não vem, em primeiro lugar, dos que são “maus”, já que esses são num certo sentido óbvios demais para serem motivo de preocupação, mas dos sistemas de bondade, que, por dependerem do “outro perverso”, são terrivelmente perigosos. São perigosos num sentido evidente para os que são seus “bandidos” necessários, já que a bondade se torna questão do grau de zelo com que se persegue essa gente, como o próprio Paulo havia feito. Porém os sistemas de bondade, num sentido menos óbvio, são especialmente perigosos para os “mocinhos”, já que é pouco provável que os “mocinhos” percebam que, longe de adorarem a Deus, de se tornarem dependentes de Deus e de buscarem sua identidade em Deus, que não “vai de encontro” a coisa alguma, estão na verdade tendo sua identidade determinada por esse violento “ir de encontro” pelo qual se constróem como indivíduos. Em outras palavras, são os mais propensos a se tornarem niilistas violentos, pensando em si mesmos como servos de Deus.

James Alison, Collapsing the closet in the house of God

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Leia também:
O problema com a virtude

25 de Agosto de 2007

Impunemente

Divino preconceito

Estou cansado de ouvir gente dizendo que não reconhece a legitimidade do Deus do Antigo Testamento por considerá-lo divindade patriarcal, irascível, xenófoba e vingativa; esse Deus sanguinário, garantem-me, não tem como ter algo em comum com o Deus de Jesus, que é bondoso, compassivo e gente boa – numa palavra, é amor. Acham fácil amar Jesus, mas consideram difícil não escantear Iavé na sua qualidade de mesquinho deus tribal.

Não direi, porque seria muito fácil, que pensar assim é ignorar o testemunho mais pertinente, já que pelo que sabemos o próprio Jesus apenas asseverou a sua relação de continuidade com a postura, os porta-vozes e as palavras do Deus do Antigo Testamento.

Eu, de minha parte, estou muito mais inclinado a colocar em dúvida a inspiração daqueles que, afirmando-se seguidores do dócil Jesus e de seu amoroso Pai, fizeram apenas patrocinar ódio, preconceito, exclusão e derramamento de sangue ao longo da história do cristianismo.

E como não? Ousamos questionar o caráter de Davi, que não sentiu nos ouvidos o terrível afago das bem-aventuranças, mas respeitamos como se fossem Escritura as tradições de promotores do ódio, ensinando-os em seminários que reivindicam para si a chancela do bom Jesus.

Gente como Justino Mártir (100-165), que afirmava que Deus havia dado a circuncisão aos judeus como sinal eterno de exclusão, “para que vocês sejam separados de todas as nações e de nós [cristãos], sofrendo tudo o que merecidamente sofrem”; gente como Eusébio de Cesaréia (275-339) e João Crisóstomo (349-407), que justificavam a inclemente perseguição aos judeus porque criam que nela Deus estave se vingando da morte do seu filho; gente como os autores do Manual dos Inquisidores (1376) e do Martelo das Feiticeiras (1487), provedores do combustível que alimentava os fogos da Inquisição; gente como Martinho Lutero (1483-1546), que queria ver queimadas todas as sinagogas e bradava pelo sangue derramado de milhões de judeus; gente como os batistas norte-americanos que vestiam cheios de entusiasmo o capuz da Ku Klux Klan e justificavam a escravidão com uma interpretação rasteira de Gênesis 9; gente como os perpetradores ideológicos da Noite de São Bartolomeu e da troca de massacres entre protestantes e católicos na Irlanda; gente como os membros da Igreja Batista de Westboro, que cantam alegremente, hoje mesmo no YouTube mais próximo de você, o quanto Deus odeia o mundo; gente como eu, que sou um canalha, um ladrão e um mentiroso, que não amo a ninguém como convém, que com a boca sirvo a Jesus, com o coração sirvo a mim mesmo e com as duas mãos e os dois pés impulsiono a locomotiva de exclusão social e devastação ambiental que é o capitalismo.

Fico com Davi, Saul e o massacre dos amalequitas, mas quero alçar a coragem de desafiar a autoridade de quem, não amando, demonstra não ter qualquer relação com o Deus de amor; quem, afirmando conhecer Jesus e ser credenciado pela sua autoridade, pisoteia o seu espírito e sua reputação.

Antes de apontarmos o cisco no olho de Deus, deveríamos atentar para a tábua que está no nosso. A história da Igreja, traçada impunemente em nome de Jesus, é mais sangrenta do que a de Iavé jamais foi.

15 de Agosto de 2007

Católicos não precisam se candidatar

Divino preconceito, História

“Católicos não precisam se candidatar”, diziam as placas de inúmeras agências de empregos na Nova Inglaterra e em outros lugares [dos Estados Unidos] durante o século XIX e começo do XX. Classificados de jornal anunciando vagas para trabalhadores ostentavam a mesma advertência.

O preconceito por trás dessa forma de discriminação foi direcionado em primeiro lugar contra os cinco milhões de irlandeses que entraram nos Estados Unidos entre 1820 e 1920. Os irlandeses, ao contrário dos ingleses e alemães que os precederam, haviam se tornado estrangeiros em sua própria terra depois de perderem a Batalha do Boyne, em 1690, para as forças protestantes lideradas por William III. Em 1691 o parlamento inglês passou uma decreto excluindo do parlamento irlandês todos os católicos, para que a assembléia se tornasse exclusivamente protestante. Esse novo parlamento tornou ilegais escolas e universidades católicas, e sacerdotes católicos tornaram-se sujeitos a deportação. Nenhum católico podia ter armas de fogo, ou possuir um cavalo que valesse mais do que cinco libras. Mulheres prostestantes que se casavam com católicos sofriam a perda dos seus bens; terras católicas foram consfiscadas até que não houvesse mais o que confiscar. Crimes contra católicos eram raramente punidos nos tribunais irlandeses. Os ingleses proibiram a exportação de lã, lançando a população na mais abjeta pobreza, acentuada por taxas severas de tributação. A partir de 1696 “a fome, a mendicância e a ilegalidade reinavam na ilha”.

Antes da revolução americana os irlandeses raramente procuravam vir para os Estados Unidos, porque a América do Norte era dominada pelos ingleses. O número de irlandeses que vieram para os Estados Unidos foi pequeno até a Fome da Batata, entre 1845 e 1850. A América protestante do século XIX, no entanto, não via favoravelmente a entrada de qualquer imigrante católico. O sentimento geral era representado em anúncios que diziam “PRECISA-SE – Cozinheiro ou Camareira. Devem ser americanos, escoceses, suíços ou africanos - não irlandeses”.

Como a discriminação econômica era comum, trabalhadores irlandeses no canal Erie, nas estradas de ferro ou nas fábricas recebiam salários menores do que norte-americanos nativos. Era possível explorar os imigrantes dessa maneira porque no final do século XIX e começo do XX havia uma enorme oferta de mão-de-obra imigrante, gente disposta a trabalhar por qualquer salário. Sindicatos e representações de classe eram impotentes, ou ainda não existiam.

Diante desse cenário os irlandeses abraçaram entusiasticamente a política local, na esperança de aliviarem a sua condição adquirindo maior controle sobre suas vidas e seu futuro. Essa atividade política, no entanto, despertou os temores da maioria protestante, de forma que entre 1830 e 1850 organizaram-se dois partidos anti-católicos e anti-irlandeses nos Estados Unidos: o partido Sabe-Nada [Know-Nothing] e o Partido Nativo Americano. Ambos fomentavam a crença de que a igreja católica ameaçava o protestantismo e as instituições democráticas dos Estados Unidos. Ambos publicavam livros e panfletos anti-católicos e faziam passeatas contra o Papa. Ambos lutavam por leis que mantivessem estrangeiros fora dos cargos públicos, estendessem o período necessário para se obter a naturalização e manter a Bíblia protestante nas escolas.

Violências públicas contra irlandeses aconteciam com freqüência nas ruas das grandes cidades americanas. Em Boston, em 1834, uma turba tentou impedir os irlandeses de votar, gerando tumulto em larga escala quando os irlandeses revidaram. No mesmo ano uma multidão incendiou um convento católico em Charleston, Massachussetts, na margem do rio diante da cidade de Boston. Nem a polícia nem o corpo de bombeiros fizeram qualquer coisa para conter a multidão. Os autores do crime foram mais tarde acusados na justiça, mas o júri julgou-os inocentes. A cidade não fez qualquer restituição.

Em 1844 levantou-se um tumulto numa convenção do Partido Nativo Americano. Militantes irlandeses tentaram dispersar uma reunião do partido, e em represália uma multidão incendiou oitenta e uma casas de irlandeses, bem como diversas igrejas católicas. Um posto de bombeiros exclusivamente irlandês e uma biblioteca irlandesa foram também incendiados. Quarenta pessoas morreram e sessenta ficaram feridas. Dois meses depois, num tumulto em Filadélfia, uma multidão atacou uma igreja católica, incendiou-a por completo e em seguida enfrentou uma milícia enviada para conter o tumulto.

Na década de 1840 o uso da Bíblia protestante nas escolas públicas de Filadélfia tornou-se motivo de atrito entre protestantes e católicos daquela cidade. Os protestantes ficaram indignados quando o bispo católico convenceu o conselho de educação a utilizar a Bíblia católica ao lado da protestante. Militantes nas ruas passaram a advertir contra a “mão sanguinária do Papa, estendida para nossa destruição”, incitando uma multidão a incendiar inúmeras casas, igrejas e outros estabelecimentos católicos, causando a morte de 14 pessoas.

Stigma - How We Treat Outsiders, Gerhard Falk

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Em 1995 John Swayer, católico norte-americano, foi a uma livraria evangélica e pediu uma Bíblia católica.

– Isso aqui é uma livraria cristã - replicou a balconista. - Não temos Bíblias católicas aqui.

Dez anos depois sua indignação voltou à tona quando Sawyer descobriu um orfanato evangélico que recebia recursos do governo mas se recusava a aceitar pais católicos como candidatos à adoção, “por entrar em conflito com a declaração de fé da nossa instituição”.

Catholics Need Not Apply, John Sawyer

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  • 08 de Maio de 2007

    Simplesmente uma nova vida

    Divino preconceito, História

    Se alguém afirmar que depois do recebimento da graça da justificação a culpa é de tal forma expiada e o débito da punição eterna de tal forma perdoado em favor de cada pecador arrependido que não resta qualquer débito de punição temporal para ser ressarcido, quer neste mundo quer no Purgatório, antes que sejam abertos os portões do Céu, que seja anátema.

    Cânone XXX, Sessão VI
    Concílio de Trento, 13 de janeiro de 1547

    Se alguém afirmar que Deus sempre perdoa o castigo por completo em conjunto com a culpa, e que o ressarcimento oferecido pelos penitentes nada mais é do que a fé pelas quais eles entendem que Cristo efetua ressarcimento em favor deles, que seja anátema.

    Se alguém afirmar que o ressarcimento dos pecados, no que diz respeito ao seu castigo temporal, não é de modo algum efetuado a Deus pelos méritos de Cristo pelas punições infligidas sobre ele e pacientemente suportadas, ou por aquelas impostas pelo sacerdote, ou até mesmo por aquelas assumidas voluntariamente, como através de jejuns, orações, esmolas ou outras obras de piedade, e que portanto a melhor penitência é simplesmente uma nova vida, que seja anátema.

    Se alguém afirmar que os ressarcimentos pelos quais os penitentes oferecem reparação pelos seus pecados através de Cristo não são adoração a Deus mas tradições de homens, que obscurecem a doutrina da graça e a verdadeira adoração de Deus e a própria beneficência da morte de Cristo, que seja anátema.

    Itens 12, 13 e 14 dos Cânones referentes à penitência.
    Sessão XIV do Concílio de Trento, 25 de novembro de 1551