Sobre o manejo eficaz da culpa econômica

Finalmente conseguimos: o Brasil é um exemplo para o mundo.

Não faz ainda três anos, um consórcio internacional de amigos meus decidiu, com a minha conivência, que o Brasil estava no topo da lista dos lugares do mundo em que era menos provável que o fascismo levantasse a sua cara.

Ah, se estávamos errados. Fascismo, só para tirar a sua dúvida, é quando mães são agredidas porque seus bebês estão usando roupas da cor errada. Não deve haver dúvida: quando parte que seja da população acredita poder determinar quem tem razão através de um código de cores, o tecido social está já bem rompidinho.

Outra indicação da vitória do Continue lendo →

Batman, Sócrates e Jesus:
buscai primeiro a sua justiça

Nunca deixe Sócrates perguntar ao Batman o que é justo

Um dos motivos pelos quais sou 100% impermeável ao apelo dos quadrinhos e filmes de super-herói é que a obsessão norte-americana com a justiça não faz qualquer sentido para um sujeito nas minhas latitudes. As narrativas de super-herói são ensaios e variações na sondagem dos extremos da aplicação da justiça, e o sertanejo/letão/italiano dentro de mim não consegue conceber exercício mais almofadinha e mais maçante.

Os uniformes e narrativas de origem mudam, mas o arcabouço é o mesmo: o super-herói é compelido a agir porque tem despertado o seu senso de justiça, e este é despertado quando ele entende que a justiça tradicional Continue lendo →

Na cama com a Bíblia

Os últimos quarenta anos testemunharam sensíveis impulsos de acomodação cultural por parte da igreja evangélica. Porém, na batalha contra a plena identificação com o mundo, a sexualidade é a última grande trincheira atrás da qual a igreja procura defender a sua identidade. Entendemos (e somos ensinados a entender) que um cristão pode ceder com relação a tudo que o Novo Testamento ensina – pode, por exemplo, encontrar lugar para abençoar a guerra ou a acumulação de bens, – mas não deve haver espaço para que se contornem as demarcações tradicionais do exercício da sexualidade.

Como reter o direito sobre o corpo de outras pessoas

Primeira parte: “Pare de resistir, estamos fazendo isso para o seu bem!”

Uma crise na coerção justificada: da religião aos serviços de saúde

Quando consideramos a ascensão do modelo médico e a difusão da linguagem de comunidade e saúde pública, a primeira coisa é entender que esse é um fenômeno relativamente recente.

A idade da razão gerou uma crise para os que usavam os discursos religiosos de modo a justificar o uso da força

A medicina costumava ser praticada de modo muito diferente, saúde e doença eram compreendidas e priorizadas de modo muito diferente, e os que se ocupavam dessas coisas tinham uma posição inferior e menor influência dentro da sociedade. O que aconteceu para mudar isso? De que modo as práticas discursivas da saúde chegaram a predominar?

O que aconteceu foi que do Renascimento em diante ocorreram guinadas radicais dentro das sociedades ocidentais. A ciência, Continue lendo →

Modos de se ver

Daniel Oudshoorn

Quero começar reconhecendo que falo na qualidade de ocupante da terra que o Criador deu ao cuidado dos Anishinaabe e compartilhou com as tribos Haudenosaunee e Lenape. Ergo as mãos aos cuidadores desta terra e agradeço a eles por permitirem que gente como eu viva, trabalhe, brinque e e viva nos territórios que pertencem a eles ao lado do Askunessippi e ao longo de toda a ilha Turtle.

Na qualidade de colono, beneficio-me do projeto em andamento de colonialismo como se desenrola nos territórios ocupados que recebem o nome de “Canadá” nos mapas que estudamos na escola (mapas que deixaram de mostrar colônias europeias Continue lendo →

Os usos políticos do ateísmo: o capitalismo é o preço da paz

Houve tempo em que o principal método para se justificar o uso da violência era alegando-se o direito divino dos governantes. Nos nossos dias, para substituir as obsoletas justificativas religiosas inventaram-se outras. Essas novas justificativas são tão inadequadas quanto as antigas, mas sendo novas a maioria das pessoas não consegue perceber de imediato a sua futilidade.
Leon Tolstoi em Carta a um hindu (1908)

 

O ateísmo não é reacionário por natureza ou por tradição. É o contrário: pela inclemência do seu ponto de vista, os ateus estiveram por milênios entre os críticos mais lúcidos e articulados da cultura e da sociedade, Continue lendo →

Novo Testamento: a supremacia (e o caráter subversivo) do amor

No Novo Testamento a lógica do sexo como ritual de dominação é menos explícita, mas permanece sendo importante substrato (uma daquelas realidades sociais tão unânimes que permanecem ocultas, subindo poucas vezes à superfície da consciência ou do discurso) todas as vezes que o assunto é mencionado ou aludido. A questão é na verdade de importância fundamental para os autores do Novo Testamento, porque a mensagem de Jesus e sua boa nova são interpretadas por eles como representando um chamado universal ao abandono dos mecanismos de controle e manipulação que compõem o sistema deste mundo.

A crise das pessoas que as pessoas ouvem

O PT precisava de uma oposição que não ouvisse Leandro Narloch, Rodrigo Constantino e Reinaldo Azevedo

Dez anos (agora 11) sem assistir televisão me deram o dom que sempre desejei: o de uma enorme impaciência. Esse período mais ou menos coincidiu com os mandatos do PT, e sobre esses governos quase tudo que tenho a dizer está aqui: não puderam beneficiar-se de uma oposição articulada e coerente.

Pense o que quiser, o PT está no poder há uma década arrecadando os dividendos da oposição festiva e popular que já foi. É uma dívida que o povo teria muito mais dificuldade de continuar pagando ao PT se uma oposição perspicaz, organizada e popular (de direita, porque oposição de esquerda o PT tem muita Continue lendo →


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