O confronto entre cristianismo e paganismo • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 05 de abril de 2010

O confronto entre cristianismo e paganismo

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A análise que acabamos de efetuar, no entanto, não chega nem a tocar o cerne da divisão entre cristianismo e liberalismo econômico. Em última análise, O cristianismo está fundamentado na graça, o capitalismo está fundamentado em mérito e crédito.o conflito entre cristianismo e neoliberalismo é o conflito entre cristianismo e paganismo.

O liberalismo econômico deve ser entendido como uma religião 1“O mercado, ao nos ensinar sobre o mundo e sobre nosso papel nele, substitui a função da religião”. David Loy e Dwight N. Hopkins, The Religion of Market.. Em particular, o neoliberalismo é melhor entendido como uma religião imposta pelos principados e potestades mencionados por Paulo. A chave dessa interpretação do neoliberalismo é a frequente menção contemporânea à “mão invisível” do mercado, bem como a crença de que o mercado opera em “piloto automático” devido a uma “força natural” semelhante às demais forças da natureza.

Note a argumentação de N. T. Wright:

Quando um ser humano ou um grupo de seres humanos encontram-se totalmente sob o domínio de uma força alheia a eles mesmos, deve ser apropriado falar de “demônios”. A idolatria tem o poder de invocar, talvez até mesmo de chamar à existência, forças além do controle dos idólatras.

Semelhantemente, Jurgen Moltmann sustenta que o capitalismo, em sua evolução neoliberalismo adentro, tornou-se precisamente essa sorte de “força compulsiva quase-objetiva” 2The Spirit of Life, 138-139). Moltmann argumenta que o neoliberalismo, como ordem econômica de âmbito mundial, tornou-se pecado em forma supranacional e, embora criada por nosso arbítrio e perpetuado por nossos hábitos, opera agora através de compulsão.. Portanto, como observado por Richard Horsley, “o próprio secularismo que deveria supostamente proteger o pluralismo religioso e cultural serve agora também para velar a função religiosa do capitalismo de consumo”.O cristianismo pressupõe a abundância, o capitalismo pressupõe a escassez. Assim, a vida vivida dentro do neoliberalismo é vivida debaixo dos poderes e potestades (particularmente Mamon) 3Isso ajuda ainda mais a explicar o sectarismo e a violência encontrados dentro do neoliberalismo. De acordo com o testemunho bíblico, os ídolos sempre requerem sacrifícios [humanos] e produzem vítimas. Consequentemente, a idolatria do neoliberalismo é demonstrada pelas vítimas que produz. Na verdade, mesmo sem levar-se em conta a violência manifesta do neoliberalismo, sua própria eficiência transforma a maior parte da população em excedente descartável..

Para ilustrar ainda mais o confronto religioso entre cristianismo e neoliberalismo é válido destacar as diferenças fundamentais entre suas doutrinas teológicas centrais. Para começar, o cristianismo é uma religião fundamentada na premissa da graça, enquanto que o capitalismo está fundamentado nas premissas de mérito e crédito. Para os cristãos, tudo é graça: a criação, a permanente subsistência da vida diária, a redenção e o reino de Deus, todos esses vem como presentes de Deus. Não apenas isso: a linguagem da graça é a linguagem da dádiva, e é ela que nos apresenta a um Deus que é, fundamentalmente, um doador, — a fim de que nós mesmos nos tornemos doadores e não simplesmente “recebedores ensimesmados” 4David A. DeSilva observa que no contexto do primeiro século “graça” era uma palavra secular que falava de um relacionamento de reciprocidade contínua onde um favor dava luz a outro favor e onde generosidade gerava generosidade.

Já o capitalismo em geral e o neoliberalismo em particular não deixam qualquer espaço para a dádiva 5Na verdade, como demonstra Derrida, o neoliberalismo não é sequer capaz de imaginar a possibilidade do favor gratuito e desinteressado.. É essa a visão de mundo que faz Thomas Malthus afirmar que a generosidade e a troca de presentes só fazem encorajar o ócio e o vício, e que o gasto indiscriminado é comparável à promiscuidade sexual 6Malthus acrescenta: “Um homem que nasce num mundo já possuído [por outros], se não é capaz de ganhar a subsistência de seus pais ou de outros dos quais possa exigi-la, e se a sociedade não requer a sua mão-de-obra, não tem direito a reivindicar a menor porção de comida; não tem, na verdade, qualquer direito a estar onde está.”. O resultado disso é uma cultura “despida de graça”, onde uma pessoa recebe em conformidade com as suas habilidades e não em conformidade com as suas necessidades. Nesta cultura o crédito torna-se uma paródia da graça.

Essa diferença fundamental entre cristianismo e capitalismo gera diferentes visões de mundo. Enquanto o cristianismo afirma um mundo definido por abundância, o capitalismo afirma um mundo definido por escassez. Como está fundamento na premissa da graça e da dádiva, o cristianismo afirma um mundo pleno de abundância como sinal da “extravagante generosidade” de Deus. Embora a abundância deste mundo esteja desfigurada pela queda, a restauração da criação que vem através de Jesus renova a fertilidade da criação e restaura a abundância. Nesse sentido, Jesus vem para que tenhamos “vida abundante”, e essa abundância é amplamente demonstrada tanto no seu ministério quanto no testemunho da igreja no livro de Atos 7Talvez o exemplo mais humorístico dessa abundância seja aquele em que Jesus, sendo repreendido por não pagar a taxa do templo, manda que um de seus discípulos vá pescar um peixe que contenha, em sua boca, o dinheiro necessário para a taxa. Como cristão, o modo de se vencer as objeções levantadas pela “prevalência da escassez” é rejeitar a prevalência e afirmar a abundância.

O capitalismo, no entanto, está baseado na pressuposição da escassez; parte do princípio em que não há o suficiente para todos. Consequentemente, ao invés de manifestar abundância, o que o capitalismo produz é uma profusão de mercadorias que funcionam como uma paródia da abundância.

Essas fundações distintas e diferentes perspectivas de mundo fazem com que cristianismo e capitalismo desenvolvam diferentes doutrinas a respeito da liberdade. Para o cristianismo, a liberdade é entendida como libertação para o serviço, enquanto que para o capitalismo a liberdade é entendida como escolha em relação ao consumo. Para o cristianismo, liberdade é a libertação do poder de Pecado-e-Morte e da miríade de demais poderes espirituais e materiais que operam em serviço do Pecado-e-Morte. A libertação do Pecado-e-Morte, no entanto, está inseparavelmente ligada à liberdade para o serviço amoroso de Deus e do próximo; dessa forma, a liberdade cristã é revelada em obediência (isto é, obediência ao Senhor que nos libertou, e obediência que torna manifesta nossa condição de libertos). É por isso, portanto, que os mártires — na qualidade daqueles que foram inteiramente privados de escolha — acabam tornando-se as maiores testemunhas da liberdade cristã; é por isso também que o cristianismo é chamado para aproximar-se em solidariedade de outros movimentos que entendem liberdade como libertação de sistemas de opressão.

O capitalismo, em contraste, entende a liberdade de uma forma totalmente diversa. Num mundo de escassez, a liberdade torna-se a capacidade de consumir aquilo que se deseja, sem levar-se em consideração o desejo dos outros. Milton Friedman descreve liberdade nesses termos: “Cada homem pode votar, por assim dizer, na cor da gravata que quer, e obter o que quer; ele não é obrigado a ver a cor que quer a maioria e depois, se for a minoria, submeter-se”. Portanto “liberdade”, na perspectiva neoliberal, é entendida como ser livre de qualquer forma de governo que imponha restrições sobre as minhas opções de consumo. Essa noção de liberdade-como-escolha, no entanto, não conduz a qualquer forma genuína de liberdade ou libertação. Explica Jean Baudrillard:

O que a sociedade industrial sempre oferece-nos a priori, como uma espécie de graça coletiva e como emblema de liberdade formal, é “escolha”. Não temos sequer, de fato, a opção de não escolher. Nossa liberdade de escolha nos obriga a participar de um sistema cultural contra a própria vontade. Segue-se que a escolha em questão é de uma variedade enganosa: experimentá-la como liberdade é simplesmente ser menos sensível ao fato de que ela nos é imposta como tal, e que através dela a sociedade como um todo é da mesma forma imposta sobre nós. O importante sobre o fato de escolher é que a escolha acaba designando a você um lugar na ordem econômica como um todo.

Qual é o resultado disso? Uma sociedade em que a “uma liberdade de escolha sem paralelo” associa-se “um profundo sentimento de resignação”; uma sociedade em que se vive uma “existência dominada” sob um “sistema de dominação” durante uma “era da dominação”.

Esses diferentes entendimentos sobre a natureza da liberdade revelam também que cristianismo e capitalismo proclamam dois evangelhos distintos, como elementos de duas doutrinas opostas de salvação. O evangelho do cristianismo proclama o triunfo e o senhorio de Jesus e a delegação de poder do Espírito Santo, que capacita os crentes a partiparem profeticamente e a contribuir na nova criação de todas as coisas. O evangelho do capitalismo proclama o triunfo e o senhorio do neoliberalismo, e promete felicidade a todos. Existe uma alternativa.Que o capitalismo surge como uma forma de evangelho já é evidente em Smith, que sustenta que o capitalismo se mostrará capaz de suprir todas as nossas necessidades. O verdadeiro evangelho do capitalismo, no entanto, não vem à luz até o surgimento do neoliberalismo, em que o triunfo do capitalismo torna-se em si mesmo a boa nova.

Supostamente, então, o triunfo do capitalismo no liberalismo econômico trará felicidade a todos nós — sendo que aqui “a felicidade”, escreve Baudrillard, “é o rigoroso equivalente da salvação”. Há, porém, pelo menos dois grandes problemas com essa doutrina utilitária da salvação. O primeiro, como observa Alasdair MacIntyre, é que a noção de “maior das felicidades” carece de conteúdo inequívoco; trata-se, na verdade, de um “pseudo-conceito disponível para diversos usos ideológicos”. O segundo problema está em que no neoliberalismo as pessoas geralmente não são felizes. Porém, tendo sido confrontadas com a proclamação de que as boas novas são chegadas, às pessoas é ordenado que sejam felizes. Você é livre, então deve ser obrigatoriamente feliz 8Baudrillard sustenta que “não nos resta qualquer direito de não sermos felizes”, e Zizek argumenta que “prazer permitido” tornou-se “prazer obrigatório”, no qual o prazer opera como dever ético (isto é, hoje em dia as pessoas se sentem culpadas não quando violam as inibições morais, mas quando não se entregam ao prazer)..

Esses diferentes evangelhos revelam também que cristianismo e capitalismo operam com escatologias fundamentalmente distintas. O cristianismo opera com uma escatologia inaugurada mas não consumada, enquanto o capitalismo opera com uma escatologia já plenamente consumada. O ponto de partida da vida cristã é o reconhecimento de que a “nova era” começou com a ressurreição de Jesus e o derramamento do Espírito (escatológico) no Pentecostes. O que começou naquela ocasião, no entanto, ainda aguarda consumação no dia em que Cristo voltar, derrotar seus inimigos e entregar o reino a seu Pai, que fará então novas todas as coisas. Os cristãos vivem, portanto, num momento de tensão em que antecipam o novo em meio ao antigo. Para o capitalismo, no entanto, as coisas são muito diversas. Com o triunfo do neoliberalismo a história (entendida no sentido hegeliano de sociedade em busca de um telos) chegou ao fim. A cartada vencedora do neoliberalismo, portanto, é que não mais existe qualquer alternativa a ele. Como observa William Cavanaugh, isso sinaliza o abandono da escatologia cristã — “não pode haver ruptura com o status quo, não pode haver invasão do reino de Deus, mas apenas incessante novidade superficial”. Essa, no entanto, é precisamente a escatologia que os cristãos devem rejeitar. Existe uma alternativa, que é o reino de Deus confessado e recebido como dádiva pelos cristãos. Por essa razão (e pelas razões citadas acima) os cristãos devem abandonar a noção de que devemos operar dentro do capitalismo como se ele fosse a única opção viável, mesmo que qualificada como “menos pior”.

Finalmente, o resultado dessas diferentes doutrinas teológicas são duas antropologias contraditórias. Naturalmente, como nos leva a recordar o testemunho da Bíblia, não é surpresa que ocorra esse resultado, já que a antropologia é uma subcategoria da teologia, sendo fundamentalmente relacionada à adoração (isto é, acabamos nos tornando a espécie de ser que reflete a natureza daquilo que adoramos). Aqui reside o contraste: o cristianismo apresenta os seres humanos como seres criados dentro de um relacionamento e para relacionamentos, enquanto o capitalismo apresenta os seres humanos como unidades individuais de capital. O Deus cristão, na qualidade de Deus triúno, existe dentro de um relacionamento e para o relacionamento. Além disso, porque Deus existe como doador, ser à imagem de Deus é ser também um distribuidor de dádivas. Consequentemente, o modo como o cristão relaciona-se com o outro sofre uma guinada radical. Como observa Moltmann: “Torno-me verdadeiramente livre quando abro minha vida para os outros e a compartilho com eles, e quando outras pessoas abrem suas vidas para mim e as compartilham comigo. A outra pessoa deixa então de ser uma limitação da minha liberdade e passar a ser uma extensão dela”.

O capitalismo, no entanto, ao apresentar as pessoas como unidades individuais de capital, oferece uma antropologia muito distinta, em que as pessoas são tratadas como coisas. Talvez o exemplo mais impressionante dos resultados da antropologia do capitalismo está no modo em que a globalização tem funcionado como poderosíssimo catalisador de tráfico humano, no qual a noção de pessoas-como-mercadoria se mostra sem qualquer máscara 9O tráfico humano gera atualmente mais de doze bilhões de dólares anuais; é a terceira forma mais lucrativa de crime organizado (perdendo só para a venda ilegal de armas e drogas), e a que se expande com a maior rapidez.. Porém não é apenas tratando-as como coisas que o capitalismo desumaniza as pessoas; o capitalismo também promove desumanização ao fazer das pessoas indivíduos solitários. Uma vez que o indivíduo é isolado da comunidade, uma vez que se entende que o indivíduo existe à parte do seu relacionamento com outros, a desumanização já está estabelecida. O resultado é permanente competição, e a visão do outro como simultâneos limitação e ameaça.

Tendo concluído essa visão geral sobre as diferenças teológicas entre cristianismo e capitalismo-como-paganismo, deve ter ficado claro porque uma versão meramente reformada do capitalismo não é desejável. O paganismo não se pode reformar. Pode apenas ser abandonado pela adoração do verdadeiro Deus. Consequentemente, se forem confrontar o capitalismo como aparece hoje em dia em sua forma neoliberal, os cristãos devem fazê-lo fundamentados na verdadeira adoração. À luz dessas coisas, vale recordar as palavras de Gregório de Nissa: “Conceitos criam ídolos. Só o assombro é capaz de compreender”.

Daniel Oudshoorn
Poser or Prophet

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

Notas   [ + ]

1. “O mercado, ao nos ensinar sobre o mundo e sobre nosso papel nele, substitui a função da religião”. David Loy e Dwight N. Hopkins, The Religion of Market.
2. The Spirit of Life, 138-139). Moltmann argumenta que o neoliberalismo, como ordem econômica de âmbito mundial, tornou-se pecado em forma supranacional e, embora criada por nosso arbítrio e perpetuado por nossos hábitos, opera agora através de compulsão.
3. Isso ajuda ainda mais a explicar o sectarismo e a violência encontrados dentro do neoliberalismo. De acordo com o testemunho bíblico, os ídolos sempre requerem sacrifícios [humanos] e produzem vítimas. Consequentemente, a idolatria do neoliberalismo é demonstrada pelas vítimas que produz. Na verdade, mesmo sem levar-se em conta a violência manifesta do neoliberalismo, sua própria eficiência transforma a maior parte da população em excedente descartável.
4. David A. DeSilva observa que no contexto do primeiro século “graça” era uma palavra secular que falava de um relacionamento de reciprocidade contínua onde um favor dava luz a outro favor e onde generosidade gerava generosidade
5. Na verdade, como demonstra Derrida, o neoliberalismo não é sequer capaz de imaginar a possibilidade do favor gratuito e desinteressado.
6. Malthus acrescenta: “Um homem que nasce num mundo já possuído [por outros], se não é capaz de ganhar a subsistência de seus pais ou de outros dos quais possa exigi-la, e se a sociedade não requer a sua mão-de-obra, não tem direito a reivindicar a menor porção de comida; não tem, na verdade, qualquer direito a estar onde está.”
7. Talvez o exemplo mais humorístico dessa abundância seja aquele em que Jesus, sendo repreendido por não pagar a taxa do templo, manda que um de seus discípulos vá pescar um peixe que contenha, em sua boca, o dinheiro necessário para a taxa. Como cristão, o modo de se vencer as objeções levantadas pela “prevalência da escassez” é rejeitar a prevalência e afirmar a abundância
8. Baudrillard sustenta que “não nos resta qualquer direito de não sermos felizes”, e Zizek argumenta que “prazer permitido” tornou-se “prazer obrigatório”, no qual o prazer opera como dever ético (isto é, hoje em dia as pessoas se sentem culpadas não quando violam as inibições morais, mas quando não se entregam ao prazer).
9. O tráfico humano gera atualmente mais de doze bilhões de dólares anuais; é a terceira forma mais lucrativa de crime organizado (perdendo só para a venda ilegal de armas e drogas), e a que se expande com a maior rapidez.
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