Pala-Pantír e Lelmal • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 06 de julho de 2006

Pala-Pantír e Lelmal

Estocado em Manuscritos

Pala-Pantír e Lelmal equilibravam os pés descalços na estreita borda interna de um imenso aro de metal que pendia na neblina metros acima da copa das árvores.

Lelmal falou, e sua voz não era desprovida de emoção.

– A décima-primeira e última tarefa da nossa jornada, meu caro Pala-Pantír, está em cruzar o mar interno de Bal-Perthez, cujas praias assombram a floresta úmida diretamente abaixo de nós.

Pala-Pantír, que havia sido marinheiro metade da vida, disse que o mar devia estar perto, que sentia-lhe nitidamente o cheiro.

– Mas não se engane – esclareceu Lelmal, mudando a perna de apoio. – Bal-Perthez não é um mar comum e deverá ser nosso maior desafio. Ao contrário dos mares e oceanos que você conhece, todos planos como uma campina, o mar de Bal-Perthez é irregular mesmo em dia de calmaria, porque acompanha os acidentes do terreno. Ainda que a água tenha por vezes centenas de braças de profundidade, a superfície espelha fabulosamente os declives e aclives do relevo submerso.

– Um mar com montanhas e planaltos! De fato soa como um adversário notável. Lelmal, Bal-Perthez… esse nome deveria me dizer alguma coisa?

– Alguns dizem que é corruptela de Malpertuis. Outros garantem que significa literalmente “o Baal de Perthez”, quem quer que seja o sujeito.

Pala-Pantír ajeitou a máscara de elefante e fez menção de começar a descida.

– Mais uma coisa – Lelmal deteve o companheiro tocando-o no braço. – O ponto mais perigoso do mar é a passagem do desfiladeiro de Bajnedin, que devemos evitar a todo custo. Diz-se que o lugar é infestado de redemoinhos mortais, e que um homem surpreendido pela maré no meio do desfiladeiro não tem como sobreviver. Sei que já sobrevivemos a inimigos formidáveis, mas penso que pode ser melhor não arriscar agora que chegamos tão perto.

Pala-Pantír sorriu, tranqüilizou o outro com um braço na nuca e deslizou para fora do aro.

Meia hora depois subiam um contraforte arborizado de montanha com água salgada pelos joelhos. Nadaram mais meia hora em águas cada vez mais profundas antes de localizarem, perto do alto de uma colina de topo arredondado, o primeiro redemoinho. Nadaram para longe e neste momento o mar, seletivo como os mares conseguem ser, separou pela primeira vez os dois mochileiros desde o começo de suas aventuras. Pala-Pantír escorregou declive abaixo, enquanto as ondas carregavam Lelmal para o outro lado da colina, roubando-o de vista. Pala-Pantír gritou pelo amigo e tentou vencer a distância que o separava da crista da colina, lutando contra a força somada da corrente e da gravidade, mas um redemoinho sugou-o rápido e silenciosamente para baixo.

No turvor da água que o engolia Pala-Pantír julgou ver o perfil indistinto de todos os monstros e guerreiros e exércitos que tinham derrotado ao longo da jornada.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

Clique aqui para receber as publicações deste sáite por email.

Arquivado sob as rubricas

 

<
>

Depositado em juízo por Paulo Brabo · Desde 2004 · Sobre o autor e esta Bacia · Receba por email · Leia um livro · Olhe desenhos · Vasculhe os arquivos · A amizade continua a mesma no twitter, no Instagram, no Flickr e até no Google+ · Mas não no Facebook · Assine com RSS · Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo nas Índias Ocidentais · Fale comigo · A Bacia das Almas apoia causas aleatórias