Os sonhos do pó • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 28 de novembro de 2005

Os sonhos do pó

Estocado em Manuscritos · Pense comigo

– Estive aqui pensando no que você disse sobre seu guri – o homem mais velho colocou a pá de lado e usou as duas mãos para erguer o corpo até a borda do túmulo.

Aquela era o último, e os dois sabiam que não tinham pressa: o caminhão demoraria a voltar vazio para a última remessa. Era perto das três da tarde; atrás deles dois velhos ataúdes aguardavam um ao lado do outro, como encomendas, junto ao portão do pequeno cemitério.

– Esse é fundo – gemeu o mais jovem, içando-se também para a terra firme, dando a entender que era mesmo hora de um intervalo.

Os dois ficaram em silêncio por um momento, procurando intuitivamente o som do rio.

– Lembrei do que Freud dizia – interrompeu o mais velho, tirando com os dedos um fio de bigode de dentro da própria boca. – Que a gente nasce cedo demais.

Ele deixou que a idéia penetrasse o silêncio da tarde antes de prosseguir.

– O homem é o bicho que nasce menos pronto, mais imbecil e mais vulnerável, e precisa por isso do cuidado da mãe mais do que qualquer outro. Depois do nascimento o bebê não sabe onde ele termina e onde começa a mãe. O pobre do infeliz não tem como saber que a boa vida de dentro da barriga acabou: qualquer coisa que ele precisa é a mãe que dá, e o que ele quer e não tem foi também a mãe que não deu. A primeira coisa que a gente ama é também a primeira que a gente odeia: a mãe da gente.

O mais jovem sorriu em silêncio. Achava que sabia onde o outro queria chegar.

– O infeliz do pai – prosseguiu o homem mais velho – é o primeiro intruso nesse paraíso que a criança vive com a mãe. Você é inimigo dele, e pronto. A mãe fica sendo eternamente a mocinha e você o bandido. A frustração com a mãe o bebê aprende logo a despejar no pai.

– Édipo – foi o que disse o mais jovem, virando o rosto para acompanhar a passagem de uma caminhonete pela estradinha, carregada até o gargalo de caixas, livros, colchões e móveis velhos. – O cara que apaixonou-se pela mãe. E matou o pai.

– O que eu acho mais interessante – continuou o mais velho sem comentar, como que irritado com a interrupção – é que o louco do Freud achava que essa história dos primeiros meses ficava pra sempre presa dentro da gente. Soterrada, que nem vai estar toda essa região quando a água da represa subir. Vai estar tudo aqui, mas ninguém vai ver.

Os dois olharam teatralmente ao redor, cada um imaginando como seria quando estivesse tudo submerso.

– Pode até ser – disse finalmente o mais novo.

– Tudo fica enterrado – insistiu o homem velho. – E às vezes brota nos sonhos.

– Pra te assombrar – brincou o outro.

– Exatamente – o homem mais velho começou a puxar e empurrar a pá pelo cabo, ferindo levemente a grama. – Tem gente que acredita que tudo vem daí. Todas as idéias, todas as histórias da terra, todos os mitos, todas as religiões. Vêm tudo dos sonhos, que vem por sua vez dos pesadelos enterrados da infância. O que está na luz vem do que está enterrado. O inconsciente, eles chamam, é o inferno; o subconsciente é o purgatório.

O mais jovem sorriu.

– E o consciente o que é? O paraíso?

O mais velho também sorriu.

– A consciência é uma mentira branca. Ajuda a gente a passar pela vida antes de cair num buraco desses.

O mais jovem pôs-se de pé e espreguiçou-se sob o sol, juntando forças para voltar a empunhar a pá. Ele andou até o canto do muro interno onde estavam encostadas umas as outras, como pedras caídas de dominó e em nenhuma ordem particular, as lápides que haviam marcado os túmulos. Alguns traziam fotos antigas encrustadas em molduras ovais. Caminhou devagar, fazendo contas: as datas marcavam às vezes intervalos impossivelmente curtos. Esse morreu com onze anos.

– É um absurdo que a gente não vá levar as lápides – ele resmungou, sabendo que não haviam realmente mudado de assunto. – O governo tem dinheiro para levar os caixões, mas não as lápides.

– Eles vão ter lápides novas lá – o velho explicou o que já tinha sido discutido muitas vezes antes entre eles. – Daquelas padronizadas de mármore preto gravado.

O mais jovem caminhou de volta até a sepultura que estavam escavando. Levantou a pá e apoiou-a no ombro.

– Acho que é mais de longe – ele finalmente disse, olhando ao redor para lugar nenhum. – Que nem Shakespeare dizia: o rei morre, o verme come o rei, o peixe come o verme, a gente come o peixe.

– A gente come o rei – completou o mais velho, olhando para o outro em pé, um dos olhos fechados para proteger do sol.

– O que explica tudo é que a gente fica tempo demais dentro da terra antes de nascer. Antes da nossa mãe comer o peixe, quero dizer. Ficamos séculos e séculos matutando dentro da terra, encolhidinhos, sem nunca nem sonhar em brotar e sair – ele baixou e girou a pá de modo a ferir a terra como o outro havia estado fazendo. – Mas a terra alimenta a planta, a planta alimenta o gado, nossos pais comem o gado. Pronto: está feita a bobagem. Os sonhos vem da nossa saudade da terra. Do útero da terra.

Ele deslizou para dentro do túmulo, e o homem mais velho acompanhou-o com sua pá.

– Do pó vieste – ele disse.

– Ao pó voltarás – disse o outro, e empurrou a pá terra adentro com a bota.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

Clique aqui para receber as publicações deste sáite por email.

Arquivado sob as rubricas

 

<
>

Depositado em juízo por Paulo Brabo · Desde 2004 · Sobre o autor e esta Bacia · Receba por email · Leia um livro · Olhe desenhos · Vasculhe os arquivos · A amizade continua a mesma no twitter, no Instagram, no Flickr e até no Google+ · Mas não no Facebook · Assine com RSS · Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo nas Índias Ocidentais · Fale comigo · A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna