O Testamento do Rei • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 10 de Maio de 2007

O Testamento do Rei

Estocado em Fé e Crença · História

Se levarmos em conta que as promessas da vinda do Messias tornaram-se explícitas somente a partir do reinado de Davi, cerca de mil anos antes de Jesus, os cristãos têm esperado pela segunda vinda do Messias por mais tempo do que os leitores da Bíblia Hebraica tiveram de esperar pela primeira. O “Messias longamente esperado”, lembrado inevitavelmente na narração das peças de Natal, não é aquele que nasceu na manjedoura: é aquele que ainda não voltou.

O retorno do Rei

Segundo a meada bíblica, a cronologia das coisas é mais ou menos assim: dois mil anos antes de Jesus, Deus encheu de esperanças e promessas a vida de um velho Abrão, àquela altura ainda sem filhos. Mil anos depois seu descendente Davi consolidou o reino de Israel, e Deus fez a ele outra comprometedora e ainda mais embrionária promessa: que da sua descendência nasceria o Rei que reinaria eternamente.

Se, como crêem os cristãos, esse anunciado rei eterno é Jesus, na linha do tempo Davi está mil anos mais próximo dele do que nós:

Há dois mil anos, portanto, os cristãos vêm aguardando a volta definitiva de seu redentor, prometida por ele mesmo e entusiasticamente anunciada pelos seus apóstolos e primeiros discípulos. Mesmo para os que nutrem esperança de que não será necessário esperar outro tanto, a aparente demora do retorno do Rei apresentou conseqüências muito práticas e gerou obstáculos de natureza muito peculiar, como tiveram de perceber os seus discípulos após as primeiras poucas décadas de espera.

Ordens do Rei

Uma das últimas e mais categóricas ordens do Rei, por exemplo, dizia que a boa nova do seu Reino fosse anunciada a todas as nações.

Mesmo sem saber ao certo quantas nações havia para serem atingidas, os primeiros seguidores de Jesus tomaram amplas providências para que a mensagem do seu Reino fosse preservada e começasse a ser divulgada de imediato. Nada menos do que quatro biografias autorizadas de Jesus (os livros que viríamos a conhecer como evangelhos) começaram a circular nas primeiras décadas depois da ressurreição, todas aparentemente escritas por discípulos muito próximos dele ou dos apóstolos.

Aspectos essenciais da mensagem também foram registrados e começaram a ser divulgados através de um meio de comunicação que apenas recentemente o complexo sistema viário romano havia tornado confiável e acessível: a correspondência.

De fato, os primeiros cristãos viveram naquele que talvez tenha sido o primeiro momento da história em que surgia um sistema de troca de informações em larga escala com um grau satisfatório de eficiência e rapidez: em condições favoráveis, uma carta podia chegar de uma província distante a outra em questão de poucos meses.

Não sabemos ao certo, mas calcula-se que cem anos depois de Cristo o Novo Testamento já estava completo há algum tempo: as palavras do Rei estavam sensatamente preservadas nos evangelhos e nas cartas, e uma quantidade sempre crescente de manuscritos dessas obras (copiados trabalhosamente à mão) transitava livremente pelas comunidades cristãs.

Primeiro ao judeu, mas em grego

No primeiro capítulo da sua carta aos Romanos o Apóstolo esclarece que a boa nova de Jesus dirige-se “em primeiro lugar ao judeu, mas também ao grego”. De fato, os primeiros discípulos foram todos judeus de nascimento, que falavam hebraico nas sinagogas e aramaico no dia a dia. Quando a boa nova começou a espalhar-se para fora da Palestina, os primeiros a serem atingidos foram também os judeus. Mesmo crendo-se chamado por Deus para pregar aos gentios (a maioria não-judaica do Império) a primeira coisa que Paulo fazia em cada cidade de fala grega que visitava era falar para os judeus na sinagoga local.

Sendo os primeiros discípulos judeus, pode então causar surpresa a revelação de que os livros do Novo Testamento (inclusive a própria carta de Paulo aos Romanos e a carta aos Hebreus) foram com toda a probabilidade escritos e começaram a circular em grego – não em hebraico ou aramaico.

O grego era naquele momento da história o principal idioma do mundo mediterrâneo. Embora a língua oficial do governo romano fosse o latim, e embora as colônias não fossem de modo algum obrigadas a abandonar o uso de seus idiomas originais, o grego era a língua internacional, falada e entendida de um extremo a outro do Império. Até os judeus da Dispersão, sempre cautelosos em abraçar outros aspectos das culturas estrangeiras, viram-se adotando o grego como língua geral.

Se a idéia era, como havia ordenado o Mestre, atingir todas as nações, escrever em língua grega deve ter parecido aos evangelistas e primeiros discípulos a única escolha sensata. Para o fim em vista, não havia de fato uma alternativa.

O testamento do Rei

Por muito tempo, então, o fato de ter sido escrito em grego foi para o Novo Testamento mais uma vantagem do que um problema. As cópias se multiplicavam e o Testamento do Rei já não corria o risco de ser perdido ou esquecido.

Logo no princípio, porém, pessoas de outras culturas começaram a requerer o privilégio, hoje banal, do acesso ao texto do Novo Testamento em suas línguas maternas. As palavras dos evangelistas e apóstolos foram pela primeira vez transportadas, com diferentes graus de sucesso, para idiomas que os autores originais não dominavam e não teriam compreendido. O texto do Novo Testamento havia sido solto das amarras seguras do seu idioma de origem e começava uma longa e arriscada viagem de navegação cultural que o levaria, se tudo desse certo, a aportar não longe de nós.

Certo é que, no caminho, a transmissão da boa nova teria de transpor dificuldades e distâncias que seus autores não tinham como prever. A sua mensagem teria de alcançar não apenas nações distantes – esse desafio, na verdade, se mostraria relativamente simples. Ela teria de alcançar línguas e culturas que só nasceriam séculos mais tarde. Todas as tribos, povos e raças seriam atingidas, mas grande parte delas estava ainda para nascer.

A história das traduções da Bíblia é a história de gente que cria trabalhar na preservação do Testamento do Rei – gente que lutou em inúmeras frentes (pensando-se às vezes em lados opostos) para que o Rei, quando finalmente voltar, possa encontrar “fé na terra”.

E para que os que restarem possam saber o que isso significa.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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