As persistentes persuasões do desenvolvimento

O que o PT e o capitalismo têm em comum? A crença de que de uma produção crescente brotará naturalmente a justiça.

Foi precisamente essa perda de contato com o passado, nosso desenraizamento, que deu origem aos ?descontentamentos? da civilização, a uma pressa e uma agitação tão grandes que vivemos mais no futuro com suas quiméricas promessas do que no presente, cujo passo acelerado nosso pano de fundo evolucionário não aprendeu ainda acompanhar. Precipitamo-nos impetuosamente novidade adentro, guiados por um senso cada vez mais acentuado de insuficiência, de insatisfação e de inquietação. Não vivemos mais daquilo que temos, vivemos de promessas; deixamos de viver à Continue lendo →

O mercado que nos protege

O governo que não deve ser nomeado deflagrou uma semana de rigoroso Choque e pavor – a tática militar de ocupar dando demonstrações múltiplas e espetaculares de força, de modo a desestimular qualquer resistência.

Numa semana, o governo que até segunda ordem é interino divulgou estar pronto para:

Isso só para citar as medidas mais desconcertantes, e sem pausar para examinar a ficha de antecedentes dos ministros apontados, do novo líder do governo e do próprio presidente em exorcismo.

Embora espero que seja poupado desse constrangimento, você vai encontrar brasileiros satisfeitos com esse pacote de propostas. O motivo da satisfação? Continue lendo →

Sobre o manejo eficaz da culpa econômica

Finalmente conseguimos: o Brasil é um exemplo para o mundo.

Não faz ainda três anos, um consórcio internacional de amigos meus decidiu, com a minha conivência, que o Brasil estava no topo da lista dos lugares do mundo em que era menos provável que o fascismo levantasse a sua cara.

Ah, se estávamos errados. Fascismo, só para tirar a sua dúvida, é quando mães são agredidas porque seus bebês estão usando roupas da cor errada. Não deve haver dúvida: quando parte que seja da população acredita poder determinar quem tem razão através de um código de cores, o tecido social está já bem rompidinho.

Outra indicação da vitória do Continue lendo →

A queda da casa do mundo

– Tem uma página na internet, esqueci o endereço – me disse o Zé Márcio – que mostra um mapa-múndi e uma linha do tempo. Você arrasta para a direita o triângulo que representa um ponto remoto na linha do tempo, e faz com que as fronteiras nacionais mostradas no mapa se ajustem à medida em que as datas destacadas se aproximam da nossa. Você vê o contorno do Império Romano, e no instante seguinte o sul da Europa e o norte da África pertencem já aos muçulmanos. Aqui a Índia e a África pertencem aos portugueses, no momento seguinte a América do Norte aos espanhóis. Agora a Itália ainda não existe, agora a Alemanha engole Continue lendo →

De que modo o sistema reverte em seu favor os alertas dos pessimistas

O capitalismo não só anula os esforços dos seus críticos, mas os incorpora e se beneficia deles

Por milênios as instituições se perpetuaram com base em autoridades “fortes” e centralizadas, coisas como a vontade de Deus e o direito de sangue das monarquias. Eram autoridades que os próprios discursos oficiais tomavam por inquestionáveis. Qualquer dissidência tinha de ser tomada como absurda e sem fundamento, e todo dissidente tinha de ser tirado espetacularmente do tabuleiro, devidamente desqualificado pela nudez, pela tortura, pela forca, pelo fogo ou pela cruz.

Apesar de terem funcionado por séculos, o fato de serem fortes e centralizadas era para essas autoridades, sem que ninguém se desse conta, uma desvantagem. Seu ponto Continue lendo →

A história da loucura

Para entender como isso funciona pode ser útil prover um sumário da história da ideia de doença mental. Nesta seção quero resumir A história da loucura de Michael Foucault, valendo-me ainda de Deviance and Medicalization: From Badness to Sickness, de Peter Conrad e Joseph W. Schneider. Enquanto examinamos essa história é fundamental que reflitamos sobre a nossa própria experiência nos serviços sociais. O quanto nossas instituições refletem os valores, trajetórias e estruturas das instituições que descobrimos aqui?

Surgia a compreensão de que os pobres eram benéficos para a riqueza das nações e dos capitalistas

A sociedade ocidental é singular na sua compreensão de que a “loucura” é uma “doença mental”. De que Continue lendo →


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