A história da loucura

Para entender como isso funciona pode ser útil prover um sumário da história da ideia de doença mental. Nesta seção quero resumir A história da loucura de Michael Foucault, valendo-me ainda de Deviance and Medicalization: From Badness to Sickness, de Peter Conrad e Joseph W. Schneider. Enquanto examinamos essa história é fundamental que reflitamos sobre a nossa própria experiência nos serviços sociais. O quanto nossas instituições refletem os valores, trajetórias e estruturas das instituições que descobrimos aqui?

Surgia a compreensão de que os pobres eram benéficos para a riqueza das nações e dos capitalistas

A sociedade ocidental é singular na sua compreensão de que a “loucura” é uma “doença mental”. De que Continue lendo →

Sobre barragens

O fundamentalismo de mercado requer a fé de que as coisas podem ser mantidas isoladas umas das outras por muros de contenção.
A má notícia é que as barragens funcionam. A notícia pior é que não funcionam indefinidamente.

Em algum momento entre hoje e o instante em que desliguei uma televisão pela última vez, em 2004, o capitalismo tornou-se tudo que existe.

A expressão “espacialização do capital” quer dizer várias coisas, inclusive que não resta espaço – real ou virtual, distinção que o capitalismo trata de ignorar – que não tenha sido ocupado pelo capitalismo ou distorcido pela sua força gravitacional. Faz sentido continuar chamando de Império ao Império que anulou toda a competição? Tendo ocupado todos os espaços, o capitalismo tornou-se indistinguível daquilo com que poderia ser contrastado.

Mas “espacialização do capital” quer Continue lendo →

Manual de emergência do observador de catástrofes

A conspiração contra a raça humana (2010), de Thomas Ligotti, foi recebido como o livro mais pessimista de todos os tempos, tendo entre outros méritos inspirado os discursos do policial niilista da primeira temporada de True Detective. Thomas Ligotti é um escritor que me deixa otimista com relação às possibilidades da literatura de horror; seus textos de ficção, reunidos em outros livros, são a única coisa contemporânea que chegou até mim e se aproxima da vertigem que é Lovecraft.

Na qualidade de pessimista, no entanto, Ligotti tem ainda muito a aprender. Comigo.

Uma lista de singularidades: porque o Brasil é tão difícil de explicar


O resto do mundo não opera a partir de lógicas que se aplicam aqui

A confissão: escrever sobre a crise da zona do euro ou a ascensão do nacionalismo no mundo é covardemente mais fácil do que se pronunciar com qualquer lucidez sobre o que acontece neste país.

Se o mundo é complexo, o Brasil é excepcionalmente. As correntes que cortam e definem o planeta são pelo menos visíveis e mapeadas. Em comparação, não há nome ou disciplina que corresponda a muita coisa que acontece no Brasil.

Não é à toa que entre nós tanta gente reputada escreve tolice sem perder a reputação. O Brasil é um estado de exceções, Continue lendo →

O anjo e a meritocracia

Como alguém pode dizer o que acha justo sem saber os privilégios que vai ter

– Vejo que você está com o panfleto na mão – disse o anjo no guichê – e deve ter visto também o vídeo de cinco minutos, então já sabe como funciona. Uma pergunta sua, depois você responde uma pesquisa curta e é liberado imediatamente.

Eu tinha muito mais que uma pergunta, mas fiz que sim com a cabeça.

Onde – eu disse, do modo mais claro e deliberado que consegui.

– Onde, onde – disse o anjo, e deslizou o dedo sobre a tablet que trazia na mão. – Olha, parabéns, você vai nascer no Brasil, um país muito legal.


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