Os que dão as costas a Omelas • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 06 de maio de 2011

Os que dão as costas a Omelas

Estocado em Goiabas Roubadas

Com um clangor de sinos que fez as andorinhas voarem em disparada, o Festival do Verão chegou à cidade de Omelas, de torres fulgurantes junto ao mar. O cordame dos barcos atracados cintilava com bandeiras. Nas ruas, entre casas de telhados vermelhos e paredes pintadas, entre jardins antigos e musgosos e sob avenidas arborizadas, ao largo de imensos parques e edifícios públicos, as procissões avançavam. Algumas eram decorosas: gente anciã trajando longas e rígidas túnicas em malva e cinza, sisudos capatazes, mulheres serenas e satisfeitas carregando bebês no colo e conversando enquanto caminhavam. Em outras ruas o ritmo da música se adiantava: um rutilar de gongo e de tamborim e as pessoas começavam a dançar, a procissão em si uma dança. As crianças deslizavam para dentro e para fora, seus gritos agudos elevando-se como o das andorinhas que cruzavam em voo acima da música e da cantoria. Todas as procissões serpenteavam em direção ao norte da cidade, onde na extensa várzea conhecida como Verdes Prados meninos e meninas, nus sob o ar límpido, com pés e calcanhares sujos de lama e braços longos e ágeis exercitavam seus irrequietos cavalos antes da corrida. Os cavalos não usavam qualquer equipamento além de rédeas sem embocadura, suas crinas trançadas com fitas em prata, ouro e verde. Bafejavam pelas narinas e empinavam e exibiam-se uns para os outros; estavam imensamente agitados, sendo o cavalo o único animal a adotar como sua nossas cerimônias. Na distância, a oeste e norte, erguiam-se as montanhas que envolviam parcialmente Omelas e sua baía. O ar da manhã estava tão límpido que a neve que ainda coroava os Dezoito Picos ardia com fogo branco-dourado através das milhas de ar ensolarado, debaixo do azul escuro do céu. O vento que havia bastava apenas para fazer com que tremulassem de vez em quando as flâmulas que delimitavam a pista de corrida. No silêncio dos vastos prados verdes ouvia-se a música que serpeava ao longo das ruas da cidade, mais longe aqui, mais perto ali e sempre se aproximando, enquanto uma sutil e cordial doçura de ar ocasionalmente vibrava, congregava-se e explodia no formidável e jubiloso clangor dos sinos.

Jubiloso! Como se descreve a alegria? Como descrever os cidadãos de Omelas?

Olhe que não eram gente simples, apesar de serem felizes. Porém a verdade é que hoje em dia deixamos de proferir quase toda palavra de alegria; todos os sorrisos tornaram-se arcaicos. Diante de uma descrição como essa nossa tendência é fazer determinadas suposições; diante de uma descrição como essas nossa tendência é procurar em seguida o Rei, montado num formidável corcel e cercado por nobres cavaleiros, ou talvez numa liteira de ouro transportada por musculados escravos. Mas não havia rei. E não usavam espadas, nem tinham escravos. Não eram bárbaros. Não conheço as leis e normas que regiam a sua sociedade, mas suspeito que fossem singularmente pouco numerosas. Do mesmo modo que haviam aberto mão da monarquia e da escravatura, seguiam sem bolsa de valores, sem publicidade, sem polícia secreta e sem bomba atômica. Mas preciso repetir que não eram gente simples, não meigos pastores, nobres selvagens, insípidos utopistas. Não eram menos complexos do que nós.

O problema é que temos o mau hábito, encorajado por pedantes e estetas, de considerar a felicidade como algo meio idiota. Só a dor é intelectual, só a perversidade é interessante. Aqui reside a traição do artista: uma recusa a admitir a banalidade do mal e o terrível tédio da dor. Se não se pode vencê-los, junte-se a eles. Se dói, faça de novo. Porém louvar o desespero é condenar o deleite, abraçar a violência é perder acesso a todo o resto. E quase perdemos esse acesso; já não podemos descrever um homem feliz nem fazer qualquer celebração de júbilo. Como posso lhe falar sobre os habitantes de Omelas? Não eram crianças ingênuas e felizes — embora seus filhos fossem, de fato, felizes. Eram adultos maduros, inteligentes e apaixonados cujas vidas não haviam sido arruinadas. Ah, o milagre. Mas queria ser capaz de descrevê-los melhor. Queria ser capaz de convencer você. Nas minhas palavras Omelas soa como uma cidade de conto de fadas: há muito tempo atrás e num lugar distante, era uma vez. Talvez fosse melhor deixar que vocês a imaginassem como achassem por bem, porque ela se mostrará à altura do desafio, e com certeza não serei capaz de satisfazê-los a todos. Por exemplo, e quanto à tecnologia? Não creio que haveriam carros e helicópteros nas ruas e acima delas; isso se deduz do fato de que o povo de Omelas é um povo feliz. A felicidade está fundamentada sobre uma correta discriminação entre aquilo que é necessário, aquilo que não é necessário mas não é destrutivo, e aquilo que é destrutivo. Na categoria intermediária, entretanto — a de coisas desnecessárias mas não destrutivas, que inclui conforto, luxo, exuberância, etc — é perfeitamente concebível que tivessem aquecimento central, metrô, máquinas de lavar e todo tipo de dispositivos ainda não inventados aqui: fontes de luz flutuantes, energia sem combustível, a cura do resfriado comum. Ou poderiam não ter nada disso: não faz diferença. Fica a seu critério. Estou inclinada a imaginar que gente das cidades ao longo da costa tem se dirigido a Omelas durante os dias que antecedem o Festival em trens muito rápidos e bondes de dois andares, e que a estação ferroviária de Omelas é na verdade o prédio mais bonito da cidade, embora mais simples do que o esplêndido Mercado Rural. Mas mesmo que abramos uma concessão para trens, temo que até agora Omelas possa estar dando a alguns de vocês uma impressão de fanfarronice. Sorrisos, sinos, paradas, cavalos, blá blá blá. Se você está achando isso, por favor acrescente uma orgia. Se uma orgia for ajudar, não hesite. Vamos combinar, no entanto, que não teremos templos dos quais saem belos e nus sacerdotes e sacerdotisas, já meio extáticos e prontos para copular com qualquer homem ou mulher, amante ou estranho, que anseia por uma união com a profunda divindade do sangue, embora essa tenha sido minha primeira ideia. Acho melhor não termos templos em Omelas — pelo menos, não templos operados por gente. Religião sim, clero não. Naturalmente que essa gente nua e bonita pode simplesmente perambular por aí, oferecendo-se como divinos suflês para satisfazer a fome dos necessitados e o arrebatamento da carne. Que unam-se então às procissões. Que repiquem os tamborins acima das cópulas, e que o desejo cruento seja proclamado com gongos, e (detalhe não menos importante) que a progênie desses deleitáveis rituais seja amada e acolhida por todos. Uma coisa que estou certa de estar ausente de Omelas é a culpa. Mas o que mais deveria haver ali? Num primeiro momento achei que não haveriam entorpecentes, mas seria puritanismo. Para os que curtem, a fragrância sutil, doce e insistente de drogas pode perfumar os caminhos da cidade, drogas que de início produzem formidáveis leveza e intensidade à mente e aos membros, depois de algumas horas uma vaga languidez, e finalmente maravilhosas visões do genuinamente arcano e dos segredos mais profundos do universo, suscitando ainda o prazer de sexo inteiramente inacreditável; e não causa dependência. Para gostos mais moderados estou achando que deveria haver cerveja. Que mais? O que mais tem lugar na cidade do júbilo? O sentimento de vitória, sem dúvida, a celebração da coragem. Mas como renunciamos ao clero, abramos também mão de soldados. A alegria fundamentada na chacina bem-sucedida não é o tipo certo de alegria; não vai servir; é medonha e trivial. Um contentamento generoso que não conhece limites, um triunfo magnânimo sentido não contra um inimigo exterior mas na comunhão com o que há de mais excelente e belo nas almas de todos homens em todo lugar, bem como o esplendor do verão do mundo: é isso que enche o coração dos habitantes de Omelas, e a vitória que celebram é a vida. Não creio que muitos deles precisem usar drogas.

A esta altura a maior parte das procissões já chegou aos Verdes Prados. Um estupendo cheiro de comida escapa das tendas azuis e vermelhas dos provisioneiros. Os rostos de todas as criancinhas estão afetuosamente grudentos; na benigna barba cinza de um homem, duas migalhas de folhado permanecem emaranhadas. Os garotos e garotas montaram seus cavalos e estão se agrupando junto à linha de partida. Uma senhora gorda, baixa e sorridente está distribuindo as flores de um cesto, e rapazes muito altos usam as flores no cabelo reluzente. Uma criança de nove ou dez anos senta-se sozinha na orla da multidão, tocando uma flauta de madeira. As pessoas param para ouvir e sorriem, mas não falam com ela, pois ela nunca para de tocar e nunca as vê, seus olhos escuros inteiramente arrebatados pela coisa doce e tênue mágica da melodia.

Ela então termina, baixando devagar as mãos que seguram a flauta de madeira.

E como se aquele pequeno silêncio privado fosse o sinal, de repente uma trombeta soa do pavilhão ao lado da linha de partida: altiva, melancólica, pungente. Os cavalos recuam sobre suas pernas esguias, outros relincham em resposta. Seus rostos muito sóbrios, os jovens cavaleiros acariciam os pescoços de suas montarias e tranquilizam-nas em sussurros: “Calma, calma. Assim, minha beleza, minha esperança…” Começam a alinhar-se em formação ao longo da linha de partida. As multidões ao longo da pista são como um campo de erva e como flores ao vento. Começa o Festival de Verão.

Você está acreditando? Está aceitando o festival, a cidade, a alegria? Não? Então deixe-me descrever mais uma coisa.

No subsolo de um dos belos edifícios públicos de Omelas, ou talvez no porão de uma de suas espaçosas residências privadas, há um quarto com uma porta trancada e sem janelas. Um pouco de luz penetra empoeiradamente por entre as frestas das tábuas, cortesia de uma janela coberta de teias de aranha em outra parte do porão. Num canto do quartinho dois esfregões de cabeças rígidas, emaranhadas e mau cheirosas postam-se junto a um balde enferrujado. O chão é de terra um pouco úmida ao toque, como chão de porão costuma ser. O quarto tem cerca de três passos de comprimento e dois de largura: um mero armário de vassouras ou um quartinho de ferramentas sem uso. Dentro do quarto há uma criança sentada. Pode ser um menino ou uma menina. Aparenta ter seis anos, mas tem na verdade dez. É deficiente mental. Talvez tenha nascido imperfeita, talvez tenha se tornado deficiente devido ao medo, à má-nutrição e à negligência. Ela enfia o dedo no nariz e ocasionalmente manuseia vagamente os dedos dos pés ou os órgãos genitais, enquanto permanece sentada no canto mais distante do balde de ferro e dos dois esfregões. Ela tem medo dos esfregões. Acha-os pavorosos. Fecha os olhos, mas sabe que os esfregões ainda estão ali em pé; e a porta trancada; e ninguém vai vir. A porta está sempre trancada e ninguém jamais vem, a não ser quando às vezes — a criança não tem noção de tempo ou de intervalo — às vezes a porta faz um alarido terrível e se abre, e uma pessoa, ou diversas pessoas, estão ali. Um deles pode entrar em chutar a criança para fazê-la ficar em pé. Os outros nunca se aproximam, mas espiam com olhos cheios de pavor e repulsa. A vasilha de comida e a jarra de água são rudemente enchidas, e a porta é trancada; os olhos desaparecem. As pessoas na porta nunca dizem nada, mas a criança, que não viveu desde sempre no quartinho de ferramentas e consegue lembrar a luz o sol da voz da mãe, de vez em quando fala. “Eu vou ser boazinha”, ela diz. “Me deixa sair, por favor. Eu vou ser boazinha”. Eles nunca respondem. A criança costumava gritar por ajuda durante a noite, e chorava um bom bocado, mas hoje em dia só faz uma espécie de lamúria, “irrã, irrã”, e fala com frequência cada vez menor. É também muito magra, e suas pernas não tem panturrilhas; sua barriga é proeminente; vive de meia vasilha de fubá e banha por dia. Está nua. Suas nádegas e coxas são uma massa de úlceras inflamadas, visto que vive sentada sobre o próprio excremento.

Todos sabem que ela está lá, todo o povo de Omelas. Alguns vieram vê-la, para outros basta saber que ela está lá. Todos sabem que ela tem de estar ali. Alguns entendem porquê, outros não, mas todos entendem que sua felicidade, a beleza da cidade, a ternura de suas amizades, a saúde de seus filhos, a sabedoria de seus eruditos, a habilidade de seus artesãos e até mesmo a abundância da sua colheita e o clima gentil de seus céus dependem inteiramente da abominável miséria dessa criança.

Isso é normalmente explicado às crianças entre os oito e os doze anos de idade, quando se tornam capazes de entender; e a maior parte dos que vem ver a criança são jovens, embora de vez em quando um adulto venha, ou volte, para vê-la. Não importa o quão bem tenha sido explicado a eles, esses jovens espectadores ficam sempre chocados e revoltados diante da visão. Sentem repugnância, sentimento ao qual se julgavam superiores. Sentem raiva, indignação e impotência, apesar de todas as explicações. Queriam fazer alguma coisa pela criança. Mas não há nada que possam fazer. Se a criança fosse trazida para a luz do sol, para fora daquele lugar repugnante, se fosse banhada e alimentada e confortada, seria de fato uma boa coisa; mas, se fosse feito, naquele dia e naquela hora toda a prosperidade e beleza e prazer de Omelas definhariam e seriam destruídos. Esses são os termos. Trocar toda o bem e toda a graça de cada vida em Omelas por essa única e pequena beneficência; jogar fora a felicidade de milhares pela chance de felicidade de um só: isso sim traria a culpa para dentro dos muros da cidade.

Os termos são estritos e absolutos; nem mesmo uma palavra de bondade pode ser oferecida à criança.

Não é raro que os jovenzinhos voltem para casa em prantos, ou numa indignação sem lágrimas, depois de verem a criança e enfrentarem esse terrível paradoxo. Ficam às vezes remoendo o assunto por semanas. Mas com o passar do tempo começam a perceber que mesmo se fosse libertada a criança não teria como ganhar muito com a sua liberdade; o vago prazerzinho da comida e de um lugar aquecido, sem dúvida, mas pouco mais do que isso. Ela está por demais degradada e deficiente para conhecer qualquer alegria genuína. Tem medo há tempo demais para chegar a se libertar do temor. Seus hábitos são grosseiros demais para poder responder a um tratamento humanitário. Provavelmente não iria demorar para que ela sentisse falta de paredes para protegê-la, de escuridão para os olhos e de seu próprio excremento para sentar. As lágrimas diante da amarga injustiça secam quando eles começam a perceber a terrível justiça da realidade, e a aceitá-la. Porém talvez sejam justamente suas lágrimas e sua indignação, o teste da sua generosidade e a aceitação de sua impotência, a verdadeira fonte do esplendor de suas vidas. Sua felicidade não é algo insípido e irresponsável. Sabem que, como a criança, não são livres. Conhecem a compaixão. É a existência da criança, sua consciência da existência dela, que torna possível a nobreza de sua arquitetura, a pungência da sua música, a profundidade da sua ciência. É por causa da criança que são tão gentis com seus filhos. Sabem que se a miserável não estivesse ali lamuriando-se na escuridão, o outro, o tocador de flauta, não poderia produzir sua música jubilosa enquanto os jovens cavaleiros se alinham em sua formosura para a corrida sob o sol da primeira manhã de verão.

Agora você acredita? Isso os tornou mais verossímeis? Mas há mais uma coisa a se contar, e essa é bem incrível.

De vez em quando um dos adolescentes que vai visitar a criança não volta para casa chorando ou indignado; não volta, na verdade, para casa. Por vezes também um homem ou mulher bem mais velhos ficam sem dizer nada por um dia ou dois, depois saem de casa. Essas pessoas saem para a rua e avançam rua afora sozinhas. Continuam andando e caminham direto para fora da cidade de Omelas, passando pelos belíssimos portões. Prosseguem caminhando para além das terras cultivadas de Omelas. Cada um vai sozinho, rapaz ou garota, homem ou mulher.

A noite cai; o viajante tem de passar por ruas de vilarejos, por entre casas com janelas iluminadas em amarelo, e prosseguir para a escuridão dos campos. Cada um deles sozinho, rumam para oeste ou para o norte, na direção das montanhas. Vão indo. Saem de Omelas, avançam escuridão adentro, e jamais voltam. O lugar para onde vão é um lugar ainda menos imaginável para nós do que a cidade da alegria. Sou inteiramente incapaz de descrevê-lo. É possível que nem exista. Mas parecem saber para onde estão indo, os que dão as costas a Omelas.

Ursula K. Leguin, em The Wind’s Twelve Quarters(1974)

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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