Pós-modernidade e proclamação


Eu posso estar redondamente enganado
eu posso estar correndo pro lado errado
Mas a dúvida é o preço da pureza
E é inútil ter certeza
Infinita Highway — Engenheiros do Hawaii

O comunismo saiu da arena principal e o islamismo ainda não tomou o seu lugar. Entre os cristãos evangélicos o esporte do momento é atacar o pós-modernismo e tudo que aprendemos a associar a ele: o relativismo (ou o desprezo pela idéia de uma verdade única e irrefutável), o misticismo (ou a busca por uma espiritualidade irresponsável e nos lugares errados) e ainda o seu ceticismo tolerante (a desconfiança da validade de qualquer fé em particular aliado a um estranho respeito por todas).

Incumbiu-me o Volney de tentar explicar porque não acredito que os cristãos devam temer a onda implacável da pós-modernidade, mas sim aprender a — por assim dizer — surfá-la.

Sigo (mas não me atenho necessariamente a) a lúcida exposição de Robert N. Nash Jr. em seu An 8-Track Church in a CD World.

Quem é o bicho e quantas cabeças ele tem

Quem fala em pós-modernidade está dividindo a história da civilização, muito grosseiramente, em três grandes períodos: a era pré-moderna, a era moderna e a era dos nossos dias – esta que, na falta de um nome melhor, convencionou-se chamar de “pós”.

A primeira era, a pré-modernidade, começou com o primeiro homem e estendeu-se a até algum momento do século XVIII. Durante todo esse período o ser humano manteve-se, basicamente, um bicho místico. A vida estava além do controle do homem e só podia ser explicada em termos sobrenaturais. Em geral não ocorreria a ninguém duvidar da realidade do mundo dos espíritos ou de coisa que o valha (digamos, o imaterial mundo das idéias de Platão), e todas as soluções aos problemas do ser humano dependiam da boa vontade de Deus ou deuses.

Perto de 1700 a modernidade fincou pé. A Renascença deu a primeira, o Iluminismo a segunda e definitiva estocada que tiraram Deus do centro das atenções e colocaram ali o homem e os esforços humanos – particularmente a razão. A principal característica da era moderna é a sua suprema confiança na mente humana. Gente como Descartes gravou a ferro e fogo na mentalidade ocidental a noção de que a razão é o único caminho para o conhecimento, e toda a era moderna partiu do pressuposto de que a razão e a ciência (aplicadas em todas as áreas: saúde, política, urbanismo, ética) trariam as soluções necessárias para os problemas da humanidade. O sensato slogan da nossa bandeira brasileira, “Ordem e Progresso”, é tipicamente moderno em seu otimismo na iniciativa humana fundamentada no triunfo da sensatez e da razão.

Foi ao redor de 1960 que a maré começou a mudar. Coisas como a crise de energia, a teoria da relatividade, a guerra do Vietnã, a bomba de Hiroshima e os abusos do consumismo contribuíram para que as pessoas passassem gradualmente a concluir que a razão humana talvez não trouxesse, como prometera, respostas para os anseios mais profundos do mundo e do homem. Trezentos anos da supremacia da razão não haviam trazido nenhuma solução unânime para os problemas da guerra, da fome, da injustiça, do vazio existencial. A razão, concluíram esses, fracassara, e diferentes grupos independentes começaram a tatear em todas as direções em busca de alternativas. A revolução sexual, mística e química trazidas à luz pelos hippies dos anos 60 foram os primeiros movimentos que pressupunham essa desconfiança pós-moderna para com as soluções otimistas e pré-fabricadas da era anterior.

A pós-modernidade que se levantou das cinzas da modernidade é tremendamente difícil de definir – entre outras coisas, porque definição é conceito tipicamente moderno e pertence a uma era anterior. Pode-se dizer com segurança que o homem pós-moderno é ao mesmo tempo cético, espiritual e tolerante. Ele duvida da eficácia da razão, do pensamento linear, da lógica convencional, da explicação racional. Ele está portanto aberto a todas as formas de misticismo e religiosidade, mas não apostará na validade definitiva de nenhuma, porque crê que todas contém a sua parcela de “verdade” e nenhuma pode ter a pretensão de se posicionar como verdade definitiva — possibilidade que arruinaria a validade e a beleza das outras alternativas.

A indomável mentalidade desta era pode ser mais facilmente compreendida se considerarmos a forma de arte mais tipicamente pós-moderna: o videoclipe. Os primeiros vídeos de música eram “modernos” no seu caráter linear — contavam “historinhas” com começo, meio e fim. Mas logo os produtores de videoclipes adotaram uma linguagem mais radical, menos linear e mais fragmentária. Um videoclipe é um amontoado de imagens que não necessariamente contam uma história ou têm qualquer relação entre si; não têm uma “explicação”. Seu sistema é a ausência de um sistema. A idéia é passar uma impressão, e não deixar alguma coisa absolutamente clara.

Filme é coisa moderna. Videoclipe é cria pós-moderna.

A igreja e o bonde da pós-modernidade

Uma pergunta importante: por que que a igreja cristã não estava pronta e presente para acolher esses “filhos desiludidos” da razão e da modernidade logo que eles começaram a pipocar na década de 1960? Por que os hippies não se voltaram para a fé cristã quando precisaram satisfazer o seu anseio por uma espiritualidade real?

A resposta curta é que a igreja cristã havia, ela mesma, se dobrado no altar do modernismo. O discurso da supremacia da razão havia sido tão longo e eloqüente que até mesmo os cristãos tinham caído no logro da sua pregação. A igreja cristã havia de alguma forma adotado a noção paradoxal de que tudo a respeito da fé pode ser explicado e exposto racionalmente, inclusive as imponderabilidades da criação e da salvação.

A própria Bíblia havia caído vítima dessa ênfase excessiva na razão humana. Complicadas fórmulas eram e são utilizadas para provar que a escritura cristã faz sentido racional e é espelho fiel da realidade científica. Em 1793, Kant publicava A religião apenas dentro dos limites da razão, e quase duzentos anos depois Josh McDowell articulava ainda uma defesa racional da divindade de Cristo, demonstrando por A + B que a fé cristã é a escolha mais sensata na prateleira.

O problema é que, adotando essas interpretações racionais, a igreja confessava que a ciência e o racionalismo são os critérios pelos quais a realidade deve ser julgada.

Quando começaram a buscar onde saciar a sua terrível sede pelo espiritual e pelo místico, as pessoas foram forçadas a concluir que a fé cristã era simplesmente racional demais para interessá-las — e a igreja perdeu assim o bonde da pós-modernidade.

A que posso comparar?… A Bíblia, Jesus e o fragmentário método pós-moderno

Chamar a Bíblia de pós-moderna seria anacronismo, mas creio que pode-se com segurança afirmar-se que os escritores bíblicos não tinham uma mentalidade moderna; não criam na supremacia da razão nem na superioridade da exposição linear e dos sistemas racionais.

Jesus, por exemplo. Para escândalo e perplexidade dos teólogos, Jesus não chegou nem perto de expor a sua teologia de forma sistemática. Tudo que ele deixou a fim de transmitir a sua mensagem foi o seu exemplo, um punhado de histórias curtas e uma longa série de frases de efeito, sendo que cada um desses elementos não parece sustentar qualquer conexão imediata com os outros. Para seus ouvintes e leitores tudo que o discurso de Jesus deixou foi uma série livre de imagens sem qualquer ordem ou prioridade particular: um videoclipe do reino, por assim dizer.

Jesus não fez uma série de conferências, não expôs as quatro leis espirituais, não definiu predestinação nem trindade, não pregou teses na porta do Templo, não apresentou uma vez que fosse o plano da salvação. Ao invés de apresentar um cenário racional e ordeiro, uma visão geral seguida por definições, demonstrações e apêndices, tudo que ele fazia era coçar a barba e dizer: “A que posso comparar o reino?…”

Isso não impedia, naturalmente, que as pessoas saíssem dali saltitando a sua conversão.

Os escritores bíblicos também não compartilhavam do nosso horror tipicamente moderno/racionalista à contradição. O livro de Gênesis, por exemplo, parece narrar a criação de duas formas contraditórias, e até a ascensão do modernismo isso nunca foi motivo de escândalo para ninguém. É racionalista até mesmo o esforço tradicional em conciliar as duas versões. Parece absurdo à mente moderna considerar que as duas possam ser ao mesmo tempo diferentes e verdadeiras: isso seria na nossa opinião relativizar a verdade. Os escritores bíblicos provavelmente chamariam a mesma coisa de transmitir uma profunda verdade espiritual.

Como não estava preso aos nossos escrúpulos com a racionalidade, Jesus sentia-se livre para dizer coisas como “Eu sou a luz do mundo” sem temer ser apanhado em contradição com a “verdade” científica de que a Terra é iluminada pelo sol e não por Jesus. Não é como se a realidade espiritual contradissesse ou relativizasse a realidade científica da importância do sol. Não há relativização aqui, embora as duas coisas sejam verdade ao mesmo tempo.

Ainda mais revelador é o fato de Jesus ter afirmado ser, ele mesmo, a Verdade com letra maiúscula — tirando dessa forma para sempre a verdade do domínio da razão. Se a verdade é uma pessoa ela não tem como ser comprovada ou refutada pelo método científico. Uma pessoa pode ser no máximo abraçada e experimentada, nunca explicada racionalmente.

A Bíblia traz um convite para nos relacionarmos pessoalmente com a verdade, e não um tratado para a comprendermos racionalmente.

Coisas que têm, definitivamente, um sabor pós-moderno.

A proclamação no idioma da pós-modernidade

Como pregar-se com um barulho desses? Como transmitir-se a verdade para quem não acredita numa verdade definitiva?

Em primeiro lugar pode ser útil reconhecer que, como a Verdade que temos a transmitir é uma Pessoa e não uma série sensata de proposições racionais, o cristianismo pode encontrar no terreno da pós-modernidade uma tremenda vantagem. Podemos resgatar tranqüilamente “a insensatez do evangelho” e o “escândalo da cruz”, porque não precisamos mais fingir que a razão e a verdade científica são as verdadeiras medidas da realidade. Jesus é muito mais luz do mundo do que o sol jamais chegará a ser.

Quando bate o pé afirmando que não existe uma verdade definitiva, o homem pós-moderno está falando basicamente de uma verdade racional. Uma verdade relacional tem tudo para chamar a sua atenção. E ele certamente vai gostar de ouvir que a letra mata e o espírito vivifica.

Mas de que forma, você pode perguntar, se transmite uma verdade-pessoa?

Isso, meu caro, é problema seu. Ninguém sabe exatamento como, mas parece seguro que teremos de acabar abrindo mão de todas as abordagens convencionais (todas elas racionalistas e “modernas”) de evangelização.

Robert Nash Jr. faz uma série de generalizações a respeito da proclamação do Reino no idioma da pós-modernidade:

• o desafio requer verdadeira espiritualidade;
• cruzadas evangelísticas e séries de conferências, como praticadas na maior parte das igrejas, são relíquias antiquadas de uma visão de mundo “moderna” em declínio;
• o conceito racionalista e mercantilista de “plano da salvação”, desenhado para atingir-se o maior número de pessoas no menor tempo do possível, está definitivamente ultrapassado;
• ser cristão tem de ser mais do que evitar-se a punição do inferno;
• a igreja deve parar de fazer declarações proposicionais a respeito de Deus enquanto ignora a necessidade que as pessoas têm de uma experiência com ele;
• os cristãos devem parar de “convidar as pessoas para ir à igreja” e começar a convidar as pessoas a conhecerem Cristo através delas.

Acredito que, no fim das contas, a grande questão é se fazer presente e relevante para o mundo. As palavras de ordem são disponibilidade e relevância. A cultura evangélica convencional exige que o cristão se disponibilize incessantemente para a instituição; esse ascetismo nos mantém à salvo da nossa missão e do contato com o mundo. Fomos convidados para nos disponibilizarmos, mas para o mundo, não para uma rotina circular. As rodas de samba, grupos de teatro, salas de aula, salas de chat, blogs, escolas de natação, vestiários, cursos de vendas e cozinhas industriais precisam de gente-cristãos que façam diferença – menos por serem diferentes das pessoas do que por fazerem diferença para as pessoas.

Hoje em dia faz mais sentido contar histórias do que expor argumentos infalíveis. Ir com o amigo ao cinema ou a um pesque-pague do que abrir o livrinho com as quatro leis espirituais. Silenciar e permanecer ao lado do que falar pelos cotovelos e sumir imediatamente da vida do sujeito depois de desincumbir-se da tarefa de vender a nossa enciclopédia salvífica. Trata-se por certo mais de trazer o Reino para perto das pessoas do que tentar arrastá-las para onde afirmamos que o Reino está confinado.

 


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