04 de Abril de 2012

Aquela distinção apaixonada

Depositado em juízo por   Paulo Brabo


Estocado em Goiabas Roubadas

 

Mas enquanto a maioria dos filósofos e comentaristas da sua época saudava essa grande nivelação da cultura como sinal da democratização da sociedade, Kierkegaard acreditava que ela poderia representar um declínio na coesão social, um festim de reflexão interminável e desinteressada, o triunfo de uma curiosidade intelectual infinita mas rasa que acabaria impedindo um compromisso profundo, significativo e espiritual com qualquer questão particular.

“Nem mesmo um dos que pertencem ao público tem um compromisso essencial com o que quer que seja”, Kierkegaard observava amargamente em seu diário. De repente as pessoas começavam a interessar-se por tudo e por nada ao mesmo tempo; todos os assuntos, não importava quão ridículos ou sublimes, estavam sendo equalizados de tal modo que nenhuma causa importava mais o bastante para se dar a vida por ela. A terra estava se tornando plana, e Kierkegaard odiava a ideia. Para ele, todas as conversas produzidas nos cafés só estavam levando “à abolição daquela distinção apaixonada entre ficar quieto e falar”. E o silêncio para Kierkegaard era importante, porque “só a pessoa capaz de ficar essencialmente quieta é capaz de falar de modo essencial”.

Para Kierkegaard, o problema com a crescente conversação – epitomada pela “absolutamente desmoralizante existência da imprensa diária” – era que ela existia do lado de fora das estruturas políticas e exercia muito pouca influência sobre elas. A imprensa forçava as pessoas a desenvolver opiniões veementes a respeito de todos os assuntos, mas raramente motivava o impulso de agir em conformidade com elas. Com frequência as pessoas encontravam-se tão inundadas de opiniões e de informação que acabavam adiando indefinidamente qualquer decisão importante.

A falta de compromisso, ocasionada pela multiplicidade de possibilidades e pela fácil disponibilidade de rápidos paliativos espirituais e intelectuais, é que era o verdadeiro alvo da crítica de Kierkegaard. Ele acreditava que era só fazendo compromissos (um de seus termos favoritos) arriscados, profundos e autênticos; que era só discriminando entre diferentes causas e lidando com os triunfos e os desapontamentos dessas escolhas e aprendendo com as experiências resultantes, que as pessoas alcançavam a sabedoria e enchiam suas vidas de significado. “Se você é capaz de ser um homem, o perigo e o severo julgamento de existir irrefletidamente irá ajudá-lo a tornar-se um” é como ele resumia a filosofia que viria a ser conhecida como existencialismo.

Não é difícil imaginar o que Kierkegaard teria pensado da cultura da internet dos nossos dias, dominada por um ciclo de 24 horas de sabichonice e de um compromisso fluido com ideias e relacionamentos. “O que Kierkegaard via como a consequência de uma cobertura irresponsável e descomprometida por parte da imprensa alcançou sua plena concretização na internet”, escreve Hubert Dreyfus, filósofo da Universidade da Califórnia em Berkeley. Um mundo em que professar o comprometimento pessoal com a justiça social não requer mais do que redigir um status socialmente consciente de Facebook teria despertado em Kierkegaard o mais profundo rancor.

Evgeny Morozov, em The Net Delusion



31 de Março de 2012

O sentido da vida: o consumidor como elite revolucionária

Auditado por   Paulo Brabo


Estocado em Goiabas Roubadas

 

O truque mais incrível da Apple, alcançado através tanto de marketing quanto de filosofia, é fazer com que seus consumidores sintam que estão pessoalmente fazendo história – que são uma espécie de elite histórico-espiritual, mesmo quando existem milhões deles. O comprador de um produto da Apple sente que está fazendo parte de uma missão histórico-mundial, uma revolução – e Jobs gostava tanto da retórica revolucionária que a revista Rolling Stone deu a ele o apelido de “Sr. Revolução”.

[...] Não é de admirar que a contracultura tenha malogrado no começou da década de 1980: a promessa era que todos podiam mudar o mundo comprando um Macintosh. Equiparar a Apple ao processo histórico (Hegel chega a Palo Alto!) e convencer o mercado de que a companhia sempre representa o lado bom de todo conflito abriu horizontes não mapeados em criatividade promocional. Para vender seus produtos Jobs recorreu ao poder da cultura; ele foi um gênio do marketing porque apelava sempre para o sentido da vida. Com sua primeira linha de computadores, a Apple apropriou-se com sucesso do tema da decentralização de poder na tecnologia que foi tão caro para a Nova Esquerda na década anterior. Se as pessoas ansiavam por uma tecnologia que fosse pequena e bonita – para emprestar o slogan de E. F. Schumarcher, popular naquela época, – Jobs podia dar isso a elas.

A Apple permitiu que gente que havia perdido todas as batalhas importantes da sua era pudesse participar de uma luta sua – uma batalha por progresso, por humanidade, por inovação. E essa era uma batalha que só podia ser vencida nas lojas. Como disse à revista Esquire, no começo da década de 1980, o diretor de marketing da Apple: “Todos sentíamos que tínhamos perdido o movimento dos direitos civis. Tínhamos perdido o Vietnam. O que tínhamos era o Macintosh”. O consumidor como revolucionário: era uma noção brilhante – e, é claro, uma ilusão terrível.

Evgeny Morozov, em Form and Fortune,
pela mão de Matt Cardin

Leia também:
O profeta e a revolução
As variedades da experiência capitalista
A conquista do público e a punição dos indisciplinados



30 de Março de 2012

A vida na serra

Fermentado por   Paulo Brabo


Estocado em Fotografia

 

Clique na imagem para ampliar.

Em pé no meio do rio a está o Tuco Egg, e juntando-se a ele seu irmão Tato, ambos habitantes da Trilha e protagonistas de incríveis histórias de montanha.



29 de Março de 2012

Esquecimento

Incorporado por   Paulo Brabo


Estocado em Goiabas Roubadas

 

O nome do autor é a primeira coisa a desaparecer
seguido obedientemente pelo título, o enredo,
a lastimosa conclusão, o romance inteiro
transforma-se de repente num livro que você nunca leu
nem ouviu falar,

como se uma a uma as lembranças que você costumava abrigar
decidissem retirar-se para o hemisfério meridional do cérebro,
a uma vilinha de pescadores que nem telefone tem.

Há tempo você disse adeus aos nome das nove musas
e observou a equação de segundo grau fazendo as malas,
e mesmo agora, enquanto memoriza a ordem dos planetas,

alguma outra coisa está escapulindo, a árvore que simboliza um estado talvez,
o endereço de um tio, a capital do Paraguai.

O que quer que você esteja lutando para lembrar,
não está suspenso na ponta da língua
ou espreitando num canto obscuro do baço.

Já boiou para longe descendo o sombrio rio mitológico
cujo nome se sua memória não falha começa com L,
estando você mesmo a caminho do esquecimento
onde se juntará a esses que esqueceram até como nadar e andar de bicicleta.

Não é de espantar que você acorde no meio da noite
para procurar a data de uma batalha famosa num livro de guerra.
Não é de espantar que a lua na janela pareça ter resvalado
de um poema de amor que você sabia de cor.

Billy Collins



28 de Março de 2012

A quieta virtude do corpo aberto

Entregue em consignação por   Paulo Brabo


Estocado em Manuscritos

 

Não encontro outra maneira de dizer: algumas pessoas tem corpo aberto, e com isso quero dizer que algumas pessoas você sente intuitivamente que não se importam de ser tocadas. A maioria de nós – embora eu talvez esteja falando apenas da minha mínima fatia de ocidente – tem corpo fechado: preferimos não ser tocados, especialmente por estranhos, e largamos no caminho deste mundo indícios muito claros disso.

Mas o milagre, o improvável milagre, é que entre nós existem pessoas de corpo aberto. Sem que digam nada, você acaba sacando que pode tocá-las no braço para estabelecer um contato e transmitir uma ênfase, mesmo se for a primeira vez que estiverem conversando. Se você estiver sentado no chão e a pessoa de corpo aberto estiver sentada numa poltrona, você sentirá como coisa muito natural a ideia de recostar as costas junto às pernas dela. Uma pessoa de corpo aberto não vai se importar se você de repente capturar-lhe um dedo, tocar-lhe as costas da mão, encostar o seu braço no dela, apertar-lhe os ombros para uma massagem sem método e sem motivo.

É importante que eu deixe logo claro que não estou falando daquelas pessoas-que-pegam-em-você, muito menos justificando esse método de invasão territorial. As pessoas-que-pegam-em-você não respeitam os conceitos mais fundamentais de autonomia e de civilidade, e nisso negam sua própria autonomia e sua própria civilidade. Pegam em você não para estabelecer contato, mas para invadir e explorar, espoliar e possuir, e para isso não há justificativa.

A uma pessoa de corpo aberto jamais ocorreria invadir: muito pelo contrário. Sua luz, sua atração e seu método residem na sua autossuficiência. Como um distraído deus, a pessoa de corpo aberto é tão senhora do seu mundo que sinaliza gentilmente que nada pode violar a sua soberania. Não transmite convites, mas comunica muito serenamente a abolição das interdições usuais. Trata-se de uma transmissão quieta, jamais alardeada verbalmente, mas que você acaba percebendo, muitas vezes imediatamente.

Embora a mulher tenha demorado milênios a conquistar o direito sobre a posição do próprio corpo na geografia social, esta não é e nunca foi uma questão de gênero; há homens de corpo fechado e mulheres de corpo aberto. Não é uma questão de classe social; há pobres de corpo fechado e ricos de corpo aberto. Não é uma questão de idade; há jovens de corpo fechado e velhos de corpo aberto. Não é uma questão de humor; há gente dulcíssima de corpo fechado e gente irritadiça de corpo aberto. Não é uma questão de orientação sexual; há homossexuais de corpo fechado e heterossexuais de corpo aberto. Não é questão de estado civil; há gente solteira de corpo fechado e gente casada de corpo aberto. E, sempre, em todos os casos, vice e versa.

Se estou dizendo isso é porque muitas vezes me ocorreu que ter o corpo aberto é uma virtude cristã, talvez a virtude cristã por excelência, porque é ao mesmo tempo a mais recatada e a mais escancarada, a mais humilde e a mais ambiciosa, a mais invisível e a mais revolucionária, a mais sofisticada e a mais acessível da virtudes. Que as verdadeiras luzes da herança de Jesus – digamos, na falta de outras, São Francisco, – tinham corpo aberto, se intui mesmo por aqueles que conhecem minimamente a sua história; e sem que pensemos muito nisso, acabamos entendendo que essa gentileza de corpo, essa disponibilidade do abraço, fazia parte absolutamente essencial da sua mensagem e do seu impacto através das eras.

Há, é claro, solenes e numerosos indícios de que o próprio Jesus tenha tido corpo aberto em seus dias na Terra (e, talvez mesmo depois, como encena continuamente a narrativa de Tomé). Na sociedade do tempo de Jesus a política do corpo era pelo menos tão complexa e exigente quanto a da nossa; acho irresistível que os evangelistas tenham considerado as violações de Jesus à política vigente do corpo singulares e significativas o bastante para terem-nas deixado registradas nos evangelhos. De fato, uma das coisas que fazem com que os evangelhos como gênero literário se diferenciem por completo da literatura da sua época é a sua disposição em pausar para discorrer sobre as questões do corpo. Que o tráfico entre corpos – a lavagem de pés, o beijo, o partir do pão, a saliva curativa, o amigo que se reclina sobre o peito – pudesse fazer parte integrante ou essencial de uma biografia ou de uma mensagem profética é coisa que a própria figura de Jesus parece ter inspirado. Aparentemente nenhum corpo havia inspirado as mesmas associações antes, e permanecem raros – e num certo sentido divinos – os que as inspiram depois.

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A paixão de Francesco



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