Parting words • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 16 de abril de 2010

Parting words

Estocado em Manuscritos

As crianças ficaram absolutamente fascinadas com a ideia de que em três meses nossa casa estaria debaixo d’água. Eu e meu marido, que estávamos até aquele ponto inteiramente absorvidos em questões de logística e de prazos irreconciliáveis e mudanças de carreira e traumas a contornar, sentimo-nos muito sem aviso contagiados pelo seu entusiasmo. Havíamos planejado cuidadosamente o momento da revelação e esperávamos qualquer outra reação. Eles deram risadinhas cheias de deleite, apertaram as mãozinhas e trocaram olhares de cumplicidade.

— A essa altura não estaremos mais aqui — expliquei, muito séria, a fim de recalibrar qualquer expectativa insalubre que restasse em suas cabecinhas.

Mudamos pouco mais de um mês depois e só deixamos para trás o barco em seu abrigo, porque o Roger queria levar por água o barco para ser desmontado, assim que o nível da lagoa começasse a subir. Quando vimos na tevê que a água já estava atingindo a ponte de Agati, soubemos que a hora havia chegado.

Estava decidido que eu e o Roger iríamos sozinhos, mas na última hora não conseguimos babá; estavam todos, muito compreensivelmente, ocupados com suas próprias reacomodações, muitas delas mais atribuladas do que a nossa. Resolvemos encher a caminhonete de coisas de que não iríamos precisar e partirmos juntos os quatro — naquela que seria, afinal de contas, nossa última viagem naquele carro e a última vez em que veríamos a casa em que nossa família havia nascido.

Quando chegamos o barco já tocava o teto do abrigo e havia ficado preso numa calha interna; tivemos muito trabalho para livrá-lo da calha, contornar as traves do telhado e trazê-lo para fora. Quase tão trabalhoso foi manter nesse intervalo os meninos longe da casa, que já estava inteiramente destelhada, sem forro, inundada pela metade e eles queriam a todo custo explorar. Era mais de uma da tarde quando amarramos o barco na velha castanheira na divisa com os Grintal e entramos na casa.

Em poucos lugares o nível da água subia acima dos joelhos; era só no enorme banheiro da suíte que quase chegava na cintura. Estarrecido diante daquela epifania, coube ao pequeno Luca quebrar o silêncio:

— A casa inteira virou uma banheira!

O Roger avançou banheiro adentro, debaixo da luz tremenda da tarde, e testou o chuveiro: as fossas já estavam lacradas e a eletricidade já havia sido cortada, mas a água começou incrivelmente a correr. Ele olhou-me sem fechar o registro, entendi sem qualquer ruído a sua ideia e demorei pouco mais de um instante para concordar. Estávamos completamente exaustos e imundos da aventura lá fora, e mortalmente tensos diante das mudanças que estavam por vir.

— Hora de banho em família — expliquei, e nada pude acrescentar diante da algazarra extática que se seguiu.

Tomamos banho juntos, um banho numa banheira formidável que era a casa inteira que havíamos construído. Eu e meu marido ficamos orbitando a suíte, onde a água era mais funda, mas os meninos tomaram posse de cada aposento gritando e patinhando como bárbaros. Enquanto tirávamos a roupa ocorreu-me que nunca havíamos estado os quatro nus no mesmo recinto, embora Deus fosse testemunha de que havíamos conhecido toda sorte de combinações de nudez familiar.

Era assombroso ver a lagoa entrando pela nossa janela. Na suíte que era a banheira cantamos e dançamos e fizemos massagem nas costas uns dos outros e demos banho uns nos outros e tomamos café da garrafa térmica e dublamos os cantores pop da rádio que nos chegava das portas abertas da caminhonete; relaxamos debaixo do chuveiro e brincamos de cavalinho e comemos sanduíches em pratos flutuantes e celebramos com bolo e Schweppes e Coca-Cola. Meu marido transformou-se num monstro terrível que correu atrás dos meninos num mundo de aventuras que a meninas como eu era vetado vislumbrar; até onde sei dizer o monstro perseguiu-os, derrubou-os na água sem misericórdia e arrastou-os pelos pés para o escuro fundo da lagoa; quando tudo parecia perdido um irmão livrou o outro e arrastaram a criatura para fora e puxaram-no para onde era mais raso e o bicho deixou-se matar com golpes inclementes de isopor e boiou inerte e redimiu sem mácula os seus heróis.

Quando o Roger se aproximou do chuveiro ligado e entrelaçamos os pés, ocorreu-me que alguém em algum lugar estava se preocupando em desativar ogivas nucleares e certificar-se que milhares de satélites desativados não colidiriam uns com os outros, e nós estávamos aqui, fazendo esplendidamente nada. Ocorreu-me que perderíamos tudo mas estávamos juntos.

— Vou sentir falta deste lugar — eu disse.

— Vou sentir falta da internet — ele disse.

Mas não sentiríamos falta de nada.

Antes que saíssemos encharcados como patos e nos enxugássemos comunalmente ao lado da caminhonete e cobríssemos desnecessariamente os bancos com toalhas e o Roger saísse com o barco e o acompanhássemos por um bom trecho ao longo da estrada, gritando e acenando como se aquele fosse o último dia da terra, afastei meu copo dos lábios por um momento e brindei silenciosamente ao resto do mundo. Éramos Adão e Eva, e todos compartilhavam vicariamente da nossa banheira.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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