Sobre barragens

O fundamentalismo de mercado requer a fé de que as coisas podem ser mantidas isoladas umas das outras por muros de contenção.
A má notícia é que as barragens funcionam. A notícia pior é que não funcionam indefinidamente.

Em algum momento entre hoje e o instante em que desliguei uma televisão pela última vez, em 2004, o capitalismo tornou-se tudo que existe.

A expressão “espacialização do capital” quer dizer várias coisas, inclusive que não resta espaço – real ou virtual, distinção que o capitalismo trata de ignorar – que não tenha sido ocupado pelo capitalismo ou distorcido pela sua força gravitacional. Faz sentido continuar chamando de Império ao Império que anulou toda a competição? Tendo ocupado todos os espaços, o capitalismo tornou-se indistinguível daquilo com que poderia ser contrastado.

Mas “espacialização do capital” quer

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Árvores que andam

Há porém muitas espécies de ortodoxia, não somente aquelas ligadas explicitamente a credos religiosos, e a ortodoxia que quero mencionar hoje é a que domina o modo como vemos a pobreza e os sem-teto.

Os serviços sociais engajados com gente que experimenta pobreza e vida sem-teto acabaram sendo dominados por uma perspectiva médica. As pessoas hoje em dia veem a pobreza e os sem-teto como questões de saúde pública ou comunitária. Quando olha as fotos abaixo, por exemplo – você acha que está vendo o contraste entre um pessoa má que se tornou boa ou entre uma pessoa doente que se tornou sadia?
 

Modos de se ver

Daniel Oudshoorn

Quero começar reconhecendo que falo na qualidade de ocupante da terra que o Criador deu ao cuidado dos Anishinaabe e compartilhou com as tribos Haudenosaunee e Lenape. Ergo as mãos aos cuidadores desta terra e agradeço a eles por permitirem que gente como eu viva, trabalhe, brinque e e viva nos territórios que pertencem a eles ao lado do Askunessippi e ao longo de toda a ilha Turtle.

Na qualidade de colono, beneficio-me do projeto em andamento de colonialismo como se desenrola nos territórios ocupados que recebem o nome de “Canadá” nos mapas que estudamos na escola (mapas que deixaram de mostrar colônias europeias

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Raízes

 

A sala da fazenda era emoldurada por dois quadros enormes: um mostrava a versão gaúcha do mapa da União, o outro o imperador Gerdau bebendo chimarrão de uma cuia que tinha o formato do mapa.

De dentro entrou Esmalte Heinz, deputado, homem loiríssimo e latifundiário, pulando para terminar de calçar uma bota de cano longo. De fora, escoltado por seguranças que ocuparam imediatamente todas as portas, o marechal Dos Santos, secretário de Estado dos negócios do Império.

– Estava de saída, deputado? – disse o marechal, estendendo ao fazendeiro uma mão enluvada.

– Sim, bom dia – Heinz terminou de calçar a bota e devolveu

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Os usos políticos do ateísmo: o capitalismo é o preço da paz

Houve tempo em que o principal método para se justificar o uso da violência era alegando-se o direito divino dos governantes. Nos nossos dias, para substituir as obsoletas justificativas religiosas inventaram-se outras. Essas novas justificativas são tão inadequadas quanto as antigas, mas sendo novas a maioria das pessoas não consegue perceber de imediato a sua futilidade.
Leon Tolstoi em Carta a um hindu (1908)

 

O ateísmo não é reacionário por natureza ou por tradição. É o contrário: pela inclemência do seu ponto de vista, os ateus estiveram por milênios entre os críticos mais lúcidos e articulados da cultura e da sociedade

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