Manuscritos estocados sob a rubrica 'Família'
10 de Agosto de 2009

Esta é parte da história

Família, Grandes Navegações

Sentados: Jahnis (João) e Lisete Purim. Em pé os filhos: Olga, Otto/Artur, Reynaldo e Lúcia.

Meus bisavós Jahnis (João) Purens e Lisete Rose (os dois sentados na foto) vieram da Letônia para o Brasil em 1892 e fixaram-se com outras famílias letas1 no município de Orleans, em Santa Catarina. Ali, ao longo do Rio Novo e aos pés da serra de São Joaquim, os imigrantes letos fundaram sua colônia e organizaram aquela que seria uma das primeiras igrejas batistas em solo brasileiro.

Ali, na Colônia Leta do Rio Novo, meu pai nasceu em 1933 (de meu vô Artur, o segundo em pé na foto, e minha vó Vergínia, que morreu em dezembro do ano passado); ali meu pai viveu até 1953.

Ninguém que viu os verdadeiros primórdios do Rio Novo está vivo para contar a história, mas para quem está disposto a ouvir resta o mais inusitado e rico dos testemunhos.

A história começa (como costuma acontecer) com um filho que sai de casa. Em 1917 meu tio-avô Reynaldo Purim (o terceiro em pé na foto), tio do meu pai, deixou o Rio Novo para estudar no Seminário Batista do Rio de Janeiro. Mais tarde ele se tornaria pastor, doutor e se provaria o grande intelectual (solteirão) da família, mas esta é outra história. De especial interesse para a reconstituição da história da Colônia está em que, durante décadas, meu tio Reynaldo (o métodico, o obsessivo – graças a Deus) arquivou as cartas que lhe mandavam, do Rio Novo para o Rio de Janeiro, os familiares e amigos que deixara para trás na Colônia.

Há anos meu pai (nem tão métodico, mas igualmente obsessivo) vem trabalhando para resgatar do esquecimento esse material, convicto do indizível valor do que tem para contar. Não é um trabalho fácil, porque se tratam de cartas em sua maior parte manuscritas, em sua maior parte em língua leta, escritas por diversos personagens com estilos próprios, em suas próprias caligrafias, ao longo de um período de décadas. Meu pai as traduz uma a uma, em ordem cronológica, e a partir de sua própria experiência na Colônia insere indispensáveis notas de rodapé.

As cartas contam, ao filho perdido do Rio Novo vivendo no Rio de Janeiro, sobre as novidades da Colônia: as festas da igreja, as rivalidades entre diferentes facções, as dificuldades com a colheita, os avanços e frustrações do trabalho missionário, o estado de noivados, namoros e casamentos, as controvérsias entre famílias e interpretações bíblicas, a convivência com serranos, orleanenses e italianos, registros de conversões, partidas, chegadas, batismos, divisões, embriaguezas, lutas, incêndios, enchentes, nascimentos e mortes.

Estamos falando de um monumento à amizade e ao amor fraternal; falamos de gente que, depois de trabalhar o dia inteiro dobrado sob as exigências da lavoura, encontrava tempo para, na luz nada generosa do lampião, escrever cartas longas e frequentes ao mesmo Reynaldo – seu amigo ou familiar distante.

Para começar a apresentar este trabalho ao público, abri ontem com meu pai o blog da Colônia Leta do Rio Novo. Algum material já está disponível, e esperamos atualizá-lo (pelo menos semanalmente) com cartas, artigos e fotos referentes à história da Colônia.

A quem interessa este material? Provavelmente, a qualquer um que tenha interesse pelas coisas.

Um trecho de uma carta de 1917 que já está arquivada no blog:

No domingo pela manhã, depois das atividades normais da igreja, fui para o Rio Laranjeiras terminar de cuidar das providências para as atividades do dia seguinte. Ali contaram que o tal Pedro, o alemão, tinha encontrado um erro, uma falha no Novo Testamento: haveria uma passagem sobre dois irmãos que viviam em determinado lugar; um dele teria atravessado três colunas de fogo e ido para o céu, e como nada lá fosse bom, teria voltado e dito ao outro irmão que para o céu nunca fosse.

E este outro, também de 1917:

Estes convites foram um tanto políticos, mas mesmo assim alguns da nossa igreja acabaram indo, como o Arnolds, os Slengmann e dois filhos dos Paegle. Dizem que o programa da festa foi muito longo, com muitos hinos pelos coros e conjuntos, e solos tantos longos quanto curtos. Também veio a Banda de Música do cinema de Orleans, aproximadamente 16 músicos, que entre as suas apresentações trouxeram marchas, etc.

As partes negativas foram uma discussão, quase uma briga, que os letos teriam fomentado entre os negros e os brasileiros, ocasião em que foi só tamanco que voou; outra foi que, enquanto os velhos falavam sobre o passado e sobre o futuro da igreja, os rapazes se abasteciam de cachaça e vinho numa bodega improvisada dentro da capoeira pelo judeu caolho que tem a bodega lá embaixo na barra do Rio Novo. Ele ia ficar bem perto da igreja mais foi expulso dali, por isso pôs o seu “negócio” dentro da capoeira, provocando um mal estar geral, com alguns moleques de cara cheia.

Para visitar o blog da Colônia Leta do Rio Novo, clique aqui ou visite o endereço abaixo:

http://rionovo.wordpress.com

A história somos nós.

NOTAS
  1. A forma aceita em português para “nascido na Letônia ou referente à Letônia” é letão (feminino letã). Os próprios descendentes de letões no Brasil preferem, no entanto, as soluções leto/leta, ou ainda letonês/letonesa. Assim, língua leta, culinária letonesa. []
18 de Julho de 2009

Coda para o Número 1

Família, MP3

Este documento contém clipes de áudio que só podem ser ouvidos na página da Bacia na internet.

Antífona é meu hino favorito do Cantor Cristão desde que minhas irmãs eram pré-adolescentes e tocavam a linha do contralto na flauta doce – e acredite quando digo que faz tempo.

Há alguns anos compus este final alternativo para ser cantado depois da última estrofe, mas foi só domingo passado que pude regê-lo e ouvi-lo a quatro vozes, num coral de verdade, na última noite do congresso dos letos na Segunda Igreja Batista de Nova Odessa.

Só o que está na partitura:

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Uma estrofe do hino, depois a coda:

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01 de Julho de 2009

Quem é esse cara?

Família

E por que me lembro vagamente dele?

Pelo menos ele é saudável.

02 de Dezembro de 2008

Estes somos nós

Família

Minha avó faleceu ontem e será sepultada hoje; em janeiro ela faria 95 anos. Estes somos nós.

Maior aqui e realmente grande aqui.

Leia também:
O sorriso de Vergínia
Pasta jóia, we dream
De como as avós inventaram a civlização
A história

14 de Novembro de 2008

Fortissimo

Família, The Net

É Páolo, e não Paôlo.

Tive de atravessar monti e mari para descobrir o verdadeiro nome do meu irmão meio toscano meio lombardo. Foi só no meu terceiro ou quarto dia na Toscana (chamávamos um ao outro de “mano”) que descobri que na Itália o nome Paolo não se pronuncia Paôlo, como dizemos comumente aqui, mas semplicemente Páolo, que em tudo soa como o nosso Paulo (da mesma forma, “Paola” pronuncia-se italianamente Páola, não Paôla).

Essa descoberta de um nome secreto que é um reflexo ignorado de meu próprio (il nome mio nessun saprà, já profetizava Nessun Dorma) é emblema suficiente da minha sacrossanta peregrinação ao Velho Mundo na figura da Itália.

Sobre a viagem em si nada tenho a dizer que possa ser expresso em palavras. Terá de bastar dizer que estive em lugares em que “milenar” não é uma metáfora; que beijei com os lábios e pés descalços as ruas de Dante, as logge de Florença e as pontes da Toscana; que meus olhos pousaram nus sobre o vivo pé esquerdo de David, sobre os vertiginosos prigioni de Michelangelo e sobre as expressões surrealmente contemporâneas de Masaccio; que maravilhei com a Pisa pré-cristã, pisei descalço o monumento aos pracinhas brasileiros em Pistóia e chorei na igreja onde foi sepultada Beatriz.

Não será inacurado dizer que não retornei dessa viagem à Itália. Fui irremediavelmente transformado pelo peso da história, pela variedade da criação, pela generosidade das pessoas. Não sou mais quem era, e portanto nada mais será como era. Il colpo è fatto.

Minha gratidão a Hélio Rotth Cantos, o Caronte às avessas que transportou-me do Inferno à Mansão dos Vivos, e a Paolo, o Virgílio que mostrou-me nela as réstias muito claras do Paraíso. Lasciate ogni speranza, vós que amigos não tendes.