Porque você acredita que o mundo é justo – e porque você se engana • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 13 de outubro de 2013

Porque você acredita que o mundo é justo – e porque você se engana

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Esta é a parte 1 de 6 da série Entre a riqueza e a justiça

De que modo a crença na justiça inerente do sistema garante, em cada sistema, que a justiça nunca chegue a se estabelecer

Não encontrei nome melhor, por isso resolvi chamá-los de discursos de distribuição automática de justiça. Um discurso, no sentido em que estou usando a palavra, é uma ideia (nem sempre consciente e nem sempre articulada com palavras) que tempera e justifica as nossas convicções e posturas. Eu poderia dizer com a mesma facilidade “fé na distribuição automática de justiça”. Cada cultura tem a sua, e cada cultura é ao mesmo tempo mantida e sequestrada por ela.

Falo da confortável crença de que no mundo as coisas funcionam de tal modo que, sem a intervenção de ninguém, especialmente sem a minha, as eventuais injustiças que oprimem as outras pessoas se corrigirão por si mesmas. A minha fé na distribuição automática de justiça me faz encarar como coisa justa ou temporária todas as desigualdades com que me deparo. Como promete uma distribuição automática, a função primordial do discurso é me isentar. Ele me faz acreditar que as injustiças que enxergo ou são aparentes ou não são de minha responsabilidade. O próprio sistema, com o tempo, se encarregará de corrigir as inconformidades que houver.

Desse modo, por exemplo, prevaleceu ao longo das eras da cristandade um claro e útil fatalismo diante das desigualdades sociais. Por dois milênios os privilégios estiveram em grande parte reservados para homens nobres, ricos e de pele clara. Pobres, trabalhadores, selvagens, negros, mestiços, orientais, malnascidos e mulheres de todos os estratos sociais tinham de enfrentar, na melhor das hipóteses, exclusão e preconceito – que com frequência resvalavam em opressão, violência e servidão.

As pessoas não eram menos espertas do que nossos dias, e talvez não fossem menos compassivas. Essas desfigurantes desigualdades sociais não estavam ocultas aos olhos de ninguém, mas eram apaziguadas pela crença numa modalidade particular de distribuição automática de justiça: Deus estava no controle, e as injustiças desta vida seriam todas compensadas na próxima. Com o tempo, na redenção da morte ou do juízo final, todos os sofrimentos seriam premiados, as privações indenizadas e as desigualdades aplainadas. Os méritos acumulados nesta existência seriam descontados em espécie nos bancos da glória, e os desmandos dos poderosos seriam finalmente punidos.

A despeito das inequidades abismais que lanhavam a carne da sociedade, as rebeliões eram relativamente raras, porque tanto privilegiados quanto oprimidos criam que estava em operação um sistema de distribuição de justiça que não requeria a intervenção de ninguém. As inconformidades que ninguém tinha como ignorar cria-se que o próprio sistema – neste caso, a soberana intervenção divina – trataria a seu tempo de corrigir.

Hoje, como se sabe, a ideia de que Deus fará justiça no além não basta para apaziguar os ânimos desta vida – em parte porque cada vez menos gente acredita em Deus, mas não só por isso. Nossa cultura substituiu a justiça divina por outro discurso de distribuição automática de justiça: a crença na realidade e na suficiência da mobilidade social.

A sociedade capitalista nos parece inerentemente justa porque, a seu modo, cremos que ela opera como cria-se que operava a supervisão divina: premiando os méritos e punindo os deméritos. Não é que sejamos cegos para as desigualdades que nos aguardam em cada esquina; longe disso. Acontece que acreditamos que o sistema se encarregará de corrigir qualquer eventual inconformidade sem a nossa intervenção. O frentista que abastece o seu Audi ganha vinte vezes menos do que você, mas você sabe que se realmente quiser ele pode se esforçar, estudar à noite, aprender uma língua, adotar uma atitude pró-ativa, ralar em dobro, economizar de modo a ter o que investir, abrir um negócio e alçar-se finalmente da sua posição. Pode chegar a ganhar mais do que você! – e se isso não servir de consolo ou de incentivo para os mais pobres, você não sabe o que poderia servir.

Numa palavra: diante de toda inequidade social e financeira você acredita que a justiça será automaticamente distribuída, e que quem tem algum mérito acabará sendo recompensado. E, precisamente como acontecia no regime da cristandade, a minha fé na justiça da mão invisível do mercado, minha crença de que quem não desfruta de privilégios é porque não os merece, garante que o mundo continue formidavelmente injusto para quem não tem os privilégios que tenho.

Nem mesmo quem deixou de acreditar em Deus pausa para ponderar que a crença de que o sistema capitalista é inerentemente justo talvez seja ainda mais infundada do que a fé que prevalecia anteriormente, de que há um Deus que fará justiça no final. É para enfatizar a enormidade desse novo engodo que os teóricos do socialismo moderno chamaram de “falsa consciência” o discurso capitalista de distribuição automática de justiça:

Para Karl Marx e Friedrich Engels “falsa consciência” é o que produz a elite de capitalistas, no topo da estrutura econômica de classes, levando o proletariado (a classe trabalhadora) a acreditar que a estrutura da sociedade capitalista é vantajosa para todo mundo, quando na verdade o capitalismo é explorador e destrutivo, sendo benéfico apenas para os proprietários dos meios de produção: os próprios capitalistas.

Como os capitalistas estão no controle do aparato institucional da sociedade, incluindo os meios de comunicação, sua mensagem torna-se ideologia normativa. As pessoas são condicionadas a acreditar que o capitalismo é o melhor modelo socioeconômico e que qualquer um que segue suas regras corretamente vai inevitavelmente “sair ganhando”, elevando-se das classes econômicas mais baixas para as superiores – processo ao qual se dá o nome de “mobilidade social ascendente”.

Porém o marxismo afirma que a mobilidade social ascendente é uma promessa falsa, uma ideia inventada pelos capitalistas para evitar que as classes mais baixas se revoltem contra eles. Se as pessoas acreditarem que podem melhorar sua condição mostrando-se melhores competidoras do que seus colegas trabalhadores, elas não só acabarão produzindo mais riqueza para os capitalistas; elas mesmas se tornarão mais desejáveis para o mercado por trabalharem mais horas por menos dinheiro: acabarão encontrando vantagem em serem exploradas. Ainda debaixo da ilusão da “falsa consciência” – a ideia de que podem melhorar a sua situação de dentro do sistema – as pessoas passarão suas vidas inteiras criando riqueza para os capitalistas sem juntar nenhuma para si mesmas. É como tentar subir pela escada rolante que está descendo: você acaba tendo de correr só para ficar no mesmo lugar 1Richard Rosenbaum, num artigo que tem o imenso mérito de discutir a teoria socialista no contexto do seriado Buffy, a caça-vampiros..

Bastaria refletir ou olhar ao redor para entender que, deixado aos seus próprios recursos, o capitalismo não tende a corrigir a injustiça – pelo contrário. Que é tão raro que façamos essa reflexão demonstra o quanto é conveniente a crença na justiça do sistema, especialmente para aqueles de nós que sentem que merecem os privilégios pelos quais ralaram tanto. Agora que finalmente consegui alguma justiça para mim não me faça pensar em distribuir.

É tremendamente custoso para nós admitir o papel reacionário da nossa crença de que produz justiça o sistema de que fazemos parte. Enquanto crer que a mobilidade social se encarregará de corrigir as aparentes injustiças do sistema (do mesmo modo que criam que Deus faria antes que fosse substituído pelo capitalismo), a formidável multidão abaixo de mim na pirâmide social não se sentirá tentada a revoltar-se contra mim de modo a privar-me dos meus privilégios. Admitamos: poucas crenças são mais convenientes. Você não precisa mudar nada e não precisa ajudar ninguém: o sistema se encarregará por si mesmo de compensar um eventual destempero. Não é de admirar que nos deixemos enganar por essa falsa consciência; não é de admirar que deixemos que ela continue a enganar os outros.

O que distingue o socialismo de outras ideologias políticas é que ele parte do lúcido e desiludido princípio que entre seres humanos cafajestes como somos a distribuição de justiça jamais será automática e jamais teria como ser. Essa singularidade do socialismo gerou problemas e soluções que teremos de discutir em outro lugar. Por hora deverá bastar lembrar que, antes do socialismo, o movimento acionado pela vida e pelos primeiros seguidores de Jesus se fundamentou numa desilusão semelhante a respeito dos discursos humanos e da eficácia dos sistemas automáticos de distribuição de justiça.

Para demonstrar adequadamente a relação entre a prática do cristianismo primitivo e a distribuição ativa (isto é, não automática) de justiça seriam necessários volumes, muitos dos quais foram escritos por Roland Boer.

O testemunho mais direto e inequívoco, no entanto, vem dos próprios evangelhos, que descrevem um Jesus que pouco fazia além de distribuir ativamente justiça e equidade e questionar o discurso dominante de que a observância da Lei bastava para se estabelecer a justiça. Os judeus do tempo de Jesus estavam inteiramente convictos de que o cumprimento estrito da Torá – o sistema perfeito por excelência, literalmente caído do céu – bastava para que se estabelecesse automaticamente entre os homens a justiça divina. Jesus, como se sabe, estava inteiramente convicto de que se era preciso ir além da Torá.

Em cada palavra e em cada ato seu, mas antes de tudo no Sermão do Monte, Jesus demole a crença muito humana na suficiência de um sistema de distribuição automática de justiça. Ele delineia no seu lugar um cenário desafiador em que ninguém está isento e em que ninguém deve sentir-se isento: um mundo em que eu e você somos constantemente responsáveis por fazer parte da solução de cada desigualdade e de cada desequilíbrio deste mundão de Deus. Jesus, sujeito formidável que era, sonhou um mundo povoado por gente formidável como ele: gente inteiramente generosa e inteiramente cínica; gente ao mesmo tempo disposta a desconfiar da suficiência de todo discurso de implementação de justiça, ao mesmo tempo disposta a denunciar e a compensar ativamente, pessoalmente, continuamente, as insuficiências desses discursos.

O discurso da distribuição automática de justiça diz continuamente no meu ouvido: sei que você é um cara gentil e gente boa, Brabo. Sei que você se dói de testemunhar tanta desigualdade, mas só quero lembrar que elas não sua responsabilidade. Você não tem de mudar nada e não tem de ajudar ninguém: o sistema se encarregará de consertar por si mesmo qualquer inconformidade.

Jesus, lúcido e incômodo como sempre, desconstrói cada um desses meus cultivados confortos: velho, a grande verdade é que a responsabilidade é toda sua. O sacerdote e o levita deixaram o cara caído na beira do caminho: pra fazer diferença só restou o descredenciado e despreparado você. Eu estava nu, doente e na prisão e você não veio me ver, tá lembrado? Quando deixar de fazer justiça ao mais importuno dos miseráveis que te importunar no mais miserável dos momentos, é a mim que você vai estar deixando de fazer justiça. Você pode até resolver se omitir, mas pelo menos não se iluda: se você não fizer alguma coisa ninguém vai fazer. A justiça não se distribui automaticamente e nem teria como, mas você está aí agora e não é um autômato. É só você, mas vai ter de bastar. A verdade é que ninguém vai te cobrar a justiça que você escolher deixar de fazer: se isso te soa como bom motivo pra não fazer nada, não está mais aqui quem falou.

 

Leia em seguida:
Como salvar o mundo um instante de cada vez

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

Este relato faz parte da série

Entre a riqueza e a justiça

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Notas   [ + ]

1. Richard Rosenbaum, num artigo que tem o imenso mérito de discutir a teoria socialista no contexto do seriado Buffy, a caça-vampiros.
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