Fortissimo
Família, The Net
É Páolo, e não Paôlo.
Tive de atravessar monti e mari para descobrir o verdadeiro nome do meu irmão meio toscano meio lombardo. Foi só no meu terceiro ou quarto dia na Toscana (chamávamos um ao outro de “mano”) que descobri que na Itália o nome Paolo não se pronuncia Paôlo, como dizemos comumente aqui, mas semplicemente Páolo, que em tudo soa como o nosso Paulo (da mesma forma, “Paola” pronuncia-se italianamente Páola, não Paôla).
Essa descoberta de um nome secreto que é um reflexo ignorado de meu próprio (il nome mio nessun saprà, já profetizava Nessun Dorma) é emblema suficiente da minha sacrossanta peregrinação ao Velho Mundo na figura da Itália.
Sobre a viagem em si nada tenho a dizer que possa ser expresso em palavras. Terá de bastar dizer que estive em lugares em que “milenar” não é uma metáfora; que beijei com os lábios e pés descalços as ruas de Dante, as logge de Florença e as pontes da Toscana; que meus olhos pousaram nus sobre o vivo pé esquerdo de David, sobre os vertiginosos prigioni de Michelangelo e sobre as expressões surrealmente contemporâneas de Masaccio; que maravilhei com a Pisa pré-cristã, pisei descalço o monumento aos pracinhas brasileiros em Pistóia e chorei na igreja onde foi sepultada Beatriz.
Não será inacurado dizer que não retornei dessa viagem à Itália. Fui irremediavelmente transformado pelo peso da história, pela variedade da criação, pela generosidade das pessoas. Não sou mais quem era, e portanto nada mais será como era. Il colpo è fatto.
Minha gratidão a Hélio Rotth Cantos, o Caronte às avessas que transportou-me do Inferno à Mansão dos Vivos, e a Paolo, o Virgílio que mostrou-me nela as réstias muito claras do Paraíso. Lasciate ogni speranza, vós que amigos não tendes.









