POST MORTEM • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 04 de fevereiro de 2006

POST MORTEM

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à minha transcrição do depoimento de Randolph Carter.

Em primeiro lugar, a advertência: nenhum lugar é mais apropriado a H. P. Lovecraft do que o papel, e este de preferência trancafiado entre as capas de um livro cheirando a mofo e a suor de mãos estranhas e preferencialmente estrangeiras.

Outra advertência: embora mereçam talvez a classificação marginal de “contos de horror”, estão ausentes das obras de Lovecraft todas as convenções que você aprendeu a associar ao gênero. Você não encontrará aqui zumbis, lobisomens, vampiros, esqueletos atrás da porta do armário, fantasmas, possessões demoníacas ou absolutamente qualquer forma de horror sobrenatural. Lovecraft acreditava que o medo que essas entidades podiam conjurar havia sido esgotado pela mentalidade científica e pela desconfiança moderna diante do sobrenatural.

Ele substituiu essas coisas por, digamos, conteúdo original. Trocou o horror sobrenatural convencional pelo que ele chamava, apropriadamente, de “horror cósmico” – um horror que é ao mesmo tempo uma espécie de solidão e uma fatalidade e uma piada e perfeitamente plausível e (em particular) muito mais velho do que a humanidade.

Dito isto, e como as obras de Lovecraft estão esgotadas em português, posso ser forçado a revelar um terrível segredo: há determinado lugar na internet onde os contos de Lovecraft foram depositados há milhões de anos, e ali aguardam com paciência eterna (como aqueles casulos dos filmes da série Alien) serem colhidos diretamente para a área de trabalho do seu computador.

Se você cometer a transgressão de colocar os pés nessa cripta de horror primal, não deixe – absolutamente não deixe – de começar por Um sussurro nas trevas; siga diretamente para A cor que caiu do céu e, caso lhe reste sanidade, penetre os corredores atordoantemente singulares de Nas montanhas da loucura. Depois disso qualquer trajeto será igualmente imprudente, desde que inclua necessariamente:

O chamado de Cthulhu
Os sonhos da casa assombrada
A casa abandonada

Ali você encontrará ainda outra tradução de O Depoimento de Randolph Carter, muitas vezes mais ressonante do que a minha. Dos melhores contos de Lovecraft, a ausência mais notável aqui é a de Sombras perdidas no tempo.

Ainda mais do que a originalidade do seu conteúdo, o que mais aprecio em Lovecraft é a tonalidade peculiar da sua narração, que às vezes me parece mais universal e literária do que a do próprio Borges. Lovecraft está para nos fazer revelações terríveis, mas não abre mão da cadência, da pomposa lucidez e da austeridade. Seu texto é invariavelmente classudo. Os primeiros parágrafos de Um sussurro nas trevas:

Faço questão de dizer que não me vi diante de qualquer horror concreto no final das contas. Dizer que um choque mental foi a causa do que inferi – a gota d’água que me fez fugir em disparada da solitária fazenda de Akeley, pelos morros em meia-lua de Vermont, num veículo de que lancei mão sem cerimônia – equivale a ignorar os fatos mais simples da minha experiência final. Não obstante a enormidade das coisas que vi e escutei, e apesar da confessada nitidez da impressão que tais coisas produziram em mim, mesmo agora não posso provar se eu estava certo ou errado em minha terrível inferência. Afinal de contas, o desaparecimento de Akeley nada prova. Não se encontrou nada de estranho em sua casa, apesar das marcas de balas por dentro e por fora. Era como se ele houvesse saído casualmente para um passeio pelas colinas e não voltasse. Não havia sequer sinais de um hóspede ou de que aqueles horríveis cilindros e máquinas tivessem ficado guardados no seu estúdio. Por outro lado, nada significa também o fato de que ele temesse mortalmente as inúmeras colinas verdes e os regatos intermináveis entre os quais nascera e se criara, pois milhares de pessoas estão sujeitas a esses mesmos receios mórbidos. A excentricidade, ademais, poderia facilmente explicar os atos estranhos e as apreensões esquisitas que ele vinha demonstrando ultimamente.

No que me diz respeito, tudo começou com as inundações que assolaram Vermont a 3 de fevereiro de 1927 […]

De Nas montanhas da loucura:

Sou forçado a falar, uma vez que homens de ciência recusaram-se a seguir meu conselho, sem saberem por quê. É muito a contragosto que descrevo as razões pelas quais me oponho a essa pretendida invasão da Antártica – que há de ser acompanhada de generalizada caça a fósseis e indiscriminada perfuração e descongelamento das antigas calotas glaciais. E reluto tanto mais quanto talvez minha advertência caia em ouvidos moucos.

É inevitável que se ponham em dúvida os fatos reais, tal como devo revelá-los. No entanto, se eu calasse o que pode parecer bizarro e inacreditável nada restaria. As fotografias até aqui escamoteadas, tanto ordinárias quanto aéreas, contarão em meu favor, porquanto são funestamente vívidas e convincentes. Ainda assim, serão postas em dúvida devido ao elevado grau a que se pode levar uma hábil contrafação. Os desenhos a tinta serão, naturalmente, objeto de zombaria, serão tachados de embustes grosseiros, não obstante uma singularidade técnica que deveria causar perplexidade aos conhecedores da arte.

Ao cabo, terei de confiar na judiciosidade e na reputação dos poucos próceres científicos que têm, por um lado, suficiente independência intelectual para avaliar minhas informações com base em seus próprios méritos, medonhamente concludentes, ou à luz de certos ciclos míticos primevos e extremamente enigmáticos; e, por outro lado, influência bastante para impedir que os meios científicos em geral se aventurem a qualquer programa temerário ou exageradamente ambicioso na região daquelas montanhas de loucura. É lamentável que homens relativamente obscuros, como eu e meus colegas, ligados apenas a uma pequena universidade, tenhamos poucas possibilidades de causar impressão duradoura no que tange a assuntos de natureza extravagantemente demente ou em alto grau polêmica.

Labora ademais contra nós o fato de não sermos, em sentido rigoroso, especialistas nos campos em que se situam basicamente as revelações que farei. Na qualidade de geólogo, meu intuito ao dirigir a Expedição da Universidade de Miskatonic consistia inteiramente em coletar amostras de rochas e solo, a grande profundidade, em várias partes do continente antártico, auxiliado pela extraordinária perfuratriz projetada pelo professor Frank H. Pabodie […]

Sem mais para o momento, deixo-os com

Os contos de H. P. Lovecraft em português, cortesia do Yahoo E-Group Culto Lovecraftiano.

Os arquivos estão em formato PDF (compactados em zip) e requerem o Acrobat Reader.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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