O mercado que nos protege

O governo que não deve ser nomeado deflagrou uma semana de rigoroso Choque e pavor – a tática militar de ocupar dando demonstrações múltiplas e espetaculares de força, de modo a desestimular qualquer resistência.

Numa semana, o governo que até segunda ordem é interino divulgou estar pronto para:

Isso só para citar as medidas mais desconcertantes, e sem pausar para examinar a ficha de antecedentes dos ministros apontados, do novo líder do governo e do próprio presidente em exorcismo.

Embora espero que seja poupado desse constrangimento, você vai encontrar brasileiros satisfeitos com esse pacote de propostas. O motivo da satisfação? Continue lendo →

Três pontos

Mas o que acho que pode ser dito, entretanto, é que, sendo chamado de golpe ou não, o que está em curso é um abuso da justiça; o uso seletivo e parcial da justiça e das leis para obter seus próprios fins. E a justiça pela metade, longe de ser meio caminho andado, é uma injustiça por inteiro [?] Do mesmo modo, Henrique Alves, por exemplo, parece ter a convicção de que o que se pune no Brasil de hoje não é ser corrupto, mas estar ao lado do PT (e desmente, de uma tacada, a ideia de que foro privilegiado, por sua vez, possa ser algo que torne o detentor particularmente imune à condenação). Falando da Justiça como didática: Continue lendo →

Sobre o manejo eficaz da culpa econômica

Finalmente conseguimos: o Brasil é um exemplo para o mundo.

Não faz ainda três anos, um consórcio internacional de amigos meus decidiu, com a minha conivência, que o Brasil estava no topo da lista dos lugares do mundo em que era menos provável que o fascismo levantasse a sua cara.

Ah, se estávamos errados. Fascismo, só para tirar a sua dúvida, é quando mães são agredidas porque seus bebês estão usando roupas da cor errada. Não deve haver dúvida: quando parte que seja da população acredita poder determinar quem tem razão através de um código de cores, o tecido social está já bem rompidinho.

Outra indicação da vitória do Continue lendo →

A sorte de justiça que fomos quase capazes de prover ao mundo

«Um dia», me disse o Giovanni num bar da Itália, «a música popular brasileira vai salvar o mundo.»

Era a minha primeira vez fora do Brasil e eu estava numa papelariazinha de Florença comprando um caderno decorado. O italiano que me atendia entregou o troco e aproveitou aquele último momento para arriscar:

– Ma lei è brasiliano?

Quando respondi que sim, testemunhei pela primeira vez A Transformação. O cara, que tinha se mostrado até ali cordial mas muito na dele, se encheu de uma alegria ao mesmo tempo solene e indisfarçável, o tipo de alegria que se abre no coração quando você recebe a notícia de que vai ter um filho, ou quando você esbarra no seu artista favorito e ele se mostra um cara muito gente boa e te dá um Continue lendo →

A manhã em que ninguém é mais justo que ninguém

Se você for dar a cada um o que merece, quem escapará do açoite?
Hamlet, Ato 2, Cena 2

As regionais de São Paulo e do Rio de Janeiro da Ordem dos Advogados do Brasil se pronunciaram entre ontem e hoje sobre os grampos vazados por Sérgio Moro. Em sua nota a OAB do Rio de Janeiro se mostra estarrecida com o fato das gravações terem sido feitas e divulgadas. Em sua nota a OAB de São Paulo se mostra estarrecida com a opinião de Lula sobre a justiça no Brasil, registrada nas gravações. A fenda entre essas posições recorta o país.

Até onde você quer ir com a justiça? – é a pergunta que Sócrates faz continuamente a Continue lendo →

A justiça no Brasil

O que é preciso temer é o número de delações que a justiça não premia

Isso porque para entender a relação do Brasil e dos brasileiros com a justiça é conveniente começar deste ponto: não somos norte-americanos.

Para o juiz Sérgio Moro, se for para comparar o Brasil com alguém, que seja com a Itália.

A partir da semelhança de temperamento institucional e de uma compartilhada tolerância para com a corrupção, Moro está convicto de que o sucesso da operação Mani Pulite/Mãos Limpas, que varreu camadas ancestrais de corrupção na Itália, pode ser replicado no Brasil na operação Lava Jato.

E como discordar da lógica dele? Quando descreve o que acredita serem as causas estruturais da corrupção na Continue lendo →

Batman, Sócrates e Jesus:
buscai primeiro a sua justiça

Nunca deixe Sócrates perguntar ao Batman o que é justo

Um dos motivos pelos quais sou 100% impermeável ao apelo dos quadrinhos e filmes de super-herói é que a obsessão norte-americana com a justiça não faz qualquer sentido para um sujeito nas minhas latitudes. As narrativas de super-herói são ensaios e variações na sondagem dos extremos da aplicação da justiça, e o sertanejo/letão/italiano dentro de mim não consegue conceber exercício mais almofadinha e mais maçante.

Os uniformes e narrativas de origem mudam, mas o arcabouço é o mesmo: o super-herói é compelido a agir porque tem despertado o seu senso de justiça, e este é despertado quando ele entende que a justiça tradicional Continue lendo →

A queda da casa do mundo

– Tem uma página na internet, esqueci o endereço – me disse o Zé Márcio – que mostra um mapa-múndi e uma linha do tempo. Você arrasta para a direita o triângulo que representa um ponto remoto na linha do tempo, e faz com que as fronteiras nacionais mostradas no mapa se ajustem à medida em que as datas destacadas se aproximam da nossa. Você vê o contorno do Império Romano, e no instante seguinte o sul da Europa e o norte da África pertencem já aos muçulmanos. Aqui a Índia e a África pertencem aos portugueses, no momento seguinte a América do Norte aos espanhóis. Agora a Itália ainda não existe, agora a Alemanha engole Continue lendo →

A medicalização do desvio da norma

Dentro do manicômio a cura da loucura continuava sendo vista como levar os pacientes a aceitar a moral, os valores e as prioridades da sociedade burguesa. O foco permanecia sendo ensinar os pacientes a aceitar a obediência, a produtividade e o valor da propriedade. A sanidade vinha com o aprendizado de julgar as coisas do mesmo modo que o restante das pessoas, e em adquirir os hábitos do restante das pessoas.

Essa trajetória se alongou até o século 20, quando grandes descobertas no campo de medicamentos psicotrópicos aumentou a conformidade dos grupos dissidentes sem limitar muito a funcionalidade dos membros desses grupos. Os loucos Continue lendo →


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