O salvador de Jesus • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 21 de janeiro de 2006

O salvador de Jesus

Os primeiros cristãos eram judeus; meros dois séculos depois os títulos de cristão e judeu eram vistos, por ambos os lados, como opostos e inteiramente incompatíveis.

Entre as diferenças de opinião, reforçadas ao longo dos milênios, estava o fato de que os judeus não conseguiram engolir que Jesus de Nazaré fosse de fato o messias prometido pelas Escrituras Hebraicas. A Bíblia hebraica parece prometer um messias vitorioso e político, que arrebanharia os judeus espalhados pelo globo e os lideraria a um triunfante retorno à Terra Prometida.

Como criam que Jesus não se encaixava nesse perfil, os judeus continuaram esperando pelo seu messias muitos séculos depois que os cristãos já estavam satisfeitos com o deles. Diversos candidatos a messias surgiram ao longo da história do judaísmo, mas nenhum outro recebeu aceitação tão unânime e produziu impacto tão profundo quanto Sabbatai Sevi (1626-1676).

Nenhum causou tão grande decepção, porque no auge da sua popularidade como messias dos judeus – quando havia angariado milhões de adeptos entre os judeus da Europa e do Oriente, levando levas inteiras de fiéis a abandonar suas cidades, suas profissões, seus pertences e suas casas para experimentar a apoteose do messias em Jerusalém – Sabbatai converteu-se ao islamismo.

Ninguém esteve tão perto quanto Sabbatai Sevi de se tornar o salvador de Jesus.

Sabbatai Sevi me interessa por inúmeros motivos. Entre eles, está a sua ousadia em passar diretamente do judaísmo para o islamismo sem parar na religião intermediária – para não dizer central – o cristianismo. Quem ele pensa que é?

Há também o seu curioso misticismo, calcado numa interpretação muito peculiar da cabala, que o levava a dizer barbaridades interessantíssimas, como a benção mais antiga de todas.

E, naturalmente, há o fato de ninguém ter estado tão perto quanto Sabbatai Sevi de se tornar o salvador pessoal de Jesus.

Isso porque, segundo o Talmude, Jesus havia sido o mais espetacular dos pecadores, condenado por suas transgressões a todas as macabras punições do inferno. Para os judeus do tempo de Sevi, Jesus havia cometido os pecados mais torpes que alguém pode cometer: desviara milhões de judeus da verdadeira fé, ocasionara a formulação de uma nova Escritura (seus seguidores ousavam chamar o Testamento de Moisés de Velho!) e, sobre essas impiedades, havia acumulado a mais grave: Jesus se autoproclamara Deus.

Jesus Cristo, na qualidade de falso messias, estava condenado à perdição eterna.

Até que surgiu em cena Sabbatai Sevi – que, segundo a teologia do seu grande profeta e amigo, Nathan de Gaza, estava destinado a resgatar Jesus dessa dura condenação.

Segundo Nathan, havia na verdade uma estranha relação de identidade entre Sabbatai Sevi e Jesus. O paradoxo do messias estava em que o bem absoluto (Sevi) acabaria brotando do mal absoluto (Jesus). “E finalmente”, garantia Nathan, “ele (Sevi) irá restaurar [a santidade] do qelippah (poder maligno) que corresponde [ao seu poder de santidade]: Jesus Cristo”.

“É preciso perceber como soaria a doutrina de uma restauração final de Jesus para as mentes judaicas do século XVII”, diz Gershom Scholem, biógrafo de Sabbatai, “a fim de assimilar por completo a ousadia de Nathan”.

Afinal de contas, Jesus era imperdoável. Se ele podia se salvar qualquer um podia, e essa possibilidade causou por si só tanta indignação entre os judeus quanto a suposta salvação de Jesus.

“Essa idéia de Nathan era”, prossegue Scholem, “apenas parte de uma noção ainda mais radical: a de que nada nem ninguém está irremediavelmente perdido, e de que tudo irá no final ser salvo e reinstaurado à santidade. A ‘redenção de Jesus’ foi, talvez, apenas a primeira expressão simbólica de uma doutrina que não havia sido ainda articulada, mas que Nathan desenvolveria e formularia com mais clareza nos anos seguintes. Se Jesus era passível de salvação, então havia esperança até mesmo para os rabis incrédulos que rejeitavam o verdadeiro messias, Sabbatai Sevi”.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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