Quando o português dominava a terra • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 27 de junho de 2007

Quando o português dominava a terra

Estocado em História

A folha de rosto da segunda edição do Novo Testamento de João Ferreira de Almeida, publicada em 1693, adverte:

Traduzido na Língua Portuguesa, pelo Reverendo Padre JOÃO FERREIRA A D’ALMEIDA, Ministro Pregador do SANCTO EUANGELHO nesta cidade de BATAVIA em JAVA MAYOR.

A página seguinte acrescenta:

ESTA SEGUNDA IMPRESSAO do S.S. Novo Testamento, êmendada e ‘na margem augmentada com os concordantes passos d’a Escritura Sagrada, a luz sahiu por mandado e ordem d’o Supremo Governo d’a ILLUSTRE COMPANHIA D’AS UNIDAS PROVINCIAS ‘NA INDIA ORIENTAL.

Para o leitor contemporâneo pode não ser natural entender porque a primeira Bíblia em português foi escrita numa ilha da Indonésia e publicada sob os auspícios de uma companhia de comércio marítimo da Holanda.

A resposta curta é que o mundo de Almeida era quase tão internacional quanto o nosso. E pelo menos tão complexo.

A riqueza das nações

Quando aos 14 anos de idade João Ferreira de Almeida trocou o esgotado solo da Europa pelo assoalho crepitante de um navio que o deixaria meses depois em Málaca, no arquipélago malaio, ele pegava carona no fluxo de um redemoinho comercial que havia começado a girar menos de duzentos anos antes. Era o ano de 1642, e a Companhia Holandesa das Índias Orientais, que mais tarde publicaria a sua Bíblia, dominava agora o comércio de especiarias entre a Ásia oriental e o ocidente.

Basicamente, o que havia acontecido nos duzentos anos antes de Almeida é que as riquezas das nações, depois de terem ficado por milênios sensatamente presas aos seus solos de origem, haviam começado a circular em grande escala – gerando em seu rastro frágeis alianças, improváveis encontros e pelo menos tantas injustiças quanto oportunidades.

Por mais incongruente que possa parecer, o que alimentava a porção mais lucrativa desse tráfico incontrolável era a demanda reprimida das classes superiores européias pelas especiarias do oriente – onde mercadorias como cobre, chumbo, sedas, tafetás, vinhos, óleo de oliva, ouro da África e prata da América eram trocados por, basicamente, pimenta.

Anos mais tarde, depois de Almeida e dos holandeses, os ingleses é que se tornariam os senhores desse redemoinho comercial entre o oriente e o ocidente. Quem havia colocado o pião para girar, no entanto, tinha sido um pequeno país da Europa, um conhecido azarão do qual aparentemente nada de grandioso podia se esperar: Portugal.

“Se você fala português no Ceilão, é entendido em todo lugar.”

A pequena nação foi, por 150 anos, senhora plenipotenciária do tráfego comercial com as Índias.

O duplo trampolim

Foi só poucas décadas antes do nascimento de Jesus que os romanos consolidaram o longo processo de conquista da vasta península do extremo oeste da Europa, região que receberia deles o nome de Hispania. Escrevendo nos dias de Jesus a respeito da região onde mais tarde nasceria Portugal, o geógrafo Estrabão confidencia: “ao norte do Tejo estende-se a Lusitânia, habitada pela mais poderosa das nações ibéricas, e a que entre todas por mais tempo deteve as armas romanas”.

Embora ficasse para os romanos na extremidade mais distante do mundo, a Hispania (ou Ibéria) foi devidamente colonizada; estradas foram abertas e os centros urbanos aculturados, abrindo o caminho para a chegada antecipada do cristianismo.

Embora a porção ocidental da península tenha já de início recebido o título distintivo de Lusitania, durante a maior parte do primeiro milênio não houve verdadeira distinção entre Portugal e Espanha dentro da Hispania. A separação mais destacada talvez fosse a geográfica, e pode ter sido ela que no final das contas determinou a divisão final. A região ficava isolada do restante da península por barreiras montanhosas e uma bacia hidrográfica, especialmente na região de Trás-os-Montes, no nordeste do Portugal de hoje.

No começo do quinto século, quando o Império Romano dava já provas de franca desintegração, a igreja católico-hispânica estava suficientemente enraizada para manter a identidade nacional durante os duzentos anos seguintes, em que a península foi dominada pelas tribo germânicas dos visigodos, vândalos e suabeus.

A partir do ano 700 os muçulmanos, que acabavam de subjugar a faixa norte da África, atravessaram o Mediterrâneo e num avanço irresistível de poucos anos conquistaram a Hispania, a que deram o nome de Al-Andalus, “terra dos vândalos”. A longa e frutífera presença muçulmana na península só daria o seu último suspiro em 1492, depois de sete séculos de luta de reconquista, com a queda de Granada.

O domínio muçulmano na Ibéria atingiu o seu apogeu no décimo século, quando era representado por um pujante califado que em nada ficavam devendo ao das Mil e Uma Noites – completo com rebuscadas mesquitas e minaretes, hajibs e vizires. Nesse período a sociedade, o estado e a cultura de Al-Andalus eram de longe mais avançados e sofisticados do que quaisquer outros na Europa cristã contemporânea. A sua produção científica nos campos da matemática, astronomia, filosofia e medicina permaneceria insuperada por séculos. Os avanços tecnológicos e científicos eram acompanhados por um refinamento social sem paralelo: a cultura muçulmana foi, entre outras coisas, a primeira a praticar a efetiva tolerância religiosa no ocidente. Em muitos casos, muçulmanos e cristãos compartilhavam sem constrangimento dos mesmos lugares de culto.

Apesar desses e outros sucessos, os muçulmanos de Al-Andalus não conseguiram usar a península ibérica para aquilo que haviam planejado desde o início: como trampolim para a conquista do restante da Europa.

Já a posição estratégica de Portugal, delineada a leste por um anfiteatro montanhoso que orientava a visão para o Atlântico, possibilitou que a região se tornasse trampolim para a direção oposta: para o vasto Oceano, para as Índias – e além.

O patinho feio da Europa

No ano 841 a região já é chamada, em documentos romanos, de Provincia Portucalense, nome tirado do que era conhecido na época como porto de Cale (hoje cidade do Porto).

Foi só em 1139, no entanto, que o hábil Afonso I, encorajado pelos barões locais e tomando por ocasião a batalha de Ourique, contra os mouros, proclamou a si mesmo primeiro rei de Portugal. A dinastia de Borgonha estava fundada, e um país acabava de nascer. Sua capital era Coimbra, que anos antes havia sido um movimentado centro muçulmano.

Portugal era pobre, mesmo para os padrões da época. O solo era em grande parte montanhoso, rochoso e infértil, e apenas um terço era adequado ao cultivo. A frota naval portuguesa era comparativamente pequena e a economia doméstica enfraquecida. Como se não bastasse, sua posição geográfica fazia com que Portugal permanecesse na periferia dos acontecimentos e das tendências internacionais durante toda a Idade Média. Se a Ibéria ficava separada do restante da Europa pelo maciço dos Pirineus, Portugal ficava separado do restante da península por sua própria singularidade geográfica e lingüística. Era uma nação marginal no extremo mais distante de uma península marginal. Portugal ficava no fim do mundo.

Sua maior vantagem mostraria ser justamente essa.

Em 1336 uma frota portuguesa aventurou-se até as ilhas Canárias. A partir de 1415 os portugueses começaram a sondar sistematicamente a costa da África na esperança de encontrar uma saída para as Índias e quebrar o monopólio dos mercadores italianos e catalãos, que traziam as especiarias pela rota do Oriente Médio. Em 1487 Bartolomeu Dias cruzou o Cabo da Boa Esperança, encontrando finalmente a rota para o Índico pelo sul da África. Dez anos depois Vasco de Gama aportou na Índia, inaugurando a nova rota comercial entre a Europa e a Ásia. Um terço da tripulação não sobreviveu à viagem, mas calcula-se que o lucro da sua expedição de dois anos tenha ultrapassado os 600 por cento.

Em linguagem financeira, quer dizer que a nova rota valia o risco e o investimento.

Nos 150 anos que se seguiram Portugal dominou o comércio marítimo com o Oriente, desbancando os intermediários estabelecidos do Mediterrâneo. Estima-se que nessa época havia na costa de Portugal mais portos em funcionamento do que no século XX. Para os portugueses, no entanto, os portos mais importantes ficavam a milhares de quilômetros dali.

O português faz o mundo girar

A distância era tamanha que Portugal logo percebeu a necessidade de estabelecer um posto avançado da Coroa no extremo oriental da rota. O vice-rei de Portugal nas Índias Orientais, sediado na ilha de Goa, tinha como atribuições facilitar as transações, consolidar a presença militar portuguesa e proteger a rota de contra-ataques muçulmanos. Em 1511, um ano depois de conquistarem Goa, as tropas do vice-rei pisaram em Málaca (hoje Kuala-Lumpur, capital da Malásia), que seria no século seguinte a primeira parada de João Ferreira de Almeida naquelas paragens.

Málaca era um centro estratégico da circulação de especiarias; estabelecidos ali, os portugueses poderiam dominar a rota para o restante do arquipélago malaio. De Málaca a frota portuguesa estendeu a sua influência ao porto de Cantão na costa chinesa, e mais tarde à península de Macau.

A rota estava garantida, e as riquezas do mundo começavam a fluir como nunca.

O português chegou muito perto de ser um idioma internacional.

A supremacia marítima portuguesa no comércio das especiarias atingiu o seu auge entre 1510 e 1540. Em 1510 um milhão de cruzados se derramavam anualmente nos cofres do rei Manuel de Portugal, e François I da França acabou apelidando-o, não sem algum despeito, de “rei dos temperos”. Novos navios tiveram que ser projetados, que pudessem comportar uma carga proporcional à expectativa enlouquecedora de lucros.

Portugal teve os seus quinze minutos de fama, mas em última análise a sua supremacia marítima não tinha como durar. Ao final de uma década o influxo de especiarias na Europa era tamanho que preços e lucros caíam já sensivelmente. Esse, no entanto, não foi o problema maior. A aristocracia portuguesa esbanjava regiamente a maior parte das suas inusitadas entradas, sobrando pouco que pudesse ser reinvestido de modo a fazer frente à crescente competição – extrema competição.

Perto do final do século a madeira para a indústria naval portuguesa tinha de ser importada, e a renovação da frota mostrava-se cada vez mais cara.

Outros países não tinham esse problema.

A língua do fim do mundo

Dentre esses, foi a Holanda o país que tomou os primeiros e mais largos passos para aproveitar a brecha que Portugal estava deixando. Por muito tempo, na verdade, os holandeses haviam sido os principais distribuidores no norte da Europa das especiarias asiáticas que aportavam em Lisboa. Essa porta fechou-se em 1580, quando Portugal passou ao domínio espanhol, e a Holanda viu-se desafiada a desenvolver o seu próprio canal comercial com as Índias.

Em março de 1602 uma concessão do governo holandês fundou a Companhia Holandesa Unida das Índias Orientais (Verenigde Oost Indische Compagnie – VOC), a mesma que mais tarde daria o seu aval à tradução de Almeida. A Companhia recebeu do governo holandês autorização para organizar exércitos, construir fortes e negociar tratados comerciais na Ásia. Já nos três anos seguintes 38 navios muito bem armados partiram da Holanda para o Índico.

O rápido avanço da Companhia no sudeste asiático foi de certa forma facilitado pelos próprios portugueses, que a essa altura haviam deixado o Índico em segundo plano para investir pesado no Brasil. Além disso, o sistema administrativo holandês, influenciado pela ética protestante, começava a premiar a competência – ao invés do português, em que reinavam os privilégios vitalícios, hereditários ou adquiridos.

Dessa forma a VOC foi assumindo rápido o terreno que havia sido dos portugueses. Em 1619 a Companhia fundou sua capital e quartel-general nas Índias Orientais, a cidade de Batávia, na ilha de Java. Em 1641 os holandeses já haviam expulsado os portugueses de Málaca, e em 1658 do Ceilão – ao mesmo tempo em que continham as manobras daqueles que eram os segundos concorrentes àquele mercado: os ingleses.

No fim das contas a eficiência e empreendedorismo dos holandeses garantiram a sua supremacia no Índico por mais tempo do que os portugueses haviam feito. Nos séculos XVII e XVIII a Companhia era a maior corporação de comércio do mundo, uma complexa multinacional com mais de 30.000 empregados, dezenas de filiais no outro extremo do planeta e uma frota de mais de cem embarcações. Os holandeses haviam assumido o redemoinho comercial que os portugueses haviam colocado para rodar.

Os portugueses perderam a primazia, mas deixaram a sua improvável marca. Quando os primeiros missionários da Igreja Reformada holandesa buscaram fazer seus convertidos entre a população nativa, perceberam que as missões portuguesas haviam transmitido mais do que o catolicismo às comunidades nativas. Os comerciantes holandeses, por sua vez, descobriram que os portugueses haviam deixado uma herança menos tangível do que colonos, fortificações e descendentes.

Quando os portugueses perderam a supremacia, a costa asiática já estava falando português.

Por ocasião da entrada triunfante do holandês, o idioma do predecessor estava irremediavelmente entranhado no sudeste da Ásia.

Quando os portugueses perderam a supremacia, a costa asiática já estava falando português. Mesmo diante de rígidas medidas locais tomadas para promover o uso do holandês, comerciantes, governantes e missionários da Holanda viram-se obrigados a adotar a língua portuguesa no contato com as populações da costa asiática. Na Indonésia holandesa que seria de João Ferreira de Almeida restava uma pujante colônia de portugueses, descendentes e convertidos, e a condição era similar nas demais colônias da região. “Se você fala português no Ceilão, é entendido em todo lugar”, confessava em 1704 o governador local Cornelius Jan Simonsz.

A situação na costa do Índico representava apenas um lado da moeda de um momento histórico muito peculiar. No século XVII o português chegou muito perto de ser um idioma internacional. Aquele foi talvez o único e impagável momento da história em que a língua era falada amplamente de um extremo a outro do mundo. Índios brasileiros, escravos africanos, comerciantes chineses, mercadores italianos, diplomatas franceses, piratas holandeses, mercenários muçulmanos, missionários ingleses, jesuítas na Terra Santa, príncipes asiáticos, senhores malaios e monarcas do Ceilão tendo todos algo em comum – falando português.

Foi esse o mundo que pôde abrigar a improvável conjunção que representava um português na Indonésia traduzindo grego e hebraico para a língua portuguesa, com patrocínio dos holandeses.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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