Pasta Jóia, We Dream • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 27 de setembro de 2007

Pasta Jóia, We Dream

Estocado em Nostalgia

Este documento contém clipes de áudio que só podem ser ouvidos na página da Bacia na internet.

Ontem pela manhã fui buscar o Corsa na João Hoffmann e enquanto terminavam o serviço fiquei em pé junto da entrada olhando para o dia friozinho e nublado do Bacacheri, pontuado por cinzas pétreos e verdes pungentes e coroado por uma garoa ralíssima. Eu vestia camiseta de manga comprida por baixo da camisa de flanela e uma grossa japona por cima, mas o vento gelado e fragrante tocou-me sem constrangimento o rosto – e percebi, numa epifania, que aquela brisa generosa tinha precisamente a mesma natureza, a mesma carga espiritual e sensorial, do vento da Curitiba de mais de 20 anos atrás. Aquela brisa antiga tinha dado a volta ao mundo e retornava agora carregada de lembranças de outro tempo.

Dear father, Neil Diamond | Clique no triângulo para ouvir

Lembrei-me da sala de madeira da casa da vó Vergínia, de conversar ali e contar piadas com minha irmã Alice e, pouco mais do que adolescentes, o Igor, o Dario e o Élder. Lembrei-de de ouvir Frank Mills e Zamfir e um LP dos Carpenters que tinha capa preta e Calling Occupants e Don’t Cry For Me e I Fall In Love Again e Sweet, Sweet Smile. Lembrei-me de dormir no assoalho de madeira daquela sala, debaixo de acolchoados de pena, com o tique-taque contínuo e o GON GON GON eventual do relógio de parede do vô Arhur. Lembrei-me da Bê gravando fitas no gravador do Caco, das gerações de cachorros que se chamaram Jeco e do perfume da cor-de-rosa e granulada Pasta Jóia com que o vô lavava as mãos depois de consertar em absoluto silêncio o cabo de alguma panela. Lembrei-me do frango de forno da vó, dos eternos bolinhos de carne, da batuta amarela e fininha do Carlos, feita de fibra de vidro, de ver a tia Lili pelando tomates antes de fazer molho (inusitado) e de sentar-me na caixa de lenha junto do fogão. Lá fora no gramado havia a pereira, e na pereira o perene balanço; dali ouvi o Hellington (irmão mais novo do Élder) apregoando, como quem fala de um futuro distante, o alinhamento dos planetas de 1982, que podia representar o fim da civilização. Sentado no mesmo balanço perguntei certa vez ao Caco qual ele achava ser a lição central de Fernão Capelo Gaivota, livro de Richard Bach que virou filme a que nunca assisti mas cuja trilha sonora (Neil Diamond: “Dear Father, We Dream”) gravou-me o Carlos numa fita cassette e sei absolutamente de cor.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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