Paradigma • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 19 de agosto de 2015

Paradigma

Estocado em Manuscritos

Não tem fundamento a esperança de uma reconstituição completa do processo. Registro minha versão de segunda mão sem esperança de ser lido, entendido e muito menos – como seria inevitável há, digamos, trinta anos – compilado ao lado de outros na pretensão de um todo coerente. Não somos mais assim e é consenso universal que estamos em posição mais vantajosa.

O presente mundo é obra de um único teórico letonês, o tecno-místico Ainars Bučins, que em três ou quatro postagens do seu blog definiu o que veio a chamar-se (sem a intervenção dele) “paradigma de função”. O conceito, notável ou inevitável para a época saturada em que foi elaborado, declara simplesmente que num mundo tecnológico idealmente organizado o que está funcionando deve permanecer invisível. A ideia pendia de manuais de administração e design havia décadas, mas nunca havia sido colocada por escrito com essas palavras. Essa escolha de palavras gerou o nosso mundo.

A verdadeira invisibilidade era considerada, naturalmente, uma impossibilidade científica, e a tese de Bučins parece ter sido recebida como mero instrumento de validação do minimalismo impessoal que definia a disposição física de escritórios e linhas de montagem nas corporações.

Não foi assim que o interpretou um então desconhecido estudante de Hong Kong, cujo nome ocidental é Nelson Chu. Patrocinado por uma universidade norte-americana (esqueceu-se qual), Nelson trabalhou por três anos e meio num projeto cujo propósito nominal era a redução da fadiga visual em ambientes corporativos. Ao final do período Chu havia inventado a invisibilidade perceptual. Nelson Chu foi por dez ou doze anos o homem mais rico da terra, quando essas particularidades eram possíveis.

A invisibilidade perceptual foi aparentemente o primeiro experimento bem-sucedido de brain hacking, – e neste caso o ajuste manual do cérebro envolvia dois comprimidos de cores diferentes e uma agulha indolor introduzida por um instante no ouvido esquerdo. Quem se submetia ao experimento tornava-se em dois ou três dias – e definitivamente – imune à percepção visual de determinado padrão de losangos coloridos que lembrava para alguns a roupa de um arlequim, e que foi registrado sob o nome comercial de Sensee. Um avião, um feixe de cabos, um tapume – qualquer objeto pintado ou recoberto com o padrão tornava-se perceptualmente invisível para o hackeado (seer). A invisibilidade perceptual podia ser temporariamente anulada submetendo-se o seer à mínima diferença de potencial elétrico – fazendo-o segurar entre os dedos uma bateria AA, por exemplo.

O que está funcionando deve permanecer invisível.

As aplicações não demoraram a aparecer. A Sensee de Nelson Chu lançou em janeiro de 2022 1O conto original, publicado em 2006, dizia 2012. os cabos Invizen, que um revestimento interno de fibra de vidro mantinha eletronicamente recobertos com o padrão colorido Sensee, de modo a mantê-lo invisível para os hackeados. Em conformidade com o dogma de Ainars Bučins, a membrana de fibra desfazia automaticamente o padrão visual Sensee assim que qualquer irregularidade funcional era detetada pelos onipresentes (já nos dias de Bučins) sensores de falhas. Fiamentos, tubulações e equipamentos inteiros (como aquecedores) podiam dessa forma ser mantidos sensatamente invisíveis até que a visibilidade denunciasse que careciam de reparo.

A adoção da tecnologia foi unânime: primeiro na Europa e na Ásia, logo no restante do mundo, as indústrias haquearam compulsoriamente seus funcionários, adotaram os cabos e membranas Invizen, e o paradigma de função invadiu a vida real.

Os passos seguintes é que são irrecuperáveis. Como descobriu-se da maneira mais inusitada, num mundo conectado a adoção de uma ideia pode ser tão avassaladora ao ponto de ser impossível de rastrear. Em menos de cinco anos o paradigma de função havia saltado de escritórios e fábricas para acessórios domésticos e de decoração. Em menos de uma geração havia tanta coisa funcionando sob o dogma de Bučins e a tecnologia de Nelson Chu que boa parte do mundo tornara-se invisível: computadores, mesas, cadeiras, usinas, roupas, paredes, carros, assoalhos, capas de livro e baterias AA. A singularidade aconteceu quando as crianças começaram a nascer hackeadas, visualmente impermeáveis ao padrão Sensee mesmo antes de passarem pela transição que havido sido necessária para seus pais.

Hoje vivemos inteiramente nus, dormimos sob o abrigo das árvores e colhemos nossa comida diretamente do solo. Tudo parece estar funcionando, mas não encontro uma bateria AA e não tenho como conferir.

Publicado originalmente em 27 de setembro de 2006

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

Notas   [ + ]

1. O conto original, publicado em 2006, dizia 2012.
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