Por isso não provoque • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 14 de abril de 2011

Por isso não provoque

Quando quer defender qualquer comportamento, seja universalmente aceito ou mania particular sua, meu pai costuma usar o mais arbitrário, incontornável e rasteiro dos [falsos] argumentos: “está na Bíblia”. Para usar o exemplo mais clássico, ele preferencialmente não come feijão aos domingos, porque “domingo é dia branco”. Quando perguntado sobre o fundamento espiritual ou científico dessa noção, ele invariavelmente responde “está na Bíblia”. E ele sabe muito bem que não está.

Ou estará? Informando o seu cinismo está a noção (baseada em fatos reais) de que a Bíblia é tão vasta e multiforme que pode conter informação e diretrizes que o mais ilustrado dos interlocutores não será capaz de recordar num dado momento. Ou ainda, que o texto bíblico já foi sujeito a tantas, variadas e infundadas interpretações que pode ser usado para fundamentar qualquer postura. Especialmente a de quem está falando.

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Azul é cor de menino e cor-de-rosa é cor de menina. Alguma dúvida?

Em 1918, um artigo do Ladies’ Home Journal explicava o que naquela época aparentemente todos sabiam: “A regra universalmente aceita é que cor-de-rosa é para os meninos e azul para as meninas. O motivo é que o cor-de-rosa, por ser uma cor mais forte, é mais própria para os meninos, enquanto o azul, que é mais delicado e mimoso, fica mais bonito para a menina.”

A historiadora Jeanne Maglaty, do Smithsonian Institute, está para publicar um livro no qual demonstra que o paradigma moderno (e portanto arbitrário) das cores que demarcam a diferença entre os sexos só ficou estabelecido a partir de 1940, e que a tendência anterior apontava precisamente na outra direção.

Por isso não provoque: é cor-de-rosa choque.

Quando as garotas começaram a usar cor-de-rosa?

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No mesmo dia em que li a nota acima fiquei sabendo da reação conservadora norte-americana a um anúncio da companhia de moda J. Crew que mostrava a diretora da empresa pintando as unhas do filho de cor-de-rosa. “Sorte minha que tenho um filho cuja cor favorita é o cor-de-rosa”, dizia a chamada abaixo da foto.

O psicólogo neoconservador Keith Ablow reagiu num artigo em que explica o seguinte:

Garotas surram garotas no Youtube. Rapazes fazem malhação e se embelezam até ficarem com abdomen de tanquinho e um penteado impecável. Embora aparentemente não haja nada de mais nisso, pode haver graves consequências quando ficar demonstrado que nenhum dos sexos permanece à vontade com a ideia de criar filhos acima de qualquer outra coisa, que nenhum dos sexos classifica manter uma família como coisa mais desejável do que fazer sexo arrebatador para sempre, e que nenhum dos sexos está motivado a proteger a nação marchando em combate contra outros homens, arriscando nisso as suas vidas.

E com isso aprendo uma preciosa lição, que o único valor humano mais sublime do que procriar é sair em resoluto combate de modo a eliminar a competição do DNA alheio.

E que é isso que nos coloca acima dos animais.

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E que cada um coloca na sua Bíblia o que quer. Porque, embora considere o ideal da barriga de tanquinho esteticamente tão lamentável (e certamente tão arbitrário) quanto o de unhas pintadas de qualquer cor, não pude deixar de notar que Keith Ablow usa o rosto ativamente barbeado — e não preciso lembrar o leitor que ninguém deve confiar num homem sem barba. Está na Bíblia.

Ou, como acrescenta algumas vezes o meu pai: “se não está, pode colocar que é bom”.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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